Work Text:
— Essa música não foi escrita por mim. Nem por nenhum de nós — Arthur olhou ao redor, Joui tomava água, Kaiser chutava fios que entravam em seu caminho. Eu olhei para a televisão, vidrado. Agatha mexia em seu celular, olhando para mim como se estranhasse as palavras ditas pelo seu pai — É uma das minhas favoritas nesse álbum, e eu estou extremamente feliz que finalmente posso tocá-la! Eu tenho muitas coisas divertidas preparadas para esses próximos shows… além de estar tudo sendo gravado… para nosso álbum de versões ao vivo!! O quão interessante é isso? Não fazemos um desse desde…
— Desde Dias Perigosos — Kaiser diz no microfone, sorrindo convencido.
— Faz um tempo… enfim, obrigado por vir, isso aqui é Valentim, escrito pelo meu ex baterista favorito!
Estávamos assistindo o show ao vivo quando Arthur começou a tocar a música que eu escrevi para ele:
“Louco de amor, flores desabrochando
Pupilas de coração, andando ansioso
E eu me cubro com tatuagens do nosso amor
E sonho com o dia que entraremos em combustão
Todo esse amor, tão emocionado
Posso sentir você no meu sangue
Toda essa luxúria, só um toque
Estou com tanto medo de desistir de você
Valentim, meu declínio
é muito melhor com você
Valentim, meu declínio…
Estou sempre correndo pra você
Valentim,
Valentim
Todo esse amor, todo esse amor, todo esse amor
Todo esse amor, todo esse amor, todo esse amor”
— Valentim, dos Abutres, composto por Dante.
Olhei para a televisão estático. Boca aberta enquanto Agatha gritava de emoção. Arthur, desde a volta dos Abutres, teve um grande avanço em relação a seus vocais, e consegui ouvir isso nitidamente enquanto via até a emoção dele florescendo à sua pele enquanto cantava. Também fiquei emocionado pela surpresa de ouvi-lo cantar a música que recém saiu… A música que eu escrevi.
— Isso foi FODA — A menina gritou, olhando para os tios e pai se despedindo enquanto saem do palco — Vocês precisam brigar mais antes de turnês…
— O quê?
— Só tô dizendo que se ele soa assim pedindo desculpas, eu acho que ele tem que pedir mais desculpas. Isso foi lindo! Melhor que o da música gravada, mais emotivo, mais… Ugh! Perfeito. Você também acha?
— Eu não sou o melhor crítico de música…
— Acha ou não acha?
— Acho.
— Ah bom.
Eu respeito as vontades do Arthur. Por isso, não tentei iniciar qualquer tipo de conversa desde que saiu para o primeiro show. Ele já está no terceiro lugar, quarto show, e eu sinto que esse tempo só está fazendo bem para ele. Às vezes, é bom ter uma pausa. Espaço.
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Arthur bateu sua cabeça na parede, olhando para cima com preocupação.
— Como assim, mais uma turnê? — Soltei a faca das minhas mãos, deixando a cenoura semi fatiada sobre a bancada. A precisão cirúrgica era usada no dia-a-dia cozinhando para nós dois. Vezes, até para Agatha.
— Eu sei- Eu sei... — Arthur foi até a bancada, sua mão buscando as minhas.
— A gente ia viajar, Arthur. Eu tinha combinado tudo-
Eu afastei minhas mãos da dele, frustrado.
— Dante, não é como se fosse minha culpa!
— Você prometeu que ia dar certo — Elevo meu tom de voz.
— E eu sei bem disso, mas simplesmente não deu certo — Arthur responde igualmente.
— Uma turnê apareceu do nada? — Estava incaracteristicamente impaciente, batucava meu pé contra o chão — Você não analisa os eventos com antecedência?
— Uh- Sim, na maior parte do tempo! É que isso 'tá marcado faz muito tempo e...
— Então você admite que é sua culpa — Anda até Arthur, passando pela bancada com cuidado. Meus olhos cerrados provavelmente continham intimidação, e os olhos coloridos começavam a conter raiva.
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Agatha parecia impaciente o dia inteiro, ansiosa. Sabia que havia conversado com seu pai mais cedo. Havia falado brevemente. Ela parecia tomar cuidado perto de mim.
Talvez, eu não saiba lidar muito bem com meus sentimentos. Eu fujo e tento deixar as coisas para se resolverem sozinhas… Arthur é um pouco assim, também… Nada disso significa que não o amo. Eu o amo mais que tudo, mas… Os olhares dos outros me assustam.
Muita coisa me assusta. Incluindo meu namorado usando uma regata velha minha dos Escriptas. Ele agia perfeitamente normal, fazendo algumas piadinhas ali e aqui sobre a banda, e eu só conseguia achar tudo isso estranho.
— Eu falei com um membro dos Escriptas recentemente…
Nós não estamos nos falando tanto quanto eu gostaria ultimamente, então isso é completamente mentira! Fiquei em silêncio, esperando que continuasse.
— Eu tenho permissões legais, agora… Pois é, seguindo a legislação. Legislação do quê? Aí eu já não sei, mas eu acho que tá escrito em algum lugar que você precisa ter permissões para... Enfim, essa música é sobre o Kian, o filho da puta que me agrediu em 2006 durante o America Tour, e homofobia, o Gal e os meninos do Escriptas pessoalmente me deram a permissão, e o co-autor da música tá lá na minha casa agorinha, e espero que esteja ouvindo isso bem… Obrigado, Escriptas!
“Em tempos turbulentos
Em tempos como estes
Crenças contagiosas
Espalhando doença
Esse mal miserável
está agora correndo através de suas almas.
Nunca vai te deixar,
Nunca vai te deixar,
Aqueles ratos!”
— Ratos, dos Escriptas, composto por Gal e Dante
Agatha parecia nas nuvens. Sorrindo e rindo como boba, parecia que todos sabiam disso menos eu. Eu olhei como Arthur parecia animado. Algum tempo depois, recebi uma ligação:
— Gaspar! — Cumprimentou com o nome antigo, o que me fazia revirar meus olhos — Oi, amigo, você viu seu guitarrista cantando Ratos? Eu ia ligar antes para te perguntar sobre isso, mas como você me disse que não liga pra banda, falei só com os meninos. Injustiça, né?
— Foi uma boa surpresa. Oi pra você também, Verme — O apelido é carinhoso, juro — Como estão eles?
— Bem, bem bem, na verdade.
— Me ligou apenas para isso?
— A gravadora dos Abutres nos deu uma oportunidade, um último álbum, uma última turnê… E… Você poderia considerar ir com a gente? Bateristas estão escassos esses dias…
— …Gal… O quê? Eu preciso pensar sobre isso antes de responder.
— Tudo bem, Gasparzinho, você tem um bom tempo para pensar nisso, só… Reconsidere.
— Eu estou de férias, eu ia viajar com meu namorado e pedí-lo em casamento, mas uma turnê mal planejada arruinou isso, eu preciso pensar bem se eu quero mais uma turnê de última hora na minha vida.
— Me liga quando se decidir, então. Beijinhos, Gaspar!
— Adeus, Gal Sal.
— Grosso — E desligou na minha cara, deixando-me a rir sozinho.
Voltei para dentro como se tivesse acabado de ouvir notícias sobre alguma coisa completamente secreta protegida pelo governo, e Agatha me observou com cautela. Eu murmurei um boa noite rápido e sumi no quarto de Arthur. Puxei uma camiseta minha que Arthur havia roubado de uma das gavetas de seu armário e a coloquei, sentindo o cheiro gostoso que ainda estava na camiseta. Quando alcancei o banheiro e comecei a escovar os dentes, estava passando pelo Twitter, só olhando notificações, quando vi um post interessante:
“@abutresbtch: arthur cervero sendo o maior fã de escriptas, thread em comemoração da performance de hoje!!”
A primeira foto era o Gal e o Arthur juntos, postada a algumas horas atrás, logo depois do show, por Arthur, com a legenda “Nunca conheça seus ídolos, ou conheça, eles podem virar bons amigos seus depois que você roubar o baterista deles”.
“@abutresbtch: meu império romano é essa live do instagram onde ele estava mostrando seus discos de vinil e acabou percebendo que todos os discos que ele mais escuta são dos escriptas”
Então, um vídeo anexado onde ele sorri meio atrapalhado:
— Então, aqui eu coloco os que eu mais escuto… Enquanto tô limpando a casa, cozinhando ou… sei lá, quando amigos vêm visitar! — Ele mostra uma pilha de vinis, e pela capa, é possível ver que a maioria era dos Escriptas — É… tem bastante Escriptas… Alguns do Dragões Metálicos. Ei! Eu escuto mais coisas, esses são só os que eu mais escuto!
“@abutresbtch: essa foto daquele show onde os meninos estavam usando saias, que mostra a tatuagem que ele tem na parte de trás da coxa… O SURTO QUE ISSO FOI PRO ABUTRESTWT”
A foto anexada mostrava a saia xadrez verde, e, um pouco abaixo da barra da saia, é possível ler “PER ASPERA” em uma das pernas, e completando o título da música, na outra perna tem “AD INFERI”. Me vi vermelho ao perceber que mais pessoas sabiam sobre a tatuagem que Arthur havia feito pouco depois de começarmos a namorar.
“@dathnur__: imagina vc fazer uma tatuagem de uma música que seu namorado escreveu na parte de trás da coxa pro seu namorado ver toda vez que for te comer de quatro… danthur é relationship goals mesmo”
Desliguei meu celular imediatamente, vermelho como um tomate. Demorei para dormir no meio de tanta ansiedade e vergonha.
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— O que foi, Dante? Por que quer culpar alguém tanto assim?
— Eu tinha planos pra essa viagem — Tinha de olhar para baixo para falar com Arthur. Arthur se aproximava como se quisesse provar um ponto. Mesmo menor, mesmo sem um braço, ele é mais forte que eu.
— Tudo bem, às vezes, planos não dão certo. Tempo e dinheiro não são um problema, dá pra resolver tudo isso — Seu tom lentamente voltava ao tom amoroso reservado só para mim, mas ainda estava impaciente com a situação e a minha reação.
— Arthur...
— Eu sei que é frustrante, mas eu te amo, eu sei que é estressante quando as coisas não dão certo do jeito que você queria, mas dá tudo certo no final. Olha, você nem precisa ir comigo na turnê. Fique aqui, relaxa. Eu marco um dia pra você ir... sei lá, em um massagista e depois-
— Arthur!
Avancei no moreno com o único motivo de calá-lo. Meus lábios nos lábios surpresos com gosto de café, derretendo na minha língua, seu gosto e seu cheiro enchendo minha cabeça. Com minhas mãos presas contra sua cintura como ímãs. Arthur não demorou a reciprociar o sentimento, me puxando até a bancada, me prensando sobre a mármore fria e seu corpo quente.
— Boa tentativa, mas acho que você me deve desculpas — Arthur disse, sendo interrompido por mais um selar de lábios. E outro, então outro.
— Você também me deve desculpas.
Mais um, e outro, e línguas em sincronia. Mãos pressionando contra cinturas, dedos fortes o suficiente contra pele que marcam. Lábios inferiores mordiscados até o gosto metálico de sangue.
— De onde que veio essa raiva?
— Uhum... Por deus... — Inspecionava a expressão de seu namorado com afinco, sorria como um trapaceiro — Como você consegue?
— O que? — dizia manhoso, um pensamento correndo por trás de seus olhos. Virou de costas para mim, alcançando por uma rodela fina de cenoura, prendendo-se de costas entre a bancada e o meu corpo.
— Me deixar maluco — Passo meus dedos macios nas costas queimadas dele, então para baixo até chegar nas tatuagens na coxa.
— Dante, me responde — Arthur vira de volta, preocupação lentamente tomando conta da sua expressão.
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“Você nunca andará sozinha
Você sempre poderá falar comigo
Você nunca, nunca andará sozinha
Mesmo quando você estiver enterrada
Você sempre poderá falar comigo
Tudo o que você precisa fazer é me chamar, me invoque
Me invoque, Pequeno Raio de Sol
(Me invoque) me chame de Mefistófeles
(Me invoque) quando você estiver se sentindo sozinha
Basta me chamar, Pequeno Raio de Sol”
— Me invoque, dos Escriptas, composto por Dante
Quando ouvi a melodia pela primeira vez, já sabia para quem Arthur dedicava essa. Vi o mesmo olhar orgulhoso em Joui. O olhar da paternidade. Agatha chorou mas fingiu que nada aconteceu, ligando para Arthur logo depois do show:
— PAI-
— OI FILHA, GOSTOU? — Gritava, nos fundos da arena lotada e barulhenta.
— EU AMEI. FOI MUITO BOM. MUITO OBRIGADA. EU TE AMO MUITO — Ela gritava de volta, emoção em sua voz.
— EU TAMBÉM TE AMO MUITO, MEU AMOR.
O resto da conversa foi abafada por uma porta e travesseiros, queria dá-los privacidade. Peguei meu celular, e dessa vez escrevi uma postagem:
A foto era minha e de Agatha, abraçando a gatinha Jennifer.
“@commediadante: Pequenos raios de sol @agathinhaocultista
@rocknarthur Jennifer e eu sentimos saudades”
Uma hora depois, Arthur respondeu:
“@rocknarthur: Amo vocês<3 N vejo a hora de te enfeitiçar no luar”
A referência se prendeu na minha cabeça como cola.
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— ...Não é nada. Só... Estresse... e o Vôo foi terrível... e eu realmente queria ir viajar com você... e agora vamos ter que ir para a estrada de novo... Não vai ser só eu e você de novo.
— Agora a gente tem nossos próprios quartos de hotel, pelo menos.
— Mas não é só a gente. Não é privado. E turnês sempre são legais mas tão estressantes e...
— ...Ah. Eu já entendi —Me abraçou, aninhando seu rosto no meu torso quente — Você não precisa ir. De verdade. Eu sei que é ruim lembrar dessas coisas...
— Eu sei que você sabe... E eu me preocupo com você, não eu.
— O quê? — Levantou sua cabeça — Dante, 'tá tudo bem...
— Arthur, depois de todo show você chora. Você quase teve um ataque de pânico no palco quando pediram pra você cantar qualquer música de Três Brindes Para O Doce Amor. Quando gritam muito você começa a batucar o seu pé, ansioso... Pode me chamar de paranóico, mas eu vejo o quão difícil é para você.
— …
— E eu sei que durante A Parada Imortal vocês tinham o playback preparado, se algum de vocês tivesse algum problema. Vocês três têm estresse pós-traumático. Kaiser e Joui tem um ao outro no palco. É com você que me preocupo.
— Eu…
— Turnês são legais, você gosta da adrenalina, Kaiser ama a adrenalina, Joui também gosta… Mas tanta coisa aconteceu desde que a adrenalina era revigorante…
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“Você logo estará ouvindo o badalar
Perto da meia noite
Se eu pudesse voltar no tempo
Eu deixaria tudo certo
Como poderia acabar assim?
Há uma ardência no jeito que você me beija
Algo dentro de seus olhos
Disse que esta poderia ser a última vez
Antes do fim!
Eu apenas quero estar
Eu quero enfeitiçar você no luar
Eu apenas quero estar
Eu quero enfeitiçar você a noite toda
Isso continua me dando calafrios
Mas eu sei agora
Eu sinto que cada vez mais nos aproximamos
Da última reverência”
— Dança Macabra, dos Escriptas, composto por Dante
Todos no Twitter já haviam adivinhado naquele ponto, e mesmo assim, ouvir ele cantando minha própria música era como água morna no frio, extremamente confortante e gostoso.
Escrevi essa música antes dos eventos de 2006, e de alguma forma, encaixavam tão bem que a música nunca deixou de ser querida aos meus olhos.
— Certo dia eu e Dante dançamos ao som dessa música na minha cozinha, e eu estava cantando todo desafinado, meio bêbado. Ele cantou junto comigo e desde então ando procurando formas de fazê-lo cantar. Acho que encontrei a minha melodia favorita.
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— Eu não sou tão frágil assim — Disse, assertivo, defensivo.
— Não estou falando que é.
— O que está dizendo, então? Que voltar a fazer o que eu amo não foi uma boa ideia?
— Talvez tenha sido uma ideia que você tinha que ter pensado melhor sobre.
— Eu não sou você, Dante. Eu não observo a situação friamente, mantenho a compostura. Então me desculpe, de verdade, por querer agir. Por querer sentir.
— Não venha com essa. Você sabe que se tem uma pessoa que eu quero bem a todos os custos é você.
— Você não age assim, às vezes.
— Por não me sentir confortável vendo você ansioso e mal em cima do palco? Eu só quero o seu bem.
— Às vezes o meu bem eu consigo conquistar sozinho.
— Tudo bem. É só me dizer isso que eu paro de me… intrometer…
— Agora você está agindo como a vítima…!
— Vítima? Eu só estou dizendo.
— Seu tom não foi se responsabilizando.
— Eu não acho que tenho culpa por querer proteger meu namorado!
— Você… Ugh. Eu vou pra turnê. Você… Você faz o que quiser.
Arthur saía de perto de mim, andando até o quarto compartilhado. Não podia deixá-lo ir dessa forma.
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“Me eleve novamente
Leve-me além da borda
Quero ver o outro lado
Você não vai me mostrar como é?”
— O Chamado, dos Escriptas, composto por Gal e Henri
Arthur estava cantando gesticulando para a plateia. Essa música é excruciante de cantar, e quem tomava conta era sempre o Gal. Ele tinha uma preparação tão intensa para tocarmos ela que ele sempre dizia que não podia falar nada por um dia antes do show e tocar a música como primeira na setlist. Ríamos muito quando ele acabava falando alguma coisa sem lembrar do que havia falado antes. Eram bons tempos. Ouvi Arthur arrasar enquanto pensava sobre os tempos bons com os Escriptas.
Peguei um vinho e comecei a tomar junto com Agatha, assistindo atentamente e absorvendo cada detalhe da performance.
“Ah, meu amor
Confundi você com um sinal de Deus…
ou está aqui para me impedir?
Ou talvez apenas para me distrair.
Porque atualmente,
estaria mentindo se dissesse isso:
“Eu não queria que eu pudesse ser seu homem
Ou talvez tornar ruim um garoto bom””
— O Chamado, dos Escriptas, composto por Gal e Henri, modificado por Arthur.
A partir daquele momento, estava no chão, vermelho como um pimentão. Ele estava de fato cantando a música melhor do que qualquer vez que Gal a cantou, e me sentia grato por saber que seu áudio estava sendo gravado naquele momento. Ele cantava gemendo, e quando ouvi ele trocando as letras, senti meu rosto queimar. Agatha saiu da sala quando ele começou a cantar essa parte, com nojo dos flertes sugestivos.
“Eu tenho um rio correndo direto para você
Eu tenho um rastro de sangue, vermelho no azul
Algo que você diz ou algo que você faz
O sabor do divino
Você tem meu corpo, carne e osso
O céu acima, a Terra abaixo
Nada a dizer e nenhum lugar para ir
O sabor do divino”
— O Chamado, dos Escriptas, composto por Gal e Henri
Estava tão focado em Arthur que nem vi Kaiser tocando enquanto ajoelhado na frente de Joui. Eles estavam malucos, e eu fiquei com vergonha apenas por assistir. Tomei mais duas taças, ouvindo o resto do set. E então abri minhas redes sociais, o resto na garrafa que estava na minha mão, pronta para minhas goladas fartas de tempos em tempos.
“@commediadante: pelo meu estado nesse momento, ja tornou ruim ja, amor”
“@rocknarthur: Cê tá bêbado?”
“@commediadante: foi muito bonita a performance eu adorei ok”
Arthur Cervero
“Amor”
“Tá tudo bem?”
“Não bebeu demais, ne?”
“Agatha já foi dormir?”
Dante Cristal
“oiii eu to bem”
“eu bebi”
“agatha ta dormindo com a jennifer”
“eu ate tirareia foto mas perdi meu celular”
Arthur Cervero
“Você tá mandando mensagem por onde?”
Dante Cristal
“achei!!!!! obrigado”
“vc tava cantando mt bem ta aposto que o gal ta com inveja agora”
Arthur Cervero
“Eu nunca vi você escrevendo em minúsculo, cheio de abreviações e sem acento. Eu vou ligar pra você”
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— Arthur.
Sem respostas.
— Arthur.
Começo a ir atrás dele.
— Arthur!
— Que foi?! Só fala logo — Arthur abria sua mala com dificuldade, olhando para as roupas no armário.
— Ah…
— Você quer que a gente continue a discutir? É isso que você quer? É essa a adrenalina que você quer, não? Se cansou do palco… Se cansou de brincar de casinha…
Arthur não havia falado isso. Não havia jeito de ter feito isso. eu conseguia sentir raiva fluindo pelas suas veias.
— Vai se fuder — Xinguei entre meus dentes, cerrando o punho.
— Ah, então é isso? Você quer discutir comigo pra fazermos as pazes do jeito que fazíamos, huh? Bem adulto da sua parte. Bem maduro. Eu te enlouqueço, não? Te encho de raiva? De tesão, também, acredito.
— Eu só quero fazer as pazes com você, Arthur. Mas se quer ser assim, tudo bem.
— E de novo a culpa é minha! Vai tomar no cu, Dante.
— Eu só quero o seu bem. Se você não quer escutar, tudo bem. Tudo ótimo.
Arthur parou de enfiar roupas na mala freneticamente para se aproximar e olhar no fundo dos meus olhos de oceano. Ele abriu a boca para xingar, mas no meio do movimento, parou e respirou fundo:
— Eu sei que você só quer o meu bem. Mas as minhas escolhas são só minhas.
— Tudo bem. Me desculpa por ser muito protetor. Eu só não quero te perder. De novo.
— Você tá perdoado. Me desculpa também… Por ter sido descuidado e por ter falado sobre a Jasmim desse jeito…
— Eu te perdoo. Eu te amo.
— Eu também te amo. Muito. E eu não quero que você vá desta vez. Tudo bem?
— …Tudo. Eu confio em você.
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Quando a chamada conectou, estava jogado na cama.
— Amor?
— Arthur, oii… — Falava, seu rosto contra o travesseiro
— Oi, bebê, que bom que você deitou. Não gostaria que você se machucasse. Que bêbado responsável — Só grunhi contra o travesseiro — Tudo bem com você? Eu devia ter ligado antes pra você, mas eu achei que você precisava de um tempo.
— Eu achei que você precisava de um tempo…
— É?... — Ele riu — Nós somos idiotas, não somos?
— Desculpa, Arthur. Eu não queria ter sido insensível com você.
— Tudo bem.
— E me desculpa por só conseguir assumir que estou errado enquanto estou com sono e bêbado.
— Ah… Meu anjo, você vai ter uma ressaca horrível amanhã… Como você vai ouvir eu cantando a sua composição favorita?
— Você vai tocar aquela???
— Sim. Estou te falando só por que você vai esquecer completamente amanhã.
— Entendi…
Eu não esqueci.
“Lembre-se sempre
De que o amor é tudo de que você precisa
Diga-me quem você quer ser
E eu irei lhe libertar
Há uma escuridão no coração da minha paixão
Que corre friamente, que corre profundamente
A escuridão no coração do meu amor é tão corajosa, tão doce
Há uma escuridão no coração da minha paixão
Que corre friamente, que corre profundamente
A escuridão no coração do meu amor é tão corajosa, tão doce
E todo esse tempo você soube
Que eu colocaria você para atravessar
Há uma escuridão no coração da minha paixão por você
Quando o verão morrer
Cortando os laços
Eu estarei sempre com você, sempre
Pinte um par de olhos
Vamos assistir enquanto seca
Eu estarei sempre com você, sempre”
— Escuridão no coração da minha paixão, dos Escriptas, composto por Dante
Estava com óculos escuros olhando para a televisão quando a música começou, um coral cantando junto. Quando terminou de tocar, eu senti meu coração batendo forte contra meu peito, e uma frase se destacou entre as outras, essa uma frase que havia ouvido do meu poeta e guitarrista favorito, lá em 2006:
“Sucesso é ouvir as suas letras sendo cuspidas na sua cara por um monte de pessoas que você nunca viu antes!”
Senti minha mente acelerar. E liguei para o número de Beatrice o mais rápido que pude:
— Os Escriptas querem fazer uma última turnê e um último álbum.
— O que aconteceu com oi e olá? Deus, Dante, calma aí!! — Conseguiu ouvir ela tomando chá — O que você acha sobre isso? Quer ir com eles?
— …Eu tô me sentindo estranho, sabe? Eu acho que eu finalmente gosto de música. Eu consigo apreciar tudo e…
— Você sabe bem quem fez isso contigo.
— Eu amo ele, Bea. Eu amo a música dele, eu amo essa paixão. E eu acho que eu aprendi a amar pessoas cuspindo as letras que eu escrevi na minha cara.
— Dante… Eu vou te dizer algo e você precisa me prometer que vai fazer exatamente isso.
— O que foi?
— O Arthur só te fez bem. Você parece mais leve, mais solto. Sabe o que eu acho? Jasmim e Aquiles vão gostar dessa ideia, Arthur vai gostar dessa ideia… E o mais importante, você parece animado de verdade. Não corre do amor verdadeiro, irmão. Corre atrás dele, mostra que você se importa, mostra que você ama ele…
— Sim, Claro! Óbvio!... Meu deus… Eu preciso falar com Jasmim. Desculpa, irmã, depois eu te ligo de volta — Estava extasiado.
— Não tem problema, só… boa sorte! Te amo.
— Também te amo, obrigado.
Meu coração batia mais rápido que meus dedos contra o celular. Sentia minha visão escurecer nos cantos, mas finalmente podia falar com Jasmim:
— Dan! Estava esperando que você ligasse…
— Eu vou fazer uma última turnê com os Escriptas.
— Dante? Meu deus — Ela ria, como se achasse graça da situação — Você tem certeza?
— Tenho. Me diga se essa é a escolha certa.
— Você merece o mundo, Dan. Eu soube assim que vi os olhos de Arthur que ele ia fazer você mudar de ideia, ele tem essa energia revigorante... Quando você me ligou, depois da briga de vocês, eu fiquei preocupada… E se você perdesse esse brilho que você formou? Essa jovialidade de novo?... Eu não poderia ver isso acontecendo com você.
— Beatrice me falou algo muito semelhante.
— A gente conversou sobre isso.
— Óbvio que conversaram.
— Bem… Aquiles está cochilando, mas ficou feliz em assistir o Arthur cantando mais uma vez. Está com saudades de vocês dois.
— Eu estou com saudades de vocês. E também com saudade do Arthur.
Quando olhei para Agatha e vi ela quase chorando, entendi a gravidade da situação. Aparentemente todos na minha vida estavam esperando que eu fosse voltar a tocar depois de começar a namorar com Arthur.
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— Eu acho que algumas pessoas não conseguem reconhecer o quão artísticas realmente são. E me dói, muito. Você não deveria se rebaixar só por que algumas pessoas são relativamente melhores que você em alguns aspectos. No que isso importa? Existem mil cantores melhores que eu, alguns guitarristas de um só braço que conseguem tocar melhor que eu mas o que me diferencia de todas essas pessoas talentosas e bem treinadas é a minha vivência. É o que eu sinto quando faço isso. Meu jeito de fazer as coisas. Ninguém é como eu, assim como ninguém é como cada um de vocês. Ninguém consegue fazer as coisas que você realmente quer e se empenha para fazer, como você faz. Isso é o suficiente.
“Eu preciso do som da multidão ou não consigo dormir à noite
Eu não posso parar meus pensamentos e eu
Não consigo parar meus pensamentos e estou acordado
Mais um ano de possibilidades deixadas desembrulhadas
Como presentes do dia seguinte do Natal passado
E tenho certeza que minha dor não é legal o suficiente, a dor não é legal o suficiente mais
Como uma marreta para uma bola de discoteca
Esmagando todos os meus baixos, baixos e baixos, sofra até conseguir
Sofrendo até conseguir
Acho que já passei por isso mil vezes
E eu tenho colocado seu nome como culpado
Tanto por poeira estelar
Pensávamos que tínhamos tudo, pensávamos que tínhamos tudo,
Pensávamos que tínhamos tudo, pensávamos que tínhamos tudo,
Pensamos que temos tudo”
— Tanto por Poeira Estelar, dos Abutres, composto por Arthur.
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Quando Arthur chegou em casa, eu estava limpando e montando minha bateria antiga no meio da sala com a ajuda de Agatha, que na maior parte só reclamava e falava que eu estava fazendo errado.
— Finalmente… — Quando ele olhou para nós dois, vi os olhos coloridos brilharem — Dante? …Você aceitou?
— Eu estava esperando você chegar para oficializar, mas… Sim, eu acho.
— Mentira! Mentira! É sério?
Ele puxou meu braço, e dançamos em um abraço forte, a mala pesada deixada de canto por um segundo. Eu ri, divertido pela animação.
— Sim, meu amor, é sério.
— Dante, eu estou tão feliz por você — Ele me deu um beijo, e senti o gosto do café do aeroporto em seus lábios — Mas, amor, você tem certeza?
— Tenho.
— Absoluta?
— Sim.
— Eu te amo tanto.
— Eu também te amo, me desculpa.
— Me desculpa também…
— Meu deus que gay — Agatha riu, revirando seus olhos.
— Oi, filha. Tudo bem? — Deu um abraço nela — Quando vocês começaram a montar isso?
— Tipo… há algumas horas?
— E ainda não terminaram?
— É um work in progress, pai.
Vendo Arthur conversando com Agatha, eu percebi a coisa mais importante dentre tudo que aconteceu nos últimos dias. Um pedido é um pedido. Se eu tivesse tido a chance, teria feito lá em 2006, e se eu tenho a chance de fazer agora? Por que não?
Todo momento é romântico quando vocês se amam. Eu corri para abrir a gaveta da escrivaninha onde estava guardando a caixinha. Segurei o veludo e voltei, e Arthur me olhava como se eu fosse uma nova pessoa.
Acho que talvez seja bom deixar de calcular riscos e começar a calcular felicidade.
— Casa comigo, Arthur Cervero.
— Quê? Oi? Sim? Óbvio? Claro! — Arthur tentou colocar o anel em seu próprio dedo, mas como não conseguiu, o ajudei, recebendo um beijo em troca.
— Eu ia te pedir em uma viagem cênica, em algum restaurante caro, mas…
— Amor não precisa dessas coisas — Falamos em unisom, Agatha revirou os olhos mais uma vez.
— Kaiser tá me devendo 50 reais. Ele apostou que isso só ia acontecer daqui a uns dois meses, tolo.
