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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2023-10-17
Completed:
2024-01-28
Words:
10,493
Chapters:
2/2
Comments:
3
Kudos:
116
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4
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1,095

noite de verão

Summary:

Não é como se a ideia de se confessar para Bagi não houvesse passado por sua cabeça alguns zilhões de vezes, mas a verdade é que quando se tratava de estar perto de Bagi, ela agia feito uma idiota. Agia errado, falava coisas vergonhosas e começava a suar mesmo durante à noite. Estar apaixonada por uma pessoa que você nunca interagiu propriamente era vergonhoso. Mas naquele noite ela pretendia mudar isso.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Chapter Text

O verão sempre foi a estação favorita de Tina.

E essa afirmação se tornava tão irônica quando ela odiava o calor, odiava ficar suada e odiava a insônia por conta do calor. E embora houvessem mil e um motivos para ela detestar aquela estação do ano, havia algo que a fazia ficar ansiosa: o acampamento de verão.

Nenhum mal que aquela estação desgraçada trazia conseguia estragar a sua animação para a abertura anual do acampamento de férias. O seu tão amado Acampamento de Verão. Aquele era o paraíso pessoal de Tina, lá tinha todas as coisas que ela gostava: o clube de artes, o lago com formato de coração, coelhos e Bagi usando shorts curtos e um rabo de cavalo para fugir do calor.

Ah, Bagi. Bagi, Bagi, Bagi. Aquela garota havia aparecido no terceiro ano do acampamento, juntamente ao seu irmão gêmeo e abalado todas as certezas que Tina um dia já tivera sobre o seu gosto para relacionamentos. Bagi era a garota mais bonita que Tina já vira em toda sua vida — o que era engraçado porque Tina já viu muitas garotas e nenhuma delas conseguiu mexer com a sua cabeça assim como Bagi fizera. Todas as coisas que ela nunca havia pensado que podia sentir em relação a uma mulher, haviam começado a surgir e assombrá-la.

Aquela época era tão cruel quanto o calor do verão. Relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo eram tolerados, não aceitos, apenas tolerados. E Tina estava com tanto medo de descobrir sobre os seus próprios sentimentos e acabar sendo julgada por estar sentindo coisas por alguém que não devia.

— Você precisa parar de ficar olhando e ir logo entregar a carta que você fez — Tina ouviu uma voz e então um vento frio no seu ouvido, ela olhou para trás rapidamente e gritou assustada. Bad estava parado atrás dela, sorrindo. — Se a fogueira se apagar, você vai perder a chance de se confessar.

Tina tampou sua boca e franziu os seus lábios. Ela não havia notado que estava divagando sobre Bagi enquanto olhava para a mesma, que estava sentada do outro lado da fogueira e discutia com um dos garotos do clube de ciências.

Não é como se a ideia de se confessar para Bagi não houvesse passado por sua cabeça alguns zilhões de vezes. Não é como se ela não houvesse arquitetado todo um plano para unicamente poder falar com ela e se confessar, mas acabou não colocando em prática porque no dia em que ela pretendia ir falar com Bagi, acabou caindo da casa da árvore e quebrado o braço (assim precisando ser levada às pressas pro hospital). A verdade é que quando se tratava de estar perto de Bagi, ela agia feito uma idiota. Agia errado, falava coisas vergonhosas e começava a suar mesmo durante à noite. Estar apaixonada por uma pessoa que você nunca interagiu propriamente era vergonhoso.

— Eu sei, mas eu não consigo achar um momento bom pra entregar a carta! Ela nunca fica sozinha! — Tina resmungou. — Essa fogueira estúpida, por que todo mundo tem que ficar em volta da fogueira pra se confessar? Eles não podem fazer isso em um outro lugar?

Bad riu baixinho e moveu sua cabeça para observar um loiro que andava com o irmão gêmeo de Bagi, Cellbit. Tina só sabia sobre Bagi e sua família através de fofocas; os gêmeos eram gênios, realmente gênios, mas tinham uma mãe morta e um pai ausente. Cellbit era homossexual assumido e tinha problemas com raiva, todos que se meteram com ele não conseguiram ganhar a briga. Ele já tinha namorado com Forever, um dos monitores e o atual desejo pecaminoso de boa parte das meninas que iam pro acampamento. Nas noites da "Fogueira", Forever recebia milhares de cartinhas e confissões orais. E recusava todas.

"A Fogueira" era o nome dado a um mito criado por campistas, onde eles diziam que nas noites de lua cheia se deveria acender uma fogueira e confessar o seu amor através de uma carta, e por muitos anos essa prática ocorreu e se consolidou dentro do acampamento. Tina viu seus amigos confessarem os seus sentimentos e serem aceitos, mas isso acontecia porque eles não estavam apaixonados por uma pessoa do mesmo gênero que eles.

— Eu vou ganhar tempo para você — e ele saiu em disparada ao trio que estava do outro lado da fogueira, chamando a atenção dos dois homens e os levando para longe de Bagi.

Tina sentiu suas mãos ficarem suadas e suspirou três vezes antes de começar a andar. Ela se aproximou perto o suficiente da loira, e então suas pernas começaram a ficarem fracas e sua barriga a ficar engraçada. Um sorriso ansioso e quase desesperado surgiu em seus lábios, e Bagi a olhou.

— Oi Tina — Bagi falou.

E foi naquele exato momento em que Tina se esqueceu como se respirava. Ela esqueceu como se raciocinava e até mesmo como se falava. Bagi sabia o seu nome! Ela sabia o seu nome, e a melhor parte: ela estava sorrindo! Estava exibindo aquele lindo sorriso que ficava aparecendo em seus sonhos mais íntimos que a faziam acordar suando frio e com borboletas no estômago.

— O-oi, Bagi — ela respondeu timidamente e pôs uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.

— Deixa eu te perguntar — ela cruzou seus braços e tombou sua cabeça para o lado, assim deixando com que uma mecha de seu cabelo castanho caísse levemente em seus olhos. — Você é boa em remar?

Primeiramente, Tina franziu o seu cenho enquanto mantinha um sorriso confuso. Segundamente, ela se perguntou o que Bagi quis dizer com aquilo. Tina nunca fora uma boa nadadora, embora ela gostasse bastante de mar e todas as outras coisas que envolvessem água.

— Não sei, eu nunca remei. Natação e esportes assim nunca foram o meu forte, sabe?

— Ah, que pena. Eu precisava de alguém para me ajudar a remar, e eu pensei que você conseguiria...

Tina não sabia remar. Nunca tinha se interessado. Mas tinha primeira vez para tudo, não é?

— E-eu posso tentar! — sua resposta veio imediata, pateticamente imediata. O máximo que Tina havia estado perto de um barco foi quando visitou o lago de coração, e mesmo assim ela só os viu de longe, sendo usado pelos atletas. — Eu faço qualquer coisa pra te ajudar.

Bagi deu um sorriso graciosamente lindo. E todo o corpo de Tina entrou em chamas. Ela conseguia sentir o seu coração mais vivo do que nunca. Haviam poucas coisas que conseguiam acelerar o coração de Tina, e Bagi com certeza estava inclusa naquela lista. Sem dizer mais nada de especial, Bagi apontou com sua cabeça para onde ficaria o lago de coração e as duas começaram a andar discretamente até o lago, embora estivesse sendo bastante complicado não chamar atenção quando haviam várias pessoas indo e vindo do lago. A julgar pelo semblante triste dos campistas, metade das confissões tinham sido recusadas.

Todas as caras vermelhas de choro e todas as cabeças baixas estavam aterrorizando Tina. E se ela fosse a próxima a estar assim? Se confessar para uma garota seria realmente o certo a se fazer? E se nada do que ela tinha planejado saísse do jeito que era pra ser? Em seu bolso, a carta que ela escrevera pareceu começar a esquentar como se fosse um tipo de relíquia satânica retornando ao seu local originário.

— Eu odeio a noite da Fogueira — a voz de Bagi a tirou de seus pensamentos e a fez prestar atenção no que elas estavam fazendo. A loira estava desamarrando a canoa enquanto parecia distraída consigo mesma. — Isso de mandar cartas é tão brega, você não acha? É patético você precisar esperar uma única noite no ano pra conseguir se confessar pra alguém que você vê todos os dias no acampamento. Seria tão mais fácil se a pessoa apenas fosse lá e conversasse com você sem medo de soar estranho.

Aquele descontentamento chamou atenção de Tina, que riu envergonhada e sentiu como se estivesse levando uma alfinetada. O quão sem sorte ela era para descobrir que sua paquera não gostava de nada que ela havia planejado fazer? Só podia ser brincadeira. A carta voltou a ficar pesada em seu bolso; era como um lembrete de suas ações estúpidas. Fala sério! Ela havia escrito uma carta de amor durante a madrugada, expostos todos os seus sentimentos mais vergonhosos de um modo lógico apenas para ser entendida, e justo no dia em que ela deveria entregar a carta, o destinatário estava prestes a recusar.

Como uma forma de amenizar aquela situação constrangedora, ela disse:

— Na verdade, eu acho bem fofa a ideia de você se confessar para alguém numa noite de lua cheia, durante uma fogueira. E eu gosto de receber cartinhas. É adorável, você não acha?

A risada de Bagi irrompeu o silêncio que estava no cais. Ela não parecia estar rindo de uma forma ruim, mas de uma forma graciosa e desacreditada. Seus dedos cobrindo levemente os seus dentes perfeitos, seus olhos se fechando minimamente por conta de suas bochechas rosadas que os espremiam. Tina sentiu-se como uma tola sonhadora com aquilo. Ela estava falando deliberadamente sobre amor e coisas românticas com uma garota incrível, que definitivamente não tinha tempo para todas essas tolices. Como Bagi podia ser tão linda? E como Tina podia se sentir tão derretida por aqueles sorrisos fáceis?

Ela não sabia explicar todos os sentimentos que irrompiam o seu corpo quando Bagi lhe sorria (ou sorriam à outrem). Ela poderia morar naquele maldito sorriso e ficar o observando.

— Você gosta de coisas românticas, Tina?

Óbvio que ela quis dizer "não" apenas para evitar o constrangimento, mas então Bagi se aproximou e tocou em uma mecha do cabelo castanho de Tina. Baixinho, ela disse:

— Acho que isso combina com você. Garotas fofas gostam de coisas românticas.

A morena sentiu a brisa fria da noite atravessar os seus fios e arrepiar toda a sua espinha, e consequentemente o seu corpo. Ela sabia que era fácil de se apaixonar, ela sabia que buscava por cenários românticos na natureza e esperava um dia estar em um cenário romântico, pois era de sua natureza ser uma sedenta por cenários e sentimentos; e naquele momento ela estava vivendo um cenário romântico: as duas garotas estavam sozinhas no caís, com um bote desamarrado pairando na água e sendo iluminadas pela luz da lua. As duas falavam sobre romantismo enquanto estavam vivendo um momento propício de se confessar. Tina deslizou sua mão para dentro do bolso de seu casaco e pensou em entregar a carta. Aquele era o momento perfeito para isso, não era? Ela não poderia perder mais uma chance de se confessar.

— Vem, me ajuda a colocar o bote na água.

Tina piscou os seus olhos e se apressou em ir ajudá-la. Quando elas finalmente conseguiram fazer aquilo, entraram no bote e começaram a remar. O silêncio constrangedor estava matando Tina. Ela queria perguntar sobre o que Bagi achava, sobre os seus gostos e outras coisas, qualquer coisa que a fizesse descobrir um pouco mais sobre a menina.

— Sabe, Tina — Bagi falou. — Eu queria ser como você, uma pessoa que acredita no amor, mas eu sou péssima em amar, sou um desastre ambulante. Essas coisas não são pra mim.

— Você já mandou uma carta para alguém na noite de fogueira? Você já teve um namorado?

Bagi desviou o seu olhar para o nada. As duas estavam no meio do lado, sendo iluminadas unicamente pela luz pálida da lua que se refletia na água escura. As duas estavam sós, sem ninguém para ouví-las ou as atrapalhar.

— Não e não.

— Então como você pode dizer que é um desastre ambulante quando nem ao menos tentou fazer algo amoroso? — aquelas palavras de Tina soaram agressivas em vez de passivas. E o olhar de Bagi se voltou a ela como uma fúria da noite.

Tão brilhantes e assustadores eram os olhos azuis dela. Crepitando como um raio feroz numa noite de tempestade. Ela engoliu em seco enquanto tentava sobreviver àquele olhar.

— Quero dizer... Eu também sou péssima em amar, mas... hã... não é motivo para desistir, né? — sua risada não deu um jeito naquele clima tenso. Bagi apenas se manteve em silêncio e Tina soube que ia passar a madrugada inteira se torturando por conta daquele momento idiota. Por que ela tinha que ser tão bocuda? — Bagi, eu posso te perguntar o que você está fazendo? Nós vamos fugir do acampamento?

— Eu estou procurando por algo, na verdade. — Ela respondeu enquanto voltava a remar e olhava sob o seu ombro.

— O que você está procurando?

O bote bateu na terra e Bagi foi a primeira a descer. As suas botas pretas afundaram na areia molhada, mas ela não se importou. Com um sorriso encantador ela estendeu a mão, como um verdadeiro cavaleiro ajudando a donzela a descer do cavalo. Tina sentiu suas bochechas esquentarem e então tocou suavemente na mão da outra. Um choque percorreu ambos os corpos e foi notável como as mãos se afastaram como se tivessem sido repelidas pela energia. Tina desviou seu olhar e pegou na mão de Bagi, assim pulando para a areia e quase caindo.

— Eu estou procurando por flores — seu sorriso pareceu convincente. — Eu ameacei um garoto do clube de ciências porque queria informações, e ele disse que me daria mas só quando eu precisasse entregar uma coisa a ele antes.

— Ele pediu pra você entregar flores a ele? — Tina perguntou enciumada. Ela não estava no direito de se sentir com ciúmes, uma vez que Bagi não era nem sua amiga, mas ela não podia controlar todos os seus sentimentos ruins. — Por que ele ia querer ganhar flores? Ele é o seu namorado, por acaso?

Por favor, que ele não seja o namorado dela e nem um paquera. Deus, se você existe, por favor me deixa ficar com essa garota. Ela rogou baixinho para qualquer Deus que estivesse disponível naquele momento e quisesse ajudá-la.

— Não é isso, Tina. Essas flores em específico tem um líquido venenoso que as tornam perigosas para pragas no geral. Algumas pesquisas recentes mostraram que os cientistas estão preferindo extrair os líquidos dessas plantas para criarem um veneno pra pestes e amigáveis para humanos. Existe um campo dessas flores aqui no acampamento mas é quase impossível pegar de dia.

O bombardeio repentino de informações estupidamente detalhadas fez com que o cérebro de Tina girasse. Veneno, flores, humanos — o que era aquilo tudo? Como ela sabia daquilo tudo? Que tipo de notícias Bagi andava lendo? A pior parte daquilo tudo era que apenas reforçava o pensamento de Tina sobre Bagi ser muito legal.

— Ah! Sim, claro! Eu deveria saber disso, né? — Ela riu envergonhada e deu um tapinha em sua cabeça. Bagi, que estava andado em direção às árvores, a olhou e com um sorriso amigável respondeu:

— Você deve saber de coisas mais importantes, eu tenho certeza. Não foi você quem virou capitã do time de líderes de torcida e ganhou um prêmio de dança mais sincronizada?

Ela tomou um susto ao ouvir aquilo, pois sempre esquecia que ela e Bagi eram da mesma escola do ensino médio, mas de eixos completamente diferentes. Enquanto Tina era adotada pelo pessoal do clubes e andava com os que faziam sucesso, Bagi permanecia nas sombras, saindo sem permissão com o carro de seu pai e matando aula.

Talvez a rebeldia que existisse em Bagi fosse o motivo pelo qual Tina a amava tanto. A liberdade voraz era algo que ela sempre desejou, mas nunca conseguiu, e Bagi era a personificação da liberdade. Ela era tão livre, tão exótica, tão extraordinária que chegava a causa inveja. E Tina queria beijá-la. Por que Tina queria tanto beijá-la? Ela não entendia, mas sempre que via Bagi pelos corredores, se esgueirando e matando aula, sentia vontade de se juntar e poder finalmente sentir algo, poder finalmente estar com alguém que a interessasse. Que a libertasse das amarras perfeitas imposta por sua família. Bagi parecia ter um mundo tão colorido, e Tina queria poder fazer parte daquele mundo.

— Dança sincronizada é só prática. Eu queria ser inteligente e incrível como você.

Aquele par de olhos de azuis se fixaram nela por um momento, e então Tina se sentiu estranhamente exposta, errada. Não precisou que algo fosse dito para que ela entendesse o quão desnecessária estava sendo naquele momento. Ela não queria criar uma inimizade com a sua paquera, não queria que as duas entrassem em uma discussão sobre quem era pior ou melhor em algo,  ela só queria elogiar aquela mulher, mas tudo o que saía de sua boca parecia errado. Tolo.

Por que ela tinha que ficar tão burra quando estava perto de quem amava? Por que ela tinha que ser tão estúpida? Você não dizia a uma pessoa inteligente que queria ser como ela. Você não podia dizer um único elogio a uma garota porque todos iriam julgá-las como bruxas e mandá-las para a fogueira. Tina sabia daquilo melhor do que ninguém.

As duas garotas andaram em silêncio entre as árvores. Tina nunca havia estado daquele lado do acampamento, nem sabia o que tinha ali e estava levemente assustada pois tinha medo do que poderia surgir naquele escuro. Bagi, em sua glória adolescente e em seus jeans apertados surrados, andava por ali como se já conhecesse, como se fosse familiar à ela toda aquela escuridão. Que tipo de flor era estava procurando era a questão e o que falar durante aquele momento vergonhoso era o seu terror.

Como se falava com alguém que você se atraía sem deixar com que uma tremenda besteira escapasse de sua boca e a envergonhasse? Tina nunca fora acostumada com flertes, ela era cantada por diversos garotos, mas só sorria sem graça em resposta e esquecia. Sua habilidade em relacionamentos eram exclusivas de filmes de romance. Tina não namorou muitas vezes, mas presenciou muitos relacionamentos e tinha uma boa noção de como eles começavam e como deveriam seguir.

O único problema era realmente conseguir aplicar aqueles conselhos na vida real.

—  Tina — Bagi a chamou baixinho e se agachou atrás de uma árvore, Tina fez o mesmo sem nem saber o que estava acontecendo direito. — Um espantalho?

Tina esticou sua cabeça para ver o que estava acontecendo mais a frente, mas por falta de força em suas pernas ela acabou se desequilibrando e tendo que se segurar no tronco de Bagi para não cair e fazer um estrondo desnecessário.

— Desculpa — sua voz trêmula arrancou uma risada da loira, e então Tina sentiu algo incomum: uma das mãos de Bagi tocaram na sua e não saiu. Tina, então, se sentiu livre para aproximar seu rosto o suficiente da curva do pescoço da outra.

Ela viu um imenso campo de flores azuis que brilhavam no escuro se estender para além do que seus olhos podiam ver. O vento passava uivando pelo monte e balançando suavemente as flores tóxicas. Ela não sabia dizer o que era mais lindo: aquele campo venenoso ou o jeito que os olhos de Bagi brilhavam em animação ao ver aquilo.

Era incrível como aquelas flores conseguiam brilhar mesmo em uma baixa quantidade de luz. Parecia surreal. Eteral.

— Você acha que alguém está nos vendo? — Bagi perguntou baixinho, e Tina não sabia se ela estava se referindo ao campo, a fuga ou a pose bastante sugestiva que elas se encontravam. E por via das dúvidas ela respondeu de imediato:

— Não.

"Não" porque ela acreditava que ninguém vivia daquele outro lado e "não" porquê ela queria continuar abraçada com a garota por mais alguns minutos. Um sorriso divertido e travesso brincou nos lábios rosados de Bagi, e Tina sentiu todo o seu interior entrar em chamas; colapsar. Como aquela garota podia ser tão linda? Tina sentia que poderia se perder naquela visão perfeita, sentia que nunca se cansaria de admirar Bagi e todos aqueles sorrisos lindos que só ela possuía. Aquele amor era errado, era um amor proibido que poderia as destruir caso fosse descoberto, mas Tina não queria abrir mão, pelo menos não agora.

"Vem" foi o que a loira disse antes de levantar cuidadosamente, estender a mão e sorrir de um jeito maroto. Se o diabo fosse uma mulher, com certeza teria olhos azuis, cabelo cor napolitano e teria o nome "Bagi". Tina iria até o inferno com aquela garota se ela continuasse sorrindo daquele jeito lindo e problemático.

As duas saíram de detrás das árvores e caminharam em direção ao campo de flores. Mais à frente havia um espantalho parado no centro do campo — o que era um pouco esquisito. Por que precisariam colocar um espantalho para espantar pássaros de flores? Tina ficou em dúvida mas não perguntou, apenas agiu como se soubesse o motivo daquilo estar ali. Bagi parou na borda que separava a grama das flores e olhou para Tina.

Aquela vista por si só deveria ser gravada e emoldurada: Bagi estava parada em frente ao campo de flores tóxicas, com seus cabelos se movendo em ondas por conta da brisa suave da noite, seus olhos brilhavam como a lua no céu escuro e ela parecia tão selvagem. Sua blusa branca com listras azuis claras, seu jeans apertados que davam um relance especial para suas coxas, suas botas que faziam todos lembrarem que ela era uma punk problemática nas horas vagas, assim como o seu irmão. Tina estava quente, mais quente que o calor daquela temporada. Seu coração começou a palpitar.

— Fica aqui — ela disse baixinho, como se quisesse deixar o espantalho longe daquela conversa. — Se der merda, corre pro bote e me espera, ok?

Tina deu um aceno curto e então esperou com que Bagi soltasse sua mão e caminhasse em meio aquelas flores azuis. Todo o seu corpo ganhava um brilho da mesma tonalidade quando ela se movia. Era engraçado que o único ponto luminoso eram as flores, não haviam vagalumes por ali por perto. Parecia até que a luz da lua era quem alimentava o brilho. Bagi colheu as flores e as colocou em seu bolso traseiro, Tina abraçou a si mesma em apreensão enquanto observava tudo aquilo.

Embora fosse uma noite quente e bastante anormal, ela estava sentindo-se com um frio descomunal.

Após pegar a quantidade necessária de flores, Bagi começou a se mover para sair daquele campo, e Tina ficou dividida entre olhar para sua amada ou focar no espantalho, que estava a causando calafrios. Bagi parecia surreal naquele campo de flores azuis, tão bonita, tão extraordinária. Tina iria ter uma parada cardíaca a qualquer momento, ela sentia isso. 

A brisa fria que antes passava uivando baixinho, parou. E Tina sentiu como se todo o ar acolhedor que antes as envolviam, havia começado a pressioná-las, deixando-as sem ar. Como um beijo mortal.

— Bagi, você está bem? Podemos ir embora agora? — ela perguntou e a loira deu um aceno positivo.

Aquela sensação desconcertante continuou incomodando Tina, mas ela tentou ignorar, tentou não parecer tão medrosa e desesperada, pelo menos não na frente da garota que ela queria impressionar. Quando Bagi pisou o seu pé no chão, o espantalho que estava no meio do campo caiu no chão, mesmo sem nenhuma influência do vento. As duas se olharam, aterrorizadas e confusas.

Antes que Tina pudesse dizer algo ou simplesmente gritar apavorada, Bagi a pegou pela mão e a puxou bruscamente de volta para o bosque. As duas correram de mãos dadas, suas respirações ofegantes se entrelaçando com o som do nervosismo e medo. Tina estava desviando de todos os galhos que tentavam acertar o seu rosto, e por um momento de insanidade ela achou aquilo tão libertador. Bagi sorria enquanto tudo aquilo acontecia, e Tina sentiu-se à vontade para rir em choque e descrença. As duas retornarama ao bote, Tina foi a primeira a pular, e Bagi tentou empurrar. Quando o bote foi pra água, ela pulou e então começou a remar.

Juntas, as garotas foram embora daquele bosque maldito.

— Isso foi... — Bagi falou baixinho e ainda ofegante, ela pôs os seus remos de lado e penteou o seu cabelo para trás. — Uma péssima ideia.

As duas se entreolharam e começaram a rir. Tina estava assustada, com o seu coração palpitante e ofegante. Suas pernas tremiam e um novo sentimento envolvia o seu corpo. O que havia acabado de acontecer? O que ela tinha feito? Era surreal.

— Aquele espantalho me assustou pra caramba! — Tina disse ainda meia em êxtase pelo que tinha acabado de acontecer. — Pensei que assombrações não existiam!

Bagi apoiou os seus braços na borda do bote e deixou com que seus cabelos caíssem por seu corpo. Um sorriso meio misterioso brincou em seus lábios.

— Existem muitas coisas nesse mundo, Tina. Você não vai conhecer muita coisa se ficar presa na mesmice.

A loira, então, tirou uma das flores tóxicas e se inclinou para frente. Uma de suas mãos afastou uma mecha de cabelo de Tina, enquanto a outra colocava a flor atrás de sua orelha. Tina tocou na flor e abriu um sorrisinho corado. Aquele simples gesto fez com que as suas bochechas ganhassem uma coloração e quentura anormal. Bagi, sem dizer mais nada, voltou a remar de volta ao cais. Tina ficou inquieta diante daquilo tudo, sua mão formigava, seu peito palpitava, suas bochechas estavam quentes e um sorriso idiota permanecia em seus lábios. A carta ficava cada vez mais pesada em seu bolso.

— Bagi, eu tenho-

— Vamos voltar? Está ficado tarde — ela falou por cima e pegou os remos. — Quero voltar logo pra falar com o garoto.

Tina ficou calada diante daquilo, ela deu aceno com sua cabeça e começou a remar.

A chegada de ambas a terra foi mas rápida do que o esperado. As duas saíram do bote e furtivamente se esgueiraram de volta ao acampamento. Não havia mais nenhum campista em volta da fogueira, e ela estava quase apagando. E isso significava duas coisas: que Tina tinha poucos minutos para entregar aquela maldita carta e expor os seus sentimentos e que já passava das onze da noite.

— Bagi? — Tina chamou ainda com o olhar fixo na fogueira, sua amada não respondeu, e então a outra levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo.

Bagi estava caminhando como um diabo sensual em direção ao galpão de ciências. E Tina a seguiu feito um pintinho amarelinho. Contra sua vontade, ela entrou no galpão e tomou um susto ao presenciar uma cena bastante desconfortável: Pactw, um dos gênios do acampamento, estava beijando Fit, o outro monitor do acampamento. Beijos que ultrapassariam a barreira do permitido. As garotas ficaram paradas na porta, olhando os dois garotos que pelo susto se separaram e tentaram explicar que aquilo não eram o que elas estavam pensando — embora elas soubessem muito bem o que estava acontecendo ali. Bagi ignorou aquela cena por completo, embora seu sorriso envergonhado falasse por si só o que ela estava sentindo. Ela deixou as flores na mesa de madeira e cobrou as informações. Tina sentiu que seu lugar não era ali, e aproveitou aquele minuto de distração para se esquivar pra fora do galpão e ir até a fogueira, que estava em seus últimos momentos.

Ela tirou a carta do bolso e pensou no que fazer: se confessar ou queimar?

A fogueira estava apagada, o que simbolizava o término da noite, o término da mágica — até mesmo as nuvens já começavam a se formar no céu e esconder a lua. Bagi havia a dito mais cedo que achava tudo aquilo uma grande besteira, que não fora feita para relacionamentos, e por mais que Tina estivesse explodindo com todos aqueles sentimentos sufocantes, sabia que embora se confessasse, aquilo não daria em nada. Bagi a rejeitaria por não querer entrar em um relacionamento, principalmente com uma garota, e Tina ficaria sozinha com o coração partido.

Com um suspiro pesado ela olhou para o papel com linhas rosas e desenhos de ursinhos, sem nem pensar duas vezes ela jogou a carta na fogueira e esperou que o resto das brasas queimassem os seus sentimentos mais profundos, como um exorcismo.

— Tina, o que você jogou na fogueira? — a voz de Bagi surgiu de algum lugar atrás dela, como se a garota fosse um tipo de entidade que acabara de ser evocada com uma simples palavra mágica.

— An, nada! — Tina virou-se às pressas e se afastou rapidamente da menina, como se a mesma fosse um perigo eminente. — Não queimei nada.

Era óbvio que Bagi, em toda sua graça, não acreditaria naquela lorota. Ela havia sido pega no flagra pela pessoa que não deveria ter a pego no flagra. E agora? O que ela deveria fazer? Mentir ou sair correndo? Seus passos lentos foram para trás, e Bagi aproveitou aquele momento para correr, pegar o papel que estava no chão e se afastar antes que se queimasse ou danificasse suas botas. Ela abriu o papel que por puro azar ainda não estava totalmente queimado e começou a ler.

E de uma outra pra outra, Tina se viu congelada no mesmo lugar, com todas as suas entranhas queimando no lugar daquele papel. Ela sentiu-se fraca, com o coração vacilante e então com medo.

Os olhos da loira se moveram por cada parágrafo, lendo cada linha torta e cafona que Tina escrevera no meio de uma madrugada. E a cada linha lida, uma nova expressão surgia. Surpresa era a que mais se destacava em sua face. Ah, Tina. Você havia estragado com tudo. Quando ela pareceu chegar ao final da carta, seus olhos recaíram em Tina.

— Tina, eu não...

Bagi não deixou com que as outras palavras saíssem de sua boca, parecia que o seu cérebro inteligente não havia conseguido computar todas aquelas informações direito e entrado em pane. Será que depois daquilo tudo ela seria rejeitada?

— Só me rejeite — sua súplica saiu baixa e dolorida.

Não dê expectativas para quem pode viver muito bem sem elas. Era o que sua mãe sempre dizia quando Tina tinha queria fazer algo, e ela sempre levou aquele conselho mesmo sem entender exatamente o que ele signficava.

O silêncio de Bagi foi ensurdecedor.

Ela preferia ter ouvido mil palavrões, preferia ter ouvido uma risada sarcástica ou qualquer coisa que a destruísse por inteira, qualquer coisa que a fizesse seguir em frente. Mas não ouviu, no lugar disso o silêncio calou.

Os lábios da loira se moveram lentamente, como se estivessem tentando formar uma palavra, ou um amontoado de palavras. Tina se preparou para o pior.

— Você quer ir em um encontro comigo?

Ela teve um sobressalto ao ouvir aquelas palavras tão contraditórias. O seu cenho se franziu e ela piscou os seus olhos, ainda tentando entender o que estava acontecendo.

— O quê? —  sem perceber, ela repetiu as últimas palavras em voz alta e fixou o seu olhar em Bagi, que sorria de canto, envergonhada. Ela coçou sua bochecha e não ousou repetir mais uma vez aquelas palavras em voz alta.

— Espera, o quê? Você ta zoando, não tá?

Por favor, não esteja zoando.

— Você falou uma coisa interessante mais cedo: como eu posso ser um desastre ambulante quando se trata de amor se eu nunca tentei namorar? E tem um motivo bem específico pelo qual eu não namoro homens, e é o mesmo que o seu. Eu nunca pensei que você fosse igual a mim e o meu irmão, mas é que, ah droga, eu estou falando muito, né? Eu não sabia que você gostava de mim, eu achava que você tinha, não sei, um milhão de caras caindo de amores por você, e-

— Bagi — Tina a chamou.

— Você quer ir a um encontro comigo? — Bagi perguntou mais uma vez. — A gente pode ir depois do acampamento. Podemos ir no lasertag... ou no cinema, talvez?

Tina piscou os seus olhos ainda confusa e coçou sua cabeça. Será que aquilo realmente estava acontecendo ou era só um sonho? Será que Tina havia dormido demais e aquilo era uma reprodução do seu desejo mais interno e patético? Ela estava com medo de aceitar e acabar acordando em sua cama dura, com mil garotas rindo e fofocando sobre garotos. Com um certo receio, ela falou:

— Um encontro de verdade? Sem espantalhos ou flores venenosas?

— Sem espantalhos ou flores venenosas — Bagi confirmou no mesmo tom. — Eu vou guardar isso comigo, é uma prova e você sabe, hum, eu sou uma detetive...

Tina assentiu diversas vezes com sua cabeça e Bagi se aproximou lentamente. Ela envolveu a morena em um abraço e sussurrou em seu ouvido:

— Eu te vejo amanhã, linda.

E como uma verdadeira adolescente ela saiu correndo para o mais longe possível. E Tina ficou ali, com o coração na mão e um encontro marcado com a garota mais bonita da cidade.