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Supernova

Summary:

Roier foi, em sua vida, um incêndio que destruiu-o de dentro para fora com as chamas da perdição. Um garoto do interior quebrado, e outro cujos limites iam além do céu. Alguém sairia queimado pelo fogo do próprio amor, e Cellbit sabe bem quem.

Notes:

essa história está sendo inspirada em três coisas:
— músicas de um cantor brasileiro chamado Jão, você não precisa escutá-las para entender as coisas;
— astronomia. fortemente;
— brasil na década de 1990

é apenas isso o que eu tinha para dizer. boa leitura

Chapter 1: clarão

Chapter Text

“ eu sinto o vento trazendo algo novo 

que ainda vai nascer

sobre o novo tempo maravilhoso

pra ser quem a gente é ”



— Luz viva e passageira… — Lê em voz alta. Há um jornal meio amassado em suas mãos datado no dia 12 de maio de 1990. Está aberto na última página, a das cruzadas. Falta apenas uma palavra. — Seis letras…

Ele bufa antes de forçar o lápis de grafite fraca contra o papel áspero. É óbvio.

— Clarão.

Ao terminar de suas cruzadas, ele se vê meio entediado e suspira. O assento abaixo de si balança conforme o ônibus se movimenta na estrada de barro. Dizem que ela foi pavimentada no mês passado, mas ele duvida seriamente. Está tão barrenta e enlameada pela garoa da madrugada que você sente os pneus derrapando nas curvas mais sinuosas.

— E eu ainda tô morrendo de fome…

Ele cata a mochila no banco ao lado. O ônibus está surpreendentemente vazio para uma linha que termina na capital. É provável que o caminho barrento tenha afastado a maior parte dos fregueses. Ele quem não iria reclamar, já que isso permitiu-o abrigar sua bicicleta contra suas pernas tranquilamente sem irritar o motorista.

Na mochila, há um pote raso de metal com exatos três chicletes, uma toalha de rosto, roupas de acesso rápido, um cantil meio vazio, um pacote aberto de amendoins, um bloco de notas e sua carteira.

Nem lembro se peguei a identidade antes de sair.

Por via das dúvidas, ele confere, mesmo não se lembrando de já ter conferido antes de seu último cochilo. Só essa viagem rendeu-lhe três pequenos cochilos. Ele sempre acordava quando o ônibus fazia um solavanco ao passar por cima de algum amontoado de barro, então a viagem não é tão longa quanto parece. Se ele fosse de bicicleta, pedalaria por três dias sem descanso e sem pausa para água.

O ônibus na estrada de barro é melhor, ainda que esse seja o único caminho que conecte sua antiga casa à cidade grande.

Aqui. Suas paranóias somem ao ver o documento de identidade. Está meio molhado por ter tomado chuva no passado, mas todas as letras e sua foto são legíveis. Cellbit Balanar, esse sou eu. Cabelos de um loiro queimado extremamente longos, olhos azuis opacos, barba rala e os óculos redondos que ele tanto odeia usar. Sua aparência não mudou muito desde a última vez que tirou essa foto, há quatro anos. Na verdade, é provável que a maior mudança tenha sido no aumento de sua miopia.

Quanto tempo ainda falta?

Entediado, ele busca pelo bloquinho de notas e folheia as páginas. Ele é pequeno, apenas um pouco maior que a palma da mão. Cellbit o usa como um rascunho de suas viagens que, muito provavelmente, irão virar cartas para sua irmã no futuro.

“Então, você vai embora?”

Cellbit morava com sua irmã gêmea, Bagi, em uma pequena cidade do interior. Era um lugar tão pequeno que o lugar mais importante da cidade era a praça da Igreja, cuja calçada está sempre suja do barro no solado dos sapatos das crianças. Eles eram uma dupla inseparável que ia para os lugares e faziam as mesmas coisas juntos. Como tal, Bagi quis fazer Magistério e Cellbit, sem melhores opções, a acompanhou.

O Magistério é uma formação complementar do ensino médio. É curta, talvez de quase dois anos. Cellbit não é bom com datas. No resumo, terminar o Magistério te torna apto a se tornar um professor do fundamental, assim como Bagi se tornou.

Cellbit, por outro lado, pegou seu certificado e foi embora.

“Aqui é pequeno demais para mim.”

Há algo sobre sua antiga cidade que o incomodava fortemente. Não, não é apenas sobre ser extremamente pequena; na verdade, é apenas um fator complementar. Cellbit odeia sentir-se tão isolado do resto do mundo. Os jornais que vendem na banca na esquina de casa estão sempre uma semana atrasados e todos tem o endereço da redatora marcado na capital. Nunca há notícias sobre sua cidadela, já que ela é tão irrelevante que as pessoas nem se preocupam de saber seu nome.

Claro, há o fator tranquilidade. Cellbit aprecia a paz e o silêncio, mas não há todo momento. Bagi gosta de conversar e de chamá-lo para os lugares. Ainda assim, não é a mesma coisa. Ele sente falta de barulho, de baderna, de agitação, de emoção. E é estranho escrever desse jeito, porque Cellbit nunca sentiu isso antes e ainda assim se sente vazio. 

“Eu não sei, mana… Aqui é tudo tão previsível que é desgastante. Eu quero saber como é presenciar o agito da cidade e passar por aquele estresse todo que os nossos velhos dizem que a gente iria passar!” Idosos de cidade pequena adoram dizer que a cidade grande é horrível por ser lotada e estressante. Talvez seja, mas Cellbit nunca saberá se não ver. E se ele gostar do agito? Talvez seja isso que falta para o vazio. “ Eu quero me tornar um sistema aleatório! Você me entende?”

Um sistema aleatório é, a grosso modo, algo cujo futuro só pode ser conhecido após ter vivido uma experiência. É como jogar uma moeda para o alto e esperar por cara ou coroa. Cellbit quer saber se viver na cidade grande o fará gostar da agitação ou o levará a voltar para seu interiorzinho com o rabo entre as pernas.

“Ah, irmãozinho… ” A risada de Bagi recoa no fundo de sua mente. É algo que ele sentirá falta. Existiam os tais orelhões na cidade grande, cabines com esse tal telefone que você entra e pode ouvir a voz das pessoas. É incrível, mas não tem nenhum desses no interior. Seria como conversar com a parede. Por isso, ele se atém tanto à ideia das cartas. “Você não precisa ser todo nerd comigo para eu entender o que você sente.”

Ele não pode evitar, é seu jeitinho.

“Mas você entende?”

“Nós saímos do mesmo óvulo, idiota. Eu te entendo perfeitamente.”

A geminialidade não é um argumento forte para a experimentação desse sistema, mas Cellbit deixou essa passar porque é Bagi e ele sempre fez exceções por ela, assim como ela faz consigo.

— Ei, você aí!

Cellbit piscou. O cobrador do ônibus estava estalando os dedos em sua direção. O veículo parou na frente de uma parada maior, mais comprida e sem buracos nas telhas que fazia mais chover para dentro do que para fora.

— Essa é sua parada?

Ele verifica o horário em seu relógio de pulso. Exatas 32 horas desde sua saída de casa. Cellbit sorri. 

É aqui.

— Obrigado pela carona.

— Tome cuidado por aí. — o cobrador diz enquanto começa a conferir as moedas. Há muitos vinte centavos. — E não abra poupanças no banco por enquanto… Boatos correm pela cidade que não é seguro.

Cellbit não sabe responder que ele não sabe o que é uma conta poupança, então decide apenas anuir como se tivesse absorvido todas as palavras ditas, pegar sua bicicleta e descer do ônibus. 

Sua bicicleta é daquelas de banco alto e curvado que o dá dores na coluna sempre que ele se inclina demais para frente. É vermelha, de tinta descascada. A correntinha é velha e precisa de óleo. Tirando todos os defeitos, lhe serve muito bem.

Suas primeiras pedaladas pela calçada de pedregulhos miúdos são extremamente curtas. Nesse meio tempo, passaram por ele mais de dez pessoas. Nunca existiu tanta gente andando perto dele em tão pouco tempo quanto antes! A maioria parece apressada e é impressionante como todos usavam calças jeans. As calças de Cellbit foram feitas sob medida com a costureira da família. Ele gosta de sua jardineira verde e da blusa branca, mas agora se sente meio deslocado por não parecer tão despojado como as pessoas da cidade grande.

Até meus sapatos parecem feios. E foram muito caros.

Os prédios são mais altos, a maioria pintado em cores claras. As casas de seu interior são sempre azuis, amarelas ou verdes, as cores mais chamativas que existirem à venda. O costume é que certas cores são mais baratas em determinadas épocas do ano, então é normal que todas as casas de sua rua fiquem laranjas de uma hora para a outra, por exemplo.

Há muitos carros nas ruas. Cellbit já tinha visto um carro antes, mas eram raros. Um carro é um investimento caro e sem sentido em um lugar onde todas as pessoas moram perto umas das outras. Geralmente, apenas políticos e comerciantes — patrocinados por políticos — possuem carros.

Será que minha bicicleta vai aguentar?

Cellbit não sabe. É estranho, não é? A incerteza? Envolveu-o em uma adrenalina que ele nunca havia sentido antes. Aqui, ele não sabe o dia de amanhã. Ele não sabe quando conseguirá uma estadia, um emprego ou a entrada para a faculdade que ele tanto procura. Em tese, não sabe nem se conseguirá nenhuma das coisas.

E ao invés disso afetá-lo, Cellbit sorri. Ele se sente não um sistema aleatório, mas um caótico. Sim, há diferença. Este, ao contrário do primeiro, é imprevisível.

Pela primeira vez, Cellbit se vê como uma estrela que acabou de nascer. 

 

. . . × . . .

 

13.05.90

Eu consegui uma casa.

Talvez chamar de “casa” seja prepotente demais. É tão pequena que nosso quarto de infância ainda poderia parecer maior. Ok, essa foi uma hipérbole extremamente exagerada. O lugar é grande o bastante para ter um quarto, uma cozinha misturada a sala e um pequeno banheiro cujo tanque serve para escovar a boca e lavar as roupas. Você deve estar achando nojento, mas sabe que eu achei perfeito.

Demorou menos do que eu esperava, vou admitir. Descobri esse lugar por um anúncio no jornal. É impressionante que aqui a seção de classificados funcione! Se lembra que os jornais da banca da Nara pulavam da página 25 direto para a 28? É onde ficava os classificados! Mas todos os anúncios eram da cidade grande, então não fazia sentido vender com eles para nós. Me senti um gênio quando associei isso.

O lugar é bom, barato e a senhora síndica é… peculiar. Ela não é de falar muito, mas eu também não sou, então não irei reclamar. Ela só disse que eu só precisava ficar com o aluguel em dia e nós “ficaremos bem”. Esse é outro problema, já que ainda não tenho emprego.

Mas não conte para ela! Eu não contei. E nem contarei. 

Não, maninha, não se preocupe! Irei atrás de um emprego! Circulei algumas opções interessantes que encontrei pelos classificados. A maioria é de faxina e, bem, eu sou péssimo nisso, mas ainda é uma opção já que tenho um total de zero cruzeiros nos bolsos. Há uma vaga para assistente de cozinheiro, mas eles exigem experiência. Você sabe, eu não tenho!

A melhor vaga definitivamente é a de professor de creche. Segundo o mapa que consegui na banca de revistas, me exigiria boas pedaladas para ir até lá. E o emprego é integral. E você sabe que eu queria procurar por uma faculdade… Empregos de meio-período são os ideais, mas são os mais raros.

Sobre faculdade, não sei o que farei. Eu deveria fazer um exame, se não entendi errado. O homem dos jornais disse que eu deveria desistir, que era tão difícil que não valeria a pena. Se eu fosse alguém de nome, teria mais chances. Eu já sei dessa merda toda, e nunca me impediu de tentar. Eu não vou desistir, Bagi. Eu não saí do cu do mundo para cair no primeiro dia.

Eu vou procurar um emprego hoje. Você deve receber essa carta em até cinco dias, foi o que me disseram. Espero que ela chegue bem até você. Não precisa me responder se não quiser. Os selos por aí são bem mais caros do que aqui.

Do seu irmão que te ama muito,

Cellbit.

 

Cellbit deixou a carta nos correios e saiu em disparada pelas ruas. O jornal permanecia meio dobrado dentro do bolso frontal de sua jardineira. Pela manhã, metade das opções de emprego separadas foram descartadas. Suas opções mais fortes eram ser faxineiro no prédio três quadras longe do seu, ser vendedor de jornais ou professor da creche.

Nenhuma das opções trouxe brilho aos seus olhos, mas era o que ele tinha. 

Talvez eu vá para a creche…

E ele realmente iria, até que sofre algo que só pode nomear como uma pura demonstração do Acaso Newtoniano.

— MERDA!

Uma pedrinha. É nisso que o pneu traseiro de sua bicicleta enrosca. Cellbit perde o equilíbrio e bambeia no meio da calçada. Por sorte, há um poste onde ele se agarra e impede uma queda feia. Ainda assim, seus joelhos sujam um pouco. E foi constrangedor.

Puta merda.

Ele bufa e atira a pedrinha para longe. Ela rebate contra o rodapé de uma pequena cafeteria na esquina. E é aí onde a tese de Cellbit se concretiza.

Talvez você se pergunte o que é o Acaso Newtoniano. O Acaso na física Clássica — ou Newtoniana — nada mais é do que o reflexo da nossa ignorância. A grosso modo, inconsistências são vistas porque somos incapazes de definir todas as probabilidades de algo acontecer, o que dá a falsa ideia do “impossível”. Daí, vem o acaso, uma queda que poderia ser facilmente impedida se Cellbit tivesse visto a maldita pedra. Nem era tão pequena assim.

Mas seu ato falho medíocre o permitiu ver algo que, em condições normais, ele não teria visto.

PROCURA-SE BARISTA.

ACEITAMOS SEM EXPERIÊNCIA.

Era perfeito.

 

. . . × . . .

 

16.05.90

EU TENHO UM EMPREGO!

Não é nenhuma das opções que te forneci na carta anterior. É até meio engraçado, foi praticamente obra do acaso, e você sabe como sou cético quanto se trata de acasos. No resumo, eu ganhei um micro ralado no joelho e um emprego de barista de brinde.

Comecei ontem. Há outro barista chamado Philza. Ele é gentil e caloroso, quase como um pai. Ele me ensinou a mexer nos equipamentos e qual a fórmula para fazer um café perfeito! É a melhor coisa que já tomei, Bagi. Eu queria tanto que você estivesse aqui para provar.

Quando eu me tornar um ricaço da cidade grande, te trarei para morar aqui comigo. Mas se você não quiser, então posso pagar suas passagens. Deve existir um meio de transporte melhor e mais rápido do que o ônibus e o bonde. Eu vou procurar saber mais para te dar notícias.

Do seu irmão CLT,

Cellbit.

 

Essa carta foi enviada há duas semanas. Desde lá, seus dias no emprego viraram uma certa rotina. Ainda assim, não é entediante como em sua antiga cidade.

Há algo de diferente todos os dias: a clientela. A maioria é ou jovem ou muito idosa. No fundo do café, há uma mesa com espaço para estudos onde as pessoas se sentam para tomar um café enquanto lêem alguma coisa. No meio, há as mesas normais em que os grupos se reúnem em conversa acalorada e divertida. Todos os grupos falam muito alto, então Cellbit vive ouvindo as fofocas enquanto lê seus jornais.

Esse grupo de agora é particularmente barulhento. Todos os dias, eles pedem exatas quatro xícaras de café, um chá e cinco bolinhos de chuva. Cellbit se lembra que o chá é o que a moça de vestido roxo gosta de tomar. Sobre os outros, ele não se lembra. Geralmente, Philza cuida do caixa e Cellbit prepara as bebidas. Phil diz que sua mão é muito melhor para cuidar dos grãos do que a dele.

Philza foi ao banheiro, então Cellbit está o cobrindo. Não há nenhum cliente novo. Em seu período de paz, ele se põe a reler o mesmo parágrafo da página do jornal. Está falando sobre esse centro universitário de pesquisa bem conceituado da cidade. É um dos melhores do país. Eles têm um curso de Física. Merda, Cellbit está muito interessado.

— Mas é pago…

— E é bem caro, cara, eu tenho que admitir, e olha que sou de lá.

Cellbit pula de susto. O jornal cai no chão. E nesse pulo, ele bateu com a cabeça no armário de grãos. Nada caiu, felizmente, mas agora ele ganhou um novo machucado na nuca para contar história.

— Puta merda!

— Você…

— Pulei de susto? Sim! É o que acontece quando um corpo em repouso é exposto a uma força externa, no caso, sua aparição surpresa como um espírito obsessor. — Cellbit acaricia o cocoruto. Ainda dói. — É o princípio da Inércia.

O cliente pega o seu jornal como retribuição pela destruição de seu crânio, é provável. 

— Então, você é de Exatas? — Ele ri. Não é uma risada zombeteira como seus vizinhos do interior faziam. É até… fofa? — Bem que dizem que pessoas como vocês gostam de café.

É quanto Cellbit decide levantar o olhar para encará-lo bem.

— Pessoas como eu…?

Sua voz morreu junto ao seu tom de interrogação. Ele sabe que abriu um pouco a boca, e logo corre para fechá-la com a mão, pois sua mandíbula parece ter paralisado no espaço-tempo. São tantas gafes seguidas que ele pode mortalizar de vergonha.

O homem à sua frente é alto e muito, muito bonito. Cellbit sabe apreciar homens bonitos quando os vê, e esse é um dos grandes. Suas calças jeans foram tingidas de vermelho, coisa que Cellbit nem sabia que era possível, mas que internamente achou muito brega. Ele tem cabelos cor de caramelo e olhos no tom café com pouquíssimo leite. Sim, ele está comparando um homem lindo a café. É uma das coisas mais estúpidas que Cellbit poderia fazer, e ele o faz. 

— O tipo de pessoa que passaria dias sem dormir tentando achar o valor de X.

— Bom, eu não posso negar…

— É claro que não! Eu estudo a mente humana, algumas coisas eu preciso saber! — Sua risada é tão doce que tornou Cellbit diabético. E ele adorou. — Aliás, sou Roier. Vim pagar a conta.

Cellbit se atrapalha ao procurar a conta da mesa de Roier nas anotações de Philza. Ele é um ótimo colega de trabalho e amigo, mas a caligrafia não é seu forte.

— Vinte e sete mil cruzeiros.

— Certo… — Ele procura por notas nos bolsos. — Aliás, me chamo Roier! Você deve ser Cellbit, não é? Já vi Phil te chamando assim.

Ele se sente meio aéreo por saber que Roier — um nome bonito para um cara bonito, ah — descobriu seu nome antes de Cellbit descobrir o dele.

— Sim.

— Sabe, Cell… Posso te chamar assim? — Cellbit mal anui até que Roier continue, as moedas depositadas no balcão. — Você quer entrar na faculdade?

— SIM! — Foi mais desesperado do que deveria ser. — Quer dizer, sim… Não tão apressado, claro, eu mal cheguei na cidade, mas…

— É uma pena que você não está com tanta pressa assim, então.

— Por quê?

Roier sorri. Do tipo que mostra todos os dentes. Tudo nele aspira garoto rico e bem sucedido da cidade grande. Cellbit se sente meio intimidado. Ao mesmo tempo, há admiração retraída e uma necessidade de saber mais sobre esse cara. O que os nascidos na cidade grande pensam? O que fazem? Onde passeiam? Mais especificamente: como Roier é?

— Eu poderia te recomendar.

A respiração de Cellbit falha. Ele está quase sem ar, e ele sabe que suas pupilas dilataram tanto que engoliram o azul de suas íris.

— Você nem me conhece.

— Realmente não…

O sorriso de Roier aumenta.

— Mas eu gostaria. — O coração de Cellbit parou. Respiração e sangue finalizados. Ele pode finalmente morrer em paz. — Mas como você não tem pressa…

— NA VERDADE… — Cellbit pigarreia. — Na verdade, eu tenho um tantinho a mais de pressa.

Roier gargalha. É ainda mais doce e caloroso do que sua risada mais baixa e corriqueira. Cellbit se sente incrível por ter arrancado isso dele.

Ele queria ouvir mais.

— Matemática?

— Física.

— Duplamente nerd.

— É meu charme.

Roier pisca. Ele não pode discordar.