Work Text:
Jisung respirou fundo.
Não era nada demais. Tudo estava bem. Ele estava perfeitamente bem. Não era o fim do mundo só porque alguém já tinha comprado o último pedaço de cheesecake. Principalmente depois de ter pensado naquilo o dia inteirinho e ficado ansioso pelo precioso momento com sua sobremesa favorita para aliviar a chatice de um dia de merda. Tudo certo. Ele podia lidar muito bem com isso.
Aceitando sua derrota ao contemplar o expositor de vidro vazio, decidiu ir até a seção de doces buscar um substituto. Um cheesecake ainda era tudo o que queria, mas estava exausto e não faria outro trajeto longo até encontrar um mercado aberto para checar o estoque. Em vez disso, foi procurar por Snickers, o segundo lugar no seu ranking de prioridades.
No entanto, o universo parecia estar de mal com ele. Aparentemente, fizera alguma coisa para ofendê-lo ou tinha algum astro orbitando ao contrário. Não havia outra explicação para aquela falta de sorte. Não havia mais Snickers. A embalagem de papelão vazia parecia rir da sua cara. Jisung mordeu o lábio e respirou fundo pela segunda vez. Aquilo não o abalaria. Não podia deixar que a situação o afetasse a ponto de desmoronar no meio do mercado, às onze da noite, na frente do outro rapaz que também investigava a prateleira ao lado.
Virou-se, buscando o item número três, aquele que poderia minimizar sua tristeza e toda a tragédia de sua alegria roubada: cookies de chocolate. Era sua última salvação. Não era possível que não os encontrasse. Eram abundantes, tinham em todo lugar.
E… só havia um pacote.
Mal deu tempo de comemorar. Sua mão não chegou a tempo. O companheiro de corredor, aparentemente, também tinha fome de cookies de chocolate e chegou primeiro, abrindo um sorriso de satisfação ao tomar posse do último pacote.
Jisung queria achar um funcionário do mercado e perguntar qual era o problema daquela empresa com ele. E se não eram capazes de fazer o trabalho de reposição direito, porque era impossível que nada estivesse disponível justo na sua vez.
Num dia normal, ele daria as costas, soltaria um “é a vida” e deixaria para lá. Nos piores, brigaria com o desconhecido, diria para encontrar outro doce e que aquele pacote era seu. Era uma questão de priorizar os mais necessitados. Tipo fila preferencial.
No entanto, foi o sorriso do rapaz, tão bonito e sincero, que drenou suas forças para discutir. Era como se pudesse ler a mente do outro e saber que ele estava genuinamente alegre por encontrar seu doce preferido. Jisung conhecia bem aquela sensação. E era por isso que jamais seria capaz de arrancar essa felicidade dele.
Seu próprio corpo, por sua vez, parecia ter outros planos ao se sobrecarregar com a frustração. Já era a terceira vez que era privado do seu conforto, e uma luz vermelha deve ter acendido em seu cérebro, pois sentiu o rosto esquentar e as lágrimas anunciarem sua chegada.
Ficou parado no meio do corredor, encarando o vazio da prateleira, incapaz de se movimentar para sair dali e evitar um constrangimento gigantesco.
— Ah, desculpa. Você queria? — uma voz, a do desconhecido que segurava os cookies, soou, e Jisung cometeu o erro de olhá-lo.
O minúsculo ato de se mexer fez transbordar a água que existia dentro dele. Sentiu os cantos dos olhos ficarem úmidos e a visão embaçar. Não adiantava mais negar: estava chorando. E o mais doloroso era que o cara nem estava debochando. Ele o observava com preocupação, o que fez com que Jisung se sentisse ainda pior.
— Não! — ele refutou com uma voz aguda e trêmula. — Imagina! Não. É seu. Pode ficar.
Esfregou furiosamente as bochechas, agradecendo mentalmente o fato de ter tirado toda a maquiagem antes de sair do serviço, ou estaria parecendo um panda àquela altura.
— Você pode ficar — o estranho ofereceu, mas Jisung não conseguiu mais ficar perto dele, sentindo-se patético por estar chorando por causa de um pacote de cookies.
Fugiu da seção com um aceno às costas para avisar que não queria, puxando lenços de papel da mochila para secar sua vergonha. Olhou para cima, repetindo sem parar para si mesmo que precisava parar de agir como um bobo.
Escapou para a área de laticínios e pegou duas caixinhas de leite de banana para atenuar o nervosismo. Seguiu depressa para o caixa, colocou os itens na esteira e percebeu que não tinha pego nem metade do que realmente precisava da lista. Já não se importava mais. Só queria voltar para casa, cair na cama e esquecer aquele dia catastrófico.
Batuqueou os dedos com impaciência na perna, contendo a vontade de simplesmente abandonar o mercado e desistir das compras quando a moça do caixa chamou a supervisora para excluir um item digitado errado. Depois da remoção do lançamento incorreto, pagou no crédito. Quando chegou ao estacionamento quase vazio, ouviu alguém chamar.
Por um instante, achou que não era com ele, mas o som se aproximava cada vez mais e não pôde conter a curiosidade. Era o estranho da seção de doces. Jisung queria morrer.
— Ei — o rapaz falou sem fôlego, parando diante dele com uma sacola na mão. — Desculpe. Eu só… hm. Eu vou me sentir mal comendo isso aqui porque vi o quanto você queria e… — Ele tirou o pacote de cookies de dentro da sacola e o estendeu. — Pode ficar. É sério.
Não pôde deixar de reparar que o estranho era bonito e, com certeza, seu tipo. Vestia-se como um garoto indo jogar basquete com os amigos, mas tinha o rosto adorável de alguém que lia histórias para crianças. Aparência externa de lobo, mas interior de cachorrinho. Ele certamente tinha um fraco por esse tipo.
Aceitou o pacote de cookies com um peso enorme na consciência. Quis ter o superpoder do fade out, de ir perdendo a opacidade aos poucos até sumir da dimensão atual e partir para outra. Viria bem a calhar naquelas situações.
— Espero que você tenha uma ótima noite — o estranho desejou com um riso sem graça e a mão na nuca, dando alguns passos para trás.
— Espera — Jisung pediu, antes de se arrepender. — Podemos dividir?
O rapaz ficou momentaneamente surpreso antes de erguer um canto da boca e se juntar a ele na barricada de concreto da vaga vazia. Jisung lhe entregou uma caixinha de leite de banana e ficou com a outra.
— Pra começar — disse, enfiando o canudo na caixinha. — Eu não estava chorando por causa dos cookies, ok?
— Ah, não? — O outro rasgou o pacote cuidadosamente e puxou a embalagem transparente com os cookies enfileirados. Pousou-a entre os dois e pegou um com o indicador e o polegar. — Porque eu totalmente compreendo chorar por causa deles. Esses são os melhores cookies de todos.
— Sim! — Jisung concordou com entusiasmo e mordeu o cookie, derretendo-se todo junto com o sabor na boca. — Eles têm essa camada de chocolate por cima e essas gotinhas são macias…
— E essa embalagem deixa eles enfileiradinhos, é perfeito pra pegar.
— Você me entende.
Os dois riram, e Jisung sentiu-se aliviado. Estava também um pouco atordoado de que aquilo estivesse acontecendo de verdade. Afinal, qual era a chance de terminar o dia ao lado de um estranho bonitinho em quem esbarrara no mercado?
— Você está bem? — o rapaz quis saber. — Quero dizer, não precisa me contar. Acabamos de nos conhecer e você provavelmente não quer falar sobre seus problemas com um total desconhecido. Eu sou Chan, aliás.
— Jisung — apresentou-se, depois de terminar o primeiro cookie e espanar os farelos das mãos. — Estou bem. Foi só um dia de merda, sabe? E aí eu estava procurando minha comfort food pra poder me animar um pouco, mas daí alguém chegou primeiro. — Insinuou na direção de Chan, vendo-o sorrir. — Desculpe, você deve me achar um total idiota por usar termos em inglês no meio da frase.
— I don’t mind at all.
— Sério?
— I’m being very serious. Sou professor de inglês. Pra mim é bem cotidiano — explicou.
Jisung começou a rir.
— Ah, que inveja! Você fala muito bem. Eu faço um curso, mas fico muito envergonhado de falar.
— É normal. Todo mundo fica um pouco constrangido. Mas é sempre bom praticar do jeito como você se sente confortável.
— Eu trabalho numa loja de cosméticos e sou maquiador, então ouço termos em inglês o dia inteiro. É natural quando estou no meio daquelas pessoas, mas aí quando eu saio daquele mundo e volto para a realidade, recebo uns olhares tortos.
— Faz parte. Os alunos também se sentem mais à vontade para arriscar na escola e, por isso, não conseguem praticar fora, porque ninguém entende.
— Você deve ser um ótimo professor.
— Eu tento. — Chan lhe entregou o último cookie do pacote. — Sinto muito que seu dia tenha sido péssimo.
— Está tudo bem. Ficou bem melhor agora.
Jisung sentiu as bochechas arderem ao processar tardiamente o que acabara de falar, mas não se corrigiu, porque era a pura verdade.
— Que bom que eu vim correndo atrás de você.
Chan continuava sorrindo, e Jisung sentiu-se todo esquisito por dentro. Os dois se levantaram, percebendo que precisavam se despedir. Estava bem tarde e, pela conversa, ambos faziam parte da classe de trabalhadores que acordam cedo.
Ficou chateado por ter que terminar a conversa sem ter outro pretexto para continuá-la. Chan parecia ser bem legal e fora muito gentil de sua parte abrir mão do último pacote de cookies. E por mais que esse tipo de gesto trouxesse borboletas ao seu estômago e sua cabeça começasse a inventar contos de fadas, Jisung já estava cansado de saber que, com ele, as coisas não davam certo assim.
Sabia que ficaria sonhando com aquele momento pelo resto da noite, mas, naquele instante, tratou de engolir seu lado fofo e preparou-se para se distanciar do desconhecido bonitinho.
— Seria muito estranho eu pedir o número do seu telefone? — Chan perguntou, pegando-o de surpresa. — É que eu gostei de você e queria saber se a gente pode se ver outro dia. Um dia em que você esteja melhor?
Jisung o encarou, perplexo. Aquele cara estava mesmo pedindo seu número de telefone? Assim, do nada?
— Oh, c-claro — gaguejou.
Chan lhe entregou o celular, e ele digitou os números com as mãos trêmulas.
— Tchau, Jisung. — Ele se afastou, e Jisung o viu sorrir para a tela do aparelho, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.
A reação causou um rebuliço dentro de Jisung, e as borboletas, indo contra todas as suas reservas, forçaram a entrada para sapatear por todo o seu corpo.
Quando chegou em casa, estava todo bobo por causa de Chan e de seu sorriso fácil. E, é claro, ficou sonhando com ele até adormecer.
♡
No dia seguinte, Jisung viu a mensagem de Chan no aplicativo e salvou o contato imediatamente. O rapaz não dizia nada além de um "oi" e o aviso de que aquele era o seu número. Uma coisa bem simples. Na foto de perfil, ele olhava para a câmera e fazia um joinha. Qualquer outra pessoa ficaria ridícula naquela pose, mas ele conseguia ficar uma gracinha.
Respondeu com outro "oi", um ponto de exclamação e um emoji de coração vermelho, porque não sabia o que mais dizer. Não tinha coragem para perguntar sobre um próximo encontro, então deixou por isso mesmo, esperando pela iniciativa do outro. Houve um tempo em que era mais direto e não se incomodava em se insinuar para seus interesses românticos, mas, depois de sofrer várias vezes com o coração partido, adquirira um pequeno trauma de se jogar de cabeça em novos relacionamentos. Não queria ler demais nas entrelinhas e acabar interpretando errado as intenções de Chan. Ainda mais se ele fizesse parte daquele grupo de pessoas que só queria mexer com a sua cabeça.
Durante o dia, sua agenda teve um pouco de tudo. Trabalhou na loja, vendeu perfumes e maquiou adolescentes que tirariam fotos para álbuns de aniversário ou formatura. Divertiu-se experimentando os novos lançamentos da área de cremes e, na parte da tarde, usou o tempo vago para gravar um vídeo sobre maquiagem.
Não era muito famoso, mas não era atrás de popularidade que publicava seus conteúdos. Apreciava a sensação de estar no controle de algo que amava muito. Sentia-se autoconfiante ao exibir-se na frente do espelho.
Ensinava como fazer um delineado gráfico quando escutou o celular anunciar uma nova notificação. Num dia qualquer, teria ignorado o som com facilidade, mas a expectativa de que fosse Chan o fez pular da cadeira (é, talvez não fosse nada bom em não se deixar afetar por estranhos bonitinhos).
Murchou assim que viu o logo da escola de inglês que frequentava. Era só uma mensagem lembrando-o da aula de reposição que havia marcado após faltar na semana anterior.
Voltou chateado para a frente da câmera e finalizou a maquiagem. Salvou o vídeo para editá-lo mais tarde e guardou seus materiais.
— Oh, que lindo, Jisung! — Hyunjin, o vendedor que trabalhava com ele, elogiou quando o amigo saiu da cabine. — Não tira! Fica assim!
Jisung afastou o algodão embebido em demaquilante.
— Só dessa vez? — Hyunjin uniu as mãos em frente ao rosto. — Está incrível.
Tinha o hábito de remover a maquiagem depois de finalizá-la porque não se sentia muito à vontade em deixar que pessoas fora de seu círculo social vissem quem ele era no mundo da beleza. Gostava muito de se maquiar e sentia-se bem fazendo isso, mas, ao mesmo tempo, tornava-se um peixe fora d'água quando tentava exibir esse lado para os outros.
— Está bem — concedeu. — Mas me lembre de tirar antes de ir. Eu tenho aula de inglês hoje.
Distraiu-se por completo da própria aparência quando o movimento na loja se intensificou perto do fim do dia, horário em que todo mundo terminava o expediente e dava uma passadinha para comprar alguma coisa. Ficou tão entretido nas conversas com as clientes que mal notou o tempo voar e, quando deu por si, estava atrasado para a aula que não podia perder, ou teria que pagar por outra.
Correu, pegou suas coisas e avisou Hyunjin de que estava de saída e que ele teria que finalizar o fechamento em seu lugar. Chegou à escola uns dez minutos atrasado, pronto para pedir mil e uma desculpas ao professor, quando foi surpreendido por Chan, que vestia o avental do uniforme e claramente o esperava. O rapaz abriu um sorriso lindo que deixou Jisung todo atrapalhado.
— Oi! — cumprimentou, quase sem fôlego. — O que está fazendo aqui?
— Professor de inglês. Remember?
Ele tinha um sotaque que era fofo demais para ser ignorado.
— É verdade! Eu acabei nem perguntando em que escola você trabalhava. Nunca te vi aqui antes, então nem passou pela minha cabeça.
— Eu trabalho num turno diferente e venho repor as aulas dos outros professores quando eles não podem. Quando vi o nome Jisung na lista de chamada, pensei que era muita coincidência. Conhecer dois Jisungs que estudam inglês? Improvável. Então fiquei torcendo pra ser você. Estava ansioso para que chegasse. E… quase achei que não viria. — Ele olhou para o relógio no pulso.
— Ah, desculpe pelo atraso — Jisung falou envergonhado, tentando inutilmente ignorar o fato de que Chan acabara de admitir que ficara ansioso para revê-lo. — Então você vai me dar a aula de reposição? — Mal pôde conter a animação na voz.
— Vou sim. Shall we? A propósito, adorei a maquiagem. Foi você quem fez?
Jisung tapou a boca com a mão e ativou a câmera frontal do celular. Esquecera de remover o delineado. Que droga.
— Sim — resmungou.
— Pra que esse desânimo? Eu achei que fosse maquiador.
— É, mas eu não gosto de sair na rua assim.
— E por que não?
— Sinto o olhar das pessoas. Isso me deixa constrangido.
— Já parou pra pensar que elas te olham porque você ficou muito bonito?
— Nem sempre é por isso — respondeu com pesar.
— Eu achei bonito. It suits you.
O coração de Jisung disparou. Ele arrumou o cabelo com nervosismo, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa. Acompanhou Chan até uma sala pequena e vazia, e sentaram-se na diagonal um do outro. O professor iniciou o conteúdo, e Jisung fez um tremendo esforço para se concentrar, quando tudo o que seu coração fazia era dançar no peito ao som do zunido de seus pensamentos.
Chan falava muito bem, e ele ficou todo desconcertado tentando acompanhar, intimidado por aquele inglês fluente. O professor o incentivava na conversação, e Jisung desviava o olhar sem parar, com o rosto pegando fogo. Queria tanto impressioná-lo, mas sua voz travava repetidamente e, por vezes, dava-lhe um branco que jamais teria em uma aula comum com um professor desinteressante.
No fim da aula, restaram uns cinco minutos, e Chan o fez ir até o quadro branco para jogarem tic-tac-toe, o popular jogo da velha, para matar o tempo. Jisung riu bastante, pois o professor era muito espontâneo e soltava gargalhadas altas que transformavam seu rosto inteiro. Chan ganhou a primeira rodada, e Jisung a segunda, por pura distração do outro.
— It's a tie — Chan declarou. — Você manda muito bem no inglês.
— Obrigado — Jisung conseguiu dizer, apesar de sentir as bochechas doerem.
— O que vai fazer sexta à noite?
— E-eu? Nada. Por quê?
— Na sexta vai ter uma das aulas extras temáticas e vamos fazer bolo de caneca. Não quer vir? Vai ser bem divertido.
Jisung mordeu a parte interna da bochecha para evitar soltar um muxoxo. Ficou um pouco decepcionado por Chan não o ter chamado para um encontro, mas talvez o rapaz só o visse como um amigo mesmo, e ele é que tinha se deixado levar. Como sempre.
— Claro. Que horas vocês começam?
— Às dezenove. Vão te mandar a receita para você saber o que precisa trazer. É só se inscrever na recepção.
— Ok. Eu venho. Bye, teacher — despediu-se com um aceno.
— See ya.
Na sexta-feira, separou os ingredientes e levou uma caneca especial com decoração natalina para a escola de idiomas. Tentou encarar a situação como uma forma melhor de aproveitar o início do fim de semana, já que não faria nada além de ficar em casa, triste por não ter companhia. Apesar de Chan não ser do tipo que conversava muito por mensagens, Jisung ainda estava alegre por terem mantido contato depois do encontro inusitado no mercado.
Na cozinha da escola, reuniram-se cerca de sete alunos de diferentes idades, e Chan coordenou uma aula inteirinha em inglês sobre receitas. Falou sobre unidades de medida, modos de preparo e fez algumas brincadeiras para ver quem acertava as perguntas. No fim, todos misturaram os ingredientes e se revezaram no uso do micro-ondas.
Jisung já esperava um resultado positivo, pois já tinha feito bolo de caneca antes, mas se divertiu vendo um garotinho impressionado com o fato de algo líquido virar sólido tão de repente.
— Obrigado mesmo por vir. Achei que você não viria — Chan lhe disse, depois que a maioria dos alunos foi embora e Jisung ficou para terminar de comer.
— E por que não?
— Não sei. As pessoas acham meio bobo participar dessas coisas. Olha só como quase todo mundo já foi embora. E já nem veio muita gente… — Ele falou bem baixinho, apenas para que o maquiador ouvisse, deixando transparecer certa tristeza.
— Mas sua aula foi ótima. Deu pra ver que todo mundo gostou.
— Você gostou de vir?
— É claro. Por que você não fez um pra você também? Toma, prova um pedaço.
Enfiou o garfo na caneca para tirar um pedaço e, sem pensar, segurou-o no ar, oferecendo a Chan. O professor lhe lançou um olhar que fez as pernas de Jisung fraquejarem. Seus olhos se arregalaram. O que estava fazendo, meu Deus? Tentando dar comida na boca de um cara que acabara de conhecer?
Recuou para disfarçar o constrangimento, mas a mão de Chan segurou seu pulso no lugar, e ele assistiu, atordoado, o outro abocanhar o garfo.
— Muito bom mesmo — Chan elogiou de boca cheia e sorriu satisfeito, ensinando acrobacias às borboletas na barriga de Jisung. — Não esqueçam de assinar a lista de chamada! — avisou na direção dos últimos alunos.
Jisung encolheu-se em seu cantinho e ficou por ali até os batimentos cardíacos desacelerarem. E Chan, como se nada no mundo o afetasse, terminou de dar conselhos sobre como dizer as coisas em inglês e respondeu às perguntas dos mais dedicados.
Guardou a caneca de volta na mochila quando esvaziou e ajudou a limpar a mesa para ter o que fazer. Não queria demonstrar que não desejava ir embora, mas, ao mesmo tempo, estava inseguro em ficar. Afinal, era o local de trabalho de Chan, e Jisung não achava certo atrapalhá-lo puxando assunto.
— Nós teremos outra aula temática no final do mês — Chan avisou, assim que Jisung enrolou o máximo que pôde sem precisar se justificar. — De Halloween. Vamos vir fantasiados. Se você quiser vir, está convidado também.
— Huh… vou ver. Se não surgir nenhum imprevisto. Às vezes, tenho que fazer a maquiagem de alguém para essas festas de Dia das Bruxas.
— Oh. Você sabe fazer essas maquiagens com sangue e machucado?
— Sei. Maquiagem é bem mais do que beleza, sabia? — brincou.
— Vou precisar de umas aulas sobre o tema. — Chan abriu um sorriso.
Jisung olhou em volta e notou que apenas os dois haviam sobrado na cozinha.
— Então, ok. A gente se fala — disse, encaminhando-se para a porta.
— Mas a gente também não precisa esperar tanto tempo pra se ver — Chan acrescentou, e Jisung virou uma estátua. — Você gosta de ir ao cinema? A gente pode ir ver algum filme. Se quiser.
Jisung queria se beliscar. Literalmente.
— Cinema seria ótimo. — Gesticulou com um pouco mais de euforia, sentindo vontade de ranger os dentes de vergonha logo em seguida. — Você gosta mais de Oppenheimer ou Barbie?
— Os dois parecem perfeitos para mim. — O professor se aproximou. — Você tem alguma preferência?
— Eu gostaria de ver os dois — arriscou a insinuação de que poderiam se encontrar mais de uma vez. — Mas a gente pode ver Barbie primeiro.
— Nós vamos caracterizados? Por favor, diz que sim! — O rosto de Chan se iluminou ainda mais, e Jisung deu risada, adorando aquela animação.
— Claro! Por que não? Eu adoraria. Você quer ir todo de rosa?
— Eu queria ir como nessa foto aqui.
Chan puxou o celular do bolso, e o rapaz aproveitou para se aproximar ainda mais dele. Viu por sobre o ombro alheio a imagem de um backstage e soltou uma risada.
— O que foi? Você acha a ideia péssima?
— De forma alguma. Vou adorar aparecer assim no cinema.
— Se achar que é desconfortável, eu topo ir só de rosa mesmo.
— All in, baby — Jisung deu uma piscadela. — Só pra constar, eu sou a Barbie.
Os ingressos estavam esgotados na maioria das sessões, então conseguiram comprar apenas para a outra sexta-feira à noite. Jisung estava supernervoso antes de sair do carro no estacionamento do shopping, porque estava vestido de caubói cor-de-rosa e prestes a atrair a atenção de todo mundo. Para alguém que não queria mostrar nem que usava delineador na rua, havia realmente decidido ir com tudo.
Respirou fundo algumas vezes e enviou uma mensagem a Chan para avisá-lo de que tinha chegado.
chan: vem logo
estou me sentindo um caubói muito solitário
A mensagem o deixou tonto. Jisung empurrou a vergonha goela abaixo a fim de conseguir superar a distância até o cinema e encontrar Chan abandonado na praça de alimentação. Quando o professor o viu, ficou de pé, boquiaberto. Acompanhar aquela reação chocada o fez borbulhar por dentro.
— E aí? O que achou? — Puxou de leve o lenço amarrado no pescoço.
— Perfeito! Você 'tá perfeito. Eu não sei nem o que dizer! — Chan estendeu os braços, e Jisung mexeu os dedos com nervosismo.
O rapaz também tinha seguido o figurino, vestido como a versão caubói do Ken: jaqueta jeans com franjas e tudo. Havia até arrumado o cabelo num topete que o deixara ainda mais fofo. Ofereceu o braço e Jisung, que não era tolo, segurou a dobra de seu cotovelo para fazerem o desfile. Colocaram os chapéus, e o maquiador sentiu-se vivendo em outra realidade enquanto andavam juntos pela área de espera.
Tiraram várias fotos dentro da embalagem cenográfica de boneca que o cinema havia montado para o público e também com algumas crianças que queriam aparecer com eles. Compraram pipoca e refrigerante e, na fila para entrar, muitas pessoas comentaram sobre o visual combinado da dupla.
Jisung estava esfuziante com tudo aquilo: com Chan, com a maquiagem, com a roupa, com aquela atenção boa. Mal podia acreditar que ele realmente sugerira que fossem a caráter e que se esforçara para entregar muito além do esperado. Como um cara daqueles existia?
— Você tem um sorriso tão lindo — o professor elogiou na hora em que se sentaram lado a lado, e Jisung corou violentamente, escondendo-se atrás das mãos. — Oh, não sabia que falar sobre isso te deixaria com vergonha.
— Para de dizer essas coisas! — implorou, totalmente sem graça.
— Por quê? É a verdade. Você merece saber.
— Não sei o que dizer — murmurou, baixando a cabeça e colocando as mãos no colo.
— Não precisa dizer nada. Só precisa ouvir e continuar sorrindo sem parar.
Jisung mordeu o lábio e tomou um gole de refrigerante para acalmar os ânimos. Se Chan continuasse agindo daquele jeito, não sabia se conseguiria aguentar.
Depois dos trailers de outros filmes, conseguiu recuperar o foco e pôr os pés no chão. Infelizmente, deixara passar batido o fato de que sofria com o frio das salas de cinema, e a blusa da Barbie era uma peça minúscula, decotada e curta na barriga. Esfregou os braços nus com as mãos quando o vento gelado do ar-condicionado o atingiu, espremendo-se na poltrona, na torcida para que aquilo não o aporrinhasse demais durante as próximas horas.
— Você está com frio? — Chan sussurrou e, antes que ele pudesse responder, tirou a jaqueta jeans, revelando a camiseta branca que vestia por baixo. — Sou calorento, então não precisa se importar.
Aceitou o casaco com as mãos trêmulas e virou o rosto para o lado, para que o outro não visse o quanto sorria de orelha a orelha. O cheiro do perfume de Chan impregnou suas vias respiratórias; achava que, se o rapaz o tocasse, entraria em combustão espontânea.
O filme era divertido, lindo e criativo, e ele o amou por completo. A experiência ficou muito melhor com a presença de Chan ao seu lado, que igualmente adorou assistir. Quando saíram, o professor falou sem parar sobre o número musical do Ken, e Jisung não lembrava da última vez que dera tanta risada.
— Muito obrigado. Acho que não faço ideia de quando foi a última vez que me diverti tanto assim — disse com honestidade, girando o chapéu pendurado na mão.
— Eu achei que você ia me achar maluco quando sugeri virmos caracterizados. Não pensei que fosse aceitar com tanto entusiasmo. E você ficou incrível. Sério.
— Você também veio perfeito. Eu não sabia que mergulharia de cabeça. Fiquei com muita vergonha de sair do carro quando cheguei. Você é muito confiante. Admiro muito isso em você.
Ficaram quietos durante aqueles segundos em que ninguém sabe mais o que dizer e que, em alguns casos, cortam direto para um beijo emocionante. Só que não estavam numa comédia romântica e não eram nada além de dois doidos que se conheciam não fazia nem um mês.
— Então é isso — Chan disse num sopro, quebrando o silêncio. — No Oppenheimer, nós podemos vir como os Peaky Blinders.
Jisung gargalhou.
— Eu não sei se vou ter coragem de cortar meu cabelo! — Passou a mão na própria nuca. — É muito radical pra mim!
— Ah, agora é radical pra você? — Ele insinuou um gesto para o figurino de caubói cor-de-rosa, continuando a sorrir alegremente.
— Mas acho que o visual da Inglaterra do século vinte eu consigo improvisar.
— Promete? — Estendeu a mão.
— All in, baby — o rapaz riu e apertou os dedos nos dele.
Conhecer Chan não estava em seus planos, mas admitia que o professor era uma surpresa muito bem-vinda. Ficou bem evidente que ambos tinham alguns parafusos a menos e que estavam totalmente à vontade em brincar com fantasias. Não demorou para que a amizade estreitasse e compartilhassem o gosto por viver em uma realidade paralela, onde podiam ser um tipo diferente de pessoa.
Chan lhe apresentou seu gosto por RPG e contou como adorava ir a eventos de cosplay para ver os personagens ganharem vida. Também lhe segredou que ir de Ken ao filme da Barbie tinha sido sua primeira vez naquele mundo das fantasias, o que impressionou Jisung, admirado com o quanto ele se sentira à vontade para se entregar ao papel logo de cara. Não era fácil ser o “esquisito” na frente dos outros, e algo na forma como Chan se sentira bem em fazer aquilo em sua companhia o deixou muito feliz.
O professor também revelou que se constrangera na hora de sugerir que fossem caracterizados assistir ao filme porque já havia sugerido a ideia a outras pessoas e recebido reações negativas. Jisung entendia perfeitamente aquela sensação. Era a mesma coisa que sentia com suas maquiagens. Por mais que algumas pessoas o apoiassem e dissessem coisas lindas sobre o resultado em seu rosto, elas não entendiam o que aquilo realmente significava para ele. E muito menos haviam recebido advertências dolorosas por inadequação para compreenderem o motivo pelo qual ele precisava se esconder.
♡
Na outra semana, Jisung assou cookies de chocolate para praticar uma receita com menos açúcar que aprendera na internet. Gostou tanto do resultado que resolveu separar metade da fornada em uma caixinha de papel personalizada e foi até a escola de inglês, durante seu intervalo na loja, para entregar pessoalmente a Chan. Como sabia que o professor gostava tanto daquilo quanto ele, não viu nenhum problema. No entanto, foi na hora em que pisou na recepção que a ficha caiu.
Congelou na entrada, rindo sem humor para a recepcionista, que o observou com curiosidade. E agora? Se inventasse que errara de porta, acreditariam nele?
— O Chan está dando aula? — perguntou com a voz miúda.
— Eu acho que ele já terminou, só um minut…
— Não! Não precisa chamar. Eu só queria deixar isso aqui.
Colocou a caixa em cima do balcão e estava prestes a dar o fora quando viu Chan sair de uma sala e vir pelo corredor. Ao vê-lo, Jisung não conseguiu mais sair do lugar.
— Jisung! — O professor abriu um daqueles sorrisos capazes de amolecer açúcar, e o rapaz arranhou o próprio jeans num ato de pânico. — O que veio fazer aqui?
— Ele veio deixar isso aqui — a recepcionista interveio. Para o bem ou para o mal de Jisung, vai saber.
— O que é?
Chan o olhou com interesse e cutucou a caixa com os dedos, como se pudesse adivinhar o conteúdo daquele jeito.
— Ah, nada… eu só…
— Você veio me dar uma caixa vazia? — brincou.
— Não! São cookies.
— Cookies? — As sobrancelhas do outro foram parar lá em cima. — Você que fez?
— Sim…
— Você fez para mim? — Ele estava impressionado, e Jisung queria afundar no chão.
— Não é nada demais. Não é difícil de fazer e eu estava com tempo livre, então… — balbuciou.
— Tem alguma coisa que você não faça? — O professor animou-se e puxou o laço, abrindo a embalagem gentilmente.
Não era a intenção de Jisung presenciar a reação dele, mas, como foi inevitável, ficou ali, diante de sua face maravilhada. Chan exclamou de forma exagerada, bem ao seu estilo, pegando um cookie para cheirar primeiro e depois comê-lo com toda uma cerimônia. Fechou os olhos, murmurou em aprovação, e o maquiador já estava passando mal de nervoso.
— São deliciosos!
— Que bom que gostou — Jisung puxou a gola da blusa, imaginando que logo sairia fumaça de seu corpo. — Era só isso mesmo. Eu já vou!
Virou-se abruptamente e esbarrou no totem de papelão que fazia propaganda do intensivo de verão daquele ano.
— Ops! Desculpa! Tchau! — Colocou a figura de volta no lugar e viajou, estabanado, até a porta, sumindo de vista o mais depressa que conseguiu.
Dentro do carro, caiu para o lado e gemeu de vergonha. Fade out! Fade out!, conjurou na própria cabeça, mas, ao abrir os olhos, ainda estava na mesma realidade. Sua barriga torcia e um sinal de alerta acendeu em sua mente; desta vez, porém, o alarme não era para choro.
Era o alarme de “paixonite aguda”.
♡
— O que foi, Jisung? — Hyunjin o encontrou quando ele resolveu se esconder no estoque para surtar. — Aconteceu alguma coisa? — O amigo se agachou para procurar seu olhar.
— Acho que arruinei tudo. — Jisung apertava as laterais da cabeça com as mãos. — Ai, por que eu sou assim?
— Assim como? O que você fez?
— Eu fui no trabalho dele entregar cookies! Quem faz isso? Só um maluco bobo e apaixonado que nem eu!
— Mas de quem você está falando?
— Tem esse cara que eu conheci no mercado e a gente criou uma amizade, mas estou deixando tudo esquisito porque é lógico que eu fiquei apaixonado por ele. Não consigo ver uma pedra me olhando diferente, que já quero casar com ela.
— Calma, você não arruinou nada. É o seu jeito de dar amor às pessoas. Não tem nada demais nisso.
— Mas e se ele ficar todo estranho comigo? E se ele perceber que eu gosto dele e me rejeitar? Eu não vou me perdoar se perder essa amizade só porque não consegui controlar meu coração.
— Bobo! Só porque outros caras agiram feito idiotas com você antes não quer dizer que esse menino que você conheceu vai te tratar mal. Se ele reagir de forma estranha, aí nós vamos saber que ele não te merece. Lembra o que a gente já falou mil vezes?
Jisung fez que sim. Hyunjin já sofrera em várias ocasiões, tendo que aturar seu chororô por causa daquelas paixões efusivas e efêmeras.
— E o pior de tudo é que ele é perfeito, sabe? Ele gosta das mesmas coisas que eu, me faz rir e não tem medo nenhum de parecer um total esquisito na frente das pessoas. Me tratou muito bem nas últimas semanas. Mas acho que ele só me vê como um amigo. Por que é sempre assim?
Hyunjin afagou seu joelho e levantou-se.
— Vem. Chega de chorar por macho.
Jisung aceitou a mão do amigo e voltou para a loja, porque trabalhar era o único jeito de esquecer o fiasco e não pensar em como Chan estaria interpretando o gesto dos cookies. Na pior das hipóteses, o professor lhe daria um gelo e o bloquearia para nunca mais ter contato (conferiu o celular e não, a foto de perfil dele ainda estava lá visível. Ufa). Na melhor das hipóteses, veria o gesto como algo muito fofo e nem passaria pela sua cabeça que fosse fruto de uma afeição mais elaborada. Torcia para que ele fosse denso assim.
À noite, de volta a casa, olhou para os próprios cookies e foi assombrado novamente pela chance de ter estragado uma amizade tão bonita. Era muito difícil encontrar pessoas com quem clicasse de primeira, e Chan era alguém muito fácil de se relacionar. Não sabia o que faria se o outro parasse de falar com ele ou passasse a se sentir desconfortável ao seu lado. Era como ganhar uma montanha de dinheiro e vê-la queimar bem na sua frente.
Seria tão maravilhoso se ele retribuísse seus sentimentos. Era gentil, bonito e fora da casinha como ele. Tinha que ter algum defeito, não é? Porque Jisung não era tão sortudo assim a ponto de conhecer alguém que parecia ter saído de sua própria imaginação. Tinha que ter alguma pegadinha. E certamente era o fato de que o rapaz não se interessaria romanticamente por ele. Porque não era possível, era?
Resmungou até o quarto e enfiou-se debaixo das cobertas. Poxa, o que custava ter um namorado como Chan? Por que tinha que ser castigado daquele jeito? Por que não podia encontrar o homem dos sonhos e partilhar momentos divertidos com ele? Por que tudo precisava ser sem graça ou doloroso, como nos últimos casos que teve com caras que não estavam nem aí para ele?
Escutou o barulho de notificação do celular e descobriu-se para ver o que era.
chan:
oi jisung
você está bem?
jisung:
estou bem sim
e você?
chan:
ótimo!
eu queria ter certeza de como você estava porque você saiu da escola tão depressa
não me deu nenhuma chance de te agradecer direito
jisung:
não precisa me agradecer!
Tentou escrever qualquer explicação que não fosse tão óbvia quanto "eu fiz pensando em você" e que, ao mesmo tempo, transmitisse o mesmo sentimento, só que de maneira branda, mas falhou miseravelmente. Não era bom em disfarçar o que sentia; sua cabeça doía sempre que tentava agir contra a própria natureza. Mas o medo era tamanho que se sentia na obrigação de hesitar.
Conselhos como "você tem que parar de se entregar desse jeito" inundavam sua mente, recordando-o dos tratamentos frios que já recebera de pessoas que perderam o interesse nele. Chan não parecia ser o tipo de pessoa indiferente, mas vai saber se não era exatamente o seu jeitinho intenso de amar que o faria enjoar dele?
Chan, alheio a toda aquela insegurança, o atraiu para seu fluxo de novas mensagens.
chan:
eu nem te contei
mas o dia em que nos conhecemos era o meu aniversário
eu também não estava muito feliz naquele dia porque não tem tanto tempo que me mudei para cá e meus pais moram longe
chan:
seria o primeiro aniversário que eu comemoraria sozinho
e aí eu estava no mercado pra comprar uma comida que eu gostasse
pra tentar ficar menos triste, assim como você também estava fazendo
e aí eu conheci você!
pra mim foi um presente
chan:
eu estou muito feliz de ter conhecido, jisung
você já é especial pra mim de um jeito que você nem imagina
Jisung sentiu os olhos encherem de água à medida que lia as mensagens, precisando afastar o celular para processar aquelas palavras. Levou a mão à boca e ficou relendo, feito um bobo.
jisung:
eu também estou muito feliz de ter conhecido você, chan
você é incrível
eu já gosto tanto de você!
jisung:
desculpa se alguma hora eu passar dos limites
é só me dizer se por acaso você ficar desconfortável
chan:
por que você passaria dos limites?
jisung:
não sei
tem gente que não gosta muito da forma como eu sou
então fico com medo
chan:
pois eu gosto muito da forma como você é
não precisa se esconder comigo, jisung
você me faz me sentir menos sozinho nesse mundo
chan:
você também pode me dizer caso eu faça algo que te desagrade
pode contar comigo daqui pra frente
Jisung sorriu para a tela do celular, tentando imaginar como o outro estaria naquele momento, digitando aquelas mensagens. Deu-lhe uma vontade enorme de abraçá-lo apertado e ficar assim com ele por horas.
jisung:
obrigado por me dizer essas coisas
chan:
anytime
você vai conseguir ir na sexta-feira para o dia das bruxas?
jisung:
sim
mas não consegui decidir a minha fantasia ainda
chan:
você acha que pode fazer a minha maquiagem?
jisung:
então essa amizade é interesseira?
eu sou o amigo com piscina?
chan:
ha-ha!
eu só fiquei curioso
claro que é só se você tiver tempo
eu queria pintar o rosto das crianças também na festa
mas seria melhor se tivesse alguém mais experiente
jisung:
eu adoraria participar!
chan:
é sério?
porque vou entender se você não puder
jisung:
eu posso
eu acho divertido
chan:
você é demais!
Quase uma hora depois de conversa aleatória, encerrou as mensagens e guardou o celular debaixo do travesseiro. Suspirou, pois aquilo era o que mais fazia desde que conhecera Chan, e gastou mais um tempão apenas pensando em como seria tê-lo dormindo ao seu lado.
♡
Quando a sexta-feira chegou, Jisung já tinha tudo organizado: materiais de pintura facial em uma maleta, maquiagens de efeitos especiais em outra. Conversou com Hyunjin para sair bem mais cedo, combinando de compensá-lo cobrindo sua folga em outra data.
Fantasiou-se de feiticeiro. Passara a semana inteira personalizando a longa túnica preta com símbolos da alquimia e até conseguira encontrar um cajado com ponta de caveira para acompanhá-lo. Ficou parecendo um Gandalf das Trevas.
Fez uma maquiagem gótica, colocou anéis grossos e pesados e pintou as unhas de prateado. O chapéu pontudo esconderia o efeito, mas ainda assim resolveu jogar um spray brilhante no cabelo para deixá-lo meio grisalho.
Contente com o resultado, apareceu na escola de inglês no momento em que terminavam de arrumar a iluminação e distribuir as mesas. Haviam enfeitado o gramado com abóboras, espantalhos, corvos e fantasmas feitos de TNT branco.
— Uou! Você não cansa de me impressionar! — Chan o assustou ao surgir do nada, e Jisung virou-se para ver a fantasia dele.
O professor o avisara com antecedência de que iria de vampiro, após o maquiador alegar que precisava saber a temática para decidir o que levar. Mas a informação privilegiada não o preveniu do baque de vê-lo todo arrumado, pronto para arrebatar corações (inclusive o seu). Chan vestia uma longa capa preta de cetim com forro vermelho, camisa branca estilo vitoriano, calça e sapatos sociais. Uma fantasia que tinha tudo para tocar o terror, mas que, nele, ganhava a aura de um galanteador que hipnotiza as presas para sugá-las até a morte.
— Let’s go, vampire. Vamos deixar você pronto para assustar algumas criancinhas e a Olivia Rodrigo — indicou, e os dois seguiram para uma sala vazia.
— Nem acredito que vou ter a honra de ser maquiado por você — Chan dizia, enquanto Jisung aplicava um primer para preparar sua pele. — Sabia que eu vejo seus vídeos no YouTube?
— Ah! Chan! — reclamou, deixando os ombros caírem. — Não diga essas coisas.
— Por que não? É a verdade. Eu gosto de ver você se maquiando. Não consigo imitar nada do que você faz, mas acho tudo muito bonito.
— Fine — bufou. — I’m glad. Thank you.
— My pleasure.
O rapaz deu uma risadinha, e Jisung começou a trabalhar na pele dele, deixando-a bem pálida para dar a aparência de morto. Depois, passou a afundar os olhos com cores mais escuras e avermelhadas. Quando começou a pintar a boca, viu o pincel tremer entre os próprios dedos e sentiu um calor subir ao rosto. Ficou tão concentrado em não deixá-lo perceber seu nervosismo que…
— Buh! — Chan abriu os olhos e fingiu avançar sobre ele.
…esbarrou as costas na carteira atrás de si quando foi assustado de propósito.
— Chan! — gritou, quase tropeçando nas próprias vestes.
— Desculpa! — O professor riu, segurando-o pela cintura.
Jisung inflou as bochechas e procurou a própria dignidade no chão, junto com os materiais que haviam caído.
— Você se machucou? — o outro perguntou, depois que os pincéis já estavam de volta à maleta.
— Não. Está pronta a sua maquiagem. Agora a gente pode colocar os dentes e espirrar o sangue falso.
— Você pensou em tudo.
Ajudou-o a grudar os dentes feitos de unha postiça — uma dica que achara na internet — e depois espirrou sangue falso na boca, no pescoço e um pouco na gola da camisa dele.
— Agora sim você está um vampiro. — Bateu palmas e limpou as mãos num pano.
— Obrigado. Ficou bem mais incrível do que eu tinha imaginado.
Jisung o ajudou a tirar algumas selfies e, depois, Chan tirou fotos dele. Assim que terminaram de se exibir, foram para a área externa, onde os alunos começavam a chegar. No fim das contas, poucos apareceram fantasiados (a maioria crianças) e, aparentemente, só os dois adultos haviam levado o assunto a sério (até demais).
Chan apresentou uma aula sobre o Dia das Bruxas com o auxílio de um telão e, ao final, todos se reuniram para comer salgadinhos e beber suco Ecto Cooler. O evento era simples, sem nada de espetacular, mas Jisung se divertiu muito, e achava que Chan também estava feliz. O professor não parava de olhar para ele, alegre com a fantasia que vestia, e passava o tempo assustando os menores com suas melhores expressões de vampiro.
O maquiador também pintou o rosto das crianças. Nada muito complicado, que tomasse muito tempo: teias de aranha, morcegos e rosas. A garotinha que vestia uma fantasia de caveira pediu que ele fizesse uma pintura no rosto inteiro. Também houve uma menina vestida de fada que quis borboletas nas costas das mãos.
A festa não se estendeu devido ao horário de funcionamento da escola, mas Jisung, mais uma vez, ficou além dos outros adultos, observando Chan tirar fotos com os alunos. Quando as portas se fecharam e restaram apenas os dois na calçada, entristeceu-se ao pensar que teria que voltar para casa e desfazer toda aquela produção. Seria assim que Cinderela se sentira ao ter que voltar para casa à meia-noite?
— Meus dentes caíram — Chan disse, e Jisung deu risada quando o outro mostrou a arcada dentária postiça na mão. — Quer ir comer um cheeseburger comigo?
— Assim? — insinuou, apontando para as fantasias.
— Claro. Por que não? Um feiticeiro e um vampiro entram em um bar…
— É o início de uma piada — Jisung completou.
Os dois riram, e o maquiador guardou todos os materiais no carro para não ter que carregá-los. Depois, caminharam até uma hamburgueria ali perto que ainda estava aberta. Jisung escolheu um lugar na parte externa, e Chan sentou-se ao seu lado em vez de à sua frente. Aquilo o deixou um pouco intrigado, porque não era comum as pessoas fazerem isso. A não ser que quisessem ficar muito perto. Tentou não pensar muito no assunto ao deixar o chapéu pontudo sobre uma cadeira vazia.
— Oh! — a atendente recuou, impressionada ao ver os novos clientes, e depois abriu um sorriso. — O que vai ser para as criaturas mágicas?
— Sangue. Com gelo triturado. Sem limão. E traz um canudo, por favor — Chan brincou.
— Ok, e pra você, bruxinho?
— Vou querer um hambúrguer tropical com bacon, uma Coca e batatas. Pra ele é o combo de cheeseburger mesmo — Jisung respondeu com uma risada presa na garganta. Ao espiar Chan, viu-o com um beiço enorme. — O que foi? Feiticeiros comem comida normal. Ou, já que eu vou ser sua vítima, é melhor me alimentar bem. Não acha?
— Anotado, meus amores. Já volto com o pedido de vocês.
Jisung corou ao perceber que a atendente havia escutado a brincadeira e encolheu-se no assento.
— Muito obrigado por você ter participado hoje. Sério. Eu te achei incrível. Foi muito legal você ter vindo — Chan disse empolgado.
— Não precisa me agradecer — falou sem graça. O entusiasmo de Chan era sempre desconcertante. — Foi divertido.
Conversaram mais sobre a festa e sobre a experiência de Chan como professor de inglês na escola. Jisung também contou algumas histórias de maquiador enquanto esperavam pelos pedidos. Quando os lanches chegaram, vieram cortados ao meio, e ele teve uma ideia.
— Você quer trocar uma metade pela outra? — indicou.
— Eu não. Ugh. Quem come abacaxi no hambúrguer?
Imediatamente, o feiticeiro levou a mão ao peito e fez uma cara de horrorizado.
— Ah, não!
— O que foi?
— Então é esse o seu defeito?
Chan gargalhou.
— Eu não acredito! — Jisung levou as costas da outra mão à testa em um drama teatral.
— É repugnante!
Colocou as mãos nas laterais do hambúrguer, tapando orelhas imaginárias.
— Não escute o que ele diz! Você é perfeito.
— Esse é o seu defeito! Não o meu! — Chan argumentou com um sorriso no rosto. — Ninguém gosta de abacaxi no hambúrguer.
— La-la-la, não ouço mais nada — zombou, dando uma bela mordida no sanduíche.
— Han Jisung!
— Só falta você me dizer que odeia café gelado — resmungou.
— Eu não bebo café.
— Bombastic side eye. Que tragédia! — Fingiu uma dor no coração. — Então esse é o nosso primeiro desacordo? É aqui a bifurcação onde a gente se separa?
Chan continuou rindo, provavelmente pego de surpresa pelo pequeno escândalo, e o resto da refeição ficou cheia de provocações por conta de seus gostos e desgostos. Depois que o professor insistiu em pagar a conta (e quase fez a atendente calcular o abacaxi à parte para que apenas Jisung fosse responsabilizado por aquele crime), voltaram para onde o carro do maquiador estava estacionado.
— Obrigado. Mais uma vez — Chan repetiu.
— Sem problemas.
Aquele silêncio de novo, constrangedor e cheio de expectativas, pesou sobre os dois.
— Você também tem essa sensação de que não quer que a noite termine aqui? — o vampiro disse, apertando o canto da boca ensanguentada. — Porque eu estou aqui pensando em como fazê-la durar, mas as minhas ideias já acabaram.
Jisung apertou o cajado com uma mão e a túnica com a outra, o coração dando várias cambalhotas.
— É que já está bem tarde — ponderou. — E provavelmente tudo vai estar fechado ou fechando…
Chan assentiu, e uma sombra de tristeza passou por sua expressão.
— Mas, se você quiser, a gente pode ir lá pra casa — terminou de falar, medindo a reação do rapaz, que voltou a brilhar diante da sugestão.
— Antes de irmos… — Chan o segurou pelo braço. — Eu só queria ter certeza de que estou lendo isso certo e não estou assumindo coisas. Porque eu gosto muito de você e queria que isso entre nós virasse algo a mais. Mas, se você não tiver o mesmo interesse em mim…
— Eu tenho! Eu tenho, sim! — Jisung agarrou a mão dele ao se dar conta do que o outro estava falando.
Chan riu com o entusiasmo repentino.
— Ah, que alívio! Achei que tinha te perdido na briga pelo abacaxi.
O professor o segurou e ficaram frente a frente, bem pertinhos, coisa que fez Jisung derreter e esquecer que um dia havia detestado pessoas com péssimo gosto para hambúrgueres.
Encontraram-se para um beijo, e o chapéu de feiticeiro caiu às costas de Jisung, mas ele não estava nem aí. Estava nos braços de Chan, e estavam se beijando. Isso até o professor decidir assustá-lo, puxando-o para morder seu pescoço. Jisung gritou de susto, mas depois gargalhou com a tentativa de ataque.
— You've fallen for my trap! — rosnou, apertando o rapaz contra si.
— Oh, no! Você tem certeza de que quer tomar esse sangue de abacaxi? — levantou a sobrancelha.
— Disgusting! — Chan fingiu cuspir várias vezes.
Jisung mostrou a língua para ele e, então, voltaram a se beijar em meio aos risos. Estava imensamente feliz por, finalmente, ter encontrado um amor assim, feito para ele.
