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Sobre Fantasmas e Maldições

Summary:

Há três meses, Airi Yoshioka vê um fantasma.

A face dele é disforme, em tons de vermelho. Com mãos geladas e trêmulas, cheirando a ferro, tampa-lhe a boca. Ele rosna, “não grite”. Não diz o que quer. Só a empurra em direção à saída do beco, onde o fim a aguarda.

Três meses atrás, num golpe de sorte, Airi o desarmou e amaldiçoou a si mesma.

O ano-novo afugenta o mal; vez ou outra, por meios inusitados.

English version available.

Odasaku Week 2023: dia 1 (Odasaku & Christianity)

Notes:

Bom dia! Tarde? Noite? Enfim. Bem-vindo/a se você está conhecendo minhas fics agora, e bem-vindo/a de volta se já é recorrente.

Esta fic participa da Odasaku Week 2023, referente ao dia 1 (Odasaku & Christianity). Confira a hashtag no Twitter para mais trabalhos ao longo da semana. Odasaku é como queijo no sanduíche, não existe excesso.

A personagem central é uma OC mencionada primeiro em Até a Última Gota. Se você gosta de papo de boteco e drama, sugiro que dê uma olhada.

Airi é uma civil e não tem habilidade. Esse conto se passa na adolescência dela. Se considerarmos o ano de nascimento dos kunizais 1989, ela é de 1986, e o Oda teria nascido em 1984. A fic se passa em primeiro de janeiro de 2002.

Nos “universos” relativos às minhas fics, ela está lá, vivendo a vida dela, com alguma influência sobre os personagens canônicos. Falarei mais sobre o papel dela na vida deles em uma data e/ou fic posterior.

Como sempre, atenção às tags, e boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O estômago de Airi doía.

Há um dia inteiro, não comia nada. Há menos tempo, não bebia nada. A sede incomodava mais que a fome. Precisava ceder às vezes. O chá só fazia doer mais. Por fim, disfarçava o quanto o corpo queria comer.

Eu mereço.

Em outro acesso de fome, cobriu a barriga com a mão. Agarrava o casaco. Se apertasse o bastante, os dedos doeriam. Assim, esqueceria o estômago, que a torturava como adaga.

Eu mereço. Nem se compara.

Airi não parava de caminhar. A cabeça estava leve, como quem levanta muito rápido. Um arrepio desceu-lhe a coluna.

Ele é quem não merecia.

Deixara uma carta à mãe. Ou à tia, quem encontrasse primeiro. As duas tinham que trabalhar na data. O papel estava dobrado, a ponta saindo de um diário onde as duas não ousavam mexer. Se quisessem explicações, lá estavam.

“Estou viva. Não volto”, escrevera, “mas é melhor assim.”

Era manhã. Havia pouca gente na rua. Na contramão do senso comum, Airi gostava de manhãs de neve. Não eram tantas; essa era parte da graça. Havia mais silêncio. Além do casaco, seu favorito, não vestia o bastante para aquele tipo de manhã.

Fazia frio nas celas, será? Era bom se acostumar.

Airi nada tinha nas mãos. O único pertence, além das roupas, era um documento no bolso. Seria mais fácil se o mostrasse. Não tomaria tempo deles; a polícia era ocupada.

Quanto antes acabasse, melhor. Iria logo para a cela, e esperaria até conversar com alguém. Saberiam o que fazer dela.

Não tinha mais provas. Nem vestígios, nem a arma. Airi só tinha a memória e a própria consciência. Densa, tão densa, que parecia tomá-la inteira.

Tinha, também, aquele espectro que ninguém mais via.

Idiota. Idiota, idiota, idiota. Tinha sido pura idiotice. Estava no lugar errado, na hora errada. Mas tinha se colocado ali. Se não tivesse se colocado ali…

Atirei uma vez, porque foi onde acertou. Atirei mais oito na cabeça, porque foi onde eu vi. Só não atirei mais porque não saiu.

E se tivesse tomado a arma e corrido? E se só tivesse apontado de volta? E se tivesse atirado só uma vez? Havia muitos “e se”. A realidade era só uma.

“E se” nunca tivesse estado ali, naquela hora, naquele lugar? Simples. Não haveria um fantasma em seus sonhos.

Airi não vira dele o rosto. Nem mesmo isso. Nem sequer uma vez. Só uma mancha vermelha indiscernível, cravejada de oito balas.

O estômago doeu.

O pé também doeu. Tropeçara. O culpado era um bloco um pouco solto.

Ao redor dela, não havia muita neve. Havia menos gente ainda. Ainda assim. De fato, havia partes mais e menos vivas do centro.

A primeira manhã de janeiro tinha, sim, férias. Tanto para ela, quanto para as crianças naquele parque. Giravam um brinquedo, acompanhadas de uma moça. Airi não olhou muito.

Do lado oposto, havia um banco. Ninguém o ocupava. Então, era dela. Só por um momento; só até o mundo não balançar mais para os lados. Sentada, Airi se abraçou.

Estou tremendo de novo.

Fazia frio, mas não era isso. Vinha acontecendo desde então. Outubro tivera uma estranha onda de calor, e aconteceu do mesmo jeito. Deitava-se na cama, encarando o teto, incapaz de respirar. Talvez fosse o fantasma tentando levá-la com ele.

Sim, pode ser. Pode ser o que ele quer. Teria sido melhor… se tivesse sido eu. Não ele.

— Bom dia.

Airi apertou as mãos nos próprios braços.

A voz veio das costas. Virou-se devagar para trás. Era um rapaz alto, de mãos nos bolsos, olhando para ela.

Devia ter vinte, vinte e poucos anos. Não sorria. O maxilar tinha um pouco de barba por fazer. A pele se parecia com a dela quando ainda nadava no primário. O cabelo avermelhado parecia cortado por ele próprio. Talvez aquele casaco bege fosse elegante em outra pessoa.

Ele não parece policial.

— Bom dia — Airi respondeu.

— Você se perdeu? — Oh. Que voz grave. — Precisa de ajuda?

— Não. — Airi relaxou as mãos, largando-as no colo. — Está tudo bem.

O que ele quer? Vai saber… Uma das crianças no brinquedo riu alto, desafiando as outras.

— “Tudo bem”, é? Não parece, não. — O rapaz franziu uma sobrancelha. — Você tem cara de quem viu uma assombração.

Airi baixou o olhar para as raízes da árvore ao lado dele. Disse:

— Deve ser porque eu vi.

— Oh. É mesmo?

Péssima ideia. Idiota, idiota, idiota. Aquele rapaz faria perguntas. Faria e faria de novo, até saber o que queria. Estava curioso. Ninguém sabia. Ninguém podia saber.

Se só eu carregar a maldição, ela não vai mais existir.

Mas… Airi expirou devagar. Que diferença faz? Ia dali para a delegacia. Eles fariam perguntas, também. Então, que ele soubesse. Que alguém mais carregasse a maldição. Alguém precisava conhecê-la de verdade. Em seus últimos momentos do lado de cá. Do lado das pessoas livres.

— Sim, é — ela disse.

— Hã.

Não sei dizer se ele acredita em mim. Nem o que foi que ele entendeu.

— É o espírito de um homem. — Airi segurou a própria mão.

— Curioso.

Moço, o que há de curioso nisso? Por que quer saber?

— Posso sentar aí? — ele pediu.

Você me assusta menos se estiver do meu lado, sim.

— Pode.

O rapaz deu a volta no banco. Acomodou-se a uma distância respeitosa, mantida de uma garota que não conhecia. A postura dele, no entanto, era bem descuidada. Encurvado no assento, os cotovelos apoiados nas coxas.

Olhando mais de perto… ele é mais novo do que eu pensei.

— Quantos anos você tem? — Airi deixou escapar.

— Dezessete. Achei que fosse perguntar meu nome antes. — Ele a olhou de lado. — Em todo caso, Oda. Prazer.

— Prazer. — Não sei se devo dizer o meu. Acho que não.

— Há quanto tempo vê esse fantasma?

— Faz três meses.

— Que cara ele tem?

— Ele…

Oda virou o rosto para ela. Prestava atenção implacável no que dizia. Tanta, que ela parou de falar. Se só eu carregar a maldição…

O mundo inteiro parece não saber. Só eu sei. Então, realmente aconteceu?

— É um homem — Airi repetiu.

— Você já disse isso.

— Perdão — ela gaguejou. — Você tem pressa? Se tiver, pode ir.

— Não. Não tenho, não.

Oda não era grosseiro. Ao menos, não exatamente. Era mais velho que ela. Ainda perguntavam quando Airi acabaria o primário. Ele tem cara de quem trata todo mundo assim.

Ele não tinha jeito de quem lhe pediria o telefone. Nem que tentaria chamá-la para um canto particular, muito menos que lhe ofereceria bebida. Não que eu fosse aceitar. Só poderia ter sido mais descolado. Bem mais que puxar conversa sobre uma assombração.

Mas eu talvez desse meu telefone.

— Não sei como é o rosto dele — Airi disse.

— Não?

— O rosto está…

— Distorcido?

— Sim… Isso. Algo assim.

— O que aparece, em vez do rosto?

Buracos de bala. Nunca saberia como ele era. Nem mesmo na hora, na penumbra de um beco. Depois? Muito menos. Nem com toda a luz do sol, ou todas as lâmpadas do mundo.

— Sangue — Airi disse. — Tem sangue no rosto dele.

— Mais nada? Nariz, olhos? Nem boca?

— Não. — Airi engoliu em seco. — Só sangue.

— É um desses, então. — Oda se pôs a pensar, de mão no queixo. Parecia fazer tremendo esforço para o raciocínio. — Deve ter tido uma morte violenta.

Teve.

— Por que acha isso interessante? — ela perguntou.

— Escrevo livros. — Oda se reclinou, folgado na direção oposta. — Vai que é uma ideia nova.

Não sei se acredito.

— O fantasma… desse homem… — Airi estava à beira de outro tremor. — Tentou me machucar.

— Ainda tenta?

— Às vezes. Quando eu o vejo. — Todo dia. Toda manhã ao acordar. Toda noite ao ir dormir.

— Você deveria ir a um santuário — Oda sugeriu. — Ainda é tempo da primeira visita.

— Não adianta.

Airi preferia encarar o bloco específico onde tropeçara. O olhar dele estava cravado nela. Tinha o poder de uma plateia imensa. O que quer que ele tentasse enxergar nela, estava procurando.

— Por quê? — ele perguntou.

— Porque ele não vai me deixar.

— Sim, e por que não vai?

Porque eu o matei, e ele ainda quer se vingar.

— Ele tem um problema comigo — Airi disse.

— Com você em particular? Hm. — Oda desistiu de olhar para ela. Parecia encarar o mesmo bloco no chão. — Você sabe o motivo?

— Sei. — Claro que sei. — Eu acho.

— Qual é?

Dei nove tiros nele. O primeiro no peito. Então, eu o chutei para o chão. Ele bateu de costas no concreto. Os outros oito foram na cabeça. Não sobrou rosto. Lembro exatamente, foram nove.

Escuto cada um deles até hoje.

— Você fez mal a esse homem? — Oda insistiu. — Para ele te perseguir na morte?

— Fiz.

— E ele fez mal a você?

Sim. Se eu pensar bem, sim. O tempo passava pingando de uma goteira. Insistente, intermitente. Por que você veio falar comigo?

Logo, a polícia saberia. O mundo saberia. Oda parecia saber guardar segredos, em todo caso. Deixe que ele saiba também.

— Talvez — ela respondeu.

— Como assim, “talvez”?

— Não sei dizer.

— O que ele fez, afinal?

Apontou uma arma sem aviso. Tampou minha boca, mandou não gritar. Ele me empurrou para frente. Não sei o que havia no final. Não sei o que queria. Não sei… Ainda assim… Nove tiros?

Ele merecia?

— Ele machucou você? — Oda perguntou.

— Não, eu acho.

— Acha?

— Ele não conseguiu.

— Isso quer dizer que tentou.

Será que eu daria minha vida pela dele? Aliás… será que ele aceitaria? Será que ele queria viver? Além do cheiro de lixo e pólvora, a memória trazia o mofo e álcool. Há bastante gente daquele jeito na rua. Eles não parecem querer viver… não daquele jeito, ao menos.

— Você não permitiu que ele te fizesse mal… fazendo mal a ele? — Oda perguntou. — Você se vingou dele?

— Pode ser isso. — Airi quis abanar a cabeça. — Pode chamar dessa forma.

— Então, ele começou. Você só resistiu. — Não quer dizer que eu podia. — Quantos anos você tem?

— Quinze.

— E quando é seu aniversário?

— 26 de setembro.

— Ah, um mês antes do meu. — Oda a encarava de novo. Você não vai pedir meu telefone justo agora, vai? Não depois que eu disse… isso. — E qual é seu nome?

A esse ponto…

— Airi — ela disse.

— Airi-chan.

— Minhas amigas me chamam assim. — O que pensariam, se soubessem o que ele sabe?

— Você tem família? — Oda perguntou.

— Minha mãe e minha tia. — Quantos dos meus colegas de sala ainda têm pai?

— Sei.

Oda tinha o olhar perdido no horizonte. Muito, muito longe. Airi o observava de esgueira. No que ele pensava? Tudo ao mesmo tempo? Absolutamente nada? Poderia ser qualquer um, ou qualquer outra terceira opção.

— Elas cuidam bem de você? — ele disse.

— Sim, mas tenho que trabalhar.

— Onde?

— Uma loja de música.

— Legal. — Você não parece muito interessado. — Toca instrumentos?

— Baixo. Mas só na loja e na escola. Ainda não consegui comprar. — Airi estendeu a mão esquerda. — Olha.

— O quê? — Oda aproximou o rosto dos dedos dela. — Ah. Tem calos nas pontas.

— É normal.

— Ouvi falar. — Oda tirou a mão esquerda do bolso. Calçava luvas. — Tenho uma cicatriz na mão. Se não te assustar, eu mostro.

— Não acho que vai.

Não depois que fiz o que fiz.

Oda puxou a luva por um dedo e exibiu a cicatriz. Uma marca escura, avermelhada. Uma mancha horizontal, onde os dedos encontravam a palma. Airi arregalou os olhos.

Eu tenho uma, também.

Ficava na mesma região. Tocara por acidente no cano da arma. Era quente como brasa. Passara semanas sem praticar no baixo. Doera como uma punição do próprio inferno.

— Foi uma queimadura, uns anos atrás — Oda disse, e não disse mais nada.

— Essa marca não sai? — Airi perguntou.

— Não sei. — Ele deu de ombros. — E não me importo.

Você também?

— Airi-chan — ele a chamou.

— Sim? — Airi gaguejou. — Diga.

— Com o que quer trabalhar?

— A loja não é ruim.

— Digo, depois da escola. Se concluir. O que tem vontade de fazer?

— Se eu pudesse escolher?

— Sim, se pudesse escolher qualquer coisa.

— Ah. É um pouco bobo, pensando bem… — Sempre me dizem para ser mais pé no chão. Mais normal. — Quero cantar. Tocar, também. Nos palcos. Gravar minhas músicas.

Isso é normal? Eu sou normal? O que eu fiz… poderia ser chamado de normal?

— O quanto você aprenderia de música em três anos? — ele perguntou.

— Bastante. Melhoraria muito.

— Você pararia de estudar música por três anos?

— Não. Por quê? Se faltasse dinheiro… e eu tivesse que ter dois trabalhos… Daria um jeito—

— E de ver sua família?

— Quê? Não, também—

— E de ir à escola? Andar pela rua? Pegar o trem? Escolher o que comer, e vestir, e o que quer fazer e quando?

Do que você está falando?

— Você abandonaria isso — Oda disse —, para não ganhar nada em troca?

— Nada?

— Absolutamente nada. — Ele pôs a luva de novo, e voltou a mão ao bolso. — Se parasse hoje de ter uma vida comum, e só voltasse a ter… a ter a chance de ter essa vida daqui a três anos. Daria tudo que tem em troca de nada?

— Por que eu faria isso?

— Posso ver sua mão de novo?

Airi o encarou, e ele encarou de volta. Ele não disse nada; ela também não. Ele sabe. Sabe o que fiz. Não quem era o homem. Isso, nem eu sei. Mas sabe que cometi o mesmo erro.

Menti para todo mundo. “Eu me queimei na economia doméstica.” Acreditaram e me deixaram em paz. Sem nem perguntar mais nada. Você sabe a verdade. Só você. Por que você também tem essa marca?

E por que é tão gentil?

— Não precisa, se não quiser. — Oda abanou uma mão, fechando os olhos. — Enfim—

— Joguei fora. — Não preciso explicar mais nada. — Em uma lixeira.

Oda voltou a encará-la, apenas ouvindo.

— Ficou na minha casa uns dias. Minha família não entra no meu quarto. Limpei todas as marcas. Todas. Parecia até uma nova. Peguei o trem um tempo depois… Deixei num lugar normal. Normal para isso, digo.

Kabukicho, Shinjuku, Tokyo. Eu nunca tinha ido lá. Tem toda uma fama. Era de tarde. Abri a lixeira, joguei, fui embora. Ninguém nem me viu.

— O tempo todo, o tempo todo… — Airi continuou. — Sempre acho que alguém sabe. Que descobriram. Passava o tempo todo vendo o noticiário. Ouvia rádio. Até no meio da aula, dei um jeito. Comecei a comprar o jornal. Ninguém falava nada, em lugar nenhum.

— Nada?

— Nada. Como se fosse mentira. Como se eu tivesse sonhado. Inventado isso. Eu nem usava essa franja na época. Cortei em casa. Não pintei o cabelo. A escola não deixa—

— O que ele disse para você?

A vítima? Airi precisou desacelerar. O coração saltava no peito.

— Naquele dia? — ela perguntou. — Nada. Quero dizer… Ele disse que eu valeria um bom preço. Foi só isso.

— Pessoas não devem valer “preço” nenhum.

É. É verdade.

— Não sei quem era. Antes que pergunte. — Oda disfarçava a repulsa. — Mas acho que era uma dívida. Precisava de muito dinheiro, muito rápido. E era a primeira vez que fazia uma dessas.

— Por isso…

— Sim. Por isso, você ainda está aqui.

Eu não teria pegado a arma, se ele fosse experiente. Não teria conseguido. Não teria…

— E você — Oda disse —, está com pressa?

Airi baixou os olhos. As crianças do parque iam embora. Disse:

— Não sei mais.

— Se entendi certo aonde você ia, eu não poderia acompanhar.

— Sei disso.

Porque estão mais atrás de você do que de mim, eu acho.

— Você ainda pega só três anos na juvenil. Tenho dezessete. Não tenho esse luxo. — Oda suspirou. — Ainda assim, três anos é muito tempo. Tempo demais.

É um quinto da minha vida inteira.

— E outra. — Oda jogou a cabeça para trás, de olhos fechados. Flocos de neve o rodeavam. Alguns pousavam no rosto. — O que os olhos não veem, o coração não sente.

— Então, não aconteceu.

— Não para o resto do mundo. É melhor assim.

O que eu faço? Bastaria perguntar. Talvez ele tivesse respostas. Talvez não tenha. Ele nem é tão mais velho que eu.

— Com o perdão do comentário — Oda disse —, se ele te pôs um preço… já foi tarde. E que se entenda com Deus.

— Você é religioso?

— Talvez. — Oda olhou para ela, ainda folgado no banco. Como se pode ser “talvez” religioso? — Deus é intrigante. Isso, Ele é, sim. Ele não me pede muito. Ao menos, não agora. Eu me entendo com Ele quando chegar minha vez.

— E eu?

— Eu, você, todas as pessoas de todas as épocas da Terra. Tenham elas pecado pouco ou muito. — Oda limpou um floco de neve da bochecha. — O fantasma ainda te assombra?

Sim? Não? Talvez…?

— Se você precisa de um exorcismo, eu conheço um lugar. São bons nisso já faz uns séculos. — Oda endireitou a postura pela primeira vez. — Bem melhores do que aonde estava indo, ao menos.

Lugar…? Sim. Uma igreja. Posso me confessar em uma igreja.

— A esse aí, eu posso te acompanhar — Oda disse. — Não tenho pressa.

Airi se levantou. Disse:

— Eu tenho.

Oda se ergueu do banco espreguiçando. Pôs-se ao lado dela e seguiram em silêncio.

A rota mais curta seguia a margem e fluxo do rio. Em direção às partes da cidade onde havia mais vida. Uma ou outra loja tinha as portas fechadas e luzes acesas. O calor ficava para dentro. Com sorte, os clientes também. Mesmo que fosse a primeira manhã do ano.

Um canto, contudo, era taciturno. Só havia casas de bom tamanho, e o trânsito era pouco. Acompanhar os passos dele não era tarefa fácil. Airi era uns bons trinta centímetros mais baixa. Uma longa escadaria, em especial, deu trabalho.

A igreja apareceu. A neve a deixava mais bela. Ocupava um amplo terreno, cercada por uma grade com hastes escuras de ferro. Airi inspecionava uma a uma as passagens de pedestre. Todas estavam trancadas. Então, seguia Oda. Ele sabe aonde vai.

Na esquina de um quarteirão, havia um portão aberto. Lá dentro, um estacionamento com dois ou três carros. Pararam diante dele.

— Não acho que eu vá te ver de novo — Oda disse.

Algo me diz que você vem bastante aqui.

— Tudo bem. — Airi olhou para ele. Mas não vou incomodar. — A vida é assim.

— Quanto aos livros. — Oda coçou a cabeça. — Eles se baseiam em pessoas. Não sempre, mas às vezes. Normalmente, não pergunto nada. Mas estou na sua frente, então…

— Hm?

— Que nome você quer ter, se eu escrever um?

— Além do meu? — Airi pensava, enterrando as mãos nos bolsos. — Acho que… nenhum. Gosto do meu nome. Sabe como se escreve?

— Não. Possibilidades demais.

— É com “amor” e “razão”.

— Combina com você.

Airi riu brevemente. Disse:

— Minhas amigas dizem que não amo ninguém.

— Ah. Bom. Se eu não te vir de novo… — Oda bateu um sapato na calçada para tirar dele a neve. — Até o além-vida.

Airi deu um passo adentro do estacionamento. Girou para trás, para encará-lo.

— Ou até outra vida? — ela sugeriu.

— Quem é que sabe, afinal? — Oda deu de ombros. Eu não sei, ao menos. — Feliz ano-novo.

— Feliz ano-novo.

Oda acenou e se foi. Não partiu por onde tinham vindo. Sumiu em algum ponto, entre as ruas sem nome e sem trânsito. De volta a ser apenas um desconhecido. Sabe-se lá aonde ia.

Ele, eu não sei. Eu vou exorcizar um espírito.

Notes:

Não sei se alguém se interessa pela personagem, mas ela acabou criando vida na minha mente. Por consequência, inventei um bocado de coisas sobre ela. Se quiser saber mais, basta perguntar!

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