Chapter Text
Ainda lembro de quando nos conhecemos. Lembro do seu olhar sério e felino, que inicialmente assustou a muitos dos alunos do curso de fotografia que conviviam com seu olhar afiado. Mas também lembro do arrepio que senti em cada parte do meu corpo quando nossos olhares se cruzaram e senti que você me enxergava muito além do sorriso fácil que tentava replicar em sua direção; sorriso esse já havia se tornado minha marca registrada.
Você me olhava não como uma presa, mas como uma figura que desejava desvendar cada mistério. E algum tempo depois, à medida que eu conhecia mais de quem você é além dos olhos intensos e afiados, e você descobria mais sobre quem eu sou além do sorriso alegre e constante, eu percebi que essa curiosidade, esse desejo de desvendar cada mistério da minha alma, significa muito vindo de ti.
Porque você é sempre desinteressado de qualquer coisa que esteja além das suas próprias paixões. Porque se afundar em alguém não é algo costumeiro de quem você é, ao contrário de se afundar na arte e na arte de vislumbrar o mundo através da sua visão particular da realidade que o cerca.
Você me permitiu me aproximar na mesma medida em que me pedia permissão para adentrar meu mundo. Conquistou minha amizade, meu carinho, minha admiração e aos poucos todo o meu coração, de um modo tão intenso e único que me deixou completamente apavorado.
Eu cresci sendo o caçula de uma amorosa e compreensiva família que sempre desejou que eu me permitisse ser tão mimado quanto possível, mas, contrariando todos os desejos dos meus pais e minhas duas irmãs, desde que me entendo como um indivíduo pensante sempre busquei minha própria independência. Não por menosprezar o amor dos meus familiares, mas apenas porque não me sentia confortável sob os cuidados, mesmo os deles.
Eu gostava de ver a mim mesmo como uma figura forte, independente e autossuficiente. Alguém que cultivou boas e sólidas amizades, mas que não precisaria delas para se sentir feliz ou completo. Alguém que sempre teve o apoio da família em suas escolhas e sonhos, mas nunca utilizou dos recursos dela para alcançar o que quer que seja.
Comecei a trabalhar muito cedo e mais cedo ainda a buscar meus próprios métodos para alcançar o topo do mundo se assim desejasse. Me permiti envolver e ser envolvido por aqueles que despertavam meu interesse e até carinho pelos anos, mas nunca permiti que qualquer pessoa se apossasse do meu coração.
Amar não era um desejo, um objetivo ou algo que eu permitiria acontecer. Porque amar seria permitir que alguém pudesse me tocar da maneira mais íntima, mais crua e mais intensa que pode ser feita e isso sempre me assustou. Me sentir frágil e completamente vulnerável diante de alguém sempre me apavorou.
Mas então você surgiu com sua intensidade, que mescla perfeitamente com sua gentileza e uma calma tão profunda que antes que pudesse me dar conta já havia sido completamente envolto em sua aura. Seus sorrisos, seus olhares, sua voz baixa e carinhosa quando voltada aos meus ouvidos, seu toque sutil e ao mesmo tempo sempre tão presente, seu jeito tão único… tão seu. Você me cativou Lim Jaebeom, e isso me apavorou mais do que qualquer outra coisa que já havia experimentado.
Por isso, em uma bela manhã de primavera, eu simplesmente fui embora. Eu fui covarde, admito, covarde demais para aceitar que me sentia frágil em sua presença, mas também amado e protegido. Covarde demais para perceber que seu amor era algo que me enchia de um sentimento de alegria e êxtase tão absurdos que me assustava, simplesmente pelo fato de não estar acostumado e nunca ter permitido a simples ideia de experimentar.
A felicidade e completude que você me proporcionava me acuava pelo simples fato de eu ter encontrado em outro alguém um caminho para somar a minha própria alma. E isso me fez, por um momento, acreditar que estava procurando em outro alguém algo que ocupasse um vazio em meu peito que eu me recusava a aceitar que poderia existir.
Mas a distância me fez perceber que você não ocupava um vazio, mas sim somava a toda à abundância que existia em meu peito. Você me transbordava. Você me fazia ver mais, ver além, sentir tudo de uma maneira ainda mais bela, algo que já era muito. Que já era belo, que já era incrível.
Você ampliou minha realidade e eu fui tolo demais para perceber que se sentir frágil, se sentir humano, não era algo ruim.
E então os dias se passaram, as semanas e os meses. Meus amigos, que com os poucos anos de convivência com você também se tornaram seus amigos, me mantinham informado de como andava sua vida, mesmo que eu jamais pedisse. Eu sabia que eles tinham consciência dos meus sentimentos e do porquê de ter decidido me mudar não mais do que de repente para um país distante, mesmo que eu sempre tivesse demonstrado interesse em visitar e trabalhar nos Estados Unidos em algum momento da vida.
Eles me contavam de como você havia se formado e vinha se consolidando como um dos melhores profissionais do mercado. De como era delicado e sensível na forma como fotografava o mundo através da sua lente e que por isso vinha recebendo cada vez mais atenção, não apenas no país de origem, mas também de diversos outros lugares do mundo. De como você crescia em tantos aspectos, mas, ainda assim, parecia guardar em si uma melancolia que nunca fez parte de si. Uma melancolia que eles diziam ter surgido após a minha partida e se aprofundado a cada dia em que eu me recusava a ter qualquer contato com você.
E, durante muito tempo, eu tentei ignorar tudo isso e me focar na minha própria carreira que estava também se consolidando e me permitindo alcançar tantos dos sonhos que guardei no peito durante toda a adolescência e juventude. Mas, em algum ponto, a saudade, as notícias que ouvia sobre você, meus sentimentos e, acima de tudo, minha própria consciência sobre mim mesmo e minhas escolhas começaram a me sufocar.
Meu peito doía mais do que era capaz de suportar e, apesar da distância, você parecia cada vez mais presente em minha mente. Seu rosto surgia nos momentos mais inoportunos por trás dos meus olhos e muitos daqueles que conviviam comigo passaram a me perguntar se estava tudo bem, a me dirigir olhares de preocupação que não estava acostumado a receber.
Foi num dia chuvoso de inverno que eu finalmente encontrei a coragem e determinação necessárias para agir. Estava sentado em frente à janela do meu apartamento enquanto segurava uma xícara de café forte, costume que acabei adquirindo no tempo em que o acompanhava em seu estúdio enquanto conversávamos animadamente, víamos algum filme cult ou apenas curtíamos o silêncio confortável que sempre existiu entre nós enquanto líamos algo.
A cada gole do líquido que descia quente em minha garganta uma nova lembrança sua ocupava meus olhos, tanto que quase não via a chuva caindo lá fora. E, não mais do que de repente, assim como minha brusca decisão de fugir, uma ideia passou pela minha mente. Soaria loucura e talvez realmente o fosse, mas no final eu precisaria apenas de um voo, não é mesmo? E então estaríamos novamente no mesmo fuso horário, na mesma página do calendário.
Antes que um segundo pensamento pudesse me tomar e me fazer desistir, eu saí do meu confortável sofá e busquei meu celular na mesinha de centro da sala. Mesmo depois de três longos anos seu número jamais deixou minha agenda, mesmo que me recusasse a encará-lo durante todo esse tempo. Mas, naquele momento, tudo o que desejava era que você não houvesse mudado de número, de lugar, de sentimento. Que a faísca que eu via em seus olhos há três anos ainda permanece viva, mesmo que nossos sentimentos nunca tivessem sido verbalizados.
Um toque, dois, três… o desespero começava a me tomar e eu me perguntava o que faria caso você jamais atendesse minha ligação.
— Alô? – Ó, sua voz… rouca como se acabasse de acordar de um longo sonho, tão baixa e tão bela quanto eu ainda me lembrava… tão sua.
— Você tem planos para esta noite? – Seu silêncio foi mais longo do que meu pobre coração se sentia pronto para aguentar, mas eu sabia que você tinha todos os motivos para jamais me responder se assim quisesse. Eu não merecia sua atenção, seu perdão ou sua paciência para ouvir meus motivos. Mas, no fundo, rezava para que você me desse tudo isso e mais.
— Eu estou no Japão agora, a trabalho. – Você soava incerto, machucado, e isso mais do que qualquer coisa me fez sentir como se pudesse começar a chorar a qualquer momento. Porém, eu não poderia fraquejar agora, não depois de ter finalmente tido a coragem de dar um passo em sua direção. Não se eu ainda quisesse ver a mim mesmo como o homem com total controle sobre si mesmo, o homem forte e independente que constrói seu caminho. Mesmo que precise consertá-lo mais tarde por escolher a rota errada em alguns momentos.
— Eu irei até você. Por favor, Jaebeom… eu realmente quero vê-lo. Eu preciso vê-lo. – Minha voz saiu tão sofrida, tão necessitada, que me assustou por um momento, mas eu já não me importava mais. Eu realmente estava me sentindo despedaçado por tudo isso, pela distância, pelas escolhas obtusas tomadas no passado, pela minha fraqueza e covardia. Mas, acima de tudo, pela saudade que sentia dele.
Seu silêncio pareceu durar por horas, mas podem ter sido apenas alguns segundos. Segundos em que tudo que eu ouvia era o som da sua respiração do outro lado da linha, a quilômetros de distância do meu corpo, tão distante, mas ao mesmo tempo tão perto… sua respiração era alta, como se estivesse sobre uma forte emoção e indecisão e eu torcia para que o ódio e repulsa não fossem os principais sentimentos que o tomavam naquele momento.
— Eu esperei por você, Jae. Eu ainda estou esperando. – Sua voz saiu ainda mais baixa do que costumava ser e nessas poucas palavras eu pude sentir toda a dor que o tomava e de alguma forma eu soube que se pudesse vê-lo naquele momento encontraria lágrimas em seus olhos. Isso fez com que uma dor atravessasse meu peito, uma dor tão aguda que me fez perder o ar. Você não é alguém que chora. Você é alguém de sorriso doce e expressão serena, não alguém que está acostumado a carregar uma expressão de dor ou sofrimento. O que eu havia feito?
— Eu sei. E eu sinto muito Beommie, eu juro que sinto. Eu quero consertar tudo, quero lhe dizer tudo que não fui capaz durante todo esse tempo. E vou entender caso não queira me ver ou me ouvir, caso me odeie. Mas, se ainda restar qualquer resquício dos sentimentos de antigamente, eu lhe peço: me deixe ir até você. E eu juro que jamais irei deixá-lo novamente. Eu seria incapaz de fazê-lo, de qualquer forma.
As palavras saíram de forma natural e sincera, com muito mais facilidade do que esperava. Talvez o tempo tenha me permitido ser mais sincero comigo mesmo e com o homem que aprendi a amar, talvez a saudade tenha me sufocado ao ponto do meu orgulho ser capaz de se calar ou talvez eu apenas estivesse tão mais assustado com a ideia de realmente tê-lo perdido que meus temores de me permitir ser visto de maneira tão frágil tivessem perdido completamente a importância.
Seja qual for à resposta, tudo que eu sabia e sentia era que precisava dizer tudo, tudo que sentia naquele momento e em todos os anteriores. Eu precisava ser sincero e me permitir ser não apenas o Choi Youngjae que sempre idealizei e tentei ser a mim mesmo e a todos, mas Choi Youngjae, o homem cheio de defeitos, qualidades, sorrisos e lágrimas, e que se via já há alguns anos perdidamente apaixonado por Lim Jaebeom.
— Eu estarei no Japão até sexta-feira. Se você bater na porta do meu quarto até lá saiba que eu não o deixarei ir novamente, Youngjae. Eu venho o esperando há três anos, mas, se você não vier até mim depois dessa ligação, eu saberei que não preciso mais te esperar. – Sua voz estava decidida, ainda carregada com uma fagulha da dor anterior, mas também transbordando de algo mais. De alguma certeza, obstinação e também de uma intensidade. – No entanto, se vier, saiba que eu não o quero mais longe dos meus braços. Eu não serei capaz de compreender vê-lo indo pra longe de mim sem qualquer explicação mais uma vez Choi Youngjae, mesmo que meu amor por você não tenha abrandado um segundo sequer durante esse tempo.
Ouvir essas palavras me fez perder o ar novamente. Cada parte do meu corpo se arrepiou com a constatação da verdade por trás de cada palavra, com a constatação de que eu de fato estava ouvindo cada uma delas diretamente da pessoa com a qual sonhei as dizendo tantas e tantas vezes nestes seis anos em que nos conhecemos. Porque desde a primeira vez em que nossos olhares se cruzaram eu senti nos confins da minha alma que iria me apaixonar por você, e o medo de não ser correspondido sempre me cegou tanto quanto meu pavor por ser.
— Eu irei. Eu irei mesmo que o mundo desabe em torno de mim, Beommie. Eu lhe peço apenas que espere por mais algumas horas. – Minha voz era decidida e além do meu tom eu sentia em todo o meu ser que eu cumpriria aquela promessa. Largar tudo e apenas ir para o Japão era uma loucura completa e eu tinha plena consciência desse fato, e tenho certeza que meu sócio faria questão de reforçá-lo ao me lembrar dos meus compromissos para os próximos dias. Mas eu já havia feito loucuras maiores no passado.
Um dia eu havia simplesmente deixado à Coreia do Sul com apenas uma mala e uma sólida teimosia me consumindo sem data para voltar. Hoje eu deixaria os Estados Unidos com uma agenda repleta de datas e horários sem saber como voltaria para casa, mas com a certeza de que seria um homem completamente diferente quando o fizesse.
Mas, pensando melhor, eu já estava voltando para casa, não? Nunca houve qualquer lugar neste mundo em que me senti mais acolhido e em casa do que dentro do abraço de Lim Jaebeom.
— O endereço do hotel vai estar nas suas mensagens em alguns minutos. Agora eu preciso voltar ao trabalho. Até mais, Jae. – Eu conseguia sentir sua hesitação em terminar a chamada, mas também a urgência em fazê-la chegar ao final. Me perguntei o que estaria fazendo ao receber minha ligação, se eu o havia atrapalhado em meio ao trabalho e se suas mãos teriam tremido ao ver quem ligava ao olhar o visor. Eram tantas perguntas, tanto a saber sobre quem ele era agora, sobre como era sua vida hoje em dia. Mas eu faria o que fosse possível e necessário para ser digno de receber cada uma dessas respostas.
— Até mais Beommie. E… obrigado. Obrigado por esperar e obrigado por ainda sentir. Eu sei que não o mereço, mas eu juro que farei o possível para merecê-lo novamente. – A dor e o arrependimento ainda estavam presentes, mas eu podia sentir um pequeno sorriso se formando em meu rosto. Não exatamente de alegria, mas sim gratidão. Apesar de todas as falhas e escolhas erradas, nada havia se perdido de maneira irreversível e eu faria fazer valer a pena.
— Não agradeça ainda, Youngjae. – Suas últimas palavras antes do som da ligação chegando ao fim poderiam ter soado frias e cortantes aos meus ouvidos, mas eu sabia que havia motivos mais do que o suficiente para as ouvir. Além disso, eu o conhecia bem o bastante para saber que seu tom indiferente estava muito longe de corresponder aos seus pensamentos e sentimentos.
As pessoas sempre criam uma imagem fria e indiferente de quem você é puramente baseada em sua expressão sempre calma e sua maneira peculiar de agir e reagir ao mundo. Porém, desde o início sempre fui privilegiado ao ser permitido ver o que existe além de seu rosto impassível. O homem de coração quente, carinhoso e repleto de cuidado e amor àqueles que lhe são importantes. O homem de alma doce e sorrisos gentis, risada alta e brincadeiras bobas. O homem perfeito aos meus olhos e coração.
