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Ciranda

Summary:

Dois pestinhas problemáticos encontram-se para passar menos de uma semana juntos na época colonial. O que poderia acontecer além do apocalipse?

Notes:

Bom dia, boa tarde e boa noite.

Se estiveres lendo isto, foste a minha primeira escolha para iniciar este projeto. Afinal, estamos perto do natal e melhor que decorar a casa é presentear as pessoas. Gostei de ti.

A vida é muito breve para que nos privemos de fazer certas coisas (até mesmo legais e inofensivas) por uma ideia implantada ou social de estranheza. Então por que não? Já tô aqui mesmo.

Boa leitura aos meus amados. Este capítulo inicial é similar a um prólogo velho esquisito, é apenas de apresentação. O desespero de pequeno possuído trepando no teto e se descabelando é mais para frente.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: O português de Luciano e os seus passatempos de pivete endiabrado

Chapter Text

Quanto verde! — Suspirou.

Só havia verde, realmente. Verde mato, verde água, Verde-limão, verde-cana-de-açúcar, verde claro, verde escuro, verde fraco, verde forte, verde verde e verde menos verde que o outro verde. Um misto verdacho de verdíssimo e esverdeado — por onde Luciano rolasse os olhos encontrava uma porção de verde a encará-lo. Entediado, principiava a balbuciar mentalmente uma narrativa.

De antonimos a sinônimos, a adjetivação daquele adjetivo verdacho, um nobrermo rei no meio das cores — nobrermo? Isso existe? Acho que não. Luciano pensou por um pouco mais de tempo e concluiu por fim: pensei, agora ele existe.

Luciano continuou a narrar apenas para si aquelas palavras, sentado sob a copa — ou quiçá dentro — do Sabiá. A árvore arbustosa cobria-o todo como uma nuvem verde, arriada na terra.

Ainda que Afonso tivesse na ponta de sua língua sempre o "nobilíssimo", Luciano pouco pensava antes de dizer: nobrermo.

Mas onde ele estava? Ah! Em "de antonimos a sinônimos...", retomando! Não, espere..., a retomar? Retomando ou a retomar? De volta, é melhor dizer de volta — Engatava-se um suspiro de tédio em seus pensamentos pouco coerentes. O mormaço vestia-o, Luciano balançava os pés na terra e espiava a folhagem verdejante. A brisa a lambê-lo no rosto acalentava-o com sussuros de um convite sedutor para tomar uma soneca sob a copa do Sabiá. Luciano retomava os balbucios de suas introspecções.

De antonimos a sinônimos, a adjetivação daquele adjetivo verdacho, um nobrermo rei no meio das cores — nobrermo, que palavra bonita! —, era tão grande que poderia não caber dentro do dicionário de língua portuguesa.

E não cabia. Assim como Luciano não conseguia caber dentro da gramática. E era sobre isso o seu momento de reflexão filosófica.

Não, não era a gramática que não cabia dentro de Luciano, era Luciano que não cabia nas gramáticas, tampouco nos dicionários e tabelas de classes gramaticais.

Afonso enchia os braços do pequeno de livros e mais livros. Dizia e redizia: "Não é assim, Luan”; "Essa palavra não existe, Luano"; e por fim, com os olhos embotados de cansaço: "com quem aprendeste isso, Luciano?"

Não era mentira que o pequeno Luciano achasse lindo tudo o que deixava a boca do progenitor e espalhava-se feito borboletas miúdas pelo ar da sala. Aquelas belíssimas palavras que o pequeno tinha o prazer de capturar e destruir, triturando-lhe as asinhas e convertendo-as em lagartas outra vez para repetir a metamorfose a fim de torná-las grandes borboletas. Suas próprias borboletas.

E quando ele cantava suas antigas cantigas, então? Cada canto de amor, cada segredo de amigos e todo o repertório de Don Dinis; O que da guerra levou cavaleiros era sua favorita, não era desse rei — na verdade, ele nem sabia a autoria —, mas tinha um pouco de galego, de espanhol, de açúcar, de charme...

E de tédio.

Luciano entendia-as bem, até com certa facilidade, ele amava entender. Quando não entendia, fazia-se entender dando logo um significado à palavra que ele não conhecia. Assim ele brincava. Com palavras. Os melhores brinquedos da época.

Ele amava quando as seis horinhas da noite, ou da tarde, finalmente chegavam em seu burburinho de sapos e grilos. Devagar, devagar, a estender as mantas estreladas no varal do céu, devagar como quem tivesse sono, ou Luciano era quem tinha muita pressa de escurecer para logo ouvir as histórias fantásticas que seu pai tinha para contar.

Não só adorava as histórias de seu pai, adorava também estourar contra o cal da parede as suas mortais inimigas aladas: as muriçocas. Aliadas da escuridão e da frieza e inimigas naturais do homem — Luciano desconfiava que a muriçoca era quem havia oferecido a maçã a Eva. Quando amanhecia, o branco da parede estava ensanguentado pela chacina de mosquitos; a luz entrava e enxotava a escuridão que abrigava o cadáver chato daqueles pobres seres. Todos vitimados pela impiedosa palma de Luciano.

Afonso tinha de agarrá-lo e jogá-lo na cama, ou na rede, para narrar suas aventuras. O português adorava tanto quanto o filho esse momento, afinal, havia ali em sua frente um ouvinte perfeito — era pequeno demais para a incredulidade, não vivera quase nada para contradizer o mais velho, e mais importante: era naturalmente inculto, surgia naquele lugar ainda vazio de experiências, sem cultura e pronto para ter sua tábula rasa rabiscada pelo português. Tudo que Afonso dissesse era a verdade oficial.

Naqueles pequenos momentos de pai e filho, sentia-se no topo da hierarquia, superior a tudo quanto fosse personagem narrado por si. Ilustrava-se como o maior da Europa, e quem seria Luciano para contradizê-lo? Europa era, para Luciano, um lugar longínquo, ladeado por mitos e incertezas, acessado única e exclusivamente através de Afonso, o qual a apresentava de seu modo e sempre sob seus pés. Aquela era a verdade de Luciano e a inocente mentira de Afonso.

Desde povos bárbaros e guerras maravilhosas com desfechos tão surpreendentes que o pequeno não conseguia evitar criar palavras para adjetivar tamanhas aventuras: Incrivilhosas, magnimadora, lindespetacular. Com seus neologismos abrasileirados, Luciano desenhava as próprias emoções e traduzia o mundo. Ouvia atentamente a história, aguardando o ápice narrativo para explodir em perguntas.

Sempre, como dizia Afonso, tinha nuances da realidade que era o tempero ideal para o ouvinte não conseguir soltar um único ruído em meio aos relatos.

No final o mais velho só precisava soltar um "é verídico" para a miniatura brasileira começar a transbordar de questionamentos, dos mais tolos aos mais intrigantes.

"Papai, quem derrotou Roma?"

"O que é um mouro? Eles realmente roubam cabritos?"

"O que é um 'lusitano'?"

"Quem é Camões? Ele teve um final feliz?"

"Por que os navios afundam?"

"Por que lhe chamam de luso?"

"Posso pegar sua arma e atirar nas muriçocas?"

"O que é Europa? É um tipo de mosquito?"

"O que é o cabo das tormentas?"

"O que é, o que é"

"Por que chove?"

"Por que a água é azul, mas quando tocamos não tem cor?"

"Por que os portugueses não tomam banho? Eles derretem?"

“Por que portugueses fedem? Eles são parentes do saruê?”

Por que isso, por que aquilo, por que aquilo outro…

E assim ia, seguia.

Afonso falava sobre Roma. Quem era Roma? Luciano não sabia, mas Roma parecia assustadora. Que guerras mais bárbaras! Roma dizia que todos eram bárbaros, mas ela era bárbara.

Porque bárbaro não era aquele ser isento de latim, mas sim alguém violento, não? Violência, barbaridade… — Luciano assimilava com simplicidade de pensamento.

E os dias eram todos iguais, desde o nascer lento e preguiçoso ao anoitecer melancólico e lúgubre.

As lamparinas acordavam e colocavam as chaminhas miúdas para dançar. As janelas de madeira fechavam os braços e as muriçocas — mosquitos, pragas, pernilongos — batiam o ponto prontas para mais uma longa e perigosa jornada de trabalho. Fugiam de Luciano sempre que viam sua pequena figura oculta nos cantos a caçar sua vítima como a onça caçasse a presa, constantemente armado de um objeto rígido, às vezes uma tábua, às vezes um pedaço de pau, às vezes as botas do pai…

Nesse horário, se o garoto já não estivesse a massacrar os hematófagos, ou Luciano estaria perdido nos canaviais, ou quiçá em algum pé de pau talvez a desafiar Newton.

Se Newton vencesse, Luciano voltaria para o casarão aos prantos que nem um injustiçado teria tal feição, afinal, o local que o pivete achava de subir era o olho de uma árvore.

Mas se Luciano vencesse, Afonso que o aguentasse falando horas e horas, a narrar sua aventura de subir e descer uma velha árvore de quase dez metros.

Antes de o engenho ficar cheio de vaga-lumes, mulatos e lanternas, Luciano já aparecia nos degraus do escadote frente ao casarão e sumia-se porta a dentro. Via-se apenas as muriçocas em desespero e ouvia-se o baque da tábua assassina, já lambuzada de sangue e outros cadáveres.

No canto sob os candeeiros, com um livro desfolhado de cabeça para baixo em mãos, Afonso o admirava orgulhosamente, sabia que quando crescesse havia de ser um homem de pulso firme, do tipo perfeito para se pôr na linha de frente de batalha contra a Holanda ou a França.

Sempre que adentrava a casa, Luciano saía a deixar um rastro de lama, folhas e bichos. Aquela já era sua marca registrada, algo que dizia: Luciano passou por aqui.

Galhos nos cabelos lisos, arranhões distribuídos pelo bronze fresco de sua pele — orgulhosamente adquirido durante longas horas sob o sol —, rasgos no tecido de sua roupa e uma caranguejeira no bolso. Algo rotineiro. Após um banho estava pronto para ouvir algum livro ou alguma aventura de Vasco da Gama.

O que iniciava com um simples "Era uma vez" perdia-se no extenso e lírico corpo de uma odisseia. Quando dava por si, Luciano já havia recriado todas as linhas possíveis como quem visse a aventura suceder perante seus luzeiros. Terminada a primeira estapa, Afonso sinalizava a abertura para possíveis perguntas.

"Quem é Adamastor?" Luciano questionava, acomodado nas cobertas da cama.

"Um gigante", e assim Afonso iniciava outra narrativa. Só que dessa vez com suas próprias belas palavras. Inclusive algumas inventadas também. No entanto, Luciano não sabia que suas invenções sempre seriam marginalizadas, enquanto as de Afonso seriam tratadas como originais.

Sobre as histórias, Luciano jamais saberia se ele estivesse narrando de seus pensamentos algo ou apenas recitando, pois sua prosa e sua lírica eram as mesmas bailarinas orientais, com sedas caríssimas e perfumes egípcios.

Enquanto Luciano via-se cercado por suas próprias palavras mestiças, maltrapilhas, sem beleza e sem carisma, mas desbravadoras e engraçadas, traziam logo o sentido à lume. Sem mistérios ou arrodeios de eruditos.

Vascodagamamente, as palavras brasileiras ébrias de desgramática cruzavam os mares do português convencional e perdiam-se nas Índias do Novo Mundo.

Às vezes Luciano esquecia-se por completo das pobres criaturas suas, outras o marcavam tanto que não deixavam mais sua mente.

Quando seu pai o via quieto entre os lençóis e arrumava-se para sair, o brasileiro descia a coberta lentamente, o suficiente para descortinar um par de olhinhos brilhantes. Luciano sabia que ele não ouviria, mas mesmo assim resmungava um "tenha uma boa noite".