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Raio de sol

Summary:

Will é ator de comédias românticas, Nico é diretor de dramas sangrentos. Ninguém jamais imaginou que os dois trabalhariam juntos, mas Nico sabe que aquele rosto bonito ficaria ainda mais bonito todo coberto de sangue.

Notes:

essa fic é presente de amigo secreto para Nanda, o meu raio de sol ^-^

espero que gostem!! tava com saudade de posta fic

boa leitura <3

Work Text:

cena 1

Will acordou com o telefone de casa tocando alto. Às sete e meia levantou ainda grogue, foi até a cozinha onde um telefone vermelho de disco fazia um irritante tritritriii e disse, ainda rouco:

— Alô?

— Eu estou mandando Jules-Albert agora para entregar o roteiro na sua casa.

Não reconheceu a voz. Não era seu agente, muito menos seu pai ou algum de seus amigos. Talvez fosse algum jornalista, uma fã meio doida ou uma fã muito doida.

— O quê?

— Jules-Albert — disse a voz do outro lado da linha — Sua casa. Agora. Roteiro.

Will piscou e trocou o telefone de orelha:

— Quem é Jules-Albert?

— Meu motorista, às vezes ele entrega coisas para mim.

O desconhecido tinha um forte sotaque italiano. Will tentou puxar no fundo de sua mente quem poderia ser, mas não conhecia ninguém que viveu na Itália por mais de duas semanas em algumas férias de verão.

— Desculpe, quem é você? Tem certeza de que ligou para a pessoa certa?

— Meu nome é Nico di Angelo.

— É algum jornalista? Você precisa marcar uma entrevista diretamente com o meu agente.

Do outro lado da linha, Nico riu.

— Tome um café, Will Solace. Leia o roteiro inteiro. Escrevi o meu número pessoal na última página, quero que…

— Já disse, fale com o meu agente. Como foi que conseguiu o meu número pessoal, para início de conversa? Quem te passou?

— Não me interrompa. Quero que você seja o protagonista. Pode me responder até o final de semana, mas saiba que é lamentável que alguém tão especial quanto você esteja sendo desperdiçado em comédias bobas, rasas e infantis. Seu agente é um incompetente, um bom agente jamais conseguiria apenas esses apêndices cinematográficos que você faz. É por isso que preferi contatar você diretamente, é normal que jovens bonitos caiam estupidamente em uma carreira esquecível, principalmente com um agente tão artisticamente anêmico quanto o seu. Com todo respeito, claro. Posso te ajudar a arranjar um agente decente se aceitar o papel do meu filme. Entendeu?

Will não conseguiu responder. Ficou em silêncio. O que é que ele havia acabado de ouvir, por Deus?

Nico perguntou:

— Você ainda está na linha?

— Desculpe, sim.

— Certo, Jules-Albert deve estar na sua casa em até dez minutos. Me ligue no final de semana. Você é mais do que um rosto bonito, William Solace. Você não precisa ser apenas o ideal de uma mulher rica em uma tela de cinema.

A ligação foi encerrada antes que Will pudesse reagir. Estático, ele se lembrou da última entrevista que concedeu à uma revista especializada em cinema.

O entrevistador questionou Will se ele estava satisfeito com o rumo de sua carreira, pensando que Will diria um sonoro “sim”, afinal, quem é que não estaria satisfeito em estrelar grandes filmes como os que ele estrelou?

Para a surpresa de todos, e até mesmo do próprio Will, o que ele respondeu foi:

— Sou grato a tudo o que vem acontecendo na minha carreira, mas eu tenho medo de me tornar apenas o ideal de uma mulher rica em uma tela de cinema. Não me sinto nem um pouco humanizado como homem ou como ator, meus personagens são perfeitos demais.

Era uma profundidade de resposta que o entrevistador não esperava, muito menos algo que mas moças que leriam a revista gostariam de ficar sabendo, então a conversa não rendeu nessa questão.

Assim que voltou o telefone no gancho, a campainha tocou. Na frente da sua casa,  um senhor de bigode segurava uma pasta cheia de papéis.

Will não preparou café naquela manhã. Fez o seu chá favorito: camomila, adoçado com mel.

Havia muitas dúvidas: como Nico conseguiu seu número? E o seu endereço? Como Nico sequer sabia da existência de Will? Por que Nico queria Will em seu filme? 

E a principal dúvida: Quem diabos era Nico di Angelo?

Will Solace leu o roteiro do tal filme do início ao fim. Na última página, havia um número escrito à mão. Não ligou para ele de imediato, embora quisesse. Ao invés disso, foi na locadora de filmes mais próxima e pediu por todos os filmes dirigidos e escritos por Nico di Angelo.

No domingo, ao fim do dia, ele finalmente ligou para aquele número.

E também demitiu seu agente.

Na semana seguinte, uma matéria do jornal o citava:

 

Will Solace, o raio de sol das comédias românticas, protagonista do próximo drama sangrento de Nico di Angelo?

O astro de cinema vem bombando nas telonas desde a sua modesta aparição em Uma noite com você, filme onde sua atuação ofuscou até mesmo o casal protagonista. Will Solace não surpreendeu ninguém ao estrelar duas das maiores comédias românticas da última década: Até a meia-noite (o aclamado remake de Cinderela, onde atua ao lado de Piper McLean) e Meu presente secreto, onde Solace é um surfista que se prepara para participar da primeira competição. O mais novo e querido loiro de olhos azuis da América tem apenas vinte e nove anos e uma cinebiografia de dar inveja.

Will Solace estava cotado para estrelar mais um romance água com açúcar, dessa vez ao lado de Annabeth Chase. O contrato já estava pronto para assinar quando Solace pulou para fora do barco. De acordo com fontes próximas ao ator, o raio de sol recebeu uma ligação do próprio diretor de horror e drama Nico di Angelo, o chamando para o próximo filme. O que di Angelo pretende com Will Solace? Essa dúvida ninguém sabe responder. O rosto angelical e amoroso do queridinho das comédias não combina em nada com as brutalidades do diretor.

Di Angelo passou grande parte da vida trabalhando apenas como roteirista. Escreveu os sangrentos Tumba 13 e Segredos enterrados. Recentemente, brilhou como diretor no longa que mistura drama familiar e horror, o irreverente Caso isolado. Apesar de muito aclamado pelos críticos especializados e descrito como acima da média dos filmes de horror, o trabalho de Nico di Angelo em nada conversa com as atuações de Will Solace. O diretor, que viveu boa parte da vida na Itália, é conhecido por sangue, morte e gritos agudos, enquanto o ator texano fez a sua carreira beijando mulheres bonitas embaixo da chuva. É um encontro inesperado e que, sem dúvidas, produzirá algo ao menos interessante de se ver. Aguardemos as próximas atualizações dessa estranha união.

 

cena 2

Um pouco mais para a esquerda… Isso, perfeito. Perfeito, ótimo. Silêncio, todo mundo! Luz, câmera e… Ação!

Nico apoiou os pés na mesinha de centro. Na grande televisão em sua frente, uma fita rodava a gravação bruta da última filmagem feita do que ele acreditava ser a sua maior obra de arte.

A imagem ainda precisava ser tratada e editada, mas ali estava Will Solace caminhando para uma banheira de sangue. Era da forma como Nico havia pensado. Aquele rosto angelical, a expressão de completa inocência, aquele corpo bem esculpido mergulhado em sangue e emergindo lentamente.

Era comum que Nico assistisse às próprias gravações no escritório em sua casa, mas não era comum que desse replay pela trigésima vez às duas da manhã.

Bebeu mais um gole de vinho tinto direto da garrafa. Will Solace se levantando da banheira, encarando-se no espelho. Aquele era apenas um sonho do personagem, e Will transmitia a confusão mental perfeitamente.

Ótimo, Will. — A voz de Nico era abafada por trás das câmeras, porque ele não estava microfonado. Estava usando seu tom autoritário: — Quero mais um take seu emergindo da banheira. Dessa vez mais calmo, como se soubesse exatamente o que está fazendo e tivesse todo o tempo do mundo. Depois, vamos gravar o grito. Reyna vai trabalhar na edição e intercalar suas diferentes emoções nessa cena. Por enquanto, mantenha a postura calma.

Will, todo coberto daquela gosma vermelha, assentiu. Sequer hesitou em obedecer as ordens de Nico e mergulhar novamente na banheira. Ele seguia corretamente tudo o que Nico mandava, e essa era sua parte favorita sobre Will Solace. Detestava atores que estavam o tempo todo criando desculpas para gravar a cena de outra maneira ou simplesmente não gravar. Will não era nem um pouco assim. Que visão divina, Nico pensava. Will Solace, coberto de sangue, obedecendo suas ordens.

Nico jamais esqueceria de como estava tremendo quando ligou para ele, de como ficou colado no telefone até o final de semana, quando finalmente recebeu a ligação.

Você realmente acha que eu consigo interpretar esse papel? Foi a primeira coisa que Will perguntou quando se viram cara a cara.

Eu escrevi pensando em você, Nico confessou. Não esperava revelar isso para Will, mas não conseguiu se conter.

Apertou a garrafa de vinho entre os dedos. A gravação continuava, dessa vez com Will parado dentro da banheira enquanto esperava algum técnico de iluminação resolver um pequeno problema com uma lâmpada. Nico encarou o controle remoto em cima da mesinha de centro, bem ao lado de seus pés. Queria dar replay, queria mais vídeos de Will coberto de sangue.

Isso é loucura, ele pensou, o vinho tinto descendo com um gosto diferente em sua garganta Eu nunca fui antiprofissional dessa forma.

Mas o que poderia fazer? Will sempre olhava para Nico como se estivesse encarando algum cristal precioso, fazia perguntas do tipo “Eu deveria fazer isso diferente?” ou “Minha entonação nessa cena ficou estranha, podemos repetir?” e Nico pensava William Solace, você é o mais perfeito ator que minhas câmeras já filmaram e o mais lindo homem que meus olhos já observaram.

— Você deveria dormir um pouco.

A voz era conhecida, mas Nico foi pego de surpresa. Jogou os pés para o chão e sentou-se ereto na poltrona, quase derrubando a garrafa de vinho. No batente da porta, Jason Grace tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios e um jornal em uma das mãos.

Nico bufou. Conhecia Jason há anos, dos tempos da faculdade. Enquanto cursava cinema, Jason era da turma de administração. Assim que fechou contrato com a produtora, chamou Jason para ser gerente de produção de seus filmes. Era ele quem cuidava das finanças, da parte burocrática, dos salários. Toda vez que se encontravam, Jason dizia que alguém havia se demitido, que o dono de alguma locação desistiu, que não conseguiriam pagar o aluguel de algum equipamento especial. Se não fossem tão amigos, Jason teria largado o emprego por algum dos xingamentos que Nico já o chamou.

— O que foi que aconteceu dessa vez?

Jason levantou as sobrancelhas. Ele era bonito, loiro de olhos azuis, sempre com uma expressão simpática. Tinha uma pequena cicatriz no lábio inferior. Transpirava confiança, e é por isso que Nico o achava ótimo para resolver burocracias. Qualquer um assinaria um contrato oferecido por Jason Grace.

— Você só aparece para me dar notícia ruim — Nico explicou. — Que merda foi que aconteceu agora?

Jason era uma das duas pessoas no mundo que tinham a chave da casa de Nico, sem contar a empregada. A outra pessoa era o pai de Nico, mas apenas porque a casa, legalmente, pertencia à ele. Hades nunca visitava.

Rindo, Jason jogou o jornal no colo de Nico:

— Lamento te decepcionar, mas eu trouxe uma ótima notícia. Página oito.

Nico largou a garrafa de vinho na mesa.

— O que é? — Perguntou, já procurando pela página. — E por que você veio para minha casa tão tarde da noite?

— Eu estava resolvendo a locação da igreja. Você não imagina quanta burocracia existe para filmar num lugar sacro. Eu ia deixar o jornal na mesa da cozinha, mas ouvi a televisão ligada. Preciso me desculpar por duvidar do potencial daquele loirinho com cara de bebê.

Nico não prestou muita atenção no comentário. Quando contou à Jason que queria fechar contrato com Will, ouviu por meia hora indicações de outros nomes que Jason julgava melhores para o papel. Encarando o jornal, disse:

— Porra, um quarto de uma página.

— É, e as filmagens nem acabaram ainda.

Na página oito, uma notícia ocupava quase metade de uma página. O título fez Nico sorrir: O raio de sol brilha na escuridão: Will Solace quebra o silêncio sobre estrelar filme de horror.

Nico ergueu o rosto.

— Caralho, Jason, eu falei pra ninguém dizer nada para a imprensa até julho!

— Lê a porcaria da matéria, o seu loirinho não disse nada demais.

Nico correu os olhos pela página.

Will Solace surpreendeu a todos ao aceitar protagonizar… Na saída da festa de aniversário da atriz… Questionado sobre a relação no set de filmagens, o raio de sol disse estar feliz… Quanto ao diretor di Angelo, Solace o chamou de “Artisticamente surpreendente” e afirmou já ter assistido todos os seus trabalhos… Não respondeu mais perguntas… As filmagens do misterioso filme iniciaram há duas semanas, o enredo ainda é desconhecido… Outros nomes se unem ao astro… Fontes próximas afirmam que mais de quinhentos litros de sangue falso foram enviados ao set… Será que as fãs de Solace lotarão as salas?

Nico levantou o rosto, sorrindo, pronto para dizer qualquer coisa para Jason sobre como acertou em cheio com Will no papel.

Jason estava com as mãos nos bolsos e encarava a tela da televisão, onde a imagem congelada de William Solace coberto de sangue os encarava.

— Tem alguma coisa de especial na forma como você trabalha na direção quando Solace está no set. Eu reparei nisso. Você nunca elogia os atores durante a filmagem, sempre deixa os elogios para o final. Lembro de quando me falou que gosta da tensão deles durante as filmagens, quando não sabem se você está gostando ou não da performance.

Nico engoliu em seco. É claro que Jason seria o primeiro a desconfiar dos sentimentos de Nico em relação à Will. Que outra pessoa conhecia Nico tão bem?

— Não diga bobagem — Nico murmurou, fechando o jornal, a voz trêmula. — Will é um excelente ator.

— Eu não disse o contrário. Por mais que eu me surpreenda com isso, não vou negar como ele é bom. Sabe de onde o apelido “raio de sol” surgiu?

É claro que Nico sabia, mas não gostaria de entregar para Jason o quanto de informação sobre Will Solace sua mente guardava. Então, negou com um aceno.

— No primeiro filme de Will, aquele em que ele tem menos de vinte minutos de tela, os jornais diziam que era tão ruim, mas a atuação de Will era tão boa que assistir ao filme todo era como ver um único raio de sol iluminando uma cena de assassinato.

Uma risada genuína escapou da garganta de Nico.

— Bom, ele realmente vai iluminar uma cena de assassinato dessa vez. Um massacre, na verdade.

Jason deu um pequeno sorriso para Nico, mas não pareceu achar graça alguma.

— Só não deixe que um dos mortos seja você. Sei muito bem como reage à um coração partido, Nico.

Levemente irritado, Nico jogou o jornal sobre a mesa.

— Vá para casa, Jason. Já está tarde. Conversamos amanhã.

— Minhas palavras continuarão as mesmas. Meu número de telefone também, caso queira ser honesto comigo e com os seus sentimentos.

Jason se foi, mas deixou aquela sensação dentro de Nico, aquela iminente e inevitável sensação de que sofreria por se apaixonar por um homem bonito coberto de sangue, mas não se arrependeria jamais.