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Thorin, o colérico

Summary:

Uma irritação súbita toma conta do humor do rei dos anões, e Gandalf não pode segurar sua curiosidade sobre o que chateia o grande - e apaixonado - Thorin Oakenshield.

Notes:

Eu não escrevo esses imagines pensando numa cronologia exata, mas as últimas três histórias que eu escrevi, contando com essa aqui, se passam no mesmo universo, esse bem parecido com o original, por isso, se quiserem estabelecer uma linha do tempo, considere que esse Imagine aqui se passa antes de "King Size".
Beijos <3

Chapter 1: Cólera-de-Carvalho

Chapter Text

Ninguém humilha Thorin Escudo-de-Carvalho.

Ninguém.

Isso nem chega e nem nunca chegou a ser uma opção.

Todos os que tentaram, falharam. Nenhumas das cicatrizes que ele adquiriu lutando com os orcs, nem a doença do dragão, nem lobos, nem aranhas, nem elfos ou qualquer criatura da Terra Média. Nada pode humilhar o Rei Thorin, filho de Thror, e herdeiro do trono de Durin.

Apenas o Bilbo Bolseiro, é claro.

O Filho de Bungo Bolseiro e Belladona Túk, o que pode ser chamado como “aquele corajoso hobbit amante e furtivo ladrão”.

Essa foi uma das conclusões mais rápidas que Gandalf já chegou, apenas olhando para o casal.

Depois de algum tempo infestando o ar com seus discretos e carinhosos gracejos, já era óbvio para ele que a mais rara flor do mundo havia nascido e criado raízes comuns naqueles corações, mas ultimamente, Thorin andava por aí com a cara amarrada, com exceção dos momentos em que seu amado estava ao redor, onde ele tentava disfarçar ao máximo.

Gandalf quis chegar ao fundo disso, mas não ousaria perguntar diretamente ao Rei e perigar levar uma resposta ao estilo “Cuide da sua vida”. Se perguntasse para Bilbo, que sempre parecia desatento ao mau humor do anão — talvez pela infecção amorosa que sofria, poderia despertar nele uma insegurança ali e acabar arruinando algo que havia se construído com tanta beleza.

O velho mago estabeleceu a si mesmo o trabalho de investigar, por pura curiosidade, o que poderia levar um rei que está vendo seu reino prosperar e seu coração florescer exibir uma cara tão feia.

Achou a ideia de tentar tirar informações de outros algo um tanto genial. Balin era o conselheiro do rei, o segundo em comando do reino e o responsável por o que poderia ser considerado um catálogo mental dos traços de personalidade do jovem rei.

O cinzento se aproximou de Balin no primeiro momento em que teve a oportunidade. O conselheiro se encontrava na principal sala de reuniões da montanha, redigindo cartas numa compenetração de dar inveja, ambientado por um monte de papéis, penas, canetas e livros dispostos de qualquer jeito na mesa. Quando Gandalf bateu na porta já aberta, tirou Balin de sua função.

— Gandalf, o grande! Como vai, companheiro? — se virou alegremente. — Eu não cheguei a ver você chegando. Estive um tanto ocupado com alguns pedidos do rei, peço desculpas.

— O que? Não! Não se preocupe, velho. — Mesmo que não tivesse sido orientado, entrou e se encostou perto da redonda mesa. — Aliás, não quero te tirar de seu serviço, apenas passei para cumprimentá-lo.

— Não diga isso. Não é nada que eu não possa adiar por alguns minutos.

— Então, velho, eu cheguei a alguns dias, depois de vagar um tanto por terras ao redor. Estou muito contente com o que vi. Como o previsto, tudo está caminhando com glórias por aqui.

— Sim, o sol está brilhando sob a montanha novamente. Não pode estar melhor.

— E o rei? — Gandalf puxou a pauta despreocupadamente, como se não tivesse intenção prévia nenhuma ao perguntar. — Tenho visto Thorin absorto ultimamente, o que me fez estranhar, já que é evidente o modo em que as coisas estão indo. Há algo a se preocupar?

— Absorto? Thorin? — Balin pausa por instantes, se pondo a pensar com a mão na barba. — Talvez você tenha o visto ao lado de Bilbo. Não existem seres mais absortos que aqueles quando estão lado a lado. — o conselheiro riu ao lembrar.

A forma afável como era tratada a recente aproximação de Bilbo e Thorin não poderia ter sido melhor aplicada, principalmente pela companhia da reconquista de Erebor. Balin era o mais ternuroso entre os anões em relação ao casal de status indefinido oficialmente.

— Tem razão, parecem dois pombinhos aninhados.

— Sabe, Gandalf. Eu os tenho observado de perto. Ainda me lembro do dia e até do momento exato em que chegamos a casa de Bilbo, de quando ele foi recrutado mas negou, e também de quando voltou atrás e resolveu nos ajudar. Desde esses momentos, Bilbo tem mudado muito, e para melhor. Eu digo que ele está tentando voltar ao seus hábitos caseiros, se aconchegar aqui, mas sem deixar o hobbit que ele já foi voltar à tona. E você não tem ideia do que isto fez com Thorin. — enquanto falava, Balin entrava cada vez mais num estado pensativo, como se explicasse uma tese filosófica. — Não acho que ele mereça menos do que Bilbo está lhe oferecendo agora. Nunca o vi mais sorridente e brando do que nesses últimos meses, mais pacífico e relaxado. Acho que você não poderia ter escolhido um hobbit melhor para a nossa missão e para o nosso rei.

A maneira que a última frase soou para Gandalf o fez sentir uma pitada de felicidade, como se obtivesse os créditos pelo bem estar quase etéreo de Thorin. Mas ainda não era isso que ele queria. Não sabia como expor melhor a ideia específica de que Thorin estava de humor virado nos últimos dias.

— Eu sei, e fico imensamente feliz por isso… mas eu pergunto num contexto mais recente. Eu notei o rei um tanto irritado esses dias, mas Bilbo parece estar em seu estado normal, o que não indica um problema comum entre eles. Há algum problema externo ou algo em que eu possa ajudar?

— Você acha? Eu não sei de nada que possa estar perturbando tanto o rei do jeito que você fala. — o anão levantou uma sobrancelha. — Aliás, não notei toda essa irritação vinda dele desde que voltei das minhas viagens.

Causa perdida. Se nem o próprio conselheiro do rei sabia explicar o motivo, quem saberia?

Mithrandir tentou falar com os anões da companhia mas não obteve respostas. Fili, Dori, Nori e Óin não notaram nada de diferente no rei, Kili não estava na montanha, Bofur não havia falado com o rei por alguns dias, Bifur estava ocupado cuidando de suas próprias coisas, Bombur andava com a cabeça nas nuvens, Gloin não foi encontrado para ser questionado, Ori também não sabia sobre o que Gandalf falava.

Era improvável que outros anões pudessem ter alguma sugestão sobre o estado duvidoso de seu rei.

Talvez se o destino a curto prazo não tivesse dó da sólida curiosidade de Gandalf, ele poderia ter deixado isso pra lá e tratar de se preocupar com algo mais útil. Mas o destino mandou Dwalin passar através do campo de visão do mago segundos antes dele decidir dar meia volta da pequena taverna recém aberta de Dale.

O guerreiro anão que terminava uma larga caneca de cerveja, já teria ido embora se não tivesse sido chamado a atenção ali por mais algum tempo. Sem dúvidas a garganta de Dwalin estava molhada após a fria bebida, mas a resposta que saiu dela para a inquirição pareceu um tanto seca e sem elaborações complexas.

— Eu não sei não, deve ser alguma frescura de hobbit.

— Mas eu estou falando de Thorin.

— Exatamente. Nós estávamos fazendo um pouco de exercício mais cedo e entre os intervalos eu o ouvi resmungando sobre qualquer coisa. E disse o nome de Bilbo. Estava com a cara feia como a meses eu não via. Se nós achávamos que a doença do ouro o deixou irritado, o hobbitzinho deve ter deixado mais! — o anão deu um risinho sacudido.

— É só o que sabe? — Gandalf perguntou, preparando o fim daquele assunto com Dwalin.

— Sim, mas se está tão curioso sobre o rei… — sugeriu abrindo um sorriso discretamente astuto. — Deveria perguntar direto para ele.

Aquele não era um bom conselho, pois ambos conheciam bem o gênio daquele que carrega a coroa forjada pelos anões.

Vendo que as opções para continuar sondando estivessem escassas, Gandalf quis esperar para ver o que aconteceria a seguir, sem pressa, afinal, seguindo suas próprias visões de mundo, um humor colérico não passa muito tempo sem explodir para qualquer lado.

Horas mais tarde, o mago subiu a montanha novamente, para se achegar em seu quarto de hóspedes novamente. Não havia visto Bilbo, nem Thorin durante todo o dia, e até gostou de pensar que eles poderiam estar juntos, fazendo algo divertido para ambos, e que misteriosamente tirassem o tipo desgostoso do rei anão de uma hora para outra.

O Mago cinzento percorria com calma os corredores de paredes esverdeadas, se guiando apenas por sua própria intuição para reencontrar a acomodação preparada para ele. O problema das paredes e iluminações serem muito parecidas era que isso o fez pensar em usar a runa que marcou na porta do Bolsão, no início da aventura que os mudou a vida, para se localizar. Porém, novamente, o destino de curto prazo quis que um puro conhecedor dos caminhos por dentro da montanha viesse ao encontro do velho mago.

Virou uma esquina no campo de corredores e deu de cara com os cabelos longos e olhos profundos de Thorin.

— Majestade! Não o vi o dia inteiro.

— Viu Bilbo por aí? — Thorin basicamente ignorou a mera presença de Gandalf como um convidado, pilhado, olhando para os lados, como se pudesse sumonar o hobbit ali. — Na verdade, não fale. Eu não quero vê-lo.

O rei bruscamente se virou, tomando outros rumos no quase labiríntico conjunto de corredores.

Gandalf, pela primeira vez no dia, pode testemunhar o que Bilbo provavelmente não havia visto ainda.

— Thorin! Espere!

Ainda que morto de curiosidade, achou estranho como Thorin apenas aceitou ser condicionado à sala de reuniões após a sugestão do mago. A sala se encontrava vazia agora, para a graça da privacidade deles. Assim que entraram, o rei anão começou a andar de um lado para o outro em alguns metros quadrados, como uma barata.

Convenientemente perto de uma cadeira, Gandalf se sentou, apoiando-se sempre em seu cajado. Assim, começou:

— Não vi vossa majestade no dia de hoje, mas cheguei a falar com Dwalin mais cedo. Na verdade eu estava um pouco ansioso para falar com todos da companhia hoje.

— E por que? “Um pouco ansioso”? — as mãos na cintura entregavam a linguagem corporal tensa, além do penetrante olhar para a figura do mago à sua frente.

— Desde que eu voltei, tive motivos para… me perdoe a intromissão, aliás. Para tentar entender a razão da tensão que tem te tomando ultimamente. — explicou calmamente.

— Tensão? Que tensão?

— Ora, Thorin! Olhe pra si mesmo! Está pertubado por algo que não sei dizer o que, mas é inegável!

Thorin bufou. Por saber que o mago falava a verdade, e por saber que ele havia buscado informações sobre um problema claramente pessoal com pessoas que não tinham nada a ver. O que alguém como Dwalin poderia saber sobre algo que estava corrompendo Thorin de dentro pra fora? Por acaso algum deles tinha poder de ler a mente do rei e dar um relatório completo sobre seu estado de espírito para Gandalf? Ele sentiu a ânsia de chamar a atenção do cinzento para aquilo, fez, e recebeu algumas justificativas um tanto plausíveis para tais atos.

— E então, o que aconteceu?

O Escudo-de-Carvalho suspirou quase que profundamente antes de começar a falar. O tanto de ar que soltou, mais seus ombros caindo junto com uma expressão desconsolada fizeram Gandalf imaginar a complexidade do que iria ouvir.

— Eu fui humilhado. — Assim como Dwalin, não pôde formular muitas palavras naquele momento.

— Humilhado? Por quem? Por Bilbo? — a testa do mais velho se franziu instantaneamente.

— Ainda que fosse. A pior humilhação é aquela que vem de dentro de si mesmo. — puxou uma cadeira para se jogar nela.

Embora não fosse esse tipo de pessoa, Thorin começou a jogar todo o chá sobre Gandalf.

Há algumas noites atrás, Bilbo havia convidado o rei para assistir o pôr-do-sol num piquenique, mas não numa localidade qualquer, numa plataforma alta no oeste da montanha. O ambiente estava calmo, a brisa se tornava mais fria a cada minuto, mas isso não os incomodou. Entre cálidos sorrisos, algumas porções preparadas pelo próprio hobbit e o conforto proporcionado pelas presenças ali.

O sol caía conforme a lua se punha mais alta no céu. Os ventos lufavam um tanto, bagunçando seus cabelos como se a natureza os acariciasse. Durante um raro momento em que haviam deixado de lado os quitutes e resolveram observar sobre eles a aquarela, uma melodiosa e suave brisa soprou contra eles, levantando um pouco os cabelinhos sobre o pescoço de Bilbo.

Isso levou ao olfato de Thorin um cheiro bem fresco, adocicado, aromático, algo como plantas dispersas num bosque iluminado, ou até um jardim ornamentado de flores. Ambas coisas que ele achava a cara do Bolseiro. Aquele aroma delicioso o fez se direcionar ao hobbit, e seu coração disparou, seus olhos se arregalaram, e os pelos de sua nuca se arrepiaram. Não podia usar outra palavra para descrever a combinação da imagem do adorável Bilbo com a essência doce da pele dele.

Delicioso.

— Um cheiro? — Gandalf o perguntou incrédulo. — Como alguém pode ser humilhado por sentir um cheiro?

— O cheiro foi só o começo! Desde de que eu senti, eu tenho algo dentro de mim que eu não sei explicar. Um calor, um… uma coisa que não me deixa pensar em mais nada além dele e daquele momento. A pele dele… o perfume… está me deixando maluco!

O mago riu baixando a cabeça para disfarçar, e Thorin tomou aquilo como uma ofensa.

— Que parte do que eu disse soou tão engraçada para você, Gandalf?

— Isso é humilhação para você, majestade?

— Eu não consigo controlar meus pensamentos, como se houvesse um parasita na minha mente. Eu não consigo me concentrar e nem olhar nos olhos dele desde então! — subiu a voz. — Eu nunca fui assim, nunca estive perdido desse jeito em toda a minha vida! Como isso não seria humilhante? É como se eu estivesse doente de novo!

— Thorin, por favor sente-se aqui mais perto. — o mago pediu enquanto puxava uma cadeira para fora do redor da mesa, assim o rei fez. — Quero te fazer uma pergunta, mas gostaria que me prometesse não se ofender.

— Depende da pergunta. — se projetou para frente, inclinado a ouvir melhor o tom brando que o mais velho tomou.

— Certo. — pausou por alguns instantes. — Nunca havia parado para refletir sobre seus desejos por ele antes?

O rei anão explodiu com a questão, se levantando bruscamente da cadeira, pertubado pelo sugestivo ponto.

— O que? Desejos? O que está… querendo dizer? Eu não sinto ‘desejos’ por Bilbo.

— Não sente? Acha que todas as vezes que vocês deram as mãos, todas as vezes em que beberam vinho da mesma taça, todas as vezes que se abraçaram os ombros, todas as vezes que se olharam profundamente, não são formas de desejo? Saiba, o desejo vem em várias intensidades e diferentes situações, não é algo que nasce magicamente numa noite de núpcias, por exemplo. Especialmente, quando falamos de alguém que você claramente gosta.

— Noite de núpcias? Você acha que eu quero… dormir com Bilbo? — os olhos do rei se abriram, nervosos. Até sua voz saiu mais baixa que o normal.

— Hum. Não necessariamente. Como eu disse, o desejo pode ter diferentes ímpetos. Apenas você pode dizer se sim ou se não.

— Eu não sei, talvez eu queira. — revelou baixinho, como se pensasse alto.

— Haha! Nós estamos fazendo um progresso bem rápido, meu jovem rei! Acho que encontrou a resposta para seus problemas!

— Gandalf! Não é tão fácil quanto parece! — disse entre dentes. — Eu desaprendi a agir como eu mesmo perto dele, além do fato de que… eu nunca me senti assim por alguém antes. Eu estou perdido em mim mesmo, e não quero assustá-lo com a minha ‘perdição’.

Ninguém poderia dizer se a cabeça-dura do rei de Durin era um herança da raça dos anões, ou se era marca patenteada de Thorin Escudo-de-Carvalho, o próprio.

De qualquer jeito, Gandalf já havia descoberto o motivo do aborrecimento patológico do rei, uma questão simples de tesão reprimido. Naquele momento, a solução parecia simples, apesar de ambígua.

— Bem, meu caro. Bilbo já enfrentou trolls, aranhas gigantes, orcs e todo o tipo de coisas mortais nesse trajeto do Condado até aqui. Não sei se ele ficaria TÃO assustado assim em saber que o homem que ele tanto gosta sente vontade de ‘amá-lo’ mais profundamente… — quão irritante foi o gracejo do mago cinzento em relação a relação dos dois. — Mas, falando sério agora, não é qualquer um que pode liderar uma caravana de anões e reconquistar um reino das mãos de um dragão e ainda vencer uma guerra contra inimigos antigos de sua raça, isso é certo, mas confio que qualquer um que já tenha feito isso, pode criar a coragem necessária para mostrar o tamanho dos seus sentimentos para a pessoa amada.

Mesmo que anda se sentisse um tanto patético, principalmente por ter tido a atitude de desabafar daquela maneira com Gandalf, o valoroso rei anão se sentiu assegurado, e um pouco crente de que Bilbo poderia entender, e até, retribuir seus bem-quereres no mesmo nível.

Tudo o que faltava era ter a sabedoria de abordá-lo da forma certa.

O único problema nisso era o fato de que Thorin não era o estandarte de sabedoria entre os herdeiros de Durin.

Continua…?



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