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Fantoche

Summary:

Imagine acordar com total consciência de que está vivo, porém sem qualquer controle do seu corpo. Sendo capaz de ver o mundo ao seu redor, mas incapaz de controlar a direção para onde seus olhos seguem. Percebendo que está preso dentro de um corpo de madeira, ligado a cordas que o controlam. Choi Youngjae acorda como um fantoche que descobre o mundo através dos ângulos que o dono de suas cordas o permite ver durante os shows dos quais faz parte. Até que um dia ele vê olhos na multidão e deseja desesperadamente poder ter a autonomia de segui-los. E, ao vê-los mais próximos, ao tê-los sobre si, aos poucos percebe que talvez os conheça melhor do que pensava.

[GOT7 | 2Jae]

Notes:

Essa fic foi originalmente postada no dia 28/01/2020 no Spirit, e está disponível até hoje no perfil: https://www.spiritfanfiction.com/perfil/neli
Foi revisada para ser postada aqui!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Ainda me lembro da primeira imagem que vislumbrei ao ser criado. O teto alto e sujo de uma pequena fábrica de bonecos, enquanto ouvia meu criador cantar uma música infantil e alegre. Depois de poucos segundos ele me ergueu no ar e sorriu ao me ver pronto, questionando como se realmente esperasse uma resposta: você está pronto para ver o mundo?

Ser um fantoche não era das piores existências, com toda certeza existem seres que podem se ver em lugares mais obscuros que os meus. No entanto, ser um fantoche consciente da minha própria existência, preso em meu pequeno corpo de madeira, e sendo controlado pelas cordas que se dispersam em meus membros, não era exatamente algo agradável.

Eu via através dos meus olhos de vidro o mundo se estender a mim, ao mesmo tempo em que era incapaz de guiar meu próprio olhar. Via na plateia dos shows que eram feitos comigo e outros bonecos criaturas que voam com asas brilhantes e coloridas. Via também criaturas cobertas de pelos e com maneirismos animalescos. E havia também aqueles de pele profundamente pálida, olhar penetrante e pintado em um vermelho intenso. Mas, aqueles que mais despertavam meu interesse, eram sempre as criaturas que aquele que controlava minhas cordas chamava de humanos sem qualquer graça.

Eram essas criaturas, em suas formas mais diminutas, que mais gritavam, sorriam e vibravam enquanto meu corpo se movia de forma leve e divertida pela pequena caixa cheia de cenários. Eram elas também que sempre pediam para se aproximar e ver mais de perto o belo boneco de feições de lontra e sorriso solar.

Eram apenas em momentos como esses que me permitia esquecer minha existência de cativeiro, deixar de questionar porque afinal eu havia sido criado e apenas aproveitar das belas e alegres expressões. Até que um dia, por sorte ou destino, meu olhar caiu sobre um nada diminuto ser humano na plateia. Ou assim eu achei que o fosse.

Nunca soube ao certo por quanto tempo vivi como um fantoche qualquer em uma caixa qualquer, nem teria como medir tal aspecto abstrato como o tempo enquanto vivia em meu pequeno grande mundo. No entanto, sei que o tempo jamais foi o mesmo depois que nossos olhares se cruzaram. Na verdade, depois que seu olhar caiu sobre mim de maneira tão profunda e intensa que tudo que desejava era ter a liberdade de mover meu rosto talhado em madeira para poder mover meus olhos de forma independente e continuar te olhando.

Seus cabelos negros e razoavelmente longos caiam em torno do seu rosto. Seus olhos, tão pequenos, mas tão intensos, eram belamente enfeitados por duas pintinhas sobre um dos olhos, e isso só fui perceber algum tempo depois. Você vestia um longo sobretudo negro, que contrastava ainda mais com sua pele tão clara, e os talismãs em torno do seu pescoço me fizeram lembrar das pessoas que meu dono sempre temia ao ver ao longe. Os chamados bruxos misteriosos.

Após o show ouvi o resmungar do humano que me controlava com maestria antes de ter a sorte de ser colocado de qualquer forma sobre a caixa. Em uma posição desleixada, mas que me permita ver com perfeição enquanto você se aproximava e então o cumprimentava de maneira educada e contida. Isso também me permitiu ouvir, com uma euforia que nem ao menos sabia ser capaz de sentir, enquanto você questionava quanto custaria para me levar contigo.

A expressão de dúvida e incredulidade do controlador de marionetes o impediu de responder de imediato, desviando seu olhar para mim enquanto parecia questionar a si mesmo qual seria o significado daquilo. Eu sabia que não era especial entre seus bonecos, mesmo sendo popular com as crianças. Afinal, era simples encontrar novos brinquedos para o show, e eu era apenas um fantoche qualquer. Talvez por isso ele tenha apenas dado de ombros ao voltar a olhar para o estranho, lhe dando um número que muito mais tarde descobri mal cobrir o valor que ele mesmo havia pago sobre mim.

Afinal, que diferença poderia fazer? Se um estranho qualquer, que parecia ser apenas mais um bruxo estranho que caminha silenciosamente pelas cidades, queria tanto ter um fantoche já repetido vezes demais em um show… apenas o deixe o ter. Não é mesmo?

Talvez esses tenham sido seus últimos pensamentos antes de receber o dinheiro e me entregar de qualquer maneira em seus braços, talvez não. De todas as formas, jamais irei descobrir. Mas, o que pude descobrir logo que fui passado para os braços do meu novo dono é que ele era uma pessoa gentil. Alguém que me segurou com cuidado, permitindo que ficasse de frente para onde caminhava e me dando a oportunidade de ver o mundo no qual andávamos.

Pude ver cada rua, cada pessoa pela qual passávamos e ver e ouvir cada criança que passava por nós dois, correndo e rindo alto de alguma brincadeira boba. Também pude ver o ambiente mudar de uma vila familiar e acolhedora para uma floresta banhada pela luz do sol, onde flores de diferentes tipos pareciam inundar minha visão. A cada passo que dávamos me sentia mais e mais encantado com tantas novas visões que jamais havia tido a oportunidade de ter, mais tarde lembrando com tristeza o quanto devo ter perdido enquanto estava preso em uma caixa.

Andamos por um longo labirinto de gigantescas árvores, até que uma cabana apareceu a nossa frente. Um lar, como descobri algum tempo depois, pequeno e aconchegante, repleto de amor e cuidado. Ao entrar pela porta pude novamente, e dessa vez de maneira muito mais atenta, ouvir sua voz. Dessa vez ela parecia direcionada a pequenas criaturas que andavam no chão sobre quatro patas, fazendo um som que descobri algum tempo depois serem miados de boas-vindas.

Você se abaixou para brincar com as pequenas criaturas, conversando com elas de maneira tão meiga que por um momento desejei ser uma delas. Quando se levantou tomou todo o cuidado ao me colocar sobre uma das prateleiras do ambiente, ficando um longo tempo a me observar, até dar o sorriso mais belo que já havia visto. E que continuei a ver.

Pude ver seu sorriso todos os dias. No primeiro deles você retirou minhas cordas, enquanto me dizia que eu não precisaria mais delas. Aliás, conversar comigo parece ter se tornado uma constante para ti, pois fazia isso sempre. O tempo todo. Sempre de maneira que parecia quase esperar uma resposta, ou então soubesse qual ela seria.

Me contava sobre seus dias, suas tarefas e seus gatos, como vim a descobrir o que eram as criaturas que sempre me olhavam com curiosidade. Também me falava sobre histórias fascinantes de mundos e tempos distantes, criaturas fantásticas que viviam ou não entre os seres sociais, como você sempre chamava aqueles que viviam nas cidades. Me contava sobre sua infância e sobre como sentia falta de um garoto que parece ter marcado muitas das suas lembranças. E ao qual parecia te ferir profundamente não o ter por perto, mesmo que sempre sorrisse ao falar dele.

Mas, meus momentos favoritos, eram quando cantava. Seja ao fazer uma tarefa doméstica, brincar com seus gatos ou trabalhar em uma das suas poções ou feitiços. Sua voz tomava o ambiente de maneira calma e serena, sofrendo as mudanças das emoções transmitidas nas letras, e me fazendo ter a certeza de que poderia chorar com a intensidade das emoções que me tomavam sempre que o ouvia. Eu choraria se pudesse. E ao notar que não poderia uma dor lancinante me acertava em cheio.

A cada dia que o via, a cada dia em que o ouvia, sentia algo tomar ainda mais forma e força em mim. Eu desejava desesperadamente poder lhe responder. Poder lhe tocar. Poder ser como você. Jamais senti tal desespero e tamanha dor e tudo que desejava, dia após dia, era que você pudesse sentir e ver em meus olhos o quanto eu o percebia. O quanto eu estava ali, sentia e queria poder retribuir cada palavra.

Pude aprender muito o ouvindo ler ou contar suas histórias. Aprendi principalmente que minha situação não parecia algo comum, mesmo nesse mundo. Que um fantoche pensar e sentir, sem que o trabalho de um bruxo, elfo ou qualquer outra criatura mágica estivesse envolvido, não era algo comum. E a única certeza que possuía era a de que meu criador era apenas um humano qualquer. Um humilde e simples criador de bonecos que amava cada criação sua e sempre sorria triste ao vender uma delas.

Então, um dia, eu o ouvi contar sobre um bruxo de sorriso brilhante e talento inimaginável. Mas, que apesar de ser amado por muitos, também era filho de um homem poderoso e influente sobre uma alta sociedade, que jamais aceitou a maneira simples e humilde de seu filho viver. A maneira livre e despreocupada como ele o fazia. À medida que o ouvia contar sua história, enquanto olhava de maneira tão perdida pela janela, parecendo mal enxergar a chuva que caia lá fora, era nítido como sua voz se tornava cada vez mais triste.

Você me contou como esse jovem caminhava entre as pessoas sem se preocupar com o quanto elas possuíam de bens. Com o quanto suas roupas estavam gastas ou eram bonitas. E que assim, logo cedo, ele havia feito amizade com um jovem e pobre garoto que vivia nos arredores de uma vila. O filho de uma bruxa de sorriso gentil e abraços calorosos, que mesmo tendo tão pouco dos bens materiais da vida era rica em bons sentimentos e atitudes.

Sua narrativa continuou sobre como eles cresceram, correram pelas ruas e estradas rindo e se divertindo juntos. Pude reconhecer a nostalgia e o carinho que sempre tinha ao falar da sua infância e aos poucos pude compreender que o garoto simples e que amava sua própria mãe acima de tudo era ninguém mais além de você.
Então contou sobre como, ao crescerem, esses dois jovens se apaixonaram. De como eles se uniram e aprenderam juntos, sobre o mundo, sobre o amor e sobre si mesmos. Como a mãe do rapaz que vivia na floresta os abraçou apertado quando contaram sobre seu amor, e como ela continuou a tratá-los como seus preciosos e amados filhos. Mas que, infelizmente, o pai do garoto de família tão mais rica em bens materiais, mas tão mais pobre em bons sentimentos e ações, não teve a mesma reação.

Sobre como ele os agrediu e feriu com palavras e atos, os proibindo de se verem novamente. Como ele virou boa parte daqueles que influenciava contra o garoto de cabelos negros, causando até mesmo ataques contra sua casa que acabaram resultando na morte de sua amada mãe. Sobre como ele prendeu seu próprio filho, seu único filho, em uma torre de pedra, o impedindo de andar e ver o mundo que sempre amou. Impedido de ver as pessoas que eram seu mundo.

Ali, mais tarde e através daqueles que sofriam ao ver seus amigos em tal situação, jamais concordando com tais atos de crueldade, você soube que o rapaz de sorriso alegre definhava em desespero e dor. E soube que precisava fazer algo, que precisava salvar aquele que era, incondicionalmente, seu grande e único amor. Então narrou, com uma voz quebrada em dor, sobre como o tirou de lá, ficando tão ferido que mal foi capaz de arrastá-los para fora dos portões do castelo frio que o poderoso homem dizia ser a casa que seu filho jamais deveria sair.

Contou também sobre como foram perseguidos. Sobre como o corpo daquele homem tão cruel se avolumava sobre o de vocês, caídos sobre o chão, enquanto seu grande amor segurava seu rosto com as mãos e lhe dizia que sempre iria amá-lo. Que sempre iria encontrá-lo, não importando quanto tempo se passasse o pelo quanto precisasse passar.

Sua voz pausou por um momento, mas de alguma forma eu não precisava que continuasse a falar para saber o que havia acontecido. De alguma forma poderia ver diante dos meus olhos, como as lembranças de um outro e as minhas ao mesmo tempo. Sabia que o garoto havia se erguido, se colocando entre o moreno e o homem que um dia chamou de pai. Que ele havia aberto seus braços, decidido a proteger aquele que amava mesmo que isso significasse o fim de sua própria existência.

Que assim ele canalizou em si mesmo toda a magia que sentia fluir por si desde que tomou consciência de quem era pela primeira vez, todo o poder que todos diziam ser extraordinário para um ser como ele. E, antes de se tornar pura luz, causando ferimentos sem conta naqueles que estavam à sua frente, mas sendo uma sólida barreira para aqueles que estavam atrás de si, ele teve apenas um pensamento: Não importa como seja… quando seja… eu apenas desejo vê-lo novamente. Eu te amo, Lim Jaebeom.

A força da realização que me tomou teria me feito perder o fôlego se ao menos eu tivesse um corpo humano. A história não havia sido narrada até o fim em suas palavras, eu sabia disso. Ao mesmo tempo, de alguma forma, sabia que o que havia visto era a forma como aquele momento havia chegado ao fim. Com terror me perguntava quanto tempo havia se passado desde aquela lembrança. Anos? Décadas? Séculos? Tudo estava tão diferente em torno de nós, não poderia duvidar que realmente fizesse cem anos ou mais.

Por um momento achei que meu próprio choque me fazia sentir como se meu corpo talhado estivesse tremendo, mas então notei que não era apenas uma impressão. Eu realmente tremia, e um segundo depois estava caindo. Eu caí até ver mãos tocarem o chão e, em choque, percebi serem as minhas mãos. Percebi que meu corpo brilhava, que tudo ao meu redor estava pura confusão e ao erguer meus dedos até meu rosto… eu chorava. Depois de tanto tempo eu realmente sentia lágrimas caindo pela minha pele. E eu possuía pele ao invés da madeira que sempre soube me constituir.

Então me lembrei do motivo delas e em desespero meu olhar correu pelo ambiente, dessa vez por minha própria escolha. E eu vi… vi sua expressão de assombro enquanto estava de pé, ainda próximo à janela, parecendo não ser capaz de processar o que acabara de ver. Vi você abrir seus lábios parecendo querer dizer algo, mas logo os fechando e tendo seus olhos inundados de lágrimas que não caíram, mas não levariam muito tempo para tal. Eu o vi completamente e depois de tanto tempo percebi que o ver ainda era tão intenso e significante quanto da primeira vez.

Me colocar de pé e dar os passos necessários não foi algo fácil, e algo me dizia que ainda levaria algum tempo para me acostumar a estar novamente em um corpo humano. No entanto, mesmo cambaleando e acertando alguns móveis pelo caminho, enquanto percebia que minha transformação havia mesmo feito um belo estrago no lugar, não pude evitar sorrir ao vê-lo andar apressado em minha direção, me segurando em seus braços de maneira firme ao me alcançar.

Senti-lo novamente… sentir seus braços em torno de mim, sua respiração batendo contra o meu rosto enquanto mantínhamos poucos centímetros entre nossos corpos... Naquele momento nós dois nos perdemos um no outro, observando cada detalhe de nossos rostos como se fosse a única oportunidade que teríamos para tal. Não sei por quanto tempo ficamos de tal forma, mas ao final meu sorriso foi largo ao notar que ele ainda era o mesmo. Ele ainda era o homem que amo profunda e incondicionalmente, e que sei que passarei o resto dos meus dias amando. E que me ama da mesma forma.

E ver suas lágrimas finalmente caindo, enquanto um sorriso tremulava em seus lábios, me fez rir baixinho sabendo que havia chegado à mesma conclusão. Foi também isso que me fez encostar minha testa na sua, finalmente ouvindo minha própria voz depois de um longo tempo.

Eu disse que voltaria pra você, meu amor.

Notes:

Acho que de todas as coisas que já escrevi Fantoche continua sendo a minha história favorita. Ela surgiu em um momento completamente qualquer da minha rotina, mas gosto de como se desenvolveu e dos sentimentos que consegui colocar nela. Espero que, se você chegou até aqui, essa pequena one tenha conseguido te despertar algum sentimento bom! E se quiser dividi-lo comigo, ou mesmo fazer críticas construtivas ou qualquer outro comentário, vou amar ler. ❤️

Se quiser pode me procurar também no twitter, amo falar sobre fanfics e surtar pelo Got7 por lá 🥰 Só procurar por @Elorichan