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Characters:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Series:
Part 1 of Oficina De Fanfic do NEPF 2023.1
Stats:
Published:
2023-06-06
Words:
4,983
Chapters:
1/1
Kudos:
6
Hits:
159

Fallen - Uma das vidas que esqueceram de contar.

Summary:

Luce e Daniel são o amor da vida um do outro, mas não podem ficar juntos. Desde que o anjo Daniel Grigori se rebelou e virou um anjo caído, ele e sua amada não conseguem ficar juntos por muito tempo. Eles foram amaldiçoados e para proteger Luce, tudo que Daniel pode fazer é afastá-la. Tornando o trabalho dele mil vezes mais difícil, ela se recusa a deixá-lo fazer isso.

Notes:

Escrito por M. Jones
Betado por Regina Mortari

Work Text:

   Tudo começou quando Luce arrancou o pôster do quadro de avisos, ao lado da porta de seu quarto na Sword&Cross. Haveria uma festa naquela noite e ela passou o dia pensativa. Luce queria muito ir, por causa de Daniel, e queria muito não ir, por causa da sua atual situação.

   Daniel era aquele tipo de garoto em que se esbarra uma vez e tudo na sua cabeça esvazia imediatamente, sobrando espaço só para ele. E foi o que aconteceu. Tudo bem se fosse só isso, mas o problema é que Luce sempre o encontra desde a desastrosa primeira conversa dos dois. Alguns dias atrás ela tinha tomado coragem para chamar Daniel para sair, sem nunca ter falado com ele antes. Respirou fundo e o esperou sair da aula de esgrima, suado e cansado, o uniforme branco sendo desmontado. Ela olhou bem no fundo dos olhos violetas cinzentos dele e deixou sua boca falar antes que ela pudesse impedi-la. Daniel a olhou por alguns segundos pensando em como responder. Ela esperava qualquer resposta, menos a óbvia. Ele já estava saindo com alguém. Ela mordeu a língua e seguiu o caminho até seu quarto. Ficou por lá até a próxima aula, no dia seguinte, e ele só pareceu evitá-la desde então. Luce podia jurar que Daniel tinha flertado com ela em alguns momentos desde que ela chegou.

Quando ela tinha acabado de sair do carro de seus pais e ele passou a encarando, sério, depois riu e deu o dedo do meio;

Quando ela venceu uma corrida na sua primeira aula de natação e ele sorriu para ela enquanto Luce comemorava com sua colega de quarto;

Quando ele deixou ela vencer uma luta na aula de esgrima;

   Ok, o primeiro não foi de fato um flerte. Ou foi? Ele a intrigava e parecia fazer isso de propósito. Mas por que fazer tudo isso se estava saindo com alguém? Talvez ela estivesse ficando maluca. Vai ver não foi nada disso. Talvez fosse só a cabeça dela procurando algo ou alguém em quem se segurar nesse reformatório esquisito. Ele podia estar só sendo legal. Luce repensou sobre a festa, ela iria, definitivamente não por causa de Daniel. Era como ela enganava a si mesma.

[...]

   Demorou horas para Luce convencer Penn, sua colega de quarto tímida, a ir para a festa também. Enquanto se arrumavam ainda estavam em discussão.

— Tudo bem, Penn. Pode ficar. Se quiser eu fico com você e vou só mais tarde. — Luce passava gloss no espelho. Fazia tempo que ela não se arrumava. Seus últimos meses antes da Sword&Cross não foram um mar de rosas, principalmente pelo motivo que a levou a entrar ali.

   Ela não sabia o quanto precisava gastar um pouco de tempo consigo mesma se arrumando para uma festa. Cabelo meio preso, com as franjas soltas moldando o rosto, um vestido simples por cima de uma blusa de manga. Ela sentia tantas saudades do cabelo grande quanto sentia falta de casa. O que antes era uma volumosa cascata negra, agora era um simples repicado. Penn a tirou de seus pensamentos enquanto Luce passava as mãos pelo comprimento dele em seus ombros.

— Mas por que você quer tanto assim ir pra essa festa? É só uma desculpa pra bebida e contrabandos do Roland com ele exibindo o quarto enorme dele.

— Eu sei, você já disse isso. — Ela riu. — É só que… não sei.

— Isso é por causa do fiasco depois da última aula de esgrima? — Penn limpou os óculos no suéter azul escuro. Ela era tímida com outras pessoas, mas claramente se sentia à vontade para falar qualquer coisa para Luce desde o primeiro "oi" das duas.

— Talvez. — Ela mordeu o lábio inferior. — Vamos só esquecer isso? Sair um pouco?

   Penn revirou os olhos e levantou, dando um breve suspiro.

— Tá bom, eu vou com você. Já terminei os livros dessa semana mesmo.

   Luce sorriu e elas foram em direção aos dormitórios masculinos. Quando chegaram no corredor principal, luzes coloridas, música e risadas saíam pelas frestas da porta que só podiam pertencer ao quarto de Roland. Uma batida e já foram recepcionadas com bebidas. Luce ficou de boca aberta. O quarto era mesmo grande. Gigante. Não era atoa que ele esbanjava sempre que podia. Tinha pelo menos 5 vezes o tamanho do dela. Somente uma mesa com bebidas e alguns petiscos, umas cadeiras ou poltronas espalhadas pelo cômodo. Uma bola de luzes colorida suspendia no teto. Todos ao redor conversavam e riam. Penn agarrou na amiga o máximo que pôde e Luce não a julgou. Também não fazia ideia de como se misturar. Até que ao passar o olho por uma das rodinhas, avistou Ariane.

— Luceee! — A voz estridente dela abafou a música por um instante.

   Ariane era amiga de Daniel. Uma das integrantes do grupo que vivia andando para todos os lugares com ele, assim como o dono da festa, que era o melhor amigo dele. Ela foi a primeira pessoa a, de fato, falar com Luce, quando ela chegou. E não fugir dela.

— Que bom que você veio, não aguentava mais olhar para as mesmas pessoas. Já estou cansada da cara delas. Quer fazer alguma coisa? Karaokê? Beer pong? Sua amiga também pode vir… Lenn? — Luce mal conseguiu registrar as palavras disparadas com rapidez por Ariane.

— Penn. — Ela interferiu e logo voltou a se esconder atrás de Luce.

— Claro, tanto faz.

   Roland apareceu atrás delas, fazendo Luce automaticamente procurar por Daniel, que estava sempre junto dele. Quando percebeu o que estava fazendo, brigou consigo mesma.

— Luce, que bom que veio. Ariane falou de você. Posso te oferecer alguma coisa? O primeiro é sempre grátis: celular, roupa, canivete. É só falar o que você quiser que eu consigo. — Roland tirou o óculos de sol, o qual usava dentro do próprio quarto, para piscar para Luce.

   Alguns dias atrás ela faria tudo por um celular, que era terminantemente proibido na Sword&Cross, mas depois que viu uma menina ser eletrocutada por usar um contrabandeado em sala de aula, deixaria passar a oportunidade. Com a severidade do lugar, ela perguntou mais cedo para Penn como eles deixavam acontecer uma festa ali, mas ela só respondeu que alguns alunos apenas tinham vantagens. O grupo de Daniel, mais especificamente. Ninguém sabia o porquê.

— Tô bem, obrigada.

   Roland foi chamado por alguém e Luce se viu mais uma vez procurando quem não queria. Ele não estava em lugar algum. Penn a chamou a tempo de perceber como Ariane seguia Roland com o olhar, enquanto ele ria e passava de grupo em grupo.

— Quem você está procurando?

— Ninguém. — Luce tentou disfarçar.

— Daniel não chegou ainda. — Ariane avisou.

— Não estava procurando ele. — respondeu um pouco envergonhada.

   Depois de alguns minutos, Penn e Ariane estavam se dando bem. Até Ariane querer mostrar a colega de quarto de Luce para os outros amigos dela. Luce decidiu descansar sozinha em um canto. Observou os jovens à sua volta enquanto enrolava para consumir a sua bebida que não passava de cerveja barata. Um deles a olhou de volta. Ou melhor, a encarou. Olhos verdes escuros e misteriosos, totalmente contrastantes com os violetas de Daniel, que ela não conseguia tirar da cabeça. O estranho sorriu e começou a andar em sua direção. Quando ele parou em sua frente, tudo que ela conseguia prestar atenção era na tatuagem enorme de cobra que circundava seu braço direito.

— Gostou?

   Apesar de Luce ter concordado, ela não sabia. Algo naquela tatuagem a inquietou. Assim como o dono.

— Luce, não é? 

— E você é…?

— Cam. — Ele abriu o que poderia ter sido o sorriso mais sedutor do mundo. O cabelo, totalmente preto, rebelde em sua testa. — Não está se divertindo? Também não curto festas.

— Então porque está aqui?

— Porque você está aqui?

   Luce abriu a boca tentando pensar em uma resposta, mas na mesma hora foi impossível não se distrair. Não quando a porta abriu e duas silhuetas loiras entraram. Uma delas inesquecível, a outra… certamente não esquecível. Daniel e a garota alta foram recebidos por Roland. Luce já a tinha visto, numa aula de história, e ouviu alguém chamá-la de Gabbe. Para um lugar tão sem graça e sem cor, como a Sword&Cross, ela era um forte ponto de rosa claro. Só nunca tinha visto ela com Daniel. Aparentemente ela era com quem ele estava saindo.

— Quer sair daqui? Ir pra algum outro lugar?

   A voz de Cam tirou Luce do transe. Ela franziu as sobrancelhas.

— Porque iria pra qualquer lugar com você?

   Ele riu.

— Sei lá, achei que você iria querer…

   A voz de Cam imediatamente parou de entrar nos ouvidos de Luce assim que Daniel e sua namorada passaram por eles. A visão dos cachos loiros emaranhados, o rosto relaxado e o sorriso que ele deu assim que avistou Ariane… fez acender alguma coisa dentro de sua cabeça. Uma rápida visão dessa mesma cena, mas em outro ângulo. Em outro lugar. Talvez outro século. Seu olhar desceu para o cordão prata com um pingente familiar no pescoço dele. Ela podia apostar com ela mesma que sabia como era de perto, mesmo nunca tendo o visto usá-lo antes.

   Luce balançou a cabeça para despertar. Não entendia exatamente o que viu, mas sabia que tinha visto alguma coisa.

— Ahn, desculpa. — Luce olhou ao seu redor, procurando uma desculpa até seus olhos pararem no copo em sua mão. — Eu preciso de outra bebida.

   Ela saiu de perto de Cam antes que ele pudesse responder e foi direto para a mesa, onde Daniel acabara de ir preparar duas bebidas. Assim que se aproximou, teve a sensação de que os pelos do pescoço dele se eriçaram. Talvez fosse só o frio. Ele a olhou de canto, enquanto Luce jogava a bebida fora em uma tentativa falida de ser discreta.

— Então, agora vai ficar me seguindo? — Ela foi pega de surpresa por ele.

— Eu não estou te seguindo.

   Daniel abriu um pequeno sorriso. Os dois sabiam que era mentira.

— Posso te fazer uma pergunta?

   Ele virou para ela e apoiou um copo cheio na mesa. Luce suspirou, pronta para parecer maluca.

— A gente já se conheceu antes?

   Daniel franziu as sobrancelhas.

— Não sei, talvez eu esteja ficando doida, mas alguma coisa de repente estalou na minha cabeça. Como se eu já tivesse te visto antes daqui.

— Você não está ficando doida, Lucinda. Isso se chama déjà vu. Não, nunca nos vimos antes.

— Tem certeza? Porque eu podia jurar que…sei lá, só me pareceu tão real.

— Mas não foi. — Ele encheu o segundo copo. Luce voltou sua atenção para o cordão no pescoço dele. Exatamente como ela achou que seria, um quadrado prata com uma cruz desenhada. Foi sua vez de ficar arrepiada. Mordeu o lábio inferior.

— É pra sua namorada? — Apontou para a bebida na mão dele. Daniel pareceu se assustar com a pergunta e olhou do copo para Gabbe, a qual estava sentada conversando. Soltou uma risada. — Não, Gabbe e eu somos só amigos.

   Daniel ficou analisando o rosto de Luce esperando por uma resposta, mas ela não deu. Só ficou olhando dele para ela. Ele achou graça.

— É sério. Só amigos. Ela que me convenceu a vir.

   Luce assentiu e olhou para a mesa.

— Quer dizer… não que eu te deva explicações.

   Luce voltou a olhar para ele, dessa vez irritada.

— Tchau, doidinha.

   Foi apenas alguns segundos depois de Daniel a deixar sozinha que ela percebeu. Ele sabia o nome dela. Pelo incrível que pareça, quando eles se falaram pela primeira vez, não deu nem tempo dela se apresentar. E ele sabia seu nome. Pode ser que tenha escutado em alguma aula, apesar de até os professores a chamarem só de Luce.

   Ela ficou ali, parada por alguns minutos, encarando seu copo vazio. Odiava a sensação de que ele a rejeitava de propósito. E pior, a tratava como se houvesse nada, nem um fiozinho de tensão, entre eles.

[...]

   Primeira aula do dia e Luce preferiria ser obrigada a ficar no cemitério dos antigos militares da Sword&Cross do que fazer esgrima. No dia seguinte de uma festa.

   Colocou seu uniforme de proteção branco e escolheu uma das espadas do cesto. Só conseguia imaginar o quão Penn era sortuda por se livrar dessa aula com um atestado quase vitalício de uma doença que ela nem tinha mais. Outros alunos passaram por ela e começaram a se arrumar como normalmente, mas ela notou algo de diferente. Ariane e Roland estavam em cantos opostos da sala, se encarando. Se de uma forma boa ou não, ela não sabia dizer. Gabbe chegou acompanhada de uma menina de cabelo rosa choque e uniforme preto. Cam chegou por último, com um café na mão, a blusa de uma banda de rock e só a calça respeitando o uniforme,  sentou em uma cadeira no canto, pronto para observar a ação. Apesar de aparentar ter músculos, Luce nunca o vira fazer qualquer esforço nessa aula. Só estava faltando um.

   As duplas se formaram rapidamente e Luce estava acostumada a esperar para formar par com quem sobrasse. Só que dessa vez ninguém sobrou. Ela olhou para Cam e seus olhos verdes brilharam como duas esmeraldas assim que percebeu. Bebeu um último gole do café e levantou.

— Vai pegar leve comigo, Luce?

   Ela riu.

— Pode ficar tranquilo, não sou tão boa assim.

— Dúvido. Já te vi lutar muitas vezes pra ser tão modesta assim.

   Luce ficou confusa. Só tinha participado de três aulas desde que chegou.

— Quer apostar?

   Ela sorriu. Se tinha uma coisa que motivava Luce a fazer algo, era uma boa competição.

— Apostar o que?

— Um jantar. Longe das duvidosidades da Sword&Cross. — Cam exibia um olhar determinado. Ela ponderou rapidamente sobre essa aposta. Ele estava claramente interessado. Era solteiro, não estava saindo com ninguém. Era legal e sexy. E tinha olhos hipnotizantes, quase como uma cascavel, pronta para dar o bote. Talvez fosse disso que ela precisava.

— Tudo bem. E se você ganhar de mim?

— Então eu faço o que você quiser.

   Luce o cutucou com a ponta arredondada da espada para ele se posicionar e Cam piscou enquanto se afastava para se preparar. O professor passou as posições que os alunos deveriam tentar enquanto lutavam com os parceiros e começou a chamar dupla por dupla.

   Enquanto a menina de cabelo rosa choque fazia Ariane suar, Daniel entrou na sala e se sentou perto de Roland. Eles riram de algo que ele falou e Luce suspirou. Queria poder fazer ele rir desse jeito. Rir de verdade, com covinhas e tudo. Seu rosto se iluminava como o de uma criança e sua risada era tão gostosa de ouvir... Mas tudo que ele fazia quando estava perto dela era ficar tenso e arrumar uma maneira de fugir.

— Muito bem, os próximos são… — O professor correu os olhos pela sala. — Cam e Luce?

   Ambos se posicionaram no centro da sala. Pelo canto do olho, Luce percebeu que Daniel não estava mais tão sorridente. Ela suspirou e tentou se concentrar. Ergueram as espadas e o tilintar de uma agulha contra a outra começou. Cam deixava ela o encurralar, mas também não a deixava acertá-lo. Ele estava quase a deixando ganhar de propósito e ela sabia. Gritou por trás da máscara.

— Vai mesmo me deixar vencer assim tão fácil?

   Ele soltou um som de desdém atrás da dele. Eles riam enquanto avançavam um contra o outro, não conseguindo mais parar em um lugar. Mesmo com toda sua atenção voltada para o ponto no peito de Cam, o qual queria acertar, ela podia sentir o olhar de Daniel queimando. Um minuto de dispersão e foi o suficiente para Cam avançar e bater a ponta da espada na barriga dela. Com o susto, Luce tropeçou e caiu para trás. Quando se deu conta, estava no chão e com Cam em cima dela, o braço dele de alguma forma atrás de sua cabeça, protegendo-a da queda.

   Daniel imediatamente levantou e praticamente arrancou ele de cima de Luce.

— Luce, você tá bem? — Ele pegou o rosto dela nas mãos e a analisou, procurando algum sinal de dor.

— Eu tô bem, não foi nada. — Ela sentou com ajuda dele e com o movimento, acabou apoiando sua mão no peito dele. O coração batia acelerado contra a caixa torácica. Ele tirou uma mecha de cabelo que se soltou do rabo de cavalo e encaixou atrás da orelha dela.

— Não sei porque ainda me preocupo, você sempre diz… — Ele falou mais para si mesmo que para ela, mas aquilo pareceu se infiltrar dentro dela. Ela viu uma Luce machucada, na mesma posição, sentada no chão, e um Daniel, olhando para ela preocupado, segurando a mão que estava posicionada no seu peito. Só que era noite. E eles estavam perto de uma fogueira. Havia espadas de verdade ao redor deles.

   Luce se afastou, assustada. Estava novamente na sala de esgrima. Todos olhando para os dois.

— …uma queda é só uma queda. — completou a frase familiar de Daniel. Foi a vez dele a encarar assustado.

— O que? — Quase gaguejou.

   Luce olhou para o chão, tentando voltar àquela lembrança. Em vez disso, viu uma corrente prata ao lado de sua coxa. Quando pegou, reconheceu o cordão de Daniel. Antes que ele pudesse tirar de sua mão, ela intuitivamente abriu o pingente. Alguém muito parecido com ela abraçava ele em uma foto miniatura. Ela piscou algumas vezes, mas continuava vendo a mesma coisa. Daniel arrancou o cordão de sua mão e foi embora.

[...]

   Mais tarde, Luce ainda estava atordoada com o que aconteceu. Do nada ela começou a ter essas visões com o Daniel que não faziam sentido algum. Daniel não fazia sentido algum. Ela mostrou interesse e ele só a afastou, mas quando ela está distraída com outro, ele odeia.

   Se antes não conseguia tirá-lo da cabeça, agora mesmo que não iria conseguir. Ficava repassando as duas lembranças que magicamente brotaram na mente dela, tentando reconhecer de algum lugar, mas por mais que ela tentasse parecia impossível qualquer um dos dois cenários ter acontecido.

   Luce fechou o armário e seguiu para a aula. Daniel estava sentado perto da porta e é claro que não deixou de encará-la até ela sentar em alguma carteira. Só que dessa vez ele não a olhava intensamente, como de costume. Agora ele parecia ficar com raiva. E não era só ele que a olhava. Os amigos dele também. Como se ela fosse um alienígena. A única que parecia estar por fora da situação era Penn, que lia seu último resumo.

   Srta Sophia já estava na mesa, empilhando alguns livros que iria usar na aula e falando sobre um trabalho importante para o semestre. Luce não conseguia prestar atenção, só usava cada gota de autocontrole para evitar virar a cabeça para Daniel. Penn teve que repetir duas vezes o que ela disse para que Luce absorvesse. Um trabalho de no mínimo 100 linhas sobre sua linhagem.

   A aula parecia passar dolorosamente devagar, mas pelo menos a atenção que davam à Luce tinha se dissipado. Daniel passava a maior parte do tempo olhando para seu caderno e rabiscando, e os amigos conversavam mais do que ligavam para o que a professora falava. Cam era o único que a olhava de vez em quando, mas ele fazia isso em todas as aulas depois que eles começaram a se falar.

   Quando a aula finalmente chegou ao fim, Luce combinou de encontrar Penn na biblioteca mais tarde para começar a pesquisa e arrumou seu material o mais rápido possível para sair da sala. Quando passou por Daniel, não pôde evitar checar o que tanto ele fazia em seu caderno. Deu um passo adiante, mas parou. Voltou, incrédula e olhou novamente. Porque era ela. Um esboço a lápis da visão que ele tinha dela olhando para a janela.

   Luce pegou o caderno da mesa de Daniel e só então ele percebeu que ela tinha visto.

— O que é isso?

   Daniel ficou surpreendentemente mudo. Ele sabia que qualquer que fosse sua desculpa, precisaria ser uma boa para convencê-la.

— Isso é sério? Você me ignora ou foge sempre que pode, mas é assim que gasta suas aulas de história? — Luce apontou para o desenho.

— Não é você.

— Não sou eu? — Ela quase riu de incredulidade. — Então quem é, Daniel? Fala sério, você é bom o suficiente nisso pra dar pra ver que sou eu no papel. O que é isso?

   Daniel fugiu dos olhos de Luce, fazendo menção de responder qualquer coisa, mas ainda sem uma resposta plausível.

— Me responde, Daniel!

   Ele respirou fundo e levantou da cadeira. Segurou levemente o pulso de Luce, como se com qualquer força a mais ela pudesse explodir, e a levou pelo corredor até que passassem por uma sala vazia. Assim que encontrou, abriu a porta e a fechou depois dos dois entrarem.

— Pode me explicar agora?

— Você precisa me deixar em paz, Luce. — Daniel respirava com dificuldade e a olhava como se fosse uma bomba-relógio.

— Eu vou deixar quando me explicar o que tá acontecendo. Eu estou lembrando de coisas, Daniel... eu não sei de onde essas cenas saíram, mas são tão reais... O que é isso entre a gente?

— Luce... — Os olhos geralmente violetas de Daniel estavam petrificados, mais para acinzentados. Ela sentia a mão dele suando, ainda segurando seu pulso, com medo de soltá-la. — Eu...

— O que vocês estão fazendo aqui? — Um professor entrou.

   Daniel aproveitou a deixa e fez mais uma vez tudo o que podia: fugir.

[...]

   Luce entrou na biblioteca imensa da Sword&Cross pela primeira vez. Podia facilmente ter todos os livros do mundo lá dentro. Ela seguiu até a sessão dos computadores, como Penn a instruiu, e ficou esperando a amiga sentada, olhando para a tela.

   Tinha uma ideia que não saía da cabeça de Luce desde que precisou se forçar a pensar nesse tal trabalho. Ela ficava oscilando entre deixar quieto ou acabar logo com isso, mas sabia o que precisava fazer. Talvez desse em nada mesmo. Luce respirou fundo e digitou “Daniel Grigori” na lupa de pesquisa. Não era um nome comum, e no acervo daquele lugar tinha os documentos mais antigos que se pode imaginar, porque não iria ter algo sobre o cara do grupo que um reformatório tão sério fazia tantas exceções? Ele e os amigos dele deviam ser importantes. Não demorou muito e a página carregou. Luce prendeu a respiração ao ler o único resultado: o nome de um livro. “O Livro dos Guardiões”, autoria de GRIGORI, Daniel. 1679.

   Ela praticamente pulou da cadeira até a sessão indicada e assim que o achou, parou um segundo para analisá-la. Capa de couro gasta com uma crosta de poeira e o nome em letras douradas. Só de segurá-lo, Luce sentia algo forte. Uma sensação estranha. Não era a primeira vez que ela segurava aquele livro. E certamente tinha algo importante ali dentro. Luce o abriu devagar, com medo de que ele se desfizesse de tão antigo que era, e sentiu seu coração palpitar forte, quase parando na garganta quando viu o que tinha dentro, antes mesmo da primeira página. Uma foto igual a do cordão de Daniel. Solta ali, como se fosse um marca página. Com a foto em um tamanho grande, não tinha dúvidas. Era ela. Luce e Daniel abraçados, sorrindo, com roupas e penteados estranhos, parecendo outras pessoas, quase outra vida, mas eram eles.

[...]

   Luce tremia e hiperventilava, como se seu corpo estivesse entrando em modo sobrevivência. Alguma coisa estava errada com ela, mas não sabia o que e nem como controlar aquilo. Saiu da biblioteca e correu até o lado de fora do prédio, precisava urgentemente de ar. Com o livro nos braços, foi até o único local que parecia ser reconfortante para ela naquele lugar, a piscina de natação dentro do que já fora uma igreja. Luce agradeceu por estar vazio e deixou o livro na cadeira da treinadora, junto com suas roupas. Mergulhou na piscina sem nem pensar duas vezes, como fazia quando o reformatório parecia sufocante demais. Para sua surpresa, a água estava tão quente que nuvens de vapor se formavam no ar. Ela se sentiu abraçada por aquela quentura e desceu mais e mais, até ficar um tempo de olhos fechados lá no fundo, esvaziando a cabeça e esperando a sensação estranha que se espalhava em seu corpo sumir.

   Sem que Luce ouvisse, outra pessoa entrou correndo pela porta e pulou na piscina, só tendo tempo de tirar a blusa, com a pressa, sem paciência de tirar a calça jeans. Ela só sentiu um puxão e estava novamente na superfície. Daniel a encarava assustado, os cachos do cabelo ensopados. Por alguns segundos eles ficaram ali se olhando, recuperando a respiração, o vapor da água dançando entre eles. No momento que Luce abriu os olhos ele já entendeu o que estava acontecendo. Ela já sabia de tudo. Se não tudo, pelo menos uma parte. Ela estava começando a ser levada pela maldição. Ele não ia aguentar mais uma vez.

— Daniel… — Luce falava com dificuldade.

— O que você viu? — Ele segurava a cintura dela com força, com pavor de sentir ela se desfazendo de novo.

— O livro. Me explica. Eu mereço saber.

   Daniel não sabia mais se seu rosto estava molhado de água ou lágrimas. Ele não era de chorar, só toda vez que isso acontecia. E já estava acontecendo. Não tinha mais como fugir. Não tinha qualquer gesto que ele pudesse fazer, qualquer jeito rude de falar, qualquer saída. Tudo que ele podia fazer era explicar e se despedir. As vezes que ela ia sem saber de nada eram as piores. A dor e confusão que ele via no rosto dela era uma das piores coisas que ele podia presenciar nesses casos. Então engoliu em seco e despejou o discurso de sempre.

— Nós somos almas gêmeas, Luce. É por isso que não consegue ficar longe de mim. Mas somos amaldiçoados e é por isso que não podemos ficar juntos.

   Luce sentia cada palavra reverberar em seu cérebro, como se ele reconhecesse e se lembrasse aos poucos de tudo. Cada pecinha se encaixava.

— Nós nos encontramos vida após vida, mas sempre que nos entregamos você… — Daniel queria gritar. Era tão difícil ver a compreensão crescer nos olhos dela e saber que não ia adiantar de nada. Que a cada palavra, o fim chegava mais perto. Mais uma vez. — você morre, Luce. Explode em um fogo tão repentino, que às vezes só percebo segundos depois de te beijar ou de te abraçar pela primeira vez. Eu odeio te perder, você não faz ideia. E tudo porque…

— Você é um anjo. — Luce completou. Seus olhos brilhavam na lembrança das asas de Daniel, de voar nelas. Eram as lágrimas dela que agora derramavam. Daniel não pôde evitar abrir um sorriso triste. Fazia muito tempo que não era chamado assim e Luce dizia com tanto respeito. Ele estava acostumado a ser desprezado por isso. Pelo que ele fez.

— Um anjo caído. — Ele emendou enquanto segurava o rosto dela em concha. Uma respiração entrecortada saiu de seus lábios, quando ele se arriscou dar um beijo em sua têmpora. A segurando mais forte ainda, se preparando para mais um de seus fins.

— Tudo bem, Daniel. — Luce levou um dos braços até o pescoço dele. — Eu entendo. Estou pronta.

   Daniel negou com a cabeça. Suas mãos tremiam no rosto dela.

— Não… Eu não estou.

   Daniel pensou por um momento. Tinha uma possibilidade que ele vinha pensando faz um tempo. E se ele não deixasse ela ir? Ele não podia impedi-la de estar apaixonada por ele e morrer por isso, ou podia? Ele prometeu que só faria em último caso, mas ele não aguentava mais…

— Luce, preciso que você faça uma coisa por mim. Uma última coisa.

— Qualquer coisa.

— Feche os olhos.

   Luce fechou. Por um momento, achou que ele só estava acelerando o processo, pois sentiu uma luz forte surgir atrás das pálpebras, mas quando abriu os olhos tudo que viu foi Daniel. Em sua forma real. Puro brilho, pura energia. Suas asas enormes, estendidas até as duas pontas da piscina, pulsando violeta.

   Daniel arrancou o cordão do pescoço e o pôs entre as mãos. Em um piscar de olhos, ele estava incinerado.

— Daniel? O que você…

   Ele colocou a mão cuidadosamente na cabeça de Luce.

— Lucinda Price. Você vai esquecer de mim e de toda e qualquer história que possamos ter juntos.

— Não!

— Você vai ser uma garota normal e conhecer garotos normais. Vai ter uma vida normal. Uma vida completa e a mais feliz possível. Eu te amo, Lucinda. A partir de agora você esquece de tudo pra sempre. Desculpe, mas assim você não vai poder voltar mais. Pelo menos, vai ter uma vida de verdade.

   Luce arregalou os olhos e tentou pará-lo, mas ele foi mais rápido. Um segundo depois, a piscina não passava de uma explosão de luz.

   Lucinda acordou sozinha, sem se lembrar de nada. Sua última lembrança era ter passado mal e ido dar um mergulho para relaxar. Seu corpo estava normal. Saiu da piscina e sentou na borda. Tinha a estranha sensação de ter perdido alguma coisa importante. Alguma coisa estava faltando. Odiava esse sentimento. Levantou para ir se secar, mas alguns passos depois sentiu uma dor de cabeça excruciante. Seu corpo começou a parecer se revirar do avesso. Ela caiu no chão, desesperada. 

   Cam entrou, tinha sido avisado que esqueceu alguma coisa na antiga igreja, mas correu assim que viu Luce no chão. Ela sentia algo atravessando seu corpo, querendo sair. Tossiu diversas vezes, mas nada saía. Cam segurou seu cabelo e fez carinho nas suas costas até que algo saiu. Nenhum líquido ou comida, apenas uma pétala branca. Mas foram surgindo e surgindo até que Luce tivesse sentido que finalmente tinha terminado. Cam tinha entendido tudo. Daniel tinha arquitetado aquilo fazia séculos, literalmente. O Hanahaki era uma doença que afetava os anjos quando perdiam o amor da sua vida. Ela ia ficar bem, não lembrava de nada mesmo. Já o anjo, continuaria doente por toda sua existência.



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