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Depois que o mar se acalmou, o barco permaneceu em silêncio exceto pelos soluços exasperados e desesperados de Simão. Os demais, tocados pela sua demonstração de fé e pela dor que sentia tão profundamente, sentiram as próprias lágrimas misturando-se com as gotas da água da chuva que ainda permaneciam em seus rostos.
Todos permaneceram imóveis até que os soluços de Simão cessaram e seus ruídos se tornassem soluços suaves e silenciosos. Jesus ainda o abraçava com força, enquanto ele repetia as mesmas palavras de novo e de novo: “Não me deixe… por favor, não me deixe…”, como um animal ferido buscando a misericórdia de um estranho que poderia curar suas feridas, e protegê-lo até que voltasse à saúde.
Somente depois que Simão se aquietou de verdade que Jesus levantou a cabeça em direção aos apóstolos e falou.
- Vamos para Cafarnaum.
Silenciosamente, eles voltaram aos seus postos, Zee assumindo o comando do remo de Simão e iniciando a jornada de volta ao outro extremo do mar. As águas calmas facilitaram muito o deslocamento do barco na direção correta, a falta de chuva e de nuvens fez com que o dia parecesse mais claro do que nunca. Ou talvez fossem seus corações, que calorosos, sangravam pela dor de Simão.
Eventualmente, Simão se afastou de Jesus, enxugando as lágrimas com as mãos e respirando profundamente, tentando se recompor. A viagem toda ainda levaria algum tempo, e durante esse tempo eles ficariam sozinhos, e Simão ficaria exposto, algo que ele não gostava.
Havia uma razão pela qual ele não contou aos outros sobre sua raiva, sobre sua angústia e seu sofrimento. Mas agora tudo havia sido revelado... ele não podia mais esconder, mas podia pelo menos tentar fazer parecer que se sentia mais forte do que há alguns momentos.
Jesus se afastou dele assim que ele o soltou, e logo estava pegando um remo enquanto André sentou-se ao lado do irmão, pegando sua mão, apertando-a com força. Embora os olhos de Simão não desviassem dos seus pés, ele teve que morder os lábios para não começar a chorar novamente.
- Simão… O que aconteceu? - André sussurrou, como se isso fizesse alguma diferença. Os arredores estavam tão silenciosos que todos os outros podiam ouvir a conversa facilmente, não importando o quão baixo falassem. Sabendo disso, Simão soltou uma risada silenciosa e molhada, enxugando o rosto mais uma vez para se garantir.
Qual era o sentido de esconder qualquer coisa depois da cena que acabara de fazer na frente de todos?
- Antes de partirmos de dois em dois, Eden e eu concebemos um filho - , disse ele, sem sussurrar, para que todas as perguntas internas dos outros fossem respondidas. - Durante nossas viagens, ela… perdeu o bebê e quase morreu… - ele engasgou novamente, muito emocionado e abalado pelos acontecimentos recentes para se conter. A mão de André apertou a sua, puxando-o para mais perto, enquanto outra mão desconhecida tocou seu ombro esquerdo. Simão engoliu em seco, limpou a garganta e respirou fundo, tentando recuperar a compostura. - Os médicos disseram que o dano foi tão grande… que ela poderia nunca mais engravidar…
Essa parte não doía tanto quanto imaginar Eden sofrendo, sozinha, enquanto seu bebê morria em seus braços e se encontrava doente demais para sair de casa sozinha. Não doeu tanto quanto imaginá-la se isolando por sete dias, após realizar o ritual de limpeza completamente só. Ele deveria estar lá para ela. Ele deveria estar segurando a mão dela, levando-a aos médicos, beijando sua cabeça e a confortando.
De repente, ele sentiu uma mão em seu braço e logo foi puxado para mais perto de André, sua cabeça sendo afagada e seu corpo abraçado firmemente por seu irmão mais novo.
- E por que você não me contou isso no momento em que soube? - André perguntou, sua voz suave, mas com aquela nota de ansiedade que sempre esteve nele. Foi quase reconfortante, de certa forma, como se seu coração soubesse que era seu irmão.
- Você se foi… e eu não teria te contado de qualquer maneira - Simão disse de maneira honesta, e aproximou a cabeça do peito de seu irmão. Ele nunca foi uma pessoa que pedia conforto, nunca. Em vez disso, era sempre ele quem tentava confortar a todos. Naquele dia, porém, ele se sentia fraco e cansado. André suspirou e passou os dedos pelos cabelos molhados de Simão.
- Você não precisa carregar todos os fardos sozinho Simão, quantas vezes eu já disse isso? - André perguntou, antes de dar um beijo no topo da cabeça de Simão que parecia tão caloroso e verdadeiro que fez seus olhos lacrimejarem novamente. Ele estava cansado, exausto, do longo dia, das noites sem dormir... e isso não ajudava em seu humor, embora ele não fosse exatamente o Simão irritado com o qual todos estavam acostumados.
Houve um momento de silêncio, sendo os da água e do vento os únicos que ouviram, até que alguém limpou a garganta.
- Sinto muito, Simão - Simão ouviu João falar e fechou os olhos para ouvir. - Se não fosse o que eu disse na estrada… talvez esse fardo não pesasse tanto em seu coração.
Simão teve vontade de rir, mas não teve forças. Em vez disso, balançou a cabeça.
- Não teria feito nenhuma diferença - disse ele honestamente, e então se levantou e se afastou de André para olhar para João, que parecia cheio de culpa pela primeira vez na vida. - Na verdade eu... acho que foi bom você ter dito tudo aquilo. Ou eu teria guardado para sempre dentro de mim.
- Talvez esse tenha sido o verdadeiro motivo pelo qual o mestre deixou você para trás - acrescentou Tiago Maior, observando o irmão mais novo com um olhar astuto. Então ele se virou para Simão. - Talvez vocês dois precisassem um do outro naquele momento.
Simão olhou para ele, depois para João, e encolheu os ombros. Ele se espreguiçou, sentindo-se mais calmo e olhando para o céu por um momento, antes de respirar o ar fresco.
- Tudo bem… acho que posso voltar a remar agora - ele disse, olhando para Zee e acenando para ele. - Você pode voltar para-
- Não.
Simão parou e olhou para ele, confuso. Zee olhou para trás e continuou a remar. Então, Simão pensou ter entendido sua resposta.
- Não estou dizendo que você não é bom nisso, é só que tenho mais experiência em-
- Não, Simão - Zee repetiu. Ele parou de remar e se virou para ele, e quando Simão olhou em volta viu todos os outros 12 olhando para ele. - É hora de você descansar.
Simão ficou confuso com essas palavras por inúmeras razões, mas quando abriu a boca para falar, Tadeu interrompeu.
- Você está cansado há dias, talvez semanas. Nós percebemos como você não tem comido e dormido bem - disse ele, e todos os outros assentiram lentamente.
- Enquanto tentávamos resolver nossos próprios problemas, não tivemos tempo de olhar para você e perceber que você estava com dor, e lamentamos - Felipe continuou, lançando um olhar para André e depois assentindo para Simão.
- Desde o primeiro dia você tem cuidado de nós - acrescentou Tiago Menor, recebendo grunhidos de concordância por toda parte.
- Você cuidou de nós - disse Natanael.
- Perdeu o sono por nós - falou Tomé.
- Abriu mão do seu tempo e dos seus pertences por nós - acrescentou Judas.
- E nos protegeu - continuou Mateus.
- Permita-nos cuidar de você também - sussurrou João, e enquanto Simão movia seus olhos sobre os outros, um por um, vendo seus sorrisos e olhos tristes compartilhando sua dor, vivendo isso com ele, preocupando-se com ele... ele sentiu seus próprios olhos se encherem de água mais uma vez, seu peito doendo, sangrando e chorando tanto que ele estendeu a mão e agarrou a túnica sobre o coração como se aquilo lhe trouxesse algum tipo de conforto.
E então ele se voltou para Jesus, aquele que sorriu tão calorosamente com os lábios e os olhos, e que o salvou mais de uma vez.
- Deus não comete erros, Simão - Ele sussurrou, e vendo um lampejo de sua breve conversa com João, as lágrimas começaram a escorrer por seus olhos novamente como cachoeiras. Ele estava tão cansado, tão exausto... soltou um soluço, encostando-se em André e se escondendo contra seu pescoço para chorar novamente.
Ele se sentiu fraco e envergonhado... mas bem-vindo... e amado.
Mãos de todos os lados o tocaram, seus braços, ombros, pernas e lados, e ele soltou uma risada em meio às lágrimas por nunca ter sentido um amor tão forte antes. Era um amor além de qualquer coisa que ele jamais imaginou que sentiria e que seria sentido por ele.
O que ele fez não foi em vão. Não passou despercebido. Isso somente... já foi um alívio para sua alma cansada.
Eventualmente ele parou de chorar, as mãos se moveram e voltaram para o barco, mas André não o soltou. Ele o segurou mais de perto, acariciou seu braço e cabeça e começou a cantarolar uma canção de ninar que sua Imma cantava para eles quando eram pequenos. Logo, Tiago Maior e João o seguiram, pois era uma música comum para moradores de Cafarnaum. Simão ainda se lembrava da letra, uma música sobre um homem que saiu para pescar e voltou com tantos peixes que alimentou a cidade inteira.
Ele sabia agora o significado daquela música, e desejou ter aproveitado o sermão como tinha aproveitado os outros... que ele tivesse ficado tão impressionado com a multiplicação dos pães e dos peixes quanto com tantos milagres antes. Mas ele sabia que Jesus não permitiria que aquele fosse o seu último momento de alegria.
Ao ouvir o cantarolar dos seus irmãos, Simão sentiu-se cair num sono profundo. Um sono que ele desejava há semanas, um sono que não conseguia ter.
Contra o irmão, com o lento balanço do barco, ele deslizou para as terras dos sonhos e descansou.
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- Gente - André sussurrou depois de alguns momentos, levantando seus olhos. - Podemos parar de cantar… ele está dormindo profundamente.
- Finalmente um pouco de descanso - Zee riu, mas com entusiasmo, e todos os outros concordaram com a cabeça. Eles ficaram em silêncio por um momento, mas André não conseguiu permanecer quieto por muito tempo.
- Por que você fez isso? - ele perguntou, e olhou diretamente para Jesus enquanto eles continuavam remando. Todos permaneceram em silêncio. - Por que você não salvou o bebê?
- Você não ouviu nada do que eu disse enquanto ele caminhava? - Jesus perguntou, mas André ainda estava duvidoso.
- Então… estranhos que não creem serão salvos e curados de seu sofrimento… enquanto nós que cremos devemos sofrer para provar nossa fé? - ele perguntou, e a dor em sua voz era clara, mas também resignada. Como se ele soubesse que essa era a resposta o tempo todo.
Jesus parou de remar, os outros também, e todos se voltaram para o centro do barco.
- Não para provar sua fé, André. Mas para mostrar que é pura e verdadeira - Ele explicou, seus olhos vagando para a forma adormecida de Simão por um momento. - Eu não salvei o bebê deles... não porque não quisesse. Mas porque os planos do Pai Celestial não são esses.
- Então Deus deseja que nós soframos? - Natanael perguntou, mas Tiago Menor suspirou e balançou a cabeça.
- Não, claro que não... mas Jesus... Ele me explicou que alguns de nós talvez precisemos fazer isso. É por isso que minha perna não está curada, e mesmo assim curei muitos coxos em nossas viagens. Porque assim como eu devo sofrer para mostrar que tenho fé apesar de não ter milagres… Simão também… todos nós também - explicou, e os outros pareceram absorver essas palavras.
- Então, quanto mais devemos sofrer para fazer a vontade do nosso Deus? - perguntou Tomé, olhando para Jesus. - Deveríamos todos perder um filho ou a capacidade de andar, ou viver com dores constantes ou ficar doentes?
- Não devemos sofrer, mas é algo que pode acontecer - disse João, tentando acalmar o grupo. - Como o próprio Jesus disse, os ossos ainda se quebrarão, os corações ainda se partirão, as doenças ainda acontecerão, a morte ainda ocorrerá... não sofreremos porque devemos, mas porque todos sofrem, independentemente de onde venham ou de quem desejam seguir.
- Se o nosso Deus é o Deus da misericórdia, por que Ele não acaba com o sofrimento de uma vez por todas? - respondeu Natanael, ainda em dúvida.
- Porque ainda não somos santos - disse Tiago Maior, franzindo a testa profundamente. - Quando nos tornarmos santos, o sofrimento terminará. Somos todos pecadores.
- Estamos perdendo o foco - uma voz repentina e aguda soou, e todos pararam de falar e se viraram para Mateus, que estava anotando tudo no canto do barco, mas agora estava olhando para cima. Enquanto olhavam, ele ficou tímido e desviou o olhar, mas seu semblante permaneceu determinado. - Estamos nos perdendo no objetivo dos ensinamentos do nosso mestre.
- Mateus - A voz de Jesus era suave e doce acima do som do mar, e Mateus olhou para Ele com os olhos arregalados. - Continue.
Ele engoliu em seco e olhou novamente para suas anotações.
- Jesus disse que… que isso iria fortalecer Simão e Éden… m-mas Ele poderia ter feito isso sozinho… sem nos envolver…
- Você queria que nós víssemos - André sussurrou, olhando para Jesus com um olhar chocado. - Mas por que... por que você iria querer que víssemos o sofrimento de Simão?
- Eu não queria que vocês vissem o sofrimento de Simão - disse Jesus, com a voz firme como quando estava ensinando. Os apóstolos imediatamente ficaram tensos, prontos para a lição. - O que direi agora não será escrito em palavras, pois permanecerá em seus corações. Muitos de vocês têm dúvidas. Dúvidas de todos os tipos e tamanhos. Muitos de vocês Me questionaram quando escolhi meus discípulos. Espero que depois de hoje vocês não o façam novamente.
- Pois eu não procurei os sábios, nem os fortes, nem os espertos. Mas procurei solo fértil, onde plantar minhas sementes para que elas crescessem e produzissem grãos. Pois vocês dizem que me amam, dizem que acreditam em mim, dizem que irão até os confins da Terra comigo, e ainda assim, vocês questionam e duvidam.
- Sei que muitos não aprovaram Minha escolha como líder. Sei que muitos não gostaram de Simão quando ele chegou. Eu sei que muitos desaprovam suas ações. Sei que muitos sentem inveja de sua posição.
- Digo isso agora para todos vocês, e aqueles que têm ouvidos, que ouçam! Simão era um pecador, assim como todos vocês e toda a terra. E quando ele julgou que eu o esqueci, ficou com raiva, distraído e chateado. No entanto, nenhuma mão foi levantada em apoio, nenhuma palavra de conforto lhe foi dirigida, e ele ficou perdido e sozinho em um mar escuro e tempestuoso. E mesmo assim, quando eu chamei, ele veio, e quando veio, fez tudo o que foi exigido dele. Ele vos protegeu, organizou as multidões, encontrou um barco para vocês voltarem para casa. E quando vocês duvidaram de Mim, da Minha vontade, ele acreditou, apesar da raiva e da tristeza em seu coração, sabendo que eu havia feito aquelas pessoas passarem fome, e sabendo que se eu quisesse, eu as alimentaria.
- E quando cheguei andando sobre as águas perto do barco, todos temeram, mas ele mandou vocês pararem e esperarem. E quando ele disse que andaria sobre as águas, e que sua fé era forte, todos vocês gritaram em terror e angústia! E quando o chamei para que Me provasse sua fé, todos clamaram para ele não ir! Homens de pouca fé, vocês entendem agora por que ele teve que sofrer?!
Os apóstolos ficaram em silêncio mortal quando Jesus terminou, a maioria deles com lágrimas nos olhos, sentindo-se envergonhados. Eles olharam para Simão, para sua forma calma e adormecida, pensaram sobre como ele não havia acordado apesar da força e do volume das palavras de seu mestre, e entenderam que ele não deveria saber de nada disso.
- Agora - continuou Jesus, com um tom mais suave e um comportamento mais calmo - vamos remar de volta para Cafarnaum, e todos vocês irão meditar sobre todas as coisas que viram e ouviram hoje, na estrada, em Decápolis, e aqui neste barco. E espero que vocês entendam, finalmente, que o seu Deus que está no céu não comete erros. Todos vocês foram escolhidos e todos são dignos. Agora... vamos embora.
Com um aceno de Sua mão, os ventos e as águas mudaram de direção e uma corrente começou a carregar o barco de volta a Cafarnaum por conta própria. Alguns deles retornaram aos seus postos, enquanto outros permaneceram quietos e imóveis, pensando nas palavras de seu mestre.
E Jesus cuidava de Simão, orando por ele em silêncio.
Quando chegaram à costa, André acordou o irmão e mandou-o embora para sua casa. Simão deu um rápido adeus a todos eles, antes de voltar correndo para Éden, com quem desejava ficar perto por um tempo. Os demais venderam o barco para um homem e foram descansar na casa de Zebedeu, enquanto Jesus saiu da cidade para orar.
Estavam todos em silêncio e contemplativos. Mais uma vez, ao pensarem nas pessoas de Decápolis, compreenderam que a lição não era para as multidões, mas para eles próprios, para os seus próprios corações e almas.
Eles tinham muito pelo que orar, mas por enquanto ansiavam pela companhia um do outro. Pelo menos até Simão estar de cabeça erguida novamente.
