Work Text:
Você quer ajuda para…conquistar alguém?”
A pergunta é feita em um tom recheado de dúvidas, como se Kaeya estivesse desacreditado de que Bennett realmente veio ali solicitando sua ajuda para aquele tipo de situação. Bem, não que fosse realmente tão surpreendente, visto que o Capitão da Cavalaria tinha certa fama entre os cidadãos de Mondstadt.
”Sim!” Benny afirma com segurança, seus olhos possuem um brilho esperançoso, como se depositasse todas suas expectativas no mais velho.
Kaeya se abala um pouco com toda aquela certeza, tentando imaginar em quem o rapaz poderia estar interessado. Ele não tinha muitos amigos, com exceção de Razor e Fischl, e o fator de azar que o rodeava não lhe favorecia muito para se aproximar de novas pessoas.
Após ponderar por alguns segundos, percebendo que deixou Bennett sem uma resposta, ele diz ”Certo, Benny, talvez eu possa ajudar” ele ri ao vê-lo se empolgar. ”Você é próximo dessa pessoa?” questiona, convidando o rapaz para se sentar na cadeira de seu escritório – não tinha muito serviço para fazer naquele dia, então dispor tempo para ajudar o outro não seria um mal.
”Bem, eu conheci ela em uma das minhas expedições…” ele inicia sua história, se atentando às expressões do mais velho. ”eu acabei me deparando com um grupo de fatuis e eles não ficaram muito felizes com minha presença, então acabaram indo me atacar” Bennett confessa, coçando a nuca e rindo para tentar fingir que não havia se metido em uma situação séria.
”É por isso que me preocupo quando você sai sozinho assim…” Kaeya suspira com um ar mais sério, não conseguindo levar na brincadeira algo que poderia ter trazido consequências severas ao rapaz.
”Eu sei, eu sei! Mas nenhum dos caras da guilda querem vir comigo, e-eu não culpo eles, mas não tem muito o que fazer…só não conta isso pro Mestre Diluc” ele quase entra em pânico, tropeçando nas palavras ao tentar explicar algo.
Kaeya suspira com o desespero alheio, mas busca manter o bom humor. ”Não se preocupe, Diluc e eu não conversamos tanto assim” e talvez tivesse certo receio de que o ruivo lhe interpretaria mal caso demonstrasse preocupação com Bennett, afinal, Diluc tinha muito apreço pelo rapaz…talvez mais que por si.
Antes que se perdesse naqueles pensamentos, Kaeya retoma o assunto
”O que aconteceu depois?”
”Uh…bem, eles me capturaram…”
O moreno arregala os olhos com a nova informação.
”Perdão, eles o quê?” talvez valesse a pena contar aquela situação pro ruivo sim, mas não gostaria de quebrar a confiança de Bennett.
”Não se preocupa, eles não fizeram nada!” Benny tenta continua antes que o outro desse muita atenção àquela situação azarada que teve. ”O cara-...a pessoa que eu tô gostando me salvou, f-foi assim que nos conhecemos”.
Tentando se acalmar um pouco e focar no que se propôs a colaborar, Kaeya acaba não deixando uma informação passar ”Oh, então é um rapaz”
Bennett sente sua face queimar, tanto de vergonha pelas lembranças daquele homem em específico tomando sua mente, quanto pelo nervosismo de ter exposto mais do que deveria.
”S-sim…”
”Não precisa ser tão tímido, conte mais” Kaeya se apoia na mesa, sinalizando que estava disposto a ouvir mais, que desejava ajudar Bennett naquela situação.
O rapaz se sente mais confiante ao ouvir aquele incentivo e começa a falar:
”Bem, pra começar, ele é incrível lutando!”
E Benny procede falando sobre o cara misterioso que lhe salvou dos Fatui, mostrou suas habilidades de luta com a utilização de sua visão Hydro e demonstrou grande importância em relação a ele, mesmo após diversos acontecimentos provindos de sua falta de sorte; que o homem não parecia se abalar com qualquer desafio e permanecia perto dele. Kaeya ouve atentamente os relatos, se impressionando bastante com a forma entusiasmada que Bennett falava daquela pessoa. Apenas o viu falando dessa forma quando o rapaz encontrou algum tesouro valioso – talvez nem tanto – em alguma aventura, então aquilo certamente era algo novo.
Ponderou se deveria investigar essa tal pessoa, mas para Bennett estar tão contente falando dela, imaginou que não seria alguém perigoso, mesmo que não aparentasse ser da cidade.
”Então…como eu poderia falar com ele?”
Kaeya não tem uma resposta concreta quando o assunto é confissão. Não foi no sentido romântico, mas uma experiência negativa tinha sido suficiente para que se fechasse completamente quando o assunto era revelar a verdade em seu coração; teve sorte de Albedo ser extremamente direto para que começassem a namorar.
No entanto, ele tem que auxiliar Bennett da melhor forma que podia, ainda mais quando o rapaz confidenciou aqueles sentimentos justamente a ele.
Primeiramente, precisaria acostumá-lo a uma possível realidade.
”Hm…você sabe se ele gosta de garotos?”
”Ah…eu não sei” confessa, um pouco frustrado. ”Ele me trata bem e me elogia bastante, às vezes ele fica me encarando por um tempo, mas…não sei o que pode significar”
”Oh Benny...não desejo que você tenha seu pobre coração despedaçado por uma rejeição assim, então temos que ter certeza disso, tudo bem?”
”Vou tentar descobrir!”
”Tenha cuidado para não se expor demais” Kaeya avisa deixando que sua preocupação tomasse espaço em sua cabeça. ”Caso ele goste, apenas…seja você, mas tenha um pouco mais de confiança“
Bennett parece não compreender aquela dica, visto que há uma expressão recheada de dúvidas estampada em sua face.
”Mas…como vou fazer ele gostar de mim só sendo eu?”
”Benny, querido, se ele não gostar de você por isso, não acho que valha a pena insistir nele” Kaeya se sente meio hipócrita dizendo isso, já que ele nunca seguiu suas próprias palavras. No entanto, ele sabia que no fundo aquela era a verdade mais genuína por trás de todo bom relacionamento; o que tinha com Albedo era uma prova disso. ”Confie em mim, e em você também”
… … …
Alguns dias depois, o Capitão da Cavalaria veio a presenciar uma cena inédita no segundo andar da ”Presente dos Anjos”. Chegou um pouco tarde na taverna por conta dos afazeres, mas foi para lá justamente atormentar – traduzindo-se como uma tentativa de conversar – o famoso Mestre Diluc. Não eram muitas as vezes que o ruivo estava lá, mas o bom vinho fazia com que a vinda não fosse completamente em vão.
Por sorte, bastaram apenas alguns minutos para que Diluc chegasse, já pegando alguns pedidos e indo entregá-los no segundo andar. Kaeya não desperdiçou a oportunidade, se despedindo brevemente de seus companheiros de bebida e seguindo o ruivo com algum assunto relacionado aos Cavaleiros de Favonius em mente, apenas para chamar sua atenção.
”Você por aqui” Diluc suspira com certo cansaço ao visualizar a figura conhecida se aproximando.
”Ora, não precisa me tratar com tanto descaso, Mestre Diluc” Kaeya começa a falar com aquela formalidade irritante propositalmente.
Ele pergunta sobre coisas rotineiras antes de tudo, recebendo apenas algumas respostas não muito honestas e rasas, com um tom frio e desinteressado. Sabia que lá no fundo aquilo era apenas fachada, que Diluc não sabia como se expressar e, embora aquele tratamento o desanimasse, seria persistente.
No entanto, assim que subiram as escadas, o assunto morreu instantaneamente quando observaram a cena que se desenrolava na frente deles.
Levantados ao lado de uma das mesas no canto do estabelecimento – vazio, já que não havia muitas pessoas naquele horário – estava Bennett e um homem de aparência jovial na sua frente, com um sorriso aparentemente malicioso.
Mas esse homem…não era um desconhecido.
Diluc com certeza já havia se encontrado com o 11° Mensageiro Fatui antes.
”Childe, você é realmente muito divertido e atencioso, eu nunca me senti tão…bem…com alguém assim antes…e sei que não sou a melhor pessoa do mundo, mas…eu gosto bastante de você” a face corada do rapaz de cabelos loiros é bem visível, seus olhos transmitiam a mais pura honestidade do que sentia enquanto olhava diretamente para o homem mais velho que parecia surpreso com a confissão. Ficando um pouco ansioso, Bennett vira a face para o lado não querendo ter que decifrar o que quer que o outro estivesse sentindo, coçando a nuca nervoso. ”Uh, você não precisa gostar de mim, s-só queria dizer isso de uma vez…”
Diluc, observando aquela cena sentiu a fúria toma-lo, os copos quase quebrando pelo aperto de suas mãos. O braço de Kaeya entra em seu caminho e ele lança um olhar inconformado para o lado.
”Eu sei, Diluc, eu sei, mas vamos esperar…” Kaeya está igualmente chocado com a nova informação, muito mesmo, mas aquela era a escolha de Bennett, não poderia esquecer a forma que o rapaz falou do Mensageiro Fatui dias atrás. Não poderia estragar aquele momento.
”Se ele magoar o Benny, eu mato ele” é tudo que o ruivo diz, ainda furioso, mas surpreendentemente complacente com a opção de Kaeya.
O moreno ri nervosamente, esperando que aquela realidade estivesse bem distante.
”Pode só esquecer isso também…” Bennett acaba dizendo com os poucos segundos em que não recebeu uma resposta, se afastando e tentando arrumar alguma forma de consertar seu erro.
Mas antes que pudesse se afastar completamente, Childe segura seu pulso, lhe puxando para perto.
”Benny, olha pra mim” seu tom não é sério e nem opressivo, apenas…normal, calmo. Bennett obedece, ainda muito envergonhado, observando o sorriso na face alheia. ”Não esperava que fosse admitir tão cedo, você é tão tímido com coisas assim…” ele confessa, se inclinando em direção ao mais novo, seus lábios se aproximando perigosamente. ”Eu gosto bastante de você também” e ele não demora para beijá-lo avidamente.
Diluc olha essa cena e sente seu corpo ferver de tanto ódio acumulado ”Ele tá morto” ele diz, tentando avançar novamente para cima do, agora, casal e sendo barrado por Kaeya novamente.
”Ei, ei, ei, isso não é o oposto de magoar o Benny?!”
”E importa? Esse Fatui asqueroso está colocando as mãos nele-”
Talvez o ruivo tenha se alterado um pouco demais e proferido seus xingamentos alto o suficiente para chamar atenção dos outros dois. Bennett os encarava extremamente envergonhado enquanto Childe possuía uma expressão surpresa quase inocente em sua face. Nesse momento, Kaeya já não conseguiu mais conter seu irmão, apenas segurando as taças de vinho que o mesmo quase jogou em si e esperando que o Fatui não piorasse a situação. Sabia que Diluc não causaria um drama destrutivo dentro de sua própria taverna…ou ao menos esperava isso, as coisas eram um pouco incertas.
”M-Mestre Diluc? Eu pensei que não viria hoje-” Bennett está nervoso ao ver o homem mais velho andando furioso em sua direção.
”Benny.” ele o chama por seu apelido, não querendo dirigir-se a ele com agressividade e desviando seu olhar para o homem ao lado, que agora tinha um sorriso em seus lábios, como se quisesse provocá-lo. Diluc olha novamente para o loiro, respirando fundo e questionando. ”Poderia me explicar isso?”
… … …
”E foi assim que nos conhecemos!” Bennett termina de explicar sua história; a mesma que contou para Kaeya, sobre ter sido capturado por um grupo de Fatui e resgatado por Childe; agora, sem ocultar o detalhe de que o líder daquele grupo era o próprio Mensageiro e ele estava apenas corrigindo os erros que seus camaradas haviam cometido, no processo, acabando por se aproximar realmente do mais novo.
Estavam todos sentados na mesa da taverna – Por sorte, Charles ainda não havia ido embora e pôde trabalhar no lugar de Diluc enquanto este 'resolvia' a situação. Childe não hesitou em se sentar na cadeira ao lado de Bennett, mesmo com o dono do estabelecimento quase rosnando para se distanciar dele, deixando mais que óbvio seu descontentamento.
Kaeya decidiu ficar ao lado do ruivo a fim de garantir que ele não fizesse nada muito drástico, embora soubesse que sua presença ali apenas alimentava a impaciência do mais velho.
”Vê? Sou inocente” Childe ousa comentar enquanto puxa Bennett para mais perto.
”Não” Diluc responde, ríspido; quase perdendo a paciência com tanta ousadia.
”Não pretendo machucar o Benny se é isso que te preocupa” ele tenta soar convincente ”A menos que ele queira”
Bennett sente sua face queimar ainda mais com aquela revelação. ”Ei!” ele protesta, recebendo apenas risadas do outro em resposta.
”Maldito…” O mais velho deles murmura enfurecido. ”Certo” ele responde friamente, ainda de braços cruzados.
Não dependia dele, por mais que ele odiasse completamente aquela ideia, apenas imaginar aquele que via como um irmãozinho nas mãos de um Fatui; ainda mais de um dos Mensageiros. Queria incinera-lo ali mesmo, mas infelizmente ainda tinha que agir como um ser humano decente mesmo que isso implicasse em aceitar aquela atrocidade.
”Vocês viram ele se confessando para mim, tão adorável…”
”Childe…” Bennett não sabia nem o que falar mais diante de tanta humilhação. ”Espera, vocês viram…”
”Obviamente” Kaeya declara, rindo da surpresa nas orbes alheias.
”Ah…então…você sabe que eu gosto dele, Mestre Diluc! Ele não tá me forçando a fazer nada!” ele tenta argumentar a favor do outro, buscando convencer Diluc de algo.
O ruivo presta atenção na forma em que Bennett fala, em como ele parece contente com o que havia acabado de conquistar, em como ele parecia sentir conforto ao lado do Mensageiro…ao mesmo tempo, em sua visão Bennett era muito inocente para enxergar a maldade logo ao seu lado, em procurar um lado positivo em tudo, mesmo quando as pessoas demonstravam claramente seu repúdio.
Sempre se irritou muito com a forma em que Bennett era tratado pela grande maioria; isso lhe motivou a acolhê-lo sempre que possível, escutá-lo e tratá-lo como um irmãozinho mais novo…algo que definitivamente sentiu saudade de ter. Algo que, por conta de suas próprias atitudes inconsequentes, perdeu.
Seu olhar desvia para Kaeya por um momento com esses pensamentos, mas logo se volta ao rapaz mais novo mais uma vez. Bennett parecia feliz. Não sabia como aquele relacionamento poderia funcionar, mas também não poderia interferir com tanta inconveniência.
Bem, certamente se manteria de olho no Fatui.
”Não é como se eu pudesse te impedir de vê-lo mesmo” Diluc suspira, descruzando os braços. ”Conversamos mais tarde” ele diz enquanto olha para Childe com certa ameaça, se levantando da cadeira e indo em direção às escadas.
Por um momento, ele para apenas para avisar:
”Ah, e eu não estou bravo com você, Benny, vamos conversar depois também, tudo bem?”
Bennett concorda um pouco surpreso, com um pequeno sorriso no rosto e certo alívio.
Childe aproveita que o mais velho se foi para deixar um beijo nos cabelos loiros do outro; havia sido privado de todo afeto que pretendia distribuir ao Bennett por conta de toda aquela interrupção. O rapaz havia acabado de finalmente se confessar e não puderam aproveitar aquele momento. Inacreditável.
”Eu acho que deveria ir também…” Kaeya percebe que está fazendo papel de vela para o recém casal, se levantando ”Aproveitem bem…mas nem tanto, estarei de olho” ele decide provocar, vendo Bennett rir e indo na direção de Diluc.
Estava bem chocado com aquela informação. Não imaginou que de todas as pessoas possíveis Bennett iria se apaixonar logo por um Mensageiro Fatui, ainda mais tendo consciência de sua identidade. Talvez não fosse com o mesmo fervor que Diluc possuía, mas tinha várias preocupações sobre aquele relacionamento.
Esquecendo um pouco sobre isso, apesar de não completamente, ele decide provocar o ruivo que já havia dispensado Charles novamente para trabalhar.
”Um Morte Após o Meio-Dia, por favor, Mestre Diluc” ele pede sorridente, vendo Diluc revirar os olhos e começar a procurar o vinho.
”Que inveja do Bennett, você não se preocupou tanto assim quando comecei a namorar o Albedo…”
”É porque eu sei que com ele você está em boas mãos, idiota”
Kaeya arregala os olhos com aquela frase.
”Oh? Então meu bem estar importa, afinal?”
”É cla-” Diluc parece perceber o que estava falando. ”Por que está perguntando isso, você sabe a resposta”
O moreno não consegue se privar de rir, se sentindo um pouco mais tranquilo.
Havia sido uma noite interessante, bem interessante.
Apenas ainda se indagava em como Bennett havia se metido naquilo. Seria azar ou sorte? Esperava que, ao menos daquela vez, a sorte recaísse sobre o pobre rapaz e Childe mantivesse sua palavra.
