Actions

Work Header

Como Um Refrão

Summary:

Segundas-feiras são péssimas. Descem amargas como remédio. Terças têm gosto residual de conformismo. Um tapa na cara? Sempre a postos para o próximo. Exceto aquela terça horrenda. As várias camadas daquela terça, escondendo em folhas de desastre uma surpresa.

Ao deixá-la na Sagrado Coração, Oda não a esquecera. Só acreditara, piamente como o fervor da fé, que nunca mais veria aquela garota. Muito menos naquela terça. Nunca teria tanta sorte.

Teve.

English version available.

Notes:

Oi! Voltei. Tem várias outras fics que preciso adiantar. Contudo, esta passou um tempo quase concluída. Resolvi finalizar para tirar da frente e focar minhas energias direito. Falando assim, parece que foi chato, mas eu me diverti horrores.

Esta ideia participa do evento #bsdcriativo, cujas regras e termos estão aqui. Concorro nas categorias angst e romance, por mais que romance aqui seja um rótulo discutível. Confira lá os outros trabalhos e participe, caso queira. Ainda dá tempo!

A ideia surgiu pouco após postar Sobre Fantasmas e Maldições. Há mais informações na série A Balada de Airi. As tags Underage Drinking/Smoking se referem à idade mínima para isso no Japão: 20 anos. A idade para tirar carteira de motorista é 18 anos.

Isto aqui é “um slow burn de 9.000 palavras”. Vocês entenderão o porquê. Boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Foda-se, vou pra casa.

Sakunosuke deu meia-volta. Dar de nariz na porta do bar… numa terça? Quando isso tinha acontecido antes? Nunca, talvez?

O que é que tem dado certo esses dias? Nada. Absolutamente nada.

Primeiro, um racionamento de água. A roupa precisou ir à lavanderia. Lá, surrupiaram dele uma camisa.

Depois, um idiota batera o carro num poste. Excesso de velocidade, ouviu dos vizinhos. O idiota sobreviveu com um braço quebrado. Deveria ter quebrado mais. Pra não dizer outra coisa. Resultado: a rua sem luz por seis horas, já no frio de dezembro adentro.

Então, na noite anterior, derrubara um copo. Cacos por cantos inimagináveis. Vodca no chão da cozinha. Também num corte no dedo, tentando pegar vidro para jogar fora. E o Lupin fechado, a cereja do pior bolo do planeta.

Ainda era terça-feira.

É isso. Nada dá certo. Nada nesse inferno.

Dias estressantes eram dias de andar. Não resolveria, certo que não. Talvez causasse mais estresse. Dependia do que, ou quem, encontrasse. Mas gastaria energia, e pensaria menos.

Dali ao apartamento, eram… vinte minutos? Trinta? Quanto mais, melhor. Sakunosuke puxou o maço de cigarro e o isqueiro. Foda-se.

Jogou o isqueiro de volta no bolso. Suspirava o mais fundo possível, de cigarro aceso.

Só foda-se.

Um punhado de bares entediantes, e frequentadores idem, enfeitava aquela parte. Estavam de luzes acesas, os assalariados chegando. Não me misturo com essa gente. Água e óleo. Sei lá.

Um homem apalpava os bolsos diante de uma fachada. Vestia terno, qual todo mundo. Não um terno clichê, no entanto; o conjunto era cinza. Falava sozinho, reclamando de algo. Sakunosuke desviou o olhar. É encrenca. Certeza.

— Ei — o homem disse. — Senhor. Boa noite.

Sakunosuke parou de andar. Sabia. Disse:

— Que é?

— Ah… mil perdões pelo incômodo. Você teria um cigarro, por favor? Meu maço acabou.

Eu deveria ter ficado na cama hoje.

Sakunosuke virou para ver o jeito do tipo. Aparentava uns trinta e poucos. A pele era clara, mas não pálida. O cabelo escuro, penteado para trás, tinha gel em cada fio. Ou brilhantina. Ele parece saído de uma foto antiga.

Os óculos tinham lente e armação grossas. Para completar, uma gravata-borboleta torta e um ar assustado. Não parecia golpista nem assaltante. Sakunosuke puxou um cigarro e estendeu.

Só porque fui com a sua cara.

— Obrigado. — O homem tinha isqueiro e se resolveu. — Não sou fã de fumar em ambiente fechado.

E não liga que fumem na sua mesa? Sakunosuke tragou, evitando-lhe o olhar.

— Está indo a algum lugar? — o homem perguntou.

Deus do céu. Tão puto que me esqueci de andar. Respondeu:

— Pra casa.

— Bom descanso, se ainda for. Deve ter sido um dia longo.

Foi uma semana nojenta. Em quatro dias, ela some do espaço-tempo. O que mais quer saber?

— Foi, sim — Sakunosuke disse.

— O meu acabou há pouco. Estou morto.

Sakunosuke olhou de lado para a escada à direita. As luzes estavam acesas. Uma placa com uma seta e um nome de bar indicavam o segundo piso.

— Trabalha aí? — Sakunosuke perguntou.

— Em qualquer espelunca que me aceite. Aqui é um bom bar, até. Sou pianista.

O que explica o visual.

— Seu nome? — O homem inclinou de leve a cabeça. — Mamoru Ryouba é o meu.

— Oda.

— Mais fácil do que “bom samaritano que me deu um cigarro”. Prazer em conhecer.

É um bar aqui, então. Poderia mudar de planos e tentar afogar os dias horrendos ali. Ou ir para casa e continuar os dias horrendos lá. Tanto faz. Meu dia pode ser horrendo aqui, lá, em qualquer lugar.

Sakunosuke tragava quando a porta abriu no topo da escada.

— Ei, Ryouba — disse outro homem do alto. — Não vai ver o talento da noite? Está perdendo.

— Em um momento — Ryouba respondeu.

O homem de dentro riu de deboche e se fechou lá de novo.

— Talento? — Sakunosuke franziu o cenho.

— Não sei por que a implicância. — Ryouba abanou a cabeça, sorrindo de piedade. — É um talento mesmo.

— Qual é o talento, afinal?

— A banda tocando agora… faltou o baixista deles. Arrumaram outra pessoa de última hora.

— Hã.

— As gracinhas são dor de cotovelo. Eu e mais uns estamos de queixo caído. A substituta é uma menininha. — Ryouba gesticulou mostrando uma altura que lhe batia no ombro. — Uma deste tamanho.

— Tem idade pra tocar aí?

— Diz ela que tem. — Ryouba deu de ombros. — Parece mentira. Vá lá ver. Não cobram taxa dos clientes.

— Não? — Eis uma raridade.

— O show começou faz uma hora e pouco. Dá tempo. Acabam às dez. — Ryouba apagou o cigarro no cinzeiro ao lado. — Obrigado de novo. Se for entrar, não vou te incomodar. Prometo.

Ótimo. Cigarro não é de graça. Sakunosuke apagou o dele também. Mas eu daria mais um. Perguntou:

— Que horas são? — Tenho relógio. Por que perguntei?

— Nove e vinte. Oda, não é? — Ryouba se curvou de leve. — Tenha uma boa noite.

Sakunosuke acenou com a cabeça, e o pianista voltava ao bar. Você me trata por senhor. Deve ter uma década a mais que eu. No mínimo. Os ombros pesavam. A cabeça ameaçava doer. Fiz vinte há uns meses. Resmungou. “Senhor.”

A rua estava um tédio. Parada, como uma terça. Em casa, estaria também. Lá dentro não está, e tem um talento.

Vou ver qual é.

Alongou o pescoço e se arrastou escada acima. A porta era pesada, boa em cortar ruído. A música lá dentro vazava a uma fração do volume real.

Uma conferida ao redor decidiu para ele; gostava dali.

Era escuro a ponto do conforto. Atrás do balcão, guardavam vinis a perder de vista. Garrafas, também, de incontáveis tipos e tamanhos.

Cadeira nenhuma sobrava nas mesas. Numa delas, Ryouba estava de costas para a entrada, de copo na mão. Alguns assentos restavam no balcão, perto da porta.

Nada era de requinte, portanto, saudável ao bolso. A música, no entanto, intrigava. Era só um tema lento de piano… e o baixo estava em silêncio. Onde está a dita cuja?

Sentou-se num dos bancos. Um senhor cansado veio perguntar o pedido e deixar um cinzeiro. A trilha de piano acabou. Sakunosuke escolheu do cardápio na parede o whiskey com mais custo-benefício. É tudo até de qualidade, afinal.

O copo pousou diante dele. De fato, alguém voltava ao palco. Captou com o canto do olhar. A tal garotinha? Sakunosuke fez pouco caso e bebeu.

A nova música anunciava a chegada. Era, sim, um tema caótico. Incomum. Inquieto, até uma pausa.

As notas dela não paravam mais. As maiores responsáveis pelo caos. Um turbilhão fabricado, afiado, girando-lhe a mente.

A conversa do bar morreu.

Os outros instrumentos eram só adornos ocasionais. Pontuando aqui e ali, sem buscar espaço. Ou viajando a outras direções, enquanto ela estrelava o momento.

Sakunosuke desceu o copo ao balcão. Entendi agora a comoção. Reclinou-se para trás, na direção do encosto do banco. Por entre os clientes nas mesas, apareceu a figura miúda. Estava à direita do palco.

Piscou um sem-número de vezes. Sério?

Vestia camisa branca, saia preta e suspensórios. O cabelo estava num coque. A gravata verde-neon era a única peça ousada. Tocava aquele frenesi com um sorrisinho.

Sakunosuke ergueu o copo, brindando sozinho. Não, brindando ao talento. Ainda se reclinava para ver o palco. O copo desceu de quantidade até o estômago reclamar.

Melhor pegar leve. Ou vou achar que vi coisas.

Por um instante, assistir ao bartender lidar com gelo o entreteve. Não acredito. Vi e ainda não acredito. Pediu uns petiscos crocantes. Basicamente, feitos de vento e sal. Vim ficar bêbado. Se comer direito, fico menos bêbado.

O cesto com a comida chegou. Também ficou o encarando, até quase secar o copo. Quais as chances? Passado todo esse tempo…

A música terminou com aplausos modestos. Deem o mundo a ela logo.

Sakunosuke comeu o petisco. Uma batata frita, similar às de pacote, com tempero interessante. Quando não segurava o copo, pressionava a testa com os dedos frios. Era a última pessoa que eu imaginava ver. Não, digo. Nem estava na lista.

Espiou o palco de novo. A música seguinte era uma velha conhecida. Um arranjo recorrente; um clássico, até. As revistas especializadas falavam de uma “simplicidade charmosa”. Não exigia um virtuoso no baixo. No entanto, naquela hora e lugar, podia-se dizer que tinha esse virtuoso.

E as notas retumbavam diferente.

A ideia no começo da noite era passar da conta. Não para ignorar o ambiente. Tive dias de merda, só isso.

No bar do plano B, havia razão para se controlar. Algo a apreciar mais que o fundo do copo. Mais que o tempero das batatas, pelo qual pegava gosto. Havia arte, no puro estado da palavra. E não haveria se…

Deus do céu. Imagine se ela tivesse ido à delegacia.

Imagine se eu não tivesse puxado conversa.

Achara a situação esquisita. Sem motivo além. Uma garota assustada, sozinha num frio daquele, cheirava a má notícia. Ainda mais que não tinha cara nenhuma de quinze anos. Eu não chutaria dezoito agora. Se não soubesse a verdade dela própria.

Bom, eu não aparento vinte. Na direção oposta. Sakunosuke acendeu um cigarro. Fazer o quê.

O bartender ofereceu a segunda dose. Aceitou de pronto. Os ombros doíam menos, e a cabeça dava paz. Não só o whiskey tornava a noite palatável. A música também.

Aparência é engraçada. Pôs a mão no queixo e o cotovelo na mesa, olhando de lado ao palco. Eu também não chutaria que ela matou alguém.

Servida a segunda dose, Sakunosuke abriu a mão esquerda. Avançava ao copo, até fazer o de sempre: conferir a palma.

Já eram seis… sete anos com a cicatriz? Diminuiu desde que te conheci. A pele dali era estranha. Sensível ao frio, não ao toque. Eu disse que não me importava. Menti pra você.

Tomou o primeiro gole da dose. Foi mal.

Outro cesto de batatas, uma terceira dose, outros incontáveis cigarros. Devagar e sempre. O jazz divagava da semana enervante. Não só a boa música, nem só o requinte da execução. Tinha, sim, a ver com a figura no baixo. Parece grande demais pra ela. É parte do charme.

Pensei em você nesses anos, confesso. Vez ou outra. Olhou para o palco com menos discrição. Por onde andava, será? O que estava fazendo? Eu meio que queria saber. E agora, que sabia?

E agora, que a banda recebia a última rodada de aplausos?

O pianista que pedira um cigarro continuava lá. Estava com a banda dele à mesa, ninguém parecendo que sairia dali. A dela deve ficar pro terceiro show.

Precisariam de um canto. Se não houvesse, provável que fossem embora. Provável que ela fosse embora. Provável que eu nunca mais a veja.

Não, não dessa vez.

O bartender apareceu ao ser chamado. Sakunosuke pediu papel e caneta. Logo, chegou um quadrado de um bloco sem pauta. A fita vermelha da lombada deixou um fiapo pendente. A caneta custava uma mixaria.

A terceira banda apareceu no palco, testando o som. Calma, agora. O balcão tinha assentos à direita. Um cara de meia-idade era o baterista da banda dela. Os dois mais novos tocavam guitarra e saxofone. Não acho que ela me viu.

Sem música ao vivo, por minutos que fossem, a conversa era audível. A banda, que se conhecia, tagarelava entre si. Airi, a substituta, dizia pouco. Mesmo assim, a educação na fala dela não era por medo. Todos os quatro bebiam. Não são os pais dela, afinal.

Só um desconhecido sem graça o separava dela. O homem tinha cara de quem criaria raízes no banco. Sem graça ou não, teria que fazer um favor.

— Com licença — Sakunosuke murmurou. Empurrou papel e caneta ao homem. — Diga que pedi um autógrafo da moça.

O homem assentiu e a abordou. Sakunosuke olhava à direita, copo na mão. A qualquer momento.

Entre o ruído, pescou “muito obrigada, qual é seu nome?”, respondido com a correção. Não, não era para ele. O homem se inclinou para trás e o apontou.

De cordial para curiosa, de curiosa para atenta. Sakunosuke acenou. Os olhos de Airi se arregalaram pouco a pouco. Também não acreditei quando te vi.

Mesmo que você seja bem mais impressionante.

O vizinho de banco se levantou. Partiu, comentando que já ia embora. Sakunosuke avançou para trocar de banco. Ela também. Congelaram no caminho.

— Opa — Airi disse.

— Pois é. — Ele se sentou no banco original. Indicou de mão aberta o do meio. — Hã. Primeiro as damas?

— Serve.

— Não esqueça o copo.

— Tá.

Airi saltou para o novo assento. Sakunosuke arrastou o cinzeiro, dando espaço no balcão. A bebida dela era transparente com gelo. Vodca? Quer morrer? Você tem um metro e meio.

— Só uma coisa — ela disse. — Posso?

— Pode o quê?

— Sim ou não.

Como respondo, se não sei o que é?

— Sim? — Sakunosuke respondeu.

Airi cutucou-lhe o mindinho direito. Bem, bem mais de uma vez. Concentrava-se como para salvar o mundo. Ele franziu o cenho. Perguntou:

— Que foi?

— Só me garantindo.

De que existo? Sakunosuke olhou para o lado oposto. Não beba vodca, então.

— Certo, Sr. Ilusão — ela disse. “Senhor”? — E agora?

— Um brinde. — Ergueu o copo com a mão esquerda. — Seria o passo lógico.

— Nunca duvidou de si mesmo?

Sakunosuke segurou o riso. Disse:

— Quem me dera.

Bateram os copos. O gole foi curto, só para dizer que sim. Álcool facilitava conversas de bar. Costumava facilitar. Não estava facilitando.

Ensaiei esse momento algumas vezes. Quando preciso das frases, elas saem passear. Sendo hoje um dia de “foda-se”… Perguntou:

— Vai ver a banda de agora?

— Uma parte, ao menos. E você?

— Vou. Uma parte, ao menos. — Resposta idiota, sim ou sim? — Só me diga se isso é vodca.

— Mais ou menos…? Tem essência de morango.

Ah, claro. Inexperiência e bebida doce. A receita do desastre.

— Preocupado? — Airi sorria um pouquinho.

— Não. — Sim. — Não vim mandar em você.

Vim encher a cara e apagar no sofá de casa. O plano B virou C. Talvez vire um plano D, ou E, ou F… Não depende só de mim.

— Relaxa — ela disse. — Um copo desse me deixa idiota. Você vai ver.

— Gasta pouco, ao menos. — Há quanto tempo você bebe?

— É eficiente. — Airi abafou um riso com a mão. — Ainda quer o autógrafo?

— Posso ganhar?

— Pode. — Ela gesticulou com a caneta. — Se me disser seu nome.

— Eu já disse. — Faz anos, mas é fácil de lembrar. — “Oda” como Nobunaga Oda.

— Não posso saber o primeiro nome de um fã?

Fã? Bom… Pode-se argumentar que sim. Estendeu a mão ao papel e disse:

— Vou escrever—

— A grafia, por favor? — Ela interrompeu o puxão do papel com um dedo.

— Grafia? Certo. Então… — Por que isso é meio constrangedor? — “Construção”, “no” como “no” em kanji e “ajudante”. “Sakunosuke”.

— Ah, é um pouco antiquado. Entendi. — Airi escrevia cada traço na ordem, em caligrafia clara, mas com personalidade. — Um autógrafo é um presente. Deve ser feito com atenção.

Sakunosuke pôs a mão no bolso atrás de um cigarro. Recolheu a mão vazia, encarando um vinil qualquer. Não quero fumar do lado dela.

Airi entregou o papel com as duas mãos. Disse:

— Aqui, espero que goste.

No topo, lia-se o nome. Abaixo, “muito obrigada por vir” e uma assinatura estilizada no centro.

— Obrigado. — Ele pegou o papel, também com as duas mãos. — Vou guardar.

Encararam-se. Airi não soltava o papel. Retiro o que disse. Não é “meio” constrangedor.

Minha cara está pegando fogo. Não é a bebida.

Era um cabo-de-guerra estático. Ela sorria o mesmo sorrisinho visto no palco. Silêncio, amaldiçoado silêncio. Entre eles, apenas; a terceira banda se apresentava por nome.

A pose dela foi embora num acesso de riso. Era infinito, e os colegas de banda olhavam estranho.

Ei, qual é o problema?

— Desculpa — ela disse, lutando para respirar. — Sério. Desculpa. Nunca acredito em como isso funciona.

Isso o quê?

— Enfim, toma. — Airi soltou o autógrafo e limpou lágrimas do canto de um olho. — Acho que temos um monte pra conversar.

Temos. Assim espero.

— “Sakunosuke Oda”… — Ela escrevia com a caneta no ar. — É meio longo, não?

— Um pouco. — Ele guardou o papel no bolso. — Já comentaram isso.

— É fácil de escrever. Menos o primeiro kanji.

— Só preciso espremer em alguns formulários.

— Você não tem cara de preencher papelada.

De fato. Nem lembro quando foi a última vez. Disse:

— Está esperando alguma coisa? — Alguém…?

— Meu pagamento. — Airi deixou a caneta no balcão e pegou o copo. — Se estiver curioso, não é muito.

— Não se pergunta o salário dos outros.

— Oito mil pra cada músico.

— Por duas horas de show? — Sakunosuke ergueu uma sobrancelha. — Parece bom, até.

— O ensaio foi ontem, uma às sete da noite. Eles me ligaram no domingo cedo, passaram o setlist

— Espera. Duas horas dá umas quinze músicas. — Sakunosuke espremeu os olhos. — Você aprendeu quinze músicas em duas tardes?

— Ah, não, não. — Airi abanou a mão, negando. — Só cinco.

— Não vejo como isso é um “só”.

É menos sobre-humano, apenas.

— Admito, não dormi muito. — Ela suspirou, dando de ombros. — É corrido, sim. Mas acontece.

Zanzar pela cidade entregando caixas até parece mamata. Airi tomou um longo gole e se espreguiçou.

— Aquele baixo é seu? — ele perguntou.

— Meio que sim, meio que não. Ainda estou pagando. Comprei usado. Deixei uns brincos de garantia.

— Ouro?

— Prata — Airi corrigiu. — Que custo trazer o baixo aqui.

— Pesado?

— Isso é o de menos. Tive que—

Ela se virou para o bartender que a chamava. Parece ainda mais cansado. O homem a entregou um envelope, cumprimentando-a pelo show. Airi agradeceu com o tom radiante que usara com o vizinho de balcão anterior.

— Teve que o quê? — Sakunosuke perguntou quando o homem se foi.

— Bom… Longa, longa história. — Ela parecia segurar o riso. — Já está de saída?

O quanto você ficar aqui, fico também. Respondeu:

— Não.

— Vamos fazer o seguinte. — Airi erguia um dedo para cada parte. — Termino o copo. Você termina o copo. Daqui, pra um lugar mais calmo. Temos um trato?

…Entendi certo? A resposta fugiu. Não bastava aceitar.

— Aonde acha que vou te levar? — Ela sorria de canto. Parecia ter um plano.

Não tinha sido a frase padrão, convidando a “descansar um pouco”. Na melhor das hipóteses, seria o que pensou. Na pior, era cilada. A hipótese mais provável?

— Não faço a menor ideia — Sakunosuke admitiu.

— É perto, até. — Ela bebeu. — Fui uma vez sozinha. Você vem?

Não acho que iria sozinha ao lugar que pensei. Disse:

— Vou.

E não acho que seja cilada. Sakunosuke bebeu também. Sei que não machucaria ninguém de caso pensado.

— Não precisa enxugar o copo — ele disse. — Pode ir com calma.

— O quanto você bebeu hoje? — Airi rebateu, e ele se calou. Touché. — Não vou julgar.

— Parece muito?

— Deve ter sido.

— Quarta dose agora. — Sakunosuke ergueu uma mão, rendido. — Não vou dar desculpas.

— Cuidado com a ressaca. — Ela deu uma risadinha. — Quer água?

— Talvez fosse bom.

Airi pediu ao bartender. O copo chegou e ela o empurrou à esquerda com as costas da mão. Sakunosuke tomou metade de uma vez. Cacete. Nem percebi a sede. O resto só não desce porque vou passar mal.

Hora de fazer um teste.

— Quer o restante? — ele perguntou.

— Você precisa mais que eu.

Hm, mau sinal. Mas não definitivo. A vodca dela estava na metade. De olhos fechados, ela repousava o queixo na mão. A bebida estava na outra, chacoalhando o gelo para os lados. Balançava as pernas, sem ter onde apoiar os pés.

É um pouco fofo.

— Então — ela disse. — Tem trabalhado em quê?

— É um serviço de entregas.

— Oh, de moto?

— Minivan. — Bebeu mais água. — Pego as encomendas, levo até as lojas. É isso o dia inteiro. Mas fiz tudo que é coisa nesse meio-tempo.

Exceto o que eu fazia de melhor. Sakunosuke lidava com o amargo daquilo. Graças a Deus.

— Até pensei em tirar carteira. — Airi se pôs a filosofar, bebendo mais. — Fica pra depois de pagar o baixo.

— Tem outro emprego?

— Continuo na loja de música. Extras nas férias e tal.

Faz sentido. Se você tem dezoito agora… Espiou o resto da banda dela. Jogavam conversa fora entre si. Não sei se eles sabem.

— Quando conclui? — Sakunosuke perguntou. Ela vai entender.

— Em um trimestre. Aí, nunca mais.

— Parabéns. Parece um saco.

— Mas é um saco — Airi confirmou, segurando o riso. — Por isso mesmo. Nunca mais.

Ela não vai fazer faculdade, creio.

— Minha mãe insistiu. — Ela deixou o copo no balcão. — Rende empregos melhores.

— Nisso, ela está certa.

— Por isso, eu fiz. Queria uma banda que deslanchasse.

Você pode falar isso perto dos caras?

— No caso, só substituí pro pessoal hoje — ela disse. Ei, não leia minha mente. — O baixista sofreu um acidente.

— Está vivo…?

— Machucou o braço. Quando ele melhorar, já era essa vaga. Você curte jazz?

— Deve ser o que mais ouço. E você?

— Ouço mais do que toco. — Airi bebeu mais. E já tocava a maioria do setlist? — Música boa é música boa. Mas tenho outros favoritos.

— Que seriam?

— Mostro mais tarde. Já tinha vindo aqui?

— Não. Sou cliente de outro lugar. — Que fez o favor de estar fechado. Começo a acreditar que foi mesmo um favor. — Sem música ao vivo, digo.

— A cena de jazz da cidade é enorme.

— Agora que disse… — Sakunosuke empurrou o último gole de água garganta abaixo. — É verdade, não?

— Um monte de bares. Uns com sistema de fidelidade, até.

O tipo de coisa que, no fundo da mente, eu tinha notado. Só nunca concluí dessa forma.

— Nunca morei em outro lugar — ela admitiu —, mas o pessoal comenta. Os mais caros pagam tão bem… Vinte mil por noite, por músico.

— Tudo isso?

— Ou mais. Você tem que conhecer as pessoas certas… sabe? Além de tocar bem.

— A vida tem disso.

Airi murmurou um “pois é”, seguido de um gole assustador. Controle-se, garota. Já está falando arrastado.

— Hoje em dia, alguém me contrata. — Ela deu de ombros. — É um começo.

Bem tinha visto o escárnio de um cara desimportante. O talento da noite, foi como a chamou.

O pianista de mais cedo não a defendera do sarcasmo. Talvez nunca tivesse trocado com Airi uma palavra. Mas também não entrara na brincadeira. Certas brigas, não adianta comprar.

Pensando bem. Se não me contratassem por causa da minha cara… Sakunosuke imitou o gole dela. Eu também tomaria um porre.

— E por onde você acha trabalho? — ele perguntou.

— Vários jeitos. — Airi coçou a cabeça. — Sabe aquela seção do jornal? “Precisa-se de…” tal coisa.

— As bandas deixam anúncios?

— Deixam. Também tenho um meu. Umas páginas, fóruns… Você toca uma vez, pegam seu contato. Conhecem alguém que conhece alguém…

— Sei.

— Peguei uns cartões de visitas dos outros. Eu deveria fazer um.

Você tem dezoito anos, não vinte e oito.

— Se ajudar, faça — Sakunosuke disse. — Não sei o que recomendar.

— Os baratos são uma chatice. Fundo branco, letra preta.

Que diferença faz? A informação está lá.

— Ah, é — ela continuou. — Uns bares deixam o público tocar. Consegui shows indo num desses.

— Alguém lá tem banda…

— …E acabam te notando. — Airi bebeu a vodca quase até o fim. — É menos pressão. Mas tem gente excelente. Mesmo os amadores.

Sakunosuke murmurou em concordância e bebeu também.

Não sei o que pensar. De estar aqui hoje. Do diálogo todo. Do que ainda pode acontecer. Balançou o último gole para os lados.

Já tinha puxado assunto com mulheres bonitas. As mais bonitas delas, dolorosa e ironicamente monótonas. Não eram burras. O esforço é que era todo meu. Detesto isso. Não quero que façam o “favor” de falar comigo.

Espiou ao lado. Airi fechara os olhos, quase dormindo sentada. As bochechas rosadas se sobressaíam. Você sabe conversar. Mas não sei o que quer. A ponto de que estou quase perguntando.

— Oh, deram um intervalo — ela comentou, virando-se ao palco. A música parou, mesmo. — É uma boa hora.

— Boa hora de quê?

— Meu baixo está num canto. Não quero atrapalhar.

Hora de irmos, então. Disse:

— Vá lá, vou pagar a conta.

Em sincronia, terminaram os copos.

Airi se levantou e se esgueirou por entre as mesas. Sakunosuke foi ao caixa. Um rapaz parecido com o bartender estava lá. Não fez mais do que atendê-lo e guiar à saída.

De passagem, Airi avisou à banda que ia embora. Ela os cumprimentou pelo trabalho, como pedia a etiqueta. Não é uma reunião com o chefe. Sorte a dela.

— Pronto. — Ela apareceu ao lado, a caixa do instrumento na mão. — Vamos?

Sakunosuke assentiu com a cabeça. Então, pensou duas vezes. Perguntou:

— Você não paga?

— Para os músicos, a primeira bebida é de graça. — Airi se virou para o rapaz do caixa. — Obrigada por isso, inclusive.

Um trabalha pro outro, que trabalha pra um. Engraçado. O rapaz abriu a porta, e os dois saíram. A escada curta levava à calçada e à noite. Sabe-se lá mais aonde.

— Só um instante. — Airi deixou a caixa no chão e abriu. — Que frio.

Como o baixo pode resolver seu problema? Ela pegou um casaco escuro, bem acolchoado, para usar como capa. Tinha bottons e patches por todo lado. Até um da Harley-Davidson. Não sei do que são o resto.

Não tinha todos esses enfeites quando te conheci.

— Quer que eu carregue? — ele perguntou.

— Se fosse longe, eu deixaria. Levo isso pra todo lado. — Airi pegou a caixa fechada e deu de ombros. — Ossos do ofício.

— Aonde vamos, afinal?

Ela apontou um beco lateral ao prédio. Não foi num lugar assim que você…? A ideia comprimia a garganta.

— Por aqui. — Ela lhe beliscou a manga do casaco, indo adiante. Deve ter sido. — Vem, vem.

“Ninguém vai te machucar. Estou aqui, protejo você.” Eu poderia falar isso. Digo, se me faltasse noção. Uma escada de incêndio ficava no meio. Airi subiu, e ele foi junto. Se bastava segurar-lhe a roupa, então, bastava.

Não vou abrir o bico. Credo. Que piegas.

— O que tem lá em cima? — Sakunosuke disse.

— Só a vista. Desculpe decepcionar. Fiz mistério demais.

Não vai. Contara oito lances de escada. Quatro andares, mais provavelmente; já era uma panorâmica respeitável.

— A gente pode subir aqui? — Ele franziu o cenho.

— Não sei.

Sakunosuke segurou o riso. Quem nunca?

— Nunca perguntei — Airi confessou. — Mas desde que ninguém saiba…

É. Há coisas assim, sim.

O terraço tinha estruturas de ventilação e alguns bancos. Estava quase escuro, exceto pela luz de um poste. Se puseram bancos, creio que podemos vir.

Airi se arrastou a um dos assentos, o único junto a uma parede. Encostou cuidadosamente a caixa do instrumento no chão. Espreguiçou, esticando os braços ao alto. Então, com um grunhido de alívio, afrouxou a gravata.

— Até que enfim. — Ela se deixou cair sentada no banco. — Pronto! Chega por hoje.

Moça…? Ela arrancou os sapatos, desfez o coque e chacoalhou a cabeça. Bebeu demais, foi? Sakunosuke rastreou o chão com os olhos. Espera aí, é um sapato de salto? O quanto você mede?

— Queira se sentar. — Airi indicou à direita dela, com a mão aberta. — Se bem que ficou sentado a noite toda…

— Eu… — Droga, o que eu digo? — Tá.

Tão longe, ou tão perto quanto no balcão. Uma aposta segura.

Airi pôs os pés no banco e se abraçou, deitando a cabeça nos joelhos. Murmurou:

— Estou exausta… — Seria hora de dizer o “quer descansar?” ou… — Ainda bem que é férias. Não aguento mais escola.

— Está acabando.

— Já vai tarde! — ela protestou. — Nunca mais quero fazer uma conta na vida.

— Compartilho do sentimento.

— Também não queria usar mais essa roupa.

— Qual o problema com ela? — Cai bem em você.

— Ah, não é feia, mas… — Airi tinha uma bochecha espremida por um joelho. Parecia ainda mais rabugenta. — É meio brega. Não visto isso na rua. Só a gravata, às vezes.

Justo a peça mais extravagante.

— Meu guarda-roupa é um bando de corvos, minha tia diz. — Ela riu da própria piada. — Só roupa preta.

— E é verdade?

— Tem cor em detalhes. Rosa, roxo, vermelho, azul.

— Sei. — O que essa conversa se tornou?

Ela se endireitou com um barulho satisfeito e desabotoou a camisa. Sakunosuke virou o rosto para o outro lado. Isso não é lugar.

— Camisas de botão são pragas — ela disse. — Quanto menos você respira, mais apropriado fica.

Uso a minha com um botão aberto. Como assim, “apropriado”? Com discrição, espiou ao lado. Foram três botões. Não aparece muito.

De qualquer forma, aprecio.

— Ei. — Airi inclinou a cabeça para ele. — Dá um cigarro?

Como sabe que…? Não, era óbvio. Tinha um cinzeiro na minha frente. Devo estar com o cheiro. Respondeu:

— Você não deveria.

— Nem você.

Cérebro? Os contra-argumentos?

— É cedo pra começar — ele arriscou.

— Você fuma desde quando?

“Desde este ano, após 26 de outubro.” Claro que não. Mentira fraquíssima. Nunca funcionaria. Sakunosuke pegou o maço. Desisto.

Restavam dois; uma alfinetada de mau gosto. Ficou com um para si e entregou o último a ela. E pensar que me esforcei pra não fumar do seu lado. Acendeu o cigarro e soltou o isqueiro no bolso.

O casaco dela farfalhou. Que foi, agora? Sakunosuke conferiu ao lado. Airi se espichava na direção dele, puxando-lhe o ombro do casaco. O cigarro intocado acompanhava um olhar pidão.

Ele se inclinou abaixo. Devolveu o olhar constante, até a brasa surgir.

Você é boa em me matar de vergonha.

Airi cruzou as pernas sobre o banco. O casaco saiu dos ombros para virar cobertor. A meia-calça parecia fina para o tempo.

— Nunca vou gostar — ela reclamou.

— Do quê?

— De cigarro. — Airi tossiu. Por que pediu, então? — Mas é por uma boa causa.

— Causa essa que é? — Ele olhou torto.

— Mudar a voz.

— Pra pior?

— Minha voz é a mesma faz dez anos.

É bonitinha. Mas se não gosta, não vou dizer nada.

— Não dá pra cantar o que quero — ela disse. — Ninguém levaria a sério.

— Entendi.

Fez-se silêncio. Não se ouve a música do bar aqui fora.

O saldo fora positivo até então. O lugar novo era uma boa surpresa. O jazz era irretocável. A companhia… Uma análise racional, vamos lá. Sakunosuke expirou.

Ela mudou, claro. Faz tempo, e… Voltou devagar o cigarro à boca. Era uma situação crítica. Racionalmente, não posso esperar que fosse daquele jeito. Racionalmente, prefiro que não seja.

O álcool pesava-lhe as pálpebras. A escória que mexeu com ela era principiante. Ela também. Só não parece. Não quando se livrou das provas tão bem.

Mas sim quando isso te assombrou a tal ponto.

Sakunosuke se recostou na parede atrás dele.

Você só o fez uma vez. Depois da primeira, você começa a esquecer. Esquece de propósito. Aí, esquece no piloto automático. Quando tenta lembrar, não adianta. Já está esquecido.

Airi tinha pouco a esquecer. Fácil, por ser pouco? Angustiante, por ser a primeira vez? E provavelmente, a última. Podia ser medido? Era justo medir? Não, não é.

— Quando começou a fumar? — ele perguntou.

— Faz umas semanas. Por quê?

— Nada.

Se está me dando uma chance, nem sei por quê. Disse:

— O que você quer cantar, afinal?

— Ah, eu ia mostrar. — Airi riu. — Só um segundo. Licença?

Sakunosuke apagou o próprio cigarro. Recolheu o dela também, no cinzeiro portátil. A regra é clara. Sem vestígios, ninguém esteve aqui. E jogar bitucas no chão é de péssimo tom.

Ela tirou um tocador de música de um bolso. Um modelo pequeno, zero em comum com um CD player. Ao apertar um botão, a tela se acendeu. Airi entregou um fone de ouvido e ficou com um.

— Não é um tipo comum de música — ela disse —, mas tem um monte de fãs.

Não custa conferir. A introdução vinha como que de longe, crescendo em volume. Uma melodia requintada. Talvez eu goste. Até um estrondo de guitarras e baterias. Ou talvez não.

Alguém começou a cantar. Se é que podia chamar de tal coisa. Perguntou:

— O que é isso?

— Quer a resposta vaga ou específica?

— As duas… por favor.

— Metal — ela explicou. Sim, isso eu sei. — Death metal melódico é a resposta específica. O que acha?

Nada havia em mente para disfarçar. Só resta a verdade, então. Respondeu:

— Nunca ouvi nada tão barulhento na vida.

Idiota. Se tive uma migalha de chance com ela, acabei de jogar no lixo. Airi riu, cobrindo graciosamente o sorriso.

— Todo mundo diz isso. Escuta só. — Ela ergueu um dedo, pedindo atenção. — Tem um vocal limpo também.

Esse cara canta bem. O contraste é intrigante. Os outros noventa por cento não são.

— Já ouviu o que precisava? — Airi estendeu a mão para recolher o fone.

Já. Sakunosuke o devolveu, comentando:

— Agora, entendo o cigarro.

— Não é? — Ela suspirou. — Queria fazer o vocal limpo. Mas com o meu timbre…

— Faça o outro. Sei lá.

— O gutural? — Airi pausou a música e voltou o aparelho ao bolso. — Não é impossível. Meus vizinhos vão odiar.

Compreensível.

— Você manda bem no jazz — ele disse. — A cena aqui é boa. Não vale a pena?

— Até vale. Mas gosto mais de ouvir, eu disse. Tocar parece… lavar a louça.

Sakunosuke riu baixo. Acrescentou:

— É melhor quando fazem por você.

— Isso. Ou lição de casa. Aprendo, só não me divirto.

“Lição de casa” me parece uma palavra alienígena.

— Tem tocado só jazz? — ele perguntou.

— Toco na banda que me disser “sim”.

— É aquilo de “não se limitar” ou…?

— Mais ou menos. No meu caso, não posso escolher. — Ela deu de ombros. — Só uma coisa ou outra que…

O tom dela era de quem evitava um assunto.

— Algo que não goste? — Sakunosuke arriscou.

Airi riu de nervoso e disse:

— É complicado.

— A seu critério.

— Não, espera. Vou contar ao contrário. Vai ser engraçado.

Primeiro, conheça a ordem cronológica. Depois, quebre-a. Vejamos o que você sabe fazer.

— Vá em frente — ele disse.

— Tá. — Airi confirmou com a cabeça. — Foi um saco trazer o baixo. Eu disse, não disse?

— O que teve que fazer, afinal? — Estou curioso desde aquela hora.

— Primeiro, a banda ligou. Marcaram o ensaio, disseram onde, disseram quando. Eu precisava de uma desculpa. E estou de recesso da escola, então…

— Tem a ver com a tal lição de casa?

— Em parte. Dão uma montanha de coisas pro recesso. A gente se reúne na casa de alguém e faz essa droga.

Ela deve ter deduzido que não acabei a escola. E também que não tenho amigos. O ímpeto de suspirar foi difícil de controlar. Perguntou:

— E aí?

— Aí, começa o plano. Uso muito o baixo, certo? As cordas se desgastam. Minha família não entende de música. Eu precisava sair, e uma corda precisava trocar…

— Você mesma arrebentou a corda?

— E disse que precisava de conserto. — Airi sorriu vitoriosa. — Tenho uma amiga pra casos assim.

— Ela coloca as cordas novas…?

— Isso, eu faço. Ela só atende o telefone. Dessa vez, ela foi o “luthier”. — Ela segurou o riso. — Depois, liguei “pra uma amiga da escola”.

— Ela não é da sua escola?

— Já chego lá. Eu ia “sair pra estudar”… Precisava ser uma colega. Pus os livros na bolsa, essa roupa, peguei o baixo… “Vou deixar no luthier e direto estudar.”

— Não sei se eu acreditaria. — Sakunosuke coçou o queixo. — Não se ficou na rua até agora.

— Não, isso foi ontem. — Airi abanou a mão em negativo. — Larguei a mochila com ela e fui ensaiar. Troquei a corda no estúdio. Peguei os livros. O baixo e a roupa ficaram com ela. Estava em casa às oito.

— Como uma boa moça.

— Né?!

Não sorria assim. Restava olhar para o outro lado. Já me ganhou o bastante.

— Ela me ligou como “luthier” hoje. “Só posso entregar às cinco” — ela concluiu. — Fui lá pegar, vim pra cá. Já não tinha ninguém em casa.

Sakunosuke franziu o cenho. Trabalham à noite? Hm. Disse:

— O que sua família faz da vida?

— Numa conveniência de manhã. À noite, estão num snack bar. As vizinhas comentam um monte.

— Imagino.

— “Não é coisa de mulher direita”, disse a dona de casa que pula a cerca. — Ela fez cara de desagrado. — Se eu abrir o bico, acaba o casamento. Minha mãe nem namora.

Uma vizinha que tive trabalhava num snack bar. Descobri quando fui beber lá. Ela me jogou um charme bem óbvio. Mas faz parte do trabalho. Sakunosuke alongou o pescoço para os lados. Queria cativar o cliente.

— Opinião de gente irrelevante — ele disse. — Lugar de lixo é no lixo.

— Pode não ser fácil.

— Como assim? — Sakunosuke olhou de lado para ela. — Os boatos incomodam?

— Não. É a parte dois da história. — O sorriso de Airi tinha um canto triste. — Já se despediu de alguém?

— Em que sentido? — Alguém morreu, ou…?

— Cortar relações… sabe?

— Já.

— Não queria. Mas acho que é melhor assim.

— Não são as vizinhas, certo?

— É outra coisa. — Ela se ajeitou no banco, olhando para o céu. — Eu tinha um grupo de amigas. Ainda tenho. Por um tempo.

— Quer algum conselho, ou…?

— Não exatamente.

Ótimo. Não saberia ajudar.

— São seis ao todo, contando eu — Airi disse. — Conversamos desde o primeiro dia na sala. Eu acreditava… É clichê, eu sei. Que era pra vida toda. Ficava mais com elas do que em casa. Se não estavam as seis, a gente sempre sabia onde estava quem não foi. Coisa assim. Entende?

Sinto muito, nem parece que isso existe.

— O que aconteceu, então? — Sakunosuke perguntou.

— Primeiro que agora tenho outra melhor amiga. Segundo que… — Airi procurava as palavras entre a embriaguez. Balançava um pouco para os lados. — Três delas não gostaram disso.

— Tem uma terceira coisa?

— Tem. Fui ligando os pontos. — Ela traçava uma constelação com um dedo no ar. — Essas três apareciam mais pra pedir favores. Uma peça de roupa. Dinheiro emprestado. Copiar lição. Dizem algo e “era brincadeira”, mas não pareceu. Nunca sei se gostam de mim. Nem umas das outras. Por coisas tão bobas…

— Gente é uma coisa complicada. — A tal ponto de que praticamente desisti.

— Às vezes, né? — Airi suspirou. — Por que ninguém fala disso?

Porque ninguém quer admitir a culpa. É mais fácil mentir e continuar forçando. Admitiu:

— Também não sei.

— Ainda falo com elas. De vez em quando, só. Mas depois que eu me formar, chega. O grupo já foi metade pra cada lado.

O momento tinha cores de velório. A perda não foi minha. Ninguém nem morreu. É só gente fazendo bizarrices, como sempre.

Airi continuava a ter com quem contar. A família fazia bem. A vida é isso. Tudo muda. Fica o que quer ficar, e o que a maré não arrancou.

Alguns tinham mais; outros, menos. Alguns não tinham nada. Às vezes, Deus não tira, Ele livra. Você disse coisa assim. Olhou para ela, de novo balançando os pés sem tocar o chão.

— Então, você ainda anda com duas? — ele disse.

— Isso.

— E a tal melhor amiga?

— Não estuda comigo. É da mesma idade. Apresentei as três, mas ela é ocupada. Não tem só a escola. É quem me ajuda quando preciso ir tocar.

A maioria da sua idade não tem só a escola. Do que está falando?

— Ela tem que trabalhar…? — ele arriscou.

— Trabalhei com ela uns seis meses. Pode-se dizer. Pouco depois que te conheci.

— Na loja de música?

— Não. — Airi segurou o riso. — Não sei se quero falar disso…

O que diabos vocês fizeram? Disse:

— Se não quiser, não precisa.

— É meio… constrangedor. — Isso não melhora sua situação. — Não ria. Treinei como idol por seis meses. Foi lá que conheci essa menina.

— Não entendo muito do assunto.

Além de que usam roupas bonitinhas e fazem shows. Mas se nem dessa roupa você gosta, o silêncio vale ouro.

— É engraçado — Airi disse. — O produtor apostava muito em mim. Faço o “tipo” desses grupos. Tirando que não sei dançar.

Realmente. São pequenas, magras e fofas. Perguntou:

— Essa menina ainda treina?

— O grupo dela estreou. Ela queria demais isso. Mas não é uma vida fácil.

— Se entendi certo, você largou a ideia.

— Larguei. — Airi passou a encarar o chão. — Sério, o quanto insistiram pra eu ficar… Nem que fossem seis meses no grupo. Não é só cantar, nem só dançar.

— Vai ter que me inteirar do resto.

— Fazer dieta, cuidar da pele, do cabelo. Posar pra fotos. Experimentar roupas. Algumas apertam. Ou são curtas demais. A maioria é horrível. Muito, muito brega.

— É meio como trabalho de modelo, então.

— Antes fosse só isso. — Ela relaxou no banco, recostando-se à parede. — Tem treinamento pra entrevistas. Pra dar autógrafos. Como apertar a mão dos fãs. Se te descobrem tarde na rua, leva bronca, confiscam seu celular. Proibido beber, fumar, namorar…

Quê?

— É. — Airi riu. — Nadinha. Nem casualmente. Tem no contrato.

Deus, que insanidade. Perguntou:

— Como raios controlam isso?

— Eles tentam. Não sobra tempo pra nada, então… Eu dormia na aula, faltava um monte.

— Entendo ter largado.

— Só compensa se você quer muito. Quando o grupo estreia, você fica sem salário um tempo. Tem uma dívida do treinamento.

Mais essa.

— Sem falar que uns fãs… A maioria é de caras mais velhos. Uns são estranhos. — Isso faz de mim um cara estranho? Airi bocejou e pediu desculpas. — Odeio dançar, e as roupas, e não fazer o que eu quero. Então…

— Parte do processo. Você tem que saber do que não gosta.

— Ganhei uma amiga. Ao menos, isso.

— Que bom.

Amiga? Não posso dizer que tenho essa sorte. Só se você entrar na conta.

Mas entrava? Não sabia, e não perguntaria nada. Prefiro assim. Não quero que entenda, só me conheça. Já basta.

Antes daquela vez, conversaram por um instante, só. Sobre um assunto… desagradável. Mais pra ela do que pra mim. Apesar disso, aquele primeiro de janeiro morava num canto especial do peito.

Airi era um primor no baixo. Um amor de pessoa. Não merecia três anos longe da música. Das amigas, da família, do caos da cidade. Não merecia trabalho enfadonho, medíocre, pesado. Uma cama dura, uma cela fria, e sair mais perdida do que entrou. Não merecia se arrepender. Fiz a coisa certa. Não tenho muitas pra recordar.

Não quero pensar em não tê-la feito.

“Mudar o passado” era uma fantasia. Adocicada, mas torpe. Não a salvaria de nada; ela se salvara sozinha. O que estava feito, estava feito. Bem-feito, inclusive. E eu não teria te conhecido se não o fosse.

Como explicá-la na vida dele? Em frases afiadas, persuadindo o leitor a sentir? Dirigindo, indagava coisas assim. Atento à rua apenas o bastante. Se não podia escrever ao volante, podia pensar. Um escritor que pensava mal criava lixo.

Quanto mais penso, melhor escrevo e vice-versa. Nem sempre quero pensar. Quando se tratava disso, contudo, dava-se ao trabalho.

Podia ser a bebida, a conversa, ou a bizarrice da semana. Dar a Airi o precioso benefício da dúvida era tão fácil que parecia errado. Não passamos por poucas e boas juntos. Mas sei o que você fez. Troquei por um segredo meu de igual valor.

Lera em algum lugar: “para o coração, o tempo não existe”. Julgara uma frase das mais estúpidas. Coisa de quem tinha fé nos outros.

Acho que paguei a língua.

— Dormiu? — Airi perguntou.

— Não.

— Você tem cara de quem bebe e dorme. Não me leve a mal.

— Já aconteceu. — Um bocado de vezes.

— Que tipo de bêbado você é?

— Falo um pouco mais. Igual qualquer pessoa. — Sakunosuke ergueu uma sobrancelha. — Não?

— Oh. Você é mais quieto que isso?

Feliz ou infelizmente? Já estou falando bem mais que de costume. Respondeu:

— Creio que sim.

— Por quê?

Se não sei o que falar, como vou saber explicar o motivo? Se bem que… Suspirou, esvaziando os pulmões. Um escritor que não se explica também só cria lixo.

— Atrai menos confusão — ele disse. — E não acho que ninguém queira ouvir.

— Não precisa disso hoje, tá?

Sakunosuke olhou para ela. O rubor do álcool a deixava um pouco mais graciosa. Como assim?

— Não vai criar confusão. — Airi desviou o olhar para o horizonte e ajeitou o casaco sobre as pernas. — Nem incomodar.

— Por que não vou?

Ela se encolheu mais, sorrindo um pouquinho, e repetiu:

— Não vai.

Você está feliz por me ver? A pergunta rodopiava na mente, prestes a escapar pela boca. Ou está brincando comigo? O que é isso? O que eu faço?

Diga alguma coisa, seu idiota.

— Está com frio? — ele perguntou.

— Hein?

— Parece. — Engoliu em seco. — Só…

Já a encarei demais. Chega. Calma. Foco. Sentou-se direito no banco. Olhe para o poste. Respire fundo. Uma coisa de cada vez. Se eu fosse ela, do que gostaria?

Sakunosuke pegou no colarinho do casaco. Tirou o braço da manga e estendeu como uma capa. Convidou:

— Vem cá.

Eu deveria ter bebido mais. Teria feito isso sem pensar. Teria… Ela o encarava em leve interrogação. Só me dê um fora logo. Aceito a derrota. Sou uma decepção.

É tão mais fácil quando é coisa de uma noite.

Airi se arrastou. Sentava-se ao lado, a coxa tocando a dele. O braço desceu, um centímetro após o outro, até pousar nos ombros dela. Posso…?

— Valeu. — Ela suspirou. — Quantos graus, uns cinco?

— Deve ser.

Não acredito que estamos falando do clima.

— Seu perfume é bom — Airi disse. — Qual é?

— É loção pós-barba. — Ei, obrigado. Acho que é meu único luxo. — Acaba ficando na roupa.

— Hmm…

“Tem mais no meu rosto, chegue perto.” Que vexame.

— Ah, é. — Ela se mexeu mais na direção dele. Isso é proposital? — E o livro? Ou livros.

— Não concluí nenhum ainda.

Comentei com ela, é mesmo. Foi como puxei assunto. Como continuei, até… a conversa ficar estranha.

— Sei. — Airi abafou uma risadinha. — Sei bem como é.

— O que quer dizer?

— Tenho um caderno. Dois, na verdade. Um de partitura e um de letras. Um milhão de trechos, ideias, e não sei o que fazer. O trabalho também ocupa…

Infelizmente, faço igual. Não posso me defender.

— O seu livro tem um rascunho — ele disse. — Comecei. Ao menos isso. Só não sei muito bem como usar.

— Em que sentido?

— Se vai ser pra crianças… ou subtrama de um livro pra adultos. Sofro do mesmo problema. — Sakunosuke relaxou o braço sobre ela. Quando foi que fiquei tenso? — Ideias demais, tempo de menos, organização idem.

— Todo mundo da arte fala isso. Talvez te conforte saber.

— Sim e não.

— Quando você pensa, “isso, é por aqui, ficou bom”… No dia seguinte, acha defeito. Sempre assim.

— Ou uma ideia nasce da outra. Tipo as cabeças de uma hidra.

— Acontece toda hora — Airi lamentou. — Não aguento mais.

Nunca pare de criar, por favor. Ponderou e ponderou, o coração estranhamente leve. E agora, o que faço?

Sakunosuke segurou o ombro dela. Ponderou um segundo mais, até puxá-la mais para si. Disse:

— Vai passar.

Airi recostou a cabeça nele. Riu num suspiro aliviado, respondendo:

— Tomara.

Tentar controlar a respiração formava pequenas nuvens. Não foi só desculpa. Está bem frio. Espiou-a; parecia dormir em seu ombro. Encontrou-se sorrindo. Gosto de você aqui.

— Não quero ter que trabalhar — ela reclamou. — Quero ser um gato.

— Um gato?

— Um gato persa de uma senhora rica. Felpudo, mimado, metido.

E fofo.

— Sabe aquela coisa? — Airi disse. — “Não gosto de estudar, gosto de aprender.”

— O problema é a rotina.

— É. Quando não tem shows, reclamo também. Nunca estou satisfeita.

Eu também não.

— Assim é o ser humano — Sakunosuke concluiu. Não que eu entenda do assunto.

— Poderia ser pior.

— Poderia ser melhor, também.

Reclamar faz bem. Se não reclamo, sinto que vou ficar louco.

— Poderia. — Ela aconchegou melhor a cabeça. — Isso cansa.

Eu sei.

— O treinamento de idol, por exemplo — Airi disse. — Consegui a vaga… e joguei fora. Quanta gente queria estar lá?

— Só você sabe o quanto não queria. — Sakunosuke afagou o ombro dela. — Ninguém vai viver sua vida pra você.

— Era uma entrada boa no mercado. Foi minha ideia. Parar de ligar se “não era emprego de verdade”. Eu podia entrar em outra banda depois… sei lá.

— E o que daria em troca?

Airi riu e disse:

— Já tivemos essa conversa.

— Tivemos.

Será que devo…? Ela estava perto, bem perto, há um tempo. Havia de se correr riscos. Mas riscos calculados.

— Posso perguntar uma coisa? — ele disse.

— Não precisa pedir.

— Você… — Obrigado. Agora, a pergunta não sai. Força, seu idiota. — Tem medo de mim, ou coisa do tipo?

Airi riu um pouco alto demais. Respondeu:

— Por que isso do nada?

Porque já me disseram que meto medo. O motivo me é um enigma. Sinto que você daria a resposta. E é diretamente do meu interesse. Então, por favor.

— Porque não quero te assustar.

— Também tivemos essa conversa — ela disse.

A linha de pensamento se partiu. A mão esquerda, ainda lhe segurando o ombro, tinha a dela por cima. A ponta calejada dos dedos entregava infinitas horas de ensaios.

— Ainda bem que tivemos — Airi sussurrou.

Concordo. Sakunosuke respirou fundo. Talvez afastasse da mente um mundo onde nunca a conhecera. Deus, como concordo.

— A marca não saiu. — Ela envolveu os dedos dele nos dela como pôde. — Como você disse.

Diminuiu, mas está aqui. Cometemos o mesmo erro. Você teve um motivo muito mais nobre. Havia algo a dizer. Deveria dizê-lo. Não decidia o quê.

Merda, por que essa palpitação ridícula?

— Posso devolver a pergunta? — Ela ergueu a cabeça, ainda recostada no ombro. — Você tem medo de mim?

Pra cada resposta, tenho uma explicação. Encarou-a de volta. Disse:

— Pareço ter?

— Depende.

Exatamente. Exatamente! Em que sentido? Não sei. Há milhares possíveis. Milhões. Bilhões!

— Não — ele disse. — Não tenho.

Airi se mexeu. Não caia. Segurou-a com as duas mãos. Uma encontrou a cintura dela. Sobre a camisa, sim, mas agradava do mesmo jeito.

Ajoelhada no banco, ela o encarava sem se esticar. Trinta centímetros a mais evaporaram como mágica.

— Não? — ela murmurou entre um riso. Tocou-lhe o rosto com a mão gélida. — Que bom.

A boca estava fria também. O mundo ficou toneladas mais leve. Sakunosuke fechou os olhos. Não acredito.

Glória a Deus.

Encararam-se de perto. Ela é que veio. Quando tive essa sorte?

— Que demora — ela sussurrou.

Perdi tempo. Mentiu:

— Queria conversar.

— Nada impede.

Meio que impede, sim. Ocupamos a boca… e tal.

— Tudo a seu tempo. — Cedeu à vontade de puxá-la pela cintura. — Volta aqui.

Comportavam-se, até. Não por decoro; era só o começo. Estavam a sós. Podia-se fazer muito… talvez? Se ouvisse o pedido do coração. Batia como o de um beija-flor. Calma. Acelerava, na contramão da bebida.

Sem pressa. A mão na cintura dela relaxou. Afagava um pouco. Queria apertar mais. Paciência… paciência. Airi devolvia o toque, mas no rosto, onde havia barba.

— Incomoda? — ele perguntou.

— Pinica um pouco.

Tiro, se me pedir.

— Diz uma coisa. — A pergunta se negava a sair. Fale. — Foi pra agradecer?

Você não amava ninguém, te diziam isso.

— Quê? Não. — Ela tentou não rir. — Eu só quis.

Se fosse, teria sido aquele dia. Não foi.

— Ótimo — ele disse.

Empurrou-a no banco.

A camisa semiaberta exibia uma alça com renda. Não sei a cor… Uma espiada é uma espiada.

Airi o encarava com dúvida. Hora de me chutar, se não quiser. Mas sorriu. Sorriu como quem fingia não saber de nada. Entendi qual é a sua.

Entendeu mais ao ser puxado. Segurado, agradado. Mordido de leve, a intervalos. Entendia, ponto final. Quem queria, fazia. Zero complicações. Poderia ser tudo assim.

— Engraçado — Airi disse. — É igual eu imaginava.

— Oi?

Falar custava caro. Precioso fôlego, gasto em outra coisa. Engraçado o quê?

— Eu não conseguia dormir. — Ela sorriu com cores mais tristes. Sei e não sei do que está falando. — Você lembra?

— Lembro.

— No que acha que eu pensava, pra conseguir?

No futuro. Em Deus. Na paz mundial. Opções demais.

— Era mais… puro. Do meu lado, só. Daí, eu acordava… não tinha ninguém. Era tão real. — Airi desviou o olhar. — Quase acreditava que—

— Era em mim?

Duvido, mas… Ela encarou de volta. Riu, no susto, e uma lágrima desceu. Qual o problema? O que foi? Diga alguma coisa!

— Era — ela respondeu. — Claro que era.

Quê?!

— Achei que era ilusão mais cedo. Meu guarda. — A mão dela afagava-lhe o rosto. Seu o quê? — Meu guia.

“Seu”…

— Fala de novo — sussurrou para ela. Que porra foi que eu disse? — Não. Deixa. Esquece—

— Meu escritor.

Faltava-lhe o ar. Inferno de garota esperta.

— Um dia — ele disse. — Prometo.

E aí, serei digno de você.

Onde começava o próprio corpo? Onde acabava? Eram os dois uma coisa mista. Ainda que unidos só pelos lábios.

Ela conhecia dele uma sinopse. Tudo por uma cicatriz. Nunca ouviria a história inteira. Não se depender de mim. Eu matava pra viver. Era um predador. Um selvagem.

Ajudara outros antes dela. Primeiras vezes costumavam marcar. Já estavam esquecidas. Não os salvara do abismo. E se salvasse mais gente? Até quem não conheço. Basta escrever direito. Salvei você, afinal.

Consigo de novo.

O adeus na igreja nevada era peso-pluma. Combustível para levantar da cama. Até quando acordar era o pior cenário possível.

Sonhara com ela. Pensara nela, também. Sem frequência certa. Sem obsessão. Visitas surpresa, de impacto; despedidas, mais ainda. No abismo, sua luz ofusca. É escrita viva.

A função do texto era parar o tempo. De outra forma, você também escreve. Nisso, você me entende.

Fazia frio. As nuvens brancas entre eles recordavam-no. A mão dela não lhe deixava a face. Sou real. Juro.

— Que horas são? — Airi perguntou.

— Sei lá.

— Você não usa relógio?

Uso. Só bebi demais. Sentaram-se frente a frente. Sakunosuke vestiu a manga solta do casaco. Vejamos…

— Dez pra meia-noite — ele disse.

— Sério?! — Airi vasculhou até encontrar o casaco. — Ah, droga. O trem…

— Tem que ir?

— Passa meia-noite e cinco aqui perto.

Ela recolhia o agasalho, apalpava os bolsos, chacoalhava o cabelo. Imagine ter horário pra voltar. Perguntou:

— “Perto” o quanto?

— Uns… cinco minutos? — Airi deu de ombros. — Minha mãe volta às três e tanto. Mas não posso atrasar. Táxi é caro…

— Uns quatro mil?

— Cinco, nesse horário.

Ela vestiu o casaco. Bebi meu dinheiro. Quatro mil é metade do seu… Airi espanava a saia. Lamentava sozinha o cheiro de cigarro. Sakunosuke a assistia como a um espetáculo exclusivo.

— Odeio esse tipo de problema — ela confessou. Não quer cometer um erro aqui mesmo? — Se eu fosse rica…

— Não era um gato?

— Ou isso. — Airi pôs o baixo em posição melhor de erguer. — Nenhum dos dois trabalha.

O erro pode ser no seu quarto. Se bem que voltar a pé essa hora… Sakunosuke piscou fortemente. Ideias o rodeavam como insetos na lâmpada. Nem sei se você quer. E eu pensando com a outra cabeça. Perguntou:

— Cinco minutos daqui?

— Você me leva lá? — Ela lhe lançou um sorriso discreto.

Abraçou-a pela cintura. O banco baixo era conveniente. Beijou-lhe o decote exposto. Esse perfume. Esse ângulo… Quer me infartar aos vinte?

— De camisa aberta? — ele provocou.

A mão dela achou seu rosto. Novidade foi ela lhe ocupando o colo. Quer, não quer?

— Fecha pra mim — Airi devolveu.

— Já vai.

São só uns minutos. Sei disso. Mas não sei se morro amanhã. Acho que não. Numa nota estranha, encaixavam-se bem. Em cada ida e vinda da boca.

Nenhuma peça de roupa os deixara. Queimavam; esqueciam o frio. Vontade? Bebida? Ou razões enigmáticas? Não jogo chances no lixo. Não um presente desses.

Num estalo, a realidade estilhaçava. Rearranjava-se num vitral afiado. Um caos de ferir os dedos. A beleza da obra era questão de opinião. Um acidente os levara ali. Um acidente me leva a todo lugar.

Olharam-se num instante calado. Sakunosuke fechou cada botão. Cobiçava abrir o resto. Se eu chamar, você vem?

— Que gentileza. — Ela lhe sorriu.

Eu tento. Respondeu:

— Impressão sua.

Saltou a mão para o queixo dela. Funciona, às vezes.

Mais uma vez. Só mais um pouco. Com recato e classe, talhando na memória. Que eu nunca te esqueça.

E vice-versa, talvez.

Levantaram-se. Airi não lhe passava do ombro. Legal. Várias possibilidades. Sakunosuke pegou a caixa do baixo. Perguntou:

— Posso?

— Tá, vai. — Ela lhe agarrou o braço livre. — Posso?

Deve.

— À vontade — ele disse. O relógio mostrava quatro… três para a meia-noite. — Quase na hora.

— É só correr.

— Não é pra tanto.

Para as escadas, então. Cada passo nelas martelava no cérebro. Ressaca, já? Credo. Nunca mais vou beber.

— Você mora sozinho? — Airi perguntou.

— Eu e minha bagunça. — Falei sem pensar. Droga. Pareço um idiota. — Não tem muita bagunça.

Porque não tenho muita coisa. Ela riu e disse:

— E o que tem na bagunça? Roupa?

— Discos. — Furtados de uns trabalhos. Não que eu vá contar. — Um minibar, também.

Parcialmente furtado. Uma garrafa cara ou duas. Comprei os copos, quebrei um deles. Sakunosuke suspirou. É a vida.

— Nem entra álcool lá em casa. Pudera. — Airi deu de ombros. — Minha mãe bebe no trabalho.

Meio que você também. Deixaram o beco. Os bares tinham luzes acesas. A rua parecia um filme de terror.

— O emprego dos sonhos, falando assim — ele comentou —, mas sei que não é.

— Elas contam um monte, mesmo.

Colegas, clientes, polícia… gente. Lidar com gente. Não, obrigado.

Forçou-se a relembrar o mapa. Podiam seguir na avenida larga bem ali. Devia ter movimento. A alternativa era uma ruela escura. A distância era igual. Quero paz. Pegou-a pelos ombros de novo. Airi retribuiu abraçando-lhe as costas. Mais nada.

— Trabalha amanhã? — ela perguntou.

— Sete e meia na empresa. — A ideia fez querer um cigarro. — E você?

— Sei lá.

Resposta curiosa. Aproximou-a pelo ombro. Não tem ordem. Lugar fixo. A única regra é não parar. Igual andar de bicicleta… eu acho.

Pensando bem. Não somos todos assim?

No fim, a rua encontrava a tal avenida. Havia uma larga faixa de pedestres a cruzar. Airi apertou o botão do semáforo. Veículo ia, veículo vinha. Correr não era a ideia.

Ela fechava os olhos. Escutava, apenas, atenta à frequência da vida. Seu guarda, não era? É menos piegas. Sakunosuke escondeu um sorriso. Enxergo pra você um momento.

Ninguém mais ia junto. Atravessaram quando o sinal permitiu.

A entrada da estação ficava enfurnada num canto. Ao redor, só lojas fechadas. Meia-noite e um minuto. Soltaram-se. Devolveu o baixo a ela.

— Ah, só uma coisa — Airi disse. — Veja atrás do autógrafo.

Tem algo no verso? Ela olhou de um lado a outro. Então, gesticulou para ele se abaixar. Não me faça ir com você pra casa. A carne era fraca, e a despedida, convidativa.

Que boca macia. Qual o segredo?

— Liga outro dia — ela sussurrou.

…Oh?

Ela lhe pregou outro beijo e girou nos calcanhares. Sakunosuke endireitou a postura. Respondeu ao “até lá” com um aceno patético e nenhuma palavra.

Já nas catracas, Airi olhou uma última vez. Por cima do ombro, atirou um beijo com o dedo.

O tempo não existe. Está parado. Ao perdê-la de vista, não ousou se mover. Se eu continuar assim… Não. Não acredito nisso. Seria uma farsa idiota.

Só vou pra casa.

Notes:

O pianista foi baseado em uma pessoa real. Aceito palpites sobre quem é.

É difícil, impossível em alguns casos, definir uma relação entre pessoas em apenas um rótulo como “amor” ou “amizade”. É algo que digo (e no qual penso) frequentemente. Estes dois aqui são um caso assim.

Não quero falar demais sobre futuras ideias para a série. No entanto, vale mencionar: criei e retrato Airi como arromântica. Neste ponto da vida, ela ainda não se esclareceu sobre isso. Nota importante: não assexual.

Eles são, sim, pessoas muito diferentes. A natureza da conexão dela com o Oda é de parceria, proteção, compreensão, identificação, diversão e gratidão. É um pouco espiritual até.

O que o Oda é ou não no canon, não sei. Mas gosto de retratá-lo como um solitário. Ele não entende direito outras pessoas e evita se apegar. O que, neste caso, não deu muito certo…

Ou deu? Considerando que, por um instante, ele esteve “ao lado” de outro ser humano, em pé de igualdade, em direção ao mesmo objetivo. Seja esse objetivo a arte ou fazer idiotices de jovens adultos. Por que não os dois?

Espero que tenha sido uma leitura proveitosa. Até a próxima!

Esta fic/autor é parte do LLF Comment Project (em inglês), criado a fim de melhorar a comunicação entre leitores e autores.
Este autor aceita e aprecia feedback, como:

  • Comentários curtos
  • Comentários longos
  • Perguntas
  • “<3” ou emojis de coração como kudos extras
  • Interações de leitor para leitor

Sinto-me mais confortável recebendo críticas construtivas de leitores frequentes ou amigos/as.

Se você gostaria de comentar, mas precisa de ajuda para se expressar, confira o LLF Comment Builder (em inglês).

Respondo à maioria dos comentários e costumo falar pra caramba. Caso não queira uma resposta por qualquer motivo, você pode começar/finalizar seu comentário com a palavra “cochicho”. Caso queira uma resposta, mas não quer que nossa conversa seja pública, pode mandar um e-mail para: [email protected]

Series this work belongs to: