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Sob a Linha Maginot

Summary:

Ophélie é uma judia que vive em Paris durante a ocupação nazista na França. Trabalhando como intérprete na Biblioteca Nacional do País.
Thorn é um oficial do exército alemão que mora em Paris depois da ocupação alemã na França. Com novas tarefas administrativas e mal sabendo falar francês, Thorn precisa de alguém para ajudá-lo a se adaptar ao novo país e ao novo país.
Mas não será só isso!

Notes:

Essa era uma ideia que eu tive lá em 2021, mas só agora tomei vergonha na cara e decidi escrever. Caso alguém leia, o fandom é do tamanho de uma ilha pequena, não me critique muito já que é o meu primeiro trabalho.
Eu comecei a escrever em fevereiro mas queria postar quando tivesse mais de 10 capítulos.

Chapter Text

14 de Junho de 1940

Ophélie andava apressada pelas ruas de Paris. Ela, assim como todos da Europa, estavam afobados.
A Wehrmacht havia invadido Paris. Ela ainda tinha esperanças de que a França resistisse e não se rendesse, mas naquela manhã o locutor da rádio anunciou que um rápido avanço das tropas alemãs fizeram com que Paris se rendesse. A invasão à França e a ocupação fizeram com que ela perdesse as esperanças nos Aliados.
"Ophélie."
Gaelle, sua melhor amiga, vinha correndo em sua direção segurando o chapéu que teimava em escorregar da sua cabeça.
"Ficou sabendo?" Perguntou ela ajeitando o chapéu.
"Da derrota? Acho que a essa altura não tenha ninguém que não esteja sabendo." Respondeu ela, parando de andar para encarar a amiga.
"Da derrota todos sabem, mas não é só isso. Durante a ocupação a cidade inteira vai ter alemães, e estão dizendo que os comandantes vão ficar "hospedados" nas maiores casas da cidade"
"Como assim?" Perguntou Ophélie que continuou a andar apressadamente.
"Você acha mesmo que todos os hotéis vão querer hospedar nazistas?! Já não basta a vergonha da rendição e ainda isso." Respondeu Gaelle.
"Seria perca de dinheiro, tudo está caro e em falta. Só sendo um idiota para negar hospedagem. Mas como você soube disso?"
"Um amigo meu trabalha no Ritz e ouviu o gerente falar sobre 'preparar as instalações para nossos amigos alemães.' Totalmente ridículo. O que mais vai ter agora com essa ocupação são traidores da pátria que preferem se envolver com o inimigo do que lutar. Mas querendo ou não, não tem tanta instalação em Paris para abrigar tanta gente." Respondeu ela.
Gaelle era filha de banqueiros ricos e morava na parte mais nobre da cidade. Já Ophélie morava no subúrbio em um apartamento junto com seu tio-avô. Sua família morava no Sul da Bélgica, e ela se mudou para Paris depois que seu tio-avô teve Tuberculose e precisava de cuidados, mesmo teimando que estava bem e que não precisava de ajuda. Na verdade, ela esperava a desculpa perfeita para se livrar da supervisão abusiva da mãe. O tio-avô conseguiu um trabalho de intérprete para Ophélie na biblioteca pública da cidade. Ela, assim como ele, sabia traduzir livros, documentos e conversas em inglês, alemão e russo, naturalmente o francês. Quando era pequena, o tio-avô a levava à Biblioteca Nacional e assim ela o observava traduzindo documentos do governo. E agora ela era considerada uma das melhores intérpretes de Paris. Mas esse cargo estava sendo ameaçado pela guerra e pela ocupação nazista no país. Sendo judia e tendo as Leis de Nuremberg se espalhando pela Europa seria cada vez mais difícil se manter na sociedade.
"Terra chamando Ophélie, Terra chamando Ophélie. Você escutou o que eu disse?" Gaelle estalava os dedos na frente de seu rosto tentando chamar sua atenção.
"Me desculpe, o que você disse?"
"Estava te perguntando o que você e seu tio-avô vão fazer agora. Sendo judeus e tendo o país invadido por quem odeia judeus vai ficar difícil até para andar na rua."
Nem Ophélie sabia o que faria. Estava mais preocupada com sua família do que consigo mesma. Seu tio-avô já não era tão jovem e sua saúde era frágil. Sua mãe, pai, irmãos, tias e avós estavam a quilômetros dela. A única pessoa com quem podia contar com ajuda era Gaelle.
"Você sabe que eu posso conseguir qualquer coisa no mercado clandestino né?! Se você quiser eu posso conseguir uma nova documentação para você." Sussurrou Gaelle em seu ouvido.
Ophélie não queria andar com documentos falsos e não queria ir embora da França. Na verdade, ela não tinha para onde ir. Não tinha como atravessar a fronteira e os países vizinhos ou já haviam sido invadidos ou estavam sofrendo ameaças de invasão. Não tinham notícias dos pais ainda, que também moravam em um país já invadido. As últimas semanas foram de pânico total com diversos bombardeios, ficar era a única opção.
"Mesmo que eu queira, eu não tenho dinheiro nem nada de valor para oferecer como pagamento. E do que adianta documentos falsos? Eu não vou fugir, todos daqui me conhecem. Não tem como mudar de nome e fingir que nunca estive aqui."
Gaelle desistiu de tentar arrumar o chapéu e olhou para Ophélie com pena nos olhos. Ela sabia que das duas, Ophélie era a que mais corria perigo.
"Saiba que se as coisas ficarem mais difíceis para você e seu tio-avô, vocês podem se esconder lá em casa. É uma casa velha da época da Revolução Francesa, cheia de passagens secretas, ninguém vai achar vocês lá." Disse Gaelle segurando os dois ombros da amiga em um gesto de nervosismo.
"De jeito nenhum! Não quero trazer problemas para você e sua família." Afirmou Ophélie. "Vamos deixar as águas rolarem. Se dermos sorte, o Reino Unido vai interferir e expulsar os alemães daqui."

Chegando no velho apartamento, que foi construído na metade do século XIX, Ophélie deu de cara com seu tio-avô escondendo dinheiro dentro de um vaso.
"Tio, o que está fazendo?" Indagou ela, colocando a bolsa e o casaco no cabide. "Não é óbvio minha filha?! Estou escondendo o pouco dinheiro que nos resta para emergências. Fizemos isso na última guerra." Respondeu ele, enfiando o dinheiro enrolado, como se fosse um cigarro, dentro do vaso.
"Então você já sabe."
"Eu saberia de um jeito ou de outro, a vizinha estava chorando e as pessoas não param de gritar na rua. A escória da Europa" Ele nunca dizia as palavras 'alemão' ou 'Alemanha'. "estava marchando em frente ao Arco do Triunfo. Uma vergonha." O tio-avô pronunciou 'vergonha' com tanta dor e desprezo que até fez careta.
Ele terminou de colocar o dinheiro dentro do vaso e olhou para Ophélie, que sentou-se na poltrona e encarava os próprios sapatos. Ele sabia o que ela estava pensando e vice-versa. Os dois estavam com medo e pensaram nos outros parentes que estavam longe demais. Não tinham notícias deles desde maio. O tio-avô também se sentou e segurou o joelho dela, fazendo com que Ophélie o encarasse.
"Esqueceu das compras, minha filha?" Perguntou ele em tom de brincadeira, dando um sorrisinho que também faria Ophélie sorrir. Mas ela não sorriu. Agora a ficha estava realmente caindo, ela se tocou que de fato corriam perigo. Não só eles como todos os outros 'indesejados' da França.
"Tio, o que vamos fazer?" Questionou ela com a voz chorosa e triste. Ophélie esperava viver pelo menos mais 40 anos. Viver numa casinha no interior, perto do litoral, com vários gatos. Mas por causa da guerra talvez isso nunca acontecesse. Queria ver os irmãos crescerem, mas Hector, seu único irmão, já estava na idade de se alistar.
Seu tio-avô, que já foi um veterano na Primeira Guerra Mundial, a olhou nos olhos e segurou firmemente suas mãos para só então responder:
"A guerra muda as pessoas, mas algumas coisas permanecem. Então vamos fazer o que fizemos na última: resistir."
Aquele homem velhinho de bigodes e cabelos cinza foi o que deu forças para Ophélie.

A Biblioteca Nacional de França sempre foi a sua segunda casa. Seu tio-avô havia trabalhado lá por anos e quando ela ia passar as férias em Paris ele a mostrava tudo, desde os arquivos para o público até os arquivos confidenciais. Agora, ela trabalha lá também. E além de traduzir, Ophélie cataloga os livros mais antigos.
"Bom dia Elizabeth" Disse Ophélie, cumprimentando a bibliotecária.
"Não tem nada de bom hoje. Nem hoje nem nos próximos dias." Respondeu ela.
Elizabeth era uma ruiva com o rosto cheio de sardas e olhos azuis claros, era duas vezes mais alta que Ophélie. A bibliotecária estava tirando alguns livros de uma estante mais afastada, onde provavelmente estavam os livros de Alexandre Dumas e Arthur Rimbaud.
"O que você está fazendo?" Perguntou Ophélie se aproximando do carrinho onde Elizabeth colocava os livros delicadamente dentro de caixas.
"Pegando os livros que só tem uma edição para esconder no porão. Esses nazistas odeiam a cultura, não podemos deixar que eles destruam tudo."
"E onde está o resto do pessoal?" Questionou Ophélie depois de reparar que só haviam as duas na biblioteca.
"Foram embora. Fugiram. Professor Wolf e Blasius eram comunistas assumidos. Se ficassem aqui seriam fuzilados. Aliás…” Elizabeth pegou uma edição pesada demais e ficou sem ar para terminar a frase. Ela colocou os livros em cima da mesa e recuperou o ar para continuar. "Você não deveria ter fugido com seu tio também? Vocês são judeus, aqui não é mais seguro." Elizabeth pegou os livros da mesa e botou no carrinho, desta vez arrastando para o subsolo e de lá para o porão.
Ophélie a seguiu até lá, e só quando entraram no ambiente escuro que ela falou:
"Não pretendemos fugir. Vamos ficar na França até a guerra acabar."
Elizabeth olhou para Ophélie como se ela tivesse dito que fazia parte da Gestapo.
"Bom, cada um sabe onde o sapato aperta. Eu também vou ficar, até porque não tenho para onde ir."
Ophélie ajudou Elizabeth a armazenar e esconder as edições dos livros no porão. Algumas edições eram raríssimas, datando de 1789 até 1880. Não podiam ser guardadas de qualquer jeito, chegando até mesmo a se desfazer com um toque despreparado.
Depois de arrumarem tudo, as duas voltaram para a superfície um pouco perdidas. Ninguém iria à biblioteca nos próximos dias, então ela ficaria fechada até segunda ordem.
"O que a gente faz agora?" Perguntou Ophélie a Elizabeth e também não sabia o que fazer.
"Vamos procurar o que ouvir no rádio."