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Quando seus olhos se abriram, ele sentia-se como se tivesse sido drogado. Havia algo dentro dele que o impedia de se levantar da cama e o forçava a ficar lá, pequeno, miserável, enquanto seus amigos que haviam permanecido em Liverpool viviam suas vidas normalmente, como se nada importasse naqueles 15 dias de folga.
Seus olhos correram pelo quarto que parecia estar em uma escala cinza. Seu corpo magro se encolheu sob as cobertas enquanto uma espécie de frio inexistente causava um arrepio incômodo em sua espinha. Ele não fazia ideia do tempo. Tudo o que ele conseguiu assimilar era que Alisson e Firmino não estavam no quarto e que sua mente era uma espécie de borrão branco.
Seus dedos ossudos subiram até seus lábios e os esticaram, na tentativa de desenhar um sorriso em seu rosto. O ar parecia mais pesado do que normalmente era por conta do frio e sua pele começou a formigar. Esse era mais um daqueles dias. Dias onde tudo parecia cinzento, onde uma força sobrenatural parecia puxá-lo para dentro da cama, onde uma infelicidade descia sobre ele e o deixava distante, reflexivo.
Seu celular estava ao seu lado e não na mesa de cabeceira. Ele não se lembrava de nada da noite anterior. Talvez ele tenha dormido com o celular no colo, por conta do cansaço. Sem mensagens ou outras notificações, justamente quando o que ele mais queria era conversar com alguém. Por um momento o brasileiro pensou em iniciar uma conversa, mas desistiu logo da ideia.
Às vezes os dias eram grandes massas cinzentas que o impediam de fazer o mais simples, como levantar da cama e abrir as cortinas, ou simplesmente ir pegar algo para comer. O fato desses dias nunca “avisarem” quando chegariam o deixava vulnerável ao tempo, como sempre fora.
Transtorno Depressivo Persistente. Esse foi o diagnóstico dado pelo médico da equipe tanto para ele quanto para Kostas, que o tinha em um nível um pouco mais leve. Uma condição onde ele era quase um depressivo, mas ainda conseguia viver em condições normais. Na realidade, era meio que uma espécie mais “leve” de depressão, pois ele ainda podia rir e se divertir com seus amigos, mas, em alguns dias, ele não tinha vontade sequer de existir.
O médico da equipe aconselhou ambos a procurarem acompanhamento psicológico, ao qual ele veementemente negou, mesmo com as súplicas de Roberto à ele. O meio campista se considerava um homem reservado, nunca se abria para pessoas estranhas, não interessavam seus motivos.
O espelho perto da cama mostrava seu rosto meio coberto. Seus olhos estavam baixos, rodeados por grandes marcas escuras. Ele se encolheu em si mesmo, suas mãos um tanto quanto grandes demais cobrindo sua cabeça raspada. Seu corpo parecia mole, dormente, fora da realidade.
Era pedir demais um dia normal, com uma rotina normal? Ele sentia falta dos jogos, por mais cansativos que fossem. O brasileiro estava cansado de acordar sobressaltado no meio da madrugada pensando que logo teriam de sair para algum jogo. Seus dedos doíam de tanto que ele os apertava por causa da ansiedade. A falta do que fazer, o espaço para os pensamentos depressivos, os questionamentos sobre ‘por que eu não fui chamado?’ que rodeavam sua mente dia após dia.
Talvez as coisas tivessem começado a andar para o lado errado quando seu pai morreu. Todos ficam um pouco perdidos quando algum ente querido morre. É o natural da vida. Ninguém está realmente acostumado com a morte, nem mesmo os assassinos e sociopatas das séries policiais que ele assistia com Alisson.
Ou talvez quando o Liverpool começou a desandar e ele voltou a ser criticado e a ser comparado com Thiago. Aquilo o enojava. Ia deixando-o perdido em seus próprios pensamentos sobre si mesmo, duvidando um pouco sobre o que ele realmente era capaz, sempre precisando da validação de seu chefe e amigos próximos.
A perda de um amigo, também. Dentro de quase dois meses eles perderiam Roberto para sabe-se lá qual time. Roberto, que era muito para ele, que sempre lutava por seu time e por aquilo que ele sabia ser importante. Aquele que xingou o jogador adversário de ‘filho da puta’ após ser empurrado em direção aos torcedores do próprio time e que depois humilhou o mesmo jogador fazendo não um, mas dois gols. O falso 9 mais perfeito que ele já viu na história do Liverpool.
A questão principal é que ele se sentia cansado demais para sequer existir. Um bufo saiu de seus lábios. Hoje estava pior do que nunca. Usualmente ele conseguia se levantar e pelo menos preparar um café. Hoje, nem isso ele conseguia fazer.
Seu celular apitou. A tela parecia brilhante demais. Era uma mensagem do WhatsApp para ele.
Bobby: Ei cara
Fabi: Ei
AliBecker: Estamos preocupados guri
Bobby: É
Fabi: Não tem pra que se preocupar
Fabi: Tô bem juro
Fabi: Só não quero descer
O celular foi novamente esquecido em algum canto. Um nó se formou no fundo da garganta mas ele engoliu em seco com força. O que ele menos precisava agora era chorar.
Seus dedos tateiam a mesa de cabeceira em busca dos antidepressivos. Talvez um comprimido diário pudesse deixá-lo se levantar e abrir as cortinas. Para seu desespero, os remédios não estavam ali. Deixando um rosnado baixo sair, ele se virou nas cobertas e fechou os olhos, esperando que ele dormisse e aquele dia passasse.
Aparentemente seu corpo tinha outros planos, pois sua pele parecia estar ligada em alguma fonte de eletricidade. Seus dedos do pé formigam sob as meias e ele mal pode senti-los. O meio de campo começa a esfregar o pé no colchão, tentando senti-lo.
A porta se abre com um gemido alto, indicando a falta de óleo nas dobradiças. Uma mão pousou sobre sua cabeça, quente e amigável. Ele sabe quem é, seu coração acelera e seu âmago anseia por ele. Um som rouco saiu de sua boca e ele agarra aquela mão entre seus membros ossudos, ansiando pelo contato amável.
Porque ele sabe que seu corpo sempre vai reconhecer Roberto, sempre vai ansiar por ele, por sua voz grave, seus abraços, suas demonstrações nordestinas de carinho. E ele sabe que o homem mais baixo lutará com os maiores monstros para deixá-lo feliz novamente. Seus dedos apertam os ossos da mão um tanto quanto pequena de Roberto enquanto ele tenta orientar seu corpo sobre o que fazer.
“Fabi?”
E é aí que ele desmorona. Seus dedos puxam a camisa do mais velho até que ele esteja sobre o mais alto, tateando por seu cabelo e rosto. Ele precisa de contato conhecido, sem frio, sem vazio, sem palavras que ele não pode entender. Ele necessita de alguém que o puxe novamente para fora de sua espiral, do borrão que sua mente é nesses dias. Suas pernas prendem Firmino em uma espécie de abraço desajeitado, seus dedos correndo por suas costas na velocidade de um pianista talentoso.
Felizmente, Roberto pareceu entender o quão baixo ele havia conseguido cair naquela manhã.
“Parece que sua mente não foi muito gentil hoje, hm?” - E aquela risada, aquele som doce, o faz relaxar aos poucos, sua pele queimando com o contato enquanto sua depressão luta para deixar seus olhos cinzentos.
Mas ele luta, ele luta contra a infelicidade, pois é impossível viver perto de Roberto Firmino e não ser invadido pela luz, pelo calor que ele transmite. O brasileiro mais velho é alegria pura. É o coração e a alma do Liverpool, mesmo que ele não consiga se comunicar direito com as pessoas por conta da barreira da linguagem.
As mãos do mais baixo acariciam seu rosto enquanto seu ouvido descansa sobre seu peito. O mais alto relaxa, se familiarizando novamente com o corpo sobre ele, com o carinho tão cuidadosamente transmitido. Um suspiro longo sai dele enquanto sente as pontas dos dedos de Bobby fazerem um caminho por sua cabeça, mesmo que não haja cabelo ali para afastar.
Por um momento ele se pergunta se o contato pareceria melhor se ele ainda tivesse cabelo. Rindo por dentro de sua estupidez, ele se contenta em sentir os cachos de Firmino em suas mãos.
O nariz de Roberto roça contra o dele e ele se assusta. O outro recua, curioso, com seus grandes olhos que, dependendo da luz, podiam ser tanto castanhos quanto verdes - ele sabia que os olhos de Roberto eram verdes - e espera que algo saia de sua boca.
“Desculpe, não sei se estou pronto para isso.” - Ele se desculpa, seus braços envolvendo a cintura de Roberto.
O artilheiro acena com a cabeça e acaricia as maçãs do rosto ossudas do meio campista, que estremece com o carinho. Fazia muito tempo que ele não era cuidado dessa forma, como se alguém realmente se preocupasse com ele.
Os lábios frios de Roberto cobrem sua testa, sua mandíbula e o sinal de nascença abaixo de seu olho esquerdo. O brasileiro mais novo se pergunta se era assim que Alisson se sentia quando cuidado por Virgil. Seus olhos vêem cores pela primeira vez desde que acordou.
Ele não vai dizer a Roberto que sua pele cor de caramelo foi a primeira cor que ele conseguiu reconhecer em seu mundo cinzento. O mais velho não precisa saber. Por enquanto, o mais alto apenas deixa Roberto cuidar dele, deixando pequenos beijos em sua mandíbula e um maior e mais longo em seus lábios, pele contra pele, amor irradiando dele como de um forno quente.
Ele arrulha de satisfação. Ele ainda se sente indisposto para se levantar e viver, mas Roberto consegue deixar seus dias cinzentos um pouco mais toleráveis.
“Eu te amo, Fábio Henrique Tavares.” - Bobby acaricia a bochecha de Fabinho, admiração em seu olhar.
Fabinho sabe que, se ele cair, sempre haverá Roberto para pegá-lo.
Seus dedos se demoram nos cabelos naturalmente enrolados de Firmino. Ah, como ele sentirá falta do outro homem quando se separarem. Mas, de novo, Roberto não precisa saber disso.
Existem muitas coisas as quais Roberto não precisa saber quando se trata dele. Como por exemplo, a lâmina escondida no banheiro, as marcas irregulares no dorso de sua mão.
Tudo isso pode ser esquecido com futebol e as mãos secas e gentis de Firmino entre as dele.
“Eu também te amo, Roberto Firmino.” - Ele não consegue sorrir, mas esfrega o nariz contra a pele aquecida.
Amor é tudo o que entorpece os sentidos agora. A dormência desapareceu por enquanto.
