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“Como é que tu chega em mulher?”
O copo que Julinho levava à boca parou no meio do caminho quando Maurílio puxou a outra cadeira amarela da mesa do bar. Assim, de repente, com a pergunta se projetando antes mesmo dele completar o ato de se sentar, sem cumprimentar nem nada.
“Qual é, Palestrinha, nem dá oi?" ralhou, mas com um sorriso amplo de quem recebe bem o amigo apesar da falta de educação dele. Ignorou a virada de olhos em resultado e completou, com um gracejo "Foi pra isso que tu me chamou aqui?"
O moreno apenas bufou, impaciente.
"Não é você que vive zombando de mim com isso?" ele ergueu um dedo em direção ao colega, surpreendendo-o o suficiente para tirar seu sorriso "Julinho, eu tô aqui engolindo todo o meu orgulho pra admitir que você tem razão. Já tô remoendo isso tem tempo. Eu sou ruim de lábia e você… Bom, é o contrário. Então me ensina"
Eram pelo menos duas coisas inacreditáveis de uma só vez. Primeiro, ouvir da boca de Maurílio que Julinho estava certo em alguma coisa. E segundo, ele admitindo que Da Van era melhor que ele em algo. Se estivessem em um consultório, e não num bar, e Julinho fosse médico, e não piloto, tiraria um termômetro para consultar a temperatura do colega para se certificar que ele não estava delirando de febre. Mas como estavam num bar, e não num consultório, e Julinho era piloto, e não médico, só se limitou a questionar:
"Cê tá dodói, dodói?"
Maurílio balançou a cabeça, irritação crescente.
"Eu sabia que isso não era boa ideia. Você é incapaz de levar qualquer coisa a sério"
Ele já ia se levantando, mas Julinho fez um gesto com as duas mãos para ele ficar, acenando contra a mesa.
"Pera, peraí! Não é isso não, eu só estranhei, desde quando tu fala que eu tô certo em alguma coisa?"
"Eu já falei que eu tô engolindo todo meu orgulho por isso, Julinho. Já tá muito difícil, se tiver que ficar mais eu prefiro deixar pra lá"
Agora, no entanto, o dono da Kombi não tentava se levantar. O beicinho e os braços cruzados de quem se incomoda ainda estavam ali, mas também tinha uma reticência no olhar de quem tinha que ficar. Com o tempo, a cena se adornou com um pezinho batendo de impaciência à medida que o silêncio ia se prolongando. Julinho só o observava.
"E aí? Vai me ajudar ou não?"
Ao fim do período de ponderação, Da Van enfim respondeu:
"Olha só, ajudar eu até ajudo. Mas não garanto nada não, porque seu caso é difícil" Maurílio ignorou a cutucada e sorriu, animado "Mas tem que ser do meu jeito! Não dou aula com quadro negro e essas frescuras que você gosta, não, dou aula com uma cervejinha do lado e sem hora marcada, na hora que eu tiver alguma dica pra te dar, eu dou"
Dos Anjos concordou, van dada não se olha o chassi. Agora só estava empolgado para começar.
"Então, tá no jeito pra primeira lição?"
"Agora? Já?"
Julinho deu um novo gole na bebida.
"Tamo com cerveja e eu tô com disposição. E achei que tu tava com pressa, pelo jeito que cê chegou aí"
Ele riu pelo jeito que os olhos de Maurílio tornaram a brilhar em empolgação.
"Pega o celular aí que essa você vai ter que anotar, pra não esquecer nunca. A primeira lição é a mais importante" fez suspense, como se tentasse tornar o que falava mais sério do que realmente era "Cê tem que ter confiança. Não é a toa que tu só pega velha, dodói. Velha gosta de cuidar, igual minha avó, que gosta de fazer tudo pra mim lá em casa. Aí elas te vêem aí, com essa cara de coitado e todo inseguro, e você consegue com elas. Se quiser diversificar o repertório vai ter que confiar no teu taco"
Os dedos do moreno iam deslizando pela tela do celular enquanto o outro falava.
"Tu é um cara gente fina, manja de cinema, é bonito" Maurílio ergueu uma sobrancelha e seus dedos oscilaram um pouco com a última palavra, sem que tirasse os olhos do aparelho "Tem que ter mais confiança, dodói"
Ele anotou tudo e não apagou mesmo quando Julinho disse que só tinha que ter anotado o principal ("tem que ter confiança"). Talvez até houvesse mais o que falar, mas por ora aquilo era tudo que o ânimo permitia. Aproveitaram o momento pra baixar alguns cascos e jogar conversa fora, ocupando o resto da noite dos dois.
…
A próxima aula foi marcada para dali a "dois minutinhos, vou só tirar a água do joelho", em uma tarde de folga em que estavam na casa de Maurílio. Já havia passado bem umas duas semanas desde a primeira lição, e o piloto da Kombi já estava beirando a impaciência (contida, já que concordara com os termos), ao ponto de se surpreender com o surgimento repentino da disposição.
"Seguinte" o loiro voltou à sala já falando, com um dedo apontado para o outro "o jeito de falar é tudo"
"Como assim?"
Maurílio já foi logo sacando o celular enquanto Júlio César se sentava a seu lado, mas antes mesmo que pudesse começar a digitar ele o tirou de sua mão.
"Essa parte não adianta tu anotar. Tem que ter o feeling. Cê vai sacar exatamente qual o tom que tem que usar com a pessoa, só precisa observar ela e confiar no instinto" ele foi emulando as características que falava "Tem hora que você vai ter que ser mais manso, chegar falando devagarinho, baixinho, gostosinho. Tem hora que vai ter que chegar chegando, pra cima, com animação. E por aí vai. O negócio é sentir"
Depois de acenar com a cabeça para cima e para baixo em assimilação, o moreno o encarou, esperando que continuasse. Mas ele apenas abriu mais uma das latas de cerveja que compraram para assistir ao jogo que agora estava no intervalo, e começou a tomar, se recostando no sofá.
"É só isso?" perguntou, sem conseguir esconder a ligeira frustração "Vai ser sempre uma dica por vez?"
Brenda tinha se aproximado dos dois e começou a morder a canela de Julinho, como sempre fazia quando queria sua atenção (ela preferia sempre a dele quando ele estava presente). Ele pôs a lata de lado, apanhando despreocupadamente a cadelinha no colo antes de responder:
"Sempre eu não sei, eu não faço plano de aula. Mas eu vou falando as coisas enquanto vou lembrando, que que eu posso fazer se até agora tá sendo uma coisa de cada vez?"
Ele deu de ombros e Maurílio acabou fazendo o mesmo. Era melhor do que nada.
…
Talvez por culpa, talvez apenas pra sorte de Dos Anjos, Julinho chegou à gravação do Choque dois dias depois avisando pra ele esperar quando acabassem, porque dessa vez ele tinha duas lições pra passar. Quando as câmeras foram desligadas e os demais saíram do estúdio, eles permaneceram ali, sem despertar estranhamento por já estarem acostumados a fazerem isso para bater papo.
"Corpo e olhar" Da Van declarou, fazendo um símbolo de "ok" com as mãos "São duas coisas fundamentais"
"Julinho, eu já falei que não vou fazer academia" começou Maurílio, mas o loiro revirou os olhos.
"Não é disso que eu tô falando, dodói. É verdade que eu já falei e ainda acho que trabalhar esse bracinho fino aí ia te ajudar em muita coisa, mas tô falando de pose. Lembra do que eu disse anteontem? Tem que aliar aquilo a linguagem corporal. Cê vai sentir qual que é a postura que tem que adotar do mesmo jeito que vai sentir o jeito de falar"
Não parecia de fato uma lição tão fundamental assim, porque era um tanto quanto óbvio. Maurílio podia não ser muito escolado na conquista, mas não era burro e poderia ter deduzido aquilo. Ainda assim, foi um bom reforço e era melhor ainda ver Julinho demonstrando compromisso com os ensinamentos.
"Mas o pulo do gato tá é no olhar" ele prosseguiu, sem realmente dividir as lições em parte um e parte dois, mas deu para perceber a transição "Não importa a abordagem, o olhar tem que ser sua arma principal"
Ele se virou sobre sua banqueta, encarando Maurílio de frente, que começava a ruborizar. Ia direcionando o olhar para exemplificar cada parte da explicação.
"Tu tem que manter contato visual, pra começo de conversa" ele deslizou no ar dois dedos em v, dos olhos de um para os do outro "Olho no olho é uma beleza, né, Palestrinha? Cria conexão. Dependendo do nível do papo, pode percorrer a pessoa com o olho pra dar aquela secada, mas com cuidado pra não parecer um tarado. E pode dar uma olhada pra boca da pessoa também, que isso meio que já fala o que que tu quer. Mas o principal é o olho no olho"
Ele desfez o contato enquanto ficava de pé, estalando o pescoço e falando que por enquanto era aquilo. Contrariando a insistência do professor, Maurílio sacou o celular e pediu pra esperar um minutinho enquanto ele anotava as dicas "por via das dúvidas, só pro caso dele esquecer". Fizera o mesmo na aula anterior, ainda que Julinho reforçasse que só a primeira dica era coisa pra anotar. A contragosto, ele esperou, e então os dois saíram juntos para o estacionamento, onde conversaram um pouco mais e fumaram antes de ir embora.
…
"Tá tudo errado"
Julinho gargalhava, enquanto Maurílio se segurava para não rir junto e para manter a expressão brava. Ele havia explicado como costumava chegar em alguém antes de tê-lo procurado pelas aulas. Geralmente, começava pedindo licença, e logo emendava com um comentário sobre como a pessoa parecia com alguma estrela do cinema mundial. Em seguida, começava a falar sobre algum filme feito por essa estrela. Admitiu que geralmente falava demais, e que gagueira ou se embolar não eram algo incomum.
"Pra começar, olha aí a minha primeira lição. Tem que ter confiança, senão fica nervoso mesmo e dá merda. E depois, olha aí esse papo ruim! Porra, Palestrinha, dá um tempo, nem tudo é cinema, não. Pergunta que que a pessoa faz da vida, elogia normal, elogio é bom. Até comenta do clima, só não começa a dar palestra. Aliás, deixa a pessoa falar também pô, não é só você que tem boca nessa história, até porque se fosse ia ficar meio difícil beijar, que é o objetivo aqui"
Maurílio cedeu duas vezes, rindo e admitindo, mais uma vez, que sua abordagem era ruim. Talvez tivesse que admitir que era ainda pior que pensava. Lançou um olhar lá pra fora, pela porta do boteco em que estavam. Geralmente ficavam nas mesas da calçada, mas tinha começado uma chuva que só estava parando agora, boas horas depois. O céu se abrira mas continuava escuro, porque a noite chegara enquanto eles conversavam.
Nenhum dos dois tinha certeza se aquilo havia sido uma aula ou só alguns comentários extraclasse, coisa inevitável quando professor e aluno são amigos tão próximos. Por via das dúvidas, Maurílio enfiou as mãos discretamente sob a mesa e escreveu "não dar palestra" no celular, com alguns erros de digitação que poderiam ser resolvidos depois.
…
O dia estava quente demais para ficar em ambiente fechado, não importa quantos ventiladores (dois) a suíte de Julinho tivesse. Era por isso que ele e Maurílio estavam com violão e cooler de cerveja no quintal, aproveitando que naquele finzinho de tarde o sol não incidia sobre suas cabeças.
Não era dia de aula. Na verdade, Da Van não pensava em muitas dicas que ainda pudesse passar, e começava a se dar por satisfeito. Agora apenas se perguntava se Maurílio iria conseguir aplicá-las, ainda que não soubesse bem por que não gostava de pensar muito nisso.
"Vou lá pegar uns tira-gosto pra gente, quer?" perguntou enquanto deixava o violão de lado, se levantando.
O estômago começava a roncar, não tinham visto a hora passar, entretidos pelo papo e as músicas. O moreno aceitou, sugerindo que ele trouxesse algo com sustança porque nenhum dos dois comera nada desde o almoço. Ele foi e voltou com um prato cheio.
"Só tinha salaminho e biscoito. Eu ia falar pra minha avó fazer um patê de frango mas ela saiu, misturei maionese com ketchup mesmo"
Ele puxou uma cadeira livre pra frente das duas que ocupavam e se sentou na sua, já começando a comer. Maurilio o acompanhou, e depois de duas mordidas colocou a mão sobre a boca, fazendo um "hum" para chamar o outro, antes de dar uma golada na cerveja e falar:
"Ficou bonzão o patê improvisado, você mandou bem"
Julinho agradeceu com um sorriso, que foi retribuído.
"Calor demais hoje, né?" o outro comentou, aleatoriamente "Nem seu ventilador deu conta"
"É verão, brother. E Rio de Janeiro é isso aí, amostra grátis do inferno"
Os dois riram, ainda comendo os petiscos. Clima leve, papo tranquilo… Julinho gostava daquilo, gostava de Maurílio. Era bom ter um amigo com quem podia ter momentos como aquele e com quem podia contar para quando precisasse. Era por isso que queria que o Palestrinha também pudesse contar com ele quando precisasse, por isso que o ajudava mesmo com algo que, por algum motivo, o incomodava.
"Aí, e então?" não queria, mas se sentiu impelido a perguntar, em uma curiosidade que agia contra si mesmo "As aulas têm ajudado?"
O moreno deu de ombros.
"Ainda não. Mas não é sua culpa, você ensinou muito bem. Eu é que não tive a oportunidade certa ainda"
"Entendi… É, dodói, o resto agora é contigo mesmo, minha parte eu já fiz. Qualquer coisa vai lendo aí essas anotações que você insistiu em fazer pra não esquecer enquanto não surge a oportunidade" ele pausou, tentando não demorar no silêncio para não causar estranhamento "Se chegar a usar me fala. Sabe como é, quero saber se funcionou"
Maurilio ouvia atentamente enquanto ele falava. Bem atentamente. Julinho sorriu, satisfeito pela atenção que recebia. Enquanto era observado assim, de perto, esqueceu por um momento da preocupação anterior. Sentiu seu sorriso não passando despercebido por Dos Anjos, que engoliu meio em seco enquanto baixava os olhos para seus lábios. Ele fez o mesmo, se sentindo atraído pelos dele, respiração pesando enquanto ia se inclinando em sua direção.
Epa. Peraí.
"Tu tá usando minhas próprias dicas comigo?"
Ele se afastou de novo, enrugando a testa e assustando o outro. Maurílio não conseguiu conter uma risadinha sem jeito.
"Eu achei que você não ia perceber" Julinho já ia retrucar, se sentindo um otário. Então o filho da puta estava esse tempo todo só preparando uma pegadinha na qual ele quase caíra... "Mas também, o que que eu posso fazer se era só com você que eu queria usar desde o início?"
Júlio César ficou mudo. O xingamento já estava na beira dos lábios antes da última frase. Teve de segurá-lo e empurrá-lo para dentro, para fazê-lo voltar acompanhado de uma risadinha, em uma nova forma.
"Seu filho da mãe…" disse, tornando a se curvar, agora de uma vez só e puxando Maurílio para si.
Se beijaram devagar, o estômago dando piruetas de primeira vez. As bocas se encaixavam tão bem quanto as peças que Julinho agora se sentia bobo de ter ignorado, tanto do que sentia quanto das pistas dadas pelo cinéfilo. Irônico que estivesse tudo mais claro agora que já não precisava mais.
Pausaram. Não se afastaram totalmente e ainda sentiam a respiração um do outro, seus sorrisos de satisfação quase se mesclando.
"Eu sabia que sua boca ia ser gostosa mesmo com gosto de salame" disse o loiro, brincando com a língua sobre o lábio do moreno.
"Idiota" ele replicou, dando uma mordida seguida de um selinho.
Confiança, feeling, corpo e olhar. Dali em diante essas coisas eram bem mais naturais. E palestra podia até ser liberado, mas pra depois. Agora realmente eles tinham mais o que fazer com as bocas, enquanto Maurílio comemorava sua nota 10.
