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Capítulo 1: Bem Vindo à Reverse Falls
Em uma pequena cidadezinha chamada Reverse Falls, as árvores estavam muito agitadas, os pássaros não paravam de voar e os galhos das árvores estavam todos caindo no chão. Conforme os barulhos iam se aproximando ficava mais evidente o que estava acontecendo na floresta, de repente uma criatura gigante, com aproximadamente seis metros de altura, saía dentre as árvores, essa criatura era coberta por galhos e musgo, o monstro gigante parecia estar furioso com alguma coisa; Então inesperadamente um carrinho de golfe pulava dentre as árvores e caia no chão, dentro do carrinho tinha uma garota adolescente, que parecia ter por volta de dezessete (17) anos, e um garoto que aparentava ter a mesma idade da menina.
A criatura estava correndo atrás do carrinho que a menina dirigia com um grande sorriso em seu rosto e aparentava não estar muito assustada com aquela situação, por outro lado, o garoto ao lado dela estava apavorado com a situação. Ele tinha um livro em suas mãos e estava folheando suas páginas desesperadamente atrás de alguma coisa.
— E aí, achou alguma coisa nesse seu livro estranho? — perguntou a garota fingindo estar calma.
— COMO VOCÊ CONSEGUE ESTAR TÃO CALMA NESTA SITUAÇÃO?! — berrou o menino incrédulo com a feição da garota.
— Ué, eu sempre fui desta forma, não adianta nada nos estressamos ou ficarmos assustados — retrucou a menina fechando os olhos e tirando a mão do volante para gesticular.
— PACIFICA! SE CONCENTRA NA ESTRADA!!
— Nossa, você é muito medroso, Gideon, não precisa de toda essa gritaria — falou Pacifica com uma cara de simpatia para Gideon.
Quando ela retornou sua atenção ao volante, a garota notou que os dois estavam indo direto para um penhasco. Assustada, ela tentou frear o carrinho, contudo algo aparentava estar errado com o freio.
— Ééé... Gideon... — Pacifica chamou a atenção do garoto hesitantemente.
— O que foi, Pacifica?! Deixa eu me concentrar no livro — disse Gideon sem desgrudar os olhos do livro, que era a única coisa que o distraia do terror da situação.
— Então... acho que é melhor você olhar para frente AGORA! — gritou Pacifica, assustada e se agarrando ao volante do carrinho.
Gideon se assustou com o grito da garota e decidiu olhar para frente, empalidecendo instantaneamente e estremecendo de medo ao notar o penhasco logo adiante, o medo do garoto era tão grande que ele simplesmente paralisou no carrinho e não conseguiu esboçar nenhuma reação.
O carrinho foi a toda velocidade em direção ao penhasco, enquanto o monstro parou abruptamente. Sem conseguir parar o carrinho, os dois são jogados daquele penhasco em toda a velocidade.
No meio do ar, Gideon recobrou seus sentidos e começou a gritar muito, Pacifica se assustou com o grito do garoto e se juntou a ele naquele grito estridente.
6 horas antes
Em um ônibus, uma garota viajava. Ela era Pacifica Southeast, uma garota jovem com um grande cabelo loiro, olhos azuis e roupas cheias de desenhos fofos e cores vibrantes que se destoavam do ambiente ao redor, diferente das demais pessoas do ônibus.
A garota já estava no ônibus por volta de sete horas, em uma viagem para uma pequena cidade no interior do Oregon, chamada de Reverse Falls. Ela aparentava estar muito ansiosa e pensativa, tanto que ela nem havia se dado conta de que o ônibus tinha chegado em sua última parada antes de alcançar a cidade.
Ao ver as pessoas descendo do ônibus, ela logo percebeu que tinham parado, e se apressou para descer junto com os demais passageiros. Ela foi ao banheiro para lavar seu rosto do suor acumulado dentro daquele veículo abafado. No entanto, quando a garota entrou no banheiro, ela começou a se sentir muito mal, seu estômago parecia queimar e ela caiu de joelhos no chão por conta da dor. Quando ela não aguentava mais segurar seus gritos, a dor passou subitamente sem nenhum tipo de explicação.
A garota se viu assustada com a situação, mas, ainda assim, decidiu se levantar e tentar ignorar o que havia acabado de lhe acontecer, mesmo que estivesse claramente incomodada. Ela foi até uma das cabines do banheiro e se sentou na tampa da privada, respirando profundamente e tentando entender de onde aquela dor tinha vindo. Infelizmente, estava difícil de pensar quando a temperatura do banheiro parecia estar tão estranha, levando-a começar a tremer de frio em poucos segundos.
— Por que tá tão frio de repente? A temperatura estava normal quando eu entrei no banheiro — comenta Pacifica consigo mesma ao se levantar do assento.
A garota se levantou e saiu da cabine, olhando ao seu redor em busca de algum tipo de ar condicionado. Contudo ela não achou nada que poderia estar abaixando a temperatura do ambiente. Pacifica então começa a ouvir alguns gemidos de dor vindo de uma das cabines. "Que estranho, o banheiro estava vazio quando eu cheguei e não ouvi ninguém entrando", pensou para si.
— Oi? Tudo bem aí? — perguntou Pacifica com uma voz baixa e trêmula.
Antes mesmo de conseguir terminar sua pergunta, os gemidos cessaram completamente e o banheiro ficou em total silêncio, onde tudo que ela podia ouvir era seu coração batendo contra seu peito. A garota não sabia o que havia acontecido, todavia ela criou coragem e subiu no assento de privada da cabine ao lado da que os gemidos antes vinham. Para sua confusão, ao olhar por cima da divisória, ela não encontrou nada que pudesse ter gerado aquele som.
Pacifica ficou parada ali por alguns instantes, com seus olhos arregalados e tentando encontrar alguma razão para os sons que ela tinha ouvido anteriormente. Todavia, sem encontrar nada a garota, começou a se perguntar se poderia estar ficando louca.
Entretanto, quando descia do assento, ela bateu seus olhos de relance no espelho do banheiro e notou algo escrito lá. Ela rapidamente leu "XOTLALO" e ficou ainda mais confusa e assustada. Não lembrava-se de ter visto aquilo ali antes quando havia entrado, porém talvez possa ter deixado tal coisa passar por conta da dor que sentira inesperadamente ao chegar no recinto. A garota começou a ouvir o mesmo gemido de antes, porém desta vez estava muito mais intenso, agora os sons mais pareciam com gritos do que gemidos. Pacifica decidiu que curiosidade não é motivo suficiente para permanecer ali e saiu correndo para fora do banheiro.
Quando chegou no lado de fora, olhou para os lados e percebeu que estava tudo tranquilo e ninguém parecia ter notado que algo fora normal tinha acontecido bem ali. Parecia que só ela tinha passado por aqueles eventos anormais.
A menina, confusa com tudo aquilo, dá uma última olhada em direção ao banheiro, todavia tudo aparentava estar completamente normal. Ela dá dois tapinhas leves na própria cara e tenta se recompor do estado de choque. Respirando fundo, a garota começa a andar apressada de volta ao ônibus, com seu rosto ainda mais suado do que antes.
O ônibus partiu em viagem, e, durante todo o caminho restante, a garota se manteve totalmente focada em tentar desvendar o que poderia ter ocorrido naquele banheiro. Contudo, uma coisa a incomodava mais que tudo: ela não conseguiu recordar-se de uma letra sequer da palavra escrita no espelho, e toda vez que ela tentava uma enorme dor de cabeça surgia e a impedia de pensar com clareza, tornando pensar na memória um grande incômodo.
Cansada de seus pensamentos, olhou para fora da janela e se surpreendeu ao ver que a placa da cidade de Reverse Falls estava finalmente visível. Depois de tantas horas naquele ônibus ela se alegrava muito em chegar ao seu destino.
Assim que pararam no ponto do ônibus ela agarrou suas malas e desceu rapidamente. Uma voz muito familiar a recebeu.
— Finalmente você chegou! Estou quase uma hora no ponto te esperando.
A garota abriu um sorriso de canto a canto e virou-se em direção da voz. Quando ela completou o giro, uma figura muito amada estava diante de seus olhos: era seu pai! Fazia anos que Pacifica não via ele pessoalmente, nos últimos anos eles só se encontraram por meio de vídeo-chamadas. A garota então soltou um grito estridente que fez todos por perto olharem em direção a eles dois.
— PAI! PAI! QUE SAUDADE!
Pacifica largou suas malas e deu um pulo em direção a seu pai. O homem se assustou e estendeu os braços para segurá-la, dando um pequeno passo para trás para se equilibrar direito daquele salto inesperado. Ele conseguiu se manter firmemente de pé e retornar o abraço de sua filha.
O homem estava muito surpreso, pois não esperava uma reação tão entusiasmada vindo da filha, a última vez que ele a tinha visto pessoalmente foi quando ela tinha 8 anos. Embora soubesse que a garota tinha mudado com o passar dos anos, e de uns tempos para cá ela tenha se tornado muito mais extrovertida e alegre, ainda assim era muito estranho para ele – que estivera mantendo contato com ela somente por mensagens e ligações – tê-la ali pessoalmente tão crescida era uma experiência totalmente diferente.
Ela olhou para cima e viu seu pai com os olhos inundados de lágrimas de felicidade. A garota se emocionou junto dele e os dois começaram a chorar enquanto abraçados. As pessoas que estavam passando por eles só podiam observar e pensar: "Como aquele clima de felicidade havia se tornado uma melancolia sem fim?". Bom, os detalhes não importam, o que realmente importava é que os dois estavam juntos novamente e felizes.
Após alguns minutos eles pararam de chorar e se soltaram daquele longo abraço. O homem pegou algumas das malas do chão e, para confusão de sua filha, permaneceu parado no mesmo lugar.
— Pai? O que houve, não vamos para casa?
— Bom, só estou esperando uma pessoa, já faz mais de uma hora.
— Uma pessoa?
— Sim, um velho amigo seu — seu pai falou com um sorriso de canto de boca.
— Velho amigo? — repetiu Pacifica mais confusa do que estava antes.
Assim que ela terminou sua frase, a garota sentiu alguém cutucar seu ombro. Ela tomou um pequeno susto e se virou para trás, curiosa. Ela viu um garoto bem baixinho, meio gordinho e com um boné de pinheiro olhando para ela. Rapidamente, várias memórias começam a passar pela sua mente. Eram memórias de quando ela visitou Reverse Falls pela primeira vez. A garota se lembrou de quem era aquela pessoa parada à sua frente: era Gideon! Um dos seus melhores amigos de quando ela morava na cidade, eles brincavam durante horas e horas em sua infância. Sua aparência tinha mudado bastante de como era naquela época, contudo ainda era fácil de reconhecê-lo.
Pacifica deu um sorriso meio sem jeito para o garoto, pois não sabia o quanto ele tinha mudado. Durante sua infância, Gideon sempre foi uma criança muito alegre, e além disso o jovem era muito gentil e carinhoso com as pessoas próximas a ele. Contudo a menina não manteve contato com o garoto durante esses anos e estava um pouco receosa de acabar sendo invasiva de alguma forma.
Vários questionamentos estavam vindo à cabeça dela, a garota não conseguia decidir como deveria agir naquela situação desconfortante. Porém, todas as dúvidas que estavam em sua mente se esvaíram quando o garoto abriu um grande e amigável sorriso e a abraçou. A fisionomia de seu amigo podia ter mudado conforme os anos foram passando, mas ele ainda continuava sendo a mesma pessoa gentil de sempre. A menina deu um pequeno suspiro de alívio, e acabou retribuindo o abraço do menino.
— Quanto tempo hein, Gideon — falou a garota enquanto o abraçava.
— Sim! Fico feliz em vê-la, Pacifica.
À vista disso, os dois se separaram do abraço e Pacifica olhou para o garoto de cima a baixo, parecendo que ela o estava analisando. Ele, em tal situação, se sentiu um pouco incomodado e a questionou.
— Ei! O que você estava fazendo, Pacifica? — falou o garoto visivelmente incomodado com os olhares de predador da garota.
— Humm... Não sei, tem algo estranho contigo... Por algum acaso você diminuiu de tamanho? — perguntou Pacifica com a mão no queixo, e com um olhar curioso.
— Qu... quê?? Isso não foi gentil, Pacifica! Nunca se pergunta a altura de alguém! Além de ser muito infantil — Gideon disse esboçando uma expressão de raiva.
— Haha, mil desculpas, Gideon, só estou brincando com você — falou a garota sorrindo, enquanto garoto continuava com uma cara emburrada em seu rosto.
O pai de Pacifica só ficou olhando aqueles dois enquanto conversavam, com um sorriso nostálgico em seu rosto. Gideon, percebendo que seu tio¹ já tinha parte da bagagem da menina em suas mãos, estufou seu peito e pegou malas que ainda estavam no chão.
(¹ Gideon chama o pai de Pacifica de "tio", pois eles tem uma grande intimidade. )
— Olha só, até que você é bem fortinho para sua estatura — elogiou Pacifica com um pequeno e disfarçado tom de provocação.
— Nossa, muito engraçado, Pacifica. Eu não queria comentar, mas eu acho que não fui eu que diminui, e sim foi você quem cresceu demais. Você tem o quê 1,80m? — disse Gideon retrucando com uma cara de satisfação e com um sorriso sarcástico.
— Uau, que maduro, não era você que estava me falando que isso é coisa de criança? — Pacífica falou com uma de suas sobrancelhas arqueada.
Enquanto os dois tinham aquela pequena discussão, o pai de Pacifica soltou um pequeno suspiro exasperado.
— Haha... Isso me traz tantas memórias — disse o pai de Pacifica rindo dos dois.
— Pai, qual a graça? — falou Pacifica movendo sua atenção de Gideon para seu pai.
— Desculpa, filha. É porque eu sentia saudades de ver vocês dois juntos. Na sua infância eu via muito essa cena se repetindo constantemente; embora vocês fossem muito amigos naquela época, brigavam como se fossem inimigos mortais. Dava até um pouco de medo que os dois acabassem se machucando de verdade!
— Sério que nós brigávamos tanto assim, pai? Eu juro que não me lembro nada disso, só me lembro de algumas brigas bem pontuais, ainda assim não com tanta constância — indagou Pacifica com a mão em sua cabeça.
— É claro que você não lembra, Pacifica! A grande maioria das vezes eu que acabava me ferrando de alguma forma, fosse com você me batendo ou me mandando fazer algumas coisas absurdas para alguém da nossa idade — exclamou Gideon com uma expressão de sofrimento que só podia vir de memórias bem traumáticas.
— Quê? Meu Deus, Gideon, você está me adjetivando como se eu fosse um monstro horrível quando criança! Tenho certeza que vocês dois só estão exagerando, pois, se eu fizesse essas coisas, eu me lembraria, não é? — empoderou Pacifica, cruzando os braços.
— Na verdade, filha, ele não está mentindo. Várias vezes eu tinha que separar a briga de vocês dois, e, na maioria das situações, o Gideon acabava com um olho roxo ou algum hematoma pelo corpo — disse o pai de Pacifica.
— Obrigado, tio Preston! Pelo menos o senhor é lúcido — expressou Gideon com uma cara de indignação para Pacifica.
— Bom... Se vocês dois estão afirmando isso com tanta ferocidade, assumirei que seja verdade — falou Pacifica pegando num dos ombros do garoto e olhando dentro de seus olhos. — Desculpe-me, Gideon. Eu não tinha noção do mal que lhe causava quando criança.
— N-não precisa me pedir desculpa, Pacifica. Nós éramos muito jovens na época, como o próprio tio Preston disse, mesmo com tantas brigas continuávamos amigos — disse Gideon desviando o olhar e se afastando um pouco.
— Ok, ok, o reencontro dos dois está muito lindo, eu admito, entretanto eu gostaria de me apressar para chegar em casa. Essas malas estão um pouco pesadas e eu não quero perder o show dos Gleefuls essa noite! — exclamou o pai de Pacifica com seus braços trêmulos de ficar segurando aquelas malas por tanto tempo.
— Ah, foi mal, pai. Eu nem notei que nós ainda estamos aqui no ponto de ônibus parados — Pacifica ajustou sua mochila nas costas e começou a andar com Gideon e seu pai — A propósito, quem são esses tais Gleefuls? Algum tipo de banda?
— Não, eles são dois irmãos que chegaram há pouco tempo na cidade e ficaram muito conhecidos por seus shows surreais — explicou Gideon.
— Isso mesmo, os dois chegaram faz menos de um ano aqui e estão fazendo um sucesso absurdo! Todos os shows deles tem algum número inusitado, e aposto que eles devem estar faturando um bolão, já que quase toda a cidade vai lá para vê-los — disse o pai de Pacifica olhando para a garota enquanto andavam.
— Nossa, show de mágica? Que coisa brega, todos sabem que isso não passa de um monte de mentiras, são só truques baratos — comentou Pacifica.
— Olha, eu só fui no primeiro show que teve na cidade por curiosidade e não fui muito com a cara deles. Mesmo assim, devo admitir que mesmo sabendo que tudo aquilo eram truques, tudo pareceu muito real. Eles são muito bons nos números deles — disse Gideon.
— Exatamente, filha! Eles ficaram muito populares aqui na cidade justamente por causa disso. Além dos truques deles serem extremamente bem feitos, nenhum show deles se repete, ou seja, todos os shows tem apresentações inéditas. Eles fazem um show por mês, e foi anunciado que eles estão preparando algo muito especial para o evento de hoje, por isso todos da cidade estão muito ansiosos para assistir! — exclamou o pai de Pacifica com seus olhos brilhando de empolgação.
— E, na verdade, faz muito sentido o sucesso deles aqui na cidade. É só levar em consideração que nós estamos em uma cidadezinha no interior do Oregon, consequentemente é muito monótono viver aqui, portanto qualquer novidade ou entretenimento faz muito sucesso por aqui — disse Gideon.
— Hmm... Entendi, mas se o show desses caras é tão bom assim, por que fazer em uma cidadezinha como essa? — Indagou a garota. — Se for do jeito que vocês estão falando, duvido que eles consigam tirar algum lucro daqui.
— Na verdade, eu sempre senti alguma coisa estranha vindo daqueles gêmeos, sei lá, sempre quando eu vejo eles passando na TV ou em alguma revista, dá um certo arrepio que não sei muito bem explicar. Além também das coisas estranhas que vem acontecendo desde que eles chegaram na cidade... — falou Gideon com uma cara pensativa.
— Coisas estranhas? Como assim? — perguntou Pacifica com curiosidade no olhar.
— Bom, sempre existiram relatos de coisas estranhas acontecendo em Reverse Falls, como fantasmas, duendes ou até mesmo fadas. Sabe essas lendas urbanas e rumores que as pessoas do interior contam umas para as outras, mas de um tempo para cá todos esses rumores se intensificaram, vários moradores vêm relatando que tem visto várias coisas estranhas acontecendo na cidade — explicou Gideon dando de ombros. — Outro dia, a Sra. Susan disse que foi botar o lixo para fora e viu um morcego gigante voando em sua direção... Bom, eu obviamente não acredito nessas coisas, porém admito que é minimamente curioso — disse Gideon.
— Nossa, incrível! Eu gostaria muito de ver alguma criatura sobrenatural, sério deve ser muito maneiro ver algo desse tipo — exclamou Pacifica com uma cara muito empolgada.
— Bom, não vamos esquecer que isso são só rumores, filha, não tem nada comprovado. Aliás, já estamos chegando em casa — falou o pai de Pacifica.
Os três conversaram muito enquanto andavam, e isso foi tempo suficiente para que chegassem na pequena casa do pai de Pacifica. Ao chegarem na porta, a garota relembrou muitas memórias de sua infância. Ela ficou parada em frente a porta um pouco emocionada, porém logo viu eles entrarem e se apressou para acompanhá-los.
— Enfim chegamos, filha! Leve as malas para o seu quarto lá em cima, vou preparar um café para vocês dois — pediu o pai de Pacifica, entregando as malas para a garota carregar.
Pacifica e Gideon sobem para o quarto antigo da garota. Assim que eles chegam, Pacifica notou que o quarto continuava igualzinho a como ela o tinha deixado.
— Nossa, Pacifica. Como você era brega quando criança — zombou Gideon, vendo o quarto todo rosa e cheio de ursinhos de pelúcia.
— Não entendi, você está querendo me dizer que seu quarto também não era infantil quando mais novo? — disse Pacifica olhando com estranheza para o menino.
— Infantil? Claro que não! Meu quarto sempre foi incrível desde criança, sempre tive vários robôs e carrinhos para deixar a decoração mais irada — clamou Gideon com muito orgulho.
— Robôs? Credo, isso é coisa de nerd! Eu sempre preferi mais minhas pelúcias — falou Pacifica colocando suas malas no chão e pegando uma de suas pelúcias para abraçar.
— Tudo bem, não vou discutir com você sobre isso... Mas meus robôs são muito mais legais — comentou Gideon, bem baixinho para a garota não escutar.
Assim sendo, os dois começam a ajeitar malas no quarto e depois de um tempo eles desceram à cozinha onde o pai de Pacifica estava terminando de preparar um café para eles. Os três se serviram e sentaram à mesa, onde começaram a conversar sobre antigamente e como a cidade tinha mudado. Eles ficaram ali conversando animadamente e, sem que notassem, 2 horas se passaram. O pai de Pacifica deu uma breve olhada no relógio e percebeu que já estava quase na hora do show.
— Meu Deus! Estou atrasado! Vou só pegar as chaves para ir, vocês dois vão querer me acompanhar? — disse o sr. Preston pulando da cadeira.
— Na verdade, eu não estou muito afim de ver um show, pai. Estou bem cansada da viagem, acho que vou descansar um pouco — falou Pacifica bocejando e ficando um pouco corcunda como se estivesse cansada.
— Eu também não, estou muito empolgado, Tio Preston. Talvez na próxima — desculpou-se Gideon, desviando o olhar.
— Bom, então eu vou indo, logo eu volto, filha — se despediu o pai da Pacifica com um beijo na cabeça da filha. Ele pegou suas chaves e saiu com um último tchau.
Quando o sr. Preston sai, Pacifica mudou completamente sua postura, de cansaço para uma bem mais energética, e começou a olhar para os lados aparentando estar procurando alguma coisa.
— Pacifica? — Indagou Gideon para a garota.
— E aí, Gideon. O que vamos fazer? Estou empolgada para explorar! — Disse Pacifica se levantando da cadeira.
— Peraí, quê? Como assim, do que está falando, você não estava cansada, literalmente alguns segundos atrás? — Gideon perguntou intrigado com a mudança de comportamento da menina.
— Hahaha, claro que não tô cansada, na verdade eu estava só esperando meu pai sair para que pudéssemos fugir!
— Meu Deus, então toda a conversa de estar cansada foi fingimento — disse Gideon colocando a mão na cabeça.
— Claro! Então? O que vamos fazer hoje? — questionou a garota se aproximando de Gideon.
— É bem complicado sairmos agora, Pacifica. Já estamos no fim da tarde, e vai ficar bem escuro
— Melhor ainda! Já sei, vamos pra floresta, eu lembro que brincávamos bastante lá quando éramos pirralhos — a garota pareceu ficar mais empolgada ainda.
— Não, na real isso é uma ideia muito estúpida, já está quase anoitecendo, todos sabem que não se pode entrar na floresta de noite — reprovou Gideon, fechando os olhos e sacudindo a cabeça.
— Nossa, para de ser chato, a gente só vai andar um pouco. Eu tenho lanternas em alguma das minhas malas, vou lá em cima pegar — a garota gritou já correndo escada acima.
— Espera, Pacifica! Você não escutou nada que eu falei!? É perigoso sair de noite na floresta — gritou Gideon correndo para alcançar a garota.
—Toma uma lanterna — Pacifica empurrou a lanterna contra a barriga do garoto assim que ele chega em seu quarto — Agora vamos! Se você não quiser ir é decisão sua, porque eu tô saindo.
— Meu Deus, Pacifica. Você é muito cabeça dura, e se nos perdermos na floresta? — Gideon indagou, visivelmente incomodado.
— Por isso que eu te dei uma escolha, se você não quiser ir, é só ficar aqui. Me espera que vou voltar antes mesmo do meu pai chegar em casa — advertiu a garota colocando uma jaqueta de um roxo muito forte enquanto descia as escadas.
— Quê? Claro que eu não vou deixar você ir até a floresta sozinha! Ei, me espera — Gideon desceu as escadas rapidamente, tentando acompanhar os passos da menina.
Os dois jovens saíram da casa e foram em direção a floresta, a menina andando saltitante e o garoto com receio olhando constantemente de um lado para o outro.
Receoso, Gideon checou sua cintura e verificou se estava com seu estilingue, ficando mais aliviado por pelo menos estar com alguma arma para protegê-los, caso fosse necessário.
Entrando na floresta, eles seguiram em uma linha reta para não se perderem da cidade. Contudo, depois de algum tempo caminhando, Pacifica estava ficando um pouco cansada. A menina tentou não demonstrar seu cansaço para o garoto, pois ela não queria desincentiva-lo. De repente, ela ouviu o som de algo caindo atrás dela, e quando se virou para olhar, viu o Gideon espatifado no chão e com o seu rosto vermelho como um pimentão.
— Gideon?! Você tá bem? — Pacifica perguntou correndo em direção ao garoto e lhe estendendo as mãos.
— E-estou sim, Pacifica. Eu esbarrei em alguma coisa muito dura aqui — explicou o garoto se levantando com a ajuda da menina.
Gideon se levantou e começou a olhar para o chão, tentando achar algo em que ele poderia ter esbarrado. Após algumas poucas olhadas, ele reparou em alguma coisa quase que completamente enterrada no chão, com apenas uma pequena parte para fora. Provavelmente foi isso que o derrubou. Ele estranhou e começou a tentar desenterrar aquilo. Pacifica, vendo Gideon cavando, partiu para ajudar ele.
Assim que os dois desenterraram completamente o objeto, eles repararam que se tratava de um livro azul, com uma mão de seis dedos desenhada na capa. Gideon olhou aquilo com muita curiosidade e o pegou em suas mãos.
— Um livro? Por que um livro estaria enterrado aqui?
— Não faço a mínima idéia — respondeu o garoto, removendo a areia de cima do livro e o abrindo.
Assim que abriram o livro, os dois notaram que ele parecia conter várias anotações sobre criaturas e monstros que supostamente existiam na cidade. Gideon folheia o livro até ser interrompido por sua amiga.
— Gideon, o que é isso?
— Não sei, isso é muito estranho. Parecem ser várias anotações feitas a mão sobre monstros! Normalmente eu pensaria que poderia ser algum livro de fábulas, porém eu vejo Reverse Falls ser citada em diversos cantos deste livro. Será que é algum livro local? O garoto voltou a passar páginas até que Pacifica notou algo em uma página específica e o interrompeu novamente.
— Olha, Gideon! Volta uma página.
Gideon seguiu o pedido da menina e reparou que ali continha informações e um desenho sobre um morcego gigante, que vagava nas cavernas da floresta de Reverse Falls.
— Espera, um morcego gigante? Será que era isso que a sra. Susan diz ter visto?! Isso é muito bizarro, não faz o menor sentido — disse o garoto um pouco assustado.
— Que droga de livro é esse? Como ele pode estar falando especificamente sobre o morcego que a mulher tinha falado, será que é algum livro mágico? — questionou Pacifica tocando no livro.
De repente, os dois ouviram um barulho ensurdecedor vindo de atrás deles. Viraram-se a tempo de ver uma árvore caindo para o lado. Os dois se assustaram pois mesmo que a árvore não tenha caído neles, ainda assim aquilo não era normal. E eles notaram vários pássaros voando em desespero, como se estivessem fugindo de algo.
Gideon teve a ideia de fechar o seu livro e sair dali o mais rápido possível. Quando ele ia falar para a amiga que eles deveriam correr, um grunhido muito alto ressoou pela floresta. Os jovens notaram que da direção da cidade estava saindo alguma coisa muito grande dentre as árvores. Uma das árvores que estava sendo chacoalhada acabou caindo na direção dos dois jovens. Pacifica ficou paralisada, sem entender o que estava acontecendo. Por sorte, mesmo soltando um grito estridente, Gideon conseguiu se jogar para o lado e puxar a garota consigo, impedindo que a árvore esmagasse os dois.
— Cof, cof, cof. Pacifica, você tá bem? — perguntou o menino se abanando por conta da nuvem de poeira levantada com o impacto.
— Hã? O que aconteceu, Gideon? Eu perdi meus sentidos por um momento, quando reparei já estávamos aqui no chão — falou a garota tentando se levantar.
— Uma árvore caiu na nossa direção, e você ficou paralisada! Quase fomos acertados — Gideon explicou se levantando junto com a garota.
Se levantando, os dois olharam para a direção que a árvore havia caído e viram uma criatura gigantesca coberta por galhos e cheia de musgo. Eles ficaram extremamente assustados naquela hora. No entanto, Pacífica que tomou a iniciativa dessa vez, ela agarrou o braço do garoto e saiu correndo na direção oposta da criatura.
— Pacifica, nós estamos indo na direção contrária da cidade! Como vamos voltar depois? — perguntou ele sendo arrastado.
— Você tem uma ideia melhor? Se nós formos em direção à cidade, esse troço vai pegar a gente! — Pacifica berrou tentando correr ainda mais depressa.
Enquanto os dois corriam da criatura, Pacifica viu alguma coisa um pouco mais a frente. Conforme eles se aproximavam eles notam que era um carrinho de golfe.
— Gideon, você está vendo aquilo? É um carrinho, será que funciona?
— Um carrinho de golfe aqui na floresta? Qual o sentido disso? — falou o garoto olhando para trás e percebendo a criatura se aproximando. — Droga, se continuarmos correndo assim logo vamos nos cansar e seremos pegos pelo monstro. Acho que nossa única salvação é esse carrinho de golfe.
Quando os dois alcançaram o veículo, Pacifica reparou aliviada que a chave do carrinho estava na ignição e, sem pestanejar, entrou no carinho e girou a chave. Para surpresa dos dois, o motor ligou sem problema nenhum. Gideon se alegrou em ver isso e se juntou a menina.
— ACELERA ISSO, PACIFICA! — pediu Gideon, se segurando na parte de cima do carrinho.
— [...]
— Pacifica?
— Tem... um pouco de sangue no volante... — falou a garota com uma cara de nojo
— Ignora isso! Temos que ir agora!
Pacifica desse modo pisou no acelerador do carro e saiu em disparada. A criatura não parecia ter diminuído o ritmo e continuou correndo na direção dos dois. Pacifica então perdeu totalmente aquela cara de medo do rosto e abriu um grande sorriso. Aquela situação, embora assustadora, era uma que Pacifica sempre quisera vivenciar. Ela sentiu como se estivesse em um verdadeiro filme de ação.
No presente
Na tenda onde estava acontecendo o Show, duas figuras se destacavam em cima do palco. Elas eram Mabel e Dipper Gleeful, os mágicos que Gideon e o pai de Pacifica tinham comentado sobre. Os dois estavam se preparando para sua apresentação final naquele momento.
— Para o nosso próximo número, faremos uma apresentação de luzes. Entretanto não se decepcionem, eu aposto que vocês nunca viram algo parecido! — Exclamou Dipper olhando com um grande sorriso para Mabel.
Mabel logo abriu suas mãos, e seus olhos começaram a brilhar azul fluorescente. Depois disso ela começou a flutuar e chamas azuis apareceram nas mãos dela.
— Agora, se preparem para o grand-
Mabel é interrompida por um grande barulho vindo do teto da cabana onde estava tendo o show, todas as pessoas da plateia se assustaram ao verem o teto despencar em sua frente. Várias pessoas começaram a correr desesperadas e gritar de medo. Quando o teto terminou de despencar, uma grande cortina de fumaça ficou em volta do que havia despencado bem ali.
Dipper removeu o sorriso de sua cara e estendeu suas mãos criando uma rajada de vento para dissipar a fumaça e revelar o que havia acontecido. Assim que toda a fumaça desapareceu, foi revelado um carrinho de golfe com dois adolescentes dentro. O menino aparentava estar desmaiado no carrinho, por outro lado, a garota ainda estava bem consciente. Ela olhou para as pessoas que estavam correndo ao seu redor e em seguida visualizou o palco em que os dois gêmeos encaravam-na sem entender nada.
— Ops... — sussurrou Pacifica com um sorriso sem graça em seu rosto.
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