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make-believe

Summary:

Chan sempre foi bom em muitas coisas: inglês, música, esportes, fazer de contas.

Ele faz de contas porque a realidade dói. Então ele finge.

E de todos os "faz de contas" que ele já fingiu, Hyunjin é o maior deles.

Notes:

Olá!
Uma hyunchan novinha em folha pro'cês. Tem aquele angst, mas o final dessa vez é feliz.
Essa é um presente de aniversário (mega atrasado) pra minha querida Barbs. Feliz aniversário atrasado, meu bem <3

Se vocês estão esperando personagens perfeitos que não fazem besteira ou agem no impulso, então por favor, não continuem a leitura. Ambos tem sentimentos reais e agem de acordo com o que estão sentido. No mais, tudo é bem tranquilo rs

Espero que vocês gostem.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

...

 

Chan é bom em muitas coisas: inglês, história, matemática, esportes, fazer amigos, música, em faz de contas; fazer de contas talvez seja onde ele mais se destaca. 

Fazer de contas é algo que está gravado nele, algo inato. Por exemplo, ele faz de contas que gosta do chefe arrogante e prepotente dele; ele faz de contas que a sua vizinha de lado não é barulhenta quando está no quarto com o namorado; ele faz de contas que tem tudo resolvido, quando na verdade, ele não sabe de nada. 

Chan sempre fez de contas. Fazia de contas quando ainda era uma criança, quando fingia não ouvir seus pais gritando no cômodo ao lado. Fazia de contas quando era um adolescente, quando fingiu não saber exatamente o porquê que seu pai estava saindo de casa. Fazia de contas quando chegava em casa com uma nota dez e sua mãe sequer olhava-o uma segunda vez. Fazia de contas, porque essas coisas não podiam machucá-lo. Então ele fingia. Ignorava. Ou fingia ignorar. Talvez para si mesmo, talvez para os outros. Nem sempre para ambos, às vezes para todos.  

E de todos os “faz de contas” que Chan já fingiu, Hyunjin era o maior deles. 

Ele faz de contas que está tudo bem, que tudo está ótimo toda vez que Hyunjin começa a chorar ou balbuciar sobre uma paixonite nova. Elas são ligeiras, mas ele sempre acaba com o coração partido, intenso e sentimental como ele é.

Ele faz de contas todas as vezes que Hyunjin acaba em seu sofá, com a cabeça do mais novo em seu colo e os dedos fazendo carinho leve no cabelo dele, finge que o seu próprio coração não está partindo junto com o dele. A premissa de algo mais do que passageiro assusta Chan, então ele faz de contas. Só mais uma semana e terá terminado— por mais babaca ou egoísta que isso seja. Ele sabe que vai acabar, e ele espera que seu faz de contas não seja arruinado pelo gosto azedo da realidade. 

Ele faz de contas que se importa apenas o suficiente, tal qual um amigo se importaria. Mas ele se importa demais, muito além disso.  

A mente de Chan é criativa, e fazer de contas é meio que um trabalho dele também nesse ponto, então é natural, na maioria das vezes ele quase nem percebe que está criando cenários diferentes de realidades paralelas. Porque isso não pode machucá-lo. 

Saber que Hyunjin é feliz com outro alguém não pode feri-lo (mas fere), e Chan é um bom amigo, ele tenta muito ser o melhor amigo de todos. Mas fica difícil fingir, mesmo para Chan, o mestre na arte de fazer de contas, quando seus pensamentos se resumem a cenas e possibilidades em que outra pessoa faz Hyunjin feliz de uma forma que Chan jamais fará. 

Mas ele faz de contas. 

E ele faz bem. Ele se força a fazer bem. Porque ele é bom em muitas coisas, e ele não pode falhar nisso. Especialmente nisso, especialmente com Hyunjin. 

Ele é um expert nisso a essa altura do campeonato. Ele é expert em fingir que não quer sair correndo toda vez que Hyunjin fala sobre um cara novo, e como ele queria que fosse ele no lugar. Ele faz de contas que não dói, porque isso não pode machucá-lo. Então ele finge. 

Ele é expert em entender as expressões de Hyunjin, porque eles são amigos há anos e, apesar de tudo, ele não precisa fazer tanto de contas assim perto de Hyunjin. Ele observa, ele admira, ele entende. Ele sabe tudo o que se passa na mente do mais novo, tanto pelo olhar expressivo dele, quanto pelas sutilezas nas ações dele. E, bom, Chan é expert. Ele é bom em muitas coisas. 

E ele finge, por que o que mais ele poderia fazer?

Há quem diga que é mentira, há quem diga que é proteção. Chan gosta de chamar de omissão. Fingimento, talvez. O nome que dão a isso não importa. É o melhor que se tem a fazer. 

E Chan é bom em muitas coisas e tem muitas coisas boas. 

Só, talvez, a covardia dele esteja bem no topo dessa lista.

 

 

Changbin

e aí, Chan

já tá chorando de novo

 

Chan

???

O que foi dessa vez?

 

Changbin

hyunjin ainda não te contou?

ele conheceu um menino

no projeto de extensão da

faculdade

e tá todo apaixonado

 

Chan

que bom!



Changbin

ahhhhhh, a falsidade

 

Chan

não sei do que vc tá falando

 

Changbin

meu caro, não sei pq vc insiste

em mentir pra mim

quer mentir pros outros, beleza

mas logo pra mim? o rei da

mentira?

tá de saca, né

 

Chan

não tô mentindo, Changbin

eu tô fingindo 

que bom que ele encontrou alguém

daqui uma semana e meia ele encontra outra pessoa

e depois outra

até ser definitivo

 

Changbin

e quando for definitivo?

 

Chan

quando for definitivo espero que

ele seja feliz

 

Changbin

mesmo que não seja contigo

 

Chan

mesmo que não seja comigo

 

Changbin

complicated

só, sei lá, abre o olho, viu

algo parece diferente dessa vez

 

Chan

não parece sempre?

 

Changbin

bom..

só se prepara pra possibilidade

dessa paixonite durar mais de uma semana e meia

eu realmente nunca vi o hyun desse jeito



Chan

a gente também sempre fala isso

não tô me preocupando com isso

tộ suave

já tô acostumado



 

Como muitas vezes antes, Hyunjin está jogado no chão da sala de Chan, a cabeça apoiada no estofado do sofá marrom e os braços estirados ao lado do corpo. Assim como também muitas vezes antes, Hyunjin tem estrelas brilhantes e vivas nos olhos, detalhando minuciosamente como conhecera o mais novo amor da vida dele. 

E, também como sempre, Chan ouve. Ele ouve porque é um bom amigo e quer fazer parte da vida de Hyunjin. Ele ouve porque ele quer imaginar como seria, num mundo utópico, um Hyunjin apaixonado por si. Então ele pensa que, ao invés desse desconhecido sem rosto que Chan já começa a desgostar, Hyunjin está fazendo juras de amor a Chan. 

“Hm, isso é bom,” Chan comenta, tentando sorrir genuinamente, tentando não deixar nítido o quanto isso está fazendo o interior dele se despedaçar por completo — talvez pela sétima vez, somente por Hyunjin. 

“É ótimo, né?!” Hyunjin sorri, iluminando ainda mais a sala já bem iluminada e Chan sente um desprezo enorme crescendo em seu peito. Chan se despreza. Quer sorrir com Hyunjin, mostrar ao amigo que está contente por Hyunjin ter encontrado, novamente, um outro alguém, mas a única coisa genuína que Chan consegue sentir é o gosto amargo do ciúme e inveja. 

Mas, Chan é bom em fazer de contas. 

“Claro que é,” ele estala os dedos nervosamente, batucando-os na perna. Dessa vez parece tão mais difícil manter o fingimento. 

As palavras de Changbin estão nítidas na cabeça dele. Ele consegue enxergar cada uma delas com tamanho realismo que ele jura que elas estão escritas em letras garrafais e neon bem na frente dele. 

Um dia vai ser definitivo. 

Mesmo que não seja contigo. 

Se prepare. 

Eu nunca vi Hyunjin assim antes. 

Chan encara o amigo, que observa o teto sonhador, como se fosse algo muito diferente, e Chan entende imediatamente. Ele está pensando no cara novo — Seungmin. Os olhos dele brilham e o sorriso pequeno jamais deixa os lábios dele. Chan consegue praticamente sentir a animação que vibra do mais novo, e ela é quase contagiante — se ao menos não fosse Chan ali. 

Certamente, Hyunjin parece diferente. Os olhos dele brilham, não somente em ansiedade por algo novo, mas em finalidade, como se ele estivesse decidido a fazer com que essa fosse a oportunidade. 

Mas Chan é muito bom em fazer de contas. 

“Vocês vão sair?” Ele pergunta, encarando a televisão desligada que reflete a imagem distorcida deles e tentando disfarçar a ansiedade que o corrói aos poucos. A voz sai levemente animada, e até ele mesmo acredita na veracidade dela. 

“Talvez,” Hyunjin vira para encarar Chan e o mais velho se sente como uma presa sendo caçada. Quais são as probabilidades de Hyunjin ser igualmente bom em ler Chan? “Ele que tem o meu número, então agora só me resta esperar.”

Chan concorda com a cabeça, sabendo que sua expressão está longe de ser o que deveria, mas sabendo que é o que ele consegue no momento. É o suficiente. Ele é bom em fazer de contas. 

“Ele vai mandar mensagem,” o sorriso que ele dá mal chega aos olhos dele, mas ele tenta, assim como ele evita encarar os olhos de Hyunjin enquanto diz essas palavras. Não é que ele não acredite nelas, ele só espera que o amigo não veja de onde elas realmente vêm. E ele faz um bom trabalho. Hyunjin sorri e segura a mão de Chan, grato, e um pouco do nervosismo de Chan se esvai. 

Mas, novamente, as palavras de Changbin soam em sua cabeça, martelando dentro dela como se estivessem implorando-o a fazer algo. Mas ele finge não ouvir, não ver.  Ele tenta não pensar mais sobre isso enquanto eles estão assistindo um filme qualquer — o primeiro que apareceu na sessão “recomendados”. Assim como ele também tenta não encarar o telefone de Hyunjin toda vez que ele acende com uma notificação diferente. 

Seria o cara novo- Seungmin? 

Estaria ele mandando mensagem chamando Hyunjin para sair? 

Será que Hyunjin realmente está se sentindo diferente dessa vez? 

Quando ele percebe, metade do filme já passou e ele mal assistiu dez minutos do enredo. O problema não é o filme, o problema é ele.

Esse é o problema em fazer de contas. 

Por fora, tudo está comum — ou o mais comum que possa ser; por dentro, sua cabeça explode em suposições e irrealidades e fingimentos que se entrelaçam até que ele perca o fio da meada, por mais que Chan também seja craque em fazer de contas para ele mesmo.

Isso dói. Ouvir Hyunjin falando sobre outro alguém dói. 

Mas não devia. Porque eles são amigos. E Chan deveria ficar feliz por ele. Ainda assim, dói. 

Dói porque deveria ser Chan ali, no lugar de tantos caras sem rosto e sem nome. Deveria ser Chan a fazer os olhos de Hyunjin brilharem e o sorriso dele alargar dessa forma avassaladora. 

Mas não é. 

E dói porque as fantasias que Chan faz de contas em sua cabeça são irreparavelmente doces e bonitas. Dói porque ele quer oferecê-las a Hyunjin. E Hyunjin as quer, todas e quaisquer que sejam elas, ele também é um romântico no fim das contas. Mas Hyunjin não quer essas coisas de Chan, ele quer de outra pessoa. E isso… isso é o que mais dói. Não poder dar para Hyunjin tudo que ele sabe que o amigo merece, que o amigo quer. 

Mas ele também não quer pensar sobre isso, porque isso machuca-o. E Chan é realmente muito bom em fingir. Inclusive para si mesmo. Então ele finge. Engarrafa esses pensamentos e quase não os deixa ver a luz do dia. 

A risada de Hyunjin ecoa cacofonicamente ao seu lado e um arrepio toma conta do corpo de Chan. E dói. Porque Chan nunca vai fazer Hyunjin feliz desse jeito. Ansioso por uma mensagem, alegre e animado, querendo saborear um amor novo. 

Talvez, pela primeira vez desde que começou a perceber que sentia coisas que não devia por Hyunjin, ele sente que um cronômetro inexistente é ativado e que o tempo dele está se esgotando. 

Quanto tempo ele tem? Por que esse relógio está fazendo tiktaktiktak na cabeça de Chan? 

Ele não sabe. 

Mas Hyunjin está diferente, e quem sabe, dessa vez realmente não seja definitivo? 

Quem sabe, dessa vez ele realmente não tenha encontrado quem ele tanto procura? 

 

 

Chan e Hyunjin se conheceram há quase quatro anos através de Jisung. Um novo amor, Jisung sorriu ao mostrar a foto de Hyunjin para Chan. Dois meses depois, tudo acabou. Não era para ser. Foi ótimo enquanto durou, mas eles são melhores como amigos. E o engraçado é que eles realmente estavam certos. São infinitamente melhores como amigos. 

E Hyunjin foi ficando, foi fazendo moradia no círculo de amizade deles, cabendo tão perfeitamente quanto Changbin, que conhecia todo mundo há anos e anos. 

Chan realmente não sabe dizer exatamente quando que ele e Hyunjin ficaram tão próximos, talvez algo entre a primeira vez que Hyunjin teve o coração partido. Uma ligação, um soluço e ban! Hyunjin estava na porta da casa de Chan, os olhos vermelhos e a expressão mais desolada que Chan já vira na vida, os ombros caídos e o cabelo loiro bagunçado e emaranhado, como se ele tivesse passado várias e várias vezes as mãos pelos fios. 

Hyunjin entrou, sentou no sofá e chorou. Soluçou. Colocou as mãos no rosto e tentou abafar o som enquanto mordia o lábio inferior. 

Chan foi logo atrás, sentou no sofá e fez um carinho reconfortante no braço dele, enquanto perguntava o que tinha acontecido. 

“Ele terminou comigo,” era o que Hyunjin conseguia repetir entre soluços e a cada lágrima Chan sentia seu coração encolhendo. 

Em certo ponto, Hyunjin deitou a cabeça no ombro de Chan, os pequenos soluços ainda soando alto e forte pela pequena sala. 

Hyunjin pediu desculpas várias, várias vezes por ter ligado e aparecido na porta de Chan, mas Chan não se importava, de verdade. 

Os dedos de Chan procuraram os fios loiros e bagunçados de Hyunjin instintivamente, e colocou-os no lugar, limpando com a ponta dos dedos cada lágrima que ele derramava, balbuciando pequenas palavras de conforto que poderiam ou não estar fazendo efeito. 

Hyunjin era quente, expressivo, aberto. Vê-lo desse jeito era quase um crime federal. Chan queria fazer o possível e o impossível para que isso não acontecesse de novo. 

Chan abraçou-o e Hyunjin se agarrou à blusa cinza como se ele estivesse procurando pela borda de uma piscina onde seu pé não encontra o chão, e Chan abraçou-o ainda mais forte, deitando a cabeça do mais novo em seu pescoço enquanto movia-os devagar para os lados. 

Chan queria fazer mais, queria impedir que Hyunjin saísse de perto de si, de perto de sua proteção. Mas ele não tinha direito algum de fazer isso. 

Os dedos procuraram instintivamente o cabelo loiro bagunçado e cheiroso e ele começou a desfazer alguns pequenos nós.

Quando os olhos do mais novo finalmente fecharam, exausto, Chan pegou-o no colo com cuidado e deitou-o ainda mais cuidadosamente em sua cama, tirando os fios de cabelo que caíram sobre o olho dele e cobriu-o. 

Chan dormiu no sofá. 

Pela manhã, Hyunjin acordou com os olhos inchados e dor de cabeça, e Chan já tinha feito o café da manhã para eles. Hyunjin comeu, mais uma vez pedindo desculpas por ter dormido e feito Chan dormir no sofá. Eles poderiam ter dormido juntos, Hyunjin não se importava, até porque era muito mais confortável do que o sofá velho da sala de Chan, e a cama era espaçosa o suficiente para que ambos dormissem nela. 

Antes de sair, Hyunjin sorriu, aquele sorriso que faz os olhos deles sumirem e a covinha aparecer, e agradeceu. Chan falou que não era problema e que Hyunjin deveria procurá-lo mais vezes. 

Chan falou que ia ficar tudo bem. Hyunjin concordou com a cabeça. Talvez acreditando, talvez não. 

Hyunjin procurou-o. Não para chorar no sofá dele, mas para assistir um filme, sair para comer alguma coisa, contar sobre os dramas da faculdade. 

Hyunjin procurou-o para falar sobre um caso novo, sobre como tinha sido incrível a noite com um cara, os olhos sempre brilhando e aquele sorriso no rosto. Contou como sentiu arrepios quando seus dedos se tocaram e como a voz dele era grave e bonita. Contou como se conheceram e como foi o primeiro encontro deles. 

Hyunjin procurou-o novamente depois para chorar no colo de Chan, dessa vez com a cabeça apoiada na perna do mais velho enquanto as lágrimas molhavam a calça de moletom cinza de Chan. Ele não se importava. 

Hyunjin estava machucado, e só isso importava. 

Chan confortou-o novamente, e Hyunjin mais uma vez pediu desculpas antes de dormir no colo de Chan. 

Dessa vez, ao ser colocado na cama, Hyunjin chamou por Chan e eles dividiram o colchão. Quando Chan acordou, o cheiro de Hyunjin estava em todos os lugares, impregnando os pulmões de Chan e deixando-o quase tonto, os cabelos loiros estavam espalhados pelo travesseiro, sempre bagunçados e desalinhados, e Chan instintivamente levou os dedos até eles, tirando alguns fios que caíram nos olhos do mais novo. 

Quando Hyunjin acordou, com os olhos inchados e dor de cabeça, o café da manhã já estava pronto. Ele não chorava mais e parecia bem melhor. 

Quando foi embora, ele agradeceu. Chan pediu para Hyunjin procurá-lo mais vezes. 

Ele fez. 

E Chan começou a fazer de contas. 

 

 

“O que você quer fazer?” Hyunjin pergunta, tirando os olhos do telefone e encarando Chan, que tenta não pensar ou perceber o sorriso bonito que enfeita o rosto do mais novo. Tenta não pensar no porquê desse sorriso. 

Chan dá de ombros, sentindo um mau-humor esquisito subindo pelo seu corpo, e engole em seco, tentando fazer com que essa sensação suma e volte de onde tinha saído. 

“A gente pode assistir um filme,” sugere, se ajustando no sofá e dobrando uma perna embaixo da outra. 

“Queria fazer algo mais animado hoje,” Hyunjin se levanta, tirando a poeira inexistente da blusa estampada dele e enfiando as mãos no bolso da calça jeans, “você parece meio pra baixo esses dias.” 

Chan tem vontade de rir, sarcástico, magoado, desesperado. Mas tudo que ele faz é balançar a cabeça de um lado para o outro, negando. 

“Só estou com muita coisa na cabeça.” 

Chan fez aulas de teatro quando estava entrando na pré-adolescência. Tinha dificuldades para fazer amizade, a timidez era tão grande que chegava a ser vergonhoso. Funcionou. Hoje em dia ele fala em público e consegue até mesmo atuar, mesmo que não seja em cima de um palco. Finge que está falando sério quando tudo é da boca para fora. 

Hyunjin concorda com a cabeça, e Chan percebe que não tem porque ele temer. Hyunjin não é excepcionalmente bom em ler o mais velho. Essa recíproca não é verdadeira — assim como muitas outras. 

Mas a irreciprocidade é bem-vinda, pelo menos dessa vez. 

“Mas então o que você quer fazer?” Chan pergunta, imitando Hyunjin e se levantando. 

“Vamos ao shopping.” 

E se Hyunjin pede, quem é Chan para dizer não? 

 

… 

 

O filme que Hyunjin escolheu é daqueles melodramáticos, com cenas bregas de confissão e choros exagerados. Em certo ponto do filme, Chan se viu entretido, preso no plot twist que foi a personagem principal ter escolhido o coadjuvante ao invés do outro personagem principal, mas tudo caiu por terra quando Hyunjin encostou a cabeça no ombro dele. Desde então, o cérebro de Chan está estático. 

Tudo que ele ouve são ondas sonoras incompreensíveis e a respiração de Hyunjin que bate incessantemente em seu pescoço, causando arrepios e pensamentos indesejáveis que ele não consegue refrear. 

E se ele colocasse seu braço ao redor do ombro de Hyunjin e puxasse-o para mais perto? 

E se ele beijasse o topo da cabeça do amigo e cheirasse o cabelo sempre tão cheiroso e bagunçado dele? 

E se, assim como a personagem principal, ele se arriscasse e fizesse algo que provavelmente se arrependeria pelo resto da vida dele? 

É tão fácil se deixar levar quando Hyunjin está assim tão perto, com as respirações sincronizadas e com uma música romântica tocando ao fundo. Não é a música deles, está longe de ser, mas a imaginação flui com uma facilidade invejável. 

Chan sente a respiração ficar presa em seus pulmões quando a mão de Hyunjin descansa sobre a coxa do mais velho, inocente. Não é nada fora do comum. Hyunjin gosta de toques e é sentimental, mas Chan está na beira há tanto tempo que até mesmo as menores das coisas viram tempestades que ameaçam cair e destruir tudo que veem pela frente. 

Mas Chan é bom em fingir. 

Então, ele abraça o ombro de Hyunjin, os dedos fazendo um carinho leve no braço do mais novo, e é normal. É como qualquer outro filme que eles assistem juntos. É normal, porque eles ficam assim sempre que Hyunjin aparece chorando por conta de um coração quebrado. É normal, mas não porque é comum, mas porque parece normal. Como se eles tivessem sido feitos para se encaixarem um no outro. 

Hyunjin, por um interminável momento, levanta a cabeça para encarar Chan, um sorriso fraco enfeitando os lábios. Um sorriso de quem diz “obrigado”. E Chan é nada mais, nada menos do que um tolo. Então ele aperta o braço que envolve Hyunjin e dá um beijo na testa dele, sútil, e Hyunjin fica parado no mesmo lugar, os olhos fechados e apreciativos, como se ele estivesse saboreando cada segundo desse momento. 

E Chan é só um tolo. 

Então ele arruma o cabelo comprido e sempre tão bagunçado que insiste em cair no rosto de Hyunjin, coloca os fios atrás da orelha do mais novo, e os dedos, instintivamente, fazem um carinho fraco no lóbulo da orelha dele.  Hyunjin ainda tem os olhos fechados e a cabeça levemente inclinada para o lado, descansado-a na mão de Chan. 

E Chan é só um tolo. 

Porque todas as cenas bregas de confissão e choros exagerados do filme, de repente parecem fazer todo o sentido para ele. Ele consegue, com clareza, substituir os personagens por ele e Hyunjin, e instantaneamente, o filme é muito mais conexo. As cenas são mais significativas e todas as palavras são mais reais. 

Mas Chan é realmente só um tolo. E um grande covarde. E um excelente mentiroso. 

Então ele retira os braços e se ajeita na poltrona, fazendo com que Hyunjin desencoste dele e encara a tela grande e iluminada onde o filme está em seus momentos finais. Hyunjin não diz nada, por que o que ele poderia dizer? Está tudo na cabeça fingida e sonhadora de Chan. É só mais um momento comum, é só mais um toque que é somente um toque. 

Quando Chan se dá o trabalho de parar de pensar e volta a assistir o filme, a personagem principal está recebendo uma declaração do outro personagem principal, o que ela jurou não amar e não prestar atenção, eles se beijam e o mundo deles parece se encaixar. O personagem coadjuvante assiste à cena como se não tivesse feito toda a história do filme rolar, como se não fosse para ser ele ali, como se ele não tivesse dado tudo que ela jurou querer. Mas ele não foi o suficiente. Ou não era ele. 

Chan pensa que, talvez, ele não seja o personagem principal de sua própria história. 

 

… 

 

“Não gostei muito do filme,” Hyunjin diz ao se sentar à mesa da praça de alimentação com o seu hambúrguer em mãos. 

Chan encara-o, surpreso. Hyunjin geralmente ama esse tipo de filme romântico. 

“Não?” Pergunta curioso, franzindo levemente as sobrancelhas enquanto dá um gole em seu refrigerante. 

Hyunjin nega com a cabeça e suspira, “não,” ele confirma, dando de ombros e olhando um ponto fixo que está bem atrás de Chan, concentrado e pensando em algo, “achei meio injusto e meio do nada o fim.” 

“Como assim?” 

“Sei lá,” ele descansa o hambúrguer praticamente intocado na bandeja, o olhar contemplativo e, se Chan pudesse dar um chute, invejoso, “só não é justo. O cara fez de tudo por ela e no final ela foi pro que nunca deu atenção.” 

Chan concorda com a cabeça, entendendo o ponto dele. Sinceramente, ele pensa exatamente da mesma forma, mas é curioso que Hyunjin pense assim. 

“Eu pensei que você fosse gostar,” ele comenta enquanto dá de ombros, meio sem pesar o que essas palavras poderiam significar para o amigo. 

“Ué, por quê?” 

“Só pensei que fosse ser o tipo de romance que você ia gostar,” Chan encara-o, recebendo um olhar curioso e defensivo do amigo, “é porque você está sempre atrás de algo novo, Jinnie, e está sempre pulando em conclusões precipitadas quando poderia só olhar ao redor e tentar ver.” 

Chan não quer dizer exatamente o que ele quer dizer, porque isso seria basicamente entregar o que está acontecendo dentro da cabeça confusa e autodepreciativa dele, mas o olhar de Hyunjin é quase magoado e descrente, e o hambúrguer intocado permanece intocado. 

Hyunjin ri sarcástico e revira os olhos, mas não diz nada. 

Eles não tocam sobre o assunto e quando Chan questiona se Hyunjin não vai comer, ele simplesmente dá de ombros e diz não estar com fome. 

Mentira. 

Chan sabe muito bem disso. Está com Hyunjin desde meados da tarde e já é tarde da noite. A essa hora, Hyunjin deveria estar fazendo um dos dramas adoráveis dele para comer alguma coisa.  

Hyunjin ignora qualquer iniciativa que Chan tem de falar sobre o filme, mas o sorriso dele é tão lindo quando a tela do telefone acende com uma notificação, que Chan se vê sorrindo junto, o coração acelerando somente pela beleza do mais novo, até Hyunjin explicar o porquê.

“Ele me chamou para sair,” a genuinidade na expressão dele é tão linda quanto dolorosa, e Chan sente o exato momento que seu sorriso se desfaz, se quebra. Como uma imagem distorcida que ele encara no espelho, até que ela se desfaça em pequenos, minúsculos pedaços. Ele até mesmo consegue ouvir o paft do seu sorriso se espatifando. 

E ele tenta, ele tenta tanto ficar feliz de verdade por Hyunjin, imitar a animação e se contagiar, mas a dor que ele sente queima seus olhos e sua cabeça, e é tão difícil fingir quando se está sofrendo. 

“Oh,” ele diz, encarando a bandeja vazia à sua frente. Seus olhos e estômago ardem e por mais que tenha acabado de tomar sorvete, o gosto que sua boca ostenta é amargo, ferroso, “que bom, Jinnie.”

Quando ele finalmente cria coragem para olhar para o mais novo, Hyunjin já está encarando-o, as sobrancelhas franzidas e o celular na mão com a tela acesa— provavelmente ainda no chat de Seungmin. 

“O que foi?” Hyunjin pergunta, bloqueando o aparelho e deixando-o sobre a mesa, se inclinando para pegar a mão de Chan.

Por reflexo, ou por medo que seus fingimentos caiam por terra, ou por medo que a dor somente se intensifique, Chan recolhe a mão antes mesmo que Hyunjin a toque, e o mais novo fica parado estaticamente no mesmo lugar, a mão no ar, parada entre eles, como se ele estivesse fazendo algo terrivelmente errado. 

Dói, porque tocar Hyunjin é normal, mas não no sentido de comum, mas no sentido de conforto. Porque é o que eles fazem, como um sexto sentido. Suas mãos se procuram involuntariamente e seus dedos se entrelaçam por vontade própria. 

Dói, porque ter Hyunjin tocando-o é fazer com que todos os seus instintos gritem de prazer em uníssono. 

Dói porque não é esse toque que Chan almeja. Esse… bom, esse tem outro dono. 

“Chan?” Hyunjin chama, e Chan percebe que está a segundos de destruir seu faz de contas que ele lapidou e melhorou por tanto tempo. 

“Desculpe,” ele pede, guardando a mão no bolso do casaco de moletom e se afastando o máximo que consegue do amigo, grudando as costas no encosto da cadeira, “só estou com muita coisa na cabeça.” Ele sorri, e sabe que é falso e dolorido, mas espera que seja o suficiente. Porque ele é bom em muitas coisas, mas muita coisa ao mesmo tempo nunca é bom, e, no momento, a cabeça dele tem vários pensamentos incoerentes. Não tem como lidar com todos ao mesmo tempo. 

Hyunjin concorda fracamente com a cabeça, parecendo preocupado, mas também se afasta. As sobrancelhas ainda estão franzidas e os olhos dão espiadas rápidas e desejosas para as mãos escondidas e guardadas de Chan.

“Espero que você se divirta,” ele diz ao se levantar, pedindo desculpas mas explicando com um motivo péssimo que precisa ir embora, deixando Hyunjin sozinho. Talvez pela primeira vez em anos, Chan esteja saindo com o coração partido.  

E ele realmente espera que Hyunjin se divirta.  

Ele precisa superar. Já passou da hora dele superar. 

Hyunjin não vai ser dele. 

Depois de todo esse tempo, não tem porquê Hyunjin querê-lo, não mais. 

Então ele vai fazer o possível para ser um bom amigo, aquele que Hyunjin merece, aquele que Hyunjin procura todas as vezes que aparece na porta de Chan com o coração despedaçado na mão. 

Mas, para isso, ele precisa fingir que está bem. E isso ele não consegue fazer no momento. 

Por mais que ele seja bom em fazer de contas, a realidade assombra-o, envenenando todos os pensamentos e fingimentos dele, e a realidade está exposta no telefone de Hyunjin, no chat com Seungmin, e isso é veneno o suficiente para manchar todos os fazem de contas de Chan. 

 

… 

 

Chan tenta não ter uma conversa cara-a-cara com Hyunjin por um tempo. Tenta evitá-lo. Se não consegue fingir, então ao menos ele precisa se recuperar. 

Não é como se ele estivesse colocando um espaço enorme entre eles, é só que, nos dias que eles deveriam se encontrar para uma sessão de filmes ou um almoço juntos, Chan finge que tem alguma outra coisa para fazer, mas continua mandando mensagem como se nada tivesse acontecido. Por texto é sempre mais fácil. 

E ele fica surpreso que Hyunjin ainda não tenha batido em sua porta, se entrelaçando na vida de Chan como ele normalmente faz, e uma parte feia e odiosa da cabeça de Chan pensa que é porque ele tem coisa melhor para fazer. Hyunjin agora tem uma companhia melhor, alguém que pode dar a ele tudo que ele procura, logo, ele não precisa mais de Chan. 

Talvez seja um pensamento muito autodepreciativo, mas o timing é perfeito demais para ser somente uma coincidência. 

Ele tenta se ocupar com outras coisas, com seus trabalhos, com suas outras amizades, tenta ler um livro novo durante toda essa semana que parece passar muito devagar. Mas é tudo meio que em vão. A concentração dele está fina, quebradiça. Ele se pega pensando a todo momento em Hyunjin com esse tal de Seungmin. Ele também sente saudades, por mais que seja apenas uma semana; Hyunjin sempre deixa um pouco dele nos lugares por onde passa, porém ele já se esvaiu da casa e vida de Chan.  

É como se o cheiro dele não estivesse mais pelas roupas de cama de Chan de onde ele costumava dormir depois de um filme, ou de onde ele costumava chorar no peito de Chan por um amor que não deu certo; é como se as fotos deles não estivessem mais nos porta-retratos que enfeitam as prateleiras da casa de Chan. 

É uma sexta-feira à noite, e Chan está sem ânimo, assistindo algo na televisão que ele presta somente meia atenção. 

Duas batidas suaves soam na porta e seu corpo imediatamente se enrijece. 

É Hyunjin. 

Ele consegue diferenciar cada um de seus amigos pelos mais breves e sutis detalhes, e as batidas na porta é somente mais um deles. 

Ele se levanta no automático, arrumando a toca preta em sua cabeça e jogando um moletom qualquer que estava perdido sobre a mesa da sala em seu torso. Os passos são hesitantes e ele chega a pensar que talvez seja melhor fingir que não tem ninguém em casa, mas seria demais. Seria tentar demais. Ele não quer tentar a esse ponto. 

Ele abre a porta, o barulho de madeira rangendo soando alto pelo corredor onde Hyunjin se encontra, com a luz do telefone iluminando o rosto dele. Ele para de mexer no aparelho para encarar Chan, e dá um sorriso fraco, virando o telefone para o mais velho, que ainda está parado com a mão na maçaneta da porta branca. 

“Já estava te ligando,” Hyunjin fala, passando por Chan e se fazendo em casa. 

“Tava assistindo um filme, por isso demorei,” dá como uma desculpa pouco cabível, mas Hyunjin não contesta ou tenta saber. 

“O que você tá assistindo?” Ele pergunta, se jogando no sofá e encarando a televisão que ainda passa as cenas. Chan esqueceu de dar pause para atender a porta. 

“Hm,” Chan, na verdade, não sabe. Fez tudo tão no automático que nem consegue dizer que filme é, “um filme qualquer.” 

Hyunjin encara-o e Chan percebe que ainda está parado na frente da porta, a mão ainda descansando na maçaneta. A diferença é que agora ela está fechada. 

“É um momento ruim?” Hyunjin pergunta, franzindo a sobrancelha e olhando ao redor do cômodo. Chan nega com a cabeça, finalmente se colocando em ação e se sentando no braço do sofá, a dois assentos de distância de Hyunjin. “Só pensei em passar porque estou com saudade, parece que faz anos que a gente não se vê.” 

Ele sorri, e Chan se vê perdido no sorriso de Hyunjin e nas palavras dele. Elas não significam o que ele quer que elas signifiquem, mas é uma lembrança boa de que a relação deles não é unilateral, só os sentimentos românticos de Chan. Mas isso ele sempre soube. 

“Eu sei,” ele diz, se jogando no assento do sofá, agora apenas uma almofada de distância do amigo. “Desculpe, só estive meio ocupado.” Ele mente pelo o que promete ser a última vez, e suspira. “Estava com saudade também.” 

Ele adiciona, porque chega de mentiras. 

Bom, pelo menos algumas. 

Outras ainda se fazem necessárias. 

 

… 

 

Chan está covardemente evitando qualquer assunto que chegue perto de Seungmin, porque ele não quer saber a resposta. Não quer saber se Hyunjin saiu com ele, se foi legal, se não foi. 

Ele evitou colocar um filme de romance, ao invés escolhendo um de terror, mesmo que ele não fosse muito fã do gênero. Hyunjin parece estar gostando por mais que ele esteja encolhido, mas, como um hábito, Chan mal consegue prestar atenção no enredo. 

Em uma cena mais violenta do que Chan tinha previsto quando escolheu o filme, Hyunjin se aconchega mais perto do mais velho, a cabeça a poucos centímetros de descansar no ombro dele. Os dedos de Chan coçam, implorando para sentir a maciez dos fios bagunçados e embaraçados, mas ele não pode fazer isso, pode? 

Então ele ignora e finge estar prestando atenção no filme. 

É um filme ruim. Não tem um bom enredo, um bom elenco e a única coisa que faz valer a pena continuar assistindo são os pequenos jumpscare vez ou outra. 

Ainda assim, é entretenimento o suficiente; pelo menos para Hyunjin. Chan não conseguiria prestar atenção nem se fosse o melhor filme do mundo passando na tevê. 

Hyunjin se aproxima ainda mais, os braços e pernas encostando nos de Chan, e deita a cabeça no ombro do mais velho. 

Chan passa o restante do filme na mesma posição, sentindo o calor que vibra de Hyunjin e se aconchegando nele, pedindo para que esse momento não acabe, mas o fim dele chega muito rápido. 

Quando o filme termina, Hyunjin ainda fica um tempo do mesmo jeito, encolhido e com a cabeça encostada no ombro de Chan. Os dedos do mais velho agora estão corajosos o suficiente para irem até os fios loiros e bagunçados e sentir a textura deles, bagunçando-os ainda mais enquanto faz um carinho leve. 

Hyunjin suspira, contente, quando Chan passa a ponta dos dedos, em movimentos circulares, na raiz do cabelo do mais novo, e o momento parece parar, com o suspiro de Hyunjin soando e soando e soando repetidamente na cabeça de Chan. 

Quando Hyunjin fala, a voz dele é pequena e quase sonolenta, “o que achou do filme?” 

“Hm,” ele balbucia, parando com o carinho e levando a mão para o ombro de Hyunjin. Hyunjin espera a resposta de Chan, levantando o rosto para encará-lo e, de repente, eles estão perto. Tão próximos. Chan consegue contar cada pequena pinta que ele tem no rosto e consegue ver cada pequena e sutil marquinha de espinha que ele tem. Consegue sentir a respiração de Hyunjin se misturando a sua. 

Ele é tão bonito, e de perto parece que tudo só fica mais intenso e amplificado. Ele é tão lindo que faz os quadros expostos no Louvre virarem brincadeira de criança, ele é tão lindo que tira o fôlego de Chan e resume seus pensamentos a um completo nada. Ele é tão lindo quanto a amplitude de um mar e céu azuis, se fundindo e formando um só no horizonte. 

É tão fácil se perder no olhar de Hyunjin, porque ele encara o mais velho como se ele quisesse dizer algo, mas, apesar de ser bom em muitas coisas, Chan não é bom em ler entrelinhas. 

Em momentos como esse, Chan questiona sobre todo o seu faz de contas. 

Porque viver numa mentira é seguro, é confortável, mas com certeza absoluta — com licença poética para o pleonasmo—, fazer de contas nunca será tão bom quanto a realidade. 

E a realidade dele é Hyunjin. 

A realidade dele está bem ali à frente dele, com olhos brilhantes e lábios vermelhos e entreabertos. 

Fazer de contas é o que ele faz desde sempre, porque a realidade machuca-o, dói. A realidade nunca foi legal com Chan, mas suas mentiras, contadas e moldadas por ele, sempre foram gentis e suaves. 

Mas, para variar, a realidade dessa vez não parece assustadora ou dolorida. Ela parece bem-vinda. Como se estivesse acolhendo-o e pedindo para ele entrar e usá-la. 

E a boca de Hyunjin está tão perto. Os olhos dele estão perdidos em seus lábios também, e a respiração de Hyunjin parece acelerada, batendo cada vez mais rápida e frenética contra sua boca. 

Um momento de deslize. Chan entende isso agora. Foi um momento de deslize. Um momento que ele não deveria ter deixado acontecer, mas quando ele percebeu, sua boca já estava colada na de Hyunjin. 

Ele tem os lábios doces e suavemente gelados e recebem os de Chan com tanto carinho e cuidado, sem se assustar ou trepidar, sem esperar sequer um mísero segundo para reciprocar o beijo, como se ele também estivesse aguardando, ansioso, por esse momento.

É só um selinho, porque Chan ainda é covarde demais, mas faz os órgãos de Chan explodirem em prazer e deixa a mente dele estática. Ele está em pânico, mas ao mesmo tempo tudo parece muito relaxado. É como andar numa corda-bamba. Enquanto ele está em cima dela, tudo é divertido, apesar do medo de cair, mas ele sabe que esse momento vai chegar, ele sabe que, em breve, ele estará caindo de cara no chão.

Hyunjin suspira e inclina a cabeça, aprofundando o beijo e leva uma mão à bochecha de Chan, deixando que sua língua encontre com a do mais velho. O carinho fraco dos dedos de Hyunjin arrepiam todo e cada pelo existente no corpo do mais velho, e ele sente como se o mundo pudesse parar neste exato momento. Ele estaria contente de passar o restante da vida dele dessa maneira, desafiando a física e dizendo que, sim , dois corpos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

É tudo que Chan sempre quis. Nem no faz de contas mais irreal e surreal dele, ele imaginou algo do tipo, algo tão gostoso e satisfatório. Tudo que ele consegue fazer é retribuir, entrelaçando os dedos nos fios loiros de Hyunjin e aprofundando ainda mais o beijo, finalmente beijando-o de verdade, ignorando o pânico e aquela voz chata que soa na cabeça dele dizendo coisas que ele sabe que deveria estar ouvindo, porque logo menos ele vai perder o equilíbrio e despencar da corda-bamba, e ele já está tão longe do chão. A queda será enorme.  

É uma sensação de outro mundo; Chan já beijou várias pessoas antes, mas tudo com Hyunjin sempre é tão diferente, e faz sentido, faz total sentido que seja tão mais intenso com ele, única e exclusivamente porque é Hyunjin ali. Única e exclusivamente porque ele ama Hyunjin. 

Seu corpo todo está arrepiado e com calafrios e, quando ele chupa a língua de Hyunjin, o suspiro que sai do mais novo só serve para deixá-lo à beira de cometer uma loucura e jogar fora todos os fazem de contas que ele já fingiu. 

Não deveria ser uma surpresa, mas eles se encaixam tão bem, como se Hyunjin tivesse sido moldado para caber e completar Chan, e vice-versa. 

Chan sabe que tem que parar, pôr um fim nisso. Eles não deveriam estar fazendo o que estão fazendo, mas é tão difícil lutar contra todos os instintos que ele negou durante bons anos da vida dele. É como nadar contra a maré, inútil e cansativo. E Chan está cansado de resistir. 

Então ele cola ainda mais o corpo no de Hyunjin, levando uma mão à cintura do mais novo enquanto a outra aperta ainda mais os fios loiros nos dedos, abrindo mais a boca e lambendo a língua dele. 

Chan não consegue mais pensar, seu corpo está quente e Hyunjin devora-o na mesma intensidade, e o mais velho não compreende. Por quê? 

Ele não entende o que está acontecendo. 

Ele não parece ser o único faminto e desesperado; afinal, os braços de Hyunjin também estão entrelaçados em seu pescoço e ele está a somente um passo de subir no colo de Chan. 

De repente, como se estivessem quebrando a ilusão de Chan, o celular de Hyunjin toca com uma notificação, o som alto e agudo assusta-os, fazendo com que eles se afastem com a respiração acelerada, e tudo que Chan consegue fazer é encarar os lábios vermelhos e molhados de Hyunjin. 

Ele não consegue pensar direito e, quando Hyunjin olha para o celular e franze o cenho, pânico toma conta do corpo de Chan. 

Ele não sabe o que quer ouvir, mas ele sabe com certeza o que não quer ouvir, e é exatamente isso que sai da boca de Hyunjin. 

“É o Seungmin,” Hyunjin fala baixo depois de alguns segundos encarando do rosto de Chan para a tela, como se tivesse medo que essa frase fosse quebrar algo. Chan não se mexe, esperando uma continuação, esperando que Hyunjin fale algo além disso. “Ele me chamou pra sair.” 

Muitas vezes, nesse mesmo sofá, também com os créditos de filme subindo na tevê, Chan já consolou o amigo quando um romance não deu certo. Passou os dedos pelo cabelo bagunçado dele, tentando desfazer alguns nós, enquanto ouvia-o chorando baixinho e afirmando que tudo ficaria bem. 

Muitas vezes, nesse mesmo sofá, Chan jurou para si mesmo que nunca faria nada a respeito de seus sentimentos, porque eles são unilaterais e tão, tão egoístas. Hyunjin precisa de um amigo, e Chan tenta ser o melhor que ele pode.

Muitas vezes, nesse mesmo sofá, Chan quebrava o próprio coração em pedaços quando Hyunjin chegava, animado, contando sobre algum romance novo e como estava feliz com o encontro e torcendo para que dessa vez desse certo.

Porém, agora, o chão de Chan parece estar se quebrando e sumindo sob seus pés. 

O faz de contas que ele moldou e estruturou por tanto tempo foi aniquilado e queimado tão facilmente, com somente algumas palavras. 

Um momento fora da curva, e tudo foi por água abaixo. Um fio de esperança, e tudo se desconectou. 

Um momento de deslize. Ele se deixou levar por um momento de deslize, por instinto, e agora ele teme perder tudo. Chan sabia que estava se enfiando dentro de uma emboscada, e mesmo assim ele foi, de braços abertos e esperando que desse errado, porque ele é um tolo. 

Exatamente por isso que Chan faz de contas. É exatamente isso que acontece quando você se deixa levar pelo momento. Porque a realidade dói. Ela é traiçoeira e vai te enganar em qualquer sinal de esperança. Ela vai te fazer acreditar em coisas não críveis. 

A realidade de Chan não é Hyunjin. 

Hyunjin é a realidade de um outro alguém e Chan tem que se contentar somente com os pedaços soltos e fragmentados que ele criou em sua cabeça. 

E, por mais que Chan sempre tenha sido bom em fazer de contas, ele não consegue mais fingir. 

Seu coração está gelado e acelerado e o gosto dos lábios de Hyunjin ainda envenenam as papilas gustativas dele, e é tão difícil pensar quando se tem um bolo na garganta e um coração partido na mão de outra pessoa. 

Ele tenta falar, tenta sorrir e pedir desculpa e dizer que ele se deixou levar pelo momento, mas sua garganta tá seca e ele não consegue respirar direito. 

Ele ri fraco, seco, porque parece o certo a se fazer, e se levanta, se afastando de Hyunjin e indo encher um copo d'água. 

E dói. Todo seu corpo dói. Porque ele esteve tão perto de ter o que ele queria e agora tudo foi retirado dele de maneira brutal. 

“Chan?” A voz de Hyunjin ecoa lá da sala, e Chan tenta engolir de uma vez só o líquido transparente que enche o copo. 

“Sim?” A voz está trêmula, e ele respira fundo várias vezes para tentar estabilizá-la. Não dá certo. Suas mãos suam e seu estômago está gelado. Ele está com medo. Em pânico. 

Hyunjin vai ser feliz com um outro alguém, e eu estou bem com isso. Eu realmente estou. 

“Eu preciso ir,” e de repente ele está no batente da porta da cozinha, encarando Chan com os olhos cuidadosos, sobrancelha franzida e mordendo o lábio inferior. Apesar de ser uma exclamação, ele soa incerto, duvidoso, como se ele estivesse buscando uma confirmação em Chan. Ele parece quase hesitante em ir. A voz dele também está trêmula, e Chan não consegue entender o porquê. 

“Vai lá,” ele diz, concordando com a cabeça e sentindo o nó em sua garganta cada vez maior. 

“Chan-,” Hyunjin começa, mas parece não saber como continuar. Ele olha para o mais velho e dá um passo até ele, hesitante. Chan dá um passo para trás, se afastando e encostando o quadril no mármore da pia, porque ele não pode mais estar perto de Hyunjin. Porque o faz de contas dele já está praticamente todo desfeito, e ele não consegue lidar ainda mais com a dor da realidade. Não agora. 

“Vai lá,” ele repete, a voz mais firme dessa vez. Ele precisa retomar o controle. 

“Eu não preciso ir,” muda o peso de uma perna para outra, mordendo o inferior da bochecha. E a voz dele é tão incerta, tão delicada, como se ela fosse quebrar. Chan não quer ser o motivo de Hyunjin se sentir mal ou de se limitar. Ele sabe que errou e que a culpa é dele. “Você sabe disso.” 

“Vai lá, Hyunjin,” ele diz, apontando para a porta, a voz soando quase grosseira. Hyunjin segue, com os olhos, a direção do dedo de Chan, e os ombros dele caem. Quando ele olha mais uma vez para o mais velho, os olhos estão vermelhos e doloridos. Chan não entende. 

Hyunjin ri, sarcástico e dolorido, e balança a cabeça de um lado para o outro, descrente. 

“Você é um covarde.” 

Apesar da voz ser suave, Chan sabe que Hyunjin quer que isso seja algo para ser levado a sério. Mas Chan já sabe. Chan sabe de tudo isso. Ele tem plena ciência disso. 

Ele é só um tolo, um covarde, um medroso, um mentiroso e um fingido. Ele sabe disso tudo. 

Quando Hyunjin vai embora e bate a porta com força, tudo finalmente parece desmoronar, como um quebra-cabeça se desmontando e ficando desconexo.

Chan sente bile subindo e sabe que estragou tudo. As mãos agarram com força o gelado do mármore da pia, mas isso não faz nada para estabilizá-lo. 

O que ele tanto temia aconteceu. 

Seu faz de contas se desfez na frente da pessoa que ele menos queria, e agora ele foi deixado para sofrer as consequências de seus atos imprudentes e impulsivos, sozinho, com o coração quebrado em cacos minúsculos que estão espalhados por todos os cantos dessa casa, em todos lugares, inclusive nas mãos de Hyunjin. 

 

 

 

Hyunjin bate a porta com mais força do que necessário, mas ele está descrente com o quão medroso ou obtuso Chan consegue ser. Ele sente os olhos queimando enquanto espera o elevador chegar ao piso do apartamento de Chan, e luta contra o choro que implora para ser derramado. 

Se Hyunjin for olhar para trás, ele não consegue se lembrar com exatidão quando ele começou a sentir coisas diferentes por Chan, mas parecia inevitável. Chan era confortável, seu ponto de paz. Quando sentia medo, incerto, inseguro, com dor, ele procurava Chan. Ele procurava Chan quando estava animado, alegre, ansioso. E, em algum momento, ele percebeu que algo estava diferente na forma que ele via o amigo. 

Não foi uma surpresa muito grande. Na verdade, não foi surpresa nenhuma. Hyunjin sentia que isso estava fadado a acontecer; assim como dois mais dois está fadado a ser sempre quatro, Hyunjin está fadado a ser sempre de Chan. 

Com o passar do tempo, Hyunjin foi percebendo e entendendo o porquê que ele não dava certo com ninguém. O motivo era Chan. 

Ele nunca deu certo com outra pessoa porque tudo que ele procurava em alguém, ele encontrou em Chan. A paz, a segurança, a fidelidade, o companheirismo. Mas Chan sempre esteve indisponível. Ele mal falava sobre sua vida romântica e Hyunjin passou a deduzir que ele simplesmente não queria compartilhá-la com ele. Se ele nem ao menos queria falar sobre ela, quem dirá ter uma com ele. 

Então ele continuou buscando Chan em outras pessoas. 

Mas nunca deu certo. 

E ele tentava, se iludia. Toda vez que ele conhecia uma pessoa nova, ele tentava ser otimista e pensar que dessa vez daria certo, que era a vez, que ele estava superando Chan. No final, ele nunca foi o suficiente pra outra pessoa, e ele sabe bem disso. 

Como você pode dar o seu tudo para alguém que você não tem real interesse? As pessoas pareciam perceber isso, então diziam que não daria certo e cada um seguia seu caminho. 

Talvez Hyunjin estivesse se autossabotando, guardando uma parte de si somente para Chan. Talvez ele fizesse dar errado intuitivamente para ter um motivo para correr até os braços de Chan implorando por cuidado e afago. Talvez. 

E toda vez doía.

Apesar dos pesares, os pequenos términos sem significado que ele viveu, todos machucaram-no. Embora ele não estivesse tentando cem por cento, a ilusão e a esperança de finalmente dar certo era uma vilã que ele não conseguia calar e derrotar. 

E ele continuou procurando porque ele continuou achando que Chan estava indisponível. 

Até Seungmin. 

Algo estava diferente em Chan, ele parecia mais distante, arisco, evitando o tópico como se ele fosse um tabu. Hyunjin não sabia o que era, mas algo estava fora do normal. 

E então veio o beijo e tudo se conectou perfeitamente. Foi como se o mundo de Hyunjin estivesse vendo novamente a luz do dia, com o Sol irradiando e iluminando-o. Ele entendeu porque ele esperou por Chan, e a certeza de que era Chan só se fez ainda mais absoluta.

Não tinha outro alguém, nem mesmo uma pequena possibilidade disso. Mas Chan não parece disposto, e é por isso que Hyunjin luta contra suas lágrimas enquanto anda o caminho inteiro até sua casa. 

Ele sabe que está errado quando manda mensagem para Seungmin falando que estará pronto em um hora, mas o coração dele bate acelerado e angustiado, com raiva de Chan por ser um covarde e com raiva de si mesmo por não bater o pé e simplesmente falar na cara de Chan tudo que ele quer dizer. 

Então, ele chega em casa, toma um banho, se arruma, põe sua melhor roupa e pede para Seungmin levá-lo em um lugar que ele possa beber e dançar e tentar esquecer Chan. 

Ele sabe que está usando Seungmin, mas na sua mente só passam cenas da boca de Chan, e do cheiro dele, e de como ele conseguiria contar cada sarda clara que o mais velho tem no rosto se eles ficassem só mais um tempo se beijando ou perto do jeito que eles estavam. Todo o sentimento de completude e satisfação que ele sentiu enquanto estava sentado ao lado do mais velho, se esvaiu e virou algo amargo e sufocante.  

Ele não consegue esquecer o gosto de Chan, por mais que ele beba um drink doce e com morangos, por mais que ele beije Seungmin, por mais que ele coloque força nesse beijo, talvez tentando se forçar a fazer com que o gosto de Seungmin vire o de Chan, ou que a boca deles se encaixem como a boca de Hyunjin e de Chan. 

Ele se odeia por isso. Ele se odeia por fazer isso com ele mesmo e por fazer isso com Seungmin, mas ele jura para si mesmo que será somente por essa noite, que ele precisa dessa noite para poder entender e tentar lidar, e pela manhã ele vai terminar o que mal começou com Seungmin. 

Ele se odeia toda vez que ele olha nos olhos de Seungmin e vê o reflexo de Chan encarando-o, os olhos avermelhados e assustados, medrosos. Ele se odeia porque ele não consegue parar de pensar que devia ser Chan ali, e que poderia ser Chan ali. Mas não é. 

E não tem muita coisa, hoje, que ele possa fazer sobre isso. 

Então, por enquanto, ele tenta esquecer, mesmo que por uns minutos, o fantasma do sorriso e da boca de Chan. 

 

… 

 

Chan está parado exatamente no mesmo lugar que estava quando Hyunjin bateu a porta, e não sabe quanto tempo se passou até que ele foi embora, mas seus dedos ainda se agarram ao mármore gelado da pia e sua cabeça repete, inutilmente, o beijo deles. 

Se ele fechar os olhos e se concentrar, consegue sentir os lábios macios de Hyunjin contra os dele e como o gosto e cheiro de Hyunjin ainda estão impregnados nele como se fossem dele próprio. 

Não sabe dizer se está chorando ou não, porque o corpo dele todo está formigando e ele mal consegue sentir outra coisa senão o coração batendo forte e inconstante, lembrando-o da besteira que ele se deixou fazer. 

Quando a porta da sala abre, ele não se assusta de ver Changbin, mas o mesmo não pode ser dito pro amigo. 

“Você tá um lixo,” ele diz ao fechar a porta, se aproximando e tocando no ombro do mais velho, o rosto se contorcendo em preocupação, “você estava chorando?” 

Chan dá de ombros, porque de repente parece que todos os membros do corpo dele estão sem força, e é tudo que ele consegue fazer. 

“O que aconteceu?” Changbin pergunta, abrindo a geladeira e enchendo um copo d’água para o amigo. 

Chan conta, detalhe por detalhe, e quando ele termina, eles estão sentados no sofá, encarando o escuro da televisão que zomba da covardia de Chan. 

“Cara,” Changbin começa, pausando e escolhendo as palavras, “eu realmente acho que ele é tipo, muito afim de você.” 

“Impossível,” ele diz, porque não tem como. Não faz sentido. 

Changbin suspira, cansado, e passa a mão pelo cabelo. O cômodo fica em silêncio por um tempo, e as batidas do coração de Chan ainda são fortes o suficiente para ele ouví-las em seu ouvido, como se gritassem com ele. 

“Você estava certo, Seungmin realmente é diferente dos outros.” Ele ri fraco, pois agora ele acredita e, por mais que doa, ele está tentando aceitar. Changbin não fala nada, mas o olhar dele é pensativo enquanto ele encara a parede bege da sala de Chan. 

“Você me avisou, Bin, e eu escolhi não acreditar,” Chan desabafa, porque parece que o peito dele vai explodir se ele não falar o que está sentindo, “você me avisou há muito tempo que era pra eu fazer alguma coisa, mas eu não fiz. Porque eu sou um covarde, e como o Hyunjin pode querer alguém assim?” 

“Chan-” Changbin começa, mas Chan interrompe-o. Ele sente como se as palavras estivessem transbordando e sendo cuspidas sem seu consentimento. E dói demais. Reconhecer tudo isso dói, porque a culpa de nada nunca ter acontecido é completamente dele. A culpa é dele. E sempre será. 

“E agora ele encontrou alguém de verdade, e eu me sinto péssimo porque eu nunca vou fazer o Hyunjin sorrir da forma que uma única mensagem desse menino fez. Isso faz de mim uma pessoa terrível porque, acima de tudo, ele é o meu melhor amigo e eu deveria estar feliz por ele, mas eu não consigo encontrar em mim algo, uma razão para estar feliz quando ele simplesmente está indo para os braços de outra pessoa.” 

“Chan, também não é assim,” Changbin tenta argumentar, se aproximando do amigo e colocando uma mão no braço dele, “não tem problema você se sentir assim. E, eu não sei de onde você tirou isso, cara, mas o Hyunjin sempre guardou os melhores sorrisos dele para você.” 

Chan nega com a cabeça, os olhos vermelhos e doloridos. A cabeça dele dói, dando pontadas que ecoam o ritmo das batidas frenéticas do coração dele. Changbin não entende. Chan ama Hyunjin, e ama ser amigo dele, mas não é somente esse o amor que ele quer do amigo, ele quer algo mais, algo diferente, algo que não cabe a ele ter. Algo que Hyunjin não quer dar para ele. 

E que tipo de amigo é esse? 

Chan sabe que, além de tolo e mentiroso, ele também é um egoísta. 

Ele é bom em muitas coisas, mas parece que o faz de contas dele desmoronou. E sem isso, quem é ele? 

Sem as ilusões que ele criou na própria cabeça sobre Hyunjin, o que sobra dele? Sobra somente a versão real, aquela que está beijando e dançando e bebendo com Seungmin nesse exato momento. E essa é uma das verdades da vida dele que mais dói. Por mais que ele tente, agora que a realidade já impregnou o conto de fadas dele, ele não consegue mais voltar pro fingimento. 

Ele é realmente bom em muitas coisas, mas agora, essa lista tem menos um elemento. 

 

 

De alguma forma, Changbin conseguiu convencer Chan a sair de casa, fê-lo tomar um banho, arrumar o cabelo escuro e colocar uma roupa bacana. A sensação é boa quando ele se olha no espelho, mas isso não diminui a bagunça que estão os pensamentos dele. 

Ele não sabe como eles foram parar nesse bar, que, sinceramente, está cheio demais para o gosto de Chan, mas a música alta é bem-vinda e é quase eficiente em calar os pensamentos ainda mais altos dele. 

Changbin está no banheiro e Chan está apoiado no balcão do bar, uma lata de cerveja na mão enquanto ele vasculha preguiçosamente o ambiente, tentando calar e tampar as imagens de Hyunjin de sua cabeça. 

Ele vê alguns rostos conhecidos, mas evita encarar todos. Ele não está muito no mood para ser amigável e bater um papo furado, falar sobre o clima ou sobre o que está acontecendo na vida amorosa dele. 

Ele dá um gole na cerveja, esperando o momento que Changbin vai voltar logo do banheiro para ele dar uma desculpa qualquer e ir para casa, e de repente ele pensa estar vendo coisas. 

A cerveja fica parada dentro de sua boca enquanto o coração dele acelera e ele pisca várias vezes, tentando decifrar se ele está realmente vendo o que está vendo ou se ele finalmente enlouqueceu. 

Hyunjin está ali. 

Bebendo um drink avermelhado, o cenho franzido e um sorriso forçado no rosto. Ele encara um rapaz, bonito, quase da altura dele, com o cabelo quase loiro e óculos redondos. Ele sorri meigo, carinhoso para o mais alto, e Chan entende. Esse é Seungmin. 

De todos os lugares que eles poderiam estar, eles acabaram no mesmo bar. De todas as possibilidades dessa cidade não-tão-grande, eles acabaram ali, e agora Chan é obrigado a ver a troca de afeição entre eles, porque ele não consegue desviar o olhar. Ele sente como se seus olhos estivessem traindo-o, vendo coisas que ele jamais vai conseguir apagar da memória. 

Ele engole a cerveja, e ela desce amarga, quente, ela desce rasgando a garganta dele, mas ele duvida que seja ela a fazer isso. 

Ele não consegue desviar o olhar nem mesmo quando Seungmin sussurra algo no ouvido de Hyunjin, que faz ele dar um sorriso aberto, verdadeiro dessa vez, os olhos virando meia-luas. Ele não consegue desviar o olhar quando Seungmin se aproxima com uma mão na cintura de Hyunjin e beija a bochecha dele. Ele não consegue desviar o olhar quando a boca de Seungmin se arrasta até que esteja na boca de Hyunjin. Ele não consegue desviar o olhar quando Hyunjin entrelaça os braços no pescoço do mais baixo, e aprofunda o beijo. 

Ele não consegue desviar o olhar nem por um milésimo de segundo. 

Chan pensa, amargamente, que devia ser ele ali. Mas ele sabe que não tem direito de pensar isso, então, ao invés de inveja e ciúmes, ele sente uma pontada no estômago que ecoa no corpo dele todo. As mãos dele suam e apertam a latinha com mais força do que ele deveria, mas ele mal tem consciência de seus órgãos. 

Ele não achou que fosse ter que ver algo do tipo tão cedo, e a imagem de Hyunjin beijando outra pessoa assombra-o, e sabe que o assombrará para sempre, como uma maldição. Um presente para lembrá-lo do covarde que ele é. 

Mas ele não consegue desviar o olhar, e quando eles findam o beijo, os olhos de Hyunjin se prendem nos de Chan como ímãs, e o tempo parece parar. Não porque tem fogos de artifício estourando dentro da cabeça de Chan, mas porque ele tem medo. Hyunjin tem os olhos levemente arregalados, surpreso, e Chan consegue ver o exato momento que os olhos dele perdem o brilho e o sorriso dele murcha.

Mesmo assim, ele não consegue desviar o olhar. Então ele sorri. Apesar da dor e da confusão que ele sente, ele sorri fraco, sorri dolorido. Sua visão está embaçada e ele sabe que está a um ponto de chorar, mas ele sorri. Não tem mais nada que ele possa fazer. 

Ele decide deixar uma mensagem para Changbin dizendo que precisou ir embora e vai para casa, porque o ambiente amplo do bar está deixando-o sufocado, e a música alta não consegue mais abafar os pensamentos que se formam na cabeça dele.  

Ele se vira para pagar a comanda, os movimentos automáticos e apressados, e quando ele está pronto para sair, não vê mais Hyunjin onde ele estava antes. Talvez ele deixe uma mensagem para ele também, pedindo desculpas e dizendo alguma outra coisa, talvez para começar um novo faz de contas. Ele ainda não sabe. 

Quando ele passa pela porta do bar e sente o vento fresco no rosto, ele deixa algumas lágrimas caírem, porque parece que ele não consegue mais controlar isso também. 

“Você é um covarde” ecoa na cabeça dele. Ele consegue ouví-las com clareza, mas ele não entende sobre o que Hyunjin estava dizendo. Apesar de saber que isso é verdade, ele não compreende como isso se encaixaria na situação. Mas ele aceita o título. Ele abraça-o. 

“Você é um covarde,” ele ouve novamente, e dessa vez não somente dentro da cabeça dele. Quando ele se vira, Hyunjin está ali, com os olhos vermelhos e a boca seca. Há rastros de lágrimas na maquiagem dele, e o peito de Chan dói ao perceber isso. 

“Hyunjin,” Chan começa, mas ele não sabe o que falar. Ele soluça fraco e passa a mão pelo cabelo, “você tá certo.” 

“Urgh,” Hyunjin quase rosna, se aproximando, raivoso, dolorido, “você é tão …,” ele aponta um dedo no peito de Chan, “mesmo depois de tudo, como você não percebe?” 

“Perceber o quê?” Ele pergunta, confuso. 

“Para e pensa, Chan, sai um pouco de dentro da sua cabeça,” Hyunjin quase implora, a voz saindo abafada como se ele estivesse se refreando de dizer algo. Quando Chan não responde nada, ele suspira, “por que você acha que eu nunca dou certo com ninguém, Chan? Por que você acha que eu sempre vou correndo para você quando tudo dá errado e também quando tudo dá certo? Por que você acha que eu beijei você?” 

Chan ouve as palavras, mas não consegue processá-las corretamente. Se ele parar e pensar , como Hyunjin falou, ele vai chegar num resultado que ele não sabe se pode confiar. O quão longe estaria esse resultado da verdade? Não faz sentido. 

“Isso não é engraçado, Hyunjin,” ele diz. Hyunjin só pode estar brincando com a cara dele. Isso é insinuar coisas demais, e não tem graça. 

“Ah, isso é hilário,” ele revira os olhos sarcástico, cutucando o peito de Chan fracamente, “o que não é engraçado é você ignorando a existência dos nossos sentimentos só porque você é um covarde, Chan. Eu não sei do que você tem tanto medo, mas você não precisa ter medo de mim, ou de você, e muito menos de nós.” 

Chan não percebe que está segurando a respiração, ou que Hyunjin está quase gritando agora, exasperado, “você é um covarde, Chan, mas eu não sou. Então ou você faz alguma coisa, ou nós dois vamos ter que aprender a lidar com o peso da rejeição.” 

O silêncio que cai sobre eles é quase ensurdecedor, e Chan tenta processar. 

Hyunjin está basicamente falando que ele também gosta de Chan. Hyunjin está dizendo para Chan agir, fazer alguma coisa. 

O problema é que Chan passou tanto tempo dentro de suas fantasias que ele nunca pensou que seus desejos pudessem, um dia, se tornar reais. Então ele tenta processar cada palavra, uma a uma, tentando fazer com que elas façam sentido. 

Hyunjin encara-o, esperando ele tomar uma atitude, como se ele também estivesse na beira do precipício, esperando a mão de Chan para salvá-lo ou empurrá-lo de uma vez. Chan quer estender a mão, mas ele não tem certeza como, e nem se consegue. 

Chan não sabe se ele consegue, mas ele sabe que quer tentar. Por ele, por Hyunjin, por todas as fantasias que ele já fez de contas. 

Então quando Hyunjin revira os olhos e bufa, pronto para ir embora, Chan para-o com uma mão no braço dele, e deixa que os instintos dele o guiem. 

É muito fácil deixar que as mãos dele encontrem a cintura de Hyunjin, bem onde as mãos de Seungmin antes estavam, e é tão fácil deixar que seus olhos se fechem quando eles estão perto o suficiente para que as respirações se entrelacem. É fácil esperar pela confirmação de Hyunjin, por mais que o coração dele esteja acelerado e seu estômago frio e gelado de ansiedade.

É fácil beijá-lo, tão ou mais fácil quanto foi da primeira vez, e a urgência no beijo e corpo de Hyunjin só faz com que ele beije-o ainda com mais força, inclinando a cabeça e puxando-o para mais perto. 

Chan entende tudo quando Hyunjin agarra seus braços e suspira no beijo. Ele finalmente entende. 

Jamais poderia ser Seungmin ou qualquer outra pessoa, porque Hyunjin quer ele. Hyunjin o quer da mesma forma que Chan sempre idealizou em seu faz de contas, mas a realidade é muito mais doce e bem-vinda. Simplesmente porque ele não precisa fingir. Ele não precisa se forçar a imaginar. 

Porque a realidade dele tá ali, beijando-o e retribuindo seus sentimentos, algo que seus fingimentos jamais foram capazes de fazer. 

Hyunjin é lindo. É a realidade e a verdade mais bonita e certa de Chan, e ele nunca mais, jamais, quer se perder em irrealidades de novo. 

Porque, finalmente, a realidade dele é Hyunjin. 

Notes:

É isso. Espero que tenham gostado.

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Até a próxima!