Chapter Text
Remo pisou com cuidado.
O chão estava extremamente escorregadio graças a lama que havia se formado devido às chuvas recentes, a tempestade da noite anterior certamente não ajudou deixando o terreno mais acidentado ainda, era completamente assustador para se mover com segurança. Ele observou toda a área, ainda detestando a leve garoa que caia sobre suas cabeças.
No começo ele pensou que fosse bom ser enviado para verificar a área em vez de ficar preso na caverna por mais dias com o restante do bando. Lupin sentiu que poderia enlouquecer com os idiotas que gostavam de perturbá-lo só porque não tinham algo melhor para fazer, viver em alcateia era bom, mas altamente estressante, lobisomens eram seres agressivos por natureza, então qualquer coisa era motivo para discussão.
— Foi um ataque de lobo Crinos. — Remo ouviu a voz de Mark grunhindo um pouco mais longe enquanto ele pisava sobre uma vasilha de argila. O lugar foi destruído e ao que tudo indicava havia sido o acampamento de alguém por uns dias. — Há marcas de garras e o cheiro de sangue está por todo o lugar.
— Bem, pelo menos Fenrir não precisa mais se preocupar com os bruxos chegando muito perto. — Ao longe, Cass, um dos betas, foi verificado o que deveria ter sido uma barraca algum dia. Havia um grande rasgo no tecido verde-escuro, estava torta de modo que somente uma parte dela estava em pé respectivamente. O cheiro repugnante de magia vazava lentamente e era tão horrível quanto o cheiro de Mark, o lobo que tomava banho uma vez a cada quatro meses quando forçado. Havia uma fogueira completamente apagada e com cinzas não muito longe do lugar. — Quem sabe assim ele não aquieta o rabo dele agora. — Os outros dois lobos que faziam parte da missão não podiam deixar de rir.
Seu Alfa estava sendo um saco devido aos bruxos, Remo podia entender o porquê, ele não o culpava por isso.
Remo soltou um longo suspiro. Eles estavam no meio de uma floresta densa localizada no meio do nada em algum lugar do País de Gales, a floresta tinha rumores demais para que nem mesmo o mais corajoso dos homens se atrevesse a pôr os pés, mas para a surpresa de alguns da alcateia e o temperamento bruto de Fenrir, alguém havia entrado e estava muito perto das cavernas que o bando usava. Como Alfa, Fenrir se manteve alerta e vigilante, chegando a proibir que seus lobos vagassem livremente para além das proteções da caverna.
Atividades como caça de laser, passeios ao ar livre e brincadeiras foram restritamente proibidas, afetando muito mais os adultos do que os filhotes.
— Vejam, há um corpo aqui!— Os olhos de Remo se arregalaram, não é como se ele fosse idiota ao ponto de não ter a possibilidade, mas ele preferia mil vezes que essas pessoas tivessem apenas abandonado o local. Ele se apressou para olhar com os outros, no fundo, desejando que não fosse de fato uma pessoa. Cass parecia estranhamente presunçoso por achar — Uma fêmea bruxa. — Seu nariz acentuado se enrugou enquanto apontava para a varinha que estava ao lado do corpo. — Bem, ela teve o que merecia. — Remo não pode deixar de pensar que se fosse noite de Lua cheia eles teriam devorado a mulher, não deixando nem mesmo um osso como prova, possuídos demais por sua sede de sangue animalesca e vingança por todos os lobos que eram caçados e mortos por anos.
Remo mordeu os próprios lábios para não xingá-lo. Como poderiam tratar tão levianamente a vida de alguém? Tudo bem que bruxos caçava a sua espécie e foram seus torturadores por séculos, mas ele não conseguiu deixar de se importar. Uma vida ainda era uma vida e a mulher parecia ser tão jovem.
Cass era o mais horrível que ele conhecia.
— Aqui tem mais três corpos. Todos mortos também. — Alguém anunciou. Remo, por outro lado, estava dividido entre vomitar e não continuar a olhar. A cena era mórbida, mas ele não podia deixar de observar por uma estranha razão de fascínio, ele culpava sua fera interior por isso, claro, já havia matado antes, uma vez, por descuido e demorou muito tempo antes de pensar em comer qualquer tipo de carne, agora estava tendo a mesma sensação agourenta daquela época, mesmo que não tenha sido ele o responsável por assassinar aquela mulher.
Ela era jovem, lindos cabelos ruivos, mas o rosto estava marcado pelo horror e ensanguentado, além das marcas profundas de unhas, sua pele pálida dava destaque ao vermelho do sangue, partes de seu corpo dilacerado com pele morta e carne expostos ao mundo, além das roupas rasgadas, faltava um sapato do pé esquerdo enquanto o direito estava posicionado em um ângulo impossível.
— Recolham tudo o que pode ser útil e vamos voltar, já fizemos o que o Alfa mandou. — Cass ordenou. Remo se forçou a dar as costas para a cena e seguir os outros, procurando por tudo o que fosse útil, ele não se atreveu a olhar para a mulher novamente e muito menos para os outros corpos, no entanto, sabia que não dormiria bem essa noite.
Depois que Cass se deu por satisfeito, eles embalaram tudo e jogaram os sacos por cima dos ombros.
A chuva se intensificou e Remo já estava farto de ver a destruição, um dos outros havia até mesmo se atrevido a pegar o par de botas de um dos homens mortos, ele, por outro lado, estava disposto a ser o primeiro a partir, no entanto, um pequeno choramingo o fez parar.
Virando-se lentamente, Lupin, encarou o acampamento destruído, seus olhos atentos a qualquer movimento ou som. A princípio havia apenas o som da chuva caindo que se intensificava lentamente. Ele franziu o cenho, completamente intrigado.
Era óbvio para todos na matilha que de longe ele era o lobo de melhor forma, mais rápido ou forte, mas Remo poderia se orgulhar de seu faro e audição.
Ele tinha certeza do que tinha ouvido.
— Lupin, o que você está esperando? Eu disse para a gente ir! — Cass falou rudemente um pouco a frente com os outros, o desgosto evidente em sua voz. — Esse idiota, só serve para atrasar.
— Eu ouvi algo. — Remo respondeu colocando o saco que carregava no chão.
— Claro que sim. — Mark zombou. — Quero voltar para a minha toca, porra! Não gosto de chuva.
— Você não gosta de água. Onde está a novidade? — Remo achou que Brat poderia ter evitado o soco se tivesse deixado a boca fechada.
Sem medo e ignorando os outros, ele voltou para o acampamento. Seus ouvidos atentos a qualquer tipo de som. Como recompensa, ele pode ouvir de novo, era fraco e baixo, mas alto o suficiente para ele saber de onde vinha. Remo havia ouvido aquele som por várias estações desde que entrou na matilha, ele poderia conhecê-lo a quilômetros de distância e seu coração batia mais forte com a implicação do que poderia ser. Seus pés afundando na lama enquanto ele voltava para a barraca caindo aos pedaços e cheia de rasgos.
Ele se viu de frente ao corpo da mulher ruiva novamente, seus joelhos fraquejando enquanto ele caia no chão.
Observando agora e com atenção, a mulher segurava algo fortemente contra o próprio corpo. Um pacotinho menor que se mexia e choramingava, podia-se ver um bracinho claro se erguer a medida que o som ficou mais alto. Remo tinha certeza de que era um bebê.
Mais do que depressa, suas grandes mãos desceram para o pequeno embrulho, tentando tirar os dedos endurecidos da mulher morta. Ele estava totalmente desesperado agora, seus ouvidos zumbindo e seu coração batendo fortemente contra o peito.
Os dedos da ruiva eram duros e seguravam o corpo e a cabeça do bebê com extrema força. O lobisomem se viu obrigado a quebrar cada osso dos dedos dela para retirá-lo do agarre, o som dos ossos se partindo e rachando não fazendo bem algum para a situação.
Nesse meio tempo os outros voltaram para ver o que tanto o havia deixado nesse estado frenético.
Remo finalmente conseguiu arrancar a criança dos braços da mãe morta, tomando o cuidado de segurá-lo delicadamente contra seu peito desajeitadamente sem saber o que pensar ou fazer. Os choramingos da criança pareciam se intensificar, mesmo que continuassem fracos.
Preocupado que estivesse machucado, já que o pano em que estava enrolado estava com sangue, Lupin se apressou em desenrolá-lo do pano molhado. Ele viu primeiro os cabelos cor azeviche, grossos e bagunçados como o ninho de passarinho em meio a uma leve ondulação, era pequeno e magro, sua pele parecia muitos tons mais pálidodo que o esperado para uma pessoa, levemente azuladas, assim como seus lábios ganharam um tom horripilante de roxo. Sobre um dos olhos jorrava sangue enquanto sua pele estava fria demais para um bebê, cinco dedos em cada mão, pé e uma genitalia masculina.
Apesar de tudo, ele não parecia machucado ou doente... ainda.
— Um bebê...— Remo o encarou fixamente, murmurando ainda sem acreditar.
— Ele cheira um pouco parecido com você. — Alguém acusou. Remo se viu olhando surpreso para a cara contorcida de Paul. — É um pouco diferente, mas é o mesmo fedor de sujeira bruxa, no entanto... — O olhar de todos se voltou para o filhote preso nos braços de Remo. Lupin se viu olhando também, as palavras ainda processando.
De repente o menino agarrou seu dedo indicador e o segurou com muita força, ele fungou uma e outra vez antes de abrir seus grandes olhos. Remo perdeu o folego. Havia uma mistura incomum de âmbar com esmeraldas verdes, uma característica única de um mestiço.
Aquele bebê possuía licantropia correndo em suas veias.
— ... Como eu. Ele é como eu. — Sussurrou. Ambos se encarando. Um sentimento que Remo jurou deixar para trás um dia se aprofundou em seu interior. Aquela criança não era muito diferente dele, pelo contrário, eram semelhantes em muitas maneiras que fazia, ele, um homem adulto, querer chorar.
— Me passe ele para cá. — Cass mandou de repente, fazendo com que ele saísse do seu estado contemplativo. Remo se assustou com o tom de comando e frieza. Seus braços se enrolaram protetoramente contra o menino instintivamente e recuou quando viu que Cass estava muito perto para seu conforto.
Um dos braços do beta estava estendido, o saco com bugigangas ficou esquecido no chão não muito longe de seus pés enquanto a outra mão segurava uma grande pedra pontuda. Remo sentiu um medo avassalador a ponto de gelar sua pele quente.
— C-Cass...?— Engoliu em seco observando a pedra. — O que você vai fazer?
Cass pareceu se aborrecer com sua pergunta.
— O que mais eu vou fazer? Ele é um filhote sem fêmea. Vou acabar com o sofrimento dele aqui e agora. — Desespero se apoderou de Remo e ele se viu apertando o menino com a mesma força que sua mãe fazia alguns momentos antes. Ele notou que nenhum dos outros protestou, na verdade, pareciam concordar e com horror ele se lembrou do que o beta estava falando.
Quando filhotes nasciam doentes e não conseguiam se curar com as ervas era comum aliviarem suas dores os matando, assim como aqueles que nasciam muito pequenos e fracos para sobreviver, a maioria terminava adoecendo e morrendo poucos dias depois, ou com deformidades e às vezes quando as fêmeas davam à luz e não resistiam deixando o filhote para trás, isso porque eles não teriam chances de sobrevivência. Bebês precisavam de leite para se fortalecer, mas as lobas alimentavam somente seus filhotes, rejeitando e às vezes até matando um filhote que não era seu.
Era a lei da sobrevivência. Os mais fortes sempre venciam.
Este bebê tinha poucos meses de vida, era pequeno demais, talvez um imaturo, e sua mãe estava morta, ela não poderia alimentá-lo, ele não tinha chances de vida porque nenhuma loba na matilha o alimentaria.
Remo sabia o que tinha de ser feito, ele sabia que esse menino não poderia sobreviver e que o ideal era que ele estivesse morto agora do que ter de viver por semanas sofrendo antes de morrer, era tortura. Ele sabia disso, então por que ele não poderia simplesmente entregá-lo a Cass? Para as mãos frias e ceifeiras do lobo ruivo?
Remo mordeu o lábio inferior e deu outro passo trêmulo para trás.
— Não! — Ele se viu rosnando. — Fique longe dele, Cass ou juro que arranco cada pedaço desse seu maldito corpo. — A ameaça saiu em rosnados grotescos, um olhar furioso e determinado. Os outros pareceram surpresos, até mesmo o próprio Cass pareceu ter sido pego de surpresa.
Remo era conhecido por ser medroso e muito manso, ele andava encurvado por entre o bando e nunca tomava partido em uma luta ou discussão.
— Mesmo que seja a lei, não é você que decide isso! Fique longe desse filhote! — Ele soltou outro rosnado de aviso.
O Beta teve um leve estremecimento, quase recuando um passo, mesmo que inconsciente do ato.
Cass o olhou furiosamente assim que a repentina sensação de ameaça passou e ele se deu conta do que havia feito. Ele apertou a pedra entre os dedos de sua mão e a pedra se desfez em pedaços ali mesmo. Remo não se intimidou, ele detestava lutas, mas por esse filhote ele estava disposto a entrar em uma.
Lupin não deixaria ninguém encostar no filhote de cachorro, não poderia deixar fazerem isso.
Ele observou os outros três lobisomens entrarem em modo de ataque e sentiu que teria de correr se fosse a única saída.
Pareceu ser um longo tempo de silêncio, a chuva caindo pesadamente entre eles. Todos se encarando, não querendo baixar a guarda e se desafiando. Cass finalmente pareceu se decidir.
— Bem, então veremos o que o Alfa vai dizer sobre isso. — Ele desafiou, sua raiva ainda lá. — Quando a hora chegar, vou fazer questão de esmagar o crânio dessa coisinha e de quebra vou fazer você se lembrar dessa afronta por dias. — Mostrando os dentes afiados ameaçadoramente, Cass se virou recolhendo o saco e o jogando sobre o ombro direito. — Vamos embora. — Mandou duramente.
Remo levou um último olhar do outros, ele não gostou de nenhum dos olhares, mas não era novidade que nenhum deles gostasse dele e estavam caçando motivo para pegá-lo por um tempo. Ele ajeitou o bebê um pouco melhor em seus braços, que felizmente havia parado de chorar e parecia ter adormecido.
O lobisomem lançou mais um olhar para a barraca antes de pegar seu próprio saco e caminhar um pouco mais devagar, disposto a criar uma pequena distância segura entre ele e os outros.
Ele jurou que não deixaria nada do que Cass disse se concretizar, ele não entendia bem o porquê, mas sabia que aquele filhote era seu e ele não estava disposto a perdê-lo.
