Work Text:
Ninguém nunca havia mentido, falado que era fácil crescer no lado Sul da cidade ou sair de lá. Todos sabiam que era difícil, que mudar de vida era quase impossível naquela situação, naquela economia, e que a maioria daquelas crianças acabariam como seus pais: presas, viciadas ou trabalhando até morrer de cansaço para viver com dignidade.
Mesmo assim, mesmo consciente de tudo, Seungkwan nunca se impediu de chorar.
Frustração, dor, revolta. Ele queria ser muitas coisas.
É difícil ser pobre e ter sonhos nos Estados Unidos da América, o país da liberdade, que sempre o privou de seus maiores objetivos porque, mesmo que ele fosse o irmão mais novo de sua grande família, ele ainda teve que começar a trabalhar aos 14 anos para ajudar nas contas, teve que abandonar o sonho de fazer uma faculdade decente para não deixar sua família sem luz, água ou comida.
Era por esse motivo que ele se acomodava no colo de Hansol, seu vizinho durante todos os seus 16 anos de vida, sentados dentro da van do rapaz durante uma noite fria e permitia que ele enxugasse suas lágrimas.
Seungkwan sempre foi o mais emotivo de sua família, uma criança sensível, mas com os outros ele construía um muro de aspereza para se proteger. Hansol nunca viu esse muro, pulando-o como eles faziam quando crianças para roubar frutas e outras coisas do jardim dos vizinhos, e enxergando o mais velho como ele realmente era.
O rapaz mais velho tinha mãos cheias de calos porque, apesar de sua aparência mais delicada e baixa estatura, tinha um temperamento rude, era um protetor, sabia com quem podia ou não falar para conseguir as coisas que precisava; mas, para Hansol, nada daquilo importava, porque Seungkwan sempre teve a voz mais doce, os olhos mais brilhantes, os abraços mais confortáveis, porque Choi Hansol escavou fundo na pele quente do loiro para achar o mais íntimo dos seus instintos.
E, por esses motivos, Seungkwan chorava baixo contra o pescoço do Choi, tremendo, derrubando o muro de invulnerabilidade e deixando que Hansol traçasse as rachaduras, suas vulnerabilidades, as beijasse, para fazer o menor se sentir adorado, como bem deveria, porque era o que ele bem merecia.
— Eu ouvi Cheol-hyung falando que vai nevar hoje a noite… — O mais alto começou a falar, sem jamais largar o corpo trêmulo do outro — Não quer entrar? Vai ficar frio aqui… Não sei se temos cobertores o suficiente pra…
Seungkwan o beijou, era seu jeito de calar as preocupações do namorado. Eles tinham cobertores o suficiente e o amor que os manteria aquecido na van que outrora fora do irmão mais velho de Hansol.
Mesmo assim, Boo Seungkwan adormeceu e acordou na cama de Hansol. Ele provavelmente, em toda sua preocupação e doçura, havia o carregado no colo pelo pátio gélido durante a madrugada porque o menor estava tremendo de frio, mas jamais iria reclamar enquanto estivesse com Hansol.
O frio do lado Sul de Chicago nunca o incomodaria se ele estivesse com os braços de Hansol o segurando.
