Chapter Text
PRIMEIRO ATO
O Galanthus
Havia alguma algazarra na ala dos empregados. Um amontoado de gente ria e cochichava em volta de um rapaz rechonchudo, de olhos pequenos, testa grande e um sorriso brilhante: o único que não estava usando uniforme.
— Afrod! É o seu dia! — Chanyeol protestou, no meio da conversa, segurando o amigo desuniformizado pelos ombros. — Você não pode passar a sua folga inteira dormindo. A próxima é só em três meses!
— Eu seeei — Afrod respondeu, revirando os olhos e deixando que Chanyeol o sacudisse, como se para colocar juízo na cabeça do amigo. — Mas nem todo mundo aqui aguenta dormir só duas horas por dia, Chanyeol. Alguns de nós são hibernantes!
— É verdade — Lele concordou na sua voz sóbria e bem planejada. — Nem todo mundo aguenta ficar sem dormir uma noite inteira. Mas o que o Chanyeol disse também é verdade, Afre, você tem que aproveitar o Galanthus!
Nesse momento, um barulho alto seguido de um ruído persistente se espalhou pelas paredes de metal da ala dos funcionários. Estavam abrindo as pétalas — o dia estava começando.
— Ai, papai! — Pollche exclamou num sobressalto. — Essa coisa sempre me assusta!
Chanyeol, Afrod e Lele voltaram a rir enquanto Pollche escondia o rosto debaixo das mãos finas e ossudas.
Mesmo que ignorasse as expressões krarches mal traduzidas do amigo, Chanyeol ainda acharia engraçado ver Pollche se assustar tão frequentemente com algo com o qual já deveria estar acostumado, afinal, ele era o mais alto dos quatro.
Pollche e Chanyeol eram de planetas diferentes, mas tinham algo em comum: eram altos. Afrod e Lele, que eram eoulianos, vinham de comunidades humanas naturalmente mais baixas. Eles não viam grande vantagem em crescer mais alguns centímetros, nem tinham sido imbuídos, desde cedo, numa visão de mundo que os fizesse ligar muito para isso.
Entretanto, apesar dos eoulianos não variarem tanto em altura, havia gente de todos os lugares da galáxia no Cruzeiro Espacial Galanthus e, em muitas colônias humanas, a altura é um símbolo de status, ou um critério de beleza. Assim, mesmo que Afrod e Lele inicialmente não se interessassem em saber o quanto mediam, a vida no Galanthus os tinha deixado mais atentos àquele pormenor sobre seus corpos. Era assim que Lele sabia que tinha exatamente um metro e trinta e oito, e Afrod, um metro e quarenta — e que isso era algo esquisito.
— É melhor irmos logo — Lele avisou aos amigos quando o segundo estrondo ecoou pela espaçonave, a fim de evitar que ficassem muito distraídos na conversa e perdessem o início do expediente. — Já estão abrindo a pétala oeste.
Depois de reclamarem da vida por mais um minuto, os amigos se despediram de Afrod, que voltou para a sua célula para aproveitar a folga debaixo das cobertas, e foram trabalhar.
Naquela manhã, Pollche tinha um turno na cozinha, Lele no aquário e Chanyeol na estufa. De tarde, iriam ensaiar com a sua banda para a apresentação que aconteceria à noite; a primeira que tinham em meses . Chanyeol estava animadíssimo por finalmente poder voltar a se apresentar.
— Quem você acha que vai substituir o Afrod? — Chanyeol perguntou a Lele enquanto pegavam um elevador. Ela deu de ombros, sem ideia nenhuma.
— Só espero que seja alguém que toque bem a flauta… — ela acabou respondendo — É uma pena a folga dele ter sido justo hoje.
Apesar de serem todos músicos, oficialmente contratados como tal, o rodízio entre os funcionários era grande, então não tocavam todas as noites. O gerente os remanejava para todo o tipo de função, de limpeza a supervisão, até completarem suas doze horas de serviço diárias (horas de almoço e prática das músicas não inclusa).
Chanyeol, no geral, não odiava aquela vida; gostava de se ocupar, e como não precisava dormir muitas horas, também não se importava. E como poderia se importar se aquela era toda a sua vida?
— Você já ficou no aquário? — Lele perguntou, andando ao lado de Chanyeol para a zona oeste, onde ficavam a estufa e o aquário. À primeira vista, Lele aparentava ser o perfeito estereótipo do povo de Ö: extremamente pragmática, fria e concreta, mas a melhor amiga de Chanyeol, na verdade, também era compreensiva, amigável, e meio medrosa. — Eu nunca fiz um turno lá. Eu não gosto muito dos bichos…
— Eu já trabalhei lá uma vez — Chanyeol respondeu, girando o crachá pela cordinha. — Não é tão ruim. Só me botaram pra esfregar o chão.
— Espero que não me coloquem pra alimentar as orcas — Ela arregalou os olhos, as sobrancelhas se escondendo debaixo da franja quando ela as ergueu.
— Eles podem te colocar pra alimentar os pinguins, já pensou nisso?
Lele sorriu com a ideia de Chanyeol, depois balançou a cabeça para os lados, como se para dispersar a imagem do pensamento.
— O Ogodar deve ter pensado em tudo quando fez as escalas dos turnos da semana. Ele não ia me deixar ter o prazer de alimentar os pinguins.
Chanyeol suspirou ouvindo aquilo.
O planeta de Lele, Ö, era o primeiro depois da Fenda — o grande espaço preenchido por alguns milhares de quilômetros de rocha e alguns milhões de quilômetros de vazio, dividindo a galáxia em duas — e estava bem longe do sol. Apesar de haver planetas ainda mais distantes da grande bola azul de fogo, Ö era o planeta mais frio de Galam. Não existiam pinguins por lá, porque esses eram essencialmente extragalácticos, mas os bichos se pareciam muito com um tipo de animal aquático eouliano.
Chanyeol sabia que Lele não gostava dos animais do zoológico, via de regra, porque eles não eram em nada parecidos com os animais que ela conhecia em Ö, mas os pinguins… os pinguins do aquário, com seu gingado elegante, escorregando de barriga nos tobogãs de gelo, eram a coisa mais adorável aos olhos de Lele — e a lembravam de casa.
Ela estava certa quanto a Ogodar Ono, contudo. O gerente nunca aprovaria uma escala de turnos que pudesse dar alguma felicidade a um eouliano.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, caminhando rapidamente por entre os corredores labirínticos, esteiras nauseantes e elevadores apertados da ala dos empregados, já cheia de gente àquela hora da manhã. A espaçonave era gigantesca; tinham sempre que pegar novos atalhos.
A ala dos funcionários era o sistema circulatório do Galanthus, cheia de pequenas veias, artérias e capilares que se enveredavam, escondidas, por entre as paredes do cruzeiro espacial, irrigando a espaçonave com uma frota de subalternos. Chanyeol achava legal se mover por entre as paredes, mas sempre tinha muito cuidado, porque era muito fácil se perder.
Quando saíram de uma veia e respiraram o ar ao piso zero, a área comum dos hóspedes do Cruzeiro Galanthus, Chanyeol e Lele pararam por alguns segundos para presenciar a abertura das pétalas.
Uma das três grandes estruturas metálicas que envolviam a nave como as pétalas de uma flor já tinha se aberto parcialmente: a pétala superior leste; a superior oeste ainda grunhia e gania, movendo-se para longe do coração da nave quase teimosamente. O barulho das pétalas se mexendo na ala dos funcionários era tenebroso, mas não se ouvia muito ruído ali, no maravilhoso piso zero, ou nos quartos dos hóspedes.
Lentamente, o céu estrelado ia aparecendo por entre as frestas das pétalas, e Chanyeol olhava para ele através do teto transparente da nave com uma expressão maravilhada. Lele abriu um sorriso genuíno. Não era a primeira nem a última vez que veriam o espetáculo, mas a cena nunca perdia a magia.
Todo dia pela manhã (que não se distinguia muito da noite a não ser pelo relógio, já que os dias não existem no espaço), as duas pétalas superiores do Galanthus se separavam, saindo da posição de crisálida. A pétala inferior, a terceira peça do quebra-cabeça, sempre ficava no mesmo lugar, porque ninguém realmente podia vê-la dançando de dentro do Galanthus. Todo dia pela manhã, Chanyeol tinha o prazer de assistir o universo nascer.
Quando o espetáculo mecânico finalmente se encerrou e as pétalas pararam de se mover, estacionando na belíssima posição de repouso, as leves vibrações sentidas no chão e nas paredes da espaçonave também cessaram. Estava na hora de se separarem.
— Tchau, Chanyeol. — Lele se despediu do melhor amigo com um aceno, falando o seu idioma nativo pela primeira vez em semanas. Chanyeol abriu o maior sorriso, porque sentiu falta de ouvir as vogais alongadas do cauvanês. — Bom trabalho!
— Pra você também, Lele! — Chanyeol respondeu, pronunciando cada fonema com uma precisão única, e saiu andando em direção à estufa.
Chanyeol amava estudar sobre os planetas — suas culturas e línguas, formas de pensar, faunas e floras, geologias e atmosferas —, e estudava muito sobre Ö, ou Eoul em galameno, porque queria fazer com que Lele se sentisse em casa quando estivesse com ele. Chanyeol não sabia o que era sentir falta do seu planeta natal, de uma infância distante noutra gravidade, mas imaginava ser difícil viver essa vida deslocada, movida.
Até onde sabia, sua língua mãe era galameno; a língua interplanetária da galáxia de Galam; a língua oficial no Cruzeiro Espacial Galanthus; um projetinho de idioma neutro e universal que Chanyeol detestava.
E o Galanthus, sua primeira e única casa, era a maior espaçonave do sistema solar. Passeava pela galáxia numa viagem intragaláctica eterna, buscando e deixando passageiros em diferentes planetas, cobrando uma passagem um pouquinho mais cara a cada nova parada. Nenhuma outra espaçonave era tão grande e tão potente quanto o Galanthus — e, ainda assim, não era grande o suficiente para se tornar um lar.
Chanyeol não tinha memória dos pais. Não sabia de onde vinha a sua mãe, mas sabia que foi dela que herdou a altura, o tom de pele meio cor-de-rosa e o cabelo encaracolado, porque tinha uma foto dela, segurando um grande bebê que um dia fora ele, colada na porta do seu guarda-roupa. Do pai, só sabia que ele era da Terra, um planeta localizado numa galáxia muito distante daquela, porque, junto com a foto, a mãe o deixara também uma carta.
O pior é que Chanyeol não descobriu que era metade terráqueo porque a mãe lhe contou na carta; descobriu porque ela disse que seu pai chamava o Galanthus de Titanic .
A comparação era engraçadíssima para o rapaz, inclusive. O Galanthus não tinha nada de parecido com o Titanic que, Chanyeol supunha, era uma lenda muito antiga das colônias humanas da Terra, uma metáfora para o amor eterno, se ele tinha entendido bem.
Por causa disso, sempre que tinha algum turno de serviço tirando o pó das esculturas de pedra do museu do Cruzeiro, Chanyeol passava na seção da Terra para ter um vislumbre de algo que era dele. Algo que era ele . Mas, ele achava, não tinha certeza se era capaz de sentir as mesmas coisas que Lele e Afrod sentiam quando iam para a seção de Ö, por exemplo, ou Pollche para a de Lga. E se seu pai nem tivesse nascido na Terra, em primeiro lugar? E se Chanyeol fosse uma farsa?
Ele não amava o Galanthus, mas o Galanthus era tudo o que ele tinha.
✶
Chanyeol fez uma careta quando o leitor da porta da estufa fez um barulho esquisito. Passou o crachá outra vez, mas ainda estava dando Acesso Negado — Área restrita a funcionários . Mas ele era um funcionário!
Respirou fundo, tentando não ficar estressado, tentando mentalizar coisas positivas… Mas será possível?! Problema nos leitores de novo ?! Era a terceira vez no mês!!
Agilmente, pôs-se a correr até o balcão de atendimento mais próximo, onde — se tudo desse certo — encontraria um funcionário de TI que o ajudaria antes de ficar registrado um atraso no sistema. Chanyeol quase nunca se atrasava, já que até gostava dos turnos que pegava, mas estava longe de querer descobrir como o gerente Ono reagia a atrasos.
— Sene, o leitor da estufa deu problema! — ele falou para a mulher de pele escura e cabelos brancos que lutava contra o sono num balcão da área comum.
— Hã, o quê? — ela disse ao despertar, ainda grogue. — Ah, ok. É, eles tão sempre fazendo isso. Me dá o seu crachá, eu vou lá arrumar.
Chanyeol estendeu para a mulher o crachá e a acompanhou de volta à estufa, mas, no meio do caminho, acabou trombando com alguém.
— Desculpe, senhor — Chanyeol falou num tom cortês com o hóspede, um homem alto e parrudo usando terno.
Pôs a mão direita sobre o peito e a mão esquerda atrás das costas, um jeito formal de mostrar respeito no Galanthus. Contudo, nem todos os hóspedes entendiam as convenções sociais artificiais da grande nave multicultural, então Chanyeol sempre acompanhava o gesto com um movimento positivo de cabeça; algo mais universalmente compartilhado pelos humanos. (Mas, bem, o universal não existe, então tinha que ter cuidado com as suas improvisações. Até um meneio inofensivo de cabeça pode significar morte numa língua diferente.)
— Está tudo bem — respondeu o homem, num galameno arrastado, exibindo um sorriso envergonhado antes de se virar e ir embora.
Chanyeol não queria adivinhar de onde o homem era, porque isso é uma tarefa impossível quando as próprias características da pessoa não são específicas de um planeta em especial — e o homem não parecia ser muito distinto, exceto, talvez, pela grande cicatriz pulsante no rosto, que ia da boca até a sobrancelha esquerda, como uma ferida aberta que lutava para cicatrizar. Ele não parecia incomodado pelo ferimento, entretanto.
Mesmo depois do estranho ter saído, Chanyeol ficou ali, olhando para o nada, tentando lembrar se já tinha visto aquele homem alguma vez antes. Era impossível conhecer todos os milhões de hóspedes do Galanthus, é claro, mas Chanyeol tinha uma ótima memória para rostos e gostava de pensar que, se houvesse um hóspede com um rosto tão memorável, ele se lembraria de já tê-lo visto antes.
— Chanyeol, a porta tá aberta! — Sene falou, voltando da estufa e balançando o crachá de Chanyeol no ar. — Você já pode ir.
✶
A estufa ficava na extremidade da zona oeste. Tinha o mesmo teto transparente que o piso zero, mas só era possível ver as estrelas quando as pétalas se abriam por completo, na metade do dia, ficando na posição de desabrolho — a mais bonita, na opinião de Chanyeol. O meio do dia era o horário favorito de Chanyeol, que amava almoçar olhando para a infinitude do universo.
Chanyeol passou o crachá sobre o desenho de um trevo numa das paredes da estufa. Quando a escala de trabalho apareceu, seu nome estava logo na primeira linha da tabela.
— Checar as configurações de luz da seção das plantas panartenses… — ele leu a primeira tarefa em voz alta, meio decepcionado. Já tinha trabalhado na área das panartenses uma vez; queria mesmo era ir para alguma seção de plantas de outras galáxias. Pelo que se lembrava, já tinha visto todas as seções galamenas.
Com alguma relutância, recolheu o crachá e foi andando a passos vagarosos até a seção das panartenses.
Panarti era um lindo planeta cor-de-rosa antefendiano, cujas espécies de plantas e pássaros nunca se esgotavam. A seção da flora panartense na estufa do Galanthus era gigante, incluindo desde as plantas rastejantes e gosmentas marrom-avermelhadas dos pântanos até as grandes e formosas capras, mas Chanyeol já estava meio que de saco cheio de Panarti.
Foi atrás das configurações de luz da saleta e confirmou estar tudo como deveria. Ajustou o timer para a irrigação manualmente e checou se não havia nenhum vazamento de água em nenhum cano da tubulação visível. Passeou por entre as flores e tomou a liberdade de cheirá-las.
Andou pelo caminho de pedra panartense legítima até a fonte decorativa, habitada por plantinhas aquáticas e rodeada pela relva azul-escuro do planeta cor-de-rosa. Um dos canos da fonte não estava vertendo água. Era sempre a água que dava problema…
Depois de terminar o relatório, foi sentar-se num banco debaixo das capras. Elas, lindas árvores de tronco azulado, áspero e robusto, espetado por longos galhos arqueados, em formato de meia-lua, pontilhados por pequenas flores de cheiro agridoce, eram as favoritas de Chanyeol.
As capras eram as maiores plantas da estufa; cresciam até encostar no teto e, como as plantas de Panarti não precisavam de configurações de ar diferentes das configurações padrão da nave, as espécies da ala panartense não ficavam rodeadas de vidro, presas numa caixa estéril e distante. Era possível tocá-las. Não era recomendado, contudo. Muitas pessoas poderiam ter alergias ou transmitir doenças às plantas, o que é mais que expectável quando se trata de organismos alienígenas num lugar hermeticamente fechado. Chanyeol, entretanto, já sabia que as capras eram inofensivas a ele e ele a elas, então as tocava à vontade.
Caperas thu Panashiye, exibia a plaquinha de metal parafusada no chão diante das árvores. A grama envolvia as beiradas da lâmina como se a abraçasse, ou como se a própria vegetação segurasse a sua identificação de origem, orgulhosamente a exibindo para o espectador.
Chanyeol olhou para a placa por mais um tempo com um sorriso contente no rosto que foi perdendo a força enquanto ele pensava. Para além da descrição em galameno, havia mais três traduções para a língua mais influente em Panarti, Oemone e Lga, respectivamente.
Organizadas daquele jeito, uma depois da outra, Chanyeol não podia deixar de notar o quão abatido o galameno soava, com seu alfabeto hiper simplificado e sua estrutura pouco cativante. Ficava claro qual das quatro tinha sido feita por encomenda, numa tentativa desesperada de uniformizar o diálogo diverso de uma galáxia inteira.
Ele suspirou. Sabia ler as outras línguas porque eram as mais faladas no Galanthus — mais ainda que o galameno, porque ser oficial não significa ser a mais popular —, mas seu nível nunca seria comparável ao de um nativo. As palavras que sabia eram todas relacionadas ao serviço, às formas de tratamento respeitosas, ao agrado, aos termos para os diferentes planetas, os nomes traduzidos das bebidas do bar… tudo o que usava no cruzeiro quando atendia os clientes.
Chanyeol não tinha certeza se conseguiria identificar a palavra amor ou, sei lá, desoxirribose na língua panartense, na oemônica ou na umgana. E, mesmo se pudesse, não haveria amor. Não haveria desoxirribose. Haveria um símbolo, uma equivalência; não há paixão na língua segunda, e isso o deixava maluco. Tinha que se limitar a sentir e a viver num idioma planejado, manufaturado; a consequência de uma reunião, não de uma comunhão; uma cultura acultural.
Mas o que é que ele esperava, afinal? Chanyeol não vinha de lugar nenhum! Pelo menos nenhum do qual se lembrasse. Seu planeta de origem era Galanthus, o cruzeiro espacial. Nunca tinha pisado no chão de terra de uma entidade feita de rocha; tudo o que conhecia era o gelado do metal e as gramíneas da estufa (aquelas que não eram tóxicas para o seu organismo).
Shiyanol thu domen-jur. Chanyeol de lugar-nenhum. Se fosse ele no lugar das capras, seria essa a frase traduzida para os três idiomas.
✶
Dez minutos depois de Chanyeol terminar o serviço na estufa, o piso zero encheu de gente. O despertador de todos os hóspedes tocava no mesmo horário para sinalizar a hora de acordar, e a maioria acabava acatando o ritmo circadiano dos relógios programados. Acordavam quase todos à mesma hora, com a exceção dos hibernadores, que precisavam dormir mais seis horas para não passarem o dia inteiro com sono. Chanyeol, que não precisava dormir mais do que quatro para se sentir novinho em folha, fazia muita coisa enquanto eles não levantavam.
— Com licença, onde fica o banheiro?
— É por ali, senhora, depois da placa que diz banheiro .
— Pode me servir um drinque?
— São oito da manhã, senhor, os drinques ainda não estão sendo servidos. Eles começam às nove no pavilhão sudeste.
— Preciso de uma toalha!
— Sim, senhora.
— Ninguém fala a minha língua nesse muquifo?
— Perdão, senhor, eu não entendi o que o senhor disse…
— Chanyeol! — Sene acenou para ele com alguma impaciência, então o entregou um esfregão; tudo muito rápido, como os empregados deveriam fazer. Faça primeiro e fale depois. — Me ajuda a limpar a área da piscina do pavilhão sudoeste! Tá a maior bagunça!
Sem hesitar, Chanyeol agarrou o esfregão e seguiu Sene até a entrada de uma veia. Ela passou o crachá no visor e eles entraram no corredor interno, pegaram uma via rápida e saíram correndo o mais rápido que podiam até o pavilhão sudoeste, sem precisar passar por entre o mar de hóspedes e perturbá-los em seu descanso.
Saíram na área da piscina e, como o pavilhão sudoeste estava vazio — porque eram nove horas e tinham acabado de começar a servir álcool no pavilhão ao lado —, não foi difícil encontrar a bagunça.
Um ou outro hóspede que estava por perto lançava olhares curiosos para a gosma amarelo-esverdeada nojentíssima que sujava o piso, mais nada. Sene fez que ia vomitar antes de começar a esfregar a coisa, sem muito sucesso. Chanyeol tentou falar com algum hóspede, perguntar se viram alguma coisa, porque aquilo não era normal e ele, como sabia muitas línguas, não tinha pudores de conversar com as pessoas. Ninguém sabia de nada.
— Isso é horrível! — Sene falou, ofegante. Ela tinha braços finos por ter um cargo fixo de supervisora e trabalhar como TI na maior parte do tempo, mas mesmo Chanyeol, que estava acostumado com a dificuldade, exigência e morosidade da limpeza, estava tendo problemas para mover aquela gosma. — Fica aí, Chanyeol. Eu vou fechar o pavilhão e pegar uma pá, uma faca, sei lá , um maçarico!
Chanyeol obedeceu. Ficou para trás, lutando contra a gosma, enquanto Sene remanejava os hóspedes para o pavilhão sudeste e, muito discretamente, subia as paredes do pavilhão para isolá-lo dos outros.
Por um momento, Chanyeol sentiu uma coisa ruim — uma tontura, provavelmente resultado do esforço —, o que o fez parar para respirar. Olhou para o céu estrelado, para todas as luzes distantes da galáxia (e de muitas outras galáxias), buscando reconforto.
Voltou a encarar a gosma, que parecia se mover por conta própria, mudar de cor — ou era ele que estava ficando maluco? —, até que uma pulguinha beliscou Chanyeol na orelha. Tinha percebido algo só depois que parou de olhar na direção do algo .
Olhou para o céu outra vez. Talvez tivesse registrado errado da primeira vez. Não, não, não tinha visto errado, mas quase não se deu conta. No céu, uma nova estrela brilhava, bela e distante. Não, não, não era uma estrela, era uma nave; ele reconheceu o brilho metálico, que desapareceu no segundo seguinte.
Era uma pena. Adorava quando outras espaçonaves passavam perto do Galanthus; amava ver os tipos e formatos de espaçonaves galamenas. As de patrulha, geralmente governamentais, eram cinza e meio cabisbaixas; as de exploração tinham quase sempre um formato engraçado. As recreativas eram grandes, sedutoras, atraentes. As de recolha de lixo espacial eram…
— Eu arrumo isso — disse uma voz, de repente, puxando Chanyeol de volta para a realidade. O rapaz gritou de susto quando um homem jogou sobre a gosma um líquido desconhecido. — Cuidado aí, cor-de-rosinha. Isso é ácido.
Chanyeol deu dois passos para trás, horrorizado. No chão, a gosma nojenta se dissolvia, espalhando-se pelo piso.
— Que nojo… — comentou Chanyeol.
— Temos que avisar a gerência — Sene falou, já puxando o rádio para fazer a comunicação. Na mão oposta, ela tinha uma grande colher de sopa e uma tesoura, como se tivesse tido uma ideia brilhante para resolver o problema enquanto passava pela cozinha.
— Pfff — fez o homem. Chanyeol não sabia quem era, mas ele parecia importante. — Até parece. Isso não é nada, eu garanto. Você nem precisava ter fechado o pavilhão.
— Era pra eu ter deixado os hóspedes verem essa coisa, então?
— Eles não estão nem aí pra isso, Senenque. Isso acontece toda semana. A gerência vai mandar você procurar coisa melhor pra fazer se você tentar reportar.
— Isso é recorrente?
O homem revirou os olhos e a ignorou. Sene lançou para ele um olhar longo e cuidadoso — eles deveriam ser próximos, ou pelo menos da mesma cultura, porque o homem a tinha chamado por um nome diferente —, mas não disse mais nada, e o estranho foi embora.
— Termina de limpar o resto pra mim, Chanyeol? — ela pediu, meio aérea.
Chanyeol assentiu sem pestanejar. Sene deu um meio sorriso desanimado e foi embora. Enquanto isso, Chanyeol esfregava o convés.
✶
O clima estava pesado no ensaio da banda. Lele tirava o violino da capa enquanto Pollche sentava-se em frente ao piano desconfortavelmente, esfregando as mãos na calça e olhando para baixo. Chanyeol polia o saxofone, o que não é algo que se faça — pelo menos não com uma baforada e a manga da camisa do uniforme —, mas ninguém ali precisava saber disso. Ele só não queria olhar para ela.
Cinym Vorte já havia tirado a flauta da capa e já estava ensaiando. Ela não olhava para ninguém na sala de ensaio, apenas para frente, tocando a belíssima melodia de introdução da música que performariam naquela noite com extrema perfeição.
Não parecia um ensaio para ela, mas uma formalidade. Vorte tinha um rosto redondo e pequeno, sobrancelhas grossas, cabelo curto e espetado — arrepiado, como se tivesse tomado um choque. A sua pele tinha perdido muito da cor devido ao tempo no Galanthus, sem a influência do sol picante de Lga, tomando agora um bronzeado dourado só levemente mais escuro que o de Pollche. Ela já usava o terno da banda para a apresentação, enquanto todos os outros ainda estavam dentro dos seus uniformes suados.
— E o que vocês têm? — Vorte perguntou quando terminou de tocar a sua parte. Ninguém disse nada. Chanyeol olhou nervosamente para Lele, que estava parada, paralisada . Parecia tão menor do que geralmente era que o violino era quase um violão em suas mãos ansiosas. Pollche ainda não havia tirado os olhos das teclas do piano. — Você aí, do saxofone. Toca o seu solo pra gente ouvir.
Chanyeol arregalou os olhos tão rápido que eles quase saltaram da sua cabeça diretamente para o chão, aos pés de Cinym Vorte e sua voz de trovão. A expressão dela não era nada amigável.
Ele se levantou e, com o coração na garganta, errou a primeira nota do seu solo. Parou, respirou fundo e começou outra vez. Estava na metade quando Vorte bufou em descontentamento e, erguendo uma mão em sinal de pare, reclamou:
— Vocês são muito sem sal, credo — Então ela olhou para Pollche e ordenou, em thysk: — O do cabelão. Toca a sua parte.
Pollche ficou olhando para ela com uma expressão perdida. Chanyeol limpou a garganta e, com um tremor leve na voz, usou o seu melhor thysk para dizer:
— Pollche não fala thysk, ele é krarche.
Cinym Vorte deu uma gargalhada.
— Krarche! — ela debochou em galameno, como se fizesse questão que todos ouvissem. — É sério? A última vez que eu vi alguém de Krarc, foi um mendigo numa ação de caridade.
— Isso não é coisa que se diga pra sua banda — Lele falou num tom sóbrio. Ela apertava o pescoço do violino como se quisesse fazer o mesmo com a mulher. — Você não achar que nós somos bons o suficiente é uma coisa, ser xenofóbica é outra.
— Grande coisa — Vorte olhou Lele de cima a baixo. — Mas você tem razão, não é bom perder o meu tempo fazendo observações pertinentes sobre vocês. É melhor focar na falta de coordenação dessa banda fracassada. Quem era o líder anterior, mesmo?
Ninguém queria responder à pergunta. Chanyeol resolveu se sacrificar daquela vez.
— Afrod — respondeu.
— Afrod do quê? — Vorte especulou.
— Só Afrod.
— Só Afrod?
— Não, só Afrod.
— Foi o que eu disse, Só Afrod.
— O nome dele é apenas Afrod. Ele é eouliano.
Cinym Vorte segurou a risada, mas não se aguentou. Chegou a deixar a cabeça cair para trás de tanto rir.
— Você é muito engraçado — ela falou. — Me pegou direitinho. Ah, eoulianos… são mesmo algo. É seu irmão, o Alfredo? — Vorte se virou para Lele, que ia para responder, mas foi interrompida. — Não quero saber. Sim, já entendi, vocês são mesmo meio podres. Vamos tocar outra música, pode ser?
— O quê? — disse Lele. — Outra música? Mas faltam duas horas para a apresentação, não podemos só tocar outra coisa!
— Vocês não têm repertório?
— Por que você quer que a gente troque de música?
— Porque essa é muito chata!
— Você é muito chata!
— Ei, o que é isso?! — Vorte bradou. — Você tá maluca, sua nanica? Quer perder a vaga de musicista?
Lele abriu a boca para xingar Cinym Vorte do jeito que queria, mas se conteve no último segundo. Olhou para Chanyeol, que tinha os olhos mais arregalados de medo que ela já tinha visto na vida. Se explodisse com Vorte outra vez, todos perderiam a vaga de musicista. Já tinham sorte de poder tocar uma vez por mês; se irritassem a mandachuva da orquestra, estariam f…
— Tá, tá, ficamos nessa música horrorosa de vocês então — Vorte cedeu, revirando os olhos. — Que grande pedaço de lixo. Uma flauta, um sax e um piano. Ah! E uma nanica no violino. Quem compôs isso?
A melodia era de Afrod, a letra era de Chanyeol — apesar de não haver um cantor para executá-la —, e a ideia de incluir a introdução com a flauta tinha sido de Pollche. Deveria simbolizar a harmonia de um grupo diverso; o encontro de almas que vinham de lugares diferentes, mas que tinham o mesmo objetivo. Não era uma composição incomum, mas fazia sentido que Cinym Vorte odiasse uma música que combinasse uma flauta e um saxofone.
Ela havia sido treinada pelas melhores escolas de música erudita de Thys, o maior país de Lga, em que as orquestras são formadas por um pequeno número de músicos tocando o mesmo instrumento. A variedade, para eles, era um sinal de poluição, exagero, falta de habilidade; usar inúmeros instrumentos era compensar a dificuldade inata de comandar apenas um; pobreza de domínio, como diziam. Apesar disso, Vorte era multi-instrumentista, como todos ali. Não poderia trabalhar no Galanthus se não fosse.
— Começo no três — Vorte avisou. — Quando eu acabar, vocês continuam. Um… dois… três.
Ela puxou o ar para os pulmões e o liberou delicadamente, fazendo a flauta borbulhar na melodia animada. O piano começou quando ela terminou, e dali Lele e Pollche tomaram conta da música por algum tempo. Vorte intervinha pontualmente, quando a flauta interrompia a banda, como se para dar a sua opinião numa conversa. O saxofone de Chanyeol entrava do meio para o final, dando corpo à melodia e cor à performance. O violino era o último a falar, porque Lele sempre dava a palavra final nas composições de Afrod.
Quando terminaram, os amigos sorriram para si próprios; estavam orgulhosos da sua música. O sorriso, contudo, morreu quando Vorte olhou para o relógio e disse:
— Ok, crianças, chega de ensaio. Vejo vocês mais tarde.
✶
Chanyeol e Lele corriam pelas veias do cruzeiro espacial. Chegaram numa bifurcação; de lá pegaram a esquerda e correram mais um pouco até alcançarem uma porta na parede direita do corredor metálico e frio e estreito. Desembocaram nos dormitórios da ala dos funcionários.
Chanyeol fechou a porta atrás de si, ofegante. Quando se virou para Lele, quase vendo estrelas de tontura, ela tinha as duas mãos no rosto e a cabeça abaixada.
— Lele? — ele chamou. — Você tá chorando?
Lele não respondeu. Chanyeol deu um abraço meio esquisito nela, sem saber como agir, mas querendo agir de qualquer forma. Ela respirava fundo, forte, rápido, e assim que ergueu a cabeça e Chanyeol viu que a cara dela estava vermelha, ele soube que as lágrimas eram de fúria, não de tristeza.
— Aquela desgraçada da Vorte! — ela gritou no seu cauvanês ligeiro. — A minha vontade é puxar ela pelo cabelo e arrastar a cara dela numa chapa bem quente! Que ódio eu tenho dela! Ela é uma metida insensível…
Chanyeol compartilhava do sentimento, mas Lele ficava com raiva pelos dois. Quando ela estava brava, ele só conseguia ficar calmo; quando ela estava calma, era ele o encarregado de ficar ansioso por ambos. Compartilhavam até aquilo.
— É só por hoje — ele tentou tranquilizá-la. — Pensa assim: é só pro Afrod ter a folga trimestral dele, amanhã ele já tá de volta e a gente nunca mais vai ter que trabalhar com ela. Além disso, mesmo sendo horrível, tocar com a Cinym Vorte tem o seu valor.
— Não sei se isso vale a humilhação.
— Tudo vale a humilhação.
— Nem tudo.
Chanyeol comprimiu os lábios. Tinha feito o melhor que podia. Lele ainda o encarava, de cabeça levantada, porque só assim podia olhar o amigo alto nos olhos. Continuaram ali por um tempo, esperando por Pollche enquanto Lele secava as lágrimas do rosto desajeitadamente.
Assim que Pollche chegou, segurando um prato com quatro bolinhos numa mão e uma vela na outra, Chanyeol e Lele prontamente se puseram a ajudá-lo. Foram para a porta da célula de Afrod; Chanyeol acendeu a vela num dos bolinhos, Lele bateu na porta e Pollche segurou o prato, todos com o maior sorriso no rosto.
Quando Afrod abriu a porta, os três gritaram:
— Feliz dia de folga!
Afrod, que já tinha acordado há muito tempo, pulou de susto e começou a lacrimejar de emoção pela surpresa. Chamou os amigos para dentro da célula e os quatro, espremidos no quartinho pequeno e abafado, comeram seus bolinhos entre risadas.
— E como foi o ensaio? — perguntou Afrod. — Sinto muito por não poder tocar com vocês hoje. Era o único dia disponível pra folga…
— Não peça desculpas! — Pollche respondeu imediatamente, na sua voz redonda e arejada. — Folga é folga.
— Sim, folga é folga! — ecoou Chanyeol, exibindo um sorriso sujo de chocolate, ainda sem responder à pergunta que Afrod tinha feito. — Você não sabe a inveja que a gente sentiu de você o dia todo.
— Quem me substituiu? — Afrod tornou a tocar no assunto.
Os três ficaram em silêncio por um momento objetivamente curto, mas subjetivamente eterno. Foi Lele quem se voluntariou para falar daquela vez:
— Vorte.
Afrod arregalou os olhos em choque e devastação; entretanto, antes que pudesse dizer alguma coisa, Pollche interveio:
— Mas não foi tão ruim! Ela é difícil, mas a gente se virou. Além do mais, é só por hoje.
— É — concordou Chanyeol. — Não tem que se preocupar com a gente. A Vorte não é a pior pessoa que já nos liderou.
— Sim — Lele acrescentou. — Se nós sobrevivemos a sua liderança todo esse tempo, Afre, a gente consegue lidar com a Vorte.
Chanyeol e Pollche deram risada; Afrod também riu, mas, ainda meio chocado, focou-se mais em dar com uma almofada na cabeça de Lele.
— Você é muito engraçada — Afrod foi irônico, mas logo voltou para o seu tom doce habitual. — Sinto muito por isso. Mas, ei, não é melhor vocês irem se arrumar? A apresentação é em meia hora.
— Meia hora?! — Lele gritou, levantando do chão e quase caindo para trás. — Eu nem vi o tempo passar!
Chanyeol e Pollche a seguiram para fora da célula de Afrod tão rápido que saíram sem nem se despedir. Afrod deu de ombros e, muito tranquilamente, voltou a comer o seu bolinho.
Cada um foi para a sua célula se arrumar. Droga, não ia dar tempo de tomar banho… Chanyeol odiava trocar de roupa sem tomar banho, mas se atrasassem um minuto que fosse, Cinym Vorte se certificaria de que eles nunca mais relariam o dedo num instrumento musical na vida. Enquanto desabotoava o uniforme, ele repassava os ensaios na cabeça.
Chanyeol tinha uma célula individual padrão, já que trabalhava no Galanthus há bem mais de um ano e não precisava de um colega de quarto. Morava na mesma célula desde os quinze anos, inclusive, quando foi oficialmente contratado depois que Neav morreu.
Ele tinha uma cama confortável na qual passava pouco tempo, um guarda-roupa cujas portas estavam cheias de figurinhas, um par de cadeiras de madeira, uma mesinha singela para as refeições e um refrigerador acoplado numa das paredes. Se precisasse usar o banheiro ou a cozinha, tinha que usar os comunitários. Chanyeol também tinha todo tipo de pôster, fotografias, souvenires e páginas de livros pregados nas paredes, envolvendo o canto em que ficava a cama. Obviamente, seu planeta favorito era o planeta do seu pai, a Terra, já que não sabia de onde tinha vindo a mãe.
A carta que ela havia deixado com Neav — quem cuidou dele quando os pais se foram — mais a foto que a acompanhava estavam pregadas bem no meio da porta do seu guarda-roupa. Olhava para elas sempre que ia dormir e sempre que acordava, duas horas e meia depois.
A mãe, com um cabelo longo e encaracolado, uma franja voando, um sorriso gigante e os olhos espremidos por causa da luz do sol, carregava um bebezinho no colo e se apoiava num homem que a abraçava pelos ombros com o braço direito. Chanyeol não podia vê-lo, contudo, porque a foto tinha sido rasgada bem ali, separando o braço do homem do resto do corpo e demarcando a separação dos pais de Chanyeol.
Ele queria saber mais sobre a foto, saber mais sobre a mãe. Sentia-se tão próximo dela, porque a via todos os dias, enquanto sentia pouco ou quase nenhum apego ao pai sem rosto. Tinha plena noção, todavia, de que a conhecia tão bem quanto conhecia ele, ou seja, nada bem. Não importava quantas vezes Chanyeol olhasse para a fotografia da mãe, ainda estaria a mesma distância dela do que antes: um universo inteiro.
Chanyeol olhou para a foto de uma menina na parede; aquela em que ela tinha um dedo levantado, desenhando um semicírculo no ar como se luz emanasse do seu toque. Ela — a menina da foto, a cantora — era a única pessoa da Terra que Chanyeol já tinha visto e ouvido.
Havia achado um disco óptico de acrílico, legendado como CD, dentro de uma sacola plástica no depósito do museu, onde guardavam as coisas que não eram importantes o suficiente para ficar em exposição, mas que também não eram lixo espacial. Não pensou duas vezes e trouxe o “CD” consigo para a célula, como sempre fazia quando achava algo da Terra nos depósitos ou na biblioteca do cruzeiro. O tal CD veio com fotos da menina e inscrições numa língua que ele desconhecia. O disco tocava faixas de áudio quando inserido num leitor apropriado. Música. Chanyeol tinha achado música terráquea.
Aquele havia sido o melhor dia da sua vida. Desde então, já tinha roubado muitos outros CDs do depósito do museu; guardava todos numa caixa escondida debaixo da cama, menos aquele, o da menina mágica com os poderes de luz. Colara as fotos dela na parede e deixara o disco num lugar fácil de achar para sempre poder ouvir, pelo menos, o começo da faixa número nove antes de fazer algo importante.
Por isso, depois de se vestir, pentear e perfumar, Chanyeol tirou o CD do plástico que afixara na parede e o colocou no toca CD, uma geringonça terrena antiga, mas que ainda funcionava. Aquelas coisas tinham quase mil anos, mas ainda aguentavam o tranco.
Pulou tudo até a faixa nove. Quando as notas das cordas começaram a soar devagar e o som foi crescendo, crescendo até alcançar as orelhas de Chanyeol, o rapaz fechou os olhos. Sentou-se na cama. Abriu a janelinha redonda da célula e observou a quietude do universo lá fora, contente com a sua descoberta.
Discovery . Era essa a palavra em nono lugar numa lista de títulos, os quais Chanyeol supôs que fossem os nomes das músicas, numa das fotos da menina que veio com o CD. Nove símbolos — letras, ele supôs — e nove sons na ponte da música, como ele havia contado. Talvez ela estivesse soletrando o título da canção. D , i , s , c , o , v , e , r , y .
Assim, Chanyeol tinha o som de cada letra individual da palavra, mas não a palavra inteira, pronunciada como uma só, então ainda não sabia o nome da sua música favorita.
Queria saber sobre o que a menina cantava; queria conseguir entendê-la. Talvez ela o entendesse também.
— Chanyeol! — Duas batidas soaram repentinamente na porta da célula de Chanyeol. Era Pollche. — Vamos! Já tá quase na hora da apresentação!
