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You drew stars around my scars, but now I’m bleedin’

Summary:

Um dia, Mavis vê a Morte. Muito tempo depois, ela aprende seu nome.

Finalmente, ela se apaixona por ele.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Mavis deveria saber melhor do que flertar com a Morte. Ela era uma inimiga em todos os sentidos, o fim de tudo que ela amava e prezava, e ainda assim Mavis não conseguia odiá-la. Porque a Morte significava sim, o fim da Vida, mas não era inerentemente má. Tudo tinha que ter um começo e um fim para que pudesse ser realmente apreciado. Além disso, a Morte estava tão triste com seu papel quanto os outros seres.

 

A primeira vez que ela o encontrou, foi em um enterro. 




Mavis não conhecia Zera há muito tempo, elas eram amigas há poucos meses, e no começo, a outra garota a odiava. Zera foi criada em uma família abastada, e como filha de uma empregada, Mavis era a última pessoa de quem ela gostaria de estar perto. Mas Zera também era uma garota solitária, sempre procurando o afeto do pai ocupado, que a amava, mas quase não tinha tempo, tentando preencher o buraco da ausência da mãe. Mavis não tinha mãe ou pai, não há muito tempo, e era apenas a mínima bondade do coração do pai de Zera que permitia que ela vivesse vagando pelos corredores, limpando o que pudesse e usufruindo secretamente da biblioteca. Foi lá que Zera a encontrou, encolhida entre as estantes, um livro apoiado em suas pernas cobertas pelo vestido esfarrapado de criada. Mavis tomou o maior susto de sua vida, e implorou para que Zera não contasse ao pai que ela lia ali, mas ao contrário do que ela pensava, a jovem dama apenas desabou sentada ao lado dela e resmungou: “Eu não ligo para esses livros idiotas, pode fazer o que quiser com eles”.

Mavis achou que fosse uma situação de uma vez só, e estava tão aliviada que apenas assentiu e sorriu para a menina, que bufou e virou o rosto. Mas então, uma semana depois, Zera a encontrou de novo e silenciosamente se sentou ao seu lado. Foi apenas depois de um mês que ela perguntou o que Mavis estava lendo, e reclamou que ela trocava de livro rápido demais — Mavis sempre foi muito rápida em usar a cabeça de qualquer modo existente. Uma rotina se formou após um mês e meio, e Mavis rapidamente percebeu que por trás da fachada sarcástica e desdenhosa, Zera só queria companhia. Então Mavis deu a ela. Ela contou sobre os cintos que lia, divagou sobre fadas e se elas tinham ou não rabo e não se abalou com os comentários cortantes — ela sabia que Zera não queria dizê-los realmente e a pegou estremecendo logo após soltar alguns. Com o tempo, Zera conversou com ela também, e Mavis aprende que a jovem dama não era a única solitária. 

Elas inventaram jogos, conversaram e riram, o som estridente abafado atrás de suas mãos — as de Mavis, nuas, as de Zera, cobertas de seda fina. Foi divertido, fácil com o tempo, e Zera procurou cada vez mais uma companhia, chegando a defendê-la algumas vezes de algumas criadas mais velhas rancorosas. Zera se tornou sua amiga, e ela sussurraram sobre um futuro em que Zera se tornaria uma princesa e a levaria como sua dama de companhia para seu enorme e lindo castelo. O sonho se desfez como um castelo de cartas soprado ao vento, semelhante àquele que elas montaram ingenuamente uma vez, Mavis rindo quando elas voaram e Zera gritando irada como se isso fosse fazer o elemento se arrepender e rearrumar o que bagunçou. 

Mavis sabia que a natureza era uma força com a qual não podiam lutar, mas ela tentou, oh, como tentou. O incêndio foi rápido, consumindo tudo ao seu redor, devastando e destruindo o que atravessasse seu caminho tortuoso. Mavis conseguiu fugir, levando uma Zera gritando em seus calcanhares, lágrimas caindo enquanto ela implorava para o pai — ele não resistiu à parte do telhado que caiu sobre ele, em chamas, e seu último suspiro foi implorando para que Mavis a levasse para um lugar seguro. Mas não foi só o incêndio, a fumaça penetrou os pulmões de sua amiga, enegrecendo-os com cinzas e dificultando sua respiração. Zera se machucou no caminho, e diferente de Mavis, não tinha resistência para se recuperar e continuar. Ela caiu, e Mavis caiu ao seu lado, seu mundo desabando como a madeira incendiada da mansão que fora seu lar. Ela chorou, então, sobre o corpo da amiga, coberta de fuligem e cinzas, e soube que não veria uma fada nunca, agora que derramara lágrimas. Mas cada gota foi por Zera, e valia a pena desperdiçar sua chance de saber se fadas tinham ou não cauda por ela.

O enterro não foi glamouroso, até porque se achassem o corpo de Zera, o profanariam porque seriam aqueles que atearam fogo à sua casa que os encontrariam. Os cavaleiros demorariam a chegar, e até lá, o corpo de Zera estaria completamente frio e pálida. Mavis ajeitou os fartos cabelos castanhos do qual Zera sempre se gabava o melhor que pode depois de encontrar um rio para limpar a maior parte da sujeira de sua pele com um pedaço rasgado de seu próprio vestido esfarrapado. Poderia ser difícil com roupas desgastadas e rasgadas depois, mas Mavis nunca foi uma criatura que vivia de confortos físicos. Cava o buraco exigiu quase tudo dela, e talvez a cova tenha ficado um pouco rasa demais, mas ela enfeitou Zera com flores e deixou tudo o mais bonito possível. Zera gostaria de ser enterrada como a princesa que desejou ser um dia, e Mavis realizaria esse desejo, a última coisa que faria pela amiga.

Com os joelhos na terra, murmurando preces, ela mal notou quando ele se aproximou. Só quando uma voz se juntou à sua nas preces, quase cantando com uma voz profunda e melancólica, é que ela abriu os olhos e se virou bruscamente.

A primeira coisa que notou era que ele era lindo. Cabelos escuros como penas de corvos caindo pelo rosto, lisos como as sedas que Zera costumava usar, olhos tão pretos que pareciam engolir a luz cheios de uma tristeza tão profunda que não parecia ter um começo nem um fim, cílios escuros descansando em maçãs do rosto alta e pele pálida como marfim. Mavis também era branca, mas sua pele era mais risada, coberta de sardas nos ombros, no rosto e em parte do busto que ficou descoberta pela roupa quando ela tinha que ficar ao sol — por opção e por trabalho —, ela nunca tinha visto alguém tão pálido, como se nunca tivesse sido tocado pelo sol. A segunda coisa que ela notou sobre ele foi as roupas pretas, uma espécie de quíton ou um tipo de veste cerimonial e manto que chegavam aos seus pés, que apareciam pelo tecido enquanto ele andava, sem nada para cobri-los. A terceira coisa, e a mais importante, que notou sobre ele, foi que ele não era humano.

Não era uma percepção que vinha de sua imaginação fértil, Mavis simplesmente sabia que aquele homem não era humano. Eram seus olhos, o jeito como ele se portava, a aura ao seu redor. A criatura mágica que ela queria ver era uma fada, mas ela recebeu outra, talvez uma troca por suas lágrimas que prometeu nunca derramar.

— O que é você? — ela sussurrou, e o som pareceu atravessar a floresta. O não humano parou em seu caminho, olhos escuros voltando-se para ela com choque, rapidamente substituído por curiosidade.

— Você consegue me ver — ele disse, a voz baixa e bonita, feita para cantar canções de partir o coração, baladas sobre finais trágicos e infelizes.

— Claro que consigo! 

Mas assim que afirmou isso, Mavis soube que ela não deveria vê-lo. Pessoas não viam coisas mágicas, e Mavis também não deveria estar vendo-o enquanto ele caminhava até estar perto o bastante para suas testas se tocarem. Ele se curvou para isso, muito mais alto que sua figura diminuta, e olhou tão fundo em seus olhos que ela sentiu que sua alma estava sendo desnudada, puxada para fora para que ele pudesse estudá-la. 

— Você está viva, como você me enxerga? 

Mavis respirou o mesmo ar que ele, sentindo cheiro de noites chuvosas, terra molhada e algo picante e doce que a deixou tonta. Era tão humano quanto ele, não para os sentidos de uma mortal de quinze anos.

— Eu não sei — ela respondeu honestamente, observando-o com olhos verdes inchados e vermelhos, cobertos de fuligem. A imagem do luto. — Eu queria ver uma fada, mas eu chorei. O que é você?

Algo como humor brilhou nos olhos dele, dando algum fundo para seus olhos de poço sem fim. 

— Acredita em fadas?

— Sim — ela respondeu, sem hesitar. — Você já viu alguma? Elas existem?

— Nunca vi nenhuma. — Ele deu de ombros. — Mas não posso garantir que elas não existem. O mundo é muito vasto para tanta convicção. E eu sou a antítese de tudo que você ama.

Mavis piscou, a mente correndo pelas possibilidades.

— Você é o ódio? Não creio que estivesse sentindo ódio.

— Oh — Aquilo era definitivamente um sorriso, embora ínfimo e fantasmagórico. — Bem, acho que formulei de maneira equivocada, me perdoe. O amor nasce da minha antítese, e eu sou o inimigo natural de qualquer um que ama.

Um quebra-cabeças, Mavis adorava um. Embora não estivesse com o entusiasmo habitual, ela ainda apreciou o desafio. O amor nasce do carinho, da empatia, da simpatia e do simples instinto humano. Para ser alguém que é a antítese de tudo isso, deveria ser o ódio, a antipatia, a indiferença e o egoísmo. Mas se era o inimigo natural de qualquer um que ama, e não era o ódio e seus demais, tinha que ser aquilo que acabava com o amor de uma vez por todas, não importando o quão forte ele seja.

— Você é a Morte — Mavis concluiu.

Ela deveria estar com medo, olhando nos olhos de alguém que levou sua amiga embora, e antes tirou seus pais dela. Deveria estar com raiva, se sentindo injustiçada com como ele arrancou o que ela gostava dela, desde uma pequena flor até as pessoas importantes de sua vida. Mas Mavis não era do tipo que odiava, e mesmo vendo-o assentir lentamente, não conseguiu encarar seus olhos cheios de tristeza e enxergar um inimigo, muito menos seu inimigo número um.

— Eu não te odeio — ela disse, expondo seus pensamentos facilmente. Mavis sempre foi boa em se comunicar, mesmo que ninguém tenha ensinado a ela como, e ela também era sincera de um jeito que Zera apreciava. 

As sobrancelhas da Morte se ergueram de surpresa uma outra vez, um lampejo de emoções passando por seu rosto antes de ele voltar ao estoicismo frio — exceto por seus olhos, eles continuavam em eterno luto; ela conseguiu identificar agora o que era aquela coisa sem fim por trás dele. 

— Você vai. Todos odeiam a Morte, algum dia. Eu sempre pego o que vocês amam, arranco de suas mãos sem consideração, eu sou o fim de tudo.

— Você não tirou Zera de mim. Aqueles homens rancorosos fizeram. Você apenas vai levá-la agora, e eu já aceitei que ela não vai mais estar a meu lado, quero que ela não sofra mais.

Zera não suportaria ficar viva, não importa o quanto o coração de Mavis doesse com isso. Mesmo que ela fizesse um acordo com a Morte, Zera sofreria todos os dias com a perda de seu pai e de sua vida, porque ao contrário de Mavis, Zera era uma criatura de confortos físicos e materiais. Mavis não queria ser a responsável por seu sofrimento prolongado, mesmo que isso a fizesse ficar ao seu lado por mais tempo, ela queria que sua amiga não sentisse mais dor, e como ela não pôde salvá-la para fazer em vida, poderia pedir para que a Morte fosse ao menos gentil com sua alma.

— Eu tenho um pedido, um só. Cuide dela, por favor. Leve-a o mais gentilmente que puder, ela merece.

Alguns discutiram com Mavis, diriam que Zera não passava de uma aristocrata mimada, uma menina petulante. Mas Mavis conhecia a verdadeira Zera: aquela que ria de suas piadas, cochichava o rosto corado sobre os garotos que gostava, levava-a para seu quarto para trançar seus cabelos com a desculpa de que ela seria sua boneca pessoal, a menina que pedia para que Mavis lesse para ela enquanto deitava a cabeça em seu colo (mesmo que tivesse reclamado que seu vestido estava sujo no mesmo dia). Zera merecia gentileza, porque ela nunca foi cruel ou ruim, ela era só uma menina. Ela era sua amiga.

O rosto da Morte suavizou, tornando-se tão bonito que era difícil de olhar. Seus dedos deslizaram por sua bochecha, tirando uma mecha de cabelo de seu rosto e se afastando quase no mesmo instante — não como se seu toque queimasse, mas como se o dele fosse queimá-la. O frio que ele deixou para trás com seus dedos gelados combinou com a canção que ele começou a cantar, sua voz deslizando suavemente para seu coração, abraçando-o com uma tristeza que ela sabia que nunca esqueceria. A Morte agachou-se ao lado de seu túmulo improvisado, um dedo gentilmente sobre a testa de Zera, luz vermelha brilhante iluminando-o suavemente antes que ele parasse de cantar, murmurando palavras em uma língua que encheu Mavis com um sentimento solene e curiosidade pela qual ela era conhecida. Então, a luz se foi, e Mavis soube que sua amiga tinha ido com ela. A alma de Zera estava livre, e ela finalmente se permitiu cair de joelhos no chão.

A Morte permaneceu agachada por mais um momento antes de fechar os olhos, inclinando a cabeça sutilmente antes de abri-los e se levantar graciosamente. 

— Até algum dia — ele disse, quase arrependido, como se temesse um segundo encontro e o que ele traria.

Mavis observou-o com olhos secos, mas pesados, e disse:

— Você tem um nome?

Ele parou completamente, imóvel de onde ele tinha se virado para ir embora. 

— Talvez algum dia eu te conte — ele disse, por fim, e então se afastou pela floresta, sombras se curvando sobre ele até engoli-lo.

Mavis não chorou outra vez, mas deixou um último beijo na testa de Zera — bem onde o dedo da Morte encostou — e a enterrou antes de partir.





 

A segunda vez em que o encontrou, foi em uma batalha.



Mavis tropeçou nos mercenários. A terra onde ela vivia foi massacrada, e ninguém restou além dela, para sua solidão. Ela sobreviveu com os restos e aprendeu a plantar e costurar, não poderia ir embora daquela grande ilha sem um barco, e estes haviam sido destruídos no ataque em um esforço para não deixar ninguém escapar. Às vezes, Mavis imaginava o que Zera diria se ainda estivesse com ela, como ela ficaria tímida sem tantas pessoas por perto para bajulá-la, apenas Mavis como sua companhia. Ela imaginava que se tivesse sobrevivido, Zera se tornaria uma moça linda, longos cabelos castanhos sedosos e curvas de quem deixava a adolescência para iniciar a vida adulta, se tornar uma mulher. Aos dezoito anos, numa ilha fantasma, Mavis era magra, diminuta e sem muitas curvas aparentes, ainda mais escondidas pelas roupas que usava. Ela nunca pensou que cresceria mais, parecia uma condição herdada de seus pais, e sua nutrição quando mais nova não era das melhores. Mas Mavis não se importava, não haviam cavaleiros elegíveis ou rapazes para cortejá-la e tirá-la de sua vida solitária e difícil. Então Mavis imaginava que Zera estava ali com ela, e às vezes se pegava falando sozinha sem perceber. 

Ao menos os livros sobreviveram, e ela pôde contar com eles para se entreter e permanecer sã. Mais do que nunca, Mavis devorou conhecimento para preencher o vazio, e imaginou se a Morte a buscaria algum dia, quando fizesse frio demais no inverno e ela não conseguisse se aquecer. Ele cantaria para ela, aquela música fúnebre e triste que tocava as cordas de seu coração? Ela gostaria disso, um réquiem para sua alma, para guiá-la para o além. Ele parecia gentil, e atendeu seu pedido, então talvez tivesse simpatia por ela e sua condição que deixaria uma pessoa menos persistente e positiva à beira da loucura. 

Sua lenha estava pela metade naquele dia, e o inverno logo chegaria. Mavis cantarolou o que lembrava daquela língua que a Morte falava e que ela nunca conseguiu achar em nenhum dos milhões de livros que leu enquanto se embrulhava em camadas de roupas para ir buscar mais, pensando que talvez ele a ensinasse o significado e como cantar antes de recolher sua alma. Talvez ele lhe dissesse seu nome, finalmente. Quando voltou, sem conseguir ver nada com a madeira empilhada em seus braços e contando com sua memória muscular, trombou com alguma coisa e caiu com seus troncos e um “oof”. A Zera em sua cabeça a repreendeu pela falta de maneiras delicadas, mas também se escondeu com a presença desconhecida. Mavis piscou para o garoto que não parecia muito mais velho que ela, ainda perdendo os traços da adolescência enquanto a observava também do chão, olhos atentos e quase hostis.

— Como chegou aqui?

O garoto piscou, então a encarou com ferocidade.

— Como você chegou aqui?

Mavis olhou de um lado para o outro, depois para si mesma.

— Eu moro aqui.

Ele olhou para ela, então para suas roupas gastas e esfarrapadas, cheias de remendo, e para a casa em que escolheu se abrigar. Os traços de uma sobrevivente estavam ali, ele só achou difícil acreditar que ela ainda estivesse viva. 

— Qual seu nome? — ele perguntou, finalmente, levantando-se e oferecendo a mão para ajudá-la.

— Mavis Vermilion. E o seu?

A mão dele tinha tantos ou mais calos que as dela, ela reparou. Como sempre, seu cérebro correu mais rápido do que seu corpo jamais poderia, catalogando cada parte do garoto e tentando entender o quebra-cabeça de sua existência.

— Yuri Dreyar.

Yuri não veio sozinho, e logo ela descobriu porque estavam ali: o tesouro lendário de Tenroujima. Mavis não estava disposto a dá-lo tão facilmente, mesmo que eles fossem as únicas pessoas que pudessem tirá-la de lá para explorar o mundo (ela ainda queria achar uma fada e pedir desculpas pela promessa quebrada). Ela não tinha força, mas tinha astúcia e conhecia a ilha com a palma da mão. Então ela os testou, e seus corações a convenceram a entregar o tesouro, mesmo que não fosse o que eles queriam. De qualquer maneira, eles ainda a levaram.

O mundo lá fora era incrivelmente vasto, mesmo o mar era gigantesco, representado tão pequenino no mapa e estendendo-se infinitamente em seu tamanho real. As pessoas se vestiam de jeitos diferentes, conversavam com sotaques engraçados e tinham valores diferentes do que ela se lembrava. Mas aquele choque cultural a deixou ainda mais animada, sua curiosidade infinita aguçada pela oportunidade de aprender mais, coisas completamente novas sobre o mundo fora de Tenroujima. Ela experimentou tudo que pôde, e com sua inteligência, ajudou os mercenários que logo se tornaram sua família. Zera ainda aparecia em sua mente vez ou outra, mas se tornou uma presença menos constante agora que ela tinha contato com outros humanos.

Mas a terra lá fora não era só coisas boas, havia um conflito acontecendo naquele lugar. Mavis não demorou a ver o símbolo, aquele que fez sua respiração prender e a cor sumir de seu rosto. Aquele lugar, tão bonito e cheio de potencial, estava sob as garras da mesma organização que queimou a civilização Tenroujima até o chão. Yuri, Pretch e Warrod lhe contam o terror que aquela guilda causou, que ela ainda continuava exercendo sobre a população. Mavis não aceitou que outro lugar sofresse como sua terra natal sofreu, e seus amigos concordaram em tentar libertar Magnólia e finalmente dar um fim à Blue Skull. 

Foram meses de conflito, mas seus companheiros finalmente chegaram até os líderes. A batalha foi ferrenha, e no meio do caos, uma lança atravessou Yuri no estômago. Pretch gritou, Warrod arregalou os olhos horrorizado, mas foi Mavis quem chegou até ele primeiro. Ela era pequena e rápida, foi mais fácil para ela atravessar o campo de batalha até onde seu amigo estava deitado, sangrando no chão, a mão sobre a barriga e cuspindo sangue. Mavis era responsável principalmente pela parte técnica e da inteligência, e não tivera contato direto com o combate físico até aquele momento — até porque, ela não tinha o porte apropriado nem as habilidades para fazê-lo — e ver o derramamento de sangue já foi um choque e tanto. Yuri perdia sangue rápido, e mesmo aplicando pressão, Mavis sabia que o perderia se não conseguisse estancar o sangue e levá-lo para um lugar seguro. Warrod e Pretch a cercaram para garantir que ninguém chegaria a ela e Yuri, e a seguiram enquanto ela colocava um braço dele ao redor de seus ombros e o carregava para a tenda onde os curandeiros estavam. 

Os curandeiros corriam de um lado para o outro, e com o superlotamento, de repente Mavis tinha uma linha e uma agulha na mão e estava encarregada de costurar seu amigo. Suas mãos estavam escorregadias de sangue, suor escorrendo por sua testa e sobrancelhas franzidas de concentração enquanto ela tentava a todo custo salvar Yuri sem muita ajuda. Mavis sempre foi autossuficiente, mas, naquele momento, pensou se apenas ela seria o bastante para salvá-lo.

Novamente, ela não ouviu sua aproximação até que ele estava ao seu lado, cabeça tombada enquanto a examinava trabalhar. Mavis não permitiu que suas mãos tremessem mesmo com o susto, não querendo puxar uma linha e machucar Yuri mais do que ele já estava. 

— Não — ela disse, antes de mais nada. — Ele ainda não morreu.

— Ainda não — ele concordou. — Percebo que ainda consegue me ver.

Mavis não respondeu, concentrada em dar o ponto final e não deixar as lágrimas escorrerem.

— Já me odeia?

Ela fungou, começando a enrolar as bandagens ao redor do ferimento costurado.

— Não. Não foi você que o atravessou com uma lança ou feriu qualquer uma dessas pessoas. 

— Mas eu vou levar a maioria dessas pessoas, você sabe, se esse conflito perdurar. — A voz dele era calma, serena, mas ainda perfurava como uma lâmina direto no âmago de Mavis.

Ela respirou fundo, se firmando, e se virou para ele depois de obrigar Yuri a tomar um pouco de água do cantil antes de deixá-lo dormir.

— Eu não te odeio e não vou te odiar — ela disse, a voz sem tremer em momento algum, mesmo quando uma lágrima escorreu por seu rosto. — Não é sua culpa. Você é apenas a criatura condenada a fazer os mortos descansarem, independente do que você sente sobre isso.

— Quem disse que eu sinto alguma coisa sobre isso, cara humana?

O rosto dele não tinha expressão alguma, a imagem da indiferença, mas…

— Seus olhos — ela sussurrou, encarando-os. — Eles são os mais tristes que já vi na minha vida.

Aqueles lindos olhos profundos se arregalaram, depois voltaram ao tamanho normal, mas ele ainda parecia perturbado.

— Você é completamente estranha, humana.

— Mavis. Meu nome é Mavis.

Ele assentiu, ainda mais inquieto do que antes, como se lhe dar seu nome fosse uma atitude incompreensível para ele.

— Quem aqui vai morrer agora? — ela perguntou, observando as pessoas feridas e os curandeiros ao redor.

A Morte a observou curiosamente antes de apontar um dedo longo de pianista para dois lugares. 

— Aquela garota e aquele homem. 

Mavis se aproximou, a garota não devia ter mais do que treze anos, pega no meio do fogo cruzado. Seus cabelos castanhos estavam grudados na testa, úmidos de suor, e sua roupa estava encrostada de sangue. Ela mal respirava, e a mulher ao seu lado chorava copiosamente enquanto segurava sua mão. O homem estava sozinho, sua armadura descansava ao seu lado, no chão, enquanto ele observava com olhos quase cegos o teto, quase sereno em sua respiração difícil e arfante.

Mais uma lágrima escorreu do olho de Mavis, ela não se deu ao trabalho de limpar.

— Qual deles vai primeiro? 

— A garota. — A Morte respondeu enquanto esticava um dedo gelado e o deslizava por sua bochecha, capturando a lágrima em seu rastro. O gesto foi tão gentil, tão natural, que Mavis quase segurou a mão dele contra seu rosto quando ele começou a afastá-la.

Assentindo, ela respirou fundo e foi até a provável mãe. Mavis agachou-se ao lado do leito, tirado uma mecha de cabelo molhado do rosto pálido da menina.

— Olá, querida — ela disse, suavemente. — Qual seu nome?

— H-Honoka.

Mavis sorriu.

— Meu nome é Mavis. Posso te contar um segredo, Honoka? 

A menina assentiu quase imperceptivelmente, a mãe observando-a com confusão. Mavis se abaixou mais e colocou um mão em concha em cima da boca.

— Eu conheço a Morte. Com M maiúsculo. 

Os olhos da menina se arregalaram, sangue saindo de sua boca quando ela tossiu. A mãe chorou mais ruidosamente.

— S-Sério?

— Sim. Ele é muito gentil, principalmente para garotas corajosas como você. Ele vai te levar para um lugar incrível, onde tudo que você gosta vai estar. Você pode me fazer um favor?

— Uhun.

— Quando chegar lá, pergunte se fadas tem caudas.

— Caudas?

Mavis assentiu.

— Eu sempre quis saber. Quando eu chegar lá, você pode me contar, sim?

A garotinha sorriu um pouco.

— Eu vou. — Sua expressão caiu um pouco. — A Morte é m-mesmo gentil?

— Ele tem olhos muito tristes, porque sempre tem que levar as pessoas de seus entes queridos, mesmo que elas vão para um lugar melhor. Ele vai cantar para você, e ele é ótimo nisso. 

— Eu g-gosto de canções.

— Eu também, Honoka. 

— Mavis?

— Hm?

— P-pode s-segurar minha mão?

— É claro. É muito corajoso da sua parte pedir ajuda, sabia?

Honoka sorriu, então se virou para a mãe. 

— N-não se p-preocupe, m-mamãe. A Morte é… gentil. 

— Eu sei, minha querida — A mulher reprimia as lágrimas enquanto acariciava seus cabelos, a mão firme na dela. — Eu te amo, está bem?

— Eu t-também te amo. 

Honoka olhou para cima, onde a Morte pairava, e sorriu, os olhos focados, embora embaçados, nele.

— C-cante pra mim?

Ele pareceu infinitamente triste enquanto dava um pequeno sorriso e começava a cantar. O sorriso permaneceu no rosto de Honoka enquanto ela fechava os olhos, aproveitando a melodia, e se não fosse seu peito completamente imóvel, ela pareceria estar dormindo. Os dedos dela escorregaram dos de Mavis, e enquanto a Morte recolhia sua alma, ela se virou para a mãe e a abraçou sem dizer uma palavra. A mulher chorou em seu ombro até se esgotar, então um dos curandeiros a guiou até lá fora para que ela pudesse ir dormir em um lugar seguro. 

Eles enrolaram Honoka em um pano longo para preservar seu corpo para enterro posterior. Mavis a olhou uma última vez antes de ir até o homem, a Morte em seu encalço.

— Olá — ela disse com um sorriso. — Eu sou Mavis.

O homem olhou para ela lentamente, um sorriso fraco e quase inexistente nos lábios.

— Olá, Mavis. Eu sou Jirin.

Mavis era positiva, não tola, ela sabia que aquele homem estava sozinho no mundo, que ele aceitara sua morte solitária sem ninguém ao seu lado para lamentar.

— Quer que eu segure sua mão, Jirin?

Os olhos dele ficaram mais brilhantes, apesar de ainda opacos pela morte lenta.

— Não há nada que eu gostaria mais.

Então Mavis se sentou ao seu lado e segurou sua mão, murmurou sem palavras a música que a Morte cantou para o homem, que se foi sem medo algum do que encontraria do outro lado. 

Nos próximos dias, a Morte ia e voltava, e Mavis o fazia apontar que partiria para ficar ao seu lado, confortá-los como pudesse. Yuri recuperou a cor aos poucos, e finalmente eles conseguiram ganhar contra a Blue Skull.

— Você vai me dizer seu nome? — Mavis perguntou, exausta, vestida com a mesma roupa há dias e sem um banho decente há ainda mais tempo. Ele a olhou como se ela fosse uma criatura de contos de fadas, como se ela fosse encantada e mágica, não ele.

— Zeref. Você pode me chamar de Zeref.

A Morte deu as costas para ela, mas ela podia jurar que seus olhos estavam mais brilhantes.





Da terceira vez que ela o encontrou, foi em uma guerra.



Não era fácil ser a líder de uma guilda de informações e pau pra toda obra aos dezenove anos, mas depois de ganhar contra a Blue Skull, seus amigos concordaram com sua ideia de formar uma organização para ajudar Magnólia, para não deixar uma nova Blue Skull tomar conta. Mavis a chamou de Fairy Tail, porque a aventura sempre continuaria como sua eterna pergunta: “fadas têm caudas?”.

Foram dois anos de paz antes de uma guerra estourar em todo continente. Mavis descobriu que as pessoas contavam com ela, que confiavam nela para liderar, e degrau por degrau, ela se viu como a mestra de estratégias principal do conflito. Era mais fácil enxergar tudo como números e estatísticas, permitia que o peso das mortes fosse menor, mas não a deixou encontrar Zeref outra vez.

Ela sonhava com ele, às vezes, sentados em um tronco em uma floresta tendo conversas das quais ela não se lembrava, andando por terras devastadas enquanto ele cantava tristemente, sem ter ideia de seus passos seguindo-o de perto. Colocar um nome nele o tornou ainda mais humano, apesar da consciência aguda de que ela era tudo menos isso. Ainda assim, ele tinha mais humanidade do que muitas pessoas que Mavis conheceu, e ela ainda o achava dolorosamente gentil.

Daquela vez, não foi Mavis quem o encontrou por acaso, ele a procurou. Seus passos eram silenciosos, mas ela estava mais atenta agora, aos vinte e um, do que nas vezes anteriores. Aquela guerra era sem proporções ainda maiores que a anterior, e as tentativas de assassinar Mavis para tirar sua estrategista não foram poucas. Assim que ele entrou, ela levantou a cabeça de seus mapas.

— Zeref — ela suspirou, encontrando os olhos dele. Diferente de antes, eles estavam manchados de vermelho, como se o sangue do conflito tivesse sido derramado em suas íris.

— Mavis — ele disse de volta, parecendo quase sorrir. — Você quase não cresceu.

Mavis recebeu o comentário apenas com uma pitada de irritação — ela estava perfeitamente ciente de que não era a pessoa mais curvilínea e alta de Magnólia —, algo como empolgação contorcendo seu estômago ao notar que ele brincara com ela. Um sorriso curvou seus lábios, meio sem querer, e ela se endireitou de sua posição curvada.

— Olá de novo. Veio me ver?

Zeref correu os dedos longos pelo mapa, olhos vermelhos brilhantes correndo por ele, cabelo preto caindo graciosamente por se rosto. Mais uma vez, Mavis foi confrontada com o fato de que ele era inumanamente lindo, o tipo de beleza que paralisava, que te deixava completamente sem fôlego e de mente vazia. Ela tinha consciência disso antes, mas as circunstâncias de seus encontros normalmente eram infelizes, tão carregadas de tristeza e sangue que era difícil se concentrar nisso. Mas ali estava ele, girando ao redor de seu escritório, nenhum corpo à vista além do seu, que ainda respirava perfeitamente bem, e o dele. Era um pouco injusto que somente ela fosse confrontada com a beleza da Morte, um pouco poético e mórbido.

— Então você é a estrategista que tantos querem a cabeça. — Ele suspirou, virando-se para ela com um giro tão fluido que ela pensou ele era mais sombra do que carne. — Não estou surpreso, você sempre foi muito inteligente.

— Você me encontrou apenas três vezes, esta é a terceira — ela apontou, rodeando a mesa lentamente para se aproximar dele. 

— Foi o suficiente.

Ele era um pouco magnético, talvez sua aura fosse atrativa para quem pudesse vê-lo. Chamariam isso de pulso de morte? Mavis só queria chegar um pouco mais perto. Zeref permitiu, observando-a se aproximar sem se mexer do lugar. Ela precisou tombar a cabeça para trás para olhar diretamente em seu rosto, um pouco hipnotizada por seus olhos carmim sobrenaturais.

— O que você realmente está fazendo aqui, Zeref?

Ela teve a impressão de que ele estremeceu sutilmente com o uso de seu nome. Ele suspirou, quebrando o contato visual para puxar uma mecha de seu cabelo enrolado do rabo de cavalo, brincando com ela com um foco enervante. Mavis sentiu eletricidade correr por seu corpo quando seus dedos esbarraram levemente em seu pescoço, e se tornou um pouco menos fácil respirar corretamente.

— Eu queria ver a única pessoa que não me odiava — ele disse, tão baixinho, a confissão pesando bem em cima de seu coração. — A guerra faz coisas terríveis com o ser humano, e presenciar não é a coisa mais agradável. Você é tão boa , até mesmo para mim, me dá vontade de me aproximar mesmo que eu não possa.

— Você pode — ela quase suspirou, seu pulso martelando onde o dedo dele corria, como se sentindo seu coração bater forte contra caixa torácica. — Pelo menos comigo, eu te dou permissão para vir até mim quando tudo for demais para você. Até a Morte pode precisar de companhia.

Zeref pareceu sem fôlego, olhando em seus olhos outra vez, profundamente, o dedo frio descansando contra sua pulsação. 

— A Morte é uma caminhada solitária, Mavis — O nome deslizou por sua espinha na voz dele, e ela não tinha dúvidas de que ele escutou o efeito em seu pulso. 

— Metade, sim. Você ainda pode ter alguém ao seu lado até que precise atravessar, pode ter uma pessoa para segurar sua mão e te confortar até partir completamente deste mundo. Eu já fiz isso antes, posso fazê-lo com você.

Zeref a olhou com tanta intensidade que Mavis tremeu. Mais uma vez, a consciência afiada de que ele não era humano a perfurou, mas Mavis nunca teve medo do inumano, ela sempre o buscou, tentou compreendê-lo e abraçá-lo.

— Você não faz ideia do que está oferecendo.  — A voz dele era profunda enquanto falava, a aspereza arranhando sua pele de um jeito agradável, atraindo-a enquanto tentava fazê-la se afastar. — Essa é uma péssima ideia. 

— Eu sou a pessoa mais esperta que conheço — ela disse atrevidamente, sorrindo para ele como se fosse um homem normal com quem ela flertava. — Além disso, em troca posso pedir que me apresente a fadas.

O dedo em seu pescoço escorregou enquanto ele ria, surpreso. O som era encantador, um pouco desgastado com o desuso, mas ainda lindo de uma forma única.

— Ainda acredita em fadas?

— Por que não? Sua existência só comprova de que há muitas coisas que não compreendemos e que podem estar por aí, esperando para serem encontradas.

Zeref suspirou, divertido, e puxou uma mecha do cabelo dela suavemente.

— Você é estranha, cara Mavis.

— E você é meu amigo mesmo assim, querido Zeref.

— Amigo?

— Sim, eu sou sua amiga, isso é um decreto. Você não pode me contrariar, eu nos declaro amigos e assim será.

O rosto todo dele relaxou, tão suave que cortou seu coração. Os lábios dele repuxaram para cima, levemente, e seus olhos ainda eram sobrenaturalmente brilhantes, mas agora não estavam tão tristes como antes. Havia uma faísca ali, uma que Mavis queria jogar gasolina em cima.

— Se é isso que você quer, sou seu amigo, Mavis.

Mavis sorriu para ele, e então em um movimento ousado, enrolou os braços ao redor de sua cintura. Ele ficou rígido, sobrenaturalmente imóvel, antes de desajeitadamente colocar os braços em volta dela. Ele era frio, tão gelado quanto um corpo, mas pareceu se aquecer a cada segundo em que ela o mantinha em seus braços. Ali, Mavis descobriu que a Morte não tinha um coração físico batendo em seu peito, mas ainda assim tinha um coração de ouro. 






A quarta, a quinta, a sexta e a sétima vez se perderam na contagem, porque Zeref continuou a visitá-la enquanto a guerra durasse e, mesmo culpada porque isso significava que a guerra prolongava, Mavis estava feliz em vê-lo quase todos os dias.



Mavis aprendeu várias coisas sobre Zeref: a primeira era que ele não precisava comer, mas apreciava o gosto da comida, principalmente doces. Seu dente doce foi surpreendente, mas uma descoberta divertida. A segunda foi que ele não tinha ideia de quantos anos tinha, só uma vaga consciência de que não existia desde o começo do mundo ou da humanidade, o que era intrigante. A Morte trocava de pessoa para pessoa? Zeref foi vivo em algum ponto?

Ela também aprendeu que quanto mais brutal e maior a quantidade de mortes, mais vermelhos seus olhos ficavam. Eles não ficavam mais escuros, mas mais intensos, mais brilhantes. Havia algo arrepiante nisso, quão antinatural (ou inumano, já que, tecnicamente, a morte era natural para todos os efeitos) era, mas não assustava Mavis, não fazia querer recuar. Talvez seus instintos fossem péssimos, mas ela queria aprender mais sobre ele, mesmo que cada dia que se passasse ao seu lado significasse que muitas pessoas estivessem morrendo lá fora. Mavis não podia mudar a situação, só fazer o seu melhor, e não se privaria da companhia de Zeref, não importava o que ela significasse, não quando ele já estava lá e não sairia tão cedo. 

— Estou cansado — ele confessou baixinho uma tarde em que eles se sentaram no chão de sua sala e comeram melaço (doces eram cada vez mais raros com a guerra violenta estourando lá fora). — De tudo isso. Das mortes, da guerra, do conflito, do egoísmo. Acho que estou cansado disso há muito tempo, tanto que acho que minha existência sempre foi exausta disso.

Mavis absorveu suas palavras avidamente, como sempre fazia quando ele revelava um pedacinho de si para ela. Era cada vez mais frequente, mas sempre pequenos, fragmentos de quem ele era. A empatia borbulhou em seu estômago, seus olhos ficando tristes enquanto olhavam para ele. Zeref tinha suportado tanto por tanto tempo, e mesmo que ele não se lembrasse de uma outra existência além dessa, ainda parecia tão exausto dela, tão indisposto. Ele merecia descansar, merecia poder deitar a cabeça no travesseiro e sonhar e fazer mais do que recolher mortos pelo mundo.

Seus dedos o alcançaram, segurando seu braço. Ele olhou para ela, e ela procurou permissão em seus olhos antes de puxá-lo para si. Ele era gelado como sempre, mas Mavis não se importava nem um pouco com isso em sua sala abafada, tocando ele, sendo tocada por ele. Para alguém frio, Zeref tinha um abraço caloroso. Ele abraçava com todo o seu ser, se segurava nela como se ela fosse um bote salva vidas em uma tempestade no meio do mar, tão apertado que quase doía. Ela apertou de volta, tentou transmitir o máximo de conforto possível, e fechou os olhos; sentindo seu coração acelerado no peito, o cheiro dele, tão forte de onde ela estava com a cabeça deitada em seu peito. Ele não tinha batimento cardíaco, mas só o dela servia. Eles ficaram assim que as pernas de Mavis ficarem dormentes.

— Ai, acho que preciso levantar — ela disse, com um leve tom de riso na voz.

A essa altura, Zeref já tinha se acostumado com o funcionamento do corpo humano vivo, com a quantidade de contato e abraço que eles compartilharam naqueles meses. Sem perder o ritmo, ele tirou um dos braços de trás de suas costas para enfiá-lo sob seus joelhos, levantando-se num movimento fluido e gracioso, como se ela não pesasse nada. Mavis enrolou os braços no pescoço dele para se firmar, bochechas quentes enquanto se permitia ser carregada até a poltrona no canto, sendo deitada delicadamente no móvel macio. 

— Durma, você precisa descansar. Tem aquela reunião amanhã, se lembra?

Mavis bocejou, se ajeitando melhor no sofá e tentando lidar com a perda de contato físico.

— Nem me fale. Pode me contar aquela história de novo?

Zeref suspirou enquanto se sentava casualmente no braço do sofá, pés descalços como os seus cruzados como as mãos em seu colo. Mavis pedia para ele contar a história de ninar todas as vezes, viciada nela desde que ele a contou pela primeira vez. Zeref não sabia de onde a aprendeu ou porque — talvez um resquício de sua possível vida anterior —, mas ele gostava dela e Mavis a adorava. 

— Certo. 

Ele começou a contar e Mavis o observou. Das primeiras vezes, ela fechou os olhos e aproveitou, agora que a sabia de cor e salteado, preferia observar as mudanças na expressão de Zeref conforme ele narrava a história, como as emoções refletiam em seu rosto com muito mais clareza do que normalmente. Ele tinha um carinho enorme pelo conto, isso era claro, e Mavis era um pouco obcecada com o modo como ele suavizava e seus olhos brilhavam enquanto ele contava.

O sono agarrou no final, o cansaço cobrando seu preço. E se ele ficou até a respiração dela ficar completamente estabilizada, ela nunca soube.




Os dias iam e vinham, e os hábitos se instalaram aos poucos, se enraizando. Zeref não exatamente tinha horários fixos para estar ali, mas tinha alguns que ele aparecia com mais frequência. Ela acordava com ele ali, sentado em algum lugar enquanto lia alguns de seus livros, mas entre o café da manhã e o começo de seu dia de trabalho, ele desaparecia pela porta quando os conflitos começavam. Mavis esboçava planos, lia inúmeros livros, mapas e relatórios, bolava estratégias e ficava suja de tinta enquanto os fazia. Zeref entrava e saia, ficava parado ao seu lado dando sugestões e conselhos, ele era muito inteligente, tanto quanto Mavis, e ela apreciava o quanto ele ajudava quando ela estava cansada e perdia detalhes. Outra vezes, ele se contentava em em ficar em silêncio, quando a manhã ou a tarde havia sido difícil, e apenas mexia em seu cabelo de vez em quando ou a observava. Algumas vezes ele fazia perguntas, e ficava ladeando-as em suas reuniões como um soldado leal, avaliando os líderes de guerra e outros estrategistas que vinham debater com ela. Mavis gostava mais quando eram apenas os dois, e adorava a noite, quando os exércitos dormiam e ela podia ter sua atenção toda para ela, mais focado e menos perturbado. E quase sempre, quando ele não precisava sair, Zeref lhe contava sua história de ninar. Suas confissões foram aumentando com o tempo, e as dela se juntaram às dele.

Antes que ela pudesse perceber, Zeref tinha um grande espaço em seu coração. Alguns diriam que ela era tola, se aproximar tanto da Morte, sabendo que algum dia ele levaria sua alma, que quando aquela guerra terminasse, ele partiria e era improvável que ela o visse novamente. Mas Mavis sempre foi de viver o presente, sem calcular o futuro ou pensar em mágoas que podiam vir com ele. Se não se aproveitasse o agora, o que havia para viver então? E se o agora lhe trouxe Zeref, ela o manteria a seu lado o quanto pudesse, seria a companhia que ele nunca teve. Zeref se chamava de antítese do amor, mas Mavis o amava e isso era algo que ela percebeu facilmente.

Ele a amava também, só não sabia. O jeito como ele tocava seu cabelo, tão impressionado com a cor e as ondas, como dizia casualmente o quanto achava seus olhos bonitos, o quanto os dois o lembravam da beleza da vida, seu oposto. Como ele contava a mesma história noite após noite sem reclamar, como seus olhos suavizavam ao olhar para ela, como ele sorria com tanto carinho que apertava se coração. Mavis era observadora, se mais nada, e ela sabia que ele a amava como ela o amava. Eles tinham um fim agendado, e talvez nunca fossem para ser por mais do que aquele período, mas não mudava como se sentiam.

As pessoas diriam a Mavis que ela era louca por amar a Morte, e pensariam que ela, tão apreciadora de tudo que vivia, deveria odiá-la, mas ela nunca foi de corresponder expectativas de qualquer forma. E ela preferia ter amado e perdido do que nunca amado.

Ela conseguia vê-lo por um motivo além de sua compreensão, mas o que ela fazia com isso era de sua escolha. E ela tinha feito a escolha dela.

O final da guerra foi cheio de lágrimas de alegria e alívio e gritos da multidão. Mavis quase desabou de uma mistura de tristeza e felicidade, ciente de que haviam finalmente ganhado, mas que isso a faria perder Zeref. Ela foi abraçada, erguida, soterrada em agradecimentos e bebeu o suficiente para ficar alegre e rosada nas bochechas. 

Mavis o encontrou sentado debaixo de uma árvore, em uma pequena colina que ela subiu meio tropeçando. O lugar era lindo ao pôr do sol, banhado em seus laranjas, rosas e roxos, e parecia intocado pela guerra. Ela se sentou ao lado dele pesadamente.

— Nós ganhamos — ela disse, se sentindo ligeiramente oca por dentro. 

— Eu sei. 

— Você vai embora. — Não era uma pergunta.

Ele olhou para ela, seus olhos tão vermelhos quanto um rubi ao sol. 

— Vou.

Mavis exalou suavemente, olhos escaneando o rosto dele. Ela gravou seus traços, os cílios longos, a curva elegante dos lábios, os olhos suaves e o nariz afilado. Aquilo era uma despedida, uma que poderia ser a última antes de sua própria vez de partir deste plano, e Mavis queria tirar tudo do peito.

— Eu te amo.

As palavras pareceram ter o efeito de um tiro em Zeref. Ele recuou fisicamente como se tivesse sido empalado no peito, lábios se abrindo em choque e olhos se arregalado. Pavor, ela enxergou pavor naqueles olhos vermelhos antes de Zeref se levantar de uma vez. 

— Não — ele disse, e havia tanto dor naquela única sílaba que Mavis sentiu seu coração ser espremido.

— Zeref… — ela tentou começar, mas ele não deixou, balançando a cabeça violentamente de um lado para o outro.

— Não faça isso — ele implorou, tão suavemente e baixo que saiu como um sopro. — Por favor, não faça isso.

Os olhos de Mavis ardiam, observando aquela criatura elegante tremer de medo, assustada com os sentimentos dela e os próprios. Ela sabia que ele não reagiria bem, mas ainda doía

— Eu não posso fazer isso. — Zeref respirou tão profundamente que ela viu seu peito inchar. Os olhos dele nunca foram tão tristes naquele momento, enquanto olhava para ela, em sua tentativa feroz de não chorar; não outra vez. — Adeus, Mavis.

Antes que Mavis pudesse pular em cima dele ou fazer qualquer movimento, ele havia desaparecido. Não andando e sumindo nas sombras como antes, ou simplesmente saindo pela porta,  em um momento ele estava lá e no próximo se fora.

As lágrimas não caíram, mas Mavis sentiu cada facada de sua mágoa, cada soluço seco que saiu de seu peito, a bebida não fazendo nada para amenizar a dor que ela sentia. Ela ficou horas naquela colina, encolhida e tremendo, até que seus amigos a encontraram, sem entender o que aconteceu. Mesmo para eles, Mavis nunca foi capaz de dizer nada sobre Zeref, e nem naquele momento, o que ela sofria mais por causa dele. 

Mavis não odiava Zeref por ser a Morte, mas por abandoná-la.

Ela pensou que era a última vez que o via. Ela estava errada.




A penúltima vez que Mavis o viu, Yuri estava morrendo. 



Era estranho como a vida funcionava, como ela acabava. Yuri era enérgico, forte, capaz de resistir aos maiores desafios e continuar de pé. Mesmo quando foi atravessado por uma lança, ele prevaleceu. Era de se esperar que ele vivesse longos anos, com sua linda esposa com quem Mavis gostava de conversar, com o filho que ela carregava no ventre. Mas não. 

O melhor palpite de Mavis foi que seus pulmões colapsaram. Yuri pegou uma gripe terrível durante a guerra, e pequenos resfriados ao longo dos anos depois dela, e tinha tosses frequentes que começavam quando ele ria ou o tempo esfriava. Não era nada demais, nunca houve sangue, não que Mavis soubesse, e ele sempre fazia graça com isso, como sua risada às vezes parecia uma chaleira. Mas então um dia a tosse não parou, o ataque de risos que resultou nela cessou completamente enquanto Yuri continuava a tossir, e tossir e tossir até que ele cuspiu uma gota de sangue. Foi a primeira de muitas. Sua esposa gritou, Mavis correu até ele, seus amigos começaram a chamar por ele. Yuri caiu no chão e tudo virou um borrão depois disso. 

Mais tarde, lhe disseram que ela liderou todos, que os organizou para que não ficassem em pânico cego, que conseguiu fazê-los levar Yuri rapidamente para o curandeiro. Naquele momento, Mavis não sabia de nada além de seu desespero, aquela sensação de que algo ruim aconteceria, que ela tinha tido antes que Pretch os abandonasse por uma guilda inimiga.

Uma parte dela sabia que não havia salvação, que Yuri tinha escondido deles o quão mal estava, talvez pensando que não era nada demais, ou que os sintomas foram brandos para algo tão terrível. E, em meio ao medo, a esposa de Yuri começou a dar a luz. Mavis teve que fazer uma escolha, e mesmo que não se arrependesse, ainda sentia seu coração horrivelmente apertado e seu estômago tinha a sensação de chumbo. Ela pensou que tinha perdido a morte de seu amigo, que não tinha estado ao lado dele como queria fazer com todos os seus entes queridos, mas quando ela entrou naquela sala, ele ainda estava ali, deitado e com os olhos muito pouco abertos, olhando para ela e vendo-a

Mavis quase sufocou com seu soluço.

— Yuri! — Ela correu até ele, sem nem questionar onde seus outros amigos estavam. Sua mão agarrou a dele, que estava cada vez mais gelada. — Eu estou aqui, Yuri, está tudo bem. Eu estou aqui.

— Ele não quis ir antes de se despedir.

A voz familiar a fez congelar no lugar, ainda agora borboletas alçaram voo em seu estômago enquanto ela olhava para o lado, olhos queimando nas bordas enquanto o via. Zeref era o mesmo, embora ela não pudesse alegar que tinha mudado muito em dois anos, sentado sobre uma cômoda enquanto observava a ela e Yuri. Seus olhos eram pretos, como no dia em que ela o viu pela primeira vez, e uma parte dela sentiu falta do vermelho brilhante enquanto outra se derreteu com a cor atual.

— Zeref — ela sussurrou, baixinho, com medo de que reconhecer sua presença em voz alta o fizesse sumir como ele fez anos atrás.

O sorriso dele era de partir o coração, completamente melancólico.

— Mavis.

Eles se encararam por alguns segundos que pareceram uma eternidade antes de ele desviar os dele para o Yuri.

— Ele é resistente, eu vou dar o crédito a ele. Conseguiu ficar até agora por pura teimosia. Juro que seu coração parou e voltou umas três vezes. 

Mavis soltou um soluço sem lágrimas, apertando mais a mão de seu querido amigo. O segundo que ela faz, aquele que acompanhou toda sua jornada desde que ela saiu da ilha.

— Eu estou aqui, Yuri. Eu te amo. Eu estou aqui e eu te amo. Lembre-se disso, está bem? Seu filho está bem, ele é tão bonito e saudável, ele me lembra você, mas tem uma parte que é claramente da sua esposa.

Ela fungou quando ele começou a falar, lentamente, Mavis jurando que podia sentir seu coração lutar para continuar batendo, a respiração áspera.

— C-chame-o… de M-Makarov. M-Mavis?

— Sim?

— Vou f-falar às fa-fadas sobre v-você.

Mavis riu em meio as lágrimas que finalmente desciam, colocando a mão dele em sua testa.

— Me espere do outro lado, está bem?

— C-claro… t-tampinha. 

Mavis riu mais, um pouco histericamente, enquanto observava a luz deixar os olhos dele, seu sorriso ainda no rosto. As pessoas invadiram a sala, como se sentissem o que acontecia, e Warrod chorou enquanto seu amigo deixava este plano. Ela só soltou a mão de Yuri quando Zeref se aproximou, olhando para ela como se pedisse permissão, esperando ela assentir para recolher a alma de seu amigo. O corpo de Yuri parecia mais frio agora, e Mavis o deixou ir fisicamente também enquanto se levantava, as lágrimas escorrendo de seu rosto.

Era a segunda vez que Mavis chorasse, e talvez ela nunca visse uma fada por isso, mas Yuri merecia suas lágrimas como Será mereceu. Ela deixou a sala, andando até achar uma sombra de uma árvore na qual pudesse se encolher e lamentar. 

Ele apareceu não muito tempo depois, e ela permitiu que ele se sentasse ao seu lado, como ela fez naquele dia.

Zeref suspirou.

— Eu te disse que um dia me odiaria.

Mavis quase riu, mas estava sem energia alguma para isso. Ela levantou a cabeça dos joelhos e olhou para ele, sem se dar ao trabalho de secar suas lágrimas.

— Para alguém tão esperto, você é estupido. Eu não te odeio porque você levou meu amigo para o descanso eterno, eu te odeio porque você me abandonou . Eu disse que te amava e você ficou com medo demais do que isso significava, dos seus sentimentos, e você escolheu fugir disso. Você me deixou , sabendo que eu te amava, porque estava com medo . Dois anos, Zeref, isso pode não ser muito para você, mas é para mim.  

Ele engoliu em seco, os dedos das mãos se contraindo.

— Eu nunca fui amado, Mavis. Não que eu me lembre. E você é tão viva . Você é tudo que eu não sou e você me amar é praticamente um desequilíbrio da natureza! Eu não mereço ser amado, ninguém deveria amar a Morte.

— Mas eu amo — ela disse, ferozmente, os olhos cravados nos dele. — Eu amo você e mesmo que eu deixe de amar, ainda vou ter te amado. Nada do que você ou qualquer um fizer vai mudar isso, e eu queria que você entendesse isso. Somos fadados a um fim trágico, mas não precisa ser este . Você fugindo e eu ficando para trás. Não faça isso comigo, Zeref, por favor. 

As palavras dele se voltaram para ele e ele parecia devastado . Havia esperança guerreando com medo, culpa e desespero. Zeref fechou os olhos com força, a cabeça levemente inclinada para trás, e quando os abriu, eles eram tão intensos e abrasadores que queimaram quase fisicamente sua pele.

— Eu sou seu, Mavis. Para amar e para odiar, para fazer o que você quiser enquanto eu existir. Eu te amo.

Ela nem se lembra de ter avançado, a única coisa que sabia era que suas mãos de repente estavam emaranhados em seu cabelo escuro e macio e seus lábios estavam sobre os dele, finalmente . Eles eram frios, como todo ele, mas derreteram-na por dentro. Sua pele, fria ao toque, deixou rastros de fogo enquanto ele enterrava os próprios dedos em seus cachos desordenados, a outra mão segurando em sua cintura e puxando-a para perto, beijando-a com um abandono que a deixou completamente tonta, a mente em branco de qualquer coisa que não fosse ele.

Mavis estava arrasada, de luto e com raiva dos dois anos que passou esperando que ele voltasse. Mas também não sentia mais como se estivesse se afogando na dúvida, o peso de perder um amigo e aquele que ela amava de uma forma muito diferente dele. Mavis perdeu Yuri, mas Zeref estava lá para apará-la, para segurá-la perto e assegurar com sua presença e todo seu corpo de que ele não iria embora tão cedo.

Todos algum dia iam partir daquele plano, mas não Zeref, ele era a constante de Mavis, aquele que estaria lá até o final de seus dias, que a amaria até ela deixar aquele corpo. 




A última vez em que ela o viu, foi em sua morte.



Foi tranquilo, de certa forma, porque Mavis não a temia. Zeref não se importou com seu envelhecimento, o modo como sua pele antes elástica e brilhante se tornou flácida e opaca, como seus cabelos se tornaram brancos (ele garantiu que ainda amava a cor), como sua fala se tornou arrastada e suas peripécias quase lhe davam um ataque do coração que ele provavelmente nem tinha. Mavis foi jovem até a morte, e enquanto sorria para os garotos reunidos ao redor de sua cama, todos filhos e netos de seus amigos, e aqueles que seguiram seus passos na guilda e a consideravam a mestra, ela não sentiu medo algum.

Mavis olhou para a Morte nos olhos e não temeu, ela sorriu para ele, seu amante, seu confidente, seu marido, seu Zeref. Ela levantou a mão trêmula para ele, e ele a segurou com aquele olhar triste que ele não tinha há anos.

— Não fique triste — ela sussurrou para ele, sabendo bem o quanto as pessoas gostavam de dizer que ela tinha enlouquecido ou que tinha ilusões de que conversava com a Morte. Aquele lugar era seguro, aquelas pessoas confiavam nela, mesmo que não pudesse ver Zeref, e foram importantes para eliminar aquele olhar que ele sempre tinha, ainda que nunca tivessem tido uma conversa total com ele ou realmente o enxergado. — Vamos nos ver novamente.

Zeref parecia engasgado.

— Você não pode ter certeza.

— Ah, mas eu tenho — ela disse com a mesma confiança e convicção que fazia tudo. — Vamos nos ver de novo, Zeref, e desta vez você não vai correr, e não vou ouvir apenas o meu coração bater. Guarde minhas palavras. Vou te apresentar a todas as fadas com quem eu fizer amizade e as que eu não fizer também.

Ele deu uma risada triste.

— Eu te amo — ele disse, sentindo que não lhe restava muito tempo.

Mavis sorriu uma última vez.

— Eu também te amo.

Foi doloroso ver a luz que ele tanto amava sumir dos olhos dela, ouvir o choro aquelas pessoas que se tornaram importantes para ele e que era igualmente importantes para ela. Ainda mais doloroso, porém, foi recolher a alma dela, deixá-la descansar, ser obrigado a fazer o que ele era obrigado a fazer apenas por existir. 

Debruçado sobre o corpo de sua amada, a Morte despejou uma única lágrima brilhante e rezou.






























Era uma vez um garoto que desafiou os deuses. Ele era inteligente, tão esperto que deixava adultos balbuciando com suas palavras, invejando-o e admirando-o na mesma medida. Eles o amavam e o temiam, e ele apenas queria uma coisa: conhecimento.

Era uma vez um jovem, mal saído da adolescência, que achou que sabia mais, que podia conseguir mais do que devia. Ele olhou para os céus e os amaldiçoou, despejou sua ira e desesperança nos deuses enquanto lamentava a morte de seu irmão.

Era uma vez um homem que não aceitou a morte. Que quis escolher quem deveria viver e quem deveria morrer. Ele voou alto demais, perto o suficiente para tocar o sol, e descobriu que queimava

Era uma vez um homem que em sua ganância, ódio e amor cego foi amaldiçoado. Que perdeu suas memórias de uma vida inteira, que teve seu batimento cardíaco arrancado como o calor de sua pele, que gritou horrivelmente enquanto perdia quem ele realmente era.

Era uma vez, um homem que se tornou a Morte. O nome dele era Zeref.















A sala era ampla, os pilares impecavelmente brancos tão altos que desapareciam no céu, criaturas de poder inigualável sentadas em trono olhando para baixo, sempre para baixo. Elas não eram desafiadas, e quando alguém tinha coragem para tentar, era devidamente castigado. Eles não obedeciam a ninguém além de si mesmos. Mas escutavam preces.

O jovem ajoelhado na frente deles finalmente rezou, e ali estava ele. 

Ele se apaixonou , sussurrou orgulhosamente Bentem, olhando-o com algo como carinho. Os outros deuses apenas olharam, alguns concordando, o deus do tempo avaliando-o criticamente.

— Zeref Dragneel — Ele ouviu seu nome, aquele que tinha esquecido, aquele que só recuperaria quando se ajoelhasse perante aos deuses. —, você se arrepende de seus pecados? 

Zeref olhou para cima, para aqueles que o condenaram, aqueles que decidiam arbitrariamente, e exalou, olhos verdes e cachos loiros incontroláveis dançando atrás de seus olhos. Por Mavis, ele finalmente rezou, aquilo que se recusou a fazer mesmo se lembrando de tão pouco. Por causa dela, finalmente entendeu o que era aceitar a morte como o que ela era: inevitável, mas não completamente devastadora. Mavis se levantou de novo e de novo e de novo, e lhe ensinou o tempo todo que não perdia-se realmente as pessoas para a morte, mas as deixava descansar, ficava-se ao seu lado e esperava sua vez para encontrá-los.

Talvez, se ele não tivesse se recusado a aceitar a morte de Natsu, já tivesse se encontrado com ele, podido abraçá-lo de novo. Ele não se lembrava de seu irmãozinho, aquele para quem contava aquela história de ninar todos os dias, até ceder e chegar ali. Mas ele conheceu Mavis, e talvez tudo que aconteceu com ele tenha lhe guiado até ali, suas escolhas pelo menos o fizeram conhecê-la, e isso devia ser o suficiente.

Mas Zeref estava exausto. E sua hora havia chegado assim que recolheu a alma de Mavis. Ele queria ir atrás dela, de Natsu, e só havia uma forma de fazer isso.

— Sim.

O ar crepitou com energia que nenhum humano deveria ser exposto, estalando e chiando.

— Eu revogo seu castigo.

Zeref fechou os olhos e exalou.

— Obrigado. 

A energia finalmente explodiu, e Zeref foi levado com ela, finalmente abandonado aquele corpo físico que mal lhe pertencia mais. 













    













 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2016

 

A primeira vez que ela o encontrou, foi em um enterro.




Mavis não fazia ideia do que fazia ali, realmente. Yuri a desafiou a passar uma noite inteira no cemitério, e como a pessoa competitiva e sem medo que ela era, ela aceitou. Foi tranquilo, ela conseguiu se esquivar facilmente do segurança, e com alguns lanches e um pano comprido para se sentar, ela estava à vontade. Cemitérios nunca lhe deram medo, Mavis nunca temeu a morte, então foi facilmente. 

O problema foi quando amanheceu, e as pessoas chegaram. Se sentindo péssima por estar tecnicamente invadindo um enterro, ela se escondeu atrás de uma árvore, mordendo o lábio enquanto pensava na melhor rota de fuga para sair dali sem alertar ninguém de sua presença. Zera e Yuri não a deixariam em paz quando ela voltasse para o dormitório sem cumprir o desafio, mas ela realmente não queria estragar o velório de alguém. Mavis tinha um enorme respeito por eles.

Ela quase gritou quando ele encostou nela, e foi só seu susto absoluto que a fez não soltar um pio enquanto se virava com os olhos arregalados para o garoto. Ele devia ter a idade dela, cerca de dezoito anos, e era incrivelmente bonito. Cabelos escuros como penas de corvos caindo pelo rosto, lisos como o de Zera ficava quando ela usava seu alisador de cabelo caro, olhos tão pretos que pareciam refletir a luz fraca através das árvores cheios de uma surpresa quase cômica tão arregalados assim, cílios escuros descansando em maçãs do rosto alta e pele pálida como marfim. Mavis também era branca, mas sua pele era mais bronzeada, coberta de sardas em toda parte pelo tempo que ela ficava ao sol — ela amava ficar ao sol —, ela nunca tinha visto alguém tão pálido ao ponto de ser rosado nas bochechas, nariz e ponta das orelhas. A segunda coisa que ela notou sobre ele foi as roupas pretas, calça jeans com alguns rasgos nos joelhos, blusa com uma estampa de uma rosa vermelha como sangue (que combinava com o pingente do colar que ele usava); suas botas de exército eram tão pretas quanto todo o resto. A terceira coisa, e a mais importante, que notou sobre ele, foi que ele tinha um cheiro bom: algo terroso misturado com um fundo picante e doce e alguma coisa que a lembrava de orvalho.

— Você não é parente do falecido, é? — ela perguntou em um pequeno sussurrou agudo.

— Não — ele respondeu no mesmo tom (mas menos estridente). — Eu gosto de ficar aqui, é tranquilo.

As bochechas dele estavam coradas, como ele temesse o julgamento. Mas Mavis entendia , e seus olhos brilharam por isso.

— Eu também. — Ela se aproximou bruscamente, como era seu hábito, fazendo-o recuar um pouco de surpresa. Mavis se afastou com um sorriso de desculpas. — Mas não é por isso que estou aqui, fui desafiada a passar a noite aqui e só retornar às 7. Mas agora está tendo um velório e não sei como sair daqui discretamente.

Simpatia e compreensão passaram por seus olhos antes que ele mordesse o lábio, escaneando-a com os olhos como se procurasse alguma coisa em seu rosto. Finalmente, ele suspirou.

— Eu sei uma saída daqui, mas você vai ter que ser bem silenciosa.

Mavis se alegrou imediatamente, agarrando suas mãos e assentindo.

— Prometo. Eu sou Mavis. 

— Zeref. — Ele pigarreou, parecendo constrangido com o contato. Mavis deixou ir, mas ele segurou sua mão direita como se tivesse feito isso mil vezes. — Preciso te guiar — justificou, mas quando ele se virou, Mavis viu que a ponta de suas orelhas estava mais rosada que antes e sorriu.

Seu coração batia em seu peito enquanto ele a guiava para fora do cemitério sem ninguém vê-los, sua mão quente onde a dele a segurava. Ela conseguia ouvir o batimento cardíaco dele por sua pulsação na mão, tão acelerado quanto o dela. 

Enquanto eles andavam por um cemitério às seis e meia da manhã, Mavis se perguntou se não estava procurando por ele, porque algo dentro dela se acalmou como se tivesse achado o que faltava. Ela tinha a impressão de que ele sentia o mesmo. 
























Notes:

E viveram felizes para sempre. FIM.

Para esclarecer, no final, Mavis e Zeref estão no começo da faculdade (e sintam livres para escolher qual eles fazem) e Mavis mora com Zera em um dormitório, onde Yuri sempre está porque gosta de conversar com elas. Precht e Warrod já estão formados, e Natsu e Lucy e os outros de sua gangue estão no primeiro ano do ensino médio.

Me desculpem se isso não fez sentido, mas eu precisava tirar isso da cabeça e tudo foi escrito em três dias em intervalos irregulares de tempo porque eu trabalho o dia todo e estudo à noite. Me digam o que acharam nos comentários <3