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A ave sai do ovo

Summary:

“Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?” - Hermann Hesse

Will estava acomodado em seu traje pessoal bem costurado antes de Jack Crawford o fisgar para o caso do Grande Dragão Vermelho usando a carta que Hannibal escrevera para ele. As noites de Will não tem sido fáceis desde então, mas o caminho para autodescoberta nunca é fácil, especialmente com Hannibal dentro de sua cabeça. Com a suposta morte do Dragão o caso se encerra e Will está sozinho com seus pensamentos para lidar com sua solidão.

OU Will rele Demian pela milionésima vez na busca por si mesmo e encontra paralelos de sua relação com Hannibal. Uma jornada na mente de Will Graham e na sua transformação.

Notes:

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo. A ave voa para deus e o deus se chama Abraxas" - Demian (Hermann Hesse)

Essa fic era para ser um oneshot sobre o período da noite entre o "adeus" de Will Graham e a visita do Dragão no último episódio da série. Porém, acabou virando um estudo de personagem do Will planejado para quatro capítulos que retratam um período mais longo acompanhando Will Graham até a manhã da fuga planejada de Hannibal Lecter. Esse primeiro capítulo é mais introspectivo e abrange eventos que vão desde o S3ep08 até o momento da despedida de Will com o fim do caso do Dragão Vermelho, e eventos passados são recordados também.

Além de Hesse tem outras referências no texto, deixarei nas notas de rodapé todas necessárias. Usei negrito nas frases que estão no show somente para diferenciar de outras citações.

Boa leitura, é minha primeira vez então sejam gentis * 0_0 *

Chapter 1: O ovo é o mundo

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

“Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?” - Hermann Hesse

 

Will Graham costurou seu próprio terno pessoal nos últimos 3 anos. Era adequado e o servia bem, às vezes precisava de alguns remendos, pequenos reparos apenas em alguns furos. Seu terno pessoal era a armadura que o protegeria contra a vertiginosa tentação do mundo sombrio. Havia uma mancha de vinho tinto também, mas embora Will soubesse exatamente onde a mancha estava, não era perceptível para as outras pessoas. Elas teriam que observar muito de perto e em muitos ângulos o seu terno para encontrá-la, e Will sempre mantinha uma distância segura. Ninguém se aproximava tão perto. Então ele poderia manter o terno, mesmo com sua mancha de vinho que guardava como lembrança. Certo de que a única pessoa que poderia ver atrás estava atrás de um vidro duplo.

 

Todas as vezes que saia da antessala da cela pomposa de Hannibal Lecter um espectro da sua presença o acompanhava pelos corredores, muitas vezes permanecia com ele por mais tempo, mesmo depois de sair do prédio. Enquanto comia sua comida sem gosto no bar próximo ao motel, às vezes ele estava lá também torcendo o nariz para a comida gordurosa e barata de Will, que bufava algo entre um sorriso e um lamento com isso, ele não admitiria para si mesmo a saudade que sentia das comidas de Hannibal. Algumas vezes arriscaram conversar ali. Não tinha porque terminar a conversa tão cedo. 

 

Nem sempre quando cruzava a porta de seu quarto escuro e mofado, Hannibal o acompanhava. Ele detestaria o cheiro desse lugar , Will sempre pensava assim que aspirava o ar daquele motel. Não há lugar para o Dr. Lecter aqui. Mas ali estava ele de novo, sentado na beira da cama pronto para discutir o que o Will quisesse discutir, fosse sobre o caso, fosse sobre Crime e Castigo. No entanto, Will não queria. Na primeira semana ligou para Molly. Sentia-se tão solitário e certamente não queria conversar com um espectro de consciência de Hannibal Lecter que insistia em acompanhá-lo. Ele tinha uma companheira, afinal de contas. Uma mulher real, ela era doce e divertida como podia ser. Isso vai ser fácil, ele pensou e não foi. A maioria das vezes o telefone tocava e tocava, Will nunca ligava uma segunda vez quando Molly não atendia. Ela atendeu duas vezes, retornou uma terceira, mas o Will já tinha bebido demais para querer atender a ligação de retorno, mandaria uma mensagem pela manhã. A verdade que Will descobriu com as duas chamadas que tiveram é que não fazia tanta diferença assim quando não eram atendidas. No fim da ligação ele estava sozinho. Não, no meio da ligação ele também estava. Sentia um calor e algo próximo de uma felicidade ao ouvir a voz de Molly no primeiro minuto, até sentir-se como se tivesse desassociado. Ele se via refletido no espelho e o espelho estava quebrado e os cacos caiados. Ajustar-se no terno era mais difícil agora, uma vez que ele crescerá e o terno parecia ter encolhido. Seu terno não lhe oferecia mais a proteção de um casulo. A realidade de sua vida conjugal na cabana parecia tão distante agora que ele voltou a olhar a escuridão. E então o whiskey brilhava como uma opção de fuga melhor. 

 

Era melhor assim, ele pensava só para descobrir que Hannibal continuava parado em seu quarto o observando, então ele falava algo que Will não queria ouvir, mas que buscava escutar nem que fosse pela simples voz familiar ecoando em sua cabeça com seu sotaque inconfundível. 

 

Depois de dois copos era mais fácil.  As músicas que tocavam na rádio nunca ajudaram em nada. Girl from the North Country lembrava-lhe Molly. Podia fechar os olhos e ver a cabana deles. Ele não sentia falta de sua antiga casa de Wolf Tramp. Ele gostava de sua vida lá agora, mas parecia um lugar perdido e antigo no tempo. Como se fosse uma lembrança de juventude desvanecendo-se aos poucos nas sombras. Will estava melancólico nesse dia. E por mais que essa música lembrasse Molly, ele não ia ligar para ela essa noite. De repente ele não conseguia ligar mais. Não fazia sentido. Era apenas uma fuga de uma sala que o levava ao mesmo corredor.

 

Outras noites, Will cedia a sua própria tentação e conversava com o seu ex-psiquiatra, seu amigo, seu inimigo, ou o que mais ele fosse. Estavam no escritório de Hannibal em Baltimore sentados onde costumavam sentar-se, o calor da lareira os aquecia e levemente iluminava-os à penumbra. Ou então, mais distante, do outro lado do oceano, numa capela dourada, vigiados pelo Cristo Pantocrator acima e por uma caveira em prece no chão. Só sabia que o vínculo permanecia nele. 

 

Na mesa de cabeceira junto ao whiskey estavam alguns livros, Will estava trabalhando com William Blake para o caso, ele precisava entender o Dragão, suas motivações e seus anseios se quisesse solucionar aquele caso. Mas nunca foi só sobre o caso. Enquanto William Blake deveria dar conta do becoming do Grande Dragão Vermelho, um pequeno livro de Hermann Hesse estava entre os pertences de Will como um velho amigo. A cola do miolo levemente deslocada, algumas páginas tinham orelhas, algumas marcações a lápis também. Numa análise forense era evidente o quanto o livro foi lido e relido com fome no passado mais jovem. Mas Demian não era sobre o Dragão, era apenas sobre Will. Ele ainda preservaria em sua vida um espaço para si próprio, ele aprendeu o quanto sua empatia podia levá-lo ao limite da realidade com Garret Jacob Hobbs e isso ainda o assustava. Era perigoso que a jornada para o autoconhecimento acabasse no ego de outra pessoa. Ele absorve tanto, se Will vivia em seus sonhos, como vivia o jovem Emil Sinclair, que ele vivesse em seus próprios e não nos de outras pessoas.

 

“Eu não sei se vou ser eu mesmo de novo. Não sei se ainda sobrou algo em mim”

 

Disse uma vez Abel Gideon para Will, parados na neve em frente a casa de Alana Bloom. A cruzada de Gideon contra os que mexeram em sua cabeça era digna de menção honrosa para Will. Chilton uma vez entrou em sua cabeça atrás da própria glória. Hannibal Lecter entrou na mente de Will atrás do que mesmo? Curiosidade, amizade? A vida pode ser solitária quando você deixa todos do lado de fora, inclusive você mesmo. 

“A vida de todo ser humano é uma jornada em direção a si mesmo .” Will repetiu a paráfrase em voz alta.

 

“Eu sou quem eu sempre fui. Eu posso te ver agora”

 

Disse uma vez Will para Hannibal, parados na cozinha de Garret Jacob Hobbs em frente ao mais hediondo dos crimes, a traição. Lúcifer habita o nono ciclo e lá os traidores fazem sua última morada no gelo. A vida de Will sempre foi um ciclo de intermináveis invernos e primaveras ligeiras. Você me libertou naquele dia, estive mais livre na prisão do que já estive antes. Eu te libertei também, ao te despir de seu elegante terno de três peças te libertei da hipocrisia, e você está encarcerado agora. Estamos quites . Will pensaria isso com um leve sorriso nos lábios, doce como o beijo da Loucura. Eles eram criaturas solitárias e continuariam sozinhos um sem o outro, Hannibal e ele.

 

Um marcador de páginas do Museu de Washington marcava o início do quinto capítulo do pequeno livro de Hesse. Diversas passagens do texto daquele capítulo estavam sublinhadas e até circuladas. Will retornava religiosamente ao livro em um movimento catártico quando estava sozinho e marcava mais algum trecho ou relia os já grifados acariciando gentilmente a folha amarelada de papel.

 

“Em minha estranha existência de sonâmbulo, enclausurado em mim mesmo, iniciou-se uma nova floração. (...)

Durante todo aquele inverno vivi numa tempestade interior que me é difícil descrever. Já habituado à solidão, esta não me pesava e vivia com Demian, com o gavião simbólico e com aquela imagem de meus sonhos que era minha amada e meu destino. Isso era o bastante para a minha vida, pois tudo aquilo era grande e vasto e tudo se encaminhava para Abraxas. Mas nenhum desses sonhos me obedecia (...) Vinham e apoderaram-se de mim, era dominado por eles, era por eles vivido”

 

Will Graham marcou esse em sua primeira viagem de volta a Baltimore, em sua cabeça a uma lied de Schubert o acompanhava. Ele já não mais pensava racionalmente quando seguiu o caminho até a cela de Hannibal só para olhar para ele, ou pior, pensava tão racionalmente que não poderia nunca admitir a si mesmo. 

 

Na rádio tocava uma antiga balada, ele deitado na cama afogava Night in White Satin com uma dose de whiskey sem gelo. É mesmo uma música de motel. Seu pai gostava dessa música, talvez ele tivesse alguma lembrança com sua mãe. Para Will, ela era mais sombria do que romântica. “Letters I've written, never meaning to send”. Will bufa, tantas cartas escritas em outras madrugadas insones nos últimos anos, só para irem para a fogueira antes mesmo da tinta da caneta preta secar. 

 

“Beauty I'd always missed, with these eyes before. Just what the truth is, I can't say anymore”

 

Desligar o rádio é uma melhor escolha do que encarar a próxima estrofe. Will fitou a loção pós-barba "atroz" no banheiro de seu quarto de motel enquanto escovava os dentes para dormir. Ele sorriu despreocupado naquela noite pela primeira vez. Hannibal genuinamente odiava e poucas coisas o deixavam de melhor humor do que provocá-lo. Livrando-se da rádio que definitivamente não daria certo, como uma antiga técnica, sua mente o levava para o riacho, enquanto Die Forelle animadamente ressoava e o acalmava. E assim entregava-se aos braços de Morfeu.

 

Finalmente conseguindo dormir, sua retina via pelos olhos vermelhos do Dragão, sentia pelas escamas nuas da pele e engolia o gosto de ferrugem que passava pelos seus dentes, contemplando a lua cheia. Como era comum nos seus dias de Wolf Trap, ele acordava molhado encharcado de suor. E era como se o espectro de Hannibal o amparasse algumas vezes, mesmo nos pesadelos que ele mesmo causara em Will. Um toque fantasma no escuro, Will suspirava.

Foi estranho, especialmente estranho depois da noite que Molly e Walter foram atacados. Aqueles dois dias dormindo mal na cadeira de um hospital até Molly acordar. Hannibal fez isso, Hannibal o mandou lá, foi o Hannibal, ele repetia para si mesmo. Era fácil apontar um culpado e não olhar para si mesmo. Mesmo assim ele esteve na companhia da culpa e dos mortos. Alucinou com vislumbres de Abigail Hobbs três vezes enquanto estava naquele hospital. Ele mentiu para o seu enteado sobre matar da mesma forma que mentiu sobre a sensação de matar para Abigail da primeira vez. Ele provavelmente soou estúpido para os dois. Lembrar de Abigail é lembrar do ensaio de família que ele um dia teve com outro homem. Uma terrivelmente bizarra família disfuncional e mesmo assim uma família que oferecia mais do que qualquer outra podia.

 

Ele queria xingar Hannibal e o fez na primeira oportunidade depois que Molly acordou, pois percebeu que não tinha caminho de volta na estrada para o inferno e seu destino sempre seria um ciclo abaixo. Fervendo de raiva e fantasiando sobre matá-lo durante todo o caminho até sua cela em Baltimore. Will estava tão ansioso para ver Hannibal e despejar tudo nele - ele precisava disso. Will chegou lá no meio da noite, já era bem tarde. Queria poder quebrar o vidro, sufocá-lo com suas mãos, bater nele até senti-lo mole sob ele, sua respiração rareando até finalmente parar. Seu coração tão batendo forte que Will poderia ouvir como se fosse uma Aria, até o silêncio opressor ecoar pelas paredes vazias. Uma poça de sangue embaixo deles, e Hannibal estava oco. Ele precisava tocá-lo. Hannibal precisava ver do que Will era capaz agora. E ele era capaz de tudo, desnudado de seu terno, a crisálida não mais cabia as suas asas crescidas. Ele precisava que Hannibal testemunhasse o esplendor de sua ira. William Blake disse em versos uma vez:

 

“Estava com raiva de meu amigo

Disse-lhe minha ira, minha ira acabou.

Estava com raiva de meu inimigo

Não lhe disse minha ira, ela aumentou.”

 

Viajando pelo Rio Estige de volta ao quarto de motel, sua ira ainda o acompanhava mesmo depois, era bastante democrática, ela não era direcionada só a Hannibal, mas toda humanidade. Cachoeiras vermelhas de sangue inundaram sua visão ao ligar o chuveiro. A água escorria tão quente que poderia queimar a pele. 

Quando odiamos um homem, odiamos nele algo que trazemos em nós mesmos. Pistórius disse isso a Sinclair, lembrou Will. Desgraçadamente oportuno. 

 

Naquela noite Will não queria dormir, sabia o que estaria à espreita em seus sonhos. Ele atacaria Molly, ele a mudaria, ele gritaria mais uma vez ao luar como uma criatura selvagem. Foi o espectro que o acordou do seu terrível pesadelo às 5 da manhã. Ele o abraçou na cama e acariciou seu cabelo. Pode ouvir um sussurro em seu ouvido “shhh” ou algo assim. Foi tão real que Will tremeu como se pudesse sentir o hálito de Hannibal em seu ouvido. Era um eco da noite que Hannibal salvou sua vida na Fazenda Muskrat e o carregou em seus braços como uma noiva pelo véu branco da neve. Há apenas flashs desses momentos.

 

“Eu não quero mais pensar em você”

 

Ele disse com a coragem dos covardes. E mesmo assim durante um mês a fio depois de Hannibal se entregar sua mente tentou reconstituir as memórias daquela noite. Ele não se lembra de ver, somente sentir. Hannibal o cuidou, trocou sua roupa, como fizera outras vezes, mas aqui o cuidado não precedeu nenhum tipo de manipulação, foi apenas cuidado. Ele se lembra de vagar no escuro com o Ravenstag naquela madrugada. Se lembra de bater no gigante e assustadoramente belo cervo com suas mãos nuas e a dor atingindo direto em seu peito. Matando-o, ele matava a si mesmo. Ele se lembra, também, de uma mão acariciando seu cabelo e sua têmpora e acalmando seus sonhos inquietos. Will recorda do sussurro em seu ouvido, ele não abriu os olhos. Quando sentiu que o homem se afastou, apenas lembrava de pedir ao escuro, rouco, abafado e firme: “fique” . Esse fragmento de lembrança o resgata de seus pesadelos algumas vezes desde então nos últimos 3 anos, acalmando-o e adormecendo sereno, mesmo na solidão de uma cama vazia, ou no calor de seu leito conjugal.

 

No dia seguinte Will apenas sentia vergonha, poderia até chorar, mas não o fazia, ele não era um cara de chorar fácil. Meninos não choram, seu pai dizia. Ele precisava se recompor afinal ele ainda veria Bedelia e embora ele estivesse lá para pretensas conversas além do véu, ele ainda era extremamente competitivo. Fraqueza não seria algo que Bedelia veria nele.

Para sua sorte, o espectro de Hannibal nunca estava à espreita pela manhã. E se ele não fosse vê-lo no BSHCI ele não estaria ali de novo. Parecia bom, mas ele ia vê-lo de qualquer forma. Ele precisava disso se quisesse pegar o Dragão, pelo menos era o que Will dizia a si mesmo. Ele precisava disso para pensar. Não importava, ele precisava ir. Ele continuava indo, o caso não fora solucionado.

 

O som melodioso de Bach o atraía de volta à tão conhecida capela normanda, da mesma forma que atraiu Sinclair. Mas no lugar do órgão que ressoava na gótica e soturna capela, Bach era gentilmente tocado em um cravo em outra capela medieval. A Cappella Palatina era tão paradoxalmente extravagante e austera quanto Hannibal o era; normanda, bizantina e fatímida. Will teve tempo para aprender sobre isso depois de semanas a visitando religiosamente. Pensava agora na irônia de seu destino tal como Sinclair que passou a visitar uma capela atraído pela música e por consequência quem a tocava. Esse livro sempre permeia de alguma forma seu passado através das décadas. Os encontros filosóficos de Sinclair e Pistórius davam-se na capela que o homem tocava órgão ou então em seus aposentos sempre à luz da lareira; não era diferente dos encontros dele mesmo e Hannibal no palácio mental que compartilhavam. Lembrou do que o homem mais velho disse ao jovem Sinclair e a citação mental ecoou na mente de Will com a voz de Hannibal:

 

“Você afirmou certa vez que a música lhe agradava por ser totalmente destituída de moralidade. Está certo, mas o que importa é que você também não seja moralista. (...) Se a natureza o criou para morcego, não queira ser avestruz. Às vezes você se considera demasiado esquisito e se reprova por seguir caminhos diferentes da maioria. Deixe disso e contemple o fogo”

 

O fogo da lareira iluminou o rosto de Will, mas ele próprio havia escolhido o caminho do moralismo e da hipocrisia. Se chegasse mais perto de si mesmo estava fadado a jamais encontrar o mundo luminoso novamente. Tentava afastar o pensamento para só mergulhar-se mais e mais nele. E na mente de Will tocava a Aria das Variações de Goldberg de Johann Sebastian Bach. Pensou que Hannibal também podia ouvi-la, e de repente teve o coração inundado pela certeza de que somente podia ouvir porque Hannibal ouvia, ouviam agora mesmo juntos. Estavam no BSHCI e ao mesmo tempo não estavam. Loucos de Schrödinger, Will sorriu com o pensamento enquanto caminhava no corredor que o levaria a cela de Hannibal Lecter mais uma vez.

 

Porém nem tudo durava para sempre, seja para Bem ou para o Mal e aquela realidade estava prestes a se quebrar como um espelho frágil ao se espatifar no chão. Naquela noite, o espectro de Hannibal não o acompanhou porta à fora. Naquela noite em que disse seu adeus, mesmo com a luz acesa, estava envolto na escuridão. Era o fim do caso da “Fada dos Dentes”, Will odiava esse nome. 

 

“O quanto vai te custar ficar aqui e ler sobre o próximo caso?”

 

Molly realmente imaginava o melhor dele. Que ele sentiria uma grande culpa ou tristeza se não atendesse o chamado Jack e famílias continuassem a morrer. Jack levou as fotos daquelas famílias, sabia que sensibiliza sua esposa, mas sabia que isso não seria o suficiente para trazer Will de volta. Jack também era um pescador e ele se certificou de levar consigo uma isca mais adequada. Will, sabia disso quando pegou a carta da mão de Jack Crawford. Will sabia precisamente disso enquanto via a fogueira queimar as palavras de Hannibal Lecter. Ele sabia, também, que Jack o apanhara mais uma vez, ele acertou a isca. 

 

Molly disse para ele ir, acreditando em uma verdade fabricada. Will a deixou acreditar nisso, ele gostaria de pensar assim também, quando no máximo o que ele poderia sentir era frustração ao ver uma notícia triste no noticiário. Ele não se sentia realmente tão mal pelas vítimas, ele se sentia mal pela sensação de matá-las. O pânico estava na ambiguidade da sensação que o acometia, na ânsia de vômito que o atingia ao vislumbrar o quão sombrias eram suas próprias entranhas. A vertigem e o medo de se perder ao desassociar eram os mesmos do que se encontrar e reconhecer-se. Perder a estabilidade de sua mente dentro da superfície da moralidade. Era isso que o fazia tão mal. Seus terrores noturnos tão febris. O mundo sombrio era tão atrativo que o luminoso apagava-se aos poucos e depois era tão difícil alcançá-lo novamente.  

Algum dia no passado, Will realmente sentiu-se mal pelas vítimas dos assassinatos do qual falava em suas aulas de psicologia forense, mas isso pareceu distante depois de algumas vezes de volta ao campo. Ele viu demais, chegou perto demais. Quando você trabalha com isso, você é desumanizado, não era diferente para Zeller e Price, um belo casal de psicopatas os dois dariam, ele pensou. E tudo bem, afinal se você for se importar, não consegue continuar. Era um trabalho para homens insensíveis. Acontece que Will Graham era pura sensibilidade e por isso ele odiava.

 

“Eu odeio isso Molly”

 

Ele disse para ela no hospital. Ele não mentiu, ele realmente odiava. Isso não significa, porém, que não fosse atraído pela sensação. Ele poderia amaldiçoar Jack Crawford naquela hora, ele provavelmente amaldiçoou. Isso sempre o fez tão mal, desnudo-o ao limite. Alana viu isso antes, ela tentou ajudar a sua maneira, ela se importava de verdade. Mas isso era a antiga Alana, antes de se afogar nas profundezas da escuridão e abraçá-la e deixar o mal adentrar seu corpo, antes de vender sua alma em um pacto fáustico. Will não sabia ao certo que tipo de acordo ela tinha feito com Hannibal e com os Verger, só sabia que a alma da pobre Alana já estava condenada, e Will estava estranhamente indiferente a isso.  

 

“Da última vez não terminou com você”

 

A experiência com Hannibal Lecter mudou a todos, não só a ele. Alana não era mais a mesma. E por trás de uma armadura para uma justa e uma cota de malha de um cruzado, Jack e Bedelia também não eram mais os mesmos, também. Eles não estavam imunes, eles não eram tão fortes quanto seus semblantes transpareciam. Molly não seria diferente. Como ela poderia? Ela não sabia onde estava se metendo de verdade ao casar-se com ele. Parecia fácil, uma fuga para os dois, um ajuste de necessidades. Mas no final, não foi fácil. Ela lutou e foi corajosa, ele admirava isso, até Hannibal admirou isso. Ela venceu o Grande Dragão Vermelho, não foram eles. Mães são leoas, criaturas de puro instinto, ferocidade e proteção. É uma imagem poderosa. Ainda assim, quando ela recebeu alta ele não estava lá. Eles não se falaram ao telefone. Trocas de mensagens de texto era tudo. Informativas e sucintas como poderiam ser.

 

“Nós vamos pra casa dos avós de Wally agora. Não precisa se preocupar conosco. Estaremos bem lá. Cuide-se”

 

Will a avisou por mensagem sobre a morte de Francis Dolarhyde, ele não escreveu muito, não comentou que foi suicídio ou qualquer disse. Ele mandou objetivamente para que ela se sentisse segura. Ele realmente queria falar sobre isso, mas não com ela. 

 

“Quanto tempo até que o seu doutor mande outro assassino para nossa porta?”

 

Foi a resposta quase imediata. Ela nunca falou assim antes, havia raiva acumulada naquelas palavras: “seu doutor” era uma acusação. Ela nunca dizia o nome de Hannibal, como se pudesse evocá-lo a simples menção de seu nome. Molly nunca o trazia para a sala e Will apreciava isso imensamente. Ela tentava ser compreensiva o quanto podia, funcionar como âncora para ele para que ele pudesse ser uma âncora também para ela e Walter. Talvez tenha funcionado por um tempo. Mas era pedir demais a essa altura. Seu casamento foi construído com um material frágil que se quebrou. Ele não estava lá quando eles precisaram. Ninguém nunca estaria seguro ao seu lado . Era um fato. Era melhor que fosse assim. Will não responderia nada.

 

Três horas depois daquela mensagem, o celular de Will vibrou com outra: 

 

“Você não vai voltar?”

 

Ele não respondeu, apenas entregou seu celular junto com outros pertences de metal no procedimento de segurança tão habitual do BSHCI. Sentiu-se levemente nauseado e sabia exatamente o porquê, terminar este casamento não era seu desafio de hoje. Hoje era sobre outro término. Aquele que revirava seu estômago. Chegou a hora do adeus e ele precisava ser forte e resolutivo e não o pedaço de merda que ele realmente estava.

 

“Hannibal está apaixonado por mim?”

 

Ele perguntou à Bedelia o que no fundo de seu coração ele sabia desde Palermo, não, desde a cozinha em Baltimore com sua barriga aberta e a garganta de Abigail tingindo o chão com vermelho escarlate. Lá, tremendo e sentindo a vida esvaecer-se aos poucos, ainda lá - sozinho, sangrando, punido pela clareza agora tão resplandecente do seu amor e a consequência mais bruta deste. Mas ele se fechou tanto desde que Hannibal se entregou que precisava lidar novamente com Hannibal e com seus sentimentos sobre ele. Foi por isso que procurou Bedelia. Para fazer perguntas e se ouvir perguntar, verbalizar. Concreto. As metáforas tinham o poder de ir até certo ponto. Will precisava saber que ele era mais do que um brinquedo preferido, mais do que um projeto como Randall Tier. Ele, também, estava curioso sobre o que Bedelia foi para Hannibal em Florença, ele se sentia substituído, por mais que tentasse negar o ciúme ardia dentro dele pairando sobre toda sala. Estava curioso sobre ele mesmo e até onde ele poderia chegar. Ou talvez, ele só precisasse falar sobre Hannibal abertamente com alguém. Ninguém sabia sobre suas sessões com Bedelia. Alana desaprovaria se soubesse, Jack desconfiaria dele e de sua óbvia recaída.

 

Will engoliu. Não estava preparado para isso agora, ele não imaginou que fosse ser tão rápido e tão frustrante o jeito que o caso do Grande Dragão Vermelho se encerrou. 

Will não sentia como se tivesse acabado, mas tinha e ele precisava encerrar mais um ciclo para si mesmo. Poderia gozar da coragem e autoconfiança adquiridas depois da confirmação de Bedelia, ou depois daquele “infeliz incidente” com Frederick Chilton. Will sorriu levemente ao lembrar, tinha a certeza que isso divertiu muito Hannibal e era bom que ele apreciasse. Afinal se isso se tratava mesmo de uma competição, Will demarcava o seu pódio. Esse era seu momento, disse para si mesmo num suspiro. Vamos lá, não fique por baixo. Esconda essa cara de miserável, você não pode reviver os mortos .

 

Ele encontraria Hannibal na Cappella Palatina, a cela vazia de Hannibal era demasiadamente triste. Will sempre gostava de ver Hannibal na luz dos afrescos bizantinos dourados e das velas. Era mais fácil começar assim. Não apague as velas, Hannibal.

 

“Foi bom me ver?”

“Bom? Não ” 

 

Ele fechou a porta atrás de si, suspirou longamente antes de dar o primeiro passo. Parecia que a gravidade era 10 vezes aumentada, nunca foi tão difícil dar um simples passo para frente, ou pelo menos nunca mais foi tão difícil para ele em muitos anos. 

Um pequeno passo para o homem, um grande passo para Will Graham.

Ele conseguiu, e ao dar o segundo passo notou se viu só no longo corredor. Hannibal não estava ali com ele, não mais. Ele caminhou e deixou o BSHCI sozinho. Não passou na sala da Alana como esperava-se que fizesse, ele tinha algo para falar com ela, mas simplesmente se esqueceu agora o que era. Apenas saiu sozinho. Sentindo em todas suas juntas a solidão que sentiu ao voltar para dentro de casa quando Hannibal se entregou, ou então quando acordou sozinho numa cama de hospital. Parecia que estava em um filme e podia se observar em terceira pessoa. Não mais real que um sonho. Tinha acabado agora. Era o fim da linha. Caso solucionado. Palavras ditas. Sem mais desculpas para ficar em Baltimore, sem mais desculpas para voltar aqui. Ele se sentia apenas vazio. Como um caçador de si mesmo, Will deixou o Ravenstag morrer mais uma vez em frente aos seus olhos azuis, enquanto Violetta terminava seu lamento moribundo: 

Ah! Tutto, tutto fini. Or tutto, tutto fini!

Notes:

O poema do Blake citado chama-se A Árvore Envenenada.

Rio Estige: No Canto VIII do Inferno (Divina Comédia), Dante descreve o Rio Estige no quinto ciclo do inferno onde encontram-se os condenados pelo pecado da Ira.

A última frase do capítulo é um verso cantado pela personagem Violetta na ópera La Traviata. Violetta, moribunda, canta o lamento de sua tragédia ao ser tarde demais para restaurar sua felicidade com seu amor Alfredo que estava voltando para vê-la, mas ela já estava morrendo de tuberculose: "Ah, tudo acabou, tudo acabou".

Músicas citadas:
Girl from the North Country - Bob Dylan
Nights in white satin - Moody Blues
Die Forelle - Schubert
Addio del passato (Ato III - La Traviata) - Verdi

Chapter 2: Quem quiser nascer tem que destruir o mundo

Notes:

TW/ Esse cap contém Temas sensíveis:
Alcoolismo e pensamentos suicidas / referencia a suicídios

Após sair da última visita a Hannibal no BSHCI, Will Graham para em um bar que passou a frequentar nas últimas semanas. Sozinho e um estado miserável, ele bebe enquanto reflete sobre sua vida e os últimos acontecimentos. Will se confronta com duras verdades jogadas debaixo do tapete de sua mente, enquanto Hannibal se recusa a aparecer lá para ele.

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

Hello darkness, my old friend 

I've come to talk with you again

- The Sound of Silence (Simon & Gardunkel)

 

Solitário como uma pintura de Edward Hopper, ele pensou imaginando a si mesmo no quadro que se pintava em sua mente. Antes de retornar ao hotel, Will Graham parou naquele mesmo bar que não era exatamente uma novidade nos últimos dias. Era um bar comum com um jukebox. Daqueles que os bêbados já se conhecem há anos. Will destacou-se no ambiente como um estranho. A sensação era conhecida para Will, sempre o estranho em qualquer lugar que fosse. Mas havia algo naquele ambiente que o acolhia com um gosto antigo em sua boca, um eco de Luisiana, talvez. Simon & Garfunkel tocava na jukebox quando ele entrou e pediu a mesma bebida de sempre.

 

“Ele não está aqui também” falou Will sozinho. “Bem, se você me quiser eu estarei no bar”, terminou com um meio-sorriso desanimado no rosto e achou seu lugar no balcão. Tente apenas não pensar e não fique falando sozinho por aí, disse para si mesmo agora. Sozinho literalmente e metafisicamente, ele apenas ficou ali, olhando para sua bebida como se ela pudesse falar com ele. Ele só precisava molhar seus lábios secos. Vida, pisa devagar. 

 

Você foi muito ingênuo a pensar que poderia escapar de si mesmo . Sair do Bureau não foi o suficiente, sair de Wolf Trap também não. O julgamento logo depois o lembraria de tudo como um refluxo subindo sua garganta enquanto seu estômago roncava de remorso, raiva e saudade. Depois disso Will sabia que precisava de um terno pessoal bem adequado se quisesse viver entre os humanos.

 

“Eu não vou procurar por você”

 

Mas Will o faria de qualquer modo. Ele procurou Hannibal enquanto afinava seu velho piano, quando voltou a tocá-lo, seus dedos reaprendendo aos poucos Canon in D. Ele procurou Hannibal quando se viu cozinhando para sua família e apreciando como eles gostavam, era ele quem cozinhava em casa e talvez ele tenha tentado recriar duas ou três receitas do Hannibal para datas especiais, certamente Hannibal ficaria ofendido em ver os ingredientes substituídos por outros que Will pudesse encontrar no Walmart - e isso não incluía a staff . Ele procurou Hannibal quando comemorou seu 1 ano de casamento levando Molly à ópera. Ele poderia mentir para ela que queria fazer algo especial e Gianni Schicchi era uma ópera curta em ato único, não chegaria a entediar Molly antes do jantar. Por que não? Não é como se ele soubesse há dois meses que teria um festival de Puccini. Não era como se ele tivesse chorado com a cena de O mio babbino caro . Não era como se ele pudesse ver Abigail e Hannibal ali. Molly nunca teria como saber o que aquilo significava para Will, no máximo algumas perguntas sobre Florença foram feitas e prontamente respondidas evasivamente “é uma cidade bonita” . Ele procurou Hannibal até perceber que o homem vivia em Will. O seu ex-psiquiatra tinha construído para si uma casa em Will Graham, que agora sabia não teria nada somente dele nunca mais, sendo, talvez, a única exceção o próprio Hannibal Lecter. Isso era algo dele.

 

“Fujo para longe de ti, evitando-te como a um inimigo, mas incessantemente te procuro em meu pensamento. Trago tua imagem em minha memória e assim me traio e contradigo. Eu te odeio, eu te amo!”

 

Seria esse teu destino tal como Abelardo? Impressionante como palavras contidas em epístolas amorosas de um monge escolástico poderiam dizer tanto sobre seus sentimentos. Vivendo cada um em seu claustro particular, nunca juntos e sempre juntos. Preso na Idade Média de sua vida, Will sentia que ele mesmo poderia ter escrito essas cartas. Enquanto as lia e decorava, pensou em toda a correspondência imaginária que trocou com Hannibal nos últimos três anos; em seu caderno com tantas folhas arrancadas, em como ele não queria, mas ansiava toda vez que a correspondência chegava. Que destino infame a Fortuna o reservou! Abelardo e Heloísa descansam juntos em sua morte, pelo menos. Poderia Will torcer por uma doce paz assim? Não, eles não eram dignos. 

 

Novamente ele sentiu que poderia até chorar. Ele choraria agora, não importava mais, ele já havia perdido tudo mesmo. Mas não estava triste, não era tristeza que sentia, sentia-se decepcionado, completamente vazio. O suicídio de Francis Dolarhyde não lhe trouxe nenhum tipo de satisfação afinal. Ele veio pelo Dragão e o Dragão estava morto, seu trabalho estava feito, mas não podia sorrir. Ele sentia a raiva estremecer cada músculo do seu corpo porque Hannibal e Bedelia estavam certos e ele odeia admitir isso. A raiva sempre foi o sentimento primeiro e último que Will conhecia. Sabia bem que mentiu para Hannibal, não fazia sentido voltar. Para Bedelia ele disse a meia verdade sobre como seu casamento estava acabado porque Hannibal em uma maldita gaiola de vidro conseguiu tirar isso dele também. Venha e pegue.

 

Foi irônico demais quando um homem que parecia ter saído do Spahn Ranch colocou “Puff the Magic Dragon” na jukebox. E ding dong o Dragão estava morto

 

Silenciosamente ele brindou à memória de Francis Dolarhyde. Ele não desgostava dele, na verdade se ele conseguisse ser realmente sincero consigo mesmo ele admitiria que gostava dele como um dia gostou de Garret Jacob Hobbs. Ele foi mais íntimo do Minnesota Shrike, obviamente, eles compartilharam uma visão e uma filha. Will o matou, e mesmo sendo com arma de fogo, isso criou uma intimidade. Ele olhou em seus olhos e o matou, ele o viu e deixou ser visto por ele. Fazia tempo que não via Hobbs, isso não era uma reclamação, é claro, mas esses são os cômodos escuros e trancafiados do palácio de Will Graham. O quanto de Hobbs ficou em Will, o quanto do Dragão Vermelho também ficaria agora…

 

“Estava torcendo por você Will, viajou todo esse caminho e não matou ninguém”

 

A voz de Hannibal em sua cabeça que sempre o desnudava. Salvar vidas te dá certa sensação de poder, mas matar… Ah, matar é…Will ansiava por esse tipo de sensação como se fosse a liberação de um orgasmo. É estranho colocar nesses termos, mas também é absolutamente verdadeiro. Em sua natureza clandestina, o assassinato e masturbação são coisas que você faz em privado e que não se orgulha, ou pelo menos não deveria se orgulhar. 

 

Não é que Will desejasse a morte de Dolarhyde, mas isso não significa que não desejou matá-lo. É um paradoxo daqueles que Will convivera desde que Jack Crawford entrou em seu caminho. Francis estava tentando parar, ele estava lutando contra o monstro que crescia dentro dele e Will se identificava com isso, ele queria ter o ajudado, como quis ajudar Georgia, como quis vingar Peter. Will precisava ajudá-los como se sua própria sanidade dependesse disso. Trazê-los de volta ao mundo luminoso. 

 

Era realmente uma pena, pensou enquanto coçava sua barba crescendo. Suicídio é impessoal, o Grande Dragão Vermelho merecia mais, Will merecia mais. Dolarhyde era uma árvore retorcida agora, talvez não seja um destino tão cruel afinal. Mas Will já se sentiu caminhando no Vale da Floresta das Harpias tantas vezes em sua vida. Suicídio era um velho amigo que o assombrava, sempre a espreita para um abraço apertado e um beijo. Aquele abraço de Brutus, aquele beijo de Judas. Sua mãe se matou quando ele ainda era tão pequeno, uma overdose de remédios para dormir. E depois… Will engoliu sua bebida de uma vez só, abaixou a cabeça e suspirou longamente. Ele não queria invocar mais nenhum fantasma, não de novo, havia aquela página que ele temia voltar. Ele pediu mais uma bebida. Na noite anterior que seu melhor amigo morreu eles estavam bêbados e divertidos, festas no campus eram estúpidas demais para se ficar sóbrio. Eles odiavam todo mundo juntos. Will sentia raiva o tempo todo, mas não quando estava com Henry e sua raiva podia ser compartilhada por dois. Henry não tomou seus remédios justamente porque o objetivo era encher a cara aquela noite. Quando Will voltou ao dormitório pela manhã, encontrou seu amigo enforcado. Will estava sozinho de novo. Ele se culpava pelo suicídio do seu melhor amigo. Ele o beijou e depois o rejeitou, ele se machucou quando Will o empurrou. Ele era o culpado. Will também se culpava pelo suicídio de sua mãe. Ela era muito jovem, ele roubou a sua juventude, ela não o queria, ela não o temas sua criação era religiosa. Se ela pudesse, ela teria o abortado, ela não pode. Ela morreu porque era infeliz em sua vida miserável com seu pai alcoólatra e com um bebê indesejado. Ele era o culpado. 

 

Outra bebida. Por que não pediu logo toda a garrafa? Vamos, faça isso, você não é diferente do seu pai. 

 

Se ele tivesse tido uma infância diferente e amorosa, ele seria diferente? Se Dolarhyde tivesse tido uma infância diferente, ele teria sido diferente? Se Hannibal tivesse… Will engoliu seco. Deus, isso é tão horrível. Se Mischa não tivesse morrido, se ele não a tivesse comido… Mischa não explica Hannibal , ele já disse isso antes. Mas obviamente ele seria diferente. Todos são diferentes sem o trauma. Todos são diferentes quando têm a chance de serem amados em seu momento de maior vulnerabilidade.

 

Deus, essa autopiedade é totalmente ridícula e você evitou isso a vida toda. E agora você se afoga nela e na piedade pela infância de dois assassinos como um bêbado triste se afoga pela mulher que ama e não pode ter. Que fim de carreira, Will Graham, brindando a memória do serial killer que tentou matar sua esposa e enteado. Você devia se envergonhar . Mas não era assim que ele realmente pensava

 

Dolarhyde era tão assassino de Molly e Water quanto Matthew Brown foi de Hannibal Lecter. Ele não conseguia culpá-lo porque a culpa era de Hannibal. O fato é que Will não se envergonha nem um pouco de nada agora. Mas ele matou duas famílias brutalmente. Ele as transformou. Ele abusava dos cadáveres daqueles mães. Lamento, mas não as conhecia. Ele ia fazer isso com Molly. Mas não fez, ela está viva. Ele envenenou seus cachorros. E Molly mentiu sobre isso. Oh, Foda-se esse filho da puta morreu. E o único culpado por ele ter tentado matar a família que você construiu como um muro é Hannibal Lecter.

 

Único culpado?

 

“O inimigo dentro de você concorda com a acusação?”

 

Vira a bebida. Que miserável logo não poderia suportar o próprio cheiro de álcool. Se pelo menos ele tivesse um fósforo agora. 

 

Frederick Chilton foi um caso isolado ou inconscientemente Will havia riscado o fósforo antes? Não se cobre tanto, você não tinha como saber. Oh, mas é claro que tinha. A omissão pode ser o pior dos pecados, há um ciclo do inferno especial para você, Will Graham . Essa era uma porta tão escura que Will não tinha coragem de abrir. Quando olhou para sua esposa no hospital imaginou a matando repetidamente, seus olhos com os cacos de espelho refletindo seus próprios olhos azuis imersos na escuridão. Ele podia culpar o seu transtorno de empatia, ele podia culpar o Grande Dragão Vermelho, ele podia culpar Hannibal Lecter, ele podia culpar até mesmo Jack Crawford. Mas ele se via matar Molly porque ele se sentia culpado. 

 

“O conhecimento não-dito vive com você, como uma companhia indesejável na casa”

 

Há muitos conhecimentos não ditos, é um trabalho de camadas. O que ele viu, o que ele fez. Havia mais camadas naquela mil folhas e Will estava a desfolhar-se até ser chegar ao recheio, porém não seria açucarado. O caminho para si mesmo é sempre tortuoso . Hannibal pode ter alimentado a lagarta e sussurrando suavemente a ladainha gregoriana para a crisálida. Mas era Will que ansiava por mudança, suas asas maduras não podiam mais ficar enclausuradas. Hannibal lhe falou abertamente enquanto ele fingia não pescar o peixe que já estava há tanto na sua mão. Por muito menos, Will Graham teria se tornado um assassino para proteger Alana - duas vezes. Ele tentou matar Abel, ele tentou matar Hannibal. Mas isso foi antes, aquele era outro Will. Você apenas deixou acontecer como uma conveniência do destino, porque seu destino era Hannibal.

 

“Eles não são minha família Will, e não sou eu que estou deixando eles morrerem. É você”

 

Hannibal fez isso pelo Will, era terapêutico aos olhos dele. Guiar os olhos de Will enxergarem em sua cegueira. Da mesma forma que fez no espetáculo do assassinato de Cassie Boyle. Will esboçou um meio sorriso no canto da boca com o pensamento. Era uma cortesia para ele . Hannibal é o Diabo, mas o diabo não é tão ordinariamente mesquinho.

 

Num impulso de culpa cristã, Will pega seu celular, o SMS para Molly que ele não mandou ainda estava em rascunho na sua tela: “Eu vou…” ele apaga e escreve “Eu não posso”. Ele apaga de novo e guarda o celular e bufa cansado.

 

O homem de antes colocava outra música de Peter Paul and Mary, então Will decidiu que ele não saiu do Spahn Ranch e sim de algum sindicato de mineradores. Ele olhava para seu copo meio cheio meio vazio, tudo nesta vida é uma mera questão de perspectiva. Que perspectiva Jack Crawford preferia se alinhar quando o assunto era ele?

 

Esse seu “dom” é uma coisa estranha, não é? Quando Jack Crawford invadiu a sala de aula de Will e pediu sua imaginação emprestada para solucionar o caso do Minnesota Strike, Will disse ao Jack que ele podia empatizar e assumir o ponto de vista de qualquer pessoa. Mas isso não é uma verdade. É assim que você descreve, mas não é assim que funciona. A primeira “mente” que ele entrou foi a de seu pai, ele se viu batendo em sua mãe. Sempre foi assim, não é? Sempre os caras maus, os personagens cinzas. Seu “transtorno de empatia” tem essa limitação. Você sempre soube a resposta para isso. 

 

“As coisas que nos são permitidas ver são as mesmas que temos dentro de nós. A única realidade é aquela que se contém em nós mesmos” disse Pistórius ao jovem Sinclair. E agora Will repetia para si. Ele sabia: pode empatizar com eles porque é um deles . Freddie Lounds não estava errada e foi isso que você se isolou antes.

 

A memória de Will poderia guardar o mundo nele tal como Funes, o memorioso. Se fechasse os olhos agora e se concentrasse não seria apenas uma enciclopédia e aforismos literários que Will poderia desarquivar; ele sabia que conseguia lembrar de todas as conversas que ele e Hannibal tiveram, e ouvir aquela inconfundível voz em sua cabeça tão fresca como se tivesse sido há três horas atrás o que foi há três anos. O jukebox continuava a tocar folk, e o velho sindicalista acabou de acenar para Will, eles eram as últimas almas perdidas ali naquele bar. 

 

Ele ainda tinha a casa em Wolf Trap, mas estava alugada. Molly contava com o dinheiro daquele aluguel, Walter tinha acabado de ir para uma escola particular. Walter… Ele não conseguia chamá-lo de filho, embora o menino o chamasse de pai. Ele podia fingir pela mãe e Will também podia fingir. Interpretavam bem seus papéis, era conveniente assim. Era como se Will tivesse usurpado a vida de outro homem, a família de outro homem - de um homem morto. Silenciosamente, Will detestava beisebol. Eles nunca tiveram uma conexão verdadeira, como sentiu um dia ter com Abigail Hobbs. Era fácil se conectar com ela e nutrir sentimentos paternais, uma vez que seu verdadeiro pai estava na sua cabeça. Era fácil se conectar com Abigail porque - suspirou e acabou com um soluço por causa da bebida - p orque ela era uma assassina também. Esse apego foi tão forte quanto rápido, tudo passou num piscar de olhos. Foi fácil porque era um imago e representava sua conexão com Hannibal. Simbolicamente ela os ligava. Ele sentia saudades da Abigail porque sentia saudades de Hannibal também. Adeus Ifigênia . Pretenso Aquiles que um dia sonhamos que seríamos, mas a única coisa que conseguimos ser foi Agamemnon. Will despediu-se novamente.

 

“Você é da família, Will”

 

Ele bufa e depois ri com um desprezo sarcástico ao lembrar dessa frase de Hannibal, tão cínica. Will se sentiu mal naquele dia pensando nisso, agora ele se sente apenas mal por ele mesmo. Ele não tem para onde voltar. Ele não tem para quem voltar. Hannibal não é mais uma opção. Hannibal está no BSHCI, ele é o brinquedo favorito de Alana Bloom agora e Will já disse o seu adeus. 

 

Will riu com o pensamento absurdo de pedir uma cela para Alana agora. Ela não cobraria aluguel. Bem, sem o Chilton o lugar era menos detestável, ele ria sozinho enquanto bebia mais. A cela do Hannibal é bem grande e bem decorada, ele podia pedir a Alana que botasse outra cama para ele, obviamente ele pediria um colchão melhor. Não parecia má ideia, na verdade naquele momento parecia-lhe uma ideia atraente. Que pensamento insólito, ele está bêbado e se divertindo de sua própria miséria. “ Sorria e mundo sorri com voce, chore e chorará sozinho”. Ele se lembra dessa frase de um filme, um filme sobre vingança. Vingança. Isso ainda faz sentido para você? Will disse que a justiça foi feita em seu odioso depoimento no julgamento de Hannibal, ele não acreditava nisso. Na verdade ele não acreditava em nada e só queria que aquilo acabasse o mais rápido possível, antes que Will pudesse matar aquele promotor.

 

O pensamento de Will o levou a percorrer a cela vazia de Hannibal Lecter. Sem seus livros, sem seus desenhos. Ah, seus desenhos, Will pegou alguns de souvenir no escritório de Hannibal, era um dos seus muitos segredos. Will se lembra da Galleria Uffizi perfeitamente: A Primavera! E de ver Hannibal esboçando Zefiro e Clóris, seu rosto estava lá e também o de Bedelia. Sente o álcool queimando sua garganta enquanto bate com o copo no balcão como reação a lembrança de Bedelia em Florença. Ele a odiava. Mas odiava mais ainda pensar que tiraram tudo de Hannibal, até o seu vaso sanitário. Ele sabia que era uma punição bem merecida, no auge de sua ira, Will chegou a rir disso, gargalhou na verdade. Mas Alana foi baixa demais, não foi? O vaso sanitário . Era muito indigno, parecia uma blasfêmia. Todos são hereges, Alana, Chilton, Jack. “ E mesmo assim, isso não abalou o seu espírito, não é?” Will sorriu com isso. “ Mas quanto tempo isso durará até que eles quebrem você? Agora que não tem mais partes de um Chilton assado para você se divertir?” Will tenta afastar esse pensamento. Hannibal está muito melhor lá com a Alana do que estaria em qualquer lugar. Em qualquer lugar ele já estaria morto. A boa Dra Bloom não vai deixá-lo assim para sempre, não é mesmo? Eles possuem acordos escusos que Will desconhecia.  De qualquer forma ele não deveria estar se preocupando com isso, ele não é responsável por isso. Will não pode simplesmente voltar . O tempo não volta atrás, por mais que Hannibal o quisesse, ele não era Chronos. Não podemos mudar nada, apenas reviver eternamente nossas mesmas escolhas, nossas mesmas perdas, fracassos e alegrias secretas. O eterno retorno. 

 

“Você se entregou para que eu sempre soubesse onde você estava

 

Seu filho da puta. Era para você ter ido embora. Você é tão teimoso, sempre querendo dar a última palavra. Sempre dramático. Você se entregou só para me vencer, para eu não te esquecer, para continuar sua tentação como um diabo. Eu não vou dar esse gosto para você mais. A última palavra é minha agora. Eu rejeitei você. Eu ganhei. Eu reconstrui minha vida, estou do lado de fora, enquanto para você só resta as lembranças dos seus dias no sol. 

 

Os olhos de Will estavam tão marejados agora que a qualquer momento uma lágrima cairia em seu copo vazio. Mas não. Ele não beberia lágrimas como Mason Verger. Seu copo vazio estava girando. É hora de pedir mais uma dose, e então ele poderia vomitar no banheiro.

 

-  Hey garoto bonito. Você já não bebeu o suficiente por hoje? - fala a moça atrás do balcão

- “Garoto”? - ele repete entre os dentes - eu sou mais velho que você, senhorita. 

- Qual o problema, senhor? Sua ex-namorada chamava você assim ou o quê? - debochou ela. Cabelos loiros, olhos castanhos e um batom rosa choque. Mandy era seu nome estava no crachá -  Todos vocês são garotos para mim - concluiu rindo despreocupadamente

- Desculpe. Eu acho que você tem razão - falou um Will sem energia

- Que você deveria parar de beber ou que é um garoto bonito? - Mandy provocou enquanto recolhia seu copo.

- Provavelmente os dois - ele fala tentando rir, não conseguia, nada seria mais falso que isso. Mas, também, nada como um descontraído flerte inocente com a moça do bar para não parecer tão miserável. 

 

Ele odiaria essa situação há 5 anos atrás. Mas Will estava mais confiante agora, alguma coisa boa resultou da terapia com o Dr. Lecter, afinal. A parábola na figura de Pistórius na vida do jovem Sinclair

 

“Ele era bastante excêntrico. Ensinou-me a conservar a coragem e a estima por mim mesmo, e serviu-me de exemplo, achando sempre algo valioso em minhas palavras e sonhos, em minhas fantasias e ideias, levando sempre a sério tudo aquilo e discutindo-o ferozmente.”

 

Provavelmente, sem essa autoconfiança adquirida em sua experiência com Hannibal, seu casamento não teria passado de uma conversa, ou na melhor das hipóteses, não passaria de uma noite. Tudo em sua vida sempre pareceu escapar pela manhã, como o resquício de um sonho sonâmbulo. Isso não importava agora. Um dia como outro qualquer Sinclair feriu o ego de Pistórius e quando quis reparar não conseguiu, não pode desdizer ou desfazer o que havia dito. Aqueles dias a lareira ou ao som do órgão da capela chegaram ao fim com uma simples fala impulsiva e mal ajustada, porém terrivelmente verdadeira e resolutiva. Era um espelho para Will e Hannibal Mas tudo bem porque o velho Pistórius não passava de um eco de Demian, e Demian viveria para sempre em Emil Sinclair, assim como Will sabia que Hannibal viveria sempre com ele ao olhar-se no espelho. 

 

- Vou fechar minha conta - Will falou resoluto, um tanto tonto.

- Você precisa de uma carona? Eu saio em 15 minutos - a moça ofereceu com casualidade, como se fossem íntimos. 

 

Will olhou em volta e notou que ele era o único cliente no estabelecimento. O senhor de cabelos e barba longa já havia ido embora deixando o jukebox em um silêncio tácito. Agora fazia todo sentido insistir para ele parar de beber, ela precisava se livrar dele para ir embora. Era justo. Que mala ele tinha se tornado. 

 

- Está tudo bem, eu vou pegar um taxi - Will estava envergonhado

- Realmente? Meu carro é velho, mas eu tenho os documentos.

- Você não devia oferecer caronas para estranhos - ele não precisava ter sido policial para dizer algo tão óbvio para uma mulher que aparentemente estava mais perto dos 30 do que dos 20

- Não tão estranho assim, você tem vindo aqui há 2 semanas.

- Eu posso ser um serial killer

 

Onde está você, Hannibal? Olha o que me obriga a fazer, pensou Will. Ele não estaria falando com estranhos se o espectro de Hannibal estivesse com ele agora. Ele sabia onde essa conversa poderia o levar, e ele não queria. Queria simplesmente fechar os olhos e estar com Hannibal de novo, mas esse negava-se a aparecer para ele agora.

 

- De fato você parece um. 10 minutos. 

 

***

 

Will estava do lado de fora do bar agora, bebendo um café expresso em um copo descartável de plástico, as luzes da rua pareciam uma pintura impressionista. Você bebe querendo desesperadamente ficar bêbado, depois você bebe café querendo desesperadamente ficar sóbrio. A vida é uma soma de zeros no final do dia.

 

- Você é? - Mandy reaparece depois de fechar o bar. Ela havia colocado uma colônia um pouco doce demais, enjoativa demais. Ela se aproxima dele, fechando o seu casaco vermelho

- O que? - Will estava ligeiramente distraído como sempre.

- Um assassino? - perguntou divertida enquanto acendia um cigarro - você fuma?

- Não.

- Não o quê? Fumante ou assassino?

- Somente um. Vamos, me dê um cigarro.

- Você não parece fumante. - ela falou com os braços cruzados e o pé esquerdo apoiado no poste de luz.

- Eu fumava na faculdade - fala Will olhando a calçada e esfregando suas mãos frias. 

- Oh, eu parei três vezes. Mas eu sempre voltava, não é fácil quando você está cercado de outros estímulos que te levam a isso. 

- De fato - falou enquanto soltava a fumaça e a observava no ar da noite como se fossem espíritos

- Para mim era o café e a cerveja e pra você?

- Serial killers - falou olhando para cima e para os lados

- Isso é um bom motivo para um cigarro. - eles estavam parados olhando para frente agora, Mandy arrisca olhar mais atentamente para ele agora, Will continua fitando a rua a sua frente. - Você é da polícia ou algo assim?

- Eu costumava ser do FBI ou algo assim. Algo assim na verdade.

-  Hey garoto, agora você me assustou de verdade. Ainda bem que só te ofereci tabaco.

 

Will ri genuinamente agora e a mulher também.

 

- Então o “não” era mesmo para fumante. 

- Apenas um consultor e um ex professor 

- Não estrague seu charme, vamos lá você pode me contar mais no carro. É como os Stones dizem, todo policial é um criminoso

- E todos os pecadores, santos

- Yeah, garoto, isso mesmo.

 

Mandy o deixa em frente ao seu motel. O carro dela cheirava à essência de pinheiro, misturado com cigarro mentolado e algum creme de cabelo. Havia uma certa bagunça de sacolas no banco de trás, uma sereia adornava o painel. Ele não precisava traçar seu perfil para entender o que ela queria. Era tão simples quanto o clima desconcertante que pairava no ar.

 

- Eu não acredito que o FBI não pode te colocar em um lugar com menos ratos - ela observa o local com uma cara de total desaprovação e surpresa.

- Eles me colocam nesses cenários de filme de terror para que eu possa pensar como um psicopata 

- Mesmo?

- Não. Eles só me pagam mal mesmo - falou desanimado. Mandy ri. 

- Talvez eu possa achar alguma pista com você lá dentro. 

- Desculpa Mandy, você pegou o cara bêbado errado. - Will estava uma bagunça, no pior sentido da palavra.

- Ok, você estava com uma cara de que preferia encerrar a noite com a outra palavra que também começa com S

- Talvez. Não me parece uma ideia ruim. - E, tragicamente, está talvez esta tenha sido a primeira vez que Will Graham foi realmente sincero em uma conversa hoje.

- Não faça nenhuma besteira, ok? Se você quiser precisar desabafar, pode me ligar. Falo sério, eu sei que falo muito, mas sou ótima em ouvir. Todo bartender é um psicólogo.

- Obrigado Mandy, vou ter isso em mente 

 

Ele sai do carro e acena para a mulher em despedida com um sorriso falso no rosto. Embora ele genuinamente tenha gostado dela, ele não ligaria, o mais provável era que nunca mais botasse os pés naquele bar de novo. Ele poderia acabar com tudo no seu quarto mofado hoje. Ele tem uma arma afinal. Vai ser rápido.  Beberia outro café na recepção do Motel antes de entrar enquanto tenta afastar seus pensamentos suicidas. Ele não é tão diferente de sua mãe no final. O recepcionista ouvia o rádio, tocava Johnny Cash, Folsom Prison Blues . Will gostava dessa música. É o suficiente para animá-lo um pouco. No último gole de seu café, Will decide que amanhã irá pedir para a Alana para devolver o sanitário do Hannibal.

 

“Quando a vida se tornar insuportavelmente educada, pense em mim. Pense em mim, Will. Não se preocupe comigo”

 

Um pouco mais sóbrio e com os olhos latejando pela dor de cabeça, Will entra em seu quarto, mas não há tempo para pensar, ele é imediatamente atacado. Alguém atrás dele, ele sabia quem era, ele invocou os mortos e recebeu uma visita. Will luta em vão e aos poucos vai ficando cada vez mais tonto pelo clorofórmio até finalmente perder a consciência. É tão rápido que seus pensamentos são um emaranhado de nada e fumaça. Antes de desmaiar Will pode ver uma calda se arrastar no carpete e ouvir um bater suave de asas largas. 

Notes:

"If you want me I'll be in the bar" - A Case of You (Joni Michell)
"Vida, pisa devagar" - Coração Selvagem (Belchior)

- Abelardo e Heloísa: Casal francês de eruditos religiosos medievais. Os amantes se casaram em segredo e foram separados e punidos pelo tio de Heloísa, Abelardo foi castrado e foi para um mosteiro, tornando-se um importante filósofo escolástico. Heloísa também dedicou-se a vida religiosa depois da separação forçada, foi escritora e abadessa franciscana. Trocaram correspondências na clausura. Deixaram um filho. O túmulo deles encontra-se no Cemitério do Père-Lachaise em Paris.

- Floresta das Harpias ou Vale da Floresta dos Suicidas: O 7 ciclo do Inferno de Dante é o destinado ao pecado da violência. Conhecido como Vale do Flegetonte é segmentado em 3 anéis; externo, médio e interno. A Floresta dos Suicidas, destinado aos que cometeram violência contra si mesmo, encontra-se no anel ou subciclo mediano. Lá as almas são transformadas em árvores retorcidas e é onde as harpias fazem seu ninho.

- Will acredita no Eterno Retorno de Nietzsche, então Hannibal escreveu aquela fórmula do tempo a toa, coitado do Hannibal.
- Por favor perdoem o Will Graham por ser irreparavelmente um mulherengo :P

Chapter 3: A ave voa para deus

Summary:

Ding, dong o Dragão não está morto. Depois do ataque de Francis Dolarhyde, Will Graham se vê em uma complicado jogo do qual ele precisava sair vivo, mas Will também via nesta nova situação uma oportunidade que ele não pretendia perder

Notes:

Finalmente o terceiro capítulo. Esse capítulo é um diferente dos outros dois, menos subjetivo e repleto de diálogos. Temos uma extensão do diálogo original da série (também com falas cortadas que estavam no roteiro original) onde Will e Dolarhyde tem uma interação mais profunda e discutem o plano. Depois temos finalmente uma interação de Hannibal e Will que acontece dentro do palácio da memória e mais diálogos. Espero que gostem!

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

“Aquele que beija a alegria enquanto ela voa

Vive no nascer do sol da eternidade” William Blake

 

Há um nevoeiro cobrindo tudo lá fora, a sensação de umidade no ar e o cheiro pesado dos Séculos que o lugar abrigava, o fazem ter dificuldade para respirar adequadamente pelo nariz. Will está no Castelo Lecter, ele identifica. Há uma longa escadaria em espiral que o leva ao alto da torre, Will sobe devagar, as mãos arrasaram na parede de pedra esverdeada com limo. Ao final Will abre a porta antiga e pesada em sua frente. Na torre há uma quantidade enorme de gaiolas com pássaros, eles parecem agitados pela presença repentina de Will, ao centro iluminado pela janela gótica Will vê um rosto conhecido.

 

“Pete?”

- Shhi, vai eclodir - Peter Bernardone sussurra para ele.

 

Em cima de uma pequena mesa circular de pedra há um ovo chocando. Peter Bernardone parece ansioso e zeloso em relação ao ovo que lentamente rachava. Will aproxima-se dele lentamente e cauteloso para fazer o mínimo de silêncio possível e testemunhar aquele nascimento com seu amigo Peter. O único som era o dos pássaros nas gaiolas. Lentamente a ave sai do ovo. O pássaro de volumosas penas negras rompe voando pela torre.

 

- Veja - diz Peter maravilhado. Will observa incrédulo com a visão, uma ave adulta acabou de romper o ovo.

 

-  Um pássaro não deveria sair voando do ovo, ele precisaria aprender, ser alimentado por sua mãe. - pondera Will

 

- Não - Peter balança sua cabeça enquanto continua a admirar as asas da ave - esse pássaro já está pronto

 

- Como você tem certeza disso, Pete? - Will não está seguro disso

 

- E-ele pode se alimentar sozinho - diz Peter olhando rapidamente para o rosto de Will e depois desviando o olhar. Will observa o pássaro voando mais uma vez. Ele está fascinado.

 

- Como isso é possível? Ele acabou de eclodir.

 

- I-isso não é um nascimento, não, não é um nascimento. - fala Peter gesticulando, depois de uma pequena pausa, o sincero homem lança um sorriso para o Will - Isso é um renascimento

 

O cenário muda, o cheiro de umidade se transfigura para o cheiro de madeira queimada. Ele estava na residência Dolarhyde coberta de chamas, tudo é fogo, porém não há fumaça. Will via a pintura de Blake queimar, sentiu uma forte dor em suas costas, suas costelas parecem que estavam saindo. Enquanto a pintura queimada ele sentia algo se revirar dentro dele como se tentasse sair do casulo. A dor é muito forte para que possa suportar, ele sente que pode desmaiar a qualquer momento até que de repente ele sente uma presença atrás dele. Virando-se está Reba com um vestido dourado de seda.

 

- Vê?

Will não responde, treme e abraça seu próprio corpo dolorido. “Vê?” Reba repete apontando através dele.

- Eu não sei - responde, sua voz sai lânguida entre sua respiração agitada. Ele sente sua coluna quebrando e suas costelas se despedaçando dentro dele, sua pele está próxima de se rasgar agora.

 

- Ele não vai machucar você - garante Reba com um tom calmo e maternal

 

De repente sua dor cessa. Um longo suspiro aliviado é tudo que consegue sair de sua boca agora.

 

- Você o vê agora, Reba?

 

- Oh, eu não posso enxergar, você sabe. Mas eu posso senti-los, e eles parecem diferentes”

 

- O que são eles? - pergunta Will

 

- As três bestas

 

Reba aponta mais uma vez, Will segue seu dedo indicador e de repente ao seu lado estava o Wendigo, logo atrás ele podia ver as asas do Grande Dragão Vermelho. E percebendo a si próprio, uma galhada crescia do alto de sua cabeça e de sua nuca enquanto seu corpo nu encontra-se todo coberto por um sangue negro e denso.

Acorda em sobressalto com a água fria atingindo seu resto. Tudo é míope, Francis Dolarhyde é a primeira coisa que ele percebe, tentando focar os olhos. O Dragão não estava morto. 

 

- Você está bem? - a voz de Dolarhyde é como uma névoa na mente de Graham. Ele geme em resposta.

 

Desfocado, formas tremulantes aos poucos tornando-se o seu quarto de hotel. Will está caído em sua cadeira. Dolarhyde está sobre ele, com sua pistola silenciada na mão.

 

- Você acha que pode se sentar? Tente se sentar.

 

Will se levanta na cadeira, apoiando-se nos cotovelos. Reba tinha razão, ele não o machucou. Contempla esse fato praticamente incrédulo.

 

- Você não quebrou as minhas costas

 

- Hoje não - a voz de Francis é grave, porém serena. Will pode notar um aspecto de curiosidade crescendo por de trás da voz do homem sentado à sua frente. Dolarhyde estuda Graham por um momento e então continua - Seu rosto está fechado para mim.

 

- Se eu posso ver você, você pode me ver. - diz Will. Cara ou coroa , uma oportunidade acabara de surgir para Will Graham. Parecia que ele entretinha o Dragão de alguma forma. A curiosidade abstrata tornando-se mais naturalista.

 

- Você acha que entende, não é? - há um tom de desafio e desdém nas palavras dele. Will pode jogar com isso sem se intimidar. Hannibal deu a entender que há um espírito competitivo na relação do Dragão com Will. Será que Will seria o inimigo final de Francis Dolarhyde assim como foi de Randall Tier? Pupilos descartados como oferenda para a evolução de sua transformação. 

 

-  "Eu entendo que sangue e respiração são apenas elementos em transformação para alimentar o seu Esplendor" - as palavras de Hannibal saiam da boca de Will como um eco na antiga sala de jantar em Baltimore. Will conseguia ouvir o sotaque de Hannibal, sua respiração na pausa das orações e o gosto quase obsceno do ortolano descendo em sua garganta - Hannibal disse essas palavras - uma pausa, há algo de possessivo nisso - para mim.

 

- Eu tentei compartilhar com Lecter. E Lecter me traiu.

 

Bem vindo ao clube, Will pensa. Porém sabia que não poderia vacilar agora, ele já estava em xeque, um movimento errado seria xeque-mate. Francis não era como qualquer pessoa, mas era definitivamente o tipo de pessoa que Will Graham conseguia entender. No final, todos os homens são movidos por instintos básicos; a necessidade intrínseca de serem vistos, compreendidos, amados e a irresistível sede por vingança e justiça final.

- Ele me traiu, também. - disse Will. Conexão era isso que ele estava criando. É só isso que interessa para os seres humanos no final do dia. É por isso que caras doidos como Stamments sempre vão existir por aí.

 

- Eu gostaria de compartilhar

 

Ótimo, isso era algo que Will poderia usar. Isso é algo fácil de usar, mas Graham também estava curioso. A maldita curiosidade, a infeliz empatia. Seria mais fácil se ele não fechasse os olhos e ainda se visse projetado em Dolarhyde.

 

- Você compartilhou com Reba 

 

- Eu compartilhei um pouco com Reba. De um jeito que ela pudesse sobreviver. - a voz de Dolarhyde era uniforme - Ela teve um lampejo da minha glória.

 

- Mas você não a mudou - Will estava intrigado. A cortesia que Francis demonstrou à Reba era maior do que ele julgava ser sua própria capacidade. O amor não é uma escolha, mas o que fazemos com ele sim. 

 

- Eu escolhi não mudá-la. Sou mais forte que o Dragão agora.

 

Lutando para raciocinar racionalmente em meio a um estado alterado de consciência, ele precisava sair desta conversa vivo, um plano começava a florear em sua mente. Francis Dolarhyde teve uma escolha e Will Graham, agora, também tem uma. Parecia uma oportunidade que ele se arrependeria amargamente se deixasse escapar por entre seus dedos agora. Will estava preparando o tabuleiro para seu próximo movimento.

- Dr. Chilton era apenas um aborrecimento para você, e eu também, - jogue agora, você tem algo muito melhor a oferecer, uma isca mais atrativa - mas Hannibal Lecter é quem você precisa mudar.

 

Will não tem certeza, quem têm? Mas há algo no vento que lhe diz que as águas movem-se ao seu favor.

 

- Quero conhecer Lecter. Eu quero lhe dizer coisas importantes - Dolarhyde confessa. Will o pescou pela boca.  - Como eu poderia arranjar isso?

 

Dois conspiradores. Se alguém dissesse ao Will Graham há três semanas atrás que ele estaria sentando conspirando com um serial killer que havia tentado assassinar sua esposa e enteado, sem a menor intenção de tentar matá-lo neste momento, Will diria que esta pessoa estava louca. Ainda assim, aqui estava ele. Uma situação delicada, perigosa, porém uma estranha e incomum calma pairava. Começa a surgir em seu peito um senso tranquilo de poder. Will gosta dessa sensação.

Will olha para o canto do quarto e vê Reba novamente vestida de amarelo ouro, ela aponta para o espelho quebrado na parede. Através do espelho, Graham os vê novamente; eles três. Os dois Wendigos simetricamente espelhados e, no meio deles, O Grande Dragão Vermelho.

 

- Eu posso tirá-lo de lá - ensaia Will

 

- Como?

 

- Ainda não sei. Mas eu vou descobrir um jeito. - Talvez um pouco sincero demais para se tornar atraente. 

 

- Não é uma boa oferta - diz Dolarhyde, ele tem razão.

 

- Posso convencer o FBI, - Will fala enquanto formula - uma fuga falsa e então nós a transformamos em uma fuga autêntica. - pareceu mais sério do que uma simples divagação. Will já pensara nisso antes. A ideia de tirar Hannibal do sanatório não era inédita para ele.

 

- Parece uma cilada - Francis não está convencido.

 

- É para parecer, uma cilada para você. - Will propõe - Você vai ajudar?

 

- Ele confia em você? - há descrença na voz de Dolarhyde. Will quer zombar, mas se controla. 

 

- Ele confia - falou resoluto e confiante, quase que orgulhoso.

 

- Eu não confio em você

 

- Bom, você realmente não devia confiar - Will talvez tenha sido um tanto passivo-agressivo em seu tom.

 

- Lecter também não, e,no entanto, ele confia. Por quê? - perguntou Francis, sua curiosidade o manteria preso a esse plano, pelo menos por agora. Will, não pode julgar, ele mesmo também estava curioso.

 

- Ele compartilha comigo - Há um brilho renovado no olhar de Will nesta afirmação, as palavras faladas arrastadas sílabas muito bem marcadas. Existe algo de mesquinho, quase ciumento. Isso não deveria ser motivo para se gabar, realmente não o era. Ainda assim, Will era orgulhoso e territorialista como um leão.

 

- Eu quero compartilhar apropriadamente - Dolarhyde mantém-se estável, não é um pedido, é uma demanda.

 

- Você demanda dignidade - Will joga - Vocês terão.

 

- E você. Você também, Sr. Graham. - há algo de sombrio por trás do semblante sério de Francis Dolarhyde - Você precisa estar presente.

 

- Claro - Will se apressa em concordar. Ele já entendeu onde Francis, ou melhor, o Dragão Vermelho quer chegar. Já é um tanto óbvio nesse ponto, especialmente depois de Frederick Chilton.

 

- O que você ganha com isso?

 

É uma boa questão, uma que nem mesmo Will precisaria perfeitamente. “Estou curioso” não é uma boa resposta. Nem sempre a verdade é o mais convincente que temos para dar. Mas, felizmente para Will, existem outros fragmentos de verdades com as quais ele pode jogar.

 

- Hannibal e eu somos muito parecidos. Ele entrou na minha cabeça e fez um lar lá. - é uma verdade -  Uma vez que você o mudar, ele não será Hannibal Lecter mais - parece atrativo quando Will diz, ele pode notar o interesse emanando do rosto fechado de Dolarhyde. 

 

- E você pode ser você novamente? - Francis quer entender Will.

 

- Ou eu posso me tornar ele. 

 

- É isso que você quer?

 

- Não quero estar dividido em dois - de fato é uma afirmação, mas não é somente isso - Eu… não tenho a sua força 

 

Will faz seu movimento, um pouco de bajulação sempre é favorável para a manipulação. Ele sabe mais disso do que ninguém. Francis precisa se manter interessado no plano e em Will.

 

- Você me difamou de propósito. 

 

- Os fins justificam os meios. - Will cita - Desculpe-me ter sido rude. - suas desculpas são sinceras, não somente behaviorista. Há nele um sentimento quase como o de pena. 

 

- Você parece miserável e frágil como uma porcelana. Eu poderia facilmente quebrar você em pedaços - foi quase como se o Dragão pudesse farejar sua pena, ele contra-ataca. A porcelana é uma peculiar comparação, o que deveria irritá-lo acaba por fazê-lo sorrir, por associação. O olhar de Francis é predatório, Will sabe que precisa acalmá-lo sem subestimá-lo. 

 

- Qual a vantagem de quebrar um homem quebrado?

 

Francis aceita e estuda Will por mais uns instantes. O tempo parece uma eternidade para Will que está se sentindo nauseado, agora que a adrenalina em suas veias está começando a baixar.  

 

- Eu ainda não consigo entender o que Lecter vê em você - Dolarhyde corta o incômodo silêncio.

 

- Você pode perguntá-lo. - Will oferece, é um convite para mantê-lo entretido, mas Will não segura uma pontada sincera de atrevimento - Ou você pode apenas nos observar e tentar entender como outros fizeram e falharam - conclui a fala com um pequeno sorriso no canto do lábio. Um jogo perigoso, daqueles que ele adorava jogar.

 

- Reba me chamava de homem doce. Eu nunca pude entender, mas eu gostava.

 

É estranho, se fechasse os olhos Will poderia ser Francis. Como se vivessem as mesmas experiências ao longo do dia. Como Garret Jacob Hobbs e depois como Hannibal Lecter. 

 

- Minha esposa também me chamava assim. Eu não queria que ela me visse como o monstro que eu era - e aqui estava Will Graham compartilhando com Francis Dolarhyde, nem que fosse um pouco. Um pouco para que ele ainda pudesse sair deste quarto de hotel vivo.

 

- Sua esposa? - é irônico o quanto isso não parece uma pergunta retórica

 

- Sim, aquela que você tentou matou - Will talvez estivesse sendo ousado demais. 

 

- Aquela sua casa de bonecas não me interessa mais.

 

- Eu sei. 

 

- Eu fui um instrumento da intenção de Lecter. Ele é muito possessivo com você, não é?

 

Falou se aproximando de Will e tirando uma mecha pequena de cabelo bagunçado de seu rosto. Por instinto a reação de Will foi fechar os olhos em uma repulsa mexendo a cabeça ligeiramente. Mas ele sabia que essa não foi uma escolha acertada, ele não poderia demonstrar fraqueza ou medo, ele precisava da confiança do Dragão que vivia em Dolarhyde se ele não quisesse despertá-lo. Ainda era cedo para acordar o Grande Dragão Vermelho. 

 

- Shh. Não tenha medo - a voz de Francis era quase um sussurro, suave e ameaçadora.

 

- Eu não temo você, Francis - falou convicto sem desviar o olhar dos olhos curiosos e penetrantes do homem-criatura. Chamá-lo pelo primeiro nome foi uma decisão ousada. Will não sabia se era a correta, não tinha certeza sobre o que iria despertar. Mas isso seria o que Hannibal Lecter faria e para Will isso era o suficiente para seguir em frente. 

 

Dolarhyde se aproxima mais dele. Muito perto, perto demais. E então, deliberadamente, o cheira, procurando farejar seu medo. Will estremece, uma gelada sensação percorre sua espinha dorsal. Ele não sente medo ou repulsa, é quase como se Francis fosse cachorro vadio. Mas Will não pode evitar que sua mente associe essa peculiar interação com outro homem com um olfato mais apurado. Ele sente os poros do seu corpo se dilatando.

 

- Yeah, você não - falou enquanto terminava de cheirar o seu pescoço. Francis estava tão perto que podia sentir seu hálito. Will conseguia manter-se calmo. Talvez tenha sido mesmo um bom dia para beber tanto, ele conseguia manejar a situação mais tranquilo do que poderia imaginar, como se não estivesse exatamente nela. Como se tudo acontecesse fora do tempo, em uma névoa cinza de consciência no meio de um pesadelo obscuro. Ele estava e não estava aqui. Ele era e não era Will Graham. 

 

- Eu disse ao Dr. Lecter que você não era bonito

 

Will olhou surpreso com a declaração de Francis, sua cabeça poderia murmurar um “ what a fuck ?” que não passou para os seus lábios. Que tipo de papo era esse? Que tipo de assunto eles tiveram nas chamadas telefônicas? Will Graham era mesmo um tópico de conversa? Hannibal não exagerou em relação à competição, pelo visto. Bizarro.  

 

- Talvez o seu gosto é que seja bom - a voz de Francis é quase como um suspiro. Will está incrédulo com o rumo de tudo aquilo, agora ele estava ligeiramente nervoso em antecipação da mórbida curiosidade do Dragão Vermelho sobre ele, sobre ele e Hannibal. Sobre… gosto.

 

As mãos de Dolarhyde seguraram seu rosto enquanto ele diminuiu o mínimo espaço entre eles agora, esticando sua língua ele a passa a ponta pela bochecha de Will e depois por suas pálpebras, demorando-se particularmente nelas, descendo do outro lado de seu rosto, terminando em seu queixo. Will está paralizado, tenso, extremamente tenso, gelado. Ele não sabe o que está sentindo, o que deveria sentir. O surrealismo disso o atingiu; parecia um daqueles sonhos que começa bom e termina ruim. 

 

- Você me verá transformar Lecter? - sua voz é um sussurro sobre a boca dele. Não é exatamente uma pergunta. E Will sabe o que isso significa, o que isso implica.  

 

- Eu vou - Will respondeu, lânguido. Dolarhyde afastou-se lentamente do rosto dele.

 

- Vejo você em breve, Will Graham - falou deixando um canivete no colo de Will e se afastando ainda mais até chegar à janela. 

 

- Até lá, Francis.

 

***

 

Quando Francis finalmente sai, Will estremece. Tudo antes passou como uma cena de David Lynch, agora parecia difícil de acreditar nos minutos anteriores. Uma reação atrasada se manifesta, a excitação percorre todo seu corpo num frenesi. Ele ainda um mole pelo clorofórmio, mas sentido cada poro de sua pele se arrepiar, cada órgão de seu corpo. Ele fechou os olhos e sentiu seu próprio coração batendo, bombeando sangue para todo seu corpo, o sangue correndo em suas veias. Ele estava vivo. Ele se sentia vivo. O Dragão ressurgiu como uma fênix das cinzas de um cemitério, com suas magníficas asas fazendo a roda da Fortuna girar mais uma vez para eles. Graham não precisa conter o sorriso sombrio que desabrocha de seus lábios, não havia ninguém ali para testemunhar; Jack não estava ali, Alana também não, muito menos Molly e nem sequer Hannibal também, então estava tudo bem ser ele mesmo. Um brinde seco: “À Fortuna”, Will disse em voz alta. A sorte não é feita ao acaso, a sorte é resultado de escolhas pregressas, as suas e a de todos os outros. É mais conveniente pensar no acaso, você se exime do processo, é um pensamento sedutor, porém falacioso.  

 

“O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade a conduzem a isso.” 

 

Escolhas são feitas de sentimentos embaralhados, são mais um amontoado do que uma soma. E o que Will Graham necessitava agora começava a se revelar em sua frente, cada vez mais e mais claramente. 

 

***

Sempre é dia em Palermo. Will caminha pelos assentos vazios na capela dos normandos. Hannibal Lecter está sentado na primeira fila, atento ao quarteto de cordas que se apresenta em frente ao altar. Dois meninos e duas meninas tocam Canon in D de Pachelbel . Hannibal e Will compartilham esse átrio, de fato. Ao se aproximar da primeira fileira, Hannibal fala com ele, sem tirar os olhos da apresentação do quarteto mirim.

 

- Para Santo Agostinho o Mal não existia. O que chamamos convencionalmente de Mal é para ele apenas a ausência do Bem. Como a escuridão é a ausência da luz - diz Hannibal, sua voz é fluida como um rio. 

 

- Assim Deus não poderia ser Mal ou permitir o Mal, já que não existe. Deus é apenas omisso - complementa Will, sentando-se ao lado de Hannibal.

 

Os jovens continuam tocando absortos demais neles mesmos, e nas notas musicais que produzem gentilmente, para notarem Hannibal e Will. Como realidades desconectadas manifestando-se no mesmo tempo-espaço. 

 

- Você disse uma vez que considerava o pecado da omissão melhor do que o da mentira - Hannibal fala finalmente olhando para ele, existe um interesse renovado aqui, Will pode notar. 

 

- Sim, ambas as escolhas são covardes, mas uma escolhe proteger a outra escolhe ferir. 

 

- A maior e mais traiçoeira dádiva que Deus deu à humanidade: o seu livre-arbítrio - conclui Hannibal satisfeito consigo mesmo. 

 

-  O livre-arbítrio. - Will começa a divagar, sua atenção voltando-se para o menino que tocava o violoncelo, enquanto faz uma pausa - Fazer escolhas é a punição dos homens embrulhada para presente, como um cavalo de Troia que deixamos entrar em nós mesmos. 

 

Quase poético. Hannibal parece se agradar com a escolha de palavras de Will. 

 

- Toda a escolha leva a uma inevitável consequência

 

- E a consciência da consequência é um pecado que internalizamos e com o qual temos que viver - a voz de Will é ressentida, sua postura mais dura do que há um minuto atrás. 

 

- No entanto, há sempre novas escolhas para serem feitas - Hannibal oferece, uma gentileza contida em suas palavras, como se oferecesse uma prenda. Will não responde a isso. 

 

- Eu não acredito na patrística de Santo Agostinho. - Will retoma a querela teológica - O Mal é uma coisa, eu já o vi, eu já o senti, eu já o cheirei. Talvez o que não exista seja o Bem, ele apenas opere onde as trevas ainda não alcançaram.

 

Hannibal permanece em silêncio por um minuto, estudando Will.  No final parece um pouco incrédulo. O movimento de Canon in D em um crescendo, Will está de olhos fechados.

 

- É assim que você enxerga o mundo, Will?

 

- Não - ele admite rispidamente, abrindo os olhos - minha jornada me fez abandonar qualquer maniqueísmo pregresso. O Bem e o Mal são uma coisa só. Coexistentes e codependentes.

 

- Assim como Deus. Então como determinar a Justiça? - Hannibal está curioso.

 

- Em termos platônicos, você diz?

 

- Sim. Você acredita nisso ainda?

 

- Justiça… - Will começa e depois faz uma pausa

 

O menino do violoncelo toca uma nota dissonante, parecendo ligeiramente desconectado agora da harmonia do grupo. Uma das violinistas, a menina ruiva, lança um olhar de fúria. Já os outros dois apenas ignoram, tão dignos para crianças daquela idade, uma aura quase etérea. A música segue e Will recorda-se de si mesmo, de como costumava errar essa música no piano antes. 

 

- Há a Justiça e as justiças. Eu escolheria acreditar na Justiça - conclui Graham

 

- E quem faz a Justiça, Deuses, homens? - pergunta Hannibal, seus olhos âmbar percorrendo os afrescos da capela enquanto deixa que a melodia toque seus ouvidos.

 

- Eu faço. - Will é firme e resoluto.

 

- Você julga, você pune, você perdoa. - Hannibal vira para Will, ignorando agora tudo ao redor e centrando-se somente no homem ao seu lado, uma mão voa para segurar-lhe o rosto. Ele está fascinado - Você é a imagem e semelhança de Deus, Will.

 

Will deixa-se acariciar, quebrando ligeiramente sua postura defensiva. Presenteando o amigo com um olhar direto e sensivelmente terno.

 

- Você não reza para deuses, Hannibal, você rezaria para mim?

 

- Eu já não o faço? - uma admissão fácil sai dos lábios de Hannibal. Claro, isso está acontecendo na mente de Will. Por um instante, a imersão enfraquece e o teto da Capella Palatina treme. Hannibal e Will observam esse evento contemplativamente. 

 

O quarteto finaliza Pachelbel e começa Bach, Suite no 3 Air. É claro que isso estava acontecendo na mente de Will, mas isso não significava que não era real. Acontece tal como Jung propôs, conexão. Will Graham tinha certeza, podia sentir isso, ele sentia Hannibal tão profundamente dentro do seu ego que ele não sabia mais separar o pensamento dele do outro. Eles se dissolverão nas águas do mesmo mar no Dia do Juízo Final. 

 

- Eu não sou um deus, Hannibal, nem você. - Will retoma, levantando-se da cadeira, Hannibal espelha seu movimento - Há apenas um deus que vale a pena rezar, e ele não é bom ou mau, ele é tudo.

 

O jovem quarteto de cordas desaparece, embora de alguma forma metafísica, Bach continua ecoando por aquelas antigas paredes. Há lindas mariposas portuguesas pintadas voando, espalhando-se por toda a capela. Em frente ao altar, Will e Hannibal observam uma imponente figura antropomorfa, devia ter no mínimo 5 metros. A cabeça é de uma ave, o tronco humano e terço inferior repartido em duas cobras. Em um braço carrega um escudo e na outra mão um chicote. 

 

- “…e seu nome é Abraxas”

 

***

 

De manhã acordou com o telefone tocando, era Jack Crawford. Will, presumia do que se tratava a ligação. Já devem estar sabendo agora . Ele considera deixar o telefone tocando por mais tempo só para irritar Jack. Depois de um bocejo e um estalo no pescoço, Will pega seu celular e atende.

- O que deu em você para não atender o telefone? Eu estou ligando a manhã toda

 

- São nove da manhã Jack, você não pode ter ligado a manhã toda, porque não passou a manhã toda

 

São 9 horas da manhã. Estou em um motel soturno em Washington DC e meu nome é Will Graham.

 

- Will, isso é sério. Eu preciso de você aqui agora

 

- Onde é o incêndio? - Falou bocejando, ressaca física, não necessariamente moral

 

- Na casa de Francis Dolarhyde. Price e Zeller estão fazendo testes desde ontem. O desgraçado não está morto.

 

- O quê?

 

- Sua família, eles estão seguros?

 

- Eles foram para a casa dos avôs do Walter. Estão seguros.  - A verdade era que Will sabia que Dolarhyde não tinha o menor interesse em Molly e Wally agora, mas Jack não sabia disso. Jack nunca sabe tudo, é assim que Jack perde.

 

- Ok. Esteja aqui em 15 minutos. 

Era humanamente impossível ele estar lá em 15 minutos de qualquer jeito. Will estava com suas roupas de ontem, até os sapatos, não sabe ao certo como e quando adormeceu. Mas sua madrugada de sono foi pesada o suficiente para ele não recordar de nenhum possível pesadelo. A realidade estava no final do sonho. Will cheirava a suor e a álcool e um pouco de nicotina. Talvez cheirasse ao amaciante barato da roupa de cama, ao carro de Mandy e ao BSHCI. Talvez cheirasse ao Grande Dragão Vermelho, também. Ele precisa de um banho antes de tudo.

 

Ele ligou o chuveiro, um pouco zonzo e ainda nauseado. Será que Hannibal sentiria o cheiro do Dragão nele? Ele riu com essa possibilidade, quase como se pudesse vê-la. A competição se inverteu, Hannibal . Um banho frio, um velho conhecido remédio para bebedeira e também…De repente, tomou consciência de sua própria excitação. “Merda” Will xingou. Seu pau duro e a vergonha já tão conhecida de si mesmo. Como em tantas outras vezes que se masturbou pensando em Hannibal antes. Não foram poucas e sempre terminava da mesma forma que começava: com Will os amaldiçoando. Tudo começou com ele imaginando matá-lo, isso era o suficiente no início. Ele ficaria mais gentil depois, infelizmente. Will apenas fechou os olhos e deixou a água cair sobre sua cabeça, a água fria o afogava em um jato inconstante; às vezes, muita pressão, às vezes, pingado. Seu punho envolta de seu pênis e a outra mão apoiada no ladrilho do box do chuveiro. Com um gemido contido, Will se acariciava forte e rápido, perseguindo o orgasmo o mais rápido que podia para livrar-se o mais cedo possível de seus próprios desejos. Livrar-se de seus desejos sempre foi a missão da vida de Will Graham. De repente, ele estava cansado disso, também. Permitindo-se relaxar consigo mesmo, mesmo que apenas só um pouco, somente por um momento fora do tempo. Ele pensava na língua do Dragão Vermelho envolvendo seu pau, enquanto ele estava preso a cadeira. Sentado na cama estava Hannibal Lecter o observando. Will olhava diretamente em seus olhos âmbar e sentia o intenso olhar de Hannibal o queimar, ele não piscava. Olhando para ele, o atravessando com o simples olhar, consumindo-o. O olhar de Hannibal, nunca foi simples. Há um mar de sentimentos não-ditos. Há um desafio nos olhos de Will, Hannibal compreende. Veja, seu pássaro dourado saiu do ninho e ele voa . Mas ele sabe que o psiquiatra pode capturá-lo de novo, e ele o faz, apenas com o olhar, Intenção. Desejo. Empatia. Traição. Perdão. Amor. Tornar-se. Ele fecha o chuveiro.

 

O Ravenstag surgiu no seu quarto entrando pelo banheiro. Will o encarou, um arrepio percorreu a sua espinha. O Medo, um velho conhecido, tentou apossar-se dele. Mas não dessa vez. Will suspirou longamente até se ver completamente calmo. Segui-o até o meio do pequeno quarto. Ele encarou o magnífico e assustador veado em sua frente, respirando na mesma frequência que ele. Não sentia mais medo. Seu pêlo era negro como uma noite de lua nova. Will estendeu a mão devagar e tocando levemente seu focinho, o cumprimentou:

“Olá de novo”

Notes:

A citação sobre o acaso eu não deixei explicitado, mas obviamente também é de Demian, Hermann Hesse.

Quem adivinhar a referência do QUARTETO DE CORDAS ganha uma Fanta laranja ;)

As músicas do capítulo são:
Canon in D Major - Johann Pachelbel
Suite n. 3 - Air on G String - Johann Sebastian Bach

"He who binds to himself a joy
Does the winged life destroy
He who kisses the joy as it flies
Lives in eternity's sunrise" (William Blake)