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Sínodo dos Bispos

Summary:

O detetive Sehun investiga o assassinato de um bispo, e a única pista relevante que tem em mãos é uma abotoadura de ouro que parece não ter vindo de lugar nenhum do país.
Ele não planejava, de forma alguma, usar de seu contato especial com a Corte Áltica para solucionar o caso; entretanto, quando a sua missão no baile de máscaras de veraneio é arruinada pelo príncipe Jongin, com quem tem um passado conturbado, Sehun conclui que é melhor usar os recursos de que dispõe.
Se o príncipe não quiser conversar sobre o passado, então talvez possa ajudá-lo a achar o culpado.

Notes:

sejam bem-vindos a minha segunda fic para o sekaibox (mas a primeira pra um ciclo oficial)! eu fiquei super empolgada e contente com a volta do projeto, ainda mais por poder, dessa vez, atuar como escritora no lugar de capista :’) é a primeira vez que fico de ficwriter num projeto, espero não decepcionar skdskjdnk

vou deixar algumas informações extras/curiosidades nas notas finais, mas são opcionais, você não precisa ler pra entender nada (eu espero skjdcnsdjk)

queria agradecer a yuriko_babe pela betagem, que foi avaliadora da primeira fic que eu postei pelo skb 😭😭 (eu nem lembrava porque o meu cérebro é totalmente oco, não tem nada aqui dentro) acho que daquela fic pra essa eu evolui um bocado, né não? enfim, você foi muito atenciosa e me deu algumas dicas muito importantes. obrigada!

só uma nota importante: a história /não/ se passa em algum tempo passado ou futuro que faça sentido, os números de datas/anos são completamente arbitrários! :)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

PARTE I - A TEORIA DO ALFAIATE

O detetive jogava xadrez com um caso de assassinato, já que não tinha mais ao que recorrer.

O bispo morreu na torre durante a madrugada, algo entre cinco ou sete dias no passado. Sabia-se de duas coisas: a primeira, que o cavalo usado pelo assassino tinha sido roubado algumas horas antes; e a segunda, que o autor do crime não era dos mais cuidadosos, já que tinha deixado uma abotoadura de ouro para trás. Era a única pista que o detetive tinha, e que deveria ter resolvido o enigma sozinha, mas que não havia levado a lugar algum quando investigada mais a fundo.

O detetive começava a achar que o crime tinha sido encomendado e que o algoz não era, necessariamente, a mesma pessoa que o mandante; aquele com uma justificativa para matar alguém.

Mas quem iria querer matar um bispo?

O rei certamente que não; a rainha muito menos. Figuras reais de grande proeminência têm outros meios para conseguir o que querem, além de saberem que ameaçar o clérigo num país tão católico quanto Serpens não poderia ser uma jogada pior.

Sehun, o detetive, estava perdendo: todos os seus peões ou já tinham sido comidos ou não haviam nem aparecido para a partida. Estava encurralado num xeque orquestrado muito antes de sequer começar a jogar.

A abotoadura brilhava em cima da mesa, o encarando como se o desafiasse. Sehun lembrou-se da esperança que sentira quando a avistara na cena do crime e da subsequente peregrinação por Serpens, tentando encontrar de onde ela tinha vindo. Era dourada, redonda, simples, com duas espadas cruzadas envoltas por louros esculpidas no metal, e não tinha vindo de lugar nenhum, aparentemente.

Procurara pela capital, Caltha, e por sua vizinha, Esula — onde o crime tinha acontecido. Todas as lojas e ourivesarias que consultou negaram ter, algum dia, visto a abotoadura; ninguém as estava vendendo, então quem a havia comprado devia ter feito uma encomenda especial. Sehun visitara todas as forjas que conhecia: nenhum artesão disse reconhecer a peça. Escrevera para outros estabelecimentos do país, anexando um desenho com descrições detalhadas, mas ainda não havia recebido resposta de nenhum deles.

A melhor informação que obtivera tinha vindo de um artesão calthano aposentado, especializado em peças caras e preciosas, que aceitou analisar a abotoadura para o Departamento Real de Investigação.

— É ouro maciço. — O velho dissera, olhando para o objeto por detrás de uma lente de aumento que deixava seu olho direito esbugalhado. — Não preciso nem pensar muito para ver. É. É ouro sim.

— Então quem comprou tinha dinheiro.

— É, pode-se dizer que sim. — O artesão concordara, com alguma relutância. — Mas ladrões também têm ouro, se é que me entende.

Sehun entendia. O velho pôs a abotoadura na mesa e olhou para ela sem a lente dessa vez.

— Esse símbolo não me parece oficial — prosseguira o artesão. — Isto é, não é da realeza. Mas parece com o brasão da infantaria.

— Isso é algo que um soldado usaria? — Sehun erguera uma sobrancelha, pegando a abotoadura solteira nas mãos outra vez.

— Um soldado, eu não sei. — O velho dera de ombros. — Soldados da infantaria não têm dinheiro para isso, e não sei se combina com um o ato de roubar. Um general, talvez; eles têm mais posses, e gostam de exibir seus cargos. Mas mesmo para um general, a peça é estranha… Não parece adequada. 

— Para um general? — Sehun repetira. 

— Sim, parece muito simples. — O artesão confirmara. — Não é tão exagerada como as que os generais costumam pedir.

— Um capitão, talvez? 

— Pode ser. Ou o filho de um capitão, de um antigo general; alguém que não tem relações diretas com o exército real, mas que guarda alguma admiração pela instituição.

O detetive, então, abrira um pequeno sorriso. Fazia algum sentido.

— Obrigado — dissera ao artesão e, desde então, não conseguira outra pista significativa sobre o caso.

Por que um membro do exército mataria o bispo? Sehun não encontrava boas razões, então mudou de foco. Talvez um semelhante — outro clérigo — tivesse mais motivos para encomendar o caixão do colega. 

No dia anterior à morte do bispo, os eclesiásticos haviam se organizado num sínodo: uma reunião convocada pelo bispo, a autoridade máxima da diocese, abrangendo desde sacerdotes a leigos. Sehun não sabia o que era discutido num sínodo, mas não havia muitos registros de sínodos passados, o que o levou a concluir que devesse ser algo feito em circunstâncias ímpares.

 Talvez um desentendimento entre sacerdotes, ou sacerdotes e diáconos, tivesse causado a fagulha necessária para o assassinato de um homem, todavia, a hipótese não era robusta. Alguém conseguiria planejar um assassinato em apenas uma noite? Não era lógico. O atrito deveria ter começado muito antes do sínodo.

Ademais, o bispo foi morto na torre oeste da Igreja da Conceição, a maior e mais antiga do país. Se fosse um clérigo, Sehun pensou, e quisesse matar o bispo, não faria isso em terreno sagrado — tanto para não desrespeitar a casa de Deus quanto para não levantar suspeitas. Seu raciocínio estava se afastando do real cerne da questão, mas não sabia como voltar para o caminho das pedras.

Foi quando resolveu esquentar água para o café, a fim de esfriar as ideias e, ao checar a correspondência, encontrou uma carta com o selo da família real que tinha passado algumas noites ali sem ser notada.

Sehun sentiu um calafrio subir-lhe a espinha; não era a primeira que recebia, mas ele achava que já tinha recebido a última.

Para Sr. Oh e Família.

Bufou, reconhecendo a ironia de receber um envelope endereçado a ele e uma família que não tinha. Parecia ser um convite, pela aparência pomposa e a qualidade excepcional do papel — dito e feito! Quando abriu, já sabia do que se tratava.

Caltha, o vigésimo dia do décimo segundo mês de 328.

Prezado Sr. Oh,

Este ano, o Rei o convida a trazer a si e a sua família ao Palácio de Áltica no décimo segundo dia do primeiro mês, a partir das 16h, para o Baile de Máscaras de Veraneio.

A Corte Real Áltica celebra o nascimento de um novo ano, reunindo membros da realeza, nobreza, e outros cavalheiros e donzelas cujas contribuições para Serpens são profundamente apreciadas pela Corte.

Tradicionalmente, a festa decorre desde o fim da tarde até o início da madrugada, sendo a máscara indispensável para a participação nas festividades.

Cumprimentos,

O Rei.

Sehun achou graça de como o convite tratava o rei por Rei, com letra maiúscula, porque tinha lido uma vez, numa coluna de jornal, que esse era o maior ato de bajulação que alguém poderia empregar na sociedade atual. (Mas quando é que um título deixa de ser ordinário e passa a ser escrito com letra maiúscula? A partir da realeza, ele supunha.)

Depois de divagar, pôs-se a preocupar-se: não havia sido um rei, muito menos um Rei quem havia escrito o convite. Não poderia ser.

Sehun não era importante o suficiente para receber uma carta assinada pelo rei, mas o selo não parecia ter sido falsificado — a cera púrpura, exibindo o besouro da Corte Áltica, não deixava dúvidas. Portanto, diante de suas dúvidas e de seu mais recente compromisso, foi visitar um amigo.

***

Kyungsoo ajeitou os óculos no rosto, relendo o convite que Sehun recebera, parecendo concentrado. O jornalista, então, largou o papel sobre a mesa e olhou para o amigo. Sem mais delongas, concluiu:

— Sim, é oficial. Mas não significa que foi o rei que escreveu.

Sehun deu um sorrisinho.

— Imaginei. É em dois dias. Quer ir comigo?

— Não. — Kyungsoo respondeu sem pensar. — Não posso, na verdade. O jornal já tem um correspondente que vai ao baile, não quero que fique parecendo que eu quero roubar o trabalho dele. Mas eu também recebi um convite, o que é uma pena.

— Quanta consideração da sua parte.

Kyungsoo sorriu, deixando a ironia do amigo falar por si própria.

— Como anda a investigação? — O jornalista perguntou, casualmente.

— Não quero te dar muitos detalhes; não quero acordar amanhã e ver as minhas preocupações na primeira página do jornal.

Kyungsoo riu antes de dizer:

— Então você tem preocupações? Não está sendo tão fácil quanto você achou que seria?

— A abotoadura me deu falsas esperanças. — Sehun suspirou. — Não sei se o Departamento fez uma boa escolha ao me dar o caso. 

Kyungsoo murchou um pouco, mas não se deixou abalar.

— É uma boa observação. Vou lembrar de escrever no meu artigo de primeira página — provocou; Sehun revirou os olhos. — Mas não acho que você deveria se preocupar muito com isso. Você se destacou no caso do desaparecimento da filha do Conde no ano passado, não me surpreende terem te dado total responsabilidade nesse. Você funciona bem em casos de comoção nacional. É talentoso e bonito. Fica ótimo nos jornais.

— Disso eu sei, como é óbvio. — E riram. — Mas isso está me tirando o sono. Não me conformo por não ter conseguido rastrear o culpado pela abotoadura.

Kyungsoo suspirou.

— Você sabe o que eu penso disso. A abotoadura pode ser de qualquer um. Um estrangeiro que veio pedir orientações para o bispo, deixou a abotoadura cair sem querer e depois entrou numa carruagem direto para a Lisimáquia. 

— Mas a abotoadura tem o símbolo da infantaria de Serpens, não a da Lisimáquia. — Sehun reparou, tentando não se focar demais no total desconhecimento do seu amigo acerca das condições da cena do crime. — Você não esquece a Lisimáquia, esquece? Ficou com raiva porque o seu amigo Chanyeol foi para Ammak ontem e você não?

Kyungsoo olhou para Sehun como se planejasse um modo sangrento e doloroso de o matar.

— Eu teria sido escolhido para a matéria se o seu bispo não tivesse morrido — murmurou o jornalista, então bufou. — Você entendeu o que eu quis dizer, não tente mudar de assunto. É melhor trabalhar com os suspeitos que você já tem. Eu te dei uma lista dos sacerdotes, diáconos e religiosos importantes que foram ao sínodo; você tem tudo nas mãos.

Sehun parou para pensar, mas não disse nada. Foi tempo mais do que suficiente para Kyungsoo completar:

— E você tem contatos melhores que um colunista de jornal, detetive. Já falou com o príncipe?

***

Sehun não ia falar com o príncipe sobre o caso, mesmo sabendo que um jovem membro da realeza com certeza conheceria jovens filhos de generais, capitães e até marechais — um belo grupo de suspeitos. Nunca havia precisado recorrer ao seu contato especial para resolver um caso; não seria agora que começaria a apelar. Além do mais, não é como se mantivesse contato com o príncipe depois de tantos anos.

Ainda assim, o detetive seguiu ao menos um dos conselhos de Kyungsoo: desistiu de encontrar o dono da abotoadura por um segundo e voltou a olhar para o rosto dos homens que já tinha.

Enquanto ia em direção ao centro comercial de Caltha, a fim de preparar uma fantasia convincente para o baile de máscaras, Sehun se lembrava dos nomes e rostos pregados nas paredes da sua casa. Já tinha olhado para os possíveis suspeitos tantas vezes que decorou tudo sobre eles.

Entrou numa alfaiataria conhecida e pediu para ver alguns tecidos — entre as pessoas presentes no sínodo, a maioria era de membros do clero, com exceção de alguns plebeus religiosos e um seleto grupo proveniente da intersecção entre a Igreja e o Exército.

Considerou usar roxo para ofuscar a realeza, mas talvez não o deixassem entrar usando a cor oficial da Corte Áltica — o capitão Jung era uma das figuras mais emblemáticas da Igreja, mesmo não sendo um clérigo, pois era influente, religioso e bonito. Ser bonito é muito importante se você quiser que os jornais falem bem de você — será que Sehun deveria colocar pedraria na fantasia? —, e a presença do capitão no sínodo tinha sido muito bem divulgada. Um homem de grandes poderes pode não gostar de não ter as suas vontades satisfeitas, ou a sua palavra ouvida, numa reunião desse porte.

Mas sobre o que tinha sido o sínodo, em primeiro lugar? Ninguém sabia dizer, não por ser um segredo, mas por ninguém realmente se interessar. Até que poderia ser um segredo — Sehun sabia que Kyungsoo não fazia ideia de qual havia sido o tema da reunião, e ele fora o encarregado de escrever sobre o evento —, mas como ninguém queria saber, ninguém tinha se lembrado de perguntar.

(Nesse momento, Sehun teve a brilhante ideia de incorporar uma capa na sua fantasia.)

Byun Baekhyun, filho de um general de brigada, também esteve na reunião. O rapaz de dezessete anos era um diácono com a pretensão ingênua de se tornar padre, ou ter algum papel de maior destaque no clero, mesmo não precisando. Sua família já havia ascendido socialmente por meio do Exército; Sehun não via motivos pelos quais alguém tão jovem se juntaria a uma instituição desse gênero senão por estatuto. Talvez ele estivesse ali a mando de alguém.

— Você também quer encomendar uma máscara? — perguntou o alfaiate, fazendo Sehun voltar à realidade.

— Claro — disse o detetive. — Tem como fazer uma com um monóculo embutido?

— Aqui não é a Lisimáquia. — O alfaiate brincou, sorrindo. — Podemos fazer qualquer coisa.

Sehun fingiu que não tinha ouvido e voltou à sua dupla tarefa. 

O Major era outra figura icônica de um militar religioso. Estava em todas as missas, todas as comemorações tradicionais e, pelo o que Sehun tinha recuperado, em todos os sínodos também. Era o principal patrocinador das obras da Igreja, já que tinha feito fortuna na juventude. Obviamente que não era mais Major, mas a patente nunca o abandonara. Sehun nem precisava pensar num cenário em que o homem quisesse matar, ou ao menos afugentar, o bispo. Sua reputação falava por si só.

A última da lista era uma moça — talvez o detetive quisesse um adereço de cabeça para combinar com a pompa da capa —, a filha do Coronel, Elise, que viveu no exterior a maior parte da vida.

— E qual o motivo? — disse um dos funcionários do alfaiate, tentando preencher o vazio com alguma conversa enquanto o chefe ia buscar mais tecidos nos fundos da loja.

— Talvez não gostasse de como o bispo tocava a diocese e quisesse que ele fosse substituído. Ou algo mais pessoal.

O rapaz encarou Sehun com cara de espanto.

— Eu quis dizer as penas… — O menino esclareceu. Só então é que o detetive percebeu.

— Ah, sim, claro… desculpa. Eu sou um jornalista do Diário Real e meu chefe quer que eu escreva uma matéria sobre o assassinato do bispo — mentiu. — É só nisso em que eu penso agora. Afinal, por que alguém iria querer matar um bispo?

O jovem deu de ombros.

— A Igreja é mais competitiva do que parece. Tem muita movimentação de dinheiro por lá. 

— Vocês estão falando do bispo? — O alfaiate interpelou, voltando com montanhas de amostras de tecidos diferentes. — Ah, que pena! O bispo Hwang era um homem tão bom. E a sua vida foi roubada dentro da casa de Deus! Isso é quase um crime hediondo. Espero que as autoridades tratem logo de encontrar o culpado.

O funcionário, então, reservou-se a encolher os ombros e recolher as amostras que já tinham sido analisadas e descartadas. Ficaram só o detetive e o alfaiate outra vez.

— O senhor acha que alguém teria motivos para matar o bispo dentro da torre, em específico? — Sehun tentou soar casual, mas nem precisava. A população falava coisas piores sobre o caso diariamente; as pessoas dissecavam as notícias e as evidências como se estivessem, elas próprias, muito mais próximas da verdade que qualquer um.

— Tem pessoas capazes de tudo, meu filho. A maldade não tem fim. Ainda mais para um homem de Deus. — A frase dúbia deixou Sehun pensando se o alfaiate não queria dizer que o assassino também era da Igreja, mas pelo seu perfil religioso, descartou a ideia.

— O senhor acha, então, que foi um crime de ódio?

— Todo crime é produto do ódio.

— Bem… — e Sehun sorriu, meio encabulado. — Alguns crimes são cometidos para atingir algum objetivo. Poder, dinheiro, vingança…

O alfaiate tirou os óculos e olhou o detetive nos olhos. Sehun até pensou que ele fosse dizer outra frase generalista, sem conteúdo que pudesse indicar uma pista, como as pessoas fazem quando acreditam que a sua ética transcende qualquer nuance da realidade; tudo é simples do meu jeito. Entretanto, o homem suspirou e disse:

— Eu bem acho que aquela menina estrangeira tem alguma coisa a ver com isso. — Ele falava sobre Elise. — Não queria dar nome aos bois, mas ela tem um namoradinho muito mal-encarado, e os dois queriam casar. O pai dela, como o homem sábio que é, não queria que ela se casasse com um desapossado; e o bispo, como o bom homem que era, que Deus o tenha, apoiava a decisão do Coronel... esse bandidinho deve ter cravado a faca no pescoço do bispo só por raiva.

— Mas o bispo não morreu esfaqueado. — Sehun corrigiu, mas então lembrou-se da sua posição de ator. — Morreu?

— Morreu — confirmou o alfaiate. — Com uma adaga no peito.

— Não era no pescoço?

— Achei que o bispo tinha sido enforcado. — O funcionário opinou, meio de longe.

O bispo tinha sido enforcado, mas morreu porque foi atirado escadaria abaixo. Não havia sangue na cena do crime.

A torre oeste da Igreja da Conceição era a mais alta de um país de grandes construções. Suspeitava-se que o assassino, a princípio de forma não-ameaçadora, tinha seguido o clérigo até o sino, onde discutiram e, durante o embate físico, a abotoadura do algoz se desprendeu da sua roupa.

O bispo havia lutado pela própria vida, logo, o crime não tinha sido tão bem planejado; típico de crimes passionais, motivados pelo rancor e pela ira. Talvez a teoria do alfaiate fizesse algum sentido.

— Vamos dar um descanso ao espírito do bispo. — O alfaiate pediu. — Se o assassino não enfrentar a justiça dos homens, com certeza enfrentará a justiça divina. Senhor Oh, prefere as penas vermelhas ou as azuis?

***

No dia do baile de máscaras, o detetive vestiu-se às quinze horas, e às dezessete já estava na porta do Palácio de Áltica.

Sua fantasia era azul e prateada. Um colete escuro de veludo, uma capa sinuosa da mesma cor e pedraria prateada enfeitando os ombros, o pescoço e o rosto. A máscara formava uma mariposa de asas fechadas, descansando logo abaixo dos olhos espertos do detetive — a ideia do monóculo havia sido descartada depois dos primeiros esboços.

As penas, cujo esquema de cores Sehun tinha passado horas considerando, haviam desistido de virar um adereço de cabeça; agora descansavam na transição entre a capa e o colete, no espaço entre os ombros e o pescoço, formando uma gola elegante.

Teve pena por não ter podido acrescentar o besouro, símbolo da Corte Real Áltica, em algum lugar desprezível da sua fantasia, mas já tinha sido um milagre ter conseguido tanta coisa em tão pouco tempo.

O cocheiro chegou no horário combinado e eles fizeram o trajeto até o palácio em completo silêncio. Assim que os cavalos passaram a andar mais suavemente devido à mudança das ruas para o pátio do palácio, Sehun pousou a máscara de mariposa no rosto, esperando conseguir respirar com ela.

Foi impossível não parar por um segundo para admirar a decoração e a arquitetura de um lugar tão majestoso. As colunas altas e magras, o reflexo das luzes dos candeeiros no chão polido, as bandeiras nacionais penduradas na entrada — o roxo, de fato, servia a Corte Áltica muito bem. Sehun não pôde deixar de observar, contudo, que o besouro era um símbolo muito mais adequado. Áltica era uma praga para as plantas e uma praga para o povo — o baile estava lindo, todavia.

As fantasias dos convidados estavam tão bonitas que o detetive, que antes achava que tinha feito um bom trabalho, começava a duvidar da adequação do seu figurino à ocasião. Em Caltha, nenhum luxo era excessivo.

Viu uma figura com asas de penas emergindo das costas, uma mulher com um vestido pesado de diamantes, pessoas com grandes máscaras de animais, chifres, flores, grandes capas — maiores que a dele —, lustrosos adereços de cabeça elevando-se a quinze centímetros da altura média da multidão… De certa forma, Sehun estava aliviado por não chamar tanta atenção quanto os outros.

Tinha estudado os convidados em preparação para o baile, então sabia debaixo de que máscaras procurar por seus possíveis algozes.

— Ah, sim, o capitão Jung é um cliente assíduo. — O alfaiate tinha deixado escapar, sedento para exibir suas conexões, quando Sehun foi provar a fantasia mais cedo. — Eu tive o privilégio de confeccionar a fantasia dele e a da esposa para o baile. Ficaram lindas!

— Qual foi a inspiração para as roupas? — Sehun perguntara, como quem não queria nada.

— O Jardim do Éden. — O alfaiate respondera, sem perceber que, indiretamente, havia exposto a identidade dos clientes.

Por isso, depois de alguns minutos de socialização arbitrária, o detetive se aproximou de uma roda de senhores, à primeira vista, inofensivos: um enorme homem com uma máscara preta, um vampiro e um Adão sem a sua Eva. Sehun os cumprimentou com educação, sem dar a entender que os conhecia, mas supondo que falava com, pelo menos, um general, um capitão e um coronel. Só o capitão era o seu suspeito, mas se desse sorte e o homem grande de máscara preta fosse o coronel, seriam dois coelhos numa cajadada só.

— É uma noite agradável. — O vampiro disse, depois de algumas saudações e questões genéricas sobre as fantasias de cada um. Como não podiam perguntar os nomes uns dos outros, já que a graça era o mistério, tinham que tatear no escuro. — Quase recusei o convite porque minha filha estava doente, mas ela se recuperou a tempo do baile, felizmente.

Sehun riscou, mentalmente, a possibilidade de o vampiro ser o General Byun, já que ele não tinha filhas, só filhos.

— A sua fantasia está ótima, entretanto — disse Adão: o capitão Jung. — Não parece ter sido feita às pressas.

— E não foi. — O vampiro riu. — Estava planejada há meses. Eu e o meu alfaiate estávamos esperando pelo baile de veraneio há muito tempo.

Só então é que Sehun se tocou: o vampiro não era um militar, era um cerimonialista — mas não o que planejou o Baile, porque a Corte não confiava nele. Choi H.: ele, sim, tinha uma filha, e uma história longuíssima de desentendimentos educados com o rei. Sehun o admirava, de certa forma, por conseguir alfinetar um homem tão poderoso com tanta classe.

— É notável quanta dedicação vocês aplicaram nela. — Sehun comentou, tentando se manter relevante na conversa, usando o máximo de palavras para comunicar o mínimo de ideias, como um bom calthano. — É bem elaborada.

— Muito obrigado. — Choi H. agradeceu. — A sua me parece peculiar. Num bom sentido, claro.

— Não é nada. — Sehun balançou a cabeça, genuinamente embaraçado. A sua fantasia não era feia, mas não chegava aos pés das fantasias dos outros. — Não me esforcei tanto nela quanto deveria. Acabei perdendo algum tempo de preparação.

— Ah, o trabalho, não? — Choi H. riu. Era uma borboleta social, enquanto Sehun fazia jus à imagem de mariposa. — Eu também me distraio muito facilmente com o trabalho. O que você faz?

Sehun foi pego. Tinha colocado muito foco em si mesmo, e agora seus alvos faziam perguntas difíceis. Obviamente que não poderia dizer que era um detetive, porque isso contaminaria o depoimento dos seus suspeitos, mas também não poderia jogar sua mentira usual sobre ser um jornalista, porque seria quase a mesma coisa que dizer que era um detetive, senão pior. Ainda bem que tinha ensaiado em casa.

— Eu sou contador — respondeu. Simples e efetivo. Ninguém fez mais perguntas.

Não foram necessárias longas horas e demoradas taças de champanhe para que a conversa se encaminhasse para onde Sehun queria que ela fosse, o que foi uma surpresa — mas não deveria ser, dado que era a única coisa em que Serpens falava há uma semana. Tão naturalmente quanto discutir tempo, o homem da máscara preta comentou:

— A morte do bispo ainda não parece real para mim. Foi uma surpresa horrível.

Sehun chegou a pensar que o mascarado cuja fantasia não tinha tema, só luxo, pudesse ser o Major, mas afastou o pensamento. Ele era grande demais e muito novo para ser o Major, mesmo que a voz profunda e ribombante o fizesse lembrar do religioso militar aposentado.

— Que Deus o tenha — disse o capitão Jung, fazendo o sinal da cruz. — Mas, com o perdão da palavra, aquele homem era desprezível. 

— O bispo? — Choi H. falou, abismado pelas palavras do capitão.

— Não diga uma coisa dessas... — O homem de preto recriminou o militar fantasiado de Adão.

— O mundo é justo, senhores. — Capitão Jung enunciou. — Aqui se faz, aqui se paga.

Sehun analisou a fantasia do capitão, praguejando por estar numa situação tão inconveniente. Se não o visse usando as roupas que normalmente usava, não conseguiria inferir se ele usaria a abotoadura perdida. Mas ali, debaixo da fantasia longa, branca, incrustada de pedras em formato de folhas e uma máscara de madeira com o formato do rosto de um homem, o capitão realmente parecia alguém que mandaria forjar uma abotoadura de ouro maciço com o símbolo da infantaria. Entretanto, se Sehun fosse ser sincero, qualquer um pareceria num evento como esse.

— Eu pensava que o bispo era um homem mais bem quisto. — Sehun interferiu, maquinando.

— Nem tanto — respondeu o capitão.

— O bispo era tão respeitável quanto qualquer outro membro do alto clero — retrucou o homem desconhecido. — Meu pai sempre teve muita consideração por ele. — E bebeu um gole da sua bebida.

Os três outros senhores encararam os olhos castanhos por detrás da máscara preta do personagem anônimo com certo desconforto. Por que ele invocaria o pai?

— O seu pai? — Ninguém viu, mas capitão Jung ergueu uma sobrancelha. Parecia ser o único que desconhecia, ou desacreditava, a identidade do pai do convidado àquela altura.

— Você não pode ser o filho do Major — falou o vampiro, ignorando o fato de que referir diretamente a identidade de alguém num baile de máscaras calthano antes da meia-noite era incrivelmente inadequado; estava muito indignado para se dar ao luxo de ser polido. Choi H. fitou a figura alta, envolta em trevas e pedras preciosas, como se fosse pedir para ver os documentos do rapaz no instante seguinte. — Pensei que ele odiasse eventos assim!

— Ele odeia. Eu, não — respondeu o filho do Major. Sehun tentava lembrar o nome dele quando, de repente, uma nova figura surgiu ao seu lado.

Sehun pôs os olhos no homem de fantasia simples e, instantaneamente, sentiu o ar lhe faltar nos pulmões, tanto de surpresa quanto de receio.

A roupa do estranho era linda — não podia ser diferente —, mas a máscara não era suficiente para ocultar a sua identidade; assim, o estranho não era tão estranho. Talvez fosse simplesmente o jeito da realeza: mesmo um baile de máscaras tão exigente acerca do código de vestimenta não seria capaz de fazê-los renunciar ao seu estatuto, afinal, eram eles que estavam dando a festa.

No momento em que disse boa noite, os quatro senhores — o Adão sem Eva, o Vampiro, a Sombra e a Mariposa — curvaram-se diante de sua alteza real,

— O príncipe Jongin. — Choi H. terminou sua reverência elegantemente. — A festa está belíssima. Meus parabéns ao cerimonialista.

— Obrigado. — O príncipe recebeu o elogio como se tivesse sido direcionado a ele. Quando pôs os olhos em Sehun, sorriu. — E obrigado por terem vindo, senhores. Espero que estejam aproveitando a noite. Sobre o que andam conversando?

Sehun perdeu o fio da meada, porque jurou que tinha visto, nos olhos do príncipe, um brilho fugaz de reconhecimento; e não sabia o que seria da sua vida se fosse reconhecido por Jongin naquela festa. Ou até que sabia: sua investigação estaria arruinada, já que não seria capaz de dizer não caso o príncipe o convidasse para dançar.

PARTE II - EU SOU O BRANCO

Esula, o vigésimo dia do quinto mês de 324.

Caro Sehun,

Eu li a sua carta com muita aflição e desalento por saber que não poderia respondê-la à altura. Eu sinto muito que você se sinta assim. Não foi a minha intenção lhe causar isso — e garanto que, se pudesse voltar atrás, faria tudo diferente, tudo para que você não se apaixonasse por mim.

Não digo isso para parecer frio ou arrogante, mas porque compreendo a realidade do nosso mundo, e compreendo que eu, como príncipe de Serpens e filho de Áltica, preciso renunciar a algumas coisas a fim de cumprir o meu papel. Espero que você compreenda isso também.

É com dor infinita que anuncio não poder mais trocar correspondências com você.

Com pesar,

Kim Jongin, de Áltica.

P.S.: Fiquei muito orgulhoso por você ter entrado na Academia. Não é pouca coisa ser aceito assim, tão jovem, numa instituição tão respeitada na Corte. Tenho certeza de que é uma honra para o Departamento Real de Investigação tê-lo como estagiário.

***

Há muitos anos, a Corte Real desenvolveu um programa com o objetivo de promover um encontro entre os seus filhos — os príncipes e a princesa de Serpens — e alguns jovens plebeus da mesma idade, cujo desempenho acadêmico fosse astronômico o suficiente para justificar a sua escolha. Assim, os jornais poderiam escrever sobre como a Corte se preocupava com todos igualmente; como se importavam em promover a educação para que a luz do progresso brilhasse no horizonte do futuro da nação; e, claro, como o país em que viviam era tão bom que até as crianças mais pobres eram dignas de conhecer a realeza.

Foi um passo nunca antes dado — a integração da Coroa com o povo —, a criação de um falso senso de crescimento, de meritocracia; o fortalecimento de um ideal de unidade que, na realidade, não existia dessa forma.

A maior parte dos selecionados foram filhos de ricos ou de nobres, crianças cuja estrutura familiar naturalmente favorecia seu sucesso acadêmico. Ainda assim, alguns plebeus foram escolhidos — o melhor estudante de cada escola pública de Caltha, um ou outro órfão com habilidades inigualáveis ou, apenas, muita sorte. Ficou bonito nas manchetes. Veja até onde se pode chegar com esforço. (Até um incrível passeio pelo Palácio de Áltica com hora de chegada e de saída, pelo visto.)

Sehun foi um dos contemplados pelo programa, e foi o dia mais incrível da sua vida até o momento.

O Palácio de Áltica, onde foi realizado o encontro, era o salão de festas da Corte Real. Muito tempo atrás, fora o lar oficial da realeza, mas Caltha cresceu rápido demais em volta dele e o rei gostava de privacidade, então construíram outro palácio na segunda maior cidade de Serpens — Esula, a vizinha a noroeste de Caltha. 

Ainda assim, não havia lugar mais belo do que o Palácio de Áltica. Tinha mudado de nome muitas vezes, sido demolido e reerguido, remodelado, revigorado e revisitado a cada mudança de dinastia ou, simplesmente, de monarca; tinha se desfeito e refeito junto com o país. Era uma das construções mais belas e antigas de Serpens e, pela primeira vez, Sehun poderia vê-lo por dentro.

O adolescente, que não tinha mais do que quinze anos, havia sido selecionado pelo seu desempenho brilhante na competição nacional de matemática do ano anterior, algo estrondoso para um menino órfão, institucionalizado. Nada — nem sua pobreza, figura desprovida ou ascendência lisimata — foi capaz de impedi-lo de alcançar tamanho feito. Veja como isso não dá uma matéria e tanto!

Estava ali, dentro do Palácio de Áltica, usando roupas que não serviam muito bem nele porque não foram feitas sob medida, mas que eram finas e de qualidade. Estava ali, pondo em prática todas as regras de comportamento e etiqueta que ensaiara durante um mês a fim de não deixar transparecer sua óbvia falta de classe. Estava bem ali, diante de um príncipe, conversando sobre o tempo como se fossem amigos de longa data.

Não importava o que lhe dissessem: aos seus olhos, tinha subido um degrau na escada do poder.

— Na verdade, eu não me importo muito com o inverno — disse o príncipe da coroa, não muito engajado no assunto, mas agindo com educação. Era o mais velho, o primeiro na linha de sucessão, então seu tempo era curto e precioso. Os convidados só teriam aquele breve momento de conversa com o príncipe, na hora do chá da tarde, uma vez que ele tinha outros afazeres. — Acho que é uma estação tão agradável quanto as outras.

— De fato — respondeu a menina ao lado de Sehun, a única que conseguia responder o príncipe herdeiro olhando nos olhos dele. — É uma questão de adaptação. Não vejo por que desgostar de uma estação inteira só por não conseguir se adaptar a ela. A vida é cheia de momentos assim.

Talvez esse tenha sido o primeiro trabalho de Sehun como um detetive, porque tentava juntar as pecinhas daquela interação com todo o cuidado.

O príncipe estava encantado pela moça, mesmo com a sua indisposição por ter que fazer sala para os plebeus. Ela falava bem e tinha confiança; não deveria ser menos do que a filha de um importante comerciante, ou um militar de patente elevada. O príncipe gostava de a ouvir falar — dentre as cinco crianças que formavam um círculo em volta dele, ela era a única menina, a mais velha, mais bonita e mais bem articulada, além de concordar com tudo o que ele dizia.

— Foram todos bem recebidos no palácio? — O príncipe, então, lembrou-se da sua missão diplomática. Desviou os olhos da garota por um instante e olhou para os outros, que prontamente assentiram. — Espero que esse momento fique marcado na vida de vocês tanto quanto na minha. É um momento histórico de confraternização. Espero que se sintam parte da nação de Serpens tanto quanto eu.

— E sentimos. — A menina confirmou. Por um lado, Sehun agradecia por ela estar ali: não sabia se alguma outra pessoa conseguiria segurar uma conversa com o príncipe tão bem quanto ela. Sehun com certeza falharia.

O herdeiro se despediu com uma leve mesura, como se para igualar-se aos súditos, mas as maiores reverências sempre vinham daqueles que o encaravam como seu futuro líder. Ele vai ser o meu rei um dia, Sehun pensava, naquela época, maravilhado.

— Vocês acham que a gente vai poder ver o rei? — Um menino dois anos mais novo que Sehun perguntou ao grupo quando o monarca deu as costas. 

— É provável — respondeu a menina. — Mas não sei se ele vai falar com a gente.

— Vamos voltar lá pra dentro. — Um rapaz sugeriu. — O dia está quase acabando.

No salão principal, os cinco convidados voltaram a se sentar com os filhos da Coroa. Era o segundo dia de confraternização — ao todo, cerca de trinta crianças visitaram o palácio num espaço de tempo de seis dias —, e todas puderam conhecer bem os príncipes e a princesa.

A princesa Hyesoo, a segunda a nascer, apreciava conversas intelectuais sobre música e literatura, tal qual o irmão mais velho e príncipe herdeiro Kiheon. O terceiro, Jongin, era o príncipe da idade de Sehun que, sem muitas chances de se tornar rei, mas sem o luxo de poder viver livremente, treinava para lutar numa guerra — qualquer uma que aparecesse.

Ele era, também, o que mais falava com os convidados. Até aquela época, era o mais novo, então tinha alguns privilégios. Fingiu ser o guia para o grupo de Sehun, mostrou suas partes favoritas do jardim como se apresentasse uma galeria de arte. Fez alguns dos mais novos rirem com piadas bobas. Quis se mostrar amigável e, de certa forma, tinha conseguido.

— Então, conheceram o meu irmão querido? — Jongin quis saber, num tom dolorosamente coloquial que Sehun adorou. A irmã já tinha desistido de aplicar-lhe algumas cotoveladas corretivas.

— Sim, Vossa Alteza. — A menina mais velha do grupo tinha respondido, tentando manter alguma classe.

— É uma pena. — O príncipe respondeu. — Sinto muito por isso. Espero que vocês se recuperem bem do trauma.

Sehun, então, riu, porque obviamente era uma piada, mas todos estavam em silêncio. Ergueu a cabeça e pegou o príncipe olhando para ele com uma expressão neutra que o deixou apavorado. Estava prestes a pedir desculpas copiosamente quando Jongin deixou cair a máscara e riu também.

— Viu, só? Isso é que é senso de humor! Vocês podiam aprender com o Sehun.

Não falaram mais nada — ninguém comentou o ocorrido —, mas Sehun guardou com carinho a lembrança. Afinal, o príncipe tinha lembrado o seu nome e isso, para ele, era a coisa mais incrível que já lhe tinha acontecido aos quinze anos. 

***

Cinco anos mais tarde, Sehun receberia a última carta de Jongin. Ela seria longa, mas vazia; limpa, mas encardida de mentiras; maldita, encharcada por uma aura insuportável de falsidade e fraqueza. Era o caso de investigação em que o então aspirante a detetive nunca aceitaria trabalhar, por temer o que pudesse encontrar por detrás dela.

Mas, antes disso — antes da decepção e da última carta —, veio algo muito mais simples: a primeira carta.

***

 

O orfanato não recebia muita correspondência comum, quem dirá correspondência real. Quando a carta carimbada com o selo do besouro e endereçada a um dos rapazes órfãos chegou ao edifício, o burburinho foi grande. 

Legalmente, a única pessoa que poderia abrir uma carta real era a pessoa marcada como destinatária, mesmo que fosse menor de idade. Por isso, Sehun foi chamado à sala da direção para se explicar quanto à sua correspondência.

— Eu não sei o que tem na carta — falou, se esforçando para não completar a frase que tinha em mente. Como é óbvio, uma vez que eu não li ainda.

— E por que um príncipe o enviaria algo? — perguntou a diretora.

— Eu não sei — porque não li a carta.

— Tem alguma ideia de como o Príncipe Jongin chegou até você?

Sehun desviou o olhar por um momento, buscando uma âncora. Respirou fundo.

Nem sempre as pessoas queriam saber aquilo que elas estavam perguntando. Para um adolescente, era fácil se irritar com um adulto. Oras, a resposta é óbvia: ele é um príncipe! Ele faz o que quiser! Mas Sehun tinha um interesse inato pela dissecação de qualquer coisa, viva ou subjetiva, real ou abstrata. O que a diretora realmente queria saber?

Ela tinha os olhos grandes, escuros, analíticos. Era paciente, então Sehun também tinha que ser. 

— Bem… eu estive no Palácio de Áltica para o programa da juventude no verão passado.

— Ah… — Ela ergueu as sobrancelhas e se encostou na cadeira, como se tivesse chegado ao ponto. — Me perdoe por ter deixado isso passar. Sim, eu me lembro. O que acha que pode ter motivado o príncipe a fazer contato agora?

Ele pensou. Era difícil tentar investigar uma pessoa que o estava investigando.

— Talvez seja só uma cortesia — respondeu, mesmo que não tivesse muita confiança nessa hipótese. Crescer é entender que a resposta certa a se dar numa conversa, nem sempre, é a verdade. — Como… um agradecimento pelo tempo passado no palácio. Uma memória, talvez. Acho que hoje faz dois meses redondos. Talvez seja isso.

A diretora assentiu. Ela não podia tirar mais nada disso sem parecer suspeita. Sehun era um adolescente, não mais uma criança, e ela sabia disso.

— Aqui vai — falou, entregando o envelope nas mãos do menino. — Desculpe o incômodo.

E Sehun pôde sair da sala, carregando a carta de Jongin, sentindo o papel ficar cada vez mais pesado enquanto ia em direção ao seu quarto. Não via a hora de quebrar o selo e ler o que tinha lá dentro.

Quer vir tomar chá na minha casa? Vou mandar uma carruagem te buscar. Se quiser, é só entrar.

Jongin não era dos mais prolixos.

***

 

Sehun estava um pouco desconfortável dentro da sua roupa.

Nunca teria previsto que precisaria se arrumar para encontrar um príncipe, ainda mais dessa forma tão indiscreta; todos no orfanato sabiam, e não demoraria muito até que os jornais também soubessem.

O que deveria usar? Não tinha nada melhor que as roupas que lhe deram. O que podia fazer era escovar o cabelo, coisa que raramente fazia. (O que será que os jornais falariam sobre isso? Rapaz carente ajudado por monarca serpano, ou algo do gênero.)

A viagem de carruagem foi demorada, já que dessa vez Sehun estava sendo levado não para o Palácio de Áltica, mas para o Castelo de Esula.

Esula era uma cidade estonteante. Era mais jovem que Caltha, mas a sua aparência clássica fazia com que isso parecesse mentira. Era também levemente mais alta, então a viagem era feita numa certa inclinação, sempre subindo, fazendo com que o seu estômago estivesse sempre meio pra baixo, meio tristonho.

O castelo, contudo, para a sorte de Sehun, ficava na parte de Esula mais próxima de Caltha: uma região abastada, enriquecida, mas não tão distante quanto poderia ser.

Foi recebido por criados, então levado imediatamente para o jardim, onde Jongin o esperava.

— Ah, você veio mesmo — comentou. Sehun fez que sim e cumprimentou o príncipe com uma mesura. Havia aceitado o convite por puro deslumbramento; não tinha considerado as razões que levariam Jongin a convidá-lo para o castelo, então não soube o que dizer por um momento. — Quer jogar xadrez?

Sehun pensou não ter ouvido direito.

— Como?

— Xadrez. Você sabe jogar?

— Sei, óbvio — respondeu, ainda encabulado com a proposta. Quando reparou que talvez pudesse ter soado muito ríspido, quis se dar um tapa, mas já era tarde.

— Então, quer jogar ou prefere outra coisa?

Jongin o olhava com simplicidade, o que provocava no rapaz um sentimento de desconexão. Jongin era irreverente demais, e isso complicava as coisas para Sehun, que, pensando como um detetive antes mesmo de se tornar um, queria procurar uma razão racional para cada pequeno acontecimento daquela interação. Não era possível que o príncipe tivesse enviado uma carruagem até Caltha só para buscar alguém com quem ele pudesse jogar xadrez.

— Pode ser. — Sehun acabou concordando. — Eu sou o branco.

***

— Por que me chamou aqui? — Sehun perguntou, mais à vontade, já na segunda ou terceira rodada.

— Porque pensei que você fosse vir — respondeu o príncipe. Sehun achou que foi uma razão esquisita.

— Só por isso?

— Bem, eu queria alguém com quem jogar. 

— Ah… — Fez uma pausa para analisar o jogo e a conversa. Moveu a torre. — E o que você iria fazer se eu tivesse dito não?

— Ia mandar uma carta para outra pessoa, claro. — Jongin abriu um sorriso serelepe, mas Sehun não achou graça. Tratou de fechar o sorriso, então. — Eu estava brincando. Se você não viesse, eu ia fazer o que eu sempre faço. — E deu de ombros. — Ficar sozinho. Não é difícil quando a sua casa é tão grande.

O príncipe fez a sua jogada — xeque —, então sorriu outra vez. Para alguém que alegava não ter com quem jogar, ele era bom demais naquilo.

— Os seus irmãos não te fazem companhia? — Sehun disse enquanto pensava numa forma de salvar seu rei.

— Eu mal vejo meus irmãos. Eles têm ocupações mais importantes que as minhas.

— Achei que você fosse o filho que iria para o exército.

O príncipe deu de ombros.

— Pode ser. — Então venceu o jogo. — Quer fazer outra coisa?

***

Esula, o oitavo dia do terceiro mês de 321.

Caro Sehun,

Eu escrevi essa carta direito dessa vez pra você não ficar triste. (Sehun riu ao ler essa parte, porque podia ouvir perfeitamente a voz despreocupada do príncipe na sua cabeça.) Desculpe pela minha imensa falta de decoro. Eu gostei da sua companhia ontem; você joga xadrez bem demais. Odiei perder pra você. (Ele havia perdido apenas uma vez, em quatro rodadas.) Quer fazer isso de novo?

Jongin.

*

Caltha, o nono dia do terceiro mês de 321.

Vossa Alteza Real, o Príncipe de Áltica, o terceiro na linha de sucessão do trono de Serpens, e caro amigo Jongin,

Tudo bem. Semana que vem?

Até a próxima vez em que eu ganhar de você,

Sehun.

***

Durante a semana seguinte, os jornais comentavam: O adorável Príncipe Jongin de Áltica e sua amizade com um menino de orfanato.

***

Eles se tornaram amigos, de fato, com muita facilidade.

Sehun descobriu os benefícios de ser próximo da família real muito rapidamente: podia ter roupas melhores, comer coisas que nunca experimentaria em outras circunstâncias, ler livros importados… Também se impressionava facilmente com qualquer coisa dourada, brilhante, ou apenas decente; qualquer artefato, costume ou situação que não fizesse parte da vida de um plebeu. Sehun amava a corte.

A irmã mais velha de Jongin não chegava a ter opiniões sobre a amizade do irmão com o órfão, mas o príncipe da coroa não gostava de Sehun nos arredores. Geralmente, isso não era um problema — Kiheon estava sempre em aulas, reuniões, treinamentos, conferências, e Sehun e Jongin estavam sempre nos jardins, jogando xadrez, passeando na estufa, e até caçando juntos. 

— A sua mãe está mesmo grávida? — Sehun se lembra de ter perguntado, numa tarde morosa, cinza, invernal. Ele lia um livro, ou fingia ler, enquanto Jongin contava os malmequeres de uma margarida deitado em seu colo.

Tinham escalado uma trepadeira nos fundos do castelo e subido até uma sacada, sem abertura para o interior, onde sabiam que não seriam incomodados. O vento frio os abraçava, então eles se abraçavam, tentando manter uma temperatura melhor. O silêncio que ficava quando não estavam conversando era quase reconfortante.

Ali, à sombra da torre, estavam abrigados dos olhares de terceiros e dos ouvidos das paredes.

— Sim. — Jongin respondeu quando terminou de depenar a flor. Bufou e pôs uma mão no rosto: tinha dado mal-me-quer.

— Isso é bom, não é? 

— É, é bom sim. — Jongin deu de ombros.

— Por que você está desse jeito, então?

O príncipe ficou em silêncio. Sehun tirou os olhos do livro e pegou Jongin olhando para ele, fixamente, como se não conseguisse fazer outra coisa; enfeitiçado e fadado a ficar naquela posição para sempre. Jongin suspirou de frustração.

— É porque deu mal-me-quer? — Sehun disse, rindo. — Pelo amor de Deus, príncipe. Achei que você tivesse mais confiança em si mesmo.

Jongin deu um sorriso pequeno, então se sentou, pôs o rosto de Sehun entre suas duas mãos e, carinhosamente, o beijou nos lábios.

***

Ammak, o trigésimo dia do sétimo mês de 322.

Caríssimo Sehun,

Sem você, as noites são claras, os doces são salgados e a água é seca aqui em Ammak, esse lugar longínquo e frio. Tão frio. Tão, tão frio. Tão frio que acabo por pensar que a causa da minha solidão é o frio, não a sua ausência; afinal, sem você eu ainda respiro. Com o frio, também, mas dói um pouco se eu ficar tempo demais do lado de fora.

Hipérboles à parte, essa viagem é a pior coisa que eu já fiz. Mas é um mal necessário; pelo menos é o que o meu pai diz. Precisamos reconstruir nossos laços democráticos com a Lisimáquia, nossa querida vizinha, até porque não podemos roubar todos os seus recursos se estivermos brigados. (Talvez tenha sido uma piada fora de hora, desculpe. Eu sei que você nasceu na Lisimáquia. Vou te levar alguma coisa lisimata de presente, o que você prefere: uma manta ou uma caixa de chocolates? Não responde. Vou levar os dois.)

Eu sinto que estou escrevendo demais, e que você não vai ler nem a metade das minhas palavras, mas a caneta me distrai um pouco da sensação constante de que os meus membros vão se desprender do meu tronco. Em algum momento, posso acabar a carta abruptamente porque a minha mão vai ter caído com o frio. Então não se assuste se a carta não estiver

***

Quando o rei e o segundo filho mais novo retornaram ao Castelo de Esula, a rainha já tinha dado à luz ao seu quarto bebê. O pequeno Minsoo tinha vindo ao mundo dois meses antes do que deveria. Durante longas semanas, a rainha e as suas criadas se dedicaram à tarefa de tentar mantê-lo vivo.

O menino, desde o nascimento, aparentava certa fragilidade; como se um movimento mal calculado pudesse matá-lo. Jongin nunca tinha visto uma criança tão pequena na vida.

— Ele vai ficar bem. — Sehun tentou soar positivo, mas não tinha tanta prática, então acabou soando como se estivesse tentando mudar de assunto. Limpou a garganta e olhou para Jongin, que encarava o horizonte. De pé, em frente ao lago do jardim do Castelo de Esula, ficaram em silêncio por um segundo. — Eu não faço ideia de como você está se sentindo, mas eu espero que melhore.

Jongin abriu um sorriso pequeno e olhou para os pés, o sol cutucando suas feições jovens e o fazendo espremer os olhos para fitar Sehun.

— Obrigado — falou. — Por estar aqui comigo.

***

Caltha, o quinto dia do nono mês de 323.

Jongin,

Acho que acabei esquecendo de dizer o quanto eu gostei dos presentes quando nos falamos ontem. Não imaginei que você fosse lembrar de mim a ponto de me dar algo, mas acho que, no fim das contas, você não é um mentiroso. Aparentemente, príncipes realmente conseguem falar a verdade…

Obrigado pelo relógio de bolso; nunca mais vou perder a hora agora, o que é uma pena. Amava me atrasar. E também pela manta tradicional, ela é linda, e pesada. É bom ter alguma coisa lisimata no meu quarto que não seja eu.

Eu nunca seria capaz de falar sobre isso em voz alta, mas ainda queria que soubesse. Lisimatas e serpanos não são muito diferentes em aparência, mas, de alguma forma, eu sinto como se o meu não-pertencimento fosse gritante. Era pior quando a minha mãe ainda era viva e eu precisava falar o nosso dialeto com ela. Agora, posso fingir que nasci aqui, e nada no mundo é tão dilacerante quanto uma mentira assim.

Nunca serei capaz de agradecer a Serpens o suficiente pela hospitalidade, mas nunca serei capaz de esquecer a minha primeira casa também. E poder finalmente ter algo que eu reconheço desde a primeira infância é libertador. É como me vestir de nostalgia. Obrigado.

Como é a Lisimáquia? Ela é tão linda quanto eu me lembro?

Até mais,

Sehun.

*

Esula, o sexto dia do nono mês de 323

Sehun,

A Lisimáquia é um encanto. Deveríamos visitá-la um dia, eu e você.

Até,

Sua  Alteza, Jongin.

PARTE III - SÍNODO DOS BISPOS

Sehun e Minseok chegaram à cena do crime o mais rápido possível.

A Igreja da Conceição era a maior do país, localizada na bela Esula. Das duas torres que tinha, apenas a oeste abrigava um sino, escondido no topo da extensa escada espiralada que cortava a torre oeste no meio.

E, na base dessa mesma escadaria, o bispo estava estirado no chão, morto.

— Meu Deus… — Minseok lamentou num sussurro, se benzendo em nome do pai, do filho e do espírito santo. O parceiro de Sehun era um religioso não muito assíduo, mas bastante sério; era mais velho e mais experiente e esteve com o rapaz desde o seu primeiro dia. No ano anterior, o havia supervisionado no caso do desaparecimento da filha do Conde. — Quem mata um bispo? — O detetive moveu a cabeça do cadáver para ver o rosto do clérigo mais claramente, arrependendo-se no segundo seguinte. Não há nada tão perturbador quanto o rosto sem vida de um homem de Deus. — Ave Maria!

— Não pode ter sido só um acidente, chefe? — Sehun perguntou, observando o corpo com cuidado. Às vezes, assumimos coisas antes mesmo de analisar todas as possibilidades. É bom se certificar.

— Não. — Minseok respondeu, tirando do bolso um lenço e tocando outra vez no homem morto. Expondo o pescoço do bispo, as marcas de estrangulamento apareceram. — Os moradores da região disseram ter ouvido o sino tocar fora de hora. O pároco veio ver o que tinha acontecido e encontrou isso. Por que acha que a gente veio até aqui?

Sehun olhou para o chão, meio envergonhado. Minseok riu da cara dele, passou por cima do bispo e subiu um degrau da escada.

— Vem — chamou Minseok. — Vamos ver como estão as coisas lá em cima.

Sehun, que nunca se acostumaria a trabalhar com o colega, o seguiu pacientemente. Pulou o bispo e galgou as infinitas escadas até o topo da torre.

Mal sabia ele que, no dia seguinte, o seu parceiro também apareceria morto — esticado no sofá com uma mão no peito, os olhos ainda abertos e o corpo ainda quente, encarando o teto sem vida da sua casa vazia. Sehun só teria um dia de luto para se recuperar da perda antes de voltar para o caso do bispo, sozinho. As peças, então, se moveriam quase que por conta própria pelo tabuleiro.

No topo da torre, o sino parecia em perfeito estado e, sendo sincero, apenas um olho treinado poderia ver o lugar como uma cena de crime. As paredes de pedra não diziam muito, mas o chão estava empoeirado o bastante para deixar à mostra os sinais de uma briga. A bíblia de bolso do bispo estava no chão, destroçada, e uma coisa brilhante refletia a luz do início da manhã.

— Isso não é do bispo — falou o detetive mais velho, se agachando para examinar a coisa brilhante.

Sehun olhou para onde ele olhava e, sem hesitar, pegou a abotoadura de ouro nas mãos. Duas espadas cruzadas, uma coroa de louros — a resposta para o enigma, Sehun tinha certeza. Minseok tomou a abotoadura do colega e a encarou cuidadosamente, mas com o símbolo de cabeça para baixo. Sehun não entendia a linha de raciocínio dele na maior parte do tempo, mas sabia que ele era bom.

Minseok, então, engoliu em seco, apreensivo, como se reconhecesse o símbolo, mas não lembrasse de onde.

— Ele foi assassinado mesmo — diagnosticou. — Eu não tenho a mínima dúvida disso.

Recolheram depoimentos nas redondezas depois da inspeção da cena do crime. Um rapaz esguio e assustado, o diácono que encontrara o corpo do bispo e chamara as autoridades, confirmou ter ouvido o sino num horário peculiar.

— Bem, quem toca o sino sou eu… — explicou, enquanto Sehun anotava tudo. — Então imagine a minha cara quando eu ouvi uma badalada, assim, do nada. Uma só. Fiquei até com medo de ir ver, mas quando eu cheguei aqui… ele já estava assim.

O diácono foi considerado suspeito por algum tempo, mas foi posto de lado por não ser forte o suficiente para derrubar o bispo, que era velho, mas não era pequeno. Além disso, a abotoadura não dizia seu nome.

— Eu vi alguém chegar a cavalo, ainda de madrugada. — Uma senhora que morava nas redondezas contou a Minseok. — Achei que fosse o pároco, ou o menino que toca o sino. Eu tinha acabado de acordar e ouvi o cavalo passando, então fui ver.

— …depois disso eu só ouvi o sino tocando — disse um morador de rua a Sehun.

— E depois que o sino tocou, o cavalo não passou outra vez? — Sehun quis saber. O morador de rua fez que não com a cabeça.

Não era possível que o assassino tivesse desaparecido. Ele não tinha entrado despercebido, então como foi que saiu sem ser visto?

Um cavalo foi encontrado nas proximidades, pastando tranquilamente, usando uma cela simples demais para pertencer à mesma pessoa que deixara a abotoadura de ouro na cena do crime. De fato, o cavalo não era do assassino; ele tinha sido roubado de um estábulo improvisado nas dependências de um bar da região. O dono estava bêbado demais para notar o sumiço do seu bicho antes da fofoca sobre a morte do bispo se espalhar pela cidade.

— Você tem algum palpite? — perguntou Sehun ao seu parceiro, na viagem de volta à Caltha, depois de falar extensivamente sobre suas hipóteses, relacionando o crime ao sínodo do dia anterior.

— Eu tenho uma ideia. — Minseok tinha respondido. — Vou falar com um amigo.

— Que amigo?

Minseok não respondeu imediatamente; apenas sorriu. Então, como se tivesse uma chama no olhar — a certeza de que sabia exatamente o que fazer —, respondeu:

— Eu também tenho amigos na realeza, detetive.

***

A causa da morte foi dada como natural. Minseok tinha morrido como o avô, de parada cardíaca, então não havia razões para Sehun acreditar que ele tinha sido, como o bispo, assassinado. Mas a sua cabeça de detetive não o deixava pensar; só sabia investigar, ainda que não tivesse nada nas mãos para analisar. Estava fadado ao exagero da minúcia inútil.

O velório foi longo e frio. Sehun viu os familiares do antigo parceiro vindo de longe para desejar adeus ao filho, irmão, primo, tio… Àquela altura, o bispo já estava morto há três dias. A investigação esfriava com o cadáver do seu amigo, mas Sehun não estava necessariamente preocupado. Para ele, era óbvio que o assassino havia estado no sínodo.

— Eu sinto muito — Kyungsoo o cumprimentou com um abraço inadequado para a ocasião, mas necessário. — Eu sei que você admirava muito ele. Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo.

Sehun só lembrava de agradecer, ir para casa e dormir por dez horas. Quando acordou, no outro dia, foi visitar o jornalista e perguntar pela lista completa dos presentes no sínodo que o jornal não havia publicado, mas que com certeza tinha.

— O bispo era a maior autoridade religiosa na reunião, sim, se não me engano. — Kyungsoo havia explicado. — Dificilmente se encontra uma autoridade religiosa maior que um bispo em Serpens, já que não somos um país tão grande. Devemos ter três ou quatro arcebispos, que tecnicamente seriam superiores ao bispo, e uma dezena de bispos… mas eu não sou um especialista da Igreja, você sabe.

— Eu sei. — Sehun tinha respondido. Kyungsoo, incerto de como reagir frente ao amigo enlutado, tentou não fazer piada com a situação. — Você não precisa ter pena de mim, Kyungsoo. 

— Não é pena, eu só estou tentando ter alguma consideração por você, seu idiota. Não precisa ficar na defensiva.

Sehun suspirou.

— Desculpa. Talvez…

Quando perdeu as palavras, Kyungsoo foi ao seu resgate:

— …talvez você precise de um descanso. Sim, eu concordo. Você deveria recusar esse caso.

— Agora já é tarde demais. Se o Departamento quis me dar… eu não posso recusar. Mesmo achando que eu não seja a melhor escolha.

Kyungsoo ficou em silêncio, acariciando uma folha de papel rabiscada com as suas ideias para uma nova coluna no Diário Real, contemplando a bagunça da sua mesa de trabalho.

— Ah! — O jornalista disse, lembrando-se de algo. — Não sei se é verdade, mas, aparentemente, a diocese estava se preparando para o sínodo dos bispos. Se isso for verdade, talvez seja a justificativa perfeita para o sínodo da noite anterior ao assassinato do bispo; ele convocou a reunião para se preparar para essa outra, que é mais importante.

— Um sínodo só de bispos? — Sehun adivinhou, sem realmente visualizar o que aquilo significava realmente.

— É. — Kyungsoo confirmou. — É uma reunião episcopal que pode ou não ter a presença do papa, mas a Igreja não faz uma dessas há eras. Faria sentido toda essa preparação, caso o sínodo dos bispos realmente estivesse para acontecer, mas ninguém que esteve no sínodo quis dizer o que foi discutido. Sabe quando você faz uma pergunta, e respondem com outra coisa completamente irrelevante para a pergunta? — A pergunta foi retórica, porque Kyungsoo sabia que Sehun tinha plena noção de como era. — Era pra ter saído um artigo no jornal sobre o sínodo, mas agora só querem que a gente fale do assassinato…

Kyungsoo continuou falando, mas Sehun não ouviu mais nada.

***

O baile de máscaras seria, talvez, a única oportunidade que Sehun teria para falar com os suspeitos de forma tão direta e não-oficial — recolher deles um depoimento o mais puro e livre de constrangimentos possível. Se achassem que estavam apenas conversando com um contador numa festa da realeza, não se preocupariam em não parecer culpados.

E ele estava fazendo progresso até o príncipe aparecer.

Jongin conversava como de costume — atenciosa e alegremente, entretendo os convidados com o seu charme —, enquanto Sehun suava frio, temendo ser reconhecido; por isso, evitou abrir a boca, o que o pôs em desvantagem quanto a sua investigação.

Não sabia o que aconteceria — provavelmente nada —, mas a possibilidade de Jongin olhar em seus olhos e ver Sehun, o rapaz com quem tinha cortado relações há muito tempo, assombrava o detetive. Já não era o mesmo Sehun de antes; não era o mesmo adolescente cativado pelos luxos e privilégios da corte, as riquezas, o poder. Não era mais o mesmo menino que ansiava pelo reconhecimento de um superior, pelo dia em que seria visto como um igual. Sehun entendia melhor o mundo em que vivia, e talvez isso fosse o motivo pelo qual aquela interação o deixou tão horrorizado.

— Eu peço desculpas pela minha fantasia. — O príncipe falou, modesto. Sua máscara poderia não cobrir o rosto todo, e suas roupas poderiam claramente não ter tema, mas ainda parecia inapropriado se desculpar por uma fantasia tão bela. — Qual o tema da de vocês?

— Eu sou um vampiro — Choi H. foi o primeiro a explicar. — Não é um tema muito original, mas o meu intuito foi inovar de outras formas.

De fato, a produção do cerimonialista não poderia ser fielmente descrita em palavras, apenas apreciada ao vivo. Quanto ao tema, Sehun tinha a impressão de que havia sido de propósito.

— O rei claramente vai amar a sua fantasia de vampiro. — Jongin pontuou, fazendo todos rirem, já que era de conhecimento geral que o rei era um homem muito religioso e extremamente firme quanto às coisas que achava adequadas e as coisas que achava serem “do demônio”. — E a sua? — O príncipe se dirigiu ao filho do Major, vestido de preto dos pés à cabeça. — Não sei se sou capaz de identificar…

— Eu sou o espírito maligno de Lúcifer — respondeu o homem alto e forte. Ele recebeu alguns olhares inseguros, mas pareceu não notar. Nem Jongin foi capaz de fazer uma gracinha com aquilo.

— Bem, é uma grande interpretação para uma roupa tão básica. — Choi H. alfinetou.

— Eu sou Adão. — O capitão Jung interferiu, antes que o filho do Major respondesse à provocação e a conversa ficasse desagradável. — Como em Adão e Eva.

— Por acaso, acho que captei a ideia da sua fantasia. Está muito bem-feita — elogiou o príncipe. Sehun podia jurar que o capitão tinha ficado de bochechas vermelhas, mesmo não podendo vê-lo por trás da máscara de madeira. — E a sua? — Jongin virou-se para Sehun, que congelou. Esquecera-se completamente de que também era um participante da conversa, não um mero observador impessoal e invisível. Engoliu em seco.

— Apenas uma mariposa — respondeu, tentando ser breve sem parecer rude.

Jongin o reconheceu imediatamente. A voz de Sehun era tão característica quanto o seu rosto, e o príncipe estaria mentindo se dissesse que não seria capaz de identificá-lo num piscar de olhos. 

— A sua fantasia é uma das melhores da noite. — Como um bom membro da realeza, Jongin agiu como se nada tivesse acontecido, mas Sehun ainda podia sentir a ternura das suas palavras; a diferenciação na cadência de cada sílaba, o modo como cada letra parecia durar mais no ar e ter um gosto mais adocicado. Sehun sentiu o peso da saudade em seus ombros.

— Obrigado, Alteza. — Ele fez uma mesura. — É uma honra.

Choi H. limpou a garganta, deixando o clima ainda mais desconfortável. O príncipe achou que fosse uma ótima deixa para ir embora.

— Bem, se me derem licença, senhores. — Jongin se despediu. — Vou cumprimentar os outros convidados. Aproveitem.

Os quatro fizeram uma breve reverência para o monarca.

— Acho que vou procurar pela minha Eva — falou o capitão.

— Também vou me dispersar. Até mais tarde, senhores — Choi H. imitou.

Sehun e o filho do Major sobraram. Eles se encararam, meio desajeitados. Para a sua surpresa, foi Sehun quem anunciou sua saída primeiro. Não estava com vontade de interrogar o homem, quanto mais de passar algum tempo conversando com ele.

Ficou sozinho por quase uma hora, desmotivado a prosseguir com a investigação. Começava a considerar escrever um relatório para o Departamento argumentando que, no fim das contas, o bispo havia morrido num acidente — era um homem velho, e todos sabemos os limites do corpo e da mente humanas a partir de determinada idade…

Já planejava como justificaria, ou como se livraria, da abotoadura: poderia inventar mil mentiras, desculpas, acidentes. Isso faria dele um péssimo detetive, claro, mas Sehun gostava de imaginar como seria a vida se não estivesse tentando ser bom o tempo todo. Com muita frequência, encontrava situações em que pessoas ruins se saíam muito melhor do que pessoas boas. Talvez devesse tentar ser mau.

Deveria roubar a prataria da festa, propagar mentiras entre os convidados, acusar um suspeito qualquer sem provas significativas. Depois, ir para casa, dormir um dia inteiro e tirar férias permanentes. Voltar para a Lisimáquia com um nome diferente, viver uma vida sem legado, mas sem preocupações. Começava a achar que…

— Bebeu demais? — Uma voz sussurrou, muito perto do seu ouvido. Sehun girou os calcanhares, sobressaltado, e encarou a familiar figura do príncipe. Não podia dizer que estava surpreso. — Quer jogar alguma coisa?

***

Caltha, o terceiro dia do quinto mês de 324.

Jongin,

Acho que te amo. Não como um amigo, não como um irmão… você entendeu. Não é novidade.

Espero que isso não seja algo idiota de se dizer a esse ponto. Eu te amo e não consigo me importar com outra coisa. Eu sei que nós não fomos feitos um para o outro — eu sou a pessoa que mais entende isso, você sabe —, mas eu não consigo me sentir mal por te amar. Sinto sua falta. Eu sei que você anda ocupado, então quis te escrever para não deixar você se esquecer de mim (mas eu sei que você não vai, você nunca me esquece).

Até a próxima,

Sehun.

P.S.: Eu entrei na Academia.

***

O príncipe foi na frente; Sehun foi logo depois, deixando o espaço entre os dois se alargar de modo a não parecer que o estava seguindo, mas também não o perder de vista. O palácio era grande e cheio de ramificações, assim, poderiam sair da festa por uma via escondida, sem serem notados.

Quando deu por si, Sehun estava tirando a máscara de mariposa, deixando os poros respirarem, encarando um longo corredor frio, vazio, com pinturas dos monarcas nas paredes. 

— Quanto tempo... — Foi o que escolheu dizer. Jongin deu um sorriso meio torto de quem sabia que tinha feito algo errado, então tirou a sua máscara também. — Ah, esse é o seu irmão menor? O bebê?

Sehun apontava para a rainha que, na pintura, segurava uma criança no colo, sentada num trono majestoso, rodeada pelos filhos. Olhando para o Jongin da pintura, o detetive sentia um reconhecimento muito maior — conhecia aquele garoto, não esse homem que estava ao seu lado, em carne e osso. Se tivesse trazido uma pintura sua no bolso do colete, talvez Jongin sentisse o mesmo acerca de Sehun.

— Sim. — O príncipe respondeu, com um sorriso genuíno no rosto. — Meu irmão mais novo. Mas ele não é mais desse tamanho. Ele cresceu bastante. Queria que você tivesse conhecido ele, mas…

Quando Jongin parou de falar e desviou o olhar, Sehun quase quis rir.

— Mas as coisas acontecem, não? — O detetive falou, como se não estivesse chateado. Como se nada de anormal tivesse acontecido. Como se não tivesse tido o coração despedaçado. — A vida dá muitas voltas.

Jongin olhou para a máscara que, alguns minutos atrás, adornava seu rosto. Tocou as pedras e o tecido fino, como se pensasse no que dizer, ou como se esperasse a nuvem de sentimentos ruins passar. Como se contemplasse o que tinha feito.

Olhou para Sehun por um segundo — um Sehun que ele não conhecia —, e se pôs a andar num passo vagaroso pelos corredores do Palácio de Áltica com o detetive ao seu lado.

— O rei e a rainha não gostam que Minsoo receba visitas — explicou. — Ele não é como as outras crianças.

— Ele é atrasado? — Sehun perguntou, com curiosidade genuína, mas acabou sendo rude e inconsiderado, usando uma linguagem bruta, ríspida, áspera. Limpou a garganta como se, com isso, pudesse lavar as suas palavras de todo o peso amoral que continham. Se fosse alguns anos atrás, Sehun pensou, Jongin entenderia que eu não disse isso por mal… porque o passado é sempre mais doce quando o presente é tão amargo. — Quero dizer…

— Ele é diferente, mas ainda é um príncipe. — Jongin respondeu, firme. Então pareceu relaxar, lembrando-se de que não precisava estar em alerta o tempo todo. — Ninguém leva ele a sério, então eu preciso defendê-lo muitas vezes. Ele é um menino incrível. Você tem mesmo que vir conhecê-lo…

Sehun sorriu.

— Ele tem sorte de ter um irmão que se importa com ele tanto assim.

Jongin assentiu com alguma tristeza, mas mudou logo de assunto para que o silêncio não perdurasse.

— Como é a vida no Departamento de Investigação Real? 

— Departamento Real de Investigação. — Sehun corrigiu, com um sorriso, recuperando alguma vivacidade. — Idiota. E é uma vida boa, sim.

Jongin não conseguiu segurar a gargalhada.

— Desculpa, é que eu fico meio nervoso…

— Como vai a vida de príncipe? — Sehun devolveu a pergunta.

— Ótima, como sempre. Eu sou menos inútil agora.

— Eu fiquei sabendo que você é um sargento agora. — Sehun suspirou. — Resolveu mesmo entrar no exército e começar do começo, como um soldado…

— Louvável, não?

— Muito pouco. — Sehun sorriu, então pensou se não poderia usar a situação a seu favor. Já que não sabia se Jongin queria mesmo se reaproximar ou se só buscava alguém conhecido que o entretivesse por um segundo, seria bom garantir que levaria alguma coisa da ocasião. — Por acaso você tem algum contato privilegiado com alguns homens do exército, senhor príncipe?

— Ah, infelizmente não. — Jongin balançou a cabeça para os lados. — Eu não tenho contato absolutamente nenhum com ninguém importante. Do que você precisa saber?

— Entre o Major, o capitão Jung, o filho do general Byun e a filha do Coronel, quem você acha que teria mais motivos para matar o bispo?

Jongin ficou em silêncio por um segundo, pensando.

— Você está investigando a morte do bispo? Então realmente acham que foi um assassinato?

— Você não lê jornal?

— Sinceramente? Não. — O príncipe riu, e logo voltou a ficar sério. — Mas não pensei que estivessem falando sério. Eu entendo como o bispo teria inimigos, já que ele não era dos mais agradáveis, mas não sei como alguém o mataria… por que esses quatro, em específico?

— São as pessoas com ligações no exército que estavam presentes no sínodo.

— Acha que o assassino estava no sínodo?

— Acho que o assassino estava em Esula. — Sehun deu de ombros. Não queria falar demais. — Mas, sim, eu estou investigando os que estiveram no sínodo. Acredito que foi uma reunião importante.

— Faz sentido. — Jongin concordou. — Mas não sei se tenho alguma informação útil. Só o que eu sei é que o bispo nunca disse nada de bom sobre ninguém, então a sua lista de suspeitos com certeza poderia ser maior.

O príncipe parou na frente de uma porta que não deveria dar num quarto muito sofisticado, não no nível de um monarca. O esconderijo perfeito.

— Não fui eu quem mandou a carta. — Jongin confessou, num sussurro proibido, tão próximo de Sehun que o detetive sentia a respiração dele queimar a sua pele.

— Eu sei. — Sehun respondeu. — Mas por que você não fez nada a respeito? Não tentou consertar as coisas?

Os olhos não mentem, Sehun costumava dizer a si mesmo. Sempre buscava a verdade, e sempre fingia que sabia procurar por ela. Às vezes, contudo, questionar não era o bastante, e tentar encontrar uma faísca abstrata da realidade de outra pessoa, impossível.

Sehun sabia que nunca conseguiria estar na cabeça de Jongin; talvez já estivesse lá como uma memória, um pensamento insistente, mas nunca estaria lá em pessoa. Precisava interpretá-lo com o que via dele, e Sehun não era bom nisso. Era bom com evidências físicas e pistas coerentes, não com olhares longos e sentimentos antigos.

Os dois sabiam que isso não daria em lugar nenhum. Talvez por isso, inclinaram-se ao mesmo tempo, um na direção do outro, e se beijaram pela primeira vez em anos.

Jongin abriu a porta, fazendo aparecer o quartinho pequeno que ela escondia.

— Eu começo, dessa vez.

Sehun sentiu a adrenalina correndo nas veias, o coração pulsando no peito. Deu um passo à frente e deixou-se ser envolvido.

Mas havia uma coisa sobre a penteadeira — pequena e dourada, solteira, envolta por um cintilar maligno. Enquanto Jongin desabotoava o seu colete, Sehun a encarava com o rosto pálido e os olhos mortificados. A reconheceria em qualquer lugar.

Tentou suprimir a sensação — o peso do conhecimento — e continuou a beijar e ser beijado, esforçando-se para não fitar a abotoadura que denunciava o assassino.

PARTE IV - DUAS ESPADAS, UMA COROA

Duas espadas cruzadas, uma coroa de louros. O símbolo da infantaria, a identidade do assassino.

Sehun queria achar que estava errado. Que tinha alucinado; uma consequência da sua obsessão com o caso mesclada com as taças de champanhe que tinha tomado imprudentemente. Mas, não: a abotoadura ainda estava lá, o encarando como se soubesse que Sehun sabia onde sua cara-metade estava.

Suspirou, deitado na cama, ainda fitando o objeto que corroía seus pensamentos dia e noite, ruminando… a abotoadura não era uma prova tão fiável, era? Um símbolo tão vago, algo que poderia ter caído a qualquer momento antes do assassinato do bispo. Como Kyungsoo havia dito — a abotoadura poderia pertencer a um transeunte, um estrangeiro, alguém que passou para ver o bispo e depois voltou para a Lisimáquia imediatamente, como se completasse uma missão.

Da mesma forma, Jongin poderia ter estado na cena do crime sem ser o assassino. Ou, melhor ainda: talvez a abotoadura nem fosse de Jongin, talvez pertencesse a quem quer que fosse a pessoa que usasse aquele quarto com mais frequência. Não poderia ser o príncipe, claro; os príncipes têm quartos maiores, mais bonitos e arejados, com mais ouro, e em melhores lugares dos palácios. Aquele quarto era o armário de vassouras do príncipe! A abotoadura, provavelmente, era de alguma das vassouras.

Foi quase uma conclusão natural: o assassino era, então, um amante do príncipe.

— Espero que você não tenha hora para voltar para casa — disse Jongin, abrindo os olhos e encontrando Sehun acordado há pelo menos meia hora.

— Não tenho. — Sehun respondeu sem encará-lo. Não conseguia desviar os olhos da abotoadura e, como a penteadeira ficava de frente para a janela aberta, Jongin achou que o detetive estava olhando para o dia amanhecendo lá fora. — Nunca tive.

— Você não está arrependido, está?

Sehun ficou em silêncio por algum tempo, escondendo as mãos geladas debaixo das cobertas, sentindo o frio da manhã despedaçar as suas esperanças. Nunca havia sentido tanto frio no verão.

— Depende. — O detetive falou, finalmente. — A que se refere?

Quando pôs os olhos em Jongin, quase esqueceu o que acontecera. Aquele não podia ser o homem pelo qual procurava.

— Eu e você — esclareceu o príncipe.

— Hoje ou antes de hoje?

— Hoje. E antes de hoje também.

Sehun respirou fundo.

— Eu não consigo me arrepender, mas eu imagino mil formas em que as coisas poderiam ter sido diferentes. Espero que isso não seja se arrepender, porque eu não quero ter arrependimentos.

— Você faria tudo outra vez? Mesmo sabendo que nada mudaria?

O detetive não queria mentir, mas também não queria dizer a verdade, então não disse nada.

— Eu faria. — Jongin completou. Sehun não sabia o que ele esperava com aquilo: se queria expressar seus sentimentos, se queria que Sehun o imitasse e dissesse o mesmo em seguida, se queria mostrar que era justo e solidário… ou se só queria ser honesto por estar confortável ao seu lado.

— Você… — Sehun tentou não soar perturbado. — Você disse que o bispo não era muito querido…

Jongin riu, fazendo Sehun se arrepiar. Sentou-se na cama e começou a juntar suas roupas, mas não parecia planejar ir embora; parecia querer ocupar as mãos, fazer outra coisa, descontrair.

— Por isso você tá com essa cara — acusou o príncipe, num tom amigável. — Não para de pensar em trabalho! E eu não disse que o bispo era odiado, eu disse que ele não falava nada bom sobre ninguém.

— Então ele só era odiado por você?

— Eu também não disse isso. — Jongin sorriu, mas não por achar graça. — Uma pessoa pode ser desagradável e ainda ser bem quista. O bispo era assim. Todos na comunidade o respeitavam e olhavam pra ele com admiração, até mesmo eu, que não sou religioso. Mas ele não era gentil com as palavras… pode ter incomodado alguém.

— Então você acha que o motivo do assassinato foi uma vingança por alguma coisa que o bispo falou? — Sehun estreitou os olhos, tentando ler um livro invisível, decifrar uma língua inexistente. Até o momento, tinha a ideia de que o bispo havia sido morto por algo que ele fez, não por algo que ele disse.

— Eu já vi gente morrer por menos — respondeu. — É horrível o que alguém pode fazer para defender a sua reputação.

Sehun voltou a se recolher em si mesmo, girando as engrenagens do pensamento, buscando uma forma de encontrar um assassino que não fosse, simultaneamente, o seu primeiro amor. Estava fadado a fracassar.

— O bispo, alguma vez, disse algo sobre o seu irmão?

— O bispo disse muitas coisas sobre o meu irmão. — Jongin suspirou enquanto, sem perceber, fornecia ao detetive a motivação para um crime. — Queria excomungar ele. Queria que a minha mãe tivesse abandonado ele. E por quê? Minsoo não fez nada de errado.

— Eu sinto muito. Pelo menos agora ele não pode mais ameaçar o seu irmão.

— Pois é — concordou o príncipe, que nunca tinha dito que o bispo era uma ameaça ao irmão mais novo, mas que, agora, acabava de confirmar a afirmação do detetive.

Os fatos se viravam contra Sehun como um filho ingrato se vira contra os pais. Como Lúcifer a Deus, como Caim a Abel — e ele penava, no meio da dança cansativa de seus pensamentos —, o que seria mais difícil: responder ao Departamento que o criminoso procurado pela morte do bispo era um monarca ou aceitar que Jongin havia matado um homem? Fazer o seu dever ou compreender a sua situação — qual das tarefas seria a pior?

Pensou em Minseok, morto no dia seguinte ao início do caso. Será que Jongin o havia matado também? O legista dissera que, pela organização da cena, ele havia morrido naturalmente — uma falha no coração, uma vida jogada pela janela. Mas será que Sehun ainda poderia confiar nos fatos, se é que eles existiam?

Será que ainda teria a cabeça no lugar caso ousasse acusar o príncipe? Será que ainda teria um emprego caso decidisse entregar o caso sem resposta, incapaz de incriminar um inocente, sabendo que o algoz estava bem na sua frente? Será que teria coragem de fazer alguma coisa? Não apenas a coisa certa, ou a coisa confortável; teria coragem de fazer qualquer coisa? Mover-se, piscar os olhos, ter mais um ou outro pensamento. Não sentia que tinha forças para isso, honestamente.

O quarto ficava mais escuro e mais frio à medida em que a realidade se desdobrava aos seus olhos.

Jongin estava absorto na própria mente, quase como se remoesse sua má ação. Sehun podia ver a sua aura mudando, o seu rosto se tornando um vendaval de tristeza e não realização.

— Você se arrepende de alguma coisa na vida? — Sehun perguntou, como quem não queria nada.

— De muitas coisas. — Jongin respondeu, um riso sem vida escapando de seus pulmões, enchendo o quarto de melancolia. Olhou para Sehun. — Mas não de nós.

A abotoadura poderia até ser de Jongin, o detetive considerava. Mas talvez não fosse só dele. Talvez tivesse um amigo que usasse o mesmo modelo, talvez fosse parte de uma sociedade secreta, talvez ela tivesse sido roubada e usada para incriminá-lo. Sehun não tinha nenhum dado de onde a abotoadura tinha vindo: não sabia se era uma peça única ou partilhada, não poderia fazer esse salto.

E não conseguia tirar os olhos dela.

Levantou-se da cama e, sob o olhar sereno do príncipe, se aproximou da penteadeira. Pegou a abotoadura nas mãos — idêntica à que tinha em casa — e a encarou como se a interrogasse diretamente. Onde você estava nove dias atrás?

Quando a largou e virou-se para Jongin outra vez, pôde ver o momento exato em que o sorriso do príncipe desapareceu e os seus olhos se encheram de horror. Seus ombros caíram e sua aura se dispersou — Jongin havia se despido de qualquer interpretação, qualquer identidade —, por um segundo, o monarca se desconectou do real. Não mexeu um músculo do rosto — nada que o incriminasse ainda mais —, mas havia ficado claro que tinha entendido. Jongin sabia que Sehun achava que era ele.

E não havia nada que pudesse fazer. Assim que Sehun deixou a prova do crime escapar das suas mãos por completo, devolvendo-a para o seu lugar anterior, Jongin se levantou e, vagarosamente, deu aquele que achou que seria o último beijo nos lábios de Sehun.

— Naquela época, quando eu recebi a sua carta falando que me amava… — Jongin começou, uma tentativa de revisitar o passado e consertar as feridas dele, mas Sehun não queria ouvir nada disso.

— Tudo bem — cortou o detetive, antes que o príncipe completasse a história. — Eu me perguntei o que tinha acontecido durante muito tempo, mas acabei percebendo que é melhor se eu não souber. Eu prefiro completar as lacunas com a minha própria imaginação, Jongin. Não quero ser desiludido pela realidade.

Jongin o encarava com os olhos molhados e a garganta seca, rejeitado. Mesmo com o coração partido, ainda conseguiu sorrir.

— Eu vou te amar para sempre — confessou. — E vou completar as lacunas do meu futuro com a sua imagem, meu amor, mesmo que seja só na minha imaginação.

Sehun sorriu e chorou também.

Dois dias depois, fechou o caso e entregou um longo relatório ao Departamento Real de Investigação.

***

Quando chegou em casa naquele dia, carregando a máscara de mariposa nas mãos e usando partes da fantasia de modo incorreto por não se lembrar de como as vestir adequadamente, Sehun encontrou um bilhete no chão da sua casa, que alguém provavelmente havia passado por debaixo da porta. Era de Kyungsoo, seu amigo jornalista.

Também havia recebido algumas cartas — respostas dos estabelecimentos que havia contactado —, nenhuma positiva, contudo. Todas alegaram não ter conhecimento da abotoadura, mas ofereceram uma boa oferta caso Sehun quisesse replicá-la.

Todavia, o bilhete assinado por Kyungsoo, que era curto e maltrapilho, tal qual a consideração do jornalista pela cordialidade burguesa das cartas, lhe trouxe uma nova informação.

Eu sei que você não está em casa, eu não vim aqui achando que você atenderia a porta,  começava, numa letra horrorosa incomum para o amigo, dando a entender que ele tinha, sim, vindo até a residência do detetive achando que o encontraria em casa. Espero que o baile tenha sido produtivo.

O meu querido colega acabou de voltar de Ammak, na Lisimáquia. Eu sei que você me falou para não pôr o meu dedo no assunto, mas talvez eu tenha pedido para ele conferir se algum artesão de lá sabia sobre a abotoadura e, bem, ela é lisimata. De nada.

Sehun bufou, irritado com o amigo, mas muito curioso para ficar com raiva. Lavou-se, vestiu-se e alimentou-se antes de bater na porta do jornalista.

— Então, fez algum progresso? — Kyungsoo perguntou, antes mesmo de dizer olá.

Sehun, retribuindo a hospitalidade, pisou na casa do amigo sem nem ser convidado a entrar. Caminhou até o escritório de Kyungsoo e se sentou na poltrona de sempre.

— Progresso nenhum — mentiu. — Mas você, pelo visto, não.

Kyungsoo abriu um sorriso gigantesco.

— Acho que eu deveria ter ido para a Academia também, já que eu sou obviamente muito melhor nisso que você — brincou, procurando por entre a bagunça da sua escrivaninha um papel específico. — Sorte sua que o Chanyeol é um ótimo jornalista que não faz perguntas difíceis aos colegas.

Entregou para Sehun a cópia do símbolo da abotoadura que o detetive havia feito, com as espadas cruzadas e a coroa de louros no fundo.

— Todas as ourivesarias que ele consultou disseram que é um modelo bastante comum — prosseguiu. — Inclusive, você fez o desenho de cabeça para baixo. O símbolo vem de uma antiga dinastia lisimata, uma das primeiras depois da separação, por isso as espadas. É um tipo de afirmação da nova identidade nacional através da violência.

— Que poético. — Sehun foi irônico.

— Muito. — O amigo correspondeu. — Deriva da antiga simbologia das espadas gêmeas, de quando Serpens e a Lisimáquia eram só Serpens, dividida em Caput e Cauda: a cabeça e a cauda da serpente, unidas. Por isso é que se parece com o símbolo da nossa infantaria. Serpens assumiu as espadas gêmeas cruzadas, apontando pra cima, como dois soldados lutando. A Lisimáquia assumiu a imagem das espadas cruzadas apontando para baixo…

 Então Kyungsoo tomou o papel das mãos de Sehun e o girou, fazendo com que as espadas ficassem com o cabo para cima, a ponta para baixo, e a coroa de louros estivesse corretamente posicionada. 

— …como dois soldados em trégua. Claro, com muito mais propaganda política do que afeto e amor pelo próximo por trás disso… Mas o fato é que, com o tempo, a Lisimáquia abandonou as espadas gêmeas como um símbolo de conflito e guerra, adotando um significado de perdão e misericórdia, quase. Não uma expressão de perdão, mas um pedido, mais especificamente.

Sehun estreitou os olhos, inconformado. Havia olhado para o símbolo do jeito errado durante todo aquele tempo, sem notar que a coroa de louros não poderia estar apontando para baixo, pois estava muito focado nas duas espadas apontando para cima. A falha era de princípios, não de operações intermédias, o que deixava o detetive ainda mais enjoado. Nunca imaginou que cometeria um erro assim — ele, que se julgava tão observador quanto era possível ser.

Mas Sehun não era imune aos estratagemas da mente humana; não era resistente às falácias do próprio raciocínio. Tal como qualquer um, também poderia ser atingido por algo tão fundamental, subconsciente e perigoso quanto um pensamento instintivo incorreto.

— Um pedido de desculpas? — Sehun repetiu, desorientado.

— Sim. — Kyungsoo confirmou. — Acha que sabe quem poderia ter comprado uma dessas, e pra quem? Pode ter sido um presente que o assassino ganhou.

— Ou pode ter sido um presente que o assassino planejava dar — falou o detetive, compreendendo a dimensão da sua situação. Correu os dedos pelo desenho, imaginando a abotoadura perfeitamente, já tendo decorado cada curva e cada sulco moldado no ouro.

— Por que o assassino usaria um presente que ele comprou para outra pessoa? — Kyungsoo franziu a testa, mas depois se iluminou: — Ah, já sei! Você quer dizer para incriminar outra pessoa. Perdoe a minha burrice, eu não dormi direito… Sehun? Você está bem?

Sehun olhou para o desenho e contemplou o panorama do caso, em silêncio, pela última vez. Olhou para o amigo com ternura.

— Obrigado, Kyungsoo — falou.

— Você não precisa me agradecer, Sehun. Eu sei que você sabe o que está fazendo, mas também sei que ninguém é de ferro para fazer sozinho um trabalho de duas pessoas depois de perder um colega. Posso não ser o seu parceiro detetive, mas sou o seu parceiro jornalista. E com certeza vou escrever uma coluna gigantesca sobre como você deve ser demitido; e vou fazer questão de que saia no jornal de amanhã!

Sehun riu, relaxando por um longo instante.

— Eu autorizo a publicação do artigo — respondeu, dobrando o papel e colocando no bolso da calça. — Só não sei se você vai conseguir me demitir. Sou bom demais.

Kyungsoo ficou satisfeito por ver o amigo mais descontraído, mas esperava que a sua intromissão não tivesse piorado o que quer que seja aquilo que tão claramente havia abalado Sehun. De fato, a ajuda de Kyungsoo não piorou nada que já não fosse piorar por conta própria.

***

Em casa outra vez, Sehun encarava a abotoadura que teria sido dele caso Jongin tivesse sido um homem mais corajoso.

No dia seguinte, levantou cedo e esquentou a água do café a fim de esfriar a cabeça. Checou a correspondência: nada de novo; nenhuma carta pomposa ou bilhete simplório. Pensou sobre coisas supérfluas para cativar a mente com distrações convencionais. (Não sabia se guardava a fantasia do baile de máscaras em casa ou na alfaiataria, onde seria mais bem cuidada. Não se lembrava muito bem de como era ter férias, mas achou que seria bom se tirasse algumas.)

No dia a seguir àquele, ainda não havia correspondência. Sehun terminou de escrever seu relatório e, simples assim, recolheu as peças do tabuleiro: havia concluído o caso do sínodo dos bispos.

Notes:

(O que o Sehun falou no relatório, pelo visto, é uma lacuna que vocês vão ter que preencher com a sua imaginação.)
Essa história é sobre algumas coisas: sobre pertencimento — como o Sehun se encontrou, estando nessa situação complicada de identidade —, sobre confrontar momentos difíceis — ou fugir do confronto — e, principalmente, sobre vieses cognitivos. Eu não ia usar o termo, mas acho que mais vale dar nome aos bois. Vieses cognitivos são distorções de julgamento ou percepção que nem sempre originam erros, entretanto, os que eu escrevi no protagonista dessa história sempre levam a erros.
Um viés cognitivo não é apenas “mentir para si mesmo” (como quando o Sehun tenta olhar para a situação de vinte mil outros ângulos diferentes só pra não aceitar que o Jongin era o assassino), apesar de que esse também é.
Um viés cognitivo é, às vezes, algo que passa despercebido; pode ser algo simples, como o Sehun não notar que estava vendo o símbolo na abotoadura de cabeça para baixo o tempo todo porque tinha uma expectativa sobre o desenho (sempre via espadas apontando para cima, comum em Serpens, então é natural que tenha pulado direto para a conclusão.)
Outro viés é achar que nós não somos vítimas de vieses, ou que somos, mas menos que a média. (O Sehun ficando chocado por ter cometido um erro bobo, achando que, por ser um detetive, isso não podia ter acontecido.)
Todos nós somos suscetíveis a erros de julgamento, e existem uma penca deles. A gente pode diminuir alguns erros de forma ativa — como o da crença no mundo justo ou o erro fundamental de atribuição —, mas nós nunca podemos nos desprender completamente deles. É isso que dá ser humano, amigos. (E essa história é o que dá estudar psicologia.)
Mas, no fim das contas, uma história também é o que o povo faz dela. Espero que vocês tenham gostado!

¹Todos os nomes de lugares na história são retirados de nomes científicos de plantas, exceto por Áltica (que vem de um besouro) e Serpens (que vem de uma constelação, dividida em duas: Serpens Caput e Serpens Cauda — a cabeça e a cauda da serpente).
²A Lisimáquia (país vizinho de Serpens) e o seu povo (os lisimatas) são mal vistos pelo povo de Serpens devido a história complicada dos dois países, que costumavam ser unificados, mas que se separaram num conflito que deixou a Lisimáquia em desvantagem. A Lisimáquia é maior, mas mais pobre.
³Áltica é o nome científico de um besouro (Altica) e também uma praga agrícola.
⁴Na história, as estações seguem a ordem do hemisfério sul (verão em dezembro, janeiro; inverno em junho, julho).
⁵Sehun escolhe o branco porque, no xadrez, são as peças brancas que começam.
⁶O Sínodo dos Bispos é uma instituição real da Igreja Católica, estabelecida em 1965, podendo ser simplificada como uma reunião de bispos com o objetivo de ajudar o papa com conselhos para o governo da Igreja, acontecendo regularmente. Na história, contudo, a Igreja não é tão organizada, e a frequência de sínodos não é regular, por isso é tão importante.

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