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Ah, o primeiro baile de Erebor e Dale. Algo o dizia que seria notável.
Mesmo que a engenhosidade dos anões em se locomover dentro da montanha fosse grande, não era o suficiente para evitar que os pés gordos de Bilbo Bolseiro latejassem após acompanhar Fili e Kili pelas largas estradas sobrepostas. O baile se iniciaria aquela noite, e prometia durar enquanto a lua iluminasse o teto sobre as cabeças dos humanos e as grandes estátuas de pedra que bravamente pareciam guardar os portões de Erebor.
A cada hora que se passava, mais anões se juntavam aos portões, alguns esperando receberem as boas vindas do rei sob a montanha, e outros se espantando com a magnificência do reino rochoso pela primeira vez. Erebor e Dale estavam se reconstruindo juntas como os reinos vizinhos que eram.
Realmente, uma comoção muito bonita, essa que trazia boatos sobre uma nova tradição entre as comunidades, como um feriado nacional, como a comemoração oficial a marcar a vitória na Guerra dos Cinco Exércitos. Bifur, Bofur e Nori estavam particularmente ansiosos e dispostos a andar por toda a Dale auxiliando no que os humanos precisassem, às vezes, até subindo e descendo pelos níveis da montanha, carregando baús e barris pela distância que fosse, sem tirar o sorriso do rosto. Um tropeço de Bifur chegou perto de derrubar um dos barris de cerveja em cima do hobbit. Quis o destino que ele não tivesse que encarar a fúria do Rei por algo tão trivial.
Bilbo olhou de um lado para o outro, notando inevitavelmente a movimentação que sofria a região. Seus pés peludos e sempre descalços tiveram a oportunidade de descansar por um momento quando o halfling se sentou na cadeira mais próxima dele, após subir ao primeiro nível da montanha apenas para sentir-se tendo algum objetivo ali. Quando chegou, atentamente concluiu que estava sozinho naquele nível, logo, não faria mal tomar assento por algum tempo.
Que majestosa cadeira ele tinha, aquela que se ligava ao topo da montanha, no formato de um redemoinho, melhor, um redemoinho numa tempestade com raios dourados, levando sua ponta à cabeça daquele que reina sob a montanha.
O Bolseiro não se lembrava desde quando seu corpo havia se tornando tão sensível, mas com certeza aquilo não parecia normal para um hobbit, uma criatura que tem por natureza pés balofos e que não usa sapatos, não importa em que ocasião ou ambiente esteja. Talvez Erebor estivesse o estragando.
Talvez Thorin estivesse o estragando.
No trono ele cruzou as pernas e levou a mão até um dos pés, massageando-o descompassadamente. Lá de cima, podia ouvir um pouco da agitação que o baile estava causando, mesmo que antecipadamente. Há cerca de uma semana atrás a última coisa a ser esperada por ambas as populações era uma festa grandiosa como essa.
…
— Um baile? — Bilbo tombou a cabeça para a direita, gesto que costumava preceder sua típica confusão.
— Um baile! — Balin sorriu, felizmente surpreso por ouvir quem estava propondo a ideia.
— Um baile. — Thorin iniciou — Eu estive conversando com Bard. As caravanas não param de chegar, e as obras têm tomado muito tempo e muito esforço dos nossos povos. Parece justo dar a eles um dia para se divertir.
Mesmo que seu tom soasse como quem estava avisando e não pedindo opiniões, ele se mantinha olhando para o teto, ponderador.
— Isso não foi ideia sua, não é? — Bolseiro perguntou, tirando o rei de seus pensamentos.
— Acha que não poderia ter sido?
— Não! Não é isso. Eu apenas não o imagino aproveitando uma festa com os humanos tão facilmente.
— Não é apenas pelos humanos. Vai ser uma forma calorosa de receber os anões que estão migrando de volta para Erebor. E nada me deixaria mais feliz que mostrar a eles que estamos voltando a desfrutar da prosperidade que nos é de direito.
— Ah, Bilbo! O tempo que está conosco não o ensinou nada? O rei está tentando trazer o frescor de ser um anão de volta! — Balin deu pesados tapinhas nas costas do Hobbit, rindo em satisfação — Vamos, vamos contar a companhia! — saiu arrastando-o.
Bilbo não havia notado, até então, a maneira como calorosa que Thorin parecia reagir a cada momento em que ele questionava qualquer coisa. A natureza indagadora, que se misturava como curiosidade e às vezes até aflição, tornavam o halfling mais interessante a cada momento.
…
Perdido em seus pensamentos randômicos, ele se atentou ao seu plano frontal e viu Thorin, subindo aquele nível em passos firmes e indo em sua direção. Seus olhos se fixaram nele como se fosse uma distração comum, um barquinho no mar.
Thorin parou na frente dele, parecendo tranquilo, portanto um quase imperceptível sorriso nos lábios. Bilbo apenas o fitou com uma expressão estóica para o barco que era o anão. Eles se encararam por alguns segundos, até que o halfling sujeitou-se espontaneamente a vergonha de não ter notado que estava relaxando no trono de Durin.
Num susto ele se levantou, desconcertado,
— Me desculpe, eu-eu estava apenas…
— Eu estava procurando por você.
— Bom, eu estou aqui. — sorriu leve.
— Eu estive pensando sobre os convidados da festa. Os elfos não viriam de qualquer jeito, tanto que não os convidei. Mas, com tudo isso, eu me esqueci completamente de te perguntar antes sobre convidados do condado, da Vila dos Hobbits. Se eu tivesse me atentado antes, talvez pudéssemos ter mais dos seus conhecidos o acompanhando. — tocando o trono ele se sentou posturalmente.
— Não se preocupe, eu não teria os convidado. Não conheci um hobbit desta era que estaria disposto a atravessar toda a rota do Condado até aqui.
— Mas eles teriam escolta especial, mal teriam que andar, além do fato de quando chegassem, veriam que a longa viagem valeria a pena.
— De qualquer forma, nem por todo o ouro de Erebor. Eu conheço aquele pessoal.
— Em todo o caso, teria sido bom. — um suspiro meio desconsolado escapou dos pulmões de Thorin, o que acendeu uma luz vermelha na cabeça de Bilbo.
O que estaria por trás do súbito interesse do rei anão em tanta socialização? Durante a aventura pela reconquista de Erebor, o — até então, príncipe e o ladrão se pegaram trocando confidências sobre suas relações com suas próprias espécies e entraram em acordo sobre o nível de apreciação que tinham quanto à solitude. Thorin deveria imaginar que Bilbo não era o maior amigo das pessoas daquele vilarejo, e que havia encontrado relações melhores ao lado dos anões que de sua própria raça. Thorin prestou atenção nisso, mas ainda sim parecia invulgar.
— O que está aprontando, Thorin?
— Como? — ele franziu a testa.
— O que está planejando com isso tudo? — Bilbo perguntou, se forçando ao máximo a esconder um médio sorriso de excitação que insistia em desenhar-se em seu rosto. — Primeiro você chegou como o autor de uma ideia como o baile, em comunhão. Está movendo céus e terra para que isso aconteça o mais rápido e com o maior esmero possível, e agora parece triste por perceber que não terão outros hobbits na festa. Isso não pode estar normal. Além do fato de que você tem… me olhado diferente desde que anunciou esse baile. Talvez tudo isso seja você sendo você mesmo e eu só não esteja acostumado. Eu não sei, mas voltando a pergunta inicial: O que está planejando de diferente? Tem algo pra me contar?
A voz esbaforida e o jeitinho veloz de pronunciar as palavras revelava quão longe costumava ir a mente do halfling.
Thorin passou os últimos minutos gargalhando com gosto. Riu tanto que depois de alguns segundos após perceber que não pararia tão cedo, começou a esconder a boca com as duas mãos, tentando frustrar seu riso inefável.
Se fosse qualquer outro ser da Terra Média zombando dele daquele jeito, o Bolseiro já teria virado as costas, fechado a cara e ido embora, mas não era qualquer um, era Thorin. Bilbo nunca havia visto alguém rir com tanto entusiasmo em toda a sua vida, mas gostou da sensação e principalmente, da visão.
Cerca de 3 minutos depois, o rei já obtivera mais sucesso em controlar seu motejo, sua respiração e a cor natural de seu rosto. Ele deu um último suspiro pesado, que marcou o fim da graça.
— Já terminou? — o halfling perguntou, na posição de duas mãos na cintura e seu pézinho rechonchudo batendo no chão.
— Ah… É uma característica comum entre os hobbits serem tão desconfiados?
— Eu gosto de pensar que é uma marca registrada minha. Obrigado.
— Bom, eu não sou o único com motivos para comemorar em dois reinos. Se eu não tivesse proposto a festa, Bard teria feito, ou até mesmo qualquer anão ou humano, inclusive alguém da nossa companhia. Mas você pode acreditar no que quiser.
O Escudo-de Carvalho se levantou e caminhou confiante em direção ao elevador que o tiraria do nível do trono.
— Ah, é assim? — Viu que iria ser deixado ali sem mais nem menos, então quis pegar uma carona no elevador. A maneira como Thorin saiu deixou claro que Bilbo poderia estar exagerando em suas suspeitas.
Talvez houvesse algo mais útil para fazer em Dale.
…
O horário passou e o sol já estava em seus últimos momentos brilhantes nos céu, a paleta de cores alaranjada e arroxeada da linda imensidão já despertava gritos eufóricos daqueles que sabiam que o baile começaria oficialmente ao crepúsculo.
Assim que o brilho das tochas passou a iluminar mais que o próprio sol, as bandas começaram a tocar e os copos de cerveja começaram a se encher. Incontáveis barris de bebida foram dispostos à frente das casas, para qualquer um que quisesse se embebedar sem restrições, e os anões espalharam com orgulho que havia mais uma quantidade deles estocados para reposição. Fitilhos de papel costurados com fios de ouro, feitos pelas crianças, decoravam os espaços entre os telhados de uma casa e outra; ainda havia pratos sendo preparados em ambas as cozinhas de Dale e Erebor para agregar à grande mesa no centro da cidade.
Anões e humanos circulavam pelas ruas, às vezes apenas para ver como havia ficado toda a organização feita, alguns, apenas pelo vigor de poder andar por um lugar que se enchia de glória cada vez mais. Bard já poderia se considerar bêbado após meia hora de festa, já que sendo o líder de Nova Dale, foi basicamente forçado a tomar a primeira caneca de alguns dos barris de cerveja num gesto simbólico, após isso se encontrava gargalhando com alguns bom colegas na frente de uma casa.
Kili e Fili, os dois ratinhos da companhia de Thorin, roubavam coisas da mesa, mesmo antes do jantar oficial realmente começar. Seu tio os pegou em meio a tanta furtividade, mas ao invés de repreendê-los, os deu uma missão.
— Achem Bilbo e o tragam aqui, mas antes disso, vão até a montanha e tragam algumas garrafas da adega real para o brinde. Rápido! — ordenou.
Cerca de minutos depois, Bilbo já se sentava ao lado de Thorin na robusta mesa, em grandes cadeiras de madeira feitas sob medida para eles, em frente ao vultoso banquete. Apenas de olhar tanta comida junta, a barriga do hobbit roncou. Já fazia certo tempo em que ele não fazia suas sete refeições diárias e até suspirou ao pensar que poderia por sua dieta em dia toda de uma vez.
O harmonioso clima do baile forçava as pessoas a dançarem, correrem pelas ruas e até se enamorarem. Kili saiu por aí espalhando para quantos anões conhecia, que viu Bofur fazendo uma jovem humana se derreter feito manteiga num beco da cidade, talvez até novos bebês híbridos seriam concebidos naquela noite. Realmente, um notável desfrute.
Apesar da liderança dos humanos ter se entregado à cachaça facilmente, Thorin permanecia sóbrio apesar dos copos que tomou. Sua caixa de vinho estava guardada e muito bem guardada, apenas esperando a hora certa.
Mas a hora certa já parecia demorar demais, muita gente dançando, se divertindo e dando um nó na mente do rei. Ele olhou de relance para Bilbo, que assistia divertido pela alegria de ver todos ali ostentando sorrisos em seus rostos. O hobbit foi tirado de seu lugar de espectador para espectado quando sentiu o olhar quente do rei sobre ele.
Ele virou sua atenção lentamente ao homem ao seu lado, já formando sua adorável expressão de formular uma pergunta.
— Eu ainda continuo achando que tem algo de errado com você.
— Talvez tenha. Talvez não. — assim como os outros, aproveitando a festa, Thorin também sorria, levemente porém claramente.
Com eles, era impressionante como qualquer segundo de contato entre eles contaminava metros do espaço, fazendo qualquer um em volta desaparecer e trancando o loiro e o moreno nos olhos um do outro.
— Okay… você está pelo menos se divertindo, já que está claro que não vai me dizer o que está acontecendo?
— Não, não estou. Não até que esse jantar realmente comece. — bufou.
Então era isso? O problema era o jantar? Não podia realmente ser.
Contrariado por suas conclusões inconclusivas, Bilbo subiu em cima da mesa com os pézinhos peludos, quase esmagando lindos pratos quentes e as louças douradas que serviriam a Thorin. Pediu para a banda mais próxima pausar a música por um minuto, apanhou duas canecas de madeira, e começou a batê-las uma contra as outras com a maior força que podia, logo, sacudiu as mãos no ar para chamar o máximo de atenção que podia.
Alguns anões o ajudaram a calar os outros e direcioná-los para a urgência de Bilbo.
— Pois bem! Primeiro, boa noite a todos… — um tanto sem jeito ele começou a falar, num volume um tanto elevado. — Eu fico feliz de ver todos tão felizes e… de qualquer jeito… uh… — ele não estava tentando fazer um discurso, se lembrou disso assim que viu a cara incrédula de Thorin o encarando. — Eu sei que estamos todos bebendo e desfrutando da festa, mas talvez esteja na hora de começar o jantar, então peguem suas cadeiras, chamem todos e vamos comer!
O pequeno foi ovacionado, e pôde ver assim que terminou, as pessoas chegando de todos os lados da cidadela prontos para saborear a noite.
Logo Bard chegou, sentando-se ao lado deles, a contragosto de Thorin, que não quis demonstrar. Assim que a mesa estava lotada de gente a sua volta, situação onde quase não havia lugar suficiente para todos, mas foi resolvida com um pouquinho de esforço.
Bard começou um discurso sobre a resiliência da raça humana em Esgaroth, e sobre sua nova vida em Dale, sobre os eventos do grande dragão Smaug mais a podre gestão do antigo governador da Cidade do Lago, entre outras pautas.
— Talvez o Rei sob a montanha queira dizer algumas palavras? — Ele finalizou antes de fazer um brinde e deixando essa responsabilidade para o anão.
Thorin viu de repente, toda a mesa em silêncio olhando na direção dele, do jeito que esperava.
Apanhou sua taça cheia de vinho de qualidade, abriu um modesto e contido sorriso e começou.
— Bom, faço minhas as palavras de Bard. Assim como ele, estou realmente feliz com o que estou vendo nesta noite. Nossas mesas fartas, nossos copos cheios, nossas crianças brincando, nossos povos obtendo a riqueza que lhes é de direito, nossas populações crescendo e o nossos futuros se confirmando. Eu não poderia pedir menos que isso. Um brinde.
— UM BRINDE! — A mesa toda tomou as poucas palavras dele com valorosa fé e brindaram com alegria.
Até Bilbo se sentiu mais tocado que o normal com os votos, principalmente a parte sobre o futuro se confirmar.
Ele notou uma curva na expressão do rei, que chegava a permitir que gotas de vinho caíssem em sua roupa.
— O que foi? — Thorin perguntou.
— Desculpe. Por… dizer aquelas coisas mais cedo, sobre ter algo de errado com você, sobre o porquê de você querer tanto a festa. Agora eu entendo, era sobre isso, as pessoas. — ele fitou o comprimento da mesa e as pessoas que a criaram. — Não há problema nenhum nisso, na verdade, é lindíssimo. — bebericou de sua taça.
— A pessoa.
— O que?
— Não é apenas pelas pessoas, mas pela pessoa. Mas você estava certo em algumas coisas, como trazer os hobbits para a festa e tudo mais. Para que tudo que estivesse mais perfeito do que já está, mais pessoas teriam que estar aqui olhando para mim.
— Isso foi… ridiculamente egocêntrico. Com todo respeito a sua majestade.
— A questão é: quanto mais pessoas olham para mim, mais pessoas verão você ao meu lado. E é isso o que eu quero.
Talvez fosse efeito do vinho, mas Bilbo sentiu seu rosto ferver quase instantaneamente, e seu coração correr como uma gazela. Ele não tinha certeza do que aquilo significava, mas foi o bastante para o aquecer de dentro pra fora.
— Você é alguém muito observador, então olhe para a paisagem, Bilbo. Note.
Não demorou muito para o halfling pegar a dica do rei e atestar o que aquilo parecia. Uma colossal mesa de pessoas desfrutando seu jantar, entretidas com si mesmas, enquanto os dois sentavam em cadeiras quadradas milimetricamente postas na extremidade da távola, bebendo de um vinho que nenhum outro ali bebia. Talvez ele estivesse sendo criativo demais em suas conclusões.
O Bolseiro voltou a fitar Thorin apenas para ficar hipnotizado de novo.
— Então, o que acha? Acha que eu posso me gabar sobre o ladrão que salvou a minha jornada, e sobre o hobbit que permaneceu ao meu lado mesmo depois de tudo, e que continua até agora?
O Loiro não pode evitar ostentar o sorriso mais brilhante da festa, sorriso este que foi notado por muitos ali.
— Então…?
— Você é o rei de Erebor, se tem alguém que pode se gabar do que quiser, esse alguém é você.
— Então me dê um motivo para me gabar agora. — Thorin estendeu sua mão perto da mão livre de Bilbo, que nem sequer hesitou em ceder o que seu rei estava pedindo.
As mãos se encontraram, apertadas e se acariciando o máximo que podiam, e de repente, os dois estavam novamente presos naquele mundinho imaginário onde toda e qualquer pessoa era apenas súdito de seus amores.
Eles passaram o resto da festa sem soltar as mãos, sem ter vontade de parar de sentir seus pulsos batendo na mesma sintonia, sem disposição de permitirem a atenção do outro em outras coisas que não fossem eles, como se se prendessem num feitiço por conta própria, onde as cláusulas incluíam manter seus sorrisos em sincronia, seus cochichos mais excitantes de se ouvir, seu vinho mais doce e seus corações mais apaixonados.
Ah, o primeiro baile de Erebor e Dale. Foi encantador como a lua, deslumbrante como o poente, e cálido como sol.
Fim.
