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Ele tinha tudo: uma boa posição social e um bom emprego em uma renomada universidade, sua situação financeira era ótima. Dottore não tinha do que reclamar de sua vida, tinha sorte e privilégios. Porém, mesmo com todas essas coisas, ele sentia que algo precisava ser consertado. O que inquietava o homem era não saber o que era. Ele tinha poucos e bons amigos, mesmo sendo um pouco ranzinza. Ele nunca foi de se relacionar romanticamente, não que ele tenha se arrependido quando fez, mas a paixão logo passava e a relação esfriava.
Dottore sentia que havia algo errado, algo pendente, e isso o incomodou por toda sua vida, desde pequeno. Isso o irritava profundamente, pois se sentia ingrato pelas coisas que ele tinha, mas até mesmo na terapia ele não conseguia encontrar a razão de se sentir assim, mesmo investigando muito.
E, assim de repente, quando um novo ano letivo começou, Dottore viu sua vida de cabeça para baixo.
"Com licença..." ouviu quando estava no corredor, uma voz feminina.
"Pois não?" ele disse, virando-se para a voz.
Quando viu a dona da voz, algo pareceu atingi-lo em cheio.
"O Sr sabe me dizer onde a sala 209 fica?" a mulher de cabelos verdes perguntou, sem notar o choque que causou.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo se recompôs.
"Ah, é logo ali." e então ele notou que era a sala que ele também entraria.
Aquela jovem seria sua aluna.
"Obrigada!" ela simplesmente agradeceu e foi para lá.
Dottore ficou um tempo processando o que foi aquela sensação. Depois, foi para a sala 209, se apresentar para os novos alunos de biologia daquele semestre. Ele tentou não pensar sobre a jovem, e evitava olhar, mas aquele cabelo verde chamava bastante atenção. Dottore fez então algo que nunca havia feito antes: pedir para que cada um se apresentasse. Ele estava fazendo para saber sobre a jovem, em específico. Nem ele estava se entendendo, para dizer a verdade, mas algo dentro dele era tão forte que se sobrepunha a qualquer lógica.
Ele fingiu prestar atenção nos outros alunos, mas obviamente só estava esperando aquela jovem falar. E a vez dela chegou.
"Eu sou Collei, tenho dezenove anos, meu sonho desde criança é ser bióloga, e quero me especializar em botânica." comentou ela, um pouco tímida.
Seu nome reverberou por Dottore da cabeça aos pés, mas ele soube disfarçar: agradeceu, e pediu para o próximo aluno se apresentar.
Depois da aula, o homem finalmente pôde ir para casa descansar. Mas aquela moça não saía de sua cabeça, e ele sequer entendia o porquê.
"Collei..." se pegou falando. "Esse nome é nostálgico, mas eu nunca o ouvi antes."
Alguns meses se passaram, e Collei se mostrou uma aluna dedicada e comunicativa. Ela era amigável com Dottore, que ao mesmo tempo sentia conforto perto dela, havia um pesar. Era estranho, mas ele tinha certeza de que Collei podia ser a chave para o mistério da sua agonia.
Dottore começou a ter pesadelos confusos, onde se via numa sala que parecia um laboratório. O cheiro de várias substâncias chegou ao seu nariz, e ele sentiu-se enjoado. Algo naquele lugar parecia errado, muito errado. Cada vez que sonhava, algum novo elemento daquele lugar se mostrava mais claro, e com isso a agonia de Dottore apenas crescia. Ele pensou em se afastar de Collei, e simplesmente deixar esse mistério para lá, mas aquela urgência gritava dentro dele e não o deixaria em paz. Então cada vez mais eles ficaram próximos, até se tornarem bons amigos, e saírem juntos.
Foi a partir daí que os pesadelos se intensificaram.
Ele agora ouvia um choro baixinho, e isso o fez procurar por esse choro, mas não encontrava a fonte daquilo. Agora ele acordava suado e tenso.
Certa vez, Collei havia comido um bolo, e neste bolo havia alguma coisa da qual ela era alérgica, sem a mesma saber. E seu corpo ficou com algumas manchas vermelhas e em alto relevo na pele.
“Ei, professor, você pode dar uma olhada?” disse estendendo o braço.
Por algum motivo, encostar na moça e verificar sua pele fez Dottore sentir-se mal. Ele não tinha nojo desse tipo de coisa, mas seu emocional estava abalado, e isso era mais do que estranho.
“...Deve ser urticária.” verificou rapidamente e afastou o braço de Collei dele.
“Caramba, eu falei alguma coisa errada?”
“N-não. Não foi nada.”
Depois desse dia, Dottore conseguiu ouvir os choros mais claramente em seus pesadelos. E finalmente, em um deles, o homem viu quem chorava. Uma garotinha, que usava roupas surradas e seu corpo estava coberto de faixas. Seus cabelos eram verdes, e seus olhos eram da cor ametista. Iguais aos de Collei, mas estes emanavam tristeza e ódio profundos. E esses olhos encaravam Dottore, diretamente. Nesse momento, o corpo de Dottore se moveu e falou por conta própria. Dottore era um espectador de si mesmo. Seu "outro eu" pegou uma seringa que parecia muito antiga.
“Você não está se comportando. Se não colaborar, fará isso ser mais doloroso, e não estou com paciência.” ele se ouviu dizer.
Pare…
A menina se encolheu, tentando esconder-se. O corpo de Dottore então andou até ela com pressa, agarrando os cabelos dela, e isso fez a pobre menina gritar. Aquele grito reverberou na sua alma, isso lhe deu vontade de chorar.
Sem nenhuma delicadeza, ele colocou a garota numa cadeira e puxou seu braço, forçando-o a ficar estendido. Sem cerimônia, perfurou a pele da menina com a seringa. E agora notou outra coisa: ela tinha escamas espalhadas pelo corpo.
Eu mandei parar!
Conforme esse “Dottore” aplicava a injeção, ela gritava, chorava e soluçava. Não só a perfuração parecia doer, mas a substância entrando nela. Depois de terminado, ele simplesmente tirou a agulha e observou. Ela se encolheu de tanta dor que parecia sentir. Enquanto isso, “Dottore” foi pegar mais alguma coisa, e seu “eu” verdadeiro, sem poder fazer nada, se chocou ao ver um bisturi nas mãos dele.
E ao olhar para frente, deparou-se com um espelho. O reflexo mostrava um homem com aparência idêntica a de Dottore, mas com o cabelo um pouco mais curto, e uma máscara cobrindo a metade esquerda de sua face. O pouco que viu nos olhos daquele “Dottore” foi o bastante para lhe causar pavor e mau estar.
Mas ficou ainda mais alarmado quando esse “Dottore” foi até a menina com o bisturi em mãos. Ela gritou de uma forma tão desesperada, que o Dottore que via tudo sem poder fazer nada jamais esqueceria.
Não… Por favor pare, deixe ela em paz.
Quando “Dottore” ia entrar em ação, o Dottore espectador tentou gritar com todas as forças.
“NÃO!”
Quando notou, estava em sua cama, no apartamento. Não havia mais laboratório, seringas, bisturís, aquela menina ou aquele monstro. Notou que sua garganta estava arranhada, devido ao grito mais agonizante que havia dado naquele momento, ao acordar num salto. Seu corpo pingava de suor, sua respiração estava descompassada e seu coração batia muito rápido. Não demorou para que um enjoo incontrolável tomasse conta de si. Dottore correu para o banheiro, a tempo de chegar no vaso sanitário e colocar todo seu jantar para fora.
Ele foi ao médico pegar um atestado. Não conseguiria trabalhar, tampouco ver Collei nesse dia.
Dottore queria entender o significado de tudo isso. Então cogitou conversar com sua amiga Columbina a respeito. Ela era taróloga nas horas vagas, e se oferecia para ajudá-lo a desvendar o que podia ser a agonia que ele sentia. Dottore sempre foi um homem cético, muito direto e lógico, não conseguia acreditar nessas coisas. Mas ele se lembrou do que Columbina havia falado uma vez.
“Poxa, vai que é alguma coisa de outra vida?”
Ele descartou essa ideia na mesma hora naquele dia, e Columbina respeitou.
Mas isso de “outra vida” começou a martelar na cabeça de Dottore depois daquele pesadelo. E então, numa sexta à noite, ele chamou a mulher para sua casa, dizendo que queria uma tiragem de cartas. Ela mesma ficou surpresa, mas foi.
Quando ela chegou, percebeu Dottore bastante sem graça, mas ao mesmo tempo preocupado.
“Pra me pedir esse tipo de ajuda, você deve estar bem desesperado…” comentou ela.
“É, eu acho que sim.”
Não demorou para que eles organizassem a mesa, para que Columbina pudesse se concentrar. Até um incenso foi aceso, e alguns cristais foram postos ali. Ela olhou para ele então.
“O que você gostaria de perguntar?” Columbina ficava mais séria nessas horas.
“Quero saber sobre minha vida passada. É isso.” ele disse.
Ela fez que sim com a cabeça, e começou a embaralhar as cartas, depois dividiu o baralho em três, e pediu para Dottore escolher um deles. Ao que Dottore escolheu, Columbina fez um “leque” com ele, com as cartas ainda viradas para baixo.
“Escolha três cartas, mas deixe-as para baixo ainda.”
E assim ele o fez.
Quando essa parte terminou, Columbina colocou o resto do baralho ao seu lado, enquanto virava as cartas escolhidas por Dottore para cima. Apareciam ilustrações que Dottore simplesmente não entendia, mas escolheu confiar em sua amiga. Os olhos de Columbina se arregalaram por um momento, depois ela murmurou algo, até que olhou para ele.
“Então… Talvez seu problema realmente venha de outra vida. Porque aqui diz que provavelmente você trás dela um karma muito pesado.”
“Pesado como? O que eu fiz na minha vida passada?” isso fez seu coração acelerar.
“Não dá pra saber exatamente, mas indica que talvez você tenha feito muito mal a uma pessoa, ou mais de uma. E aqui diz que provavelmente a vida que você tem agora lhe foi dada para que você consertasse seu erro do passado.”
Isso pesou profundamente sobre Dottore, que ficou muito pensativo e em silêncio. Columbina não disse nada, deu espaço para que ele refletisse.
“Obrigado, Columbina.” ele agradeceu, simplesmente. “Isso esclareceu muitas coisas, de verdade.”
Ela ficou feliz em ter ajudado seu amigo, e agora ele parecia realmente acreditar nela.
“Você já tem uma noção do que consertar, não é? Pelo jeito que reagiu…”
“Dá pra dizer que sim, só não sei como, ainda…”
“Posso fazer outra triagem pra você, se quiser. Algum conselho…”
“Não precisa, mas obrigado. Eu vou tentar encontrar a minha maneira.”
Ela deu uma risada.
“Como sempre, teimoso que só, né?”
Eles riram juntos agora.
Dottore entendia que aquela menina em seus pesadelos era Collei, em um tempo e vida diferente. E aquele homem mascarado era ele mesmo. Pelo visto, seu apreço pela ciência também era uma herança do seu passado. Estava aliviado que, pelo menos, era um cientista ético agora, mesmo que ranzinza e distante dos outros. Ele não sabia como agir com Collei agora, precisava refletir.
Ele pediu férias do trabalho, e fez uma viagem sozinho, aproveitando para ler alguns livros sobre vidas passadas e karma. Depois dessa viagem, ele decidiu o que faria. Dottore seria a melhor pessoa possível para Collei, apoiaria seus sonhos, ajudaria no que pudesse, mas a distância. Ele não se sentia merecedor de um vínculo com ela.
Ela percebeu esse distanciamento, e acabou discutindo com ele, porque Dottore apenas dizia que ela não podia entender, mas que eles não podiam ser próximos. Dottore usou a cartada de “sou seu professor e você é minha aluna”, mas ela não aceitou. Eles eram amigos até então, e nada disso havia atrapalhado. Ele tentou dar outras desculpas, mas ela não se convenceu.
“Por favor, me diz o que tá acontecendo de verdade!”
Ele tentou se punir mantendo distância, mas ela também percebeu que ele não queria ficar longe. Até que ele não aguentou mais.
“Collei, eu te fiz mal em outra vida.” ele jogou a bomba assim.
“Eu sei.” ela respondeu, simplesmente.
Nesse momento o estômago do homem afundou.
“C-como é?”
“Você tem tido pesadelos, não é? Eu também.” ela comentou. “Então pedi pra minha professora que joga tarot tirar as cartas pra mim. Ela ficou feliz em me ajudar.”
“Columbina fez isso??” ele estava incrédulo, e pensou que ela ia ver só com essa mania de se meter na vida alheia.
“E ela comentou também que provavelmente a pessoa queria se redimir, mas não sabia como…” Collei estava séria.
“Collei…”
“Eu senti todas as dores da época naquele pesadelo. Eu odiava você, muito.”
Ele ficou em profundo silêncio por alguns segundos.
“E você tem razão em sentir isso. Eu vou ficar longe de você, jamais tentarei contato de novo, eu prometo. Se quiser, me bata, me ofenda ou até me mat-”
“Eu te perdoo, Dottore.”
Como é?
“Não, Collei, isso não está certo! Eu não mereço o seu perdão.”
“Perdoar ajuda a curar a dor, e não quero mais carregar isso comigo.” comentou ela. “Mas também não quero que você carregue.”
“Por que se preocupar comigo também!? Você é maluca?”
“Você genuinamente se arrepende e eu estou pronta para perdoar você, então qual o problema?”
Ele se sentou, por até ter perdido a força nas pernas nesse momento. Era informação demais. Collei suspirou e sentou do lado dele.
“Faz um tempo que tirei as cartas com a professora Columbina. Guardei pra mim por muito tempo, entrei em conflito sobre você. Pensei também em ficar longe, até trocar de faculdade.” ela começou dizendo. “Estava ficando insuportável conviver com isso.”
“E porque não se afastou? Seria o mais lógico…”
“Eu queria resolver isso de vez, e fugir só iria piorar as coisas. Nós já ficamos tempo demais fugindo do nosso karma, não? E por mais que eu tentasse, eu não conseguia me afastar.”
Dottore se sentia da mesma forma.
O silêncio tomou conta do local por alguns segundos.
“Obrigado, Collei.” comentou ele.
Ela não entendeu.
“Você não se sente mais leve agora?” E ela fez que sim. “Pois é como estou me sentindo também. Como se tivesse saído uma tonelada de mim.”
No meio de todas essas emoções complicadas, uma coisa era certa: ambos haviam colocado uma pedra no passado, e deixado para trás aquela agonia que os consumia.
Mas… E agora?
Eles precisavam de um tempo, ainda sim. Portanto mantiveram um contato mais profissional por enquanto, até que Collei se formasse. Depois, ambos foram se reaproximando e a amizade voltou ainda mais sólida, sem mais culpas ou mistérios. Se davam tão bem que conseguiam entender um ao outro apenas com uma troca de olhares.
Eles só não esperavam se apaixonar um pelo outro durante esse caminho. Coisa que Columbina já havia previsto nas cartas.
“A pessoa que você ama pode estar bem perto.” disse a mesma coisa para cada um deles, quando foram (separadamente) tirar cartas com ela, e deu uma piscadinha. Eles naquela hora não haviam entendido o recado.
Quando ficaram juntos, Columbina disse um “estava na hora, né? Seus lerdos.”
O momento de confissão foi feito ao mesmo tempo pelos dois, o que deixou ambos envergonhados e surpresos, para depois darem risada, e contarem sobre a previsão de Columbina. Eles tinham que concordar que ela era muito boa. Agora, sem hesitação, deram chance para esse sentimento que floresceu dentro deles. E ah, Columbina fez uma tiragem sobre o casal, apenas para saciar uma curiosidade dela própria.
E sorriu ao ver que seus amigos tinham pela frente um caminho próspero e muito feliz.
