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Paris

Summary:

Um spin off de Sob a Linha Maginot.

Notes:

Oi de novo. Voltei.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

16 de Agosto de 1971

Ophélie andava tranquilamente pelas ruas de Nice. Estava voltando do internato feminino da cidade, ela era professora de idiomas lá.
Era verão na França, e nessa época do ano a cidade recebe muitos turistas, e agora não era diferente.
Ela andava pela calçada, mais desviando do que andando, na verdade, e sempre dava de cara com algum turista. Ela sabia quem eram os turistas e quem eram os moradores locais, porque os turistas sempre estavam com câmeras fotográficas nas mãos, e os moradores locais sempre ficavam irritados quando dava de cara com um.
Mas ela não estava irritada, sequer ficava. Morar em Paris acostumou ela aos turistas estrangeiros.
Estava voltando para casa, para almoçar. Mas não só isso. Precisava fazer as malas para viajar, ia para Paris no dia seguinte.
Na verdade, ela não iria a princípio, mas Gaelle ligou para ela e perguntou se não queria ir para Paris com ela, só para relembrar os velhos tempos, e ela aceitou o convite. Ela ainda ia poder ver Eulie, que estava em Paris estudando astronomia na Universidade de Sorbonne, a mesma universidade que Ophélie estudou quando era mais jovem. Eulie era Eulalie, sua filha mais velha, e ela estava morando no apartamento que uma vez pertenceu ao tio-avô.
Henry, seu filho mais novo, também estava estudando, mas na Itália, na Universidade de Turim. Estava morando com seu tio, Hector. Diferentemente da irmã, ele preferiu estudar história. Ele tinha puxado muito a personalidade de Ophélie, apesar de ter muitas características do pai. O nariz e o cabelo eram iguais aos de Thorn, mas parava por aí. O resto era tudo de Ophélie. Tinha os olhos, o rosto, a altura e a teimosia dela.
Chegando em casa, ela foi recepcionada por Gato. Gato era o nome do animal de estimação da família. Era um gatinho preto de olhos verdes que simplesmente apareceu no quintal da casa e tinha esse nome porque ele atendia melhor por gato do que por um nome em especial. Thorn de primeira, não gostou da invasão, mas logo se afeiçoou ao gato, que também gostava muito do dono. Na verdade, ele gostava mais da pessoa que não o queria em casa do que da pessoa que o queria.
Gato se esfregou em suas pernas, como se a cumprimentasse.
"Thorn, cheguei!" Ela gritou do hall de entrada, pendurando o casaco e tirando os sapatos. Gato a seguiu até a cozinha, que era onde Thorn estava. Ele passava mais tempo cozinhando do que em qualquer outro lugar. Diferentemente de Ophélie, ele não trabalhava, até porque não precisava já que eles eram praticamente ricos. Mas Ophélie não sabia o que era ficar o dia inteiro sem fazer nada, e como não era boa em trabalhos domésticos, ela procurou um emprego.
Famosa não era a palavra certa para definir a popularidade de Ophélie na cidade. As pessoas conheciam ela devido ao que ela tinha feito durante a guerra. Quando completou 10 anos do fim da guerra, o próprio prefeito de Nice a convidou para jantar no Palácio do Estado. Ser tão popular a fez encontrar um emprego, e saber vários idiomas ajudou ainda mais.
Era professora de idiomas no internato feminino da cidade, que recebia meninas de vários lugares do mundo. A maioria era da Europa e vinham de famílias ricas, ou estudavam lá como uma espécie de retiro. Ela era muito querida pelas alunas mais jovens, que a chamavam de Lilie. Algumas tinham voltado para seus países de origem, para aproveitar as férias de verão, outras ficavam no internato, e Ophélie gostava de ficar com elas, sem ser exatamente uma professora. Mas ia ficar uns três dias em Paris, o que era as férias para ela.
Thorn estava na bancada da cozinha, mexendo alguma coisa verde numa tigela de vidro.
"Oi. Acabei de fazer o almoço." Ele disse, parando o que estava fazendo para olhar para ela.
"Qual o cardápio?" Perguntou, sentando-se na cadeira da bancada.
"Salada de rúcula e agrião com tomate."
"Argh!" Ela fez uma careta de desgosto.
Acontece que com duas gravidezes mais a idade, o metabolismo de Ophélie desacelerou como se fosse um corredor olímpico aposentado, fazendo com que ela ganhasse peso de maneira significativa, o que poderia acarretar problemas de colesterol e pressão alta, levando-a a um eminente infarto. Seu médico, a quem ela começou a chamar de tirano, a colocou em uma dieta rígida, onde não poderia comer carnes vermelhas, carboidratos, açúcares e alimentos com muito sódio. Em outras palavras, nada. Ela não podia comer nada que não fosse verde e saudável, até as frutas ela precisava pegar leve por conta da frutose. Não bastava fazer exercícios e beber muita água, precisava abdicar da comida também. Thorn até tinha se oferecido para fazer dieta com ela, mas ela tinha dito que não era necessário, estava longe de ser, já que ele era magro naturalmente.
Thorn colocou prato e talheres na frente dela. Todo almoço e jantar era um desafio, porque ela não aguentava mais comer comidinhas saudáveis. Thorn não ajudava porque ele tinha um repertório de saladas. Salada de grão-de-bico, salada de cenoura, salada de três grãos, salada de repolho roxo, salada de pepino, salada de repolho com ricota e tomates cerejas e salada caesar, essa era a preferida de Ophélie, mas só porque tinha frango, apesar de não estar proibida de comer carne branca.
O homem tinha receita para tudo, e só a deixava comer carne nos fins de semana. Ele estava mais preocupado com a saúde dela, do que ela mesma, apesar de também estar apresentando problemas de saúde. Seu ombro, que foi atingido por um estilhaço durante a guerra, voltou a apresentar problemas, dessa vez nos nervos. Teve um dia que Thorn sentiu uma dor tão forte na região exata que tinha sido atingida, que ficou com o braço paralisado o dia inteiro. Agora, depois de muita fisioterapia e medicação, ele começou a melhorar, mas se voltasse a piorar ia ser necessário fazer uma cirurgia.
Ophélie colocou um pouco das folhas no prato, e ao invés de comê-las logo de cara, ela preferiu encará-las, para pegar coragem. Ajudar o exército francês a capturar os alemães restantes em Paris era fácil perto daquilo.
"Fiz suas malas."
Essa frase vez Ophélie esquecer a salada. Ela olhou para Thorn.
"Eu agradeço muito, mas não precisava."
"Precisava, ou você esqueceu da última vez?"
A última vez que Ophélie fez a própria mala foi quando ela viajou para Bélgica, para passar o pessach com a família. O que ocorreu foi que estava frio, porque era inverno, e Ophélie simplesmente esqueceu de pegar roupas mais quentes. Tinha pego só blusinhas de manga longa que não esquentava nem uma planta. Ela passou tanto frio no Aeroporto que acabou indo parar na enfermaria. Thorn quase saiu de Nice para ir buscá-la.
Desse dia em diante ele começou a fazer as malas dela, especialmente quando as temperaturas estavam baixas.
"Não, não esqueci. E obrigada." Ela respondeu, a contragosto. Dessa vez colocou as folhas na boca e mastigou bem, sem pieguice. Ia precisar comer de um jeito ou de outro.
"E eu falei com Henry, depois que você saiu."
"E como ele está?"
"Acredito que bem. Vai passar o verão em Cagliari, com alguns amigos. Disse para tomar cuidado e não fazer nada estúpido, o que eu acho improvável já que nessa idade a tendência é cometer estupidez. Liguei para Eulie também, mas ela não atendeu, o que achei estranho já que ela não é de sair de casa, mas você vai vê-la logo, então não tenho com o que me preocupar." Ele respondeu, limpando as mãos no avental.
Thorn, com toda certeza, era mais dedicado aos filhos do que ela, ou pelo menos era o que ela achava. Apesar de ter feito todo o trabalho duro, e com trabalho duro ela queria dizer parto, Thorn era um pai bom, um pai ótimo.
Tricotou as roupas deles, mas só porque, segundo o próprio Thorn, "a qualidade das roupas do pós-guerra são uma porcaria e meus filhos não vão usar tecido que parece de saco de batata", pintou seus quartos, o que foi chocante para Ophélie porque ela não fazia ideia de que ele pintava, além de ser um poço de paciência, ou quase isso.
Uma vez Eulie tinha brigado na escola, bateu em uma colega de classe, e o diretor chamou eles na escola para dizer o quando o comportamento dela tinha sido inapropriado e desrespeitoso. Thorn, a princípio, não ia falar nada, até perguntar para Eulie, na frente do diretor, já que ela também estava na sala, porque ela tinha batido na colega. O problema era que a colega tinha falado a Eulie coisas ruins, totalmente antissemitas, coisas terríveis que até fizeram Ophélie ficar chocada. Até hoje Ophélie não sabe exatamente o que Thorn tinha dito ao diretor porque ela saiu da sala com Eulie para chorar.
Depois disso a tal colega saiu da escola e coisas desse tipo nunca mais ocorreram, e Thorn fazia questão de saber se outros alunos sofreram ou sofriam algo do tipo.
Como marido, Thorn era ótimo. Sempre a apoiava e a aconselhava. Conversava com ela sobre os próprios sentimentos, o que era um voto de confiança para ela, já que no início do casamento ele não se abria tanto. Quando as crianças nasceram, ela disse que não iria batizá-los e que quando crescessem poderiam escolher a religião que preferirem, ele foi o primeiro a defendê-la, já que os outros membros da família, com exceção de seu tio-avô, se opuseram. A coisa tinha ficado tão complicada, que sua mãe parou de conversar com ela, e continuou assim durante um ano e meio, até Thorn ligar para ela e dizer que caso não voltasse a falar com Ophélie, ela mesma ia se desvincular da família e nunca mais falar com ela. Funcionou, porque ninguém falava mais sobre o batismo dos filhos deles.
Às vezes ele escrevia cartas para ela, e colocava elas em lugares aleatórios, onde sabia que Ophélie ia achar. Ela tinha uma caixinha só para guardá-las. Algumas eram cartas enormes, com até cinco folhas, outras eram curtas, com um trecho de algum livro ou algum poema.
Sempre a elogiava, especialmente agora que ela estava se sentindo péssima por ganhar peso. Quando disse a Thorn que não estava mais se achando bonita, ele limitou-se a encará-la para depois dizer: isso é bobagem, você é tão bonita quanto as modelos da capa da Vogue.
Isso arrancou uma gargalhada dela, mas que ajudou a melhorar sua autoestima.

Estavam na cama, deitados, e Thorn estava em cima de Ophélie, beijando seu pescoço. Fazia um tempo que ele a estava beijando, ou melhor, a torturando. Ele adorava essas carícias torturantes e lentas que a deixavam ofegante e ansiosa. E anos de casado não o tinha mudado em nada.
"Chega, chega. Está me fazendo cócegas." Ela o afastou, rindo, e se sentou para acender o abajur e pegar os óculos na mesa da cabeceira.
"Eu posso te beijar em outros lugares, se você preferir. Lugares que não fazem cócegas." Ele disse, lascivamente, colocando a mão sobre o ventre dela. Estava com o cabelo loiro desgrenhado, os botões do pijama aberto e os olhos brilhando, cheios de malícia.
"Não. E eu preciso acordar cedo amanhã, então aquieta esse fogo e vai dormir." Ela respondeu. Se ficasse dando ouvidos ao que Thorn dizia, ela não ia dormir direito, e não podia ir para o aeroporto caindo de sono.
"Mas eu vou sentir sua falta." Ele se aconchegou o mais perto que conseguia de Ophélie. Ela tinha certeza de que ele estava bêbado, apesar de só ter bebido uma taça de vinho no jantar. Parecia um gato manhoso.
"Que drama, homem! Não vou ficar nem uma semana. Vai sobreviver sem mim." Ophélie apagou a luz do abajur e encostou a cabeça na cabeça de Thorn.

"Tem certeza de que não quer que eu te acompanhe até o Aeroporto?"
Thorn vinha atrás dela, levando uma de suas malas.
"Não, estou bem" Ela respondeu. Já tinha viajado sozinha antes, sabia como funcionava.
"Eu posso..."
"Não precisa, eu estou bem."
"Mas é que..."
"O táxi está esperando, quando eu chegar lá eu te ligo."
"Ophélie, você está levando o Gato com você."
Ela parou de andar e percebeu que estava segurando o gato no braço. Ele estava tão quietinho que ela não tinha percebido que era ele. Ophélie o coloca no chão e continua andando.
Do lado de fora, o motorista a esperava, pacientemente, apesar dela ter demorado. Thorn coloca as malas no porta-malas.
Quando entrou no carro, Thorn colocou a cabeça pela janela.
"Não está sentido que esqueceu algo?" Perguntou.
Ela pensou por um momento, mas não se lembrou de nada, balançou a cabeça em negativo.
"Sua carteira e a passagem." Ele colocou a mão pela janela para entregar os esquecidos.
Ophélie se sentiu totalmente estúpida, porque não teria como embarcar no avião e não teria como pagar o táxi para voltar para casa.
Pegou a carteira e a passagem, e antes que Thorn se afastasse da janela ela o agarrou pelo colarinho e lhe deu um beijo.
"Tchau."
E foi embora.

Após 2h e 47 minutos de voo, táxi e trânsito, Ophélie finalmente chegou ao Hotel La Louisiane, que era onde ela e Gaelle ficariam hospedadas durante a estadia.
Demorou um tempo até ela tirar todas as malas do carro, primeiro porque elas estavam muito pesadas e segundo porque o motorista era uma mosca-morta que sequer se atreveu a sair para ajudá-la. Ophélie até pensou em dar gorjeta para ele, mas mudou de ideia na mesma hora que pegou a mala.
Demorou mais ainda para entrar na recepção do Hotel. Parou de frente para um balcão e soltou as malas na mesma hora. Talvez fazer caminhadas na orla da praia não fosse o suficiente para perder peso e deixá-la mais forte fisicamente.
"Oi." Ela cumprimentou o recepcionista, que a olhou por cima dos óculos "Eu tenho uma reserva no nome de..."
"Ophélie!"
Uma figura vestida de verde e turbante vermelho surgiu no topo da escada, desceu rapidamente para abraçá-la.
A última vez que tinha visto Gaelle havia sido no enterro de Archibald, que morreu tragicamente em um acidente de carro. Vinha dirigindo no meio de um temporal sem cinto de segurança. O carro capotou e desceu uma ribanceira. O corpo dele tinha sido arremessado, e só o acharam horas depois do acidente. A única coisa que confortou Ophélie quando soube o que tinha acontecido foi que o pescoço dele quebrou quando foi arremessado. O enterro tinha sido ainda pior porque só tinha ela, Thorn, Gaelle e Renold e uma de suas irmãs, que sequer falaram com eles.
Gaelle estava bem diferente desde dessa última vez que se viram. Estava mais magra, e o rosto estava encovado, quase macilento. Toda a beleza que ela uma vez já teve ainda estava presente, mas dessa vez em menor escala, porque Ophélie se assustou quando a viu. Estava usando calças verde musgo e uma sobreposição com um suéter listrado e uma blusa manga longa além do turbante vermelho que estava preso com um broche dourado de estrela, que a fazia parecer uma Elsa Schiaparelli comunista. Mas nem toda essa elegância foi capaz de esconder o aspecto estranho.
"A quanto tempo! Como vai?" Gaelle perguntou, mas Ophélie ainda estava perplexa pelo seu aspecto doentio. Percebendo que sua amiga estava chocada pela sua aparência, Gaelle disse:
"Não me olhe com essa cara! Estou bem."
"O que aconteceu?" Perguntou Ophélie.
"A menopausa. Foi ela que me aconteceu. Estou com anemia, estou me cuidando, mas essa porcaria de útero parece que quer acabar comigo. Mas os quilos que perdi você achou. A menopausa fez isso com você também?"
"Não, minha menopausa foi tranquila." Ela disse.
Tranquila era um eufemismo, porque tinha sido um período bem estranho e complicado. Sentia intensas ondas de calor, problemas para dormir, raiva e uma queda da libido assustadora. Num geral, tinha sido péssimo, mas quando terminou foi ótimo.
"Meu problema foram gravidezes demais, o tempo cobra em algum momento. Ganhei peso nos últimos anos e agora estou em uma dieta rigorosa. É isso ou um infarto fulminante."
"Mas vai esquecer essa dieta enquanto estiver aqui não é? Até porque, só se vive uma vez."
Esse era o tipo de frase que Ophélie tentava evitar desde que começou a dieta. Só se vive uma vez. Ela tinha pensado nessa frase umas cem vezes, só para saber se valia a pena comer uma caixa inteira de chocolates. No final das contas não valeu a pena, porque ela passou mal.
Fez o check-out e subiu para o quarto.
Era um quarto simples. Nada de pomposidades ou afetações. Apenas um quarto simples e limpo que tinha uma varanda pequena que dava uma bela visão para a Rua de Seine. Conseguia ver o tráfego inteiro dali.
"Então, vai querer fazer o que hoje?" Perguntou Gaelle, colocando as malas no chão e sentando-se na cama. Apesar de dizer que não precisava de ajuda e que conseguia levar todas sozinhas, Gaelle pegou as malas da mão dela e as levou até ao quarto.
"Primeiro, preciso ver Eulie. Depois vamos almoçar no Le Procope." Respondeu. Queria ver Eulie para saber como ela estava e para mostrar o álbum da família a ela. Eulie não tinha mostrado muito interesse pela antiga encadernação de couro, mas ela tinha pedido para Ophélie mostrar o álbum a ela quando Eulie fosse para Nice ou quando Ophélie fosse para Paris.
"Então não vamos perder tempo, vamos ver Eulie." Ela se levantou da cama, entusiasmada.

Eulalie era a mistura perfeita de Thorn com o tio-avô e talvez Agathe, mas dessa última ela tinha pego a vaidade, porque a personalidade passava longe.
Não era voltada para conversas e interações sociais. Enquanto o irmão se esganava de chorar no berço, Eulie acordava e se contentava em olhar o teto pintado com as cores do anoitecer. O máximo que ela fazia para avisar que estava acordada, com fome ou com sono, era fazer um muxoxo. Na escola, ela não tinha amizades, e preferia ficar lendo do que socializando. Quando entrou na adolescência não era diferente. Não tinha amigos ou namorados e nunca se incomodou com tal coisa. Preferia os estudos, porque segundo ela "prefiro a decepção dos números do que a das pessoas". Se alguém dissesse algo incrivelmente estúpido perto dela, ela responderia com o máximo de grosseria possível. Não gostava de pessoas de fora da família e detestava burrice e ignorância. Era muito inteligente e preferia a companhia dos números à das pessoas.
A única coisa que tinha herdado de Ophélie foi a cor do cabelo e o formato da boca, porque o resto era tudo de Thorn. Os olhos, o belo nariz romano além de ser mais alta que Ophélie e Henry. E era a favorita do pai, apesar de Thorn não demonstrar e não admitir, mas Ophélie sabia que Eulie era a favorita dele, não tinha como não ser. A primeira palavra que aprendeu foi em alemão, com o pai. E às vezes, quando queria dizer algo a ele, mas não queria que os outros entendessem, ela conversava em alemão com ele. Ela era a cópia dele, assim como Henry era a cópia dela, e Henry era o favorito dela, apesar de jamais dizer isso em voz alta ou fazer preferência pelos filhos.
O prédio onde Ophélie já morou continuava igualzinho, pelo menos na parte de fora, porque na parte de dentro estava totalmente modernizado, tinha até mesmo elevador.
Ophélie precisou bater na porta três vezes, porque sabia que Eulie não estava ouvindo nada por conta da música alta. Estava tocando Le temps de l'amour. Era uma das músicas favoritas dela, perdendo apenas para Starman.
Gaelle ficou impaciente e bateu na porta com mais força.
"Abre essa porta Eulalie." Ela gritou, por cima da música alta. Funcionou porque o volume diminuiu e a porta foi aberta.
Eulie estava com uma toalha no topo da cabeça e estava segurando um frasquinho de esmalte.
"Oi mãe. Oi madrinha." Ela cumprimentou, como se não tivesse deixado as duas esperando do lado de fora.
"Oi, querida!" Gaelle cumprimentou de volta e a abraçou. Ela era madrinha de Henry e Eulalie. O padrinho era Archibald. Era, literalmente.
Eulie a abraçou de volta, e quando Gaelle a soltou, ela foi direto para a mãe, para abraçá-la também. O gesto de amor mais sincero que ela já recebeu da filha foi ser abraçada por ela, e não ir abraçá-la. Era o tipo de coisa que só quem convivia com Eulalie saberia descrever.
"Entrem." Ela disse, saindo do batente da porta e voltando para a sala, onde estava pintando as unhas dos pés de laranja. Gostava muito da cor.
Os móveis da sala eram os mesmos, com o diferencial da decoração, que estava mais atual. As paredes estavam pintadas de branca com detalhes psicodélicos. Os quadros eram surrealistas. Os cacarecos da estante tinham sido substituídos por discos, livros, quadros de figuras históricas, como o Che Guevara, e da família e um abajur vermelho em formato de rosto sorridente. Agora tinha uma mesinha perto da estante que apoiava uma vitrola.
O sofá era o único móvel substituído. Era um modelo verde, minimalista, encostado na parede com almofadas decoradas na mesma paleta de cores do sofá. Eulie se sentou no chão, para terminar de pintar as unhas.
"E então Eulie, como vai você?" Perguntou Gaelle, sentando-se ao lado de Ophélie.
"Bem, e a senhora?"
Gaelle odiava que os outros a chamasse de senhora, a única que podia chamá-la assim sem receber um grito de advertência era Eulalie.
"Vou bem, eu acho." Respondeu.
"O que vieram fazer aqui?" Perguntou Eulie, sem desviar um minuto sequer da unha sendo pintada. Às vezes ela era muito direta, e quem não a conhecesse acharia que ela estava sendo grosseira.
"Viemos relembrar nossa juventude. Passar mais tempo uma com a outra, faz tempo que não fazemos isso. E a vida é só uma, precisa aproveitar direito." Ela responde. Era a segunda vez que Gaelle dizia algo do tipo, algo que falava como a vida era curta e precisava ser aproveitada. Estava gostando muito disso.
"Legal." Ela disse.
"Eu trouxe o álbum da família." Disse Ophélie, tirando a pesada relíquia da família de dentro da bolsa e entregando para Eulie, que logo deixou o esmalte de lado e começou a folheá-lo. Tinha sido feito a mão, para armazenar os momentos da família. A capa era de couro verde e a lombada tinha detalhes em ferro fundido pintado de dourado. Devia ter umas 600 folhas, e mais da metade estava preenchida. Todas as fotos estavam em ordem cronológica e marcadas com datas, isso tinha sido ideia de Thorn, e anos.
O álbum tinha sido feito em 1950, e as primeiras fotos eram todas de Ophélie e Gaelle quando ainda faziam parte da Resistência Francesa. Renold serviu de fotógrafo para a maioria delas. Algumas eram delas com soldados aliados, em cima de tanques, fumando e segurando armas. Além das fotos, também tinham recortes de jornais. Uma em especial chamou a atenção de Eulie. Ela estava apontando a arma para a câmera e sorrindo, com um cigarro na boca.
"O que estava acontecendo nessa foto?" Ela apontou para o recorte, intrigada.
"Foi quando a BBC me entrevistou. Eles queriam uma foto impactante, então dei uma foto impactante para eles. E eu ainda tenho a arma."
"É aquela que você roubou?" Perguntou Ophélie.
"Essa mesma."
"Você roubou uma arma?" Eulie perguntou, chocada. Ophélie pensava que os nascidos no pós-guerra eram sortudos o suficiente para nunca ver um conflito armado de perto, mas azarados o suficiente por não viverem a emoção. Ela só achava isso agora que tudo tinha passado, porque na época tinha ficado aterrorizada.
"Roubei. Eu era um baita mulherão parisiense na época." Ela bateu com os dedos no recorte "Os homens não podiam me ver que ficavam doidos, até mesmo os alemães. Usava muito do charme para fugir e arrumar problemas, nesse caso eu arrumei problema. Estávamos no Louvre, e um soldado passou pela gente e flertou comigo. Não pensei duas vezes, fui atrás dele, o seduzi e roubei a arma dele e eu e sua mãe tivemos que pular no Sena depois. "
"A gente não pulou, você pulou e me arrastou junto." Intercedeu Ophélie.
"E me agradeça por isso. Se ficasse lá ia ser presa."
Eulie voltou a folhear o álbum, até parar em uma fotografia. Era uma foto bem ampla do exterior da Biblioteca. Dava para ver Ophélie no canto. A foto tinha sido tirada logo depois da libertação de Paris.
"É a Biblioteca Nacional, não é?"
"Sim, eu trabalhava lá como intérprete."
Nem Eulie e nem Henry sabiam exatamente o que os pais faziam quando eram mais jovens. Na verdade, sabiam, mas não tão a fundo. Sabiam que o pai tinha sido espião do governo britânico, mas parava por aí. Sabiam que a mãe tinha recebido condecorações do governo francês pelos serviços prestados durante a guerra, mas não passava disso.
"Eu sempre vou lá estudar. Tem mais livros sobre astronomia do que as outras bibliotecas. E a biblioteca da universidade fica fechada durante o verão."
"Eu tive uma ideia ótima." Gaelle pulou do sofá e olhou para elas "Porque a gente não vai turistar por Paris?"
"Turistar?"
"É assim que os estrangeiros falam, mas você entendeu o que eu quis dizer. A gente anda por Paris, leva Eulie e mostra a ela a cidade e conta como era a nossa juventude durante a guerra."
"Eu adoraria, mas preciso estudar." Eulie tinha terminado de pintar as unhas e estava limpando os cantos sujos de esmalte com um palitinho de ferro.
"Estudar? Nas férias de verão? Menina, está um calor delicioso em Paris e você quer ficar aqui enfurnada estudando?! Os russos se matariam para ter um verão desse." Ela disse, indignada.
Ophélie já tinha ido para São Petersburgo durante o verão para visitar Gaelle alguns anos atrás, e mesmo no verão a cidade era fria.
"Mas vocês querem sair agora?" Eulie perguntou, soprando as unhas do pé para secar mais rápido.
"É. Levanta daí, vamos até à Biblioteca Nacional e de lá vamos almoçar no Le Procope, o restaurante favorito da sua mãe, e amanhã vamos ao Louvre e à Torre Eiffel." Disse Gaelle, listando os pontos turísticos nos dedos.
"Me recuso a perder meu tempo naquela coisa." Mesmo depois de tanto tempo, Ophélie ainda odiava a Torre Eiffel.
"Tudo bem, eu vou com vocês. Mas eu ainda preciso arrumar meu cabelo, separar a roupa, esperar as unhas secarem, fazer a maquiagem e..."
"Tá bom, a gente espera." Gaelle se jogou no sofá, ciente de que tudo isso ia demorar, até porque ela era assim quando era mais nova. Ophélie já esperou horas e horas para ela terminar de se arrumar.
Eulie correu nas pontas dos pés, para não borrar as unhas, em direção ao quarto
"Ela puxou a quem vaidosa desse jeito?"
"A Agathe."

A Biblioteca Nacional continuava igual, mesmo após anos.
As colunas, os afrescos no teto, as estantes, as salas de leitura, o Jardim Vivienne, as mesas e as cadeiras e os departamentos. Tudo continuava igual.
Ophélie foi atingida por uma onda de nostalgia tão grande que quase chorou. E talvez ela tivesse derramado algumas poucas lágrimas quando descobriu pela bibliotecária que a antiga tinha morrido a um ano de meningoencefalite. Ophélie não era tão próxima de Elizabeth, foram apenas colegas de trabalho, mas era muito grata a ela por cuidar dela e de Gaelle depois que Thorn foi embora.
A bibliotecária a conhecia e disse a Ophélie que Elizabeth nunca tinha se casado ou sequer construído uma família. Se dedicou apenas à Biblioteca.
Pelo menos teve permissão para mostrar a Biblioteca à filha, como tinha feito com o pai dela anos atrás.
Mostrava naquele momento o lugar onde ela e Gaelle tinham se escondido durante um tempo.
"Éramos o terror dessa cidade. Explodimos a Ópera, atiramos em soldados à paisana e ajudamos o exército a libertar a cidade. Ficar às escondidas foi a coisa mais tranquila que já fizemos." Gaelle andava de um lado para o outro no esconderijo.
Eulie devia estar achando tudo um máximo porque estava fascinada.
"Senão estávamos mortas." Retrucou Ophélie. Às vezes pensava em como as duas tiveram sorte.
Depois da guerra, muitas pessoas que lutaram contra o nazismo, sem estarem diretamente no conflito, surgiram. Outros que ajudaram infelizmente não foram conhecidos pelo público porque morreram antes da guerra acabar, de fato.
"Mas não morremos e a Alemanha perdeu a guerra." Ela respondeu, saindo do quartinho.
Tinha mostrado a Eulie o antigo escritório de seu pai, que já não era mais escritório e sim uma despensa. A escrivaninha dela ainda estava lá, juntando pó no canto.
Saíram, mais especificamente, para o jardim que imitava o Jardim Vivienne.
Estava totalmente diferente desde a última vez que Ophélie o viu.
Agora tinha bancos, cadeiras e mesas para leitura. Tinham plantado mais flores e uma árvore frutífera.
Um belo ramo de hortências brancas florescia no canto. Tinha crescido consideravelmente desde a última vez que Ophélie o tinha visto.
"Lembra?" Ophélie perguntou para Gaelle, apontando o ramo com o queixo.
"Lembro." Ela sorriu.
"Do que estão falando?" Perguntou Eulie, confusa. Ophélie sentiu pena dela. Não poderia contar o que ela tinha feito de qualquer forma.
"Eu que plantei aquele ramo." Ela respondeu. Não era mentira, mas também não contaria o resto. Seria estranho uma mãe dizer à filha que ajudou a ocultar um corpo.
Ela balançou a cabeça em positivo.
As três ficaram em pé, meio pensativas. Não sabiam se andavam mais pela Biblioteca ou se iam embora.
"Então," Gaelle quebrou o silêncio "vamos almoçar?"

Na época da guerra, Paris mal recebia turistas, tirando os alemães, por conta da invasão e da ocupação. Mas agora, parecia que todos os turistas do mundo estavam localizados em um só lugar.
Dizer que o Le Procope estava lotado seria uma piada, porque estava mais do que isso. Ophélie nunca tinha visto aquele restaurante tão movimentado como estava naquele momento. As pessoas faziam filas do lado de fora.
Só turistas esperavam por uma cadeira, parisienses sentavam-se na primeira cadeira livre que vissem, e foi o que Gaelle fez.
Sentou-se nela como se já estivesse ali há um tempo. Até os garçons entendiam isso, não gostavam de atender estrangeiros pelo pouco francês, então nem faziam questão, mas logo um veio até a mesa para pegar os pedidos.
"Vou querer sopa de cebola com bastante queijo gruyère em cima." Disse Eulie. Ela, como Ophélie, adorava sopa de cebola. Para infelicidade de Ophélie, a sopa estava proibida para ela, por conta da quantidade de calorias.
"Ophélie, vai querer o quê?" Perguntou Gaelle.
"Algo verde e sem glúten, por favor." Ela respondeu, expressando desgosto. Esperava perder um pouco de peso enquanto estivesse em Paris, até porque os únicos meios de locomoção que ela teria seria trem ou a pé.
"Salada Niçoise?" Sugeriu o garçom.
"Pode ser."
"Quero filé au poivre. Mal passado, por favor. E para beber, água"
"Sim, senhora." Disse o garçom a Gaelle. Ela nem teve tempo de brigar porque ele saiu logo em seguida.
Ficaram em silêncio por um tempo. Tinha muita coisa para falar, mas, ao mesmo tempo, não tinha nada.
"Como vão os estudos Eulie?" Perguntou Ophélie.
"Cansativo, mas estou gostando." Ela respondeu.
Ainda faltavam dois anos para ela terminar os estudos. Quando foi embora de casa tinha 18 anos, e foi algo tão repentino que Ophélie pensou ter entrado em depressão. Henry passou uma semana chorando, e só se recuperou quando visitou, depois de muita insistência, a irmã. Os dois eram muito próximos.
Eulie tinha dois anos quando Henry nasceu, e sempre ficava ao lado do berço dele. Tinha diversas fotos deles no álbum da família: na Praça Vermelha de mãos dadas, em Bruxelas com os avós, em Turim com Hector, em Genebra com Agathe e em Nice.
"Como vai meu pai?" Perguntou ela. Ophélie estava contando os minutos para ela perguntar isso.
"Vai bem, sente muito a sua falta. Tem falado com seu irmão?" Perguntou Ophélie a Eulie.
"Liguei para ele ontem. Vai para o sul. Me contou que está apaixonado. Perguntei se ele vai fazer algo a respeito, ele disse que não, então respondi que ele não está apaixonado, está atraído. Atração não é paixão e nem amor."
"E o que é atração?" Perguntou Gaelle, entretida pela última frase.
"Desejo. Isso é algo que todo mundo tem."
Gaelle ficou pensativa, mas depois disse:
"Larga a astronomia e vira filósofa."
Isso fez Eulie, pela primeira vez no dia, rir. Ophélie riu também.
"Mas deixando de lado esse assunto, quando vai me visitar de novo, Eulie? Precisa ver os desfiles militares que acontecem em março e maio." Perguntou Gaelle. Bem na hora o garçom chegou com os pratos e a água. Carregou e colocou tudo na mesa com uma maestria que impressionou Ophélie.
"Só quando eu pegar o diploma, não posso faltar na universidade. Sou uma das melhores da sala, se eu faltar fica marcado na minha ficha." Eulie respondeu, mas encerrou a conversa por ali. Não responderia mais nenhuma pergunta até que terminasse de comer.

Depois que terminaram de almoçar e andar pelo boulevard para fazer digestão, elas deixaram Eulie no apartamento, porque ela insistiu que precisava estudar pelo menos um pouco naquele dia.
Agora as duas iam juntas para o La Louisiane.
"Como vai Renold?" Perguntou Ophélie. Renold era o conselheiro geral do Kremlin, o que deveria ser bem importante já que soava tão bem, apesar dela não saber exatamente o que um conselheiro geral fazia. Moravam em Moscou agora.
"Bem, na medida do possível. Está com úlcera, que parece bem empenhada em matar ele, mas ele está se cuidando. E Thorn? Como vai ele?" Ela perguntou. Apesar de Gaelle ainda não gostar de Thorn e Thorn não gostar dela, ela gostava muito de Eulie, o suficiente para saber se o pai dela estava passando bem. Às vezes o karma era a filha do marido idiota da sua melhor amiga.
"O ombro dele estava dando problemas de novo, mas já está melhor. Está me ajudando com a dieta. Ele sabe fazer mais de 20 tipos de salada." E era verdade. Ophélie nunca comeu tanta verdura e tantos legumes em dois anos. Pelo menos estava perdendo peso e evitando um infarto. Da última vez que tinha conferido, tinha perdido 4kg. Estava indo bem.
"Vai querer fazer o que agora?" Perguntou Gaelle, abrindo a porta da frente do hotel para ela. Era um hotel bem simplista. Simplista o suficiente para ter um sininho na porta que sinalizava quem entrava e quem saía.
"Sinceramente? Quero tomar um banho e descansar. Odeio viagens de avião, meu ouvido fica zumbindo depois." A viagem em si não tinha sido tão ruim, tirando o fato de que tinha alguém tossindo incessantemente no voo.
"Que bom que você disse isso, porque também estou exausta." Ela subiu as escadas, logo atrás de Ophélie "Quer sair para jantar depois?"
"Quero."
E foram para seus quartos.

Ophélie já tinha tomado banho e trocado de roupa, e agora estava deitada na cama, ligando para Thorn. No quarto toque ele atendeu.
"Ophélie?" Ele perguntou.
"Como sabe que sou eu?" Ophélie ficou impressionada.
"Estive esperando sua ligação. Como foi a viagem?" Ele perguntou. Dava para ouvir Gato miando no fundo.
"Foi tranquila. Está um calor dos infernos aqui." E de fato estava. O quarto não tinha ventilador, e o máximo que ela conseguia fazer era deixar as janelas e as portas da varanda abertas.
"Aqui está mais fresco. Como vai Eulie?"
"Muito bem. Disse que sente sua falta. Ela estuda até nas férias."
"Os velhos hábitos nunca mudam." Isso era um fato. Eulie, enquanto estava na escola, também estudava durante as férias de verão "Como está sua amiga?" Apesar de também não gostar de Gaelle, Thorn a tratava normalmente, mas mais por que ela era madrinha dos filhos dele e, porque Eulie a tinha em alta conta.
"Bem, eu acho. Eu peguei os quilos que ela perdeu, está mais magra do que antes devido à anemia."
"Melhoras para ela. O que vão fazer nos próximos dias?"
"Hoje fomos à Biblioteca Nacional, mostrei ela para Eulie, que nem fiz com você há uns anos atrás." Ophélie disse. Esperou que ele dissesse algo, mas Thorn ficou em silêncio, então ela continuou: "Depois fomos almoçar no Le Procope, estava lotado. Só tem turista na cidade nessa época do ano. Daqui a pouco eu vou sair para jantar com Gaelle, e quem sabe com Eulie. Amanhã vamos ao Louvre. Mas e você? O que anda fazendo?"
"Passei a maior parte do dia com Gato. Comecei a tricotar um casaco novo para você, mas é só para o inverno. Testei receitas novas. Peguei sol depois das 17h. E sinto sua falta."
"Eu saí de casa hoje de manhã."
"Mas faz horas, e já sinto sua falta. Sua presença continua sendo um bálsamo para minha alma." Ele citou um trecho da carta que ele escreveu para ela há alguns anos. Isso pegou Ophélie de surpresa.
"Acho que já li algo parecido em algum lugar." Ela disse, rindo. Podia não escutar Thorn rindo, mas sabia que ele estava dando aquele sorriso que mais parecia um esticar de um elástico. Rápido, que só os mais atentos conseguem ver.
"O Gato também quer falar com você. Escuta."
Ophélie conseguia ver ele colocando o telefone perto de Gato. Não era a primeira vez que ele fazia isso.
"Miau." Disse Gato.
Ophélie disparou a gargalhar. Thorn podia ser um homem muito sério, mas ele conseguia ser muito engraçado ao mesmo tempo.

No dia seguinte, Ophélie e Gaelle foram buscar Eulie como combinado.
O jantar da noite passada tinha sido agradável. Ela ligou para a filha, perguntando se ela queria ir jantar com elas, mas Eulie recusou porque estava estudando. A garota era igual ao pai.
Dessa vez, quando pararam de frente a porta dela, não tinha som de música, então foi fácil para Eulie ouvir a batida na porta.
"Bom dia." Ela cumprimentou. Estava com as bochechas coradas devido ao blush.
"Bom dia. Como você está linda." Disse Gaelle. E de fato, Eulie estava linda.
Usava uma calça boca de sino num tom de terracota. A blusa curta era de um laranja intenso, cheio de detalhes em lantejoulas, glitter e pequenas miçangas. O cabelo estava num penteado que lembrava muito Brigitte Bardot, a maquiagem também, com os olhos bem marcados.
"Obrigada, vocês também."
Gaelle estava usando um vestido azul-escuro de bolinhas brancas, sapatos brancos de salto baixo e um turbante da mesma cor com o mesmo broche de estrela. Ophélie não entendia muito de moda, mas achava que turbantes eram tendência em Moscou.
Ophélie usava um vestido branco florido e sapatos pretos bem engraxados.
"Já tomou café?" Perguntou Ophélie.
"Já."
"Ótimo, vamos indo." Disse Gaelle, indo na frente.
A viagem até o Louvre podia ser feita a pé, caso você gostasse de andar ou precisasse perder peso, como Ophélie, poderia ser feito também de ônibus, mas demoraria um pouco, ou de trem, que era o meio de locomoção que elas tinham escolhido.
A estação estava cheia, e o vagão mais ainda. Precisaram ficar encostadas num canto.
Quando chegaram, parecia que a multidão que estava dentro do vagão também estava indo para o mesmo destino que elas, e de fato, o Louvre não estava muito vazio.
"Meu deus do céu! De onde saiu tanto turista? Não vejo Paris assim desde 1935." Resmungou Gaelle. Ela estava se abanando com um leque.
"É porque você nunca viu Nice nessa época." Disse Ophélie. Morava em Nice há 25 anos, e às vezes ela ainda se impressionava com a quantidade de turistas que a cidade recebia. Thorn tinha aversão a eles depois que um grupo pediu instruções de como chegar à orla da praia. A aversão se devia a estupidez da pergunta e o pouco senso de direção.
"A notícia boa é que não vamos precisar pegar fila para comprar bilhetes, porque eu já fiz isso ontem." Eulie tirou da bolsa três bilhetes desenhados com o Palácio do Louvre.
Gaelle suspirou de alívio. Na verdade, o suspiro mais parecia um suplício. Ophélie tinha a impressão de que ela estava passando mal.
"Tão esperta, tão inteligente. Você seria um ótimo membro da Resistência." Gaelle sacudiu o ombro dela.
Eulie balançou a cabeça em discordância, crispando as sobrancelhas.
"Acho que não, minha mira é péssima."
"Sua mãe não era diferente, mas o problema era que ela olhava no cano da arma quando a bala não saía." Ela disse para Eulie, mas apontava o leque para Ophélie. Essa história era tão antiga, mas todo mundo conhecia, até Thorn, porque Gaelle tinha contado a ele.
"Só fiz isso três vezes." Ela se defendeu.
"Depois de quase levar um tiro no olho. Só assim para você aprender." Retrucou Gaelle. E era verdade. Uma vez, isso ainda em guerra, ela estava tentando atirar em um soldado alemão, mas a arma falhou, e ingênua como era, para não dizer burra, ela olhou no cano da arma, que disparou. A sorte foi que a arma não estava apontada diretamente para o rosto dela. Depois do incidente, Gaelle deu um grito nela que a fez nunca mais olhar para canos de armas.
O Louvre era lindo por fora, mas ainda mais por dentro.
Antes de ser museu era um palácio e antes de ser um palácio era um castelo. Uma fortaleza para proteger o povo do Rei Filipe II dos ingleses. Perdendo o posto de castelo, o Louvre se transformou em um palácio para os reis franceses, mas o Rei Sol preferia Versalhes, então, deixou o Palácio do Louvre como um acervo para a coleção real. Durante a Revolução Francesa, o governo decretou que o Louvre era um museu, não mais um palácio, inaugurado em 1793.
A coleção foi ampliada durante a Era Napoleônica, e o museu começou a ser chamado de Museu Napoleão, mas após a abdicação dele, o museu voltou ao seu nome original.
Durante a segunda guerra, muitas obras foram tiradas do Louvre e escondidas pela França. Mais de 4.000 mil peças foram realocadas, e quando os nazistas foram visitar o Louvre pela primeira vez, deram de cara com salas vazias, e as poucas obras que sobraram eram pesadas ou frágeis demais para serem mexidas.
As coleções, que eram diversas, eram divididas em oito departamentos curatoriais: antiguidades egípcias, antiguidades do Oriente Próximo, antiguidades gregas, etruscas e romanas, arte islâmica, esculturas, artes decorativas, pinturas, impressões e desenhos.
A favorita de Ophélie era a de arte islâmica. Era totalmente diferente das coleções europeias. Eram lindas.
Estava admirando um belíssimo prato de cerâmica. O fundo era branco e tinha pavões e mandalas pintados em diferentes tons de azul. Não sabia o porquê, mas a obra lembrava Thorn. Estava sentindo falta dele também. Todo o encanto foi quebrado por conta de um barulho de câmera fotográfica que estava perto dela.
Era Eulie, tirando uma foto dela.
"É para colocar no álbum." Ela disse, percebendo que incomodou Ophélie. O gesto era tão amável que era impossível que ela ficasse com raiva. Jamais ficaria com raiva por algo tão bobo.
"Esses muçulmanos sabem fazer uma boa arte. Michelangelo jamais teria olhos para fazer isso." Gaelle aponta para um fragmento de azulejo. Era em padrões geométricos complicadíssimos em tons de azul, verde, amarelo e branco. O padrão era tão difícil de olhar que Ophélie sentiu os olhos doerem.
Passaram boa parte do dia andando pelo museu. O lugar era grande o suficiente para ser explorado desde às 9h até às 17h, ela sabia disso com propriedade, porque sempre que podia, visitava o museu com Gaelle e o tio-avô.
Esse último ia muito bem. Estava perto de fazer 101 anos, e andava, comia e xingava normalmente, como se fosse um jovem de 20 anos. Às vezes ele vinha até a França para visitar Ophélie. A idade também cobrava um preço para ele. Foi morar com os pais de Ophélie, depois de muita insistência. Pela idade avançada todo mundo tinha medo de que ele morresse sozinho e ninguém soubesse até encontrarem o corpo, então, para evitar preocupações, foi morar com os pais dela.
Passaram o dia inteiro andando pelo museu, com o adicional de Eulie tirando fotos delas. Andaram tanto que chegou um momento que Eulie tirou as botas e começou a andar descalça.
No fim do dia, estavam mortas de fome e cansadas.
"Nunca andei tanto na vida, eu acho." Disse Gaelle. O museu estava mais vazio agora, tinha alguns poucos grupos de turistas andando de um lado para o outro.
"Tirei várias fotos." Eulie pegou a câmera "O filme acabou. Vou mandar revelar e..."
Um grupo de jovens, provavelmente americanos, passaram por elas, e um deles empurrou Eulalie de propósito.
"Olha por onde anda, nariguda!" Ele gritou, em um francês ruim, mas que ainda era entendível. O grupo todo riu.
Ophélie e Gaelle ficaram chocadas, mas Eulie nem pareceu se importar.
"Que absurdo! Que grosseria! Vou dar uns puxões de orelha nesses..." Gaelle não consegui terminar de falar, porque Eulie a interrompeu e segurou seu braço para ficar onde estava.
"Não, deixa. Sou nariguda e respiro melhor que todos eles juntos." Ela disse. Eulie de fato não ligava para o que diziam de sua aparência, mas ela se lembrava de Eulie chegar da escola e ir até ela dizer que tinham falado da aparência dela, pela quinquagésima vez seguida. Tinha coisas que só paravam com o tempo, ou quase isso.
"Ah minha querida! Seu nariz é lindo, não deixa ninguém dizer ao contrário." Disse Ophélie a ela, pegando sua mão. Ficava feliz de Eulie pouco se importar com o que diziam da sua aparência, mas ficou com raiva o suficiente para ir atrás do menino que tinha empurrado sua filha e proferido algo com a intenção de ofendê-la, só para chamar atenção para o seu grupo.

"Vocês o quê?" Thorn praticamente gritou no ouvido dela pelo telefone.
"Quase fomos presas." Ophélie repetiu.
Após o acontecimento com Eulie, que irritou Gaelle e deixou Ophélie profundamente ofendida, elas foram embora, mas bem nas escadarias que davam para a saída, escada essa que tinha a Vitória de Samotrácia bem no topo e deixava a entrada para o museu muito charmosa, elas deram de cara com o bendito grupo de jovens.
Elas desceram, tranquilamente, até Ophélie se aproximar do garoto que tinha esbarrado em Eulie, e empurrá-lo da escada. Ele saiu rolando como uma garrafa de vinho, que infelizmente não se quebrou quando chegou ao fim dos degraus. Quando os outros integrantes do grupo perguntaram o porquê dela ter feito isso, ela respondeu que esbarrou nele, sem querer, mas um deles disse que não tinha sido um esbarro, ele tinha sido empurrado. Depois disso chamaram os seguranças e a polícia. Deu um trabalho para saírem dessa, mas no fim das contas não deu em nada. Nem as autoridades gostavam dos turistas, por mais que eles sustentassem uma boa parte do país.
Eulie a repreendeu depois, e Gaelle se segurou muito para não rir na frente dos policiais.
Não sentia remorso nenhum. Ela acreditava que algumas pessoas só paravam de importunar as outras quando levavam um soco, uma facada ou uma queda de escada.
"Esse seu impulso assassino ainda existe?" Ele perguntou. Após anos, ela contou a ele que matou a vizinha numa queda de escada depois que descobriu que ela tinha denunciado seu tio. Ele ficou em silêncio por um bom tempo quando ela terminou de contar a história, mas disse que ela fez o que era necessário, e que períodos drásticos precisavam de medidas drásticas.
"Que horror! Não ia matá-lo, ele estava quase no fim dos degraus, só dei um susto. Ele aprendeu que não se deve ficar importunando as pessoas que não conhece. E você faria o mesmo no meu lugar." Ela respondeu. Se fosse em outra época ela com certeza teria dado um fim nele, mas a guerra já tinha passado há muito tempo, e ninguém se atrevia a dizer que era nazista, pelo menos não na França, porque seria preso na mesma hora.
"De fato. Mas as pessoas têm medo de mim naturalmente, esse garoto ia pensar duas vezes antes de dizer algo. Enfim, como você está?" Ele perguntou.
"Estou bem, apesar de tudo. Vi uma peça hoje no Louvre, na parte de artes islâmicas, e lembrei de você."
"Como era a peça?"
"Era um prato de cerâmica, belíssimo, com uns pavões azuis pintados, umas penas. Muito bonitos. Queria que você estivesse lá para ver também."
Ophélie não entendeu o porquê, mas Thorn ficou em silêncio, que se estendeu até ela pensar que a ligação tinha caído.
"Thorn?"
"Da próxima vez, vamos a Paris juntos, e você me mostra a peça." Ele respondeu. Ophélie poderia estar enganada, mas jurou que a voz de Thorn estava embargada, ou talvez fosse uma ligação ruim. Muita propagação de ecos.
Conversou mais um pouco com ele e depois desligou para dormir.
O verão estava quente, mas Ophélie se sentia fria sem Thorn.

"Eu morava aqui, aí caiu uma bomba e destruiu tudo."
No dia seguinte, Ophélie e Gaelle foram tomar café com Eulie no apartamento, e de lá, Gaelle propôs mostrar a Eulie os lugares onde ela e Ophélie costumavam passar durante a guerra.
Pobre Eulie, pensava Ophélie, só queria ficar com seus números e seus planetas.
Talvez a presença da mãe e a da madrinha atrapalhasse ela a focar nas duas coisas.
Passaram o dia vagando de trem e a pé. Gaelle mostrou o bar que ela e Ophélie tinham invadido e atirado em diversos soldados, e o lugar onde aconteciam as torturas durante a ocupação, mas Ophélie poupou os detalhes disso, para não deixá-la mal. Mas Eulie estava longe de ficar mal. Escutava tudo com atenção e arregalava os olhos quando ouvia algo impressionante. Ela estava totalmente impressionada.
A imagem que ela tinha de Ophélie provavelmente mudou depois dessa visita. Devia pensar que ela era só uma humilde professora de idiomas que nunca fez de errado.
Gaelle mostrou a ela o cinema em que Renold trabalhava, a antiga casa dela antes de ser tomada pelo governo, que agora não existia mais e no lugar haviam construído uma butique, almoçaram no restaurante onde acontecia alguns encontros dos membros da Resistência e agora mostrava o antigo apartamento dela, que também não existia e tinham construído um prédio empresarial no lugar.
Ophélie percebeu que estava anoitecendo, porque o sol reluzia alguns poucos raios nos vidros.
"E onde você morou depois?"
"Fui morar com a sua mãe. Eu ainda não era casada na época, e não pegaria bem uma moça que nem era noiva ir morar com o namorado, mas no fim das contas deu tudo certo. Reconstruí minha vida na União Soviética, virei mecânica e tenho um ótimo marido. Acho que se eu estivesse morando aqui nunca teria me recuperado. Perdi propriedades, fortuna, família e até mesmo dignidade." Ela faz uma pausa, mas depois continua: "Paris sempre foi minha casa, até eles aparecerem. Depois disso eu acho que não tenho mais casa aqui." Gaelle disse, melancólica. Ophélie a admirava muito, por toda a determinação. Se ela tivesse passado por tudo o que a amiga passou ela não teria aguentado. Se atiraria no Rio Sena na primeira oportunidade que tivesse.
Uma vez Gaelle tinha dito que ela era a mais forte das duas, quando, na verdade, era totalmente o oposto.
Elas ficaram paradas de frente para o prédio. Gaelle estava segurando o choro, e Ophélie percebia isso. Colocou uma mão no ombro dela e apertou de leve.
Tinham passado por poucas e boas, mas sempre tiveram uma a outra.

Depois que Eulie foi embora, as duas ficaram vagando pelas ruas, sem um rumo exato.
"Eu sinto muito... por tudo o que aconteceu." Ela disse. A conversa tinha deixado o ar pesado, triste.
Deve ser por isso que Eulie foi embora, pensou Ophélie.
"Já passou. Dói, às vezes. Mas já passou." Gaelle respondeu.
Por mais que ela tivesse perdido os pais ela ainda tinha família pela Europa. Tios, primos, avós. Bom, na época em que tudo tinha acontecido, Ophélie não sabia como estava agora.
Elas ficaram andando mais um pouco até Gaelle dizer:
"Vamos ao Ritz beber alguma coisa?"
"Pensei que você nunca ia perguntar." Ophélie sorriu e agarrou o braço dela.

"Cadê o Boris?" É a primeira coisa que Gaelle pergunta quando se senta na cadeira alta de frente para o balcão do bar. Boris, o antigo barman que Ophélie só viu uma vez, não está lá, e quem faz a sua função é um rapaz, jovem, de pele marrom e cabelo escuro liso.
"Boris morreu, senhora. Já fazem três anos." Ele disse, naturalmente. Não devia ser a primeira vez e nem a última que ele escuta essa pergunta.
Gaelle sente o baque da resposta, mas se recompõe.
"Bom, nesse caso, me vê duas doses de conhaque." Ela pediu.
Ophélie se impressiona pelo pedido.
"Pensei que tivesse parado de beber." Ela disse. Gaelle dizia que um bom comunista não bebe e nem fuma, então ela parou de fazer as duas coisas. Ophélie e Thorn também tinham parado de fumar, há um bom tempo.
O rapaz coloca os copos na mesa e coloca uma pequena dose em cada um com um líquido marrom.
"E parei, mas uma vez ou outra não mata ninguém." Ela respondeu, pegando o copo e virando de uma vez.
"Nem sei se posso beber isso." Disse Ophélie, olhando para o copo. O médico não tinha proibido necessariamente bebidas alcoólicas, mas era bom evitar.
"Para de coisa. A vida é só uma, e não tem como beber após morto." Gaelle pegou o copo e colocou na mão dela.
Parecia velho e novo ao mesmo tempo, estar ali. Fazia 25 anos desde a última vez que elas estiveram ali, e da última vez Gaelle tinha dito que ia embora. Esperava que dessa vez fosse diferente.
"Sabe, eu estava pensando quando vim para cá como é difícil ser mulher." Ela disse batendo o copo no balcão para o barman servir outra dose.
"Como assim?"
"Tinha um homem enchendo o meu saco no avião, mesmo após eu dizer que era casada. Ele passou a porcaria do voo inteiro flertando comigo. Depois eu fiquei pensando o quanto isso é insuportável e mesmo após anos as coisas não mudam, e provavelmente não vão mudar. Não querem que a gente vote, lute ou se imponha. Os homens pensam que somos apenas uma fábrica, e como se não bastasse, a mãe natureza acha isso também. A gente tem esse órgão estranho e esquisito" Ela bate no próprio ventre como se estivesse batendo numa porta "que é tão empenhado em cumprir com a sua função que é causar dor e mais dor. E ninguém liga para isso. Ninguém liga que esse órgão nos dá tanta dor, mas, ao mesmo tempo, nos dá alegria. Ou deveria dar." Ela bebeu do copo de novo, e quando barman vem para enchê-lo, Gaelle pega a garrafa da mão dele.
"Nossa. Nunca pensei assim antes." Ela disse. Estava perplexa pelo monólogo, mas era algo tão real que ela queria que Gaelle dissesse mais.
"Chega um momento que a gente se acostuma, mas não deveria. Não é natural que um órgão que deveria só trazer alegria e luz, e com luz quero dizer o nascimento de bebês, trazer tanta dor e desordem."
"Eu também achava que o parto e a maternidade eram algo glorioso e lindo. E de fato é. Gerar uma vida e colocar ela no mundo e quando estiver distraída pensar que foi você que fez aquilo. Mas não é fácil. O parto dói e a maternidade é cansativa, apesar de que não é tão cansativo quando se tem alguém dando apoio." Ophélie virou o copo. Pensou em como o parto tinha doído, mas Thorn sempre esteve do seu lado. Pensou que fosse morrer, mas quando colocaram seus filhos em seus braços, ela pensou em como tinha valido a pena.
"Eu invejo você. Queria ter sido mãe também." Gaelle disse, dando um sorriso triste.
"E por que não se tornou? Você teria sido uma ótima mãe." Às vezes passava pela cabeça de Ophélie o porquê dela nunca ter tido um bebê. Quando eram mais jovens, há muito tempo, ela e Gaelle passavam horas e horas nas lojas da Galeria Lafayette e quando passavam por uma loja de roupinhas de bebê, Gaelle sempre dizia que os filhos iam vestir as melhores roupas e iam conhecer os melhores estilistas da cidade. Mas o tempo passa e as coisas mudam.
"Acho que a mãe natureza preferiu que eu fosse uma colecionadora de abortos espontâneos. Meu próprio útero me sabotou, e eu nunca entendi o porquê. Não sei se foi porque respirei o gás daquelas bombas ou se foi o câncer, escondido em algum lugar."
Ophélie se engasgou com o conhaque e por pouco não cuspiu. Passou um bom tempo tossindo. Gaelle bateu em suas costas para ela melhorar.
Quando finalmente se recompôs, ela perguntou:
"Do que está falando?" Ela não sabia se ficava mais chocada pelos abortos ou pelo câncer.
"Estou com câncer, Ophélie. Câncer cervical. Eu achava que a menopausa tinha finalmente acabado, mas aí eu comecei a sangrar, como se fosse uma cachoeira. Demorou para o resultado sair, mas pelo menos eu sabia o que eu tinha. Imagina morrer por algo que você não faz ideia do que é." Ela riu, sem muita animação.
"Quando descobriu?" Ela perguntou. As lágrimas vieram antes mesmo dela perceber.
Gaelle nunca tinha contado a ela sobre isso, ou sobre os abortos.
"Lembra quando a gente estava no enterro do Archibald e eu disse de brincadeira quem seria o próximo?" Ela se lembrava. Tinha chorado ainda mais quando ela disse aquilo em pleno funeral "Foi logo após isso. Fiz radioterapia, braquiterapia, quimioterapia e até sugeriram que eu retirasse o útero por completo, mas de pouco adianta agora." Ela respondeu. Parecia tão tranquila dizendo isso, o que partiu ainda mais o coração de Ophélie.
"É por isso que você passou a viagem inteira de turbante?" Achava que o turbante era uma nova tendência de moda, mas não era.
"É. Não tenho mais cabelo, e nem tenho peruca para usar. Lembra da minha peruca loira?"
"Lembro." Dessa vez, Ophélie não conseguiu conter as próprias emoções e chorou. Estava tentando chorar baixo, para não chamar a atenção, mas não estava conseguindo.
Parecia que tinham amputado um membro dela.
"Ainda tenho ela. Mas não vou usá-la, não faz sentido usá-la agora. Vou morrer logo, não tem necessidade de se manter bonita." Ela encheu o copo de novo.
"Não diga isso, você ainda vai viver muitos anos." Ela agarrou o braço da amiga. Se recusava a acreditar.
"Não vou. Já estou com meus dias contados. Só sugeri a viagem porque queria relembrar minha juventude e ver você de novo. E esses últimos dias foram os melhores da minha vida, com certeza. Mas as pessoas morrem, não tem como impedir isso. Nada dura para sempre Ophélie. A guerra não durou para sempre. Minha fortuna não durou para sempre. Talvez até a União Soviética não dure para sempre. Eu não vou durar para sempre, Ophélie. E eu sempre serei grata ao dia em que entrei naquela Biblioteca e pedi para você traduzir aquele panfleto, acho que era um panfleto, não me lembro. Dizem que tem pessoas na vida que a gente esbarra e tem pessoas na vida que a gente encontra. Quando entrei na Biblioteca eu estava procurando por você, e eu te achei." Dessa vez Gaelle também estava chorando, e ver ela daquele cheio quebrou uma parte no coração de Ophélie.
"Não é justo que isso aconteça com você."
"Pode até não ser, mas eu sei que vou morrer, a qualquer momento."

Voltaram para o hotel juntas. Ophélie mal conseguia andar. Não sabia se era pela tristeza, das lágrimas que atrapalhavam a visão ou se era pela bebida. Gaelle que a ajudou a chegar ao quarto.
Estava pensando se ligava para Thorn ou não.
Queria conversar com ele, mas não queria deixá-lo preocupado.
O voo de volta ao aeroporto era de manhã. Agradeceu mentalmente por arrumar as malas antes, porque não teria forças para arrumar nada na situação em que se encontrava.
Pegou o telefone, em dúvida se ligava ou não.
No fim das contas, ela se deitou e chorou ainda mais, não se lembra de pegar no sono, mas tinha certeza que estava sonhando.

Ophélie acordou bem cedo. Devia ser umas 5h da manhã, e o voo dela era às 7h.
Sentia a cabeça latejar. Não sabia se era devido ao choro incessante da noite anterior ou se era a ressaca. Talvez fossem os dois.
Não se lembrava do sonho que teve. Era um emaranhado de pensamentos estranhos que não tinham nexo nenhum.
Tomou um banho demorado e percebeu no espelho embaçado de vapor que os olhos estavam inchados e vermelhos.
Antes de sair, ela foi até o quarto de Gaelle para se despedir dela, já que o voo da amiga era só de tarde.
Ela já estava acordada quando Ophélie bateu na porta.
Ficaram conversando, mas não por muito tempo porque Ophélie ainda precisava ver Eulie.
Ophélie chorou de novo, não tanto dessa vez.
Quando foi ver, Eulie chorou na frente dela também e acabou contando o que tinha acontecido. A própria Eulie, que raramente ria ou chorava na frente dos outros, chorou com ela também, e antes de Ophélie ir embora ela lhe entregou um envelope, que só abriu no avião.
Era as fotos que ela tinha tirado durante o passeio no Louvre. Uma em especial fez Ophélie suspirar, com um pouquinho de felicidade.
Era uma foto das duas na frente de uma esfinge egípcia, distraídas, rindo de alguma coisa.
A foto era perfeita para ser colada no álbum da família.

Chegando em casa, a primeira pessoa, ou melhor, o primeiro a vir vê-la foi o Gato.
"Oi!" Ela se agachou, colocando as malas no chão, e acariciou o pêlo escuro dele. Estava um pouco melhor, mas não o suficiente.
Thorn devia estar no jardim, porque se não a tinha recebido até agora, significava que ele estava em outro lugar e não escutou ela chegando.
E ela estava certa, porque encontrou ele regando as plantas no jardim. Ele cuidava das plantas nas horas vagas.
"Olá." Ele a cumprimentou, mas não tinha levantado a cabeça para olhar para ela. Estava distraído demais com os singônios. "Estava pensando em você agora. Como foi a viagem?"
"Bem." Ela respondeu. Pareceu mais um murmúrio do que uma resposta, mas fez Thorn levantar a cabeça quase de imediato.
"O que aconteceu?" Perguntou, colocando o regador perto de um arbusto e se aproximando de Ophélie.
"É só... cansaço." Ela sentia a garganta fechar e os olhos encherem de lágrimas, de novo.
Thorn pegou na mão dela e a levou até um banco.
Ophélie perdeu o controle das próprias emoções e começou a chorar, como se fosse um bebê.
Ela passou longos minutos chorando. Thorn não saiu de perto dela nem por um segundo, ainda segurando sua mão.
Demorou até ela se acalmar e contar a ele o porquê de estar chorando.
A reação dele foi muito mais contida, obviamente, mas ele ficou evidentemente chocado.
"Eu sinto muito. Por você, por ela e pelo Renold. Não deve ser nada fácil." Foi a primeira coisa que ele falou depois de alguns minutos de silêncio. "Sei da proximidade que vocês têm e das coisas que passaram juntas. Independente de eu gostar de Gaelle ou não, eu espero que ela se recupere logo."
"Eu também, mas acho que isso não é mais possível. Ela já tentou de tudo e está longe de melhorar. Acho que essa foi a última vez que vi ela." Ela chorou ainda mais. Estava surpresa, por ainda ter tantas lágrimas para serem colocadas para fora. Thorn ofereceu um lenço a ela, lenço esse que ela não faz ideia de onde ele tirou, mas o aceitou mesmo assim. Não conseguia parar de chorar.
Thorn a abraçou como se quisesse conter o sofrimento dela, mas as lágrimas continuaram a transbordar, em soluços desordenados, de novo, de novo e de novo.

Ophélie acordou no meio da noite, com as estrelas em cima dela. Não fazia ideia do nome delas ou de suas constelações, mas as achava belíssimas. Entendeu melhor o porquê de Eulie preferir os corpos celestes às pessoas.
Eram fascinantes.
Não se lembrava de ter pego no sono, mas sabia que estava esgotada de tanto chorar. Tinha dormido pouco na noite passada, mas agora que estava com Thorn, que finalmente conversou com ele e pode chorar nos seus braços e ser consolada, ela se sentia melhor, mais revigorada. Não estava feliz, de fato, mas não se sentia menos vazia por dentro.
Ela olhou para ele.
Thorn ainda a abraçava, e ela não sabia quanto tempo passou desde que dormiu, mas era evidente que Thorn não tinha mexido um músculo sequer, porque poderia acordá-la.
Ele não olhava para nenhum canto em especial, parecia estar perdido nos pensamentos também.
"No que está pensando?" Ela murmurou, baixo o suficiente para que só ele escutasse.
"Na primeira vez que eu te beijei." Ele respondeu.
Ele tinha contado a ela como tinha se sentido depois que a beijou pela primeira vez. Tinha guardado uma foto dela, foto essa que era a mesma do documento de identificação que ela tinha na época, na carteira. Contou que quase a pediu em casamento depois disso, só não o fez porque ainda era muito cedo e que devido às circunstâncias não conseguiriam. Mas Ophélie mesma o pediu porque era tão apaixonada quanto ele.
"Foi no meu aniversário, e você me deu aquele dicionário." Ela disse. Ainda tinha o dicionário, e o usava muito quando precisava preparar aula. Era um bom dicionário, por mais que tivesse tantos anos.
"Sim. Fiquei com medo de você não gostar, demorei tanto para encontrá-lo. Mas eu teria pulado de felicidades se conseguisse. Depois que eu te conheci a minha vida começou a ter sentido. E todos os dias eu me pergunto se eu sou suficiente para você, mesmo depois de 28 anos de casados."
Ophélie estava surpresa. Não esperava uma declaração, que foi muito bem-vinda porque a fez esquecer da tristeza.
Nunca se sentiu tão grata por uma pessoa.

Thorn respirava pesadamente no ouvido de Ophélie. O suor porejava os corpos de ambos.
Depois da conversa que tiveram, Ophélie foi tomar banho e trocar de roupa, enquanto Thorn fazia o jantar, que para a surpresa de ninguém era salada.
E o que era para ser um "boa noite", acabou virando uma sessão de beijos, iniciada por ela. Os beijos foram ficando cada vez mais intensos, até Thorn beijá-la em outros lugares que a fazia suspirar de prazer.
Ele estava em cima dela, chamando seu nome, com as mechas do cabelo grudadas na têmpora e na testa.
Ophélie se agarrou aos ombros dele quando uma investida particular tocou um ponto específico dentro dela, fazendo Thorn abafar os gemidos roucos no pescoço dela.
Por fim, dormiram nos braços um do outro, no meio daquela leve neblina agridoce.

Janeiro chegou e com ele veio o intenso inverno europeu.
Era a pior época para Ophélie. Odiava o frio e sempre ficava doente.
As aulas eram suspensas nessa época do ano por conta das baixas temperaturas e das eventuais tempestades de neve. Todas as suas alunas voltavam para seus países de origem para ficar com suas famílias, o que significava que Ophélie não trabalhava, e consequentemente, ficava em casa, ociosa.
Thorn tentava distraí-la, cozinhando suas comidas favoritas.
Ela finalmente conseguiu perder peso o suficiente, o que significava que não estava correndo mais risco de ter problemas do coração, colesterol, diabete ou um ataque fulminante. Estava livre da dieta também, mas ainda fazia exercícios regularmente e evitava comer comidas calóricas e gordurosas demais.
Estava sentada no sofá, com Gato no colo, quando o telefone tocou.
Foi uma pena tirar Gato do colo dela, porque ele estava tão aconchegado que parecia um bebê.
Thorn estava quase perto do telefone, para atendê-lo também, mas estava com a mão suja de farinha e quando viu Ophélie perto dela deixou a tarefa para ela e voltou para cozinha.
"Alô?"
"Ophélie?" Perguntou uma voz do outro lado da linha.
"Renold? Ai meu Deus! Quanto tempo! Como vai você? E como vai Gaelle?" Ela perguntou, animada. Tinha ido visitá-los um mês depois da viagem à Paris. Da última vez que ela os viu estavam bem. Gaelle ainda estava se cuidando, e parecia mais revigorada, apesar de ainda estar magra. Renold estava bem, apesar da úlcera. Tinha perdido um pouco de cabelo na frente, além de ganhar peso.
"Gaelle morreu." Ele disse, sem rodeios. Foi como tirar um curativo de uma vez só, mas fez a ferida arder do mesmo jeito.
Ophélie ficou completamente sem chão.
"O quê?" Ela perguntou, num murmúrio.
"Foi hoje de manhã. Ela estava bem ontem a noite e foi dormir cedo, mas hoje de manhã quando fui acordá-la ela não respondeu..." Ele fez uma pausa, e Ophélie conseguiu ouvir ele chorando, por mais que tapasse o telefone com a mão "Foi quando eu percebi que ela não ia acordar, nunca mais. Estão levando o corpo para Paris. Ela vai ser enterrada lá. Passei esse tempo todo ligando para todos os amigos e alguns familiares dela, dando as más notícias. O enterro vai ser amanhã, de tardinha." Ele chorou mais ainda, mas dessa vez não fez questão de tapar o telefone.
O coração dela foi totalmente despedaçado.
"Oh Renold! Eu sinto muito. Sinto muito mesmo." Ela o consolou, ou tentou. Começou a chorar também.
"Você consegue ir ao enterro? Sei que está tendo muitas nevascas nessa época do ano." Renold perguntou, quase tímido. Mesmo que não conseguisse, Ophélie daria um jeito de ir.
"Claro que consigo, não se preocupe comigo." Ela respondeu. Estava tremendo tanto que conseguia sentir as pernas cederem.
"Eu preciso desligar. Tenho que avisar mais pessoas e resolver algumas coisas."
"Claro, claro. Me liga se precisar de algo."
Ele desligou, mas Ophélie ainda segurava o telefone.
Não conseguia acreditar. Rezava para ser uma mentira.
Gaelle tinha sido quase uma irmã para ela. Foi sua melhor amiga, sua confidente, sua conselheira e sua melhor companhia quando chegou em Paris quando começou a trabalhar na Biblioteca. Não conhecia a cidade, mesmo tendo nascido nela, e tinha vergonha de socializar.
Se lembrou da fala dela no bar: "Dizem que tem pessoas na vida que a gente esbarra e tem pessoas na vida que a gente encontra. Quando entrei na Biblioteca eu estava procurando por você, e eu te achei."
Nunca se sentiu tão triste na vida.

O velório aconteceu na Igreja de Notre-Dame-des-Champs, que era bem perto do cemitério de Montparnasse, que era o segundo maior de Paris, onde o corpo seria sepultado.
Apesar da igreja ser grande e com capacidade para 210 pessoas, Ophélie nunca viu tanta gente num só lugar para se despedir de uma pessoa.
Todos os enterros que Ophélie já foi eram judaicos, e eram totalmente diferentes.
Boa parte dos presentes eram familiares, a quem Gaelle chamava carinhosamente de cabeças douradas, já que eram todos loiros e só ela tinha cabelo escuro, e ex-membros da Resistência Francesa. Alguns reconheceram Ophélie e falaram com ela.
O restante dos presentes eram desconhecidos. Pessoas que nunca falaram com Gaelle na vida, mas que conheciam a trajetória de vida dela e os seus serviços durante a guerra.
Ophélie não ficaria chocada se visse o presidente entre eles.
Depois que falou com Renold e desligou o telefone, Ophélie caiu no chão e chorou, chorou como uma criança chora quando anda e tropeça. Thorn, desesperado, a encontrou no chão e perguntou o que tinha acontecido. Por incrível que pareça, ele ficou chocado, e talvez até desolado, quando Ophélie falou que Gaelle tinha falecido. Ele tinha certeza que ela ia se recuperar, mas não foi o que aconteceu.
Ele levou minutos, talvez até horas, para acalmar Ophélie.
No fim das contas, ele fez as malas e ligou para os filhos, que estavam na Bélgica, já que Ophélie mal tinha forças para ficar de pé.
Henry e Eulalie tinham vindo também, e o tio-avô estava com eles.
O homem não era feito de ferro e nem de titânio. Ele era feito de tungstênio. Forte e resistente ao tempo, ou quase isso.
Ophélie estava sentada, sozinha, quando ele se aproximou.
"O nazismo é cruel, mas a idade é mais." Foi a primeira coisa que ele disse quando se sentou ao lado de Ophélie.
Thorn estava com os filhos, em algum lugar.
"De fato, tio. Mas pelo visto a idade não pegou o senhor. Qual o segredo?" Ela perguntou, tentando achar graça.
Ele pensou por um momento e respondeu:
"Servir na guerra e xingar muito." Ele respondeu, e isso fez Ophélie rir.
"Nesse caso, eu acho que eu e Thorn vamos viver por muito tempo." Respondeu, enxugando os cantos dos olhos.
"Pois eu espero o mesmo. Você e esse seu rapaz não conseguem viver um sem o outro. Espero que vivam muito tempo juntos, e que partam juntos também. Não tem coisa pior que perder o amor da sua vida e continuar vivo." Ele apontou a bengala para Renold, que estava ao lado do caixão, chorando. Ophélie falou com ele, e ficou assustada com o que viu. O homem parecia uma chama viva, mas agora parecia o resto de um pavio de vela. Totalmente apagado. Sem vida. Sem luz.
"Verdade. Lembra quando ele foi embora?"
"Claro que lembro. Você mal levantava da cama. Gaelle que precisou te dar uns tapas para você reviver, e funcionou. Uma pena que ela tenha partido tão cedo. Dizem que os melhores sempre vão primeiro. Acho que é por isso que continuo vivo."
Eles riram de novo, mas dessa vez o riso de Ophélie virou choro. Gaelle era a única amiga que ela tinha, e ela era a única amiga que Gaelle já teve. Se lembrava dela dizer o quanto odiava as mulheres ricas, como eram todas falsas e interesseiras. E agora ela se foi.
O tio-avô dava tapinhas no ombro dela.
"Vai passar. A dor sempre passa, minha filha." Ele disse, e depois se levantou e passou pela multidão.
Ela se levantou para procurar Thorn e as crianças, apesar delas não serem mais crianças.
Os encontrou sentados em um banco, num corredor mais afastado da nave.
Henry estava se acabando de chorar e Eulie estava tentando consolá-lo, do jeito dela, mas estava.
Thorn estava com o relógio de bolso. Fazia anos que Ophélie não o via, mas lá estava ele. Brilhando por conta do ouro e parecendo novo, como se tivesse sido comprado antes deles chegarem lá.
Ela se sentou ao lado dele, e ficaram todos em silêncio, com exceção do choro de Henry. Depois de tanto tempo calado, Thorn olhou para ela e perguntou:
"No que está pensando?" Ele colocou o relógio dentro do bolso do casaco e pegou na mão dela.
"Viver é um fardo pesado, mas amar é mais ainda." Filosofou.

O sepultamento tinha sido um inferno. Estava um frio de rachar e não parava de nevar. Alguém desmaiou, e como pessoas curiosas e baderneiras não conseguiam se controlar, acabou que aconteceu uma gritaria generalizada e foi toda uma comoção para ajudar a pessoa desmaiada. Renold ficou furioso e expulsou metade dos presentes que não eram conhecidos da falecida.
Henry e Eulie voltaram para a Bélgica, acompanhados do tio-avô. Ela e Thorn já tinham voltado para Nice.
Em época de nevascas não se pode ficar parado por muito tempo no mesmo lugar, porque a tendência é que a neve se acumule mais.
"Eu estava pensando, nunca gostei dela." Disse Thorn. Eles já estavam deitados na cama, mas parecia que nenhum conseguia pegar no sono.
Ophélie raramente se irritava com Thorn, e ela estava irritada com o que ele disse.
"Me diga uma novidade." Ela respondeu, de maneira rude.
Estava de costas para ele, então não conseguia ver sua expressão.
"Mas acho que o que eu sinto agora é muito parecido com o que eu sinto quando Archibald morreu." Ele disse, tristemente.
"O que quer dizer?" Ela perguntou, se levantando e pegando para pegar o óculos na mesa da cabeceira e para acender o abajur.
Nunca tinham conversado sobre a morte de Archibald, e Ophélie estava só esperando pelo momento em que Thorn desabafasse com ela.
"Eu sinto culpa. Ele poderia ter continuado morando na Europa, mas preferiu ir para o outro lado do mundo. Eu entendo o porquê disso, eu teria ido embora também se eu não tivesse você. A única família que ele tinha aqui o rejeitou, ele teve uma segunda chance em outro lugar. Mas eu sinto culpa porque poderia ter convencido ele a morar aqui, mas fui idiota." Quanto mais falava mais a voz de Thorn ficava rouca "Sinto culpa porque o que aconteceu poderia ter sido evitado. Se ele tivesse morado aqui aquilo nunca teria acontecido, porque eu não ia deixar. Se eu estivesse lá, antes do acidente acontecer, eu teria impedido que ele dirigisse no meio de uma tempestade. Ele era o padrinho dos meus filhos, mas para quê?! Vivia sozinho do outro lado do mundo, e eu me sinto culpado por isso. Me sinto culpado, não por Gaelle ter morrido, mas por não conseguir te consolar. Eu sei o que ela significava para você, mas eu queria que houvesse uma maneira de passar a sua dor para mim. Não aguento ver o seu sofrimento." Ele não olhava para ela, mas Ophélie conseguia ver as bordas dos olhos dele brilharem por conta das lágrimas contidas.
Ela pegou na mão dele.
"Mesmo se houvesse uma maneira de passar a minha dor para você eu jamais faria isso. É uma dor terrível. Eu disse que amar é um fardo, e de fato é. Para cada pessoa que eu amo eu tenho um fardo diferente, às vezes o fardo é pequeno, mas às vezes é enorme, quase difícil de carregar. E hoje me fez pensar que eu não quero sofrer, eu não quero que você sofra, quando um de nós partirmos dessa vida. Pobre Renold! Está sofrendo tanto." Ela começou a chorar, de novo, mais contida dessa vez.
Thorn riu, sem muita graça. Ele parecia querer chorar mais do que ela.
"Não se preocupe com isso. Se não morrermos juntos e você ir primeiro, eu vou me matar no mesmo dia." Respondeu. Era algo que Ophélie não duvidava. Não era a primeira vez que ouvia Thorn falar de suicídio.
"Que coisa horrível! Não diga isso nem de brincadeira. Ainda vamos viver muito. Como disse meu tio-avô: "Os melhores sempre vão primeiro." Estamos longes de sermos os melhores." Disse, dando um abraço nele. Ele a abraçou de volta.
"Só porque matamos pessoas e enterramos um corpo num jardim de uma importante Biblioteca?"
Isso fez Ophélie rir, rir muito até.
O inverno era frio, mas Ophélie se sentia quente com Thorn.

Ophélie morreu primeiro, de AVC, no final de 2000. Thorn morreu no início de 2001, apesar de alguns falarem que ele morreu de velhice, na verdade ele morreu de solidão.
Renold morreu dois anos depois que Gaelle, de câncer no estômago. A úlcera que ele teve, foi causada pela ansiedade, logo depois que descobriu que Gaelle estava doente
Gaelle teve, no total, nove abortos espontâneos.
O tio-avô morreu aos 102 anos de idade.

Notes:

Ophélie morreu primeiro, de AVC, no final de 2000. Thorn morreu no início de 2001, apesar de alguns falarem que ele morreu de velhice, na verdade ele morreu de solidão.
Renold morreu dois anos depois que Gaelle, de câncer no estômago. A úlcera que ele teve, foi causada pela ansiedade, logo depois que descobriu que Gaelle estava doente)
Gaelle teve, no total, nove abortos espontâneos.
O tio-avô morreu aos 102 anos de idade.

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