Chapter Text
A motivação para a mudança de Lenore ocorreu em uma noite comum na residência dos Saint-Aulaire. Logo após de colocar seu pai para dormir e recolher-se em seu leito, a garota sentiu uma presença sombria nos cantos escuros do quarto, porém ignorou pensando que deveria adormecer rápido para reportar ao veterinário do feudo uma estranheza nos animais que notara, especialmente cavalos.
O pai já estava drogado em sua cama e Lenore arrastava suas pernas em direção ao seu leito, massageando as têmporas. Seu dia foi tomado pelos queixumos do patriarca e embora a tarefa de sentar e escutar um homem velho falar durante horas aparente ser branda, ouvir os múrmurios e momentaneamente gritos proferidos pode ser degradante mentalmente quando feito com frequência.
A chuva caia incessante através dos vitrais da residência e se derramava além das colinas, as águas violentas preenchiam qualquer lugar que conseguiam encontrar, inclusive as estradas, impedindo qualquer um de sair ou voltar para o lugar que pertenciam. Durante aquela semana a jovem Lenore olhava para o horizonte apreensiva, quando a chuva passaria? Temia que nunca.
As mudanças escalaram com o passar dos dias. O humor volátil foi o primeiro sintoma, mas rapidamente as alterações foram substituídas por um estranho sentimento de medo, um estado de alerta constante, beirando ao selvagem. Sempre sentiu-se presa na casa, mas agora a cada fim de corredor ela sentia o coração disparar e a única saída daquela irracionalidade era a grande porta do hall de entrada, a fuga era mais do que premência, mas a chuva e o pai prendiam-na naquela penumbra eterna.
Na sua última noite no lar Lenore Saint-Aulaire ela presenciou a materialização do seu medo mais irracional, viu a sombra negra que sugava seu anelo pela vida surgir na frente de seus próprios olhos.
Depois de finalmente entrar em seus aposentos, a garota bebericou um pouco de chá - já gelado - na intenção de acalmar a cabeça latejante e por fim deitou-se, permitindo que o corpo cansado relaxasse. As pálpebras afadigadas falhavam e foi nesse momento que um vulto manifestou-se rapidamente. Desconcertada, a garota levantou discretamente o tronco e olhou os arredores, mas nada avistou.
Mesmo que tentasse convencer a mente delirante de que tudo foi apenas um peça pregada pelos seus olhos, ela não conseguia adormecer de fato. Logo o sol raiaria por trás dos montes e fugiria para trás das nuvens acinzentadas, ela teria que acordar e repetir a rotina, mas o corpo não dormia. Por um breve segundo um pensamento cruzou sua mente: era assim que seu pai vivia? Uma pontada de compaixão e coragem a penetrou. Sentiu que deveria ir atrás do pai, sentiu que deveria passar a noite sentada na sua poltrona, só por precaução, sentiu que algo aconteceria, mas a escuridão e os sons dos trovões emudeceriam a tragédia.
Agora seu corpo sentia tudo. Estava com medo. Medo de morrer, medo de perder o pai. Talvez estivesse ficando louca, assim como ele. Ela escutava os trovões, a chuva caindo no telhado, o vento esmurrando as paredes, os rangidos do piso de madeira desgastado.
Obrigou o corpo a levantar e olhou, sem pisar no chão, por baixo da cama. Nada. Pisou lentamente, com medo de chamar atenção, e caminhou até sua porta nas pontas do pé. Tentava suprimir o barulho de sua respiração e tateava o piso para evitar as partes mais frágeis. As mãos tocaram a porta com delicadeza, a respiração sumiu e o corpo foi inclinado lentamente para a fechadura. Outra pessoa a observava por trás da porta.
Um grito agudo de puro horror que poderia competir com o som da natureza no mundo externo foi proferido. Em seguida, diversos disparos. Caída no chão, ela recolheu o corpo em posição fetal enquanto hiperventilava, o suor escorria pela testa e os olhos viraram cascatas, a cabeça estava entre as pernas e as mãos acariciavam as costas. Por fim, os tiros pararam. O silêncio reinou na casa, até que foi interrompido por rangidos em direção a porta do quarto de Lenore. A garota com feição abatida afastava-se da porta e então viu seu pai, com uma arma na mão. Ele nunca pareceu tão são.
O homem correu a encontro da filha e a abraçou fortemente, ela chorava como se estivesse nos funerais da família e tremia como uma vara verde, estava pálida e com os olhos inchados, apenas balbuciava. Os últimos Saint-Aulaire ficaram sentados no chão até que amanhecesse, curiosamente, a chuva cessou, mas o galo não cantou como de costume.
Lenore nunca soube quem era a pessoa por trás da fechadura, não sabe no que seu pai atirou, tampouco sabe como o conde recuperou a sanidade tão rapidamente, não sabe se a morte de todos os animais da casa foi natural ou não e não sabe se o incêndio que destruiu a antiga fortaleza da família foi de fato acidental, não se sabe quem foi o dono das chamas, apesar de achar que o autor do crime fora seu próprio pai. Caso isso ocorresse anos antes, ela teria certeza que foi um surto do patriarca, mas algo dizia que a decisão foi sóbria e de alguma maneira, pelo bem dos dois e de todos.
O pai mudou-se para outra casa da família, uma mais simples e menor, que costumava frequentar com a falecida esposa quando mais novo. Enviou sua filha para o castelo para trabalhar e ela prometeu sempre visitá-lo.
