Work Text:
Na caixa de som presa de parte de trás da caminhonete a música “Angeleyes”, do ABBA, tocava alto o suficiente para causar pequenos ecos através do lago, entre as árvores, embora estivessem longe demais para algum viajante ouvir. Eles ouviriam, entretanto, se a caixa não estivesse coberta por uma capa de lona, a fim de protegê-la da umidade e possíveis insetos.
De pé ao lado da caixa, com os braços abertos e os olhos fechados, Calipso dançava desenhando piruetas ao redor de si mesma. Ela levantou o pé direito e quase chutou uma bandeja de sanduíches em cima de Lit, que estava deitado perto dela, enrolando um baseado com toda a tranquilidade do mundo. Sentado do outro lado da caçamba, Leo se lamentou secretamente. Teria sido uma cena engraçada.
Desde que encontraram aquele lugar numa estrada perto de Indianápolis, em uma das missões que fizeram para Jo, os três aproveitavam qualquer oportunidade de se enfiar lá e fugir um pouco das responsabilidades de um mortal comum, que pareciam tão simples na época em que suas maiores preocupações eram evitar virar comida de monstro. A descoberta fora da forma mais idiota do mundo: estavam ainda no início da viagem quando Lit precisou ir ao banheiro e não deu paz até que Leo encostasse na estrada e, entre as altas reclamações de Calipso, lhe deixasse entrar no meio do mato para fazer suas necessidades.
Quando voltou, muitos minutos depois, Lit disse:
— Achei um lugar irado.
E só. Nenhum dos dois se preocupou em perguntar o que ele quis dizer com aquilo, até que, semanas depois, Leo notou que o amigo passara a sumir por horas sem explicação. Foi assim que fez com que Lit o levasse pela primeira vez até o lago, cuja distância da avenida principal eram minutos de caminhada por uma estradinha de terra entre a mata. Ele instantaneamente soube que Calipso adoraria aquele lugar. Não havia praias e nem silêncio em Indiana.
A caçamba da mega caminhonete de Jo era enorme o suficiente para caber os três e ainda sobrar espaço para uma toalha de piquenique e uma caixa de som. Nos últimos anos, havia se tornado a caminhonete de Leo. Iam os três: ele no volante, Calipso no banco do passageiro, Lit na caçamba segurando a comida e o som e dirigiam pelas árvores até a clareira aberta, onde estacionavam sobre a areia e ficavam sozinhos, ouvindo o barulho das árvores e nadando ao redor um do outro. Com o tempo, Leo passou a apreciar essa solidão relativa também.
Lit lambeu preguiçosamente a seda, prendeu o cigarro entre os lábios e fez sinal para que Leo o acendesse. Ele se inclinou e acendeu, com uma pequena chama em seu dedo indicador, imitando um isqueiro. Lit tragou e assoprou a fumaça para o alto, fechando os olhos
— Isso — disse ele — é que é vida.
Leo nunca vira aquele cara tão relaxado como ficava naquele lugar. Talvez estar perto de água corrente o tranquilizasse, depois de passar temporadas eventuais sendo uma estátua de ouro maciço.
— Vai querer? — ofereceu ele, e Leo deu de ombros. Pegou o baseado e fumou um pouco também. É inocência pensar que alguém com poderes piromaníacos não vai usar isso para se divertir de vez em quando.
Ele tossiu um pouco e Lit riu.
— Vai querer, Cal?
Ainda dançando, Calipso respondeu:
— Não, obrigada. Prefiro me manter sóbria.
— Nem uma bebidinha? — observou Leo, balançando uma lata de cerveja.
Ela abriu um dos olhos só para olhá-lo de esguelha.
— Isso vai matar lentamente o corpo de vocês.
E voltou ao seu transe, de olhos fechados, rotacionando como um planeta brilhante. Usando apenas uma blusa verde sobre o biquíni branco, Leo pensou que raramente a vira mais bonita. Talvez fosse a maconha.
— Nem todos nós temos resistência de titã ou algo assim — zombou Litierses, pegando o baseado de volta da mão de Leo.
— Não tenho resistência titã há anos — retrucou ela.
— Você tem suas… como chama? Bruxarias.
Ela bufou.
— Do jeito que fala — murmurou — parece que eu acendo um incenso e energizo cristais.
— Você energiza cristais — riu Leo.
— Mas não faço só isso.
— É — concordou Lit. — Você acende incenso também.
Irritada, Calipso se inclinou sobre o cooler de bebidas e pegou uma garrafa de suco entre o gelo.
— Eu deveria me drogar mesmo — chiou — para conseguir aturar vocês.
Continuou dançando, agora ao som de “Every Breath You Take”. Os mesmos passos giratórios, uma garrafa nova na mão. O mesmo biquíni, a mesma blusa, o mesmo cabelo molhado. Leo pensou que ela parecia estar dentro de uma caixinha de música.
— Quero só ver — continuou ela — quando chegarem os dois cheirando a erva e bebida na Estação Intermediária, o que a Jo e a Emmie vão falar…
— Ainda bem que você é maior de vinte e um anos — alfinetou Leo.
Ela nem se deu ao trabalho de abrir os olhos dessa vez.
— Oficialmente só tenho dezenove.
— Mentir a idade é crime.
— Não é você que tem uma identidade falsa?
— Sendo justo, todo mundo aqui tem identidade falsa — lembrou Lit, brincando com a fumaça que fazia antes de dar o baseado a Leo. — Inclusive, Valdez, não tem nada para dividir com a gente, não?
Leo apertou os olhos antes de fumar.
— Dividir o quê?
— Quem sabe? Uma fofoca, uma merda que você fez recentemente… Vamos lá, você é sempre o meu melhor entretenimento.
— É bom saber que pelo menos alguém se diverte no grande circo que é a minha vida — debochou Leo. — Mas, infelizmente, não tenho nada de interessante para contar. A não ser que você ache o funcionamento dos novos sistemas de Festus uma fofoca interessante.
Calipso aparentemente se cansara de dançar, porque decidiu se sentar ao lado de Lit e pegar um sanduíche de queijo da bandeja.
— Duvido — disse com a boca cheia de comida.
— Se eu tivesse alguma coisa para contar, você saberia — disse ele.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
Leo se esforçou para colocar seu sorriso mais irritante no rosto.
— Porque você é, tipo, stalker de ex-namorados.
— Eu?! — Ela pareceu ofendida. — Que ex-namorado eu stalkeio?
— Eu.
— Ha! — debochou ela. — Você não consegue esconder nada de ninguém e sou eu quem te stalkeia?
— Você stalkeia o Percy — disse Lit, piscando para Leo.
— Ele não é meu ex-namorado — sibilou Calipso. — E não stalkeio Percy.
— Certo — disse Leo. — Só curte todas as fotos que ele posta.
— Porque ele é meu amigo — defendeu-se ela.
— Na minha época a gente não chamava isso de amizade, não — riu Lit.
— Sua época foi a Grécia Antiga, babaca. Não existia Instagram — respondeu. — Vocês estão só me provocando, não estão?
— É claro que estamos — Litierses sorriu. — Você irritada é o meu segundo melhor entretenimento.
A música mudou novamente e Calipso cruzou os braços.
— Odeio vocês.
— Você ama a gente — provocou Leo.
— Você vai morrer de saudade da gente — continuou Lit.
Por um segundo, Leo pensou ver Calipso lançando um olhar discreto a Lit, mas foi tão rápido que talvez tenha sido impressão sua. Ou a maconha. Ou as duas latas de cerveja. Ou o TDAH. Tudo era uma possibilidade.
— Bem, você vai morrer de saudade do Leo — corrigiu ele — quando ele for para a faculdade.
Ah, claro. Leo quase se esquecera disso por um momento. Recebera sua carta de admissão do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e iria para a universidade no final do verão. Suas habilidades matemáticas acima da média lhe garantiram quase cem por cento de bolsa, mas tinha certeza de que conseguiria entrar de graça se pudesse explicar para professores mortais como construir um navio voador.
Era um esforço consciente se esquecer disso porque, para falar a verdade, Leo estava mais apavorado do que animado. Passou tantos anos trocando de abrigos, de casas, de escolas e de missões que aprendeu a odiar mudanças de ambiente. Apesar de ser um processo normal, deixar a casa que construiu na Estação Intermediária para estudar em outro estado era algo que andava lhe mantendo acordado à noite. Pelo menos poderia levar Festus, já que lhe instalara um mecanismo que o fazia diminuir até o tamanho de um cachorro grande. Ele só não sabia como iria esconder seu “labrador” na república universitária ainda, mas para tudo existe um jeito.
— Saudades de Leo? — zombou Calipso, mas sorriu com o sorriso que usava quando não estava sendo de todo má. — Vou transformar o quarto dele num tear em uma semana.
— Eu volto voando em Festus e te atiro do terraço da Estação — ameaçou ele.
— Ah, que nada — disse Lit. — Você vai estar muito ocupado curtindo a vida adoidado na universidade, usando muita droga e comendo um monte de mulher gostosa.
— Claro, Litierses. Porque é por isso que as pessoas estudam e se dedicam tanto para entrar na faculdade: para usar droga e comer mulher gostosa, algo que você pode fazer facilmente na sua cidade natal.
— Bem, por acaso você está usando droga e comendo mulher gostosa atualmente? — perguntou Calipso.
Ele a encarou, girando o baseado entre os dedos.
— No momento só falta a mulher gostosa — alfinetou Leo.
— Boa sorte com isso. — Ela deu um sorrisinho debochado e mordeu mais um pedaço de sanduíche.
— Eu vou te ligar toda semana — anunciou Lit — para ter em primeira mão os updates da sua vida universitária.
— Parece que não sou eu quem vai morrer de saudades de Leo — disse Calipso.
— Diferentemente de você, minha rainha, eu luto contra os meus bloqueios emocionais e consigo tranquilamente admitir que sim, sentirei falta do meu companheiro Leo Valdez, o único que destranca as portas da Estação quando chego escondido de madrugada.
O vento soprou um pouco mais forte enquanto Leo ria, porque Lit era surpreendentemente um bom amigo e Leo também sentiria falta dele. Nos últimos anos Leo pôde experimentar a sensação de ter irmãos, porque ele sempre sentira que no fundo, o resto do chalé de Hefesto não contava. Todos dormem no mesmo chalé, mas são tantos que não conseguem ter a relação cúmplice que a maior parte dos irmãos parecem ter. Ele se lembrava de ter dezessete anos, deitado no sofá da sala de jogos da Estação com Lit e contando sobre o que acontecera entre ele e Calipso na noite anterior, e ser atingido pela repentina realização de que nunca tivera aquela intimidade com nenhuma das crianças do chalé de Hefesto, nem mesmo Nyssa, a quem ele adorava.
Toda vez que Leo fazia algo idiota, Lit dizia que deveria tê-lo matado em Omaha quando teve a chance. Era meio bizarro no início até que eventualmente se pegou fazendo a mesma coisa, dizendo a Lit que deveria ter derretido sua cara quando teve oportunidade. Ele jamais faria uma brincadeira daquelas com qualquer um de seus irmãos sem receber olhares de reprovação como resposta. Foi então que notou que irmãos de verdade estão sempre mentindo sobre o quanto detestam um ao outro, e ficou feliz por Lit para brincar de detestá-lo, e Georgina para chamá-la de pirralha, e pela primeira vez ser maldoso não por insegurança e sim porque era um irmão e é isso que irmãos fazem.
Lit e Calipso tinham uma relação parecida. Ele sempre a chamava de “minha rainha”, “minha princesa” ou “minha deusa”, o que parecia muito um flerte no início e deixava Leo nervoso.
— Por mais que sua namorada seja bonita, não estou interessado nela, muito obrigado. — Foi o que respondeu quando confrontado por Leo, revirando os olhos. — Você também dá apelidos a ela. Se quiser, eu paro.
— É meio estranho você se referir à garota de um cara como “sua princesa” — retrucou Leo.
— É ironia, campeão — debochou em resposta. — Não repara em como sua própria namorada se comporta? Ela é a princesa desse lugar. Nós somos apenas os servos.
Leo não disse isso na hora, mas isso abriu seus olhos para algumas coisas sobre Calipso. Ela realmente se comportava como realeza o tempo todo. Até Jo e Emmie a procuravam para pedir ajuda em determinados assuntos. Foi quando começou a cair a sua ficha sobre o quão antiga Calipso era, sobre o quanto sua mente era um labirinto infinito e sobre como ela já estivera no topo do mundo, sob o braço do pai que a tinha como favorita. E percebeu que, por mais próximos que fossem, Calipso sempre se veria como diferente do resto daquelas pessoas. Não era um pensamento de todo errado.
Sentava-se então perto da lareira no inverno, ainda que não precisasse se aquecer e assistia Calipso e Lit dançarem juntos, segurando as mãos um do outro e deslizando com as meias pelo chão de madeira, enquanto Georgina se aconchegava em seu colo. E sentiu ciúmes até a noite em que Calipso, deitada ao seu lado, confessou baixinho que era feliz por Lit existir, porque ela nunca houvera um homem em sua vida que quisesse ser apenas um amigo. Em sua vida antes da ilha, era comum e até esperado que parentes se casassem entre si. Calipso também nunca tivera um irmão. Em termos gerais, Calipso nunca tivera um amigo.
Talvez fosse nisso que estivesse pensando quando entrava dentro da própria cabeça e seu olhar se perdia em algum ponto imaginário. Leo se perguntou aonde ela ia nesses momentos por muito tempo até entender que é impossível conhecer todas as esquinas da mente de alguém que viveu cinco mil anos.
— Ao contrário do que você pensa, eu luto fortemente contra meus bloqueios emocionais — respondeu ela, jogando migalhas de pão em Lit. — Hoje mesmo abracei Leo duas vezes.
— E as duas foram para sussurrar discretamente em meu ouvido que, abre aspas, “eu estava falando merda”, fecha aspas. — Leo desenhou aspas no ar com os dedos.
Ela deu um gole em sua bebida.
— E estava mesmo.
— Você vai morrer de saudades das merdas que eu falo quando eu for para Massachusetts — provocou ele.
— Aham.
— Sério. Você vai chorar todo dia rezando “Ó, deuses, tragam o Leo de volta!”, mas vai ter que esperar até as festas de fim de ano para me ver.
— Certo.
— E aí você vai enlouquecer ao ponto de causar um incêndio devastador no MIT para que o único sobrevivente seja eu e não tenha opção a não ser voltar para casa.
— Você inventou isso agora na sua cabeça?
— Não. Na verdade, tenho estudado bastante as suas possibilidades de comportamento quando eu for embora. Quem sabe um suicídio? — debochou.
— Se eu falar o que tô pensando agora — interrompeu Lit, dando uma risadinha — vocês dois vão ficar muito putos comigo.
Calipso bufou, impaciente, soprando uma mecha de cabelo úmido para longe.
— Vou dar outro mergulho — disse ela, tirando a blusa verde e pulando para fora da caçamba apenas de biquíni. Calipso caminhou pela areia até que o lago batesse em sua cintura e afundou, sumindo no meio da água.
Lit começou a enrolar outro baseado, visto que Leo havia reclamado o anterior para si.
— Se eu fosse você — começou ele, lambendo a seda — eu diria de uma vez que ainda gosto dela.
Leo ergueu uma sobrancelha.
— Quem disse que eu ainda gosto dela?
A risada de Lit quase ultrapassou a linha entre alta e irritante.
— Ah, cara, fala sério.
— Estou falando sério.
— Certo — concordou ele. — Você não gosta da Calipso então. É tudo coisa da minha cabeça.
Os dois ficaram em silêncio por um momento enquanto Leo acendia o segundo baseado de Lit. Ele se recostou novamente na caminhonete, fumando calado, até dizer novamente:
— Mas falando sério de verdade agora, você deveria dizer.
— Meus deuses — suspirou Leo. — Quando foi que você decidiu se tornar o Cupido da Estação Intermediária?
— Você vai se mudar para outro estado e ficar meses longe dela. Acho que já chegou a hora de deixar o orgulho um pouco de lado.
— Nós já terminamos há dois anos, cara. Aparentemente o único aqui que não superou foi você.
— Tudo bem, então — disse Lit.
Outro silêncio se passou enquanto Leo apoiava o braço na borda da caçamba e esperava Lit voltar a falar, porque conhecia o rapaz suficientemente bem e era improvável que aquele fosse o fim da conversa.
— Eu só acho que… — continuou finalmente.
— Cara. Ok. O que você quer dizer com isso? — perguntou Leo, impaciente.
— Como assim?
— Você está escondendo algo de mim.
Não era uma certeza, óbvio, mas jogo verde nunca matou ninguém e Leo começou a se perguntar se os olhares estranhos entre Calipso e Lit não eram só invenção de sua cabeça.
— Eu não estou escondendo nada de você — disse Lit, parecendo tranquilo. — Mas como você sabe que a Calipso não está escondendo?
— Do que cacete você está falando?
— Cara, puta que pariu, você é muito burro. Burro!
Ele se inclinou para frente e deu um tapinha na testa de Leo.
— Ai!
— Eu estou te dando todas as dicas! — Lit apontou o dedo para Leo como sempre fazia quando se irritava. — Pare de questionar e só confie em mim! Converse com ela!
— Eu não tenho o que conversar com ela — insistiu Leo, esfregando o local onde Lit havia batido. — E isso doeu!
— Me poupe — zombou Lit.
— Toda vez você faz isso de fumar maconha e falar um monte de merda. Vou te entregar para Emmie.
Ainda que fosse maior de idade e tecnicamente um dos maiores assassinos da Grécia Antiga, nem mesmo Lit, com toda sua rebeldia, era indiferente às broncas educacionais de Hemiteia. Os dois ainda tinham bem fresca na memória a reação dela quando descobriu que tinham causado um acidente no shopping envolvendo um tanque de gasolina, cotonetes e um pacote de balas sortidas.
Ele deu de ombros.
— Não vai, porque se encrencaria junto comigo. Calipso também. E voltando a falar nela…
— Litierses, eu juro por todos os deuses…
— Ok, já entendi. Mas vai dizer que não sente nem uma coisinha pequenininha por ela? Nem uma quedinha? Nem tesão? Vai, tesão no mínimo você sente.
Leo não aguentou e começou a rir.
— Cala a boca, cara.
— É sério.
— Eu sei que é sério, mas olha as coisas que você tá falando — riu Leo.
— Você não respondeu à pergunta.
— Eu acho ela bem gata, sim. Feliz?
— Não. Esperava algo mais como uma declaração romântica.
Ele ficou em silêncio novamente por algum tempo enquanto Leo continuava a rir baixinho. Olhou para o céu e ele parecia mais azul. Usar drogas era muito legal.
No lago, Calipso brincava de boiar pela água, com os braços e pernas abertos em formato de estrela, girando ao flutuar como girava dançando na caçamba do carro. Leo se imaginou como um satélite espacial do Google, visualizando Calipso lá de cima, fotografando aquele exato momento e guardando na memória para sempre. Ele precisou de alguns minutos para perceber que estava encarando demais. Sentiu o rosto esquentar, mas não sabia se de vergonha ou das substâncias que tinha ingerido.
— O que quis dizer com isso tudo? — perguntou a Lit, sem tirar os olhos de Calipso. — O que quis dizer com “dar dicas”?
— Pensa um pouco que você descobre — respondeu ele, tossindo um pouco.
— Você sabe de alguma coisa que ela está escondendo de mim — deduziu Leo, os neurônios já fritando.
— Certo.
— Ela te disse para não contar — continuou.
— Aham.
— Mas você acha que eu preciso saber.
— É por aí mesmo.
Leo suspirou, exausto. Talvez não fosse uma boa ideia ter ficado doidão naquele dia.
— É muito ruim? — quis saber, com medo da resposta. — Seja lá o que seja essa história.
Lit inclinou a cabeça um pouco para o lado e pareceu pensar um pouco (algo raro à sua pessoa) antes de responder.
— Acho que depende da pessoa para quem você pergunta — respondeu finalmente. — Eu acho… indiferente, na verdade. Emmie e Jo acham ótimo. Já Georgie…
— Espera, todo mundo sabe menos eu? — exclamou Leo, arregalando os olhos.
O olhar no rosto de Lit entregou que ele já havia falado mais do que devia. Os dois se fitaram por um tempo até Leo começar a sentir sua tão habitual queimação de estresse.
— Minha família inteira está escondendo algo de mim — começou Leo, se sentindo quente por dentro — e você…
— Seu cabelo está chamuscando — observou o outro.
— Lit, foda-se!
— Calipso disse que cabia a ela conversar com você — explicou Litierses.
— Então por que caralhos você me disse tudo isso?! — Ele quase gritou.
— Porque ela não fala nunca e todos nós estamos exaustos! — murmurou ele de volta, fazendo sinal com a mão para Leo abaixar o tom de voz. — Ela não começa essa conversa e não deixa ninguém falar, então comece a conversa você.
— O que isso tem a ver com eu gostar ou não dela? — perguntou Leo, querendo apagar um baseado na testa de Lit.
— Então, aí já não cabe a mim falar.
— Ah, ótimo! — exclamou Leo. — Então você enche a minha cabeça com um monte de merda e agora vai se fazer de sigiloso? Entendi!
— Você ainda vai me agradecer.
— Agradecer? Eu vou contar para Emmie que você anda fumando como uma chaminé. Não ligo se vou tomar esporro junto, você tá fodido comigo — ameaçou ele, sabendo que jamais entregaria Lit daquele jeito.
— Sei — debochou Litierses, porque ele também sabia. — Agora vai se acalmar ou quer que eu acenda mais unzinho?
— Eu te odeio — chiou Leo.
— Espera, é impressão minha ou a Calipso está tirando o sutiã? — disse ele de repente.
Leo virou para olhar, incrédulo. Calipso continuava boiando tranquilamente na água, e Lit riu.
— Você acreditou.
Sua risada foi o suficiente para quebrar um pouco o humor de Leo e fazê-lo dar um leve sorrisinho. Leo deitou a cabeça na borda da caçamba e observou Calipso parar de boiar e dar um mergulho jogando os pés para cima.
— Ela arranjou outro namorado — disse Leo finalmente — , é isso?
— Não vou te contar — respondeu Lit.
— Porque se for, você pode me falar logo.
— Poderia, mas não vou.
— Porque eu realmente não me importaria, já que em breve estarei comendo um monte de mulher gostosa na faculdade.
— É claro.
Enquanto conversavam, Calipso decidiu que estava cansada de nadar e veio caminhando pela areia, torcendo seu longo cabelo molhado que ela se recusava a cortar. Leo não conhecia muitas pessoas que conseguiam sair da água como supermodelos igual aos filmes, mas Calipso nunca decepcionava nesse quesito.
Obviamente, quando chegou, ela estranhou a cara que ambos faziam.
— O que foi? — perguntou, franzindo a testa. — Vocês não estão tendo uma overdose silenciosa ou algo assim, estão?
— Quem caralhos tem uma overdose com uma cerveja e um baseado? — retrucou Leo.
— Bem, você é um cara pequeno — observou ela.
— Cale a boca.
Sentando ao lado da caixa de som, Calipso fechou os olhos e balançou a cabeça do ritmo da música desconhecida enquanto se enxugava em sua toalha florida. Colocou a blusa novamente e se espreguiçou como um gato prestes a cochilar. Lit observou tudo em silêncio e trocou um longo olhar com Leo, algo que não o fez saber o que fazer.
— Bem, eu vou dar uma volta — disse Lit finalmente, levantando-se rápido demais. Assim que ficou de pé acabou tropeçando dois passos para a frente e quase caiu sobre Leo, o que, embora Calipso provavelmente discordasse, não seria tão engraçado.
— Ei, ei! — gritou Leo, levantando-se para segurá-lo.
— Nesse estado? — perguntou Calipso, preocupada. — Aonde você vai?
— Cara, senta aí — pediu Leo. — Você tá doidão. Não inventa.
— Deixa de ser fresco, Valdez — resmungou ele. — Estou melhor que vocês dois. E não seria a primeira vez que saio sem rumo e alterado.
— Só que dessa vez a gente está perto de um lugar onde você pode se afogar — falou Calipso. — Que história é essa de dar uma volta? Ficou maluco?
— Ih, vocês mandam em mim desde quando? — disse ele, já colocando os pés para fora da caminhonete. Num salto meio torto, Lit caiu cambaleando. — Fui. E não vou entrar no lago, fiquem tranquilos. Provavelmente vou encostar em alguma árvore e cochilar até a onda passar.
— Litierses… — chamou Leo, mas ele já havia dado quatro passos em direção à mata e Leo não queria realmente que ele ficasse.
Ele e Calipso observaram silenciosamente enquanto Lit desaparecia entre as folhas das árvores.
— A gente deveria ir atrás — disse ela, mas não se moveu.
— Ele vai ficar bem — respondeu Leo. — É um cara durão.
— Ele está… muito chapado — murmurou ela.
— É — concordou Leo. — Talvez esteja mesmo.
Ele observou silenciosamente enquanto Calipso se alongava, esticando-se com a leveza de um gato e deitando a cabeça na janela traseira da caminhonete como se fosse tirar um cochilo. Apesar de ter a aparência de uma jovem mortal de dezenove anos, Calipso nunca perdera a graciosidade divina que exibia o quão absolutamente diferente ela era de todas as mulheres ao seu redor. Era por isso que os caras a perseguiam como urubus, pensou Leo, lembrando de quando um garoto chamado Cole passou seis meses completamente obcecado por ela na escola. Calipso o rejeitou educadamente das primeiras vezes antes de se tornar mais ríspida, até que seu namoro com Leo acabou e ela aceitou ir a um encontro com ele.
Cole nunca mais olhou na direção dela depois daquela noite. Passava por Calipso pelos corredores como se nem soubesse quem ela era. Leo não perguntou o que aconteceu; em parte porque não era da sua conta, mas também porque não queria saber.
Quase cochilando sob o sol da tarde, o busto de Calipso descia e subia lentamente, e Leo se pegou encarando demais. Se ela abrisse os olhos naquele momento, com certeza seria uma situação constrangedora.
Desviou o olhar e tossiu um pouco dos restos de fumaça quente em seu pulmão. Calipso abriu o olho direito e sorriu discretamente.
— Vai, fuma mais.
— Ah, garota, cuida da sua vida — sorriu ele. — Você estava quase dormindo e acordou para encher meu saco.
— Ei, só achei que não quisesse conversar.
— Por quê?
— Sei lá — respondeu. — Você anda tão quieto nos últimos tempos.
Apesar de no fundo saber que isso não era justo, Leo se surpreendeu por ela ter sequer notado.
— Eu ando meio nervoso — admitiu — com isso de mudar de estado e ir para uma faculdade onde não conheço ninguém. Quer dizer, meu irmão Felix estuda lá…
— Felix? — interrompeu Calipso.
— Aquele do chalé de Hefesto que tem o cabelo platinado.
— Ah, sei.
— Então, ele estuda lá, mas eu não conheço, conheço ele. E… acho que tenho medo de…
— De se sentir sozinho — completou ela. — Eu imaginei.
— Ah, imaginou? — zombou Leo.
— Eu te conheço.
— Sei.
Leo esmagou a ponta do baseado na caçamba da caminhonete e guardou o que sobrou no bolso. Calipso não gostava que fumasse. Ela não interferia em suas escolhas desde o término, mas ele sabia que não gostava. A opinião de Calipso sempre foi uma presença invisível e esmagadora pairando sobre sua cabeça.
— Vai se dar bem por lá, Leo — suspirou ela. — É mais esperto do que percebe. Na verdade, você é sempre a última pessoa a notar o quão esperto é. Vai conseguir se virar.
— Tô meio cansado de me virar, para ser sincero — respondeu ele.
— Bom, a vida é uma grande sequência de improvisos. E você merece viver isso. Tipo… ir para a faculdade de seus sonhos que conquistou com seu próprio esforço. Não acha que já se sentiu sem rumo o suficiente?
— Quem disse que eu me sinto sem rumo?
Ela abriu completamente os olhos para encará-lo e sorriu.
— Leônidas — disse, e o som de seu nome completo na voz dela fez seu coração disparar. — Embora esse provavelmente seja o motivo pelo qual você chora no banho todos os dias, eu conheço você.
Leo ficou alguns segundos em silêncio, perdido no mar castanho do olhar de Calipso.
— É — sorriu de volta. — Conhece mesmo.
Calipso fechou os olhos e voltou a repousar sua cabeça no vidro.
Talvez fosse mais uma vez fruto do que bebeu ou fumou, mas ali, observando-a deitada, Leo se perguntou como seria desmontar Calipso tal qual um robô. Não de uma forma bizarra tipo “Jack, o Estripador”, mas como se seu corpo fosse feito de metal, uma máquina, e ele pudesse desparafusar um braço e estudá-lo em seus mínimos detalhes antes de encaixá-lo novamente ao tronco, e então destacar uma perna e olhar cada parte dela por uma lupa procurando o formato dos ligamentos de sua pele, e então abrir a cabeça com uma chave de fenda e observar o que habita lá dentro, explorando com cuidado as rugas de seu cérebro, colocando um chip e extraindo as informações para depositar em um computador, estudando os pensamentos de Calipso como se fossem um código de programação.
Pigarreou suavemente antes de dizer:
— E você?
Calipso nem sequer abriu os olhos.
— Eu o quê?
— Você também anda bem quieta ultimamente.
Leo percebeu a respiração dela parar por um momento.
— É. Ando, sim.
— Também conheço você.
— Não como eu te conheço.
— Como assim?
— Eu te conheço mais do que você me conhece — respondeu ela.
— Ah, isso virou uma competição. — Leo revirou os olhos. — Bem, eu sei um monte de coisas sobre você.
— Ah, é? — Ela o encarou com deboche. — Tipo o quê?
— Sei lá, tipo que dorme com as janelas abertas até quando chove e que por algum motivo odeia o som de interruptores de luz. Nem todo mundo sabe isso sobre você.
— Bem, eu sei que dorme abraçado com seus travesseiros e odeia pulseiras porque ter coisas penduradas no seu braço te incomoda — rebateu ela. — Nem todo mundo sabe isso sobre você também.
— Eu sei que seu filme preferido é Mamma Mia! e sabe dançar a coreografia inteira da cena em que aquela coroa canta “Does Your Mother Know?”, ainda que não deixe ninguém ver.
— Eu sei que usa cuecas com cores que combinem com as roupas que vai usar ainda que ninguém vá vê-las.
— Eu sei que você planta uma flor para cada pessoa que gosta e a forma como a cultiva depende de como a sua relação com essa pessoa está. A minha planta é um miosótis. Lit é uma bico-de-papagaio. Georgie é…
— Eu sei que você tem um sistema de inteligência artificial no seu quarto cuja voz é igual à sua e que conversa com ele em momentos ruins porque faz com que se entenda melhor.
— Eu sei que você sempre toma um tipo de chá no café da manhã para cada dia da semana, todos sempre com uma colher e meia de açúcar, e lembro cada um dos sabores.
— Eu sei que você tem a mania de roer as próprias unhas e, quando não há mais o que roer, você uma régua de borracha e fica mordendo para acalmar a ansiedade.
— Eu sei que gosta de cantar para as pessoas que ama porque você e seu pai cantavam juntos o tempo todo quando, sabe, ele ainda não estava segurando o peso do céu nas costas ou coisa assim, e sente bem mais falta dele do que demonstra.
— Eu sei que não consegue estar com pessoas que não representam um constante desafio porque fica entediado, então tenta provocar todo mundo ao seu redor para obter alguma reação e provar seu valor.
— Eu sei que você gosta de brigar e para de falar com as pessoas para que elas corram atrás de você porque sente que ninguém nunca se esforçou para te ter por perto, então é a sua forma meio problemática de testar se realmente te amam.
— Eu sei que às vezes você se olha no espelho por longos períodos de tempo porque sente que está lentamente esquecendo o rosto da sua mãe e não tem nenhuma foto dela, então se agarra na própria aparência como a única forma de recordar.
— Nossa. Ok, você ganhou.
— Viu? — Ela sorriu.
— Conte-me uma coisa sobre você que ainda não sei então — tentou ele. — Tenho certeza de que consegue pensar em algo.
Foi sutil, mas aconteceu mais uma vez: Calipso pareceu entrar para dentro de si mesma por um momento, os olhos focados em algum fantasma na frente de Leo, sugada pelo buraco negro de seu próprio corpo. Nessas horas Leo tinha vontade de esticar a mão para que ela a pegasse e puxá-la para fora, salvá-la no último segundo de sua espiral de pensamentos, mas ele nunca fazia.
— Tem uma coisa — disse finalmente — que acho que precisamos conversar.
Ele percebeu seu desconforto enquanto ela se sentava com a coluna reta e as pernas cruzadas, olhando-o nos olhos. Leo também se ergueu um pouco mais.
— Pode falar.
— É complicado.
— É algum novo namorado? — ele perguntou, e Calipso sorriu de leve. — Porque se for…
— Não, Leo. — Ela parecia estar segurando uma risadinha. Não era algo necessariamente bom.
— Não me incomodaria em nada.
— Sei que não — assegurou ela. — É outra coisa.
— Desembucha, flor-do-dia — pediu, e ela revirou os olhos ao ouvir o antigo apelido.
Calipso olhou para o lago e enxugou uma gota de água que escorreu de seu cabelo molhado até a ponta do nariz. Olhou para as árvores, para Leo, para o lago novamente, até baixar os olhos e finalmente dizer:
— Vou entrar para a Caçada.
E só. Ficou em silêncio, imóvel, esperando. Leo não sabia dizer exatamente o quê.
— Quê? — perguntou ele.
— A Caçada de Ártemis — repetiu ela. — Eu vou entrar.
— Você vai passar um tempo com elas, é isso?
— Não, Leo. — Calipso ergueu o olhar na direção dele, o rosto mortalmente sério. — Vou fazer o juramento. Virar uma Caçadora.
As palavras ficaram ecoando pela cabeça de Leo como se estivesse brincando de Pinball, procurando um túnel para entrar e começarem a fazer sentido. Leo começou a rir de nervoso.
— Calipso, você não tem como se tornar Caçadora.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque, até onde sei, a garota precisa ser virgem para entrar na Caçada. E, desculpe se isso soa ofensivo, mas ninguém tem mais certeza de que você não é virgem do que eu.
— Na verdade, essa é uma visão meio retrógrada. De uns tempos para cá elas têm aceitado qualquer garota, desde que se comprometa a nunca mais se relacionar com ninguém — explicou. — Jo e Emmie conversaram com Thalia por mensagem de Íris e ela disse que Lady Ártemis ficaria mais do que feliz em me receber. Zoe era uma de suas preferidas. Aparentemente, ela acredita que filhas de Atlas dão boas guerreiras.
O mundo ficou tão silencioso que parecia ter parado de girar. Os pássaros se esconderam nos ninhos, os animais voltaram para as tocas, os peixes pararam de nadar no lago e todas as máquinas do mundo interromperam seu funcionamento enquanto Leo absorvia a informação.
A caixa de som saiu de uma música desconhecida para “The Promise”, do When in Rome, e quebrou a quietude infinita como um martelo numa placa de vidro. As palavras de Calipso finalmente afundaram no peito de Leo.
— Não — balbuciou. — Você não pode fazer isso.
— Leo…
— Você não pode fazer isso comigo — falou ele, mais alto.
— Leo, você vai para a faculdade quando o verão acabar — murmurou ela. — Vamos ter o verão inteiro para nos despedir. As Caçadoras só devem passar pela Estação Intermediária em outubro. Quando eu for, você já terá ido…
— Mas vou voltar — rebateu ele. — É só faculdade, posso visitar… Calipso, você não pode fazer o juramento. Abdicar do amor? Para sempre?
— Vai ser melhor para mim.
— Por quê?
Sua boca se abriu e fechou, como se Calipso quisesse segurar a resposta ali por mais tempo, saborear com cuidado, antes de cuspi-la no colo de Leo.
— Você vai para a faculdade — repetiu. — Lit vai continuar cuidando da Estação e de Georgina; nossas mães já estão velhas. O que eu vou fazer? — A resposta parecia robótica, como se Calipso a tivesse ensaiado várias vezes em frente ao espelho. — A vida mortal me assusta. Humanos têm tão pouco tempo… e quero fazer tantas coisas. Passei três mil anos sem fazer nada. Quero fazer três mil coisas.
Leo não conseguia acreditar.
— Além do mais — continuou ela — nós dois sabemos que o amor não me faz bem. Nunca fez. Vai ser melhor para mim, ter a oportunidade de conhecer vários lugares e garotas diferentes. Poder ficar sozinha comigo mesma. Isso, sim, vai me fazer bem.
— Eu não te fazia bem? — A voz de Leo tremia.
Calipso fechou os olhos e suspirou profundamente.
— Leo — disse. — Você terminou comigo.
— Sim, mas…
— Você terminou comigo — repetiu — e nós continuamos vivendo na mesma casa por esses últimos dois anos. Não foi fácil para mim encontrar meu ex-namorado na mesa do café da manhã após chorar a noite inteira por ter levado um pé na bunda.
— Sim, mas nós fomos felizes…
— E acabou — cortou Calipso. — Fomos felizes até que você não quis mais estar comigo. Não estou te acusando, sei que sou uma pessoa… difícil. Mas é isso que sempre acontece. Já deu para mim. Não quero mais tentar. Vou a encontros, fico com caras, nunca dá certo e não quero mais passar por isso. Não é como se sofrer com romances fosse algo novo na minha vida.
O choque de realidade pareceu ter deixado Leo instantaneamente sóbrio e ele se lembrou do que Lit tinha dito, minutos mais cedo, enquanto ele ainda acreditava que o maior de seus problemas seria um novo namorado.
— Calipso — disse ele.
— Sim?
— Eu te amo.
— Eu também te amo, Leo.
— Não, eu te amo. — Ele estendeu a mão e segurou a dela. — Não é desse jeito. Eu te amo. Não vá.
Calipso ergueu uma sobrancelha, intrigada, e ele torceu para que a água escorrendo por sua bochecha direita fosse por conta da umidade.
— Calipso, eu te amo. Eu terminei com você porque sou um idiota do cacete, mas eu te amo. Você não pode fazer isso comigo. Eu…
— É você quem não pode fazer isso comigo — respondeu ela, com as feições tão duras que Leo pensou que seu rosto pudesse se quebrar.
Calipso puxou a mão para longe da dele e quebrou o coração de Leo pela centésima vez em poucos minutos.
— É muita… crueldade da sua parte ter ido embora e não me deixar ir também — sussurrou dela, e parecia prestes a chorar.
— Eu não fui embora! — exasperou-se Leo. — Moramos na mesma casa.
— Você terminou comigo.
— Eu não deveria, eu sei!
— Disse que “não conseguia mais lidar com todas as minhas questões”.
— Mas vou aprender a lidar! — Ele percebeu que estava gritando. — Eu vou para a faculdade, mas vou voltar, e quando eu voltar…
— E aí vamos magicamente ficar juntos novamente? — gritou Calipso de volta. — E enquanto você não volta eu faço o quê? Fico esperando, em casa, enquanto você vive a sua vida?
— O que tem de errado com a sua vida agora? Você é feliz na Estação!
— Você também é e vai para a faculdade de qualquer forma!
— Mas estudar em Massachusetts não vai me impedir de voltar para você! — Ele gritou mais alto ainda. — Se você fizer o juramento, nunca mais vamos estar juntos!
— Deuses, Leo, você literalmente terminou comigo! — Calipso se levantou e ficou de pé na caçamba, gesticulando com os braços como se Leo fosse uma criança que se recusava a entender que não podia enfiar a mão na tomada.
— Mas não de uma forma permanente! — Ele se odiou por perceber que, quanto mais falava, mais sem sentido suas palavras soavam.
— Como não? — Calipso começou a rir cheia de escárnio. — Era um término temporário?
— Bem, sim! — respondeu ele. — Você sabia que sim!
— Eu sabia que sim? — Sua voz soou tão amarga que Leo sentiu algo dentro de si apodrecer. — O que eu sabia é que tinha sido rejeitada. Mais uma vez. Por outra pessoa. Você não pediu um tempo, você terminou comigo. Você nunca disse que seria temporário.
— Mas…
— O quê? Você achou que o tempo fosse passar, e as coisas fossem amenizar, e eventualmente nós, como adultos, perceberíamos que somos apaixonados um pelo outro e essa história terminaria com um “felizes para sempre”?
— Ok, quando você diz dessa forma parece um plano bem idiota.
— LEO, VÁ SE FODER!
Calipso saltou para fora da caminhonete e saiu andando descalça pela grama em direção à floresta.
— LIT! Eu sei que você está ouvindo! — berrou. — Volte, eu quero ir embora!
Leo se levantou e foi atrás dela.
— Você não pode simplesmente fugir de mim!
— Você fez a mesma coisa! — gritou ela, sem virar para trás. — Dois anos atrás, quando terminou comigo!
— E agora quero te namorar de novo! Vem cá!
— VÁ SE FODEEEEER, LEO! — Calipso virou mostrando os dois dedos do meio sem diminuir o passo. Para alguém que raramente sequer falava palavrões, ela realmente tinha descido o nível. — VÁ SE FODER! Você acha que vai para a faculdade enquanto eu fico sentada esperando o seu momento de estar pronto para uma relação?
— Ah, então você vai para a Caçada só para me irritar? — provocou ele, tentando fazê-la parar de andar.
— Vou porque estou cansada dessa maluquice de vocês homens e de ser tratada dessa forma! — Calipso parou e apontou o indicador para ele, cheia de raiva. — Vocês são todos iguais! Sempre esperam que eu viva a minha vida em função de vocês. Eu cansei! Quero viver por mim!
— Viver em função de mim? Senhorita, eu te tirei da ilha! — rebateu Leo.
— Quer que eu te agradeça? Obrigada, Leo, por ter me tirado da ilha! Obrigada por ser capaz de morrer para me salvar, mas não de reservar um restaurante, ou me dar flores, ou simplesmente me dizer palavras gentis ao invés de fazer piadas o tempo todo!
— Ah, e você era uma santa, não é? — Leo finalmente chegou perto de alcançá-la.
— Não, mas deixei você ir! Agora é a minha vez! — Calipso continuou andando em direção à mata. — LITIERSES!!! EU QUERO IR EMBORA!
Leo esticou a mão para segurar seu braço antes de Calipso graciosamente se enfiar no meio das árvores, mas não foi rápido o suficiente.
Não havia muitos insetos ali, surpreendentemente. Calipso andou pelo chão úmido como se os galhos e folhas pontudas do caminho não a incomodassem, embora ele não pudesse dizer o mesmo. Lit não apareceu, algo potencialmente preocupante, mas considerando o tremor nos ombros de Calipso, ela estava chorando. Havia assuntos mais urgentes para se tratar.
— Calipso, me escute — pediu. Ela arrancou uma folha de uma árvore e atirou na direção de sua voz sem olhar para trás, errando feio.
— Não tem nada que possa me dizer que eu gostaria de ouvir — respondeu ela. — Litierses!
— Cara, você mandou eu ir me foder — lembrou Leo.
— Deveria ter dito coisa pior! LITIERSEEEEEEES!!!!
Calipso ficava tão afetada quando irritada que deu alguns pulinhos gritando o nome do irmão como uma criança fazendo birra. Leo segurou o riso para evitar ser acertado por um soco.
— Lit deve estar escutando, só não vai aparecer até nos resolvermos. Ele avisou que tinha algo para me contar — contou Leo.
Calipso rosnou.
— Aquele filho da… Ai!
Ela tropeçou numa pedra e quase caiu. Leo não conseguiu segurar o riso dessa vez.
— Você está bem? — perguntou.
— Não, Leo, não estou! — respondeu ela, massageando o próprio pé. — Pare de rir como uma hiena!
— Desc…
— Eu te odeio!
Leo soltou mais uma risadinha antes de reparar que ela estava chorando mais, exausta, sentando-se na pedra que quase a derrubara.
Sentindo-se culpado, agachou-se para olhar. O pé esquerdo estava criando um hematoma, mas não passaria disso.
— Dói?
— Um pouco — respondeu baixinho. — Não estou chorando por conta disso.
— Eu sei.
Pensou em segurar o pé dela, mas provavelmente tomaria um chute no rosto. Calipso apoiou os cotovelos nos joelhos, deslizou o rosto entre as mãos e continuou chorando.
Ali, no meio das árvores, sentada sobre uma pedra e com o cabelo ainda molhado, Calipso parecia uma escultura clássica. Leo a teria confundido com uma ninfa da floresta se não fosse o biquíni e a camiseta de marca mortal.
— Quer me contar por que está chorando, então? — perguntou. — Já me falaram que deixa a pele enrugada.
Calipso riu entre as lágrimas.
— Leo, você é um babaca.
— Eu sei. Mas realmente amo você.
— Cale a boca.
— Eu não vou para o MIT se você não for para a Caçada.
— Leo, cale a boca.
— Estou falando sério. Eu não vou. Fico aqui contigo. Ou te levo comigo. A gente aluga um apartamento por lá.
— Com que dinheiro?
— Com o que vou conseguir hackeando o sistema de segurança do Elon Musk e pegando alguns milhões emprestados.
Calipso riu e, mesmo baixinha, a risada pareceu ecoar pelas árvores e deu a Leo a esperança que precisava.
— Assino um contrato de que nunca vou poder terminar com você novamente — continuou ele — e usamos o dinheiro para pagar uma terapia de casal, sei lá. E podemos pedir pizza aos sábados. Eu hackeio o sistema da faculdade e te coloco no curso que quiser. Sabe que consigo fazer isso. A gente pode estudar juntos e dormir de conchinha depois.
— É? — perguntou Calipso, sorrindo sem mostrar os dentes, os olhos brilhando com as lágrimas. — E quando nos formarmos?
— A gente se casa e monta nossa oficina — disse Leo, e nunca disse algo mais verdadeiro em toda a sua vida. — Ou monta nossa oficina e se casa depois. “Garagem do Leo e da Calipso: Conserto de Automóveis e Monstros Mecânicos”. Eu não esqueci. Fica comigo. Não vá para a Caçada. — E completou baixinho: — Por favor.
— É isso, então? Passamos dois anos separados e agora quer se casar comigo?
— Eu até me registraria em cartório como propriedade sua, se pedisse.
— Tipo um bichinho de estimação?
— Pode ser. Uso uma coleira com o seu nome e tudo.
— Você é maluco.
— Maluco por você.
Leo apertou as mãos dela e, quando ela apertou de volta, teve a certeza de que tudo daria certo. Erguendo o rosto para olhá-lo nos olhos, Calipso parecia um anjo.
— Leo, isso é lindo…
Ele sabia. E como sabia.
— …, mas não passa de uma fantasia — completou ela, e foi como se ela tivesse tropeçado e caído com o coração de Leo direto ao chão.
— Tudo bem, demoraria alguns dias. Mas com certeza consigo acessar a conta do Elon M…
— Sabe que não estou falando disso — respondeu ela suavemente.
Os dois se calaram por alguns instantes. Era possível ouvir os pássaros pulando pelos galhos mais altos das árvores. Se as árvores fossem mais bonitas e brilhantes, poderiam fingir que estavam em Ogígia, na floresta atrás da caverna de Calipso, onde a praia não os alcançava.
— Por que não me disse tudo isso antes? — Calipso quase sussurrava.
— O quê?
— Tudo. Sobre ainda me amar. Sobre irmos juntos para Massachusetts, pedir pizza aos sábados e dormir de conchinha — repetiu ela, o olhar vazio em direção à grama dando a impressão de que falava para si. — Terminamos há dois anos e nos vemos todos os dias. Você teve dois anos para dizer.
— Não sabia como falar — respondeu Leo.
— Não. — Calipso balançou a cabeça. — Só achou que teria mais tempo.
Ele não respondeu.
— Como falei: eu conheço você.
— Se me conhece tão bem — perguntou ele —, por que não sabia que eu me sentia assim o tempo todo?
Calipso ergueu um pouco mais a cabeça e, ainda que não o encarasse diretamente, Leo viu um pequeno sorriso de desgosto em seu rosto triste.
— Acho que eu sabia, sim. Só queria que você dissesse. — Soltou então um longo suspiro. — Queria que viesse atrás de mim e me dissesse que estava errado. Que foi imaturo e inconsequente. Que iria suportar o que fosse para estar comigo. — Calipso riu baixinho. — Às vezes imaginava você batendo na porta do meu quarto no meio da madrugada e, quando eu abrisse, estaria de joelhos implorando que te aceitasse de volta.
— Estou fazendo isso agora — disse ele, acariciando seu braço.
— Agora é tarde demais, Leônidas — respondeu ela, com uma voz tão doce que um ouvinte desinformado jamais suporia que estivesse gritando ofensas minutos antes. — Já tomei minha decisão. Se não tivesse sido dessa forma, você iria embora sem me falar tudo isso. Não sei quanto tempo levaria para falar.
Por vezes, após se estressar muito, Calipso parecia murchar até algo mais brando, como a calmaria que vem após o maremoto e naufrágio de navios. Era um balão que esvaziava conforme gritava e esbravejava e, quando voltava à sua persona doce, Leo ficava imaginando se era aquela a Calipso que Percy conhecera e descrevia: calma, prestativa, gentil, com aqueles enormes olhos castanhos que a inocentariam de qualquer crime.
A pior parte de ouvir aquilo foi saber que era verdade.
— Perdão por ter te mandado ir… bem, se foder — disse ela.
— Eu te perdoaria por qualquer coisa — respondeu ele.
— Ufa. Achei que não fosse me perdoar por entrar na Caçada.
— Que nada. Só preciso me acostumar novamente com a ideia de morrer sozinho. — Ele revirou os olhos. — Nem é novidade para mim.
— Você não vai morrer sozinho. Vai encontrar uma garota que seja, tipo, absurdamente linda, ser muito feliz e contar-lhe sobre como sua ex era uma maluca — disse Calipso, sorrindo.
Leo riu baixinho.
— E se ela perguntar quem eu prefiro, o que faço? Saio correndo?
— Peça pizza e durma de conchinha com ela.
— Seria mais legal se fosse com você.
Ela segurou o braço direito de Leo com uma mão e passou os dedos da outra suavemente sobre a superfície, como se estivesse lendo braile em sua pele.
— Se te consola, quando eu estiver no meio de um monte de Caçadoras dizendo que homens são escórias nojentas… vou concordar com elas, mas estarei sentindo sua falta.
— Lembra-se de quando teve um campeonato de basquete na escola e nos beijamos debaixo da arquibancada, sem que ninguém visse? — perguntou Leo.
— Uhum, e daí?
— E daí que penso nisso toda vez que vejo qualquer quadra de esportes — contou ele. — Assim como penso naquela vez em que disse que me amava mais que tudo no mundo na fila do cinema toda vez que vejo alguém comendo pipoca. E lembro de quando ganhei o campeonato de comer sorvete e você me deu um beijo com gosto de chocolate sempre que, bem, literalmente vejo sorvete. E todas as flores do mundo me levam de volta à noite em que dormimos juntos na estufa do terraço.
— Aquela noite foi bem legal — sorriu Calipso.
Leo arqueou as sobrancelhas.
— É mesmo?
Calipso lhe deu um tapa no braço.
— Não estou falando dessa parte.
— Ué? — provocou ele. — De qual parte você acha que eu estava falando?
— Não vou me dignar a te responder, principalmente porque em breve serei uma Caçadora e é inadequado abordar certos assuntos — falou. —, mas quis dizer sobre quando você me deu o anel.
Um olhar confuso surgiu no rosto de Calipso enquanto Leo caía na gargalhada.
— Cara — disse ele — , você não pode simplesmente formar frases assim e esperar que eu não faça piadas sobre.
— O que… ah, “dar o anel”. — Calipso revirou os olhos. — Você é ridículo. Sabe do que estou falando. Do anel de compromisso que fez para mim.
— Qual foi o fim desse anel, por falar nisso? — perguntou. — Nunca mais te vi usando.
— Não vou andar por aí com um anel que meu ex-namorado me deu. Mas ainda está guardado num porta-joias na minha penteadeira, para a sua informação.
— Você deveria voltar a usar.
— Sei. E você deveria me deixar em paz.
— Estou falando por motivos práticos — explicou Leo. — O anel te deixa imune ao fogo. Nunca se sabe se algum cabo vai explodir e causar um incêndio, ou se você vai acabar se agarrando no meio da floresta com um gostosão que por acaso pode entrar em combustão se ficar muito animado.
Calipso riu, apoiando-se em Leo, e ele lutou contra a vontade enlouquecedora de lhe dar um beijo assim como havia lutado nos últimos dois anos.
— Vamos voltar — ela disse levantando-se. — Lit não vai aparecer, essa grama está pinicando minha perna; quero lavar no lago.
Voltaram pelo caminho silenciosamente, seguindo o som da música na caminhonete, Calipso andando à frente dele. Tiraram as blusas e as colocaram na caçamba antes de seguir em direção ao lago, ela de biquíni e ele de bermuda, e Leo teve a súbita realização de que estavam fazendo o que sempre faziam: fingir que uma discussão não tinha acontecido.
Após esfregar a própria perna na água, Calipso voltou a boiar como os membros esticados, flutuando calada, dessa vez tendo Leo como companhia. Ele retornou ao pensamento que tivera mais cedo: um satélite fotografando o lago lá do espaço, registrando ele e Calipso um ao lado do outro, como estrelinhas de uma constelação.
Ele teria enquadrado uma foto assim.
— Por que você quer ir tanto assim? — perguntou finalmente, após o que pareceu ser uma eternidade.
Calipso suspirou.
— Eu já expliquei. — Sua voz, embora audível, era levemente abafada pelo som da água ao redor dos ouvidos de Leo.
— Você só tem dezenove anos mortais. Tem uma vida inteira pela frente. Pode desistir de mim, mas não precisa desistir completamente de se apaixonar.
— Leo — disse ela —, você não sabe o que é ser mulher.
E mais nada, deixando essas palavras vazias pelo espaço.
— E como é ser mulher? — perguntou ele.
Após alguns segundos pensando, Calipso finalmente respondeu:
— É como ser uma flor arrancada de um canteiro de novo e de novo e de novo: você sabe que estão fazendo aquilo por te acharem bonita, mas dói do mesmo jeito.
Leo pensou em como Calipso nunca queria buquês de flores - “São lindas, mas estão mortas”, ela dizia. Gostava de jarros de planta, vasos, jardins, hortas, qualquer planta desde que estivesse viva, na terra. Nas raras vezes em que lhe deu flores, Leo gastava mais que o normal, pois precisava comprá-las inteiras, num vaso. Nunca era dinheiro desperdiçado, contudo, pois a reação de Calipso sempre valia a pena.
Deveria ter lhe dado flores mais vezes.
— Deve ser uma sensação ruim — respondeu apenas.
— É, sim.
— Eu fiz você se sentir assim?
— Às vezes — ela disse sem mágoa. — Mas acho que todos os homens fazem isso. Você é melhor do que a maior parte dos que conheci. — E após uma curta pausa: — Como é ser homem?
— Sabe que nunca pensei muito sobre isso? — refletiu Leo. — Como você acha que é?
— Acho que é muito bom — respondeu Calipso.
Ele fechou os olhos por conta do sol.
— Você vai ficar a maior gata com aquelas roupas de Caçadora.
— Acho que esse não é objetivo — respondeu ela, e Leo pôde notar que estava sorrindo.
— É muito irado te imaginar, tipo, lançando flechas na garganta de seus inimigos e correndo com lobos ou algo assim.
— Eu passaria a maior parte do tempo em missões, para falar a verdade.
— O que será que as Caçadoras fazem para se divertir? Será que elas também fazem as unhas umas das outras, “noite das garotas” ou coisas assim?
— Vou te mandar uma carta contando quando descobrir — prometeu Calipso.
— Vai ser tão estranho ficar velho e ver você ainda novinha — falou Leo.
— Eu sou consideravelmente mais velha que você.
— Mas você é conservada. Passa creme antirrugas ou coisas assim. Seria deprimente, sabe, ver você com carinha de vinte e estar cheio de pelancas e cabelos brancos e jogando bingo.
— Talvez até lá eu tenha saído da Caçada e comece a namorar um neto seu — provocou ela.
— Cara, rolou algo muito parecido entre eu e Hazel uma vez.
A risada de Calipso ecoou pelo lago, pela floresta e pela cidade, deu a volta ao mundo e curou todas as doenças, alimentou todos os famintos e acabou com todas as guerras.
— Ai, até engoli água! — disse ela entre os risos. — Essa história é ótima.
— Isso é uma possibilidade real? — perguntou ele.
— De eu namorar seu neto? Acho que se ele for gatinho…
— Você sair da Caçada eventualmente.
— Acho que não, mas não tenho como saber.
— Porque eu gostaria que tivesse a consideração de, caso fosse sair, o fizesse antes que a nossa diferença de idade seja como a do Leonardo DiCaprio e suas namoradas.
— Seu plano é ser meu sugar daddy ou algo assim?
— Olha, um dos dois ser absurdamente mais velho nunca foi problema para nós.
— É, a gente tinha alguns problemas maiores.
— Tipo o quê?
— Essa é provavelmente a décima vez que relembro só hoje, mas foi você quem terminou comigo.
— E daí?
— Bom, por que você terminou?
— Por que eu terminei?
— É.
Embora soubesse os motivos, Leo não conseguia considerá-los tão relevantes como os considerou dois anos antes.
— Acho que eu nunca sabia o que você queria de mim — começou. — Mas sabia que queria ficar com você. Achei que se terminasse os problemas se dissolveriam e a gente acabaria voltando organicamente em algum momento. Foi… um pensamento bem idiota, agora que parei para pensar. Só nos afastamos mais.
— Não foi isso que me disse na hora.
— Sei que não.
— Disse que estava cansado de se sentir mal por conta das minhas expectativas inalcançáveis.
— Era em parte verdade.
— Eu nem tinha expectativas tão altas em relação a você.
— Ai.
— Não quis dizer dessa forma. É que você disse que não sabia o que eu queria, e a única coisa que eu queria era que ficasse comigo.
— Calipso — riu Leo. — Convenhamos, não era exatamente só isso que você queria.
— Ah, é?
— Lembra-se daquela vez em que brigamos por… honestamente, nem lembro porque brigamos. Só sei que você se trancou no quarto chateada, então eu passei um dia inteiro mexendo em hologramas e projetei um na sua janela com um mini Leo pedindo desculpas. E você só ficou mais irritada, sendo que eu literalmente pedi desculpas.
— Não — interrompeu ela. — Uma máquina pediu desculpas. Você, não.
— Um holograma meu. É a mesma coisa.
— Não é a mesma coisa, Leo.
Ele não achou uma boa ideia dizer que ainda não compreendia, por isso se calou.
— Eu sinto muito — decidiu dizer.
— Eu também — respondeu ela. — Atirar o holograma da varanda não foi exatamente uma boa reação. E a gente tinha brigado por ciúmes, se quer saber.
— Jura? Por parte de quem?
— Minha, óbvio. A gente nunca brigava por ciúmes seus. Você é ciumento inseguro, guarda para você e, sei lá, entra numa espiral de baixa autoestima. Eu sou ciumenta psicótica.
— Qual foi a pior coisa que você já fez por ciúmes?
— Você realmente não quer saber.
Leo sorriu.
— Matou alguém?
— Quase.
Ao longe ele pôde ouvir os passos de Lit na margem do lago, retornando à caminhonete. Os dois permaneceram deitados na água.
— Leo — chamou Calipso.
— Pois não?
— Você realmente lembra qual chá gosto de tomar em cada dia da semana?
— Você toma chá preto na segunda-feira, chá de jasmim na terça, chá de hibisco na quarta, chá de alecrim na quinta, chá de limão na sexta, chá de hortelã no sábado e café no domingo, porque “é o dia mais difícil de acordar”.
— Você não lembrava enquanto ainda namorávamos.
— É, eu sei.
— Lit chegou.
— Também ouvi. Quer ir embora?
— Não.
A música tocando era algo da Adele. Leo não lembrava a voz de muitos artistas, mas assistir “007 - Operação Skyfall” vezes o suficiente para aprender a reconhecer a voz da cantora.
Suavemente, como se não quisesse ser notada, Calipso procurou a mão de Leo entre a água do lago e a segurou.
— Também amo você — sussurrou, olhando para o céu.
Leo sentiu seu coração bater tão forte que, se não estivessem na água, teria queimado a mão de Calipso naquele exato momento.
— Eu sei.
— Não. Também amo, amo você.
— E vai para a Caçada do mesmo jeito?
— Quero ser cultivada em um jardim, não colocada num buquê. Ou ser o mesmo que um holograma.
— Não entendo o que quer dizer.
— Sei que não.
— Acha que vai ser mais feliz se for?
— Não sei — suspirou. — Mas serei mais eu. É o suficiente.
Cinco mil anos. Leo se perguntou se seria capaz de criar uma máquina capaz de computar a totalidade de uma pessoa de cinco mil anos.
Com a mesma graciosidade de uma sereia, Calipso se ergueu na água e, esfregando o rosto com as mãos a fim de limpar a água dos olhos, nunca pareceu tão inalcançável e tão bonita.
Leo a seguiu para fora - assim como a seguiu para a floresta, para dentro do lago e para todos os lugares do mundo enquanto ela permitiu. Quando a água sob seus pés se tornou areia e a caminhonete na grama ficou próxima demais - com Lit no banco do motorista, de olhos fechados, definitivamente fingindo cochilar para lhes dar mais privacidade - Leo sentiu o súbito pânico de perceber o quão real era a situação. Calipso iria embora. Juraria lealdade eterna a uma irmandade que não amava ninguém, especialmente homens. Talvez se vissem poucas vezes por década, e a cada vez Leo estaria mais velho, mais cansado, enquanto Calipso permaneceria jovem para sempre.
Colocou as engrenagens de sua cabeça para girar e com esforço imaginou uma vida em que não a ouvisse cantar nos fins de semana ou não faria compras checando uma lista de mercado que ela escrevera com sua letra perfeita. Se imaginou com outra garota - uma garota ainda sem rosto, sem nome, que riria de todas as suas piadas e aceitaria suas desculpas ainda que fossem eletrônicas. Pensou em como compraria flores em buquês para ela, a não ser que ela não gostasse de plantas, não sentiria o cheiro de canela e terra que Calipso espalhava por onde passava.
Pensou em como seria dormir ao lado de alguém que não era uma incógnita, alguém simples de entender como o funcionamento de um carro. Alguém que fosse o completo oposto de Calipso. Imaginou-se saindo para trabalhar aos trinta anos e encontrá-la de repente por aí, nas ruas, usando uma trança e jaqueta prateada com um arco nas costas, fazendo alguma missão em Nova Roma. Imaginou-a falando sobre ele com o mesmo desprezo que todas as Caçadoras falam sobre seus antigos amores e sendo feliz com elas de uma forma que nunca foi feliz com ele.
Antes que os pés de Calipso tocassem a grama, Leo se desesperou:
— Calipso!
Ela não havia sequer virado completamente quando Leo a segurou pelos dois braços com tanta firmeza que por um segundo teve medo de tê-la queimado.
— O que está fazendo? — exclamou surpresa.
— Só me escuta! — Torceu para não estar parecendo um completo louco. Seus rostos estavam a centímetros de distância. — Ainda temos até o final do verão. Fica comigo. Só até o final do verão.
— Leo…
— Não vou te impedir — prometeu ele. — Vou embora, e depois você vai. Mas só quando o verão acabar. Até lá, fica comigo. Perdemos dois anos, agora temos apenas um mês…
— Leo, por favor…
Ela começou a chorar, mas não o afastou.
— Se você não quiser…
— Eu quero, mas…
— Então pronto — interrompeu ele, passando segurando o seu rosto. — Pronto, vamos ficar juntos. Só por esse tempo. Para a gente se despedir.
— Vai ser mais difícil.
— Difícil vai ser de qualquer forma.
Talvez amolecida por suas palavras, ou por Leo ter começado a chorar também, Calipso segurou o rosto dele de volta e o beijou, e foi como beber um copo de água fresca após mil anos de sede no deserto.
Se Lit observava ou não da caminhonete, Leo não saberia dizer. Até a caixa de som entrou num profundo silêncio, e ali, com pisando descalços na areia molhada e de olhos fechados, o beijo era o mesmo que ela o deu tantos anos antes, na ilha, quando ainda era inocente o suficiente para acreditar que morrer e voltar à vida era o suficiente para ficarem juntos. Foi quando ela soltou um suspiro entre seus lábios que Leo soube que, independentemente do quão errado, ruim e cruel isso fosse, os dois não se separariam, ainda que ela até então não soubesse. De um jeito ou de outro, até o fim do verão, ele a convenceria a ficar. Faria tudo o que não fez, diria tudo o que não disse, ouviria seu choro e reclamações por mil horas seguidas, construiria uma máquina que traduzisse os desejos incompreensíveis de Calipso em algo que ele fosse capaz de entender e outra que o tornasse capaz de realizá-los. Acordaria todos os dias meia hora antes do despertador para fazer seus diferentes tipos de chá a cada dia. Compraria flores, cruzaria mares, diria todos os dias que a amava, dormiria ao pé de sua porta esperando que ela a abrisse para pedir desculpas pessoalmente. E quando a chuva voltasse com as aulas e o trabalho e as Caçadoras batendo à sua porta, não importando o que custasse, Calipso não iria embora.
