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Until The Last Flower Withers

Summary:

Tighnari is a florist whose homeland is bombed.

Cyno is a general, protecting his country from the front lines.

Collei is just a child scarred by war.

 

Until the last flower withers, Cyno promises to be back to bring a new one to replace it. Collei waits patiently. Tighnari tries to do the best for both of them.

___________________________________________

Tighnari é florista que tem sua terra natal bombardeada.

Cyno é um general, protegendo seu país nas linhas da frente.

Collei é apenas uma criança marcada pela guerra.

 

Até à ultima flor murchar, Cyno promete estar de volta para trazer uma nova para a susbtituir. Collei o espera pacientemente. Tighnari tenta fazer o melhor pelos dois.

Notes:

Hi, this is my first time posting something on this site. Unfortunately I'm not fluent enough to translate my works.

Anyway, I hope the story is enjoyable. Let's fill the CynoNari category, they deserve it.

Do not use the game map as a reference, it was something quite abstract.
Read the categories and proceed with caution.

Work Text:

O continente se dividiu em dois e a guerra se alastrou. O oeste acusa o leste das constantes provocações e afrontas às suas fronteiras, o leste acusa o oeste de praticar incontáveis atentados humanitários ao seu povo.

A guerra explodiu há 4 anos. Quem está certo, quem está errado, apenas os mortos os poderam julgar desde o inferno.

Tighnari é um dos que conseguiu escapar há quatro anos da fronteira que foi consumida pelas tropas estrangeiras. Na sua coxa direita, a marca escura e profunda de uma bala descansa silenciosamente sobre a carne deformada. Durante essa semana, sua audição também foi prejudicada e dois dedos da sua mão esquerda foram arrancados, como castigo por não ter conseguido aguentar o refluxo do seu estômago após ser obrigado a engolir o olho de um cadáver.

Felizmente ou infelizmente, diferente do cadáver daquela criança e muitos outros, Tighnari teve uma oportunidade de viver, sob a proteção da cavalaria liderada pelo capitão Mahamatra. Um nome que foi aclamado por todo o país como um herói de guerra ao longo desses quatro anos.

"Você tem muito o que agradecer ao general Mahamatra por tão poucos machucados, só os deuses sabem o que poderia ter acontecido."

Tighnari demonstra sua gratidão publicamente e dá um pequeno sorriso quando alguém o elogia na sua frente. Entretanto, quando as luzes se apagam, as ruas se calam e o sopro suave do vento é o seu único companheiro, os fantasmas daquela semana ainda sussurram dentro da sua mente. O seu peito pulsa. Seus olhos transbordam. A dor invade cada extremidade do seu corpo fazendo-o vislumbrar o cheiro e o sabor da morte mais uma vez.

Em cada noite que seu corpo pulsa e grita, numa poça suada e vomitada, Tighnari não consegue pensar em gratidão ou dívida. Apenas o pensamento intrusivo de que a morte seria mais agradável o embala. Seu salvador ou punidor, o general Mahamtra é os dois.

Entretanto Tighnari não procura a morte, ele a espera pacientemente, por covardia e preguiça.

Após o segundo ano da guerra, Tighnari tentou retomar aos seus hábitos normais. A guerra continua, ele precisa continuar também. Mais do que nunca, o híbrido se enfiou nos livros de botânica e medicina. Quase como um monge, o homem se refugiou na vegetação densa das montanhas, longe das povoações barulhentas, preferindo os gritos histéricos das raposas pela madrugada do que as risadas e as conversas que ainda adivinham um presságio de má sorte na cabeça do homem. Seus dias foram passados no meio das plantas que ele tanto amou a vida toda, estudando e apontando. Algo que o ajudou a se esquecer do inferno em que seu país está mergulhado.

Quando você não pode fazer muito, faça apenas o possível.

Com esse pensamento, Tighnari aceitou finalmente a proposta de uma senhora já idosa de continuar seu trabalho como florista. A mulher viúva e com o seu filho morto na guerra, apenas queria passar seus últimos dias em paz, chorando o luto da sua família. O que acontece com a sua pequena lojinha, não era realmente importante nesse momento. Entretanto, Tighnari fez valer a pena e se dedicou de alma e coração naquele negócio. Estudando dia e noite, com o tempo, para além de flores e foi também capaz de desenvolver pomadas e elixires medicinais que começaram a ser famosos com o tempo pela vila.

Num mundo onde suas esperanças murcharam pelas cinzas, Tighnari pensou que o melhor que poderia fazer era dar água e solo para as pequenas flores que ainda queriam viver.

O homem fez disso seu motor de viver.

 

[. . . .]

 

Quatro anos é bastante tempo na vida de um jovem. Quatro anos mergulhados em cadáveres e sangue, são o dobro na vida de um homem.

Tighnari conseguiu ver isso, nas feições ainda redondas, mas demasiado sérias para alguém de 27 anos.

General Mahamatra é centímetros mais baixo que ele, Tighnari pode perceber agora, mas sua presença causa mais temor. Anos atrás, seu olhar brilhava como lava derretida, montado num cavalo negro e acertando tiros em seus inimigos. Seus gritos eram inquebráveis para os seus homens, que galopavam pelas ruas esmagando os cadáveres em decomposição. Sangue e entranhas marcando as paredes de cimento esburacadas não o fizeram vacilar, ou tiraram o objetivo brilhante nos seus olhos. Foi a primeira ofensiva do seu país, precipitada, que a maioria esperava o fracasso por ter sido comandada por um novato. Entretanto, General Mahamatra se mostrou um prodígio em liderança e estratégia.

Seu braço está enfaixado desta vez.

Seus olhos castanhos, quase carmesins, parecem uma pedra imóvel e gélida.

Um homem sempre será um homem. Ele quebra, ele sangra, ele também sente dor.

Nos jornais, ele sempre tem uma pose intimidadora e confiante. As citações sempre parecem assertivas e diretas. Uns quantos velhos terão que baixar a cabeça a ele. Entretanto, para onde ninguém tem coragem de olhar, descansam olheiras carregadas que se afundam em olhos sempre atentos.

Tighnari não esperava que aquele homem entrasse na sua humilde florista, vasculhando desajeitadamente pelas parteiras floridas.

Seus olhos pararam na lista de flores na sua parede perto da entrada. Por conveniência, Tighnari colocou uma lista com as suas flores e o seu simbolismo na frente. Assim, o homem não teria que se repetir constantemente para os seus clientes que queriam dar um presente especial a alguém. Além desse, havia muitas outras tabuletas escritas pela loja, com dicas de chás e ervas medicinais. Puro capricho, pois grande parte dos seus clientes eram analfabetos. Tighnari ainda tinha esperanças que alguns deles pudessem aprender uma ou outra palavra ali.

Entretanto, o prodígio da nação obviamente seria letrado, não seria necessária uma introdução da sua parte.

"Procura algo em específico?" Tighnari perguntou gentilmente, dando a volta ao balcão.

O homem deu-lhe um pouco de atenção silenciosa. Seu chapéu formal com 3 estrelas, mostrando o seu escalão no exército cobria um pouco dos seus olhos, tornando-o menos amigável. Apenas seu chapéu formal e os sapatos de couro preto e brilhante mostravam a sua importância.

"Eu gostaria de uma rosa, vermelha."

Tighnari distraidamente alcançou uma e cortou o seu caule, preparando para colocar um pequeno laço na flor.

Algo bonito, delicado, perfeito para um amante. Essa deveria ser a única razão para um homem como ele visitar uma vila não isolada, longe da capital e de todo o conflito.

Uma amante que ele correu pra proteger, longe do fogo, perto da água.

Fora as falas do pagamento, nada mais foi dito. O General saiu em silêncio assim como entrou na sua loja.

 

[. . . .]

 

Dois dias depois, seu sininho na porta volta a tocar, dando as boas-vindas ao General. Seu braço continuava enfaixado, preso ao pescoço.

A rosa vermelha foi novamente a sua escolha e sem mais conversas.

O resto do mês foi passado assim, com o homem vindo de dois em dois dias, comprando uma rosa e desaparecendo pela rua.

Tighnari não é alguém que seja bom em conversa fiada. Ele gosta de falar de botânica e também gosta de dar mini palestras aos seus pacientes. Talvez ele seja um pouco rígido com as crianças, então elas são bem ordeiras perto da sua porta. Sendo assim, ele nunca descobriu qual o destino que aquele homem toma após sair pela sua porta. Se ele sente curiosidade? Ele não tem muito o que questionar, desde que o dinheiro continue caindo e sua mercadoria sumindo, isso é bom o suficiente.

[. . . .]

 

“Essas pílulas costumam ser boas para diminuir a fadiga e a febre. Administre no máximo três vezes ao dia à criança. Esta infusão de ervas irá ajudar a garganta também. Tente não dar muita comida gordurosa também.” Tighnari explica calmamente à senhora que examina o pequeno frasquinho nas mãos. Seus olhos vermelhos e carregados pelo sono demonstram uma gratidão silenciosa. Mais lágrimas transbordam dos seus olhos.

“Doutor Tighnari, muito obrigada, eu não sei como agradecer. Os medicamentos industrializados estão num preço absurdo, eu não sabia mais a quem recorrer, muito obrigada.” A mulher enxuga mais as suas lágrimas em meio aos soluços, agarrando o frasquinho perto do peito como se fosse sua tábua de salvação.

Tighnari suspira com pesar, colocando uma das mãos no ombro da mulher, tentando dar algum apoio.

“Seja paciente, vai ficar tudo bem.”

A mulher balançou a cabeça concordando, pegando algumas moedas do bolso e colocando-as em cima do balcão. O homem apenas pegou 5 delas e deslizou as outras na direção da mulher.

A senhora vendo aquilo ficou ainda mais emocionada chorando com mais intensidade. Inclinando a cabeça várias vezes e agradecendo profundamente, ela saiu da loja aos prantos.

Tighnari não era alguém de palavras mansas, mas era bastante empático com os outros.

No final do dia, o importante é se deitar na sua cama de consciência tranquila.

Quando a mulher passou pela porta, o General apareceu também. Seu braço já não estava atado no pescoço, mas as ataduras ainda eram vistas por baixo da manga da camisa.

Seus olhos inexpressivos acompanharam a senhora saindo da loja. Sem um bom dia ou boa tarde, o homem caminhou calmamente até Tighnari. O híbrido o cumprimentou com um breve sorriso.

“Eu gostaria de uma flor que fosse duradoura dessa vez.” O General falou, sua voz rouca e sem emoção. Tighnari estranhou o pedido, calmamente ele deu a volta no balcão e o levou pela loja.

“Bem, flores não são algo duradouro, a menos que queira uma num vaso. Até as mais resistentes vão durar no máximo duas semanas em bom estado.” Tighnari o avisou cordialmente.

“Isso é o suficiente.” O homem o seguiu.

Tighnari beliscou o próprio queixo e sua orelha balançou, um pouco pensativo.

“Lisiantos talvez possam ser uma boa escolha, são flores bonitas para dar a um amante.” O homem falou, distraidamente.

O General parou, o encarando com as sobrancelhas contraídas. Sua expressão pouco amigável tornou-se ainda mais intimidadora.

“Quem falou em amante?” A sua voz soou ríspida e dura, fazendo as orelhas de Tighnari balançarem mais um pouco e se contraírem para trás.

“As rosas não eram para uma amante?”

“O que o fez pensar isso?”

“Bem, normalmente elas têm essa conotação.” Ele falou cuidadosamente.

“Quem se importa com o seu significado? Se a flor é bonita e cheirosa, isso é o importante.”

Tighnari ficou em silêncio pela falta de sensibilidade daquele homem. Obviamente comprar rosas vermelhas constantemente poderia ser interpretado erradamente por qualquer um. Interiormente, o homem sentiu lástima pela pessoa que aquele homem poderia estar a iludir sem mesmo perceber.

Balançando a cauda desconfortavelmente, Tighnari mudou de assunto.

“Então, um copo de leite também é um pouco resistente, e é uma flor bastante delicada e bonita.”

“Quero três então.” O General relaxou um pouco após isso.

Tighnari retirou as três flores mais jovens e as prendeu com um lacinho rosa, assim como fez com todas as outras rosas. Ao entregar o pequeno conjunto para o homem, o General continuou quieto, como se estivesse ansioso por dizer algo.

O híbrido não o pressionou e, em alguns segundos, o homem abriu a boca.

“Doutor, você por acaso tem algo para pele que está descamando?"

Ser chamado de doutor por um general do exército parecia ainda mais estranho do que por algum dos seus clientes.

“Pele seca?”

“Não exatamente?” O homem fez uma pequena pausa. “Eu estou acompanhando uma criança e ela é bastante doente. Ela tem bastantes tonturas e constantes quebras de tensão. A sua pele, principalmente braços, mãos e pescoço, escama constantemente ao ponto de sangrar, o que a faz ter infeções e febres.” Ele explica.

“Oh, entendo.” Tighnari belisca o queixo um pouco pensativo, voltando a balançar as sobrancelhas. “Já algum médico a analisou?”

“Já, infelizmente, apenas receitaram alguns anti-inflamatórios e umas pomadas que não surtiram muito efeito, apenas aliviaram as dores.”

“Talvez seja alguma alergia?”

“Ela diz que sempre foi assim.”

“Hm, talvez má circulação…”

O General não disse mais nada.

“Venha aqui.” Tighnari o chamou para a porta adjacente. O general deixou o ramo de flores sobre o balcão e o seguiu. Na pequena sala, havia alguns móveis com ervas e plantas medicinais, assim como pílulas e pomadas pré-feitas, cada um rotulada devidamente. Na mesa no centro da sala, vários livros se amontoavam por baixo e por cima, junto com cadernos de apontamentos. Junto à porta, estava uma outra mesa com alguns frascos vazios e material médico e farmacêutico.

O híbrido abriu um dos seus cadernos e depois um dos seus livros de botânica. Ordeiramente ele pegou em algumas ervas e sucos concentrados, medindo cuidadosamente e deixando-os ferver sobre uma lamparina a óleo. No tempo que a mistura estava fervendo ele continuou folheando os livros atentamente.

O general não fez qualquer barulho, esperando e o acompanhando atentamente com o olhar.

Após aquecer e deixar arrefecer, Tighnari procurou por uma pomada nas suas estantes e juntou algumas pílulas dentro de um frasco.

Cuidadosamente ele entregou tudo para o homem.

“Bem, tente utilizar esta pomada para a cicatrização, fique atento, é normal arder no início, mas se a dor persistir e a zona ficar mais vermelha depois de meia hora, limpe com água, apenas água. Tente não usar qualquer tipo de sabão para a limpar. Irei tentar produzir um sabão de acordo com a reação do corpo dela a essa pomada. Essas pílulas são apenas em caso de extrema dor, não administre recorrentemente. Esse remédio é para ser tomado após o pequeno-almoço e jantar. Uma colher pequena já que é uma criança. Após quinze dias, se não houver melhoras, pare o tratamento.” Ele explicou, recebendo pequenas confirmações com a cabeça. “Claro, se fosse possível, gostaria de vê-la pessoalmente.”

“Certo.” O homem concordou. “Irei trazê-la assim que possível, obrigado Doutor."

“Por favor, não me chame assim General, eu não tenho qualquer papel que me dê esse estatuto. Tighnari é bom o suficiente.” O homem o advertiu, conduzindo-o para fora da sala.

“Certo.” Ele concordou mais uma vez retirando uma nota de cem do bolso. O homem piscou um pouco surpreso. Infelizmente Tighnari nunca foi bom escondendo seu desgosto, e a sua expressão enojada repreendeu o outro homem que não esboçou qualquer sentimento. “Pode me chamar de Cyno também.”

Com um leve reconhecimento com a cabeça, o homem desapareceu pela sua porta mais uma vez.

Tighnari não fazia cenas e muito menos caridade a quem não necessitava dela. Mesmo com a atitude aparentemente arrogante, o híbrido guardou o dinheiro.

 

[. . . .]

 

Dez dias após isso, Cyno voltou à sua florista.

Desta vez o seu longo cabelo branco vinha atado no cimo da cabeça. Sua roupa quase sempre formal, foi substituída por algo mais cômodo e comum. O seu braço já não tinha ligaduras e parecia novamente bom.

Tighnari que lia um dos seus mais recentes livros sobre anatomia, rodou uma das suas orelhas na direção da porta, antes de levantar a cabeça.

Cyno retirou uma das rosas alaranjadas, uma das suas novas aquisições que impregnou a sua loja com um cheiro incrivelmente agradável. Uma, depois outra, o homem levou as duas rosas até ao balcão.

Tighnari o olhou com uma sobrancelha levantada.

“Você não acha falta de educação mexer na mercadoria dos outros sem pedir antes? Não lhe dei toda essa intimidade.” Tighnari advertiu, talvez um pouco grosseiro, mas Cyno não alterou sua expressão apática.

“Eu não quis interromper a sua leitura.”

“...” Tighnari se calou por uns segundos, fechando o livro em seguida e se levantando. Com as orelhas levemente inclinadas para trás, demonstrando seu descontentamento, o homem começou a cortar os caules das suas flores e a prender o icônico laço.

“Da próxima eu vou-lhe trazer novas cores de tecidos.” Cyno disse sem grande expressão, observando o homem dando o lacinho.

“Não precisa.”

“Tome isso como um capricho da minha parte.” O homem falou de forma inabalável, recolhendo as flores e entregando o dinheiro.

Tighnari fez uma pausa, contando e recolhendo as moedas.

“Como está a criança que me falou da última vez?” O homem perguntou distraidamente, quase por rotina.

Cyno ficou em silêncio por uns segundos, analisando as flores na sua mão.

“Eu vou vê-la agora, gostaria de vir comigo?”

Não que Tighnari não suspeitasse, entretanto, ele agora sabia que aquelas flores eram para aquela criança.

“Tudo bem.” Ele concordou.

O lugar para onde Cyno o levou foi para o orfanato, no outro extremo da vila, um pouco isolado por grandes pinheiros e abetos.

Os dois foram recebidos no portão por uma doce mulher, chamada Lisa, que os cumprimentou com bastantes sorrisos.

Cyno ainda se mantinha sério, mas bastante mais educado com aquela mulher. Embora Tighnari não a conhecesse, a mulher o cumprimentou e sorriu docemente na sua direção, o chamando de Mestre Tighnari. O híbrido de feneco ficou bastante desconfortável com o novo apelido e isso se demonstrou nas orelhas puxadas para trás.

“Por favor, não me trate desse jeito.” Ele pediu após a cumprimentar.

A mulher colocou uma mão sobre o seu sorriso e se desculpou.

“Acho que fui muito descuidada, estou realmente entusiasmada por conhecê-lo, graças a você nossa pequena Collei está melhorando a sua condição.” Ela falou enquanto os levava pelo orfanato.

“Fico feliz por saber.” Tighnari sorriu levemente.

“Ela já saiu da cama?” Cyno perguntou.

“Bem, ela já passa o dia de pé e tem alguma energia, entretanto ainda a mantemos no quarto caso tenha uma nova quebra. Por causa das condições da pele dela não sabemos se será bom tê-la ao sol também.”

“Entendo.” O homem concordou.

Tighnari continuou ouvindo o relatório da mulher sobre a criança. Embora Cyno não mostra interesse em quase nada, naquele momento, ele parecia ter um único foco.

Tighnari apenas pode pensar que aquela criança era muito importante para ele.

Quando chegaram na porta do quarto, Lisa bateu suavemente e anunciou que Cyno estava de volta. Do outro lado da porta, os passos apressados e desajeitados da criança foram ouvidos e a portinha foi aberta.

“Tio Cyno!” Ela gritou correndo para abraçar o homem que rapidamente a agarrou no colo.

“Collei.” Ele cumprimentou com um sorriso, tendo o pescoço abraçado com força. Um sorriso tão singelo, tão límpido, mas tão estranho na expressão sempre tão séria e intimidante. Tighnari viu os ombros do homem relaxarem enquanto a criança se afundava mais no seu abraço, quase como um encontro de pai e filha. Embora, pela forma como a menina se dirigiu a ele, ele não deveria ser seu pai ou sequer parente, uma vez que Cyno não tinha irmãos registados até onde Tighnari sabia.

“Tio, olha.” A criança se afastou do abraço e mostrou um dos seus braços. “Tão cicatrizando tio, já não preciso das ligaduras nos braços, assim como o tio.”

O homem sorriu calorosamente.

“Claro, a Collei é tão forte como o tio.” Lisa falou, escondendo delicadamente o sorriso por trás da mão.

Os olhos da menina brilharam com a comparação ao homem e ela o olhou expectante, esperando por uma concordância.

Cyno balançou a cabeça e colou um beijo na testa pálida da garota.

“Claro, em breve a Collei poderá ir brincar com a Amber para o jardim.”

“Estou ansiosa tio Cyno.” Ela falou sorrindo.

“Sim, mas antes, você precisa agradecer ao tio Tighnari, foi ele quem lhe deu sua nova medicação.”

A menina olhou o terceiro adulto com alguma timidez, diferente de como encarou Cyno.

“Obrigada, doutor.” Ela agradeceu num sussurro, se escondendo no peito de Cyno que apoiou as suas costas com delicadeza e afeto.

Tighnari sorriu calmamente, ignorando a forma como ela se dirigiu a ele.

“Ela é um pouco tímida, Tighnari, lide com calma com ela.”

“Certo.” Tighnari concordou, balançando inocentemente as orelhas, chamando a atenção da garotinha. Felizmente para ele, suas partes animalescas sempre o faziam parecer mais afável para a maioria das crianças, que sempre queriam se aventurar a tocar e desordenar o seu pelo. Entretanto, a garota não se mexeu para fazer isso. “Seu tio parecia bastante preocupado quando me contactou, você deve ser muito importante para ele. Cuide bem dele, garotinha.”

As bochechas da garotinha ficaram um pouco rosadas e ela sorriu levemente se espremendo mais no homem. Ser amada e estimada por alguém, não há sentimento mais reconfortante que esse. Principalmente, em tempos de guerra.

“Tudo bem o titio verificar seus ferimentos? Vamos deixá-la saudável para poder brincar com os seus amigos.”

Ela olhou para Cyno, como se pedisse por uma autorização que foi concedida por um balançar de cabeça. Delicadamente ela foi colocada no chão e expôs as suas mãos e braços.

Tighnari passou um bom tempo analisando os machucados e fazendo perguntas a Lisa sobre como ela havia reagido à medicação. Após isso ele redigiu uma receita de infusões e comida que poderiam ajudar na sua recuperação. Alguns conselhos básicos sobre como fazer curativos caso as coisas piorassem e a garantia que iria voltar para a observar e talvez trazer mais algumas coisas de suporte.

Enquanto eles discutiam, Collei mostrava animadamente seus novos desenhos e sua coleção de marca páginas que ela fazia com as rosas que Cyno lhe trazia recorrentemente. Novos livros e um bonequinho de um cachorro que ela estava aparentemente construindo. De longe, Tighnari pode ver uma das fitas rosa enlaçadas no pescoço do peluche.

 

O homem esperou Cyno até ele se ir embora, uma hora depois. Os três copos de leite da jarra na janela do quarto da menina foram trocados pelas duas rosas e ela sorriu, observando as novas flores frescas enchendo o seu quarto de perfume.

“Eu já consigo perceber o tempo passar, Tio Cyno.” Ela falou, cheirando as flores na jarra. O homem acariciou os seus cabelos verdes cuidadosamente.

“Então não queres mais as minhas flores?” Ele perguntou inexpressivo.

“Não, elas deixam meu quarto bonito.” Ela falou, gargalhando gentilmente, dando um abraço de despedida no homem.

Tighnari observou pacientemente, se despedindo com um sorriso e um balançar de mão, que foi correspondido timidamente pela garotinha.

 

Cyno o levou de volta, uma caminhada silenciosa, mas não tão constrangedora. Talvez já fosse tão comum entre eles que não era incomodo. Suas interações sempre foram silenciosas e, aparentemente, ambas as partes sabiam respeitar o silêncio um do outro.

Distraidamente, Tighnari acabou perguntando algumas coisas sobre a garotinha, coisas pontuais que ele acabou lembrando. Pequenos detalhes que encontrou pelo quarto ou diálogos que as suas orelhas captaram.

“Ela não se dá conta da passagem do tempo?” Ele perguntou, recebendo um balançar de ombros do homem.

“Não exatamente.” Ele fez uma pequena pausa antes de continuar. “Na verdade, ela ficou bastante doente antes de vir para cá. Ela deixou de comer e sua condição piorou drasticamente. Então ela passava o tempo acamada, dormindo ou desmaiada pelas quebras de tensão. Isso a fazia ficar inconsciente por muito tempo, então ela perdia a noção da passagem dos dias.” Ele explicou. Tighnari balançou uma das orelhas, ainda curioso.

“Então as rosas…”

“Ela não confiava em ninguém quando veio para cá, então eu fiz um pacto com ela. Antes das flores murcharem por completo, eu estaria de volta para a visitar e trazer mais. Assim ela saberia quando eu a voltaria a visitar.”

“Interessante.” Tighnari comentou.

“Suponho.”

“Deve ser bom ouvir que ela não precisa mais delas para isso.”

“Sim.”

Tighnari sorri levemente com compreensão.

“Você a estima muito.”

“O dever de um adulto é cuidar de uma criança.”

“Você tem muitos deveres sobre os seus ombros, General Mahamatra.” Tighnari provocou, com alguma sátira, fazendo o homem do seu lado sorrir ligeiramente.

“Desejo o dia que poderei, finalmente, não ter.”

Tighnari revirou os olhos ao ouvir isso.

“Pessoas como você nunca vão parar de ter o que fazer até o leito da sua morte.”

Cyno bufou com algum divertimento.

“Não apenas eu, não é?” Ele questionou, parando finalmente à porta da pequena florista. “Mesmo depois de perder os dedos há quatro anos, o Mestre de Gandharva continua tentando salvar os outros.”

As orelhas de Tighnari contraíram ao ouvir esse nome. Seus olhos bicolores se arregalaram ao olhar a expressão serena do outro homem.

Cyno apenas sorriu levemente, balançando a cabeça em despedida e indo embora.

Mestre de Gandharva, Tighnari não voltaria a ter um título semelhante a esse.

 

[. . . .]

 

“Seria bom trazeres a Collei, da próxima vez.” Tighnari fala guardando o dinheiro na sua caixinha e continuando a montar os arranjos de flores para um velório. “Vou estar um pouco ocupado esta semana e não vou poder visitá-la pessoalmente. Gostaria de ver seu estado.”

“Tudo bem ela vir até aqui?” Cyno perguntou segurando um ramo de cravos brancos.

“Ela parecia bem a última vez, acho que será bom ela sair um pouco do orfanato de vez em quando."

Cyno pareceu hesitar por um segundo, encarando os cravos na sua mão.

Contudo, ele não questionou e obedeceu.

No dia seguinte, o sininho voltou a tocar, desta vez com Cyno e uma garotinha chorosa no colo. Collei se escondia timidamente no ombro de Cyno e não desgrudou até entrar na pequena florista e ver Tighnari.

“Oh deuses.” Tighnari se assustou e se aproximou dos dois. “O que aconteceu?”

A menina levantou o olhar aguado e encarou o homem, recebendo um leve afago na cabeça como consolo.

“Collei é tímida."

“Collei não gosta de pessoas.” A menina corrigiu, se escondendo no ombro do homem mais uma vez.

Tighnari obviamente sentiu culpa por tê-la colocado nessa posição. Suas sobrancelhas se pressionaram e ele repreendeu silenciosamente Cyno por não o advertir antes que isso poderia acontecer. O homem apenas levantou a sobrancelha como se dissesse silenciosamente, ‘Como a culpa pode ser minha?’.

Tighnari não iria discutir na frente de uma criança, então ele apenas afagou as costas da menina.

“Tudo bem Collei, me desculpe, a culpa é minha. Eu não sabia que isso lhe incomodaria tanto.” Ele pediu calmamente. “Eu vou estar muito ocupado essa semana e estava preocupado com o seu estado de saúde, então pedi ao Tio Cyno que a trouxesse para dar uma checada.” Ele explicou, sentido o pequeno corpo sob a sua calma relaxar lentamente. “Não irei voltar a colocá-la nessa situação, tudo bem? Se endireitar, vamos nos acalmar. Tenho algo muito legal para lhe mostrar.” A menina levantou o rosto, acompanhando o homem com o olhar, enquanto ele vasculhava os bolsos das calças.

Com um sorriso desafiador e um balançar de orelhas, Tighnari esticou os dois punhos fechados.

“Vamos fazer um jogo, se você acertar em qual mão está a surpresa você poderá ficar com ela.”

A menina se esticou na direção de Tighnari, limpando as lágrimas incômodas do rosto. Cuidadosamente, ela acabou escolhendo a mão que parecia mais volumosa.

Um pequeno sorriso se formou nos seus lábios e ela soluçou esticando a mão gorda para pegar o pequeno objeto.

“Um gatinho.” Ela riu novamente, voltando a ter uma cor rosa e fofa nas bochechas pálidas

“Não é fofo? Eu fiquei pensando no peluche que você estava tentando fazer na última vez, e acabei esculpindo esse.”

A garota assentiu, maravilhada com seu novo brinquedo.

“O tio Tighnari é tão habilidoso, como fez isso?” Ela perguntou, alisando os contornos da madeira.

O homem gargalhou levemente e se esticou na sua direção. Como se fosse contar um segredo, o homem sussurrou com uma das mãos ao lado da boca.

“Quer saber um segredo sobre o tio?” A garotinha o olhou com curiosidade assentindo levemente.

Tighnari cantarolou e retirou a sua luva, mostrando a palma da mão laranja contrastando no pelo negro. Na ponta de cada dedo, descansava uma macia almofada alaranjada que escondiam garras retráteis e bem afiadas. Tighnari contraiu e relaxou as garras, mostrando para a garotinha que suspirou em admiração.

“Como um gatinho!” Ela gritou maravilhada, esticando uma das mãos para tocar. Entretanto, a meio caminho, ela parou e pediu silenciosamente autorização a Tighnari com o olhar. O homem balançou a cabeça em concordância e a garotinha brincou, massageando e apertando a zona, encantada com a unha entrando e saindo, assim como a fofura do local.

Tighnari se sentiu amolecer com aquela cena e sua cauda balançou em satisfação.

Com isso, a garotinha conseguiu finalmente relaxar e esquecer seu pânico de há pouco.

Após disso, o homem fez seu check up rotineiro, observando o estado das feridas e os sintomas que ela tinha. Tudo parecia bem.

Ele pensou que talvez daqui a um tempo ele pudesse diminuir as doses e observar se os sintomas iriam piorar ou não. Até agora, o homem não sabia exatamente o que a garota possuía, se era crónico ou passageiro. Entretanto, a medicina é sobre experimentar e analisar. Ele pensaria mais profundamente nessa hipótese posteriormente, quando Collei estivesse mais estável.

Após isso, a garotinha insistiu em ficar pela florista, encantada com todas as flores e arranjos. Cyno não poderia ficar o resto da tarde, então ambos combinaram que ele voltaria pelo fim da tarde para a levar de volta. A garota concordou, animada, divertida em esfoliar os livros de floricultura de Tighnari. Tudo tão colorido, com flores que ela nunca fira. Ela queria ficar o dia inteiro naquelas páginas de livros analisando imagem por imagem.

Tighnari percebeu que quando ficava à vontade, Collei se tornava extremamente faladora, divagando sobre o que seriam as plantas, já que ela não conseguia ler ainda.

O homem recitava suas linhas decoradas sobre cada planta, detalhadamente, como um velho professor. Ao qual era respondido com: “Que chato tio.”

Tighnari não ficaria ofendido, não quando isso vinha de uma criança.

Depois de se cansar do livro, a garota foi ajudar na construção dos arranjos, cortando os caules das flores. Tighnari agradeceu a ajuda, e a garota mais uma vez divagou, desta vez, contando sobre a sua vida no orfanato. Sobre a Amber, sua melhor amiga, e a senhorita Lisa que sempre a ajudava em tudo. Num momento, Tighnari ficou em divida e teve que prometer esculpir um coelho para a sua amiga.

Toda essa tarde lhe aqueceu o peito. Pela primeira vez em quatro anos, Tighnari sentiu seu coração se enchendo mais uma vez.

Cyno chegou mais tarde do que o esperado, com uma postura ansiosa e uma camada de suor na testa. Collie já dormia enrolada num dos casacos quentes de Tighnari, agarrada na sua cauda e recebendo cafuné nos cabelos. O homem lia distraidamente um dos seus livros quando Cyno entrou na sua lojinha. Apenas a luz a óleo no meio da sala iluminada os dois corpos sentados sobre um cobertor grosso no chão, local onde passaram a tarde construindo os arranjos fúnebres.

“Desculpe o atraso.” Cyno pediu, num suspiro, sentando-se ao lado de Tighnari e apoiando as costas no balcão.

“Não se preocupe.” Tighnari o tranquilizou, ainda focado nas linhas do seu livro. “Você parece cansado.”

Cyno ficou em silêncio, observando a luz alaranjada no teto balançar suavemente.

“Eu pareço?”

“A maior parte do tempo.”

“...”

Isso era algo novo para os ouvidos de Cyno.

Seu corpo relaxou inconscientemente, e ele suspirou novamente.

“Eu posso me permitir demonstrar cansaço?”

“Claro que pode. Ser o General Mahamatra deve ser cansativo.” Tighnari diz isso com tanta naturalidade que parece irreal na vida de Cyno.

Ele não pode demonstrar isso para os outros, não nas linhas da frente, não nas reuniões com seus superiores. Cyno é um homem que precisa engolir tudo aquilo que ele sente, foi assim durante um longo tempo. Ele não pode ser egoísta, ele também não pode ser ganancioso, ele precisa ser justo e corajoso.

No mundo são necessários Homens assim, às vezes Cyno preferia não ter que ocupar esse lugar.

“O porto de Ormos foi bombardeado e tomado. Nossas trocas marítimas estão comprometidas agora. É necessária uma intervenção rápida ou nossos recursos balísticos podem sofrer uma queda enorme.” Cyno falou, calmamente. Para ele, falar sobre esses temas era algo do dia a dia, preocupante, mas ainda não surpreendente.

Para alguém do povo como Tighnari, ouvir isso fez todos os pelos da cauda tensionarem. Contudo, o homem não quis demonstrar isso.

“Você irá participar da operação?” Ele perguntou, mantendo o tom sereno.

“Não, desta vez.” Ele contou ainda olhando o teto da loja. “Fui chamado a comparecer na capital, os meus superiores devem ter outros planos para mim.”

“Entendo.” Tighnari respondeu, ainda com o olhar no livro.

Parecia um tratamento tão frio e indiferente. Entretanto, com quase três meses de convivência, ambos já conheciam alguns hábitos um do outro. Se Tighnari realmente não se importasse, ele sequer iria perguntar sobre. Afinal, os dois se tornaram horríveis em alimentar conversas fiadas.

Cyno baixou o olhar e o olhou por um tempo, percebendo que os olhos de Tighnari ainda estavam na mesma página de quando ele entrou e se sentou ao seu lado. O seu olhar subiu e o encarou, como se esperasse por algo. A lanterna a óleo iluminava a pele dourada, como trigo, com uma luz quente, amena, muito bonita. Diferente da pele escura e carregada de Cyno. Quando as orbes bicolores o encararam de volta o homem não vacilou, não quando a luz se refletia como ouro nas manchas verdes das íris de Tighnari. Eram olhos peculiares, bonitos, assim como os seus escarlate.

“Eu irei partir amanhã.” Isso foi a única linha capaz de sair dos lábios de Cyno, como um esposo pedindo por alguma compaixão da sua esposa.

Tighnari poderia fazer esse papel de esposa piedosa.

“Volte em segurança.”

Cyno baixou o olhar, com um suspiro e um leve sorriso lamentável.

Cuidadosamente ele se inclinou sobre o ombro de Tighnari e se encostou, fechando os olhos.

“Posso ficar aqui?”

“Por cinco minutos.”

“Certo.” Cyno sussurrou se aconchegando ainda mais. “Cinco minutos.”

“Eu irei acordá-lo, não se acomode demais.”

O homem riu, não se importando com as implicâncias.

De baixo daquela noite amena, na luz de um candeeiro a óleo, rodeados do perfume doce de flores, os três dormiram como se não houvessem mais preocupações.

 

[. . . .]

 

Cyno não apareceu por três semanas.

Collei ficou mais sensível durante esse tempo, pois foi o maior tempo até agora que ela ficou sem ver o homem. Tighnari começou a ir recorrentemente visitá-la após a segunda semana. Ela começou a comer cada vez menos e isso seria preocupante para a sua condição. Então Tighnari a trouxe constantemente para a sua loja para manter o olho nela e distraí-la. A Senhorita Lisa deu o passe livre para eles fazerem isso, então não houve problema.

Numa outra época, talvez o orfanato tivesse regras mais rígidas e fosse mais cuidadoso com as crianças. Entretanto, as crianças órfãs chegavam constantemente ao orfanato por causa da guerra, muitas perderam os seus documentos e registos na cidade natal. Perder uma ou outra criança, não era realmente importante ou surpreendente para o orfanato.

Ao menos, Tighnari era alguém confiável.

Collei ainda fugia para a salinha adjacente ou se escondia no pelo do rabo de Tighnari quando algum cliente entrava na loja. Entretanto, sua ansiedade e fobia social foi amenizando com o tempo. Ela já não chorava ou entrava em pânico quando acompanhava Tighnari até à sua lojinha. E, surpreendentemente, até já conseguia brincar fora da lojinha com os cachorros vadios que apareciam pela porta da loja. Era engraçado, ela agarrava desajeitadamente a mão de Tighnari e o puxava para fora, se certificando constantemente se estava a ser vigiada pelo homem. Tighnari sorria gentilmente para ela e ela relaxava, fazendo mais carinho nos bichinhos.

Foi só uma semana depois que Cyno apareceu novamente.

Collei que arrumava alguns vasos nas prateleiras saltou rapidamente de alegria quando o percebeu.

"Tio Cyno!" Ela gritou, correndo na direção do homem com os olhos se enchendo de água.

Cyno não esperava a garota ali e se atrapalhou visivelmente ao agarrá-la no colo. Ela soluçou no seu ombro e o apertou bem forte, fazendo um Tighnari assustado aparecer de dentro da portinha dos fundos.

"Oh, Arcontes." Ele colocou uma mão no peito para se acalmar, aproximando-se dos dois.

Cyno desajeitadamente acariciava as costas da menina, sussurrando algumas frases acalmantes.

"Tudo bem, Collei, desculpe a minha demora. Eu fiquei muito ocupado."

"Eu sei, o tio Nari me contou." Ela soluçou ainda não querendo se soltar. "Eu senti saudades, tio."

Cyno suspirou, apertando-a de volta.

"Eu também Collei."

A garotinha soluçou e relaxou, sentindo um doce beijo ser colocado na sua testa pálida e suada.

"Infelizmente, eu vou ter que ir embora daqui uns dias novamente." Ele avisou, calmamente. Entretanto, para os ouvidos de uma criança, isso parecia o anúncio de seu abandono. As lágrimas que estavam se secando apenas aumentaram e ela começou a chorar e hiperventilar ainda mais forte.

Tighnari o olhou com uma expressão desacreditada, como se o chamasse de idiota mentalmente. Cyno balançou levemente a cabeça, ele não tem por hábito mentir, mesmo para uma criança ele não quer alimentar uma falsa esperança.

Tighnari suspirou, se sentindo cansado.

"Collei, olha para mim." Ele pediu, gentilmente, colocando o cabelo verde atrás do ouvido dela. "Vem aqui, vamos conversar." Ele tentou endireitá-la e limpar todas as lágrimas. "É muito triste, meu amor, eu sei. Você tem o direito de se sentir mal e com saudades do titio, mas você não pode pedir ao titio para ficar, já conversamos sobre isso certo?" Ele perguntou gentilmente, vendo a menina tentando conter as lágrimas. "O titio também sente muitas saudades e a estima muito, mas ele tem que proteger outras crianças também, entendes? Ele vai voltar." Ele acariciou as mexas de Collei gentilmente.

O choro não cessou, mas ela concordou, se aninhando ainda mais no peito do homem.

A garota continuou chorando até adormecer. Tighnari suspirou, acariciando os cabelos da menina, enquanto Cyno a embalava, agora apoiado no balcão da lojinha.

"Você é um idiota sem tato." Tighnari o repreendeu, recebendo um suave sorriso em resposta.

"Eu gostaria de ser recebido com mais gentileza da sua parte."

Tighnari bufou, trazendo uma cadeira de trás do balcão onde estava uma manta dobrada, gesticulando para Cyno se sentar.

"Bem-vindo, de novo." Tighnari sussurrou, os enrolando na manta. "Ambos sentimos a sua falta."

Cyno o olhou, calmamente, sentindo as bochechas se aquecerem levemente. Um sorriso ameno puxou os cantos dos seus lábios.

Tighnari sentiu um formigueiro no peito e seu rosto enrubescer também. Suas orelhas balançaram desconfortavelmente, assim como a sua cauda e ele tossiu, desviando o foco da conversa e continuando a trabalhar.

 

[. . . .]

 

Tighnari está na sua cama, na sua casa, relativamente afastada da vila. É lá onde ele cultiva algumas das flores para a sua loja e produz a maioria dos seus remédios.

Sua casa tem apenas três divisões, a cozinha e quarto, lugar onde tem uma cama e uma mesa onde come e dorme. E a segunda divisão, relativamente maior, onde ele tem o seu laboratório. E um pequeno banheiro.

É pequena, mas com tamanho suficiente. Tighnari não passa muito tempo lá sem ser trabalhando, e muito menos traz visitas.

A chuva lá fora tranquiliza a sua audição. Gotas grossas caem sobre a terra seca. É um som pacifico e calmo, entretanto, hoje é uma noite de insónias para Tighnari.

Ele se contenta em esfoliar um dos seus livros, enquanto espera sua medicação funcionar. Às vezes funciona, outras não, sempre ajuda distrair o cérebro para que ele não fique ansioso e seja assolado por demónios do passado.

Os passos encharcados na terra do seu quintal fazem as suas orelhas mexerem instintivamente. Ele nunca recebia visitas, principalmente numa noite de chuva.

Os seus olhos se abriram e ele largou rapidamente o livro correndo para buscar uma faca da cozinha. Não muitos segundos depois, alguém tocou na sua porta.

Tighnaria estava atrás da porta, suas garras expostas e cada pelo do corpo arrepiado.

Com a voz levemente rouca, ele perguntou quem era. A resposta que recebeu o fez suspirar de alívio de imediato.

"Ah, Cyno, você me assustou, porra." Ele xingou, destrancando a porta e a abrindo. Deparando-se com o homem molhado da cabeça aos pés. "Oh, homem!" Tighnari suspirou, pousando a faca sobre um dos seus armários. "Entra." Ele o puxou para dentro, longe da chuva.

Cyno olhou para a faca sobre o móvel e zombou.

"Você iria me esfaquear com isso?"

Tighnari resmungou acertando um golpe na cabeça do outro.

"Não só isso, eu também iria degolar a sua garganta com as minhas garras."

Cyno gargalhou, um pouco melancólico.

"O que faz aqui?" Tighnari perguntou, o levando até à sua pequena banheira.

"Eu não preciso." Cyno tentou fugir do homem, mas continuou sendo arrastado para a banheira.

"Claro que precisa, você está encharcado. Eu tenho um pouco de água quente que restou do meu banho ainda. Tire a roupa e entre na banheira." Tighnari o repreendeu e o levou até lá.

Cyno não teve muita escolha e obedeceu, sendo banhado gentilmente pelo outro homem. Não houve qualquer tipo de vergonha, afinal, ambos estavam acostumados a lidar com a nudez masculina.

Tighnari o tratou como se ele fosse seu paciente. E Cyno aceitou a gentileza. Quando foi a última vez que alguém demonstrou preocupação genuína por ele?

É melancólico pensar sobre isso.

Cyno acabou concluindo, num momento, que talvez ele devesse ter se ferido mais vezes para ser cuidado por Tighnari.

"Eu queria vê-lo." Cyno acaba confessando após aceitar o copo aquecido de chá.

"Oh?" Tighnari questionou, balançando uma das orelhas e bebendo o chá, escondendo o leve rubor que cresceu nas suas bochechas.

Cyno fingiu beber o chá e desviou os olhos um pouco tímido.

"Não faça pouco de mim."

Tighnari gargalhou, divertido.

"Não, tudo bem, desculpe se pareceu isso. Apenas não estava à espera que isso acontecesse, tipo, você querer me ver."

Cyno levantou uma das sobrancelhas, lhe lançando um olhar duvidoso.

"Porquê?"

"Ah, não, bem, eu apenas pensei que estivesse no fundo da sua lista de preocupações." Tighnari desviou o olhar um pouco nervoso, rindo levemente.

"Oh, entendo." Cyno falou, sem muita expressão, observando o chá no seu copo. Tighnari por alguma razão se sentiu culpado pelo que disse. Embora não parecesse que ele tenha dito algo de errado.

"Talvez eu não o tenha feito transparecer claramente, mas eu também o estimo bastante, Tighnari."

O homem se sentiu um pouco tímido ao ouvir isso. Ele nunca gastou muito do seu tempo pensando na relação que ambos tinham. Entretanto, se ele refletisse um pouco, ele poderia dizer rapidamente que também gostava de Cyno.

Era confortável passar tempo juntos.

Um leve sorriso se formou nas suas maçãs do rosto.

"Obrigado, Cyno. Quero que saiba que isso também é recíproco."

Fazia anos que ele não tinha alguém que pudesse chamar de próximo.

O outro homem retribuiu o sorriso, bebendo um pouco do chá.

"Eu apenas gostava de falar com você um pouco. Antes de ir embora amanhã." Cyno confessou.

"Tudo bem, eu não estava conseguindo dormir mesmo." O homem confessou, balançando uma das orelhas. "Quer ficar aqui essa noite? A minha cama não é muito espaçosa, mas podemos arranjar algo. Tipo amontoar umas mantas no chão." Ele falou, começando a mexer no seu baú de madeira, cheio de roupas.

"Eu lhe ajudo." Cyno sorriu, tomando iniciativa para o acompanhar.

Ambos montaram uma pequena cama improvisada ao lado da cama de Tighnari. Mesmo que pouco convencional, Cyno já dormiu em coisas piores. Então ele garantiu que estava tudo bem com isso. Tighnari não tinha nada melhor para oferecer de qualquer forma.

"Você está pensando em adotar a Collei quando tudo isto acabar?" Tighnari perguntou, assim que eles se deitaram.

Cyno ficou em silêncio por um tempo, sem responder, mas então ele foi franco.

"Não é como se eu não tivesse pensando sobre isso. Entretanto, eu não me atrevo a sequer falar disso. Eu poderei morrer a qualquer momento, colocar essa hipótese na cabeça dela seria muito cruel."

"Sim, eu percebo." Tighnari concordou melancolicamente. "Ela é uma menina bem doce. Se fosse em qualquer outra situação ela iria conseguir uma família rápido."

Cyno concordou silenciosamente.

"Obrigado por apoiá-la no tempo que não estive."

"Tudo bem, ela é alguém suportável." Tighnari brincou arrancando um leve sorriso do outro homem.

Ambos ficaram em silêncio por uns segundos, até Tighnari voltar a perguntar.

"Como você a encontrou?"

"Bem, eu encontrei muitas crianças pelo meu caminho." Ele falou vagamente.

"Então porque ela lhe chamou a atenção?"

Cyno ficou em silêncio por uns segundos, como se estivesse medindo as próprias palavras.

"A história da Collei é um pouco delicada." Ele confessou, se erguendo das mantas. No meio do escuro, ele tateou os cobertores até encontrar a mão de Tighnari sobre a cama. O homem esperou pacientemente ele continuar, enquanto sentia seu pelo e palmas da mão serem alisados calmamente.

"Você deve ter um pouco de ciência do que acontece nas linhas da frente quando invadimos o território inimigo. Infelizmente, as mortes por balas são as menos dolorosas nesses momentos." 

"A Collei não é do nosso lado?" Tighnari perguntou, sem muita surpresa.

"Não."

"Entendo." O homem simplesmente falou. Tighnaria passou a maior parte da sua vida pelas fronteiras do país, quando tudo ainda era seguro. Não é estranho para ele saber que Cyno acolheu alguém de lá, afinal, ele mesmo cuidou de muitas pessoas de lá. Grande parte delas apenas seria mais uma vítima da guerra.

"A alguns meses atrás, eu saí numa missão com o filho mais velho do Comandante Carter, como segundo general na linha de comandos. A missão foi bem sucedida e conseguimos a vitória de uma nova cidade sem muitas baixas. Nessa missão, eu instruí o General Carter a lidar com as pessoas capturadas. Entretanto, ele não lidou como eu esperei. Tem coisas que nem mesmo eu consigo controlar dentro das minhas tropas." Cyno confessou num murmúrio com a voz meio trémula. Embora Cyno fosse notável, ele ainda era um humano empático, Tighnari conseguiu perceber isso pela forma como a mão sobre a sua tremelicou sobre os seus pelos negro. "Os homens, ele os envenenou com monóxido de carbono e as mulheres e crianças foram jogadas para alguns dos nossos soldados."

Não precisou de muito para Tighnari saber o que aconteceu. Seu estômago se revirou com a imagem que passou na sua mente.

"A Collei estava no meio dessas pessoas?"

"A Collei estava no quarto do General." O homem falou, ao se lembrar da imagem perturbadora da criança chorando deitada numa poça de vómito e sangue.

Tighnari sentiu seu peito se apertar.

"No meio do meu ódio, eu acabei apertando o gatilho."

"Então…"

"Eu anunciei publicamente que ele sofreu ferimentos graves e não resistiu, mas isso não é completamente verdade." Cyno confessou, suspirando pesadamente. "Felizmente, não houve uma investigação adequada na altura."

"Você pode ser condenado por traição, Cyno." Tighnari levantou a voz, sentindo a aflição crescer no peito. Essas coisas acontecem, numa guerra apenas existem dois lados, não há tempo para castigar aqueles que maltratarem o povo do lado inimigo. Então você não pode ser pretensioso ao ponto de achar que pode salvar todos os inocentes que passarem pelas suas mãos. Torturas são atos hediondos, entretanto, no final do dia, o cachorro que não é fiel ao seu dono é o descartado.

"Você pensa em me denunciar?" Cyno zombou, naquele momento de tensão, levando um pequeno tapa na mão.

"Não brinque com a situação, seu grande idiota." Tighnari rugiu, sendo saudado com gargalhada afetuosa.

"Não importa." Ele falou, calmamente. "Eu tenho muitos apoiantes por enquanto, mesmo que circulem boatos eles ainda vão-me manter vivo, ao menos, até ao fim do conflito."

"Você parece ser tão impulsivo." Tighnari lamentou.

"Suponho." O homem suspirou. "Bem, a partir desse dia, Collei deixou de se aproximar de outros para além de mim. Mas eu não podia levá-la comigo para todos os lados. Então a trouxe para aqui. Lisa é alguém que eu conheço há muito tempo, então acho que seria um bom lugar para ela. Longe da guerra, longe das pessoas, um lugar seguro e pacifico.” Ele sussurrou, trazendo a mão de Tighnari até à sua bochecha, como se pedisse por afeto. Cyno parecia alguém de contacto, alguém profundamente afetuoso, que procurava constantemente por amor e conforto, mas de uma forma bastante silenciosa e delicada. Como se durante toda a sua vida ele tivesse se privado de amar os outros. Tighnari amoleceu, suavemente ele acariciou a pele morena com a ponta do polegar. O homem sob o seu toque relaxou, esboçando um sorriso calmo, que se afundou no colchão.

Carinho, se não houvesse ninguém na vida de Cyno para lhe dar algum conforto, Tighnari podia ser a pessoa que o conforta.

“Você fez bem…” Tighnari sussurrou, acariciando a face do homem. “Você fez um ótimo trabalho até aqui.”

Cyno não mostrou as emoções mais volúveis dentro do peito, mas apertou mais a mão de Tighnari, se atrevendo a beijar o seu pulso. As orelhas de Tighnari mexeram com aquele carinho.

“Você me faz sentir tão bem, Nari. É como se um peso saísse de mim cada vez que estamos juntos.” Ele confessou num gemido doloroso.

Tighnari ficou visivelmente nervoso rindo desajeitadamente e erguendo o corpo da cama.

“Você não está se declarando para mim certo?”

Cyno ficou em silêncio por uns segundos, levantando o rosto na direção de Tighnari. Diferente dele, Cyno não o conseguia ver com clareza na escuridão, então ele não conseguia avaliá-lo devidamente. Com um suspiro cansado, o homem apenas respondeu.

“Nari, amanhã eu vou embora. Não por duas semanas, não por um mês. Será até alcançarmos a capital inimiga ou obtermos uma rendição. Você consegue entender a minha posição?” As orelhas de Tighnari baixaram. Novamente, um sentimento estranho de perda apertou o seu peito e ele não conseguiu dar uma resposta. “Talvez isso seja nojento, eu não sei sua opinião sobre isso, mas eu não irei partir com arrependimentos. Foi por isso que vim essa noite. Sim, eu estou me declarando a você.”

Tighnari sentiu seu rosto arder e seu coração palpitar. Um misto de emoções incontroláveis inundaram o seu peito. Algumas boas, outras más, o híbrido ficou visivelmente nervoso.

Cyno esperou por uma resposta, mas dada a demora, ele apenas pode pensar na pior hipótese. Tighnari, embora grosseiro às vezes, era muito gentil. Ele nunca iria fazer um escândalo ou expulsá-lo, mesmo que estivesse se sentindo profundamente desconfortável.

O homem teria apenas que engolir a rejeição e sair ordeiramente pelo próprio pé.

Respirando profundamente, o homem se resignou.

“Me desculpe por deixá-lo desconfortável. Eu vou embora.”

Quando a mão de Tighnari ficou fria, sem o calor do outro, o homem finalmente voltou a si. Apressadamente ele agarrou a mão de Cyno novamente, surpreendendo ambos.

“Não, espere.” Ele respirou, diminuindo o tom de voz que saiu mais alto do que o esperado. “Eu apenas estou surpreso, não desconfortável. Eu não esperava isso de você, sabe, gostar de homens.”

A surpresa de Cyno foi varrida com um balde de água fria. Sua pouca expressão morreu ao ouvir isso.

“Isso não é o que importa.” Ele bufou, deixando Tighnaria um tanto desconcertado.

“Não, é que. A primeira vez que o conheci eu pensei que você já tivesse uma amante. E assumi que você gostasse de mulheres. Então…” Ele balançou as orelhas timidamente. “Então, eu sequer pensei que você poderia gostar de mim.”

Cyno ficou em silêncio por um momento. Cuidadosamente ele subiu na cama e se sentou na sua frente.

“Então, eu quero a sua resposta.” Ele mandou, sem deixar margem para fugas.

Tighnari tremeu um pouco, por ser pressionado daquela forma.

“Eu não posso dizer com certeza.”

Para quem estava esperando uma resposta negativa, isso era melhor que nada. Para quem vai para as linhas da frente da guerra amanhã, isso é muito desanimador.

Respirando fundo, o homem se sentiu momentaneamente cansado.

“Eu posso abraçá-lo?"

Tighnari concordou, timidamente, trazendo-o para o meio dos seus braços.

Cyno se aninhou, inspirando fundo o perfume de ervas secas no cabelo do homem.

“Posso beijá-lo?”

“Você está ficando muito ousado, General.”

“Eu sei.”

Mesmo com a repreensão, Tighanri o puxou gentilmente para um beijo. Seus lábios adocicados tocaram-se ainda com o sabor de chá com mel. Um selar gentil, longo, muito afetuoso. Como se fossem amantes que tinham todo o tempo do mundo os esperando.

Infelizmente a realidade é menos poética.

Os selares se prolongaram e se repetiram, em meio à escuridão. Mãos gentis o consolaram, e Cyno se sentiu mais uma vez como o jovem brilhante e imprudente que subiu num cavalo e protegeu um desconhecido sem roupas, dedos e a perna apodrecendo.

Calmamente ele os deitou. Com as mãos calejadas, Cyno percorreu os contornos do rosto de Tighnari pela escuridão. A pele macia, os cílios longos, os lábios molhados, sua respiração pesada, ele queria presenciar isso tudo com seus olhos.

“Vamos fazer de luz acesa, por favor.” Ele pediu, roubando mais alguns beijos demorados.

Talvez ele não pudesse ter o coração de Tighnari nesta vida, mas pelo menos ele iria gravar na sua tumba cada pedaço daquela noite.

 A forma doce como o homem se contorcia e chamava seu nome. As pequenas lágrimas que se acumulavam nos cantos dos seus olhos. As orelhas fofas que se dobravam silenciosamente a cada estocada mais forte. A forma como a pele como trigo ficava rosada ao seu toque, ou como a sua boca o procurava com ânsia. Cyno iria guardar cada pedacinho e recordá-lo como seu tesouro.

Pela manhã, Cyno se despediu silenciosamente do homem em seus braços com um beijo da testa.

Horas depois, apareceu novamente na florista, com sua roupa formal de general. Botas de cano alto, e todas as lindas estrelas e crachás dispostos gloriosamente no peito.

Tighnari parecia melancólico quando o viu entrar e escolher um vaso de astromélias. Uma das flores mais bonitas e caras da loja.

Quando Tighnari perguntou o porquê de ser num vaso desta vez, Cyno disse que não tinha uma data de volta.

Tighnari ficou em silêncio, suas orelhas caindo ligeiramente ao ouvi-lo mais uma vez.

“Eu vou escrever.” Cyno garantiu, esticando a mão para acariciar a bochecha de Tighnari. O homem se apoiou mais ao contacto.

“Vou esperar.” Ele afirmou, ajeitando as dobras do casaco de Cyno e limpando logo em seguida o pó dos ombros. “Você fica bonito na sua farda.” Ele falou distraidamente, como se estivesse pensando em algo.

“Não se preocupe, Nari, ninguém terá oportunidade de me roubar de você.” Ele brincou, para aliviar o clima, recebendo um leve tapinha no peito.

“Você é muito tonto.”

“Suponho.”

Ambos sorriram, um para o outro. Um sentimento gratificante enchendo os seus peitos.

“Vá com cuidado. Volte em segurança.” Tighnari recitou, quase como um mantra, recebendo um pequeno beijo nos lábios.

“Eu vou, obrigado, querido.”

Tighnari sorriu, revirando os olhos e o empurrando para fora da loja. Afinal, Collei também precisava do seu turno de despedidas.

Quando a porta se fechou e o sininho tocou por uma última vez, Tighnari sentiu um vazio inexplicável no peito, mais frio que o espaço que Cyno deixou pela manhã na sua cama.

O seu sorriso murchou e uma lágrima solitária desceu a sua bochecha.

 

 

[ . . . . ]

 

 

A perspetiva de perder alguém por quem você nutre carinho sempre vai ser dolorosa. Tighnari sente isso agora mais do que nunca. O homem nunca passou por esse sentimento, quando sua terra natal foi atacada, todos os companheiros que ele poderia ter perdido, ele perdeu.

Quando seu corpo teve tempo para parar e refletir sobre tudo, ele chorou. Ele chorou em luto com suas feridas dormentes o consolando. Pensar que ele poderia passar por tudo isso mais uma vez, deixava-o visivelmente ansioso.

Nas noites seguintes à partida de Cyno, Tighnari sofreu de insónias e alucinações da guerra. Ele também não procurou por Collei por duas semanas.

Deixe Tighnari fazer seu luto antecipado. Ele irá lidar com as coisas quando estiver melhor.

Na terceira semana, Collei o saudou com lágrimas nos olhos e um abraço mortal na sua perna.

"Você pensava em me deixar também? Porque vocês são tão maus? Eu prometo ser melhor, eu prometo!" Ela chorou inconsolavelmente agarrada ao seu corpo. Foi então que Tighnari percebeu o quanto tinha sido egoísta. Embora ele não tivesse nenhum dever filial àquela criança, Collei o estimava e o via como sua família. Para ele uma perda era dolorosa, para uma criança pequena que se viu sozinha, provavelmente era ainda mais.

Ele a recolheu nos braços e se desculpou muitas vezes, tentando consolá-la o melhor que podia, com lágrimas quase descendo pelo seu rosto.

Faça o melhor que estiver ao seu alcance. Tighnari não podia proteger todos, mas ele iria tentar proteger a única coisa que Cyno deixou para trás e lhe confiou.

Nessa noite, Lisa abriu uma exceção e deixou-os dormir juntos no orfanato.

Na quarta semana a recuperação do porto de Ormos estava estampado em todos os jornais. Os recursos aliados já poderiam entrar no país novamente. Mais abaixo, havia uma matéria sobre como a presença do General Mahamatra foi fundamental na operação.

Aparentemente, eles empurraram tudo nos ombros de Cyno e ele teria que suportar calado. Chegava a ser irritante. Apesar do prestígio e o nome que conquistou, os seus superiores ainda o veriam como a criança de descendência negra e humilde que teve um pouco de sorte no campo de batalha. Apenas alguém que eles podiam balançar de cá para lá.

Num momento difícil, é sempre bom ter uma imagem marcante e corajosa. A imagem de um herói que não irá dobrar os joelhos perante o inimigo. Uma imagem onde o povo poderá depositar as suas esperanças. Cyno foi o escolhido dessa vez. Dando certo ou errado, quem mostrou a face à causa será o responsável, mesmo que ele não tenha intervindo nas decisões.

Mais do que nunca, Tighnari começou a sentir o real peso do que era ser o General Mahamatra.

Uns dias após isso a primeira carta de Cyno chegou, com quase 2 semanas de atraso, trazendo um pouco de tranquilidade a Tighnari.

Cyno garantiu o seu bem estar e saúde. Também reclamou sobre o quanto teóricos de gravata eram irritantes e a vontade de os jogar aos cachorros do lado inimigo. Talvez Tighnari devesse queimar as cartas posteriormente, ele pensou enquanto sorria levemente e sua cauda balançava. Junto dessa carta também vinham dois saquinhos de alfazema seca e cheirosa. Tighnari guardou um e o outro ele entregou a Collei que o guardou na cabeceira da cama.

Essa rotina se prolongou por longos meses.

As cartas vinham esporadicamente, sempre atrasadas, e de forma aleatória, com um pequeno presentinho colorido. Cada palavra parecia animada, talvez porque os poucos momentos em que Cyno parava para escrever eram os que o tiravam da realidade à sua volta.

Infelizmente para Tighnari, ele não podia dar uma resposta de conforto ou mandar flores em resposta. Ele se contentava em ler palavra por palavra e guardá-las secretamente no meio dos seus livros de estudo.

 

 

[. . . .]

 

 

Liyue decidiu se juntar à guerra diretamente. Esta foi a raposa que lucrou nas sombras vendendo o seu minério e armamento para ambos os lados.

Agora ela decidiu tomar um partido. Seja revoltante ou não, Sumero não está numa posição de recusar. A boa visão de política e economia de NingGuang não está fazendo isso por caridade, apenas por proveito próprio.

Entretanto, as frotas marítimas sob o controlo de Beidou são grandes aliadas agora.

 

 

[. . . .]

 

 

‘Outro dia fui beber com um homem num bar. Nós bebemos tanto que eu terei sorte se meu fígado funcionar na velhice. Entretanto, eu encontrei algo que eu gostei de fazer. Quando isto acabar eu serei comediante, Dian falou que eu seria bom nisso. Dian? Acho que era Dian, eu não lembro muito bem. Ele era tranquilo e forte, quase perdi no braço de ferro.

Vou fazer uma coletânea das minhas piadas daqui em diante. Irei mandá-las depois.

Espero que goste dos doces, foram difíceis de encontrar. Também espero que cheguem a tempo do aniversário da Collei.

Me espere querido, em breve estarei em casa.

 

Cumprimentos, Cyno.’

 

Tighnari não conseguia imaginar como alguém como Cyno poderia ser comediante. Ele sorriu ao pensar nisso.

 

 

[. . . .]

 

 

“Tio Nari, me ensine a ler.” A garotinha falou enquanto mordia as bolachas com cerejas caramelizadas.

“Você acabou de completar cinco anos, em breve começará a ter aulas no orfanato, porque não espera mais um tempo?” O homem perguntou, distraído com as ervas que estava moendo.

“Vai demorar muito tio Nari, eu quero logo aprender para ler as cartas do tio Cyno.” Ela falou puxando as roupas do homem.

Tighnari a olhou com uma sobrancelha levantada, como se questionasse isso. A garotinha balançou freneticamente a bainha da roupa do homem enquanto fazia beicinho.

“Você sabe que eu serei muito rigoroso e chato certo?”

“Uhum.”

Ela sabia, mas isso não a impediu de se arrepender na segunda semana.

Arrependida ou não, ela era bem mais teimosa e resiliente do que o seu instrutor pensou.

 

 

[. . . .]

 

 

“A segunda cidade mais importante do território inimigo foi tomada!”

Os vendedores de jornais gritavam pelas ruas e um aglomerado de pessoas se juntou para comprar as edições mais recentes. Tighnari obviamente estava no meio disso, com a sua cópia em mãos e tentando escapar do barulho da multidão.

Mais do que nunca, a vitória parecia algo próximo de acontecer.

O homem suspirou de alívio, ao ver a imagem central do jornal. Cyno ajudava um dos soldados a caminhar, embora tivesse ataduras pelos braços e corpo, ele ainda estava bem e vivo.

As orelhas tensas de Tighnari relaxaram e dobraram para baixo. Ele delicadamente juntou a testa ao papel preto e branco e cobriu as lágrimas que saíram pelos seus olhos.

 

 

[. . . .]

 

 

“Ei, tio Nari, o que acha de eu deixar de cuidar das flores que o tio Cyno me deu?” A garotinha perguntou num devaneio enquanto tentava terminar os exercícios que Tighnari lhe passou.

As orelhas do homem tencionaram rapidamente e ele fechou o seu livro.

“Porque você quer fazer isso?”

“Hm…” A menina parou e suas bochechas ficaram rubras, como se acabasse de ser repreendida por um delito. Timidamente ela respondeu. “Eu sinto falta do tio.”

“Você acha que deixar morrer as flores que o seu tio lhe deu vai melhorar esse sentimento?”

Collei ainda era muito nova para entender certas coisas. Principalmente, as razões que levavam seu tio a ficar tão longe dela. Para ela, alguém que sempre veio para trocar as suas flores murchas irá correr mais uma vez quando souber que elas estão morrendo de novo. Contudo, deixar as flores que seu tio lhe deu quando partiu ainda parecia errado. Ela gostava delas, no final de tudo.

Melhorar esse sentimento? Ela não sabia o que fazer para acabar com esse sentimento.

“Eu não quero mais estudar tio Nari.” Ela falou, com o semblante murcho e os olhos brilhantes.

Tighnari suspirou colocando o livro de lado.

“Tudo bem, vamos fazer uma pausa. Venha aqui.” Ele a chamou batendo suavemente no colchão da cama.

Collei obedeceu e se sentou do seu lado. Ela puxou a cauda do homem e se escondeu na pelagem verde musgo. Tighnari acariciou os cabelos da garota até esta cochilar apoiada no seu corpo.

O homem suspirou, encarando o vaso de flores brancas e cor de rosa sobre a janela.

Para alguém que não dava importância ao significado das flores, Cyno escolheu umas das com mais simbolismo. Comumente, elas significavam amizade duradoura, respeito, carinho, um amor inocente e genuíno, quase como se o homem dissesse que os levaria no coração.

Para Cyno, elas significavam tudo isso, para Tighnari elas significavam saudades.

 

 

[. . . .]

 

 

A casa do Imperador de Liyue foi assaltada por espiões, NingGuang ficou gravemente ferida tentando proteger o Imperador. Um dos maiores pontos de extração de minério em Liyue explodiu misteriosamente. Houve dezenas de baixas de civis trabalhadores.

O lado inimigo nega a responsabilidade desses atos.

O povo de Liyue grita por uma retaliação.

NingGuang, acabe com esse conflito!

 

 

[. . . .]

 

 

‘Em breve Collei completará 7 anos, certo? Às vezes é difícil lembrar dos dias. Já são quase três anos sem vos ver. Me pergunto como ela está, crianças crescem muito rápido, talvez quando nos vermos ela já não queira subir no meu colo. Sinto falta dos abraços dela, dos seus também Nari. Me pergunto se ela ainda se lembra de mim. Crianças também esquecem rápido. Recorde-a de mim recorrentemente, todos os dias, eu quero ser recebido de braços abertos por ela.

Eu gostaria de mandar algum presente para ela, mas o máximo que poderei mandar desta vez são destroços. Os meus superiores não gostam sequer que eu mande cartas pessoais. Tenho certeza que eles começaram a abri-las antes de serem encaminhadas para você. Na próxima eu irei descrever um dos meus sonhos mais eróticos com você para que eles não ousem abri-las de novo - essa indireta é para você, isso mesmo, seu rato que está lendo minha carta de amor sem minha autorização.

De qualquer forma, irei mandar uma pedra. Sim, uma pedra é bom, guarde a minha pedra.

Dê os parabéns a Collei por mim.

Depois desse tempo todo, eu não tenho a certeza se você se incomoda que eu seja sincero com os meus sentimentos em relação a você. Espero que não. Se sim, encare isso como um desabafo bobo ao qual você não precisa corresponder.

Ainda te amo, Nari.

 

Cumprimentos, Cyno.’

 

Da cama, Tighnari ouviu o riso afetuoso da menina que balançava as perninhas com a folha nas mãos.

“O tio me chamou de rato.”

Tighnari que experimentava o caldo da sopa que fazia quase engasgou com o líquido.

“Quê?”

“Ratos são pequenos e fofos.” A menina falou rapidamente, com um sorriso fofo nos lábios.

Tighnari não sabia ainda do conteúdo da carta. Ele a pegou de manhã no posto e foi pegar Collei no orfanato para almoçarem juntos. Ele sequer cogitou que Cyno algum dia chamaria Collei de rato. Bem, ao menos a menino viu o lado positivo da comparação e o homem não teve que pensar em palavras para a consolar.

Ele suspirou, voltando a mexer o caldo.

“Ele também disse que o amava, tio Nari.”

O corpo do homem tencionou e suas bochechas enrubesceram. A cauda dele balançou, nervosa e ele limpou a garganta.

“Você deve estar interpretando algo errado Collei. Quando terminarmos de comer vamos lê-la juntos.”

“Oh…” A menina levanta uma sobrancelha desconfiada, mas deixa o assunto para lá. Afinal, ela ainda está aprendendo, pode cometer erros.

Ela deixa o papel sobre a mesa da cabeceira e a cartinha é esquecida pelos dois.

 

 

[. . . .]

 

 

A nova mais recente arma bélica de Liyue é assustadora. Isso é o que os boatos dizem. Os jornais mostram um palácio gigante

Nunca afronte uma nação rica, eles disseram.

TianQuan, a Câmara de Jade: um avião gigantesco e intocável no céu, veio para mostrar isso mesmo.

Quando o último canhão cantou, Sumero gritou vitória.

Snezhnaya se rendeu.

 

 

[. . . .]

 

 

O país parou. As pessoas gritavam, choravam e cantavam pelas ruas.

A guerra terminou e eles eram o lado vencedor.

Agora será necessário limpar os estragos, cuidar dos feridos, contabilizar as mortes, construir o que foi destruído. Entretanto, uma vitória é uma vitória.

Tighnari sentiu os seus olhos se encherem de água quando a notícia inundou a vila.

Todos se juntaram à sua porta e compraram flores para enfeitar a praça central.

A noite foi de festa, o dia será de trabalho.

Duas semanas depois, os homens sobreviventes voltaram para suas cidades natais. Mais uma vez a praça se encheu de pessoas, procurando pelos seus entes queridos. Algumas se retiravam chorando, as mães e viúvas desabaram no chão com as más notícias.

Uma situação aliviante para uns e aterradora para outros.

Apesar de vivos, Tighnari tinha consciência que muitos deles apenas arrastavam a casca. Esses são as migalhas que a ganância humana deixa para trás.

Tighnari tentou procurar Cyno pela multidão. Entretanto, tanto a atmosfera como os gritos e choros foram insuportáveis para ele. Ele se retirou antes de sequer checar em condições a área.

Esse dia ele não abriu a sua florista. Não porque suas flores estavam praticamente esgotadas, mas porque sua mente e corpo o atraiçoaram mais uma vez.

 

 

[. . . .]

 

 

“Collei, se quiser ajudar, encha os saquinhos com alfazema.”

A menina estava ansiosa. Já faziam três semanas que os soldados voltaram e eles não receberam qualquer notícia de Cyno. Então ela não largou Tighnari um único momento nesse tempo, como se procurasse constantemente algo para se ocupar. Aparentemente, o vício em trabalho poderia ser contagioso, o homem acabou por pensar em certas ocasiões.

A menina bufou, largando a vassoura com quem fingia dançar ao invés de varrer as folhinhas da loja, e foi fazer o mandado.

Enquanto a garota enchia os saquinhos, ele os cosia calmamente. Depois do saco de alfazema que Cyno lhes mandou, Tighnari achou que seria uma boa ideia fazer esses saquinhos para vender e deixar a casa e a loja cheirosas. Entretanto, ele nunca substituiu o saco que Cyno lhe deu. Ele ainda o mantinha no seu quarto, encostado na sua janela. Esporadicamente, ele trocava as florzinhas para o cheiro se manter.

A orelha sensível de Tighnari balançou quando o sininho já ferrugento da loja tocou, mas seus olhos se mantiveram na agulha.

“Boa tarde.” Collei cumprimentou, como o único elemento de simpatia no local. Depois de quatro anos frequentando a loja de Tighnari, a garota já não se sentia insegura ali, então ela já não era tão tímida como antes na presença de algum desconhecido.

Entretanto, a garota parou imediatamente o que estava fazendo.

“Boa tarde, Collei.” A voz pesada e rouca fez as orelhas de Tighnari virarem para a frente. Seu olhar piscou, assustado, como se visse um fantasma. Contudo, nada pode sair pelos seus lábios.

“Tio Cyno!” A garota do seu lado gritou e correu, derramando pelo chão as centenas de flores de alfazema da cestinha.

Tighnari poderia repreender, ou até limpar as que caíram e sujaram o seu pelo. Porém, os seus olhos bicolores estavam demasiado impactados com a figura de Cyno agarrando Collei num abraço. A criança chorou e gritou nos braços do homem, falando do quanto tinha saudades.

Cyno parecia mais cansado, suas olheiras profundas lhe davam mais anos que o que deveriam e a sua franja tapava levemente as ataduras do seu olho direito. Entretanto, seu sorriso morno, acolhia carinhosamente Collei.

Tighnari sentiu seus olhos marejar, mais uma vez, de novo e de novo. Ele só sabia chorar. Nem mesmo quando Cyno estava na sua frente finalmente ele podia conter as lágrimas.

Cyno não estava intacto, mas estava bem, estava vivo, ele voltou na sua loja novamente.

“Você voltou.” Tighnari fungou, suas orelhas dobradas para trás.

Cyno levantou o olhar, mas não teve tempo para responder antes que o vulto verde rodeado de flores roxas o sufocasse também.

Ambos os três corpos cambaleiam e caíram no chão. Cyno gemeu, sentindo o corpo doer miseravelmente.

O seu sofrimento foi abafado pelos soluços das crianças pequenas enroscadas nele.

“Nós tivemos tantas saudades, tio.” A garota soluçou. “Não nos deixe de novo, não por tanto tempo.”

Tighnari não conseguiu dizer nada, ele era adulto o suficiente para saber que não podia exigir isso de Cyno. Ele apenas conteve e matou seus sentimentos dentro do peito, enquanto lágrimas grossas escorriam pelo rosto.

Cyno suspirou, sentindo seus olhos arderem.

Você chora por muitas razões, algumas vezes boas, outras vezes más, às vezes você nem sabe dizer por quais. E tem vezes que você só chora porque guardou por muito tempo.

Cyno trouxe o corpo de Tighnari mais para si e beijou o topo da cabeça de Collei.

“Eu prometo, desta vez, eu vou ficar.” Ele garantiu, pousando o rosto sobre a cabeça da menina.

Seja verdade ou não, Collei e Tighnari não podiam fazer mais do que acreditar.

Quatro anos é muito tempo, principalmente para quem ama.

E para esses três que encontraram amor e conforto nos braços uns dos outros, quatro anos foi uma eternidade.

“Bem vindo, Cyno.” Tighnari sussurrou, com Collei cochilando no colo de Cyno. O homem sorri, se inclinando para deixar um beijo casto nos lábios de Tighnari.

“Eu voltei em segurança.”