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Ele caiu de joelhos quando ouviu o som da rede sendo atingida pela bola. Ele sabia que estava tudo perdido. Seu corpo dolorido se recusava a se mover corretamente e ele se sentia um pouco vazio.
Alisson Becker, tentou tanto para se redimir e não conseguiu fazer nada. O abraço de Courtois não tinha sido o suficiente para deixá–lo menos magoado. Ele se sentia tão inútil quanto os outros jogadores.
Enquanto ele caminhava pelos corredores do Bernabéu em direção ao ônibus, ele imaginou que estaria com um grande sorriso em seu rosto se finalmente tivesse derrotado o Real Madrid. Mas, aparentemente, não fora dessa vez, de novo .
O ônibus, como sempre, mantinha seu silêncio sepulcral. Alisson bebia pequenos goles de seu chimarrão - cortesia de Darwin - enquanto encarava o vazio da noite. Virgil não estava ao seu lado naquele momento e ele também não estava preocupado com o paradeiro do homem. Foi então que seu celular vibrou em seu bolso e ele o ligou, percebendo uma notificação de mensagem em sua tela de bloqueio.
EdsOMelhor: E aí, brazuca? (another word for “brazilian”) Tudo bem contigo, meu moço de olhos azuis deslumbrantes?
AliBecker: Oi, guri. Nada de bom, a gente perdeu pro Madrid de novo. O que é foda é que vcs (forma abreviada de “vocês”) tão aí brilhando com 7-0.
EdsOMelhor: Que isso, deixa de drama, tu foi maravilhoso! Por isso que tu merece ser titular da nossa Seleção.
AliBecker: Hehehehehe, obrigado, Eds. Sinto tua falta. De verdade.
EdsOMelhor: Somos dois, então 🙂.
Alisson sorriu para a tela do celular e o desligou, guardando-o de volta no bolso da calça. Ederson era seu amigo desde 2018, pois ambos se conheceram na Copa do Mundo da Rússia. Desde então, a amizade deles era muito forte, apesar da distância e dos times em que se encontravam. Ederson era o mais maduro, o que colocava medo nos jogadores adversários por causa de suas tatuagens no pescoço e nos braços. Alisson era mais técnico, deixava os outros jogadores com medo por causa de suas habilidades. Ambos eram uma dupla maravilhosa durante a copa e ambos se amavam muito.
Quando desceu do ônibus, Alisson respirou fundo o ar fresco e frio de Madrid. Por mais que o cheiro da cidade em si o lembrasse um pouco de esgoto, Madrid tinha um clima muito agradável no inverno.
“Eita, goleirão! Como tu tá, querido?” - Uma voz grave e marcada pelo sotaque de Osasco, em São Paulo, ecoou pelo ar.
“Eds!?” - o brasileiro mais velho se virou rapidamente, assustando um pouco os outros jogadores que desciam do ônibus e entravam no hotel - “Eu não acredito! O que tu tá fazendo aqui!?”
Ambos os goleiros se abraçaram, Ederson usando um pouco de sua vantagem sobre Alisson na altura para levantá-lo suavemente do chão. Alisson sorriu e uniu suas testas, esfregando-as juntas. Ele estava muito feliz,a tristeza pela perda quase esquecida no fundo de sua mente. Ele amava muito a companhia de Ederson. O compatriota era tímido como ele, então eles tinham algo em comum quando se conheceram e isso os aproximou.
“Tava por aqui por Madrid, meu plano era ver o jogo e talvez trazer um pouco de sorte pra você, gatão.” - Ederson abriu seu sorriso de tubarão e beliscou as bochechas do outro brasileiro - “E já que você não tá se sentindo legal, eu resolvi vir te visitar.”
As bochechas de Alisson ficaram avermelhadas enquanto ele desviava o olhar.
“Talvez sua sorte tivesse funcionado. Você não conseguiu entrar no Bernabéu?” - Ele esfregou a mão na nuca e abriu um sorriso torto.
“Não, não me deixaram entrar, não sei o motivo. Acho que o estádio tava lotado desses espanhóis barulhentos.” - O brasileiro mais alto esfregou as mãos no tecido da calça - “Bora ficar no saguão? Tá bem gelado aqui e minhas pernas tão me matando.”
Ambos riram entre si e entraram no saguão do hotel. O corpo de Alisson protestou de dor quando ele se sentou nas almofadas que cobriam o pequeno sofá bege. Ele se sentia dolorido e levemente sonolento. Ederson, aproveitando esse lado vulnerável do amigo que quase nunca via, puxou-o quase totalmente para o seu colo, deixando as pernas de Alisson esticadas no sofá e o corpo dele em seu colo, deixando a cabeça do brasileiro apoiada em seu ombro.
“Isso é golpe baixo, Eds. Você tá se aproveitando que eu tô com sono.” - Alisson socou de leve o lado de Ederson, tentando acertar sua costela.
“Nah, Ali. Deixa de bobeira. Você tá cansado, docinho de côco, e eu quero que você se sinta melhor já que o seu querido Virgil sumiu e o Fabinho e o Firmino já devem estar dormindo ou tendo o momento de conforto deles.” - O goleiro do Manchester City esfregou um ponto sensível abaixo da orelha de Alisson - “Você merece conforto de alguém que fale o seu idioma, amore. (Brazilian word for “love”, but not always in the romantic way)
O goleiro do Liverpool sorriu inconscientemente e esfregou um ponto específico abaixo do pescoço de Ederson. O brasileiro de Osasco sempre sabia como deixá-lo confortável e amado, principalmente quando aqueles que normalmente faziam isso para ele não podiam estar presentes para confortá-lo.
Um silêncio confortável ficou no ambiente quase vazio, exceto pelos dois goleiros e pelo recepcionista. Alisson respirava lentamente, a melancolia descendo um pouco sobre ele. O silêncio o deixava pensando em sua derrota. Ele nunca havia conseguido defender todos os gols que o Real Madrid fazia e isso o irritava e muito.
“Eds, posso te perguntar uma coisa, meu querido?”
“Claro que pode, moço!”
“Eu fui um mau goleiro por não ter conseguido defender nada?”
Não é que ele fosse negativo sobre si mesmo. A questão é que ele se sentia muito decepcionado pelas duas derrotas, principalmente porque a primeira tinha sido muito culpa dele.
“Oh, meu querido, eu sinto muito. De jeito nenhum você é um mau goleiro. Você só não teve sorte dessa vez. Você continua sendo um dos melhores goleiros da Inglaterra e do Brasil.” - Ederson esfregou os braços de Alisson para trazer um pouco de calor - “Ignore os fãs e comentários maldosos. Você é melhor que todos eles.”
Um sorriso esticou os lábios de Alisson e ele encostou a cabeça no espaço abaixo do queixo de Ederson, ouvindo seu coração calmo e forte bater constante. O sono começou a fazer seus olhos baixarem e ele começou a encarar um ponto fixo no chão, procurando se manter acordado.
“Tá com sono, Ali?” - Ederson perguntou depois de um tempo, sua mão direita descansando sobre o joelho direito do outro homem.
“Sono é pouco, você tá praticamente me ninando pra dormir.” - Uma risada rouca escapou de seus lábios - “Tenho que dormir, amanhã eu volto pra casa, finalmente.”
Alisson sentiu Ederson apertá-lo mais em seu abraço. Isso quase o fez sentir falta de casa, de seu irmão Muriel. Estendendo a mão, ele esfregou a pele tatuada do pescoço do outro goleiro.
“Admita, você gosta das minhas tatuagens e você faria alguma em você.” - Ele sentiu o queixo de Ederson se mover. Possivelmente o homem mais novo estava sorrindo como um tubarão de novo.
“Nem pensar. Amo suas tatuagens, mas nunca faria uma delas em mim.” - Alisson sorriu e se desencostou de Ederson - “Mas admita você, você ama meus olhos.”
“São mais belos que diamantes, meu querido amigo.” - O goleiro mais jovem se levantou e fez uma reverência - “Vá dormir. A gente se vê por aí. Eu tenho que ir me preparar pro jogo contra o Marrocos.”
“Boa sorte, meu querido homem.” - Alisson piscou e se afastou, indo em direção ao elevador.
Eles haviam sido eliminados da Champions League, e ele ainda tinha aquele sentimento amargo da perda dentro dele. Mas, a conversa dele com Ederson o havia lembrado que ele ainda era esse alguém carismático que Muriel sempre dizia que ele era. E, de alguma forma, mesmo que não tivessem abordado muito esse assunto, ele se sentiu importante como goleiro e que nada poderia mudar isso. Ele era um dos melhores goleiros da Inglaterra e nada, nem mesmo uma eliminação em um campeonato tiraria isso de sua cabeça. E, ele sentia que se ele se esquecesse, Ederson seria um dos primeiros a dizer a ele que ele era o melhor.
