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Era tarde da noite e a maior parte da ilha provavelmente já estava adormecida há muito tempo, mas não Cellbit. Ele estava enfurnado em seu escritório na Ordo Theoritas, analisando as últimas pistas do caso que a Federação tinha jogado para ele.
O detetive se curvava sobre a tela do computador com uma xícara de café frio ao seu lado, as orelhas tremendo pelo excesso de cafeína no seu corpo. Fazia quanto tempo que ele estava ali naquela noite? Quem sabe? Definitivamente não ele, a falta de janelas no bunker subterrâneo não o ajudava nem um pouco a ficar de olho no tempo, mas as palavras estavam começando a borrar e talvez já estivesse na hora de voltar pra casa.
De repente ele ouviu passos no corredor. Rapidamente ele reajustou os óculos para cobrir as orelhas, bem a tempo de ver o rosto mal humorado do marido aparecer na porta.
—Que diabos, Cellbo!— Ele franziu o cenho. —Por que você ainda tá aqui?
—Desculpa, Guapito, eu tive que terminar uma coisa.
—Já são tipo 3 horas da manhã, você pode terminar depois.— Roier cruzou os braços e se apoiou no batente. —Você tem que dormir um pouco.
Cellbit sorriu afetuosamente. —Você veio até aqui às 3 horas da manhã só pra me buscar?
—Si! Porque mi esposo es un pendejo!
—Ok, ok, entendi.— Ele se levantou e desligou o computador. —Vamos pra casa.—
Roier estava mal humorado durante todo o caminho, mas ainda assim ele beijou o marido boa noite, o pequeno ritual deles junto com ele provocando Cellbit por dormir de óculos. Ele estava convencido que o brasileiro secretamente tinha uma falha no cabelo ali e tinha medo que Roier não achasse mais que ele fosse gatinho se ele visse. Cellbit queria muito que esse fosse o caso.
Ele se enrolou em volta de si, devagar deixando a mente relaxar, e com Roier abraçando Cellbit por trás, ele sabia que não existia lugar melhor pra estar agora. Nesse estado de cansaço ele se deixou tomar por essa felicidade a um ronronar suave se formou em seu peito. Antes que ele pudesse parar ele sentiu Roier se mexendo.
—Gatinho, você tá bem?
—Cellbit engoliu em seco. —Si-sim, por quê?
—Seu peito está roncando, eu pensei que você pudesse estar resfriado ou alguma coisa assim.
—Não, eu tô bem.— Cellbit respondeu um pouco rápido demais. —É só cansaço...
—OK… se você diz.— Rolex relaxou e retomou a sua posição anterior. —Mas se você continuar trabalhando desse jeito você vai ficar doente mesmo.
Cellbit murmurou de acordo, novamente deixando a mente relaxar. Ele tinha sorte que Roier estava tão cansado. Estava cada vez mais difícil esconder dele a sua natureza híbrida.
A ilha foi o primeiro lugar em que viu híbridos serem tratados como iguais. Claro, os lugares nos quais ele passou não eram bondosos com nenhum grupo de pessoas, mas geralmente quando humanos estão em seu ponto mais baixo, aqueles que são diferentes viram um alvo fácil de crueldade e ódio. Ele aprendeu cedo a esconder essa parte dele mesmo, mais ou menos quando ele aprendeu a empunhar uma espada propriamente, e hábitos são uma coisa difícil de abandonar. Era por isso que mesmo depois de ver como os habitantes eram gentis com pessoas como ele, ele ainda tinha muita hesitação em confessar tudo. Agora já havia passado tanto tempo que ele sentiu que os outros se sentiriam traídos por ele esconder isso de todos, especialmente Roier.
Roier era humano e provavelmente a alma mais bonita que ele já viu na vida. Sua melhor amiga era um híbrido de pássaro e seu filho, como todas as outras crianças da ilha, foi um meio-dragão. O homem confiou em Cellbit mesmo quando ninguém mais o faria e até acabaria se casando com ele. Todos os dias que cellbit não lhe dizia a verdade; ele sentia a culpa dentro de si crescer. Ele realmente queria ter contado tudo antes, mas nunca teve a oportunidade onde o momento pareceu certo. As malditas vozes na cabeça dele sempre o lembravam como toda vez que alguém descobria, não importa o quanto Cellbit confiava nelas, isso era usado contra ele de um jeito ou de outro.
Ele se sentia seguro com Roier, mais do que nunca. O problema é que às vezes essa segurança fazia seu cérebro entrar em curto-circuito, e algumas partes suprimidas de si simplesmente se mostrariam se ele não tomasse cuidado. Por sorte, a maioria podiam ser facilmente explicadas como tiques estranhos ou formas diferentes de mostrar carinho, mas algumas só eram vergonhosas mesmo. Ele agradecia a cada deusa e deus que talvez esteja por aí que eles geralmente só aconteciam quando ele estava com o marido, que não o questionaria. Cellbit achava que ele simplesmente morreria se ele fizesse algo como ronronar ou gorgorejar em volta de outras pessoas.
Na maioria dos dias, era controlável e ele conseguia funcionar como um ser humano comum, hoje não era um desses dias. As últimas semanas tinham sido duras com os debates, mas elas finalmente acabaram. Ele perdeu sua última vida presidencial e se tudo desse certo, Forever logo seria eleito. Ele tinha tempo pra só ficar em casa com seu amado esposo de novo. Tudo deveria estar bem, mas alguém tinha que ameaçar o Richas e arruinar sua semana perfeitamente relaxante, o deixando ansioso e tão preocupado que ele mal tinha energia pra esconder seus malditos instintos.
Ele estava na Sala do medo, re-catalogando todas as informações que poderiam levá-lo a quem estava ameaçando o Richarlyson, quando ele ouviu a porta de metal fechando atrás dele. Sem pensar, ele girou nos calcanhares e pulou no intruso, o prendendo contra o chão.
—Oi, Gatinho, você tá tão feliz assim em me ver?— O marido provocou por debaixo dele, fazendo Cellbit relaxar.
—Desculpa, Guapito.— Ele se levantou, oferecendo a mão para ajudar Roier a se levantar. —Eu deveria saber que era você.
—Não se preocupe.— Roier acenou com a mão. —Eu preciso ir minerar por materiais da Ciudad de Bobby e eu ia perguntar se você queria vir junto, mas eu vou entender se você estiver ocupado.
Cellbit mordeu o lábio. Ele tinha analisado cada pedaço de informação e ainda assim não tinha ideia de por onde começar, talvez o que ele precisasse fosse sair de perto por um momento e voltar com uma mente menos cansada. —Claro, eu só preciso guardar isso. Você pode ir na frente que eu te encontro no spawn.
—Okay, te vejo logo, Gatinho.— Roier plantou um beijo na testa do outro e desapareceu em um flash roxo.
Ele juntou os livros envolta dele quando ele e foi os colocar de volta no baú quando a tampa se fechou de repente, quase acertando seus dedos. Cellbit deixou escapar um miado assustado que ecoou pela câmara escura, ele agradeceu aos deuses que ele estava sozinho ali. Ele tinha que se controlar.
…
O par acabou achando uma caverna grande não muito longe da área principal. Levar os recursos de volta não seria tão difícil, deveria ser tranquilo mas eles rapidamente descobriram que a caverna estava infestada por monstros.
Roier era uma besta. Ninguém nunca adivinharia que um homem tão relaxado e casual sobre tudo seria um guerreiro tão formidável. Ele dilacerava os inimigos com facilidade, girando como um diabo e ainda tinha tempo para fazer piadas. Cellbit, por outro lado, estava quase do outro lado da caverna, quase sobrecarregado por todos os monstros vindo para cima dele, mas nenhum totem tinha sido quebrado ainda. A lanterna dele estava jogada em algum lugar em pedaços e era apenas graças a sua visão noturna que ele conseguia se manter.
—Gatinho!— Roier gritou, tos sons de batalha diminuindo de sua direção. —Estás bien?!
—Uh, sim!
—Cadê você? Eu não tô vendo a sua lanterna.
—Ela quebrou!
—É por isso que você tem que trazer tochas, pendejo! Como você ainda tá vivo?— Ele repreendeu. —Onde você está?
—Atrás dos mobs!— Cellbit viu a luz da tocha do Roier ficando mais e mais forte e os mobs começaram a se afastar. Ele não podia deixar de admirar a vista, até coberto de suor e sujeira o marido dele parecia absolutamente maravilhoso enquanto lutava em seu caminho para encontrar Cellbit. Roier estava distraído com um último zumbi, ele mal podia notar o piscar fraco de um creeper por trás dele.
Cellbit correu e empurrou Roier para fora do caminho com a mão livre. Investindo com sua espada, ele empurrou o creeper para longe o suficiente para que ele explodisse a uma distância segura, mas a onda de choque ainda o atingiu com força. Cellbit rosnou, expondo suas presas curtas.
—Gatinho, tudo bem?— Roier pôs a mão no ombro do marido, que ficou tenso.
—Sim sim, desculpa, Guapito.— Cellbit tentou disfarçar. —Eu não queria te machucar.
—Tá tudo bem, não se preocupa.— Ele franziu o cenho. —Eu não tenho nenhuma tocha extra, a gente pode procurar carvão e fazer uma pra você.
—Ah, não se preocupa, Guapito. Eu vou ficar perto de você.— Ele sorriu.
—Awn, eu sou a luz da sua vida?
—Você realmente é.— Cellbit beijou a bochecha de Roier. —Agora vamos.
—Ok…
Ele tentou ficar perto do marido, mas ele ocasionalmente se pegava distraido por algum reflexo ou bicho de caverna e se afastando da luz.
Eles tiveram sorte com os recursos, achando tudo o que Roier precisava em algumas horas, então antes do pôr do sol eles já estavam de volta à civilização. Cellbit observou enquanto Roier separava os materias e se preparava para erguer outra construção em homenagem ao filho perdido. Ele notou os olhares estranhos ocasionalmente lançados em sua direção, mas ele estava cansado demais pra dizer qualquer coisa. Roier, por outro lado, não estava.
—Gatinho, eu estou preocupado. Tem certeza que você tá bem?
—Sim, Guapito.— Cellbit piscou devagar. —Por que a pergunta?
—Você tá agindo estranho.— Ele chegou mais perto e estendeu a mão para o rosto do outro. —Aconteceu alguma coisa
—É cansaço.— Ele balançou as mãos com indiferença. —Não se preocupe, eu só tenho que dormir um pouco.
Roier murmurou, não muito convencido. —Você sabe que pode me contar qualquer coisa, sí?
Cellbit acenou com a cabeça e beijou a bochecha do homem. —Eu sei, meu amor.— Ele disse, não olhando nos olhos do marido. Roier gemeu e o par se dissolveu em risadas, sem notar o esqueleto se aproximando das sombras.
Uma flecha voou rente a eles, passando tão perto que Roier perdeu alguns fios de cabelo. Roier girou e investiu contra o esqueleto, acabando com a pós-vida da criatura antes de se virar de volta para seu marido com um sorriso travesso só para dar de cara com os olhos azuis dele, arregalados de medo, desaparecendo em um redemoinho de faíscas roxas.
Ele se foi, deixando nada além de seu par de óculos com uma tira arrebentada para trás.
