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Summary:

Era noite de sexta-feira, 13 de outubro de 2023.
A previsão do tempo indicava uma tempestade acompanhada de muitos raios, e Jongin estava sozinho em casa, encolhido no sofá, segurando com todas as forças uma cobertinha velha como escudo e um cabo de vassoura como sua espada.
Kim Jongin detestava ficar sozinho em casa.

Notes:

oh yeah, here we go

Antes de tudo, eu gostaria muito de agradecer por esse fest sensacional e a todos que se esforçaram tanto por ele. Acho que, se não fosse pelo Archive, eu provavelmente teria parado de escrever de vez, porque, meus amigos, faz TANTO tempo que eu não escrevo de verdade e não posto nada. :D
Gostaria também de agradecer às minhas amigas que tiveram que me aturar no puro surto, desespero e medo de não conseguir entregar algo minimamente decente. Obrigada a minha bestie, pela betagem e críticas; eu não funciono sem você, te amo.
Obrigada também ao bot que fez meu feedback crítico, foi uma doce critica que me deixou de coração quentinho e fez me fez ficar muito mais feliz com a minha fic.
Beijinhos, boa leitura ❤️

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

 

  Jeongyeon adorava gritar para os quatro ventos que a estrela do clube de teatro era o maior bebê chorão, medroso e cagão da história. Se colocasse sua irmã e seus melhores amigos, Sehun e Jongdae, lado a lado, Jongin poderia dizer que estava vivendo no seu próprio ninho de cobras particulares.

 

  Dias como sexta–feira 13 e o Halloween eram o maior terror da sua vida, principalmente depois que Sehun e Jongdae decidiram que iriam curar os medos de uma vida inteira na base do susto, na época, com sua total permissão. E desde então, graças à confiança de um Jongin inconsequente, não houve sequer um dia de paz.

 

  Jongin detestava filmes de terror e detesta tudo que lembra filmes de terror. Os palhaços eram os piores, não importava o quão simples fosse a maquiagem, lhe causava frio na espinha, coração disparado e uma ansiedade extrema. Não, muito obrigado, ele preferia ficar bem longe. Mas é claro que não poderia ser tão fácil assim. Sehun era realmente empenhado em tudo que fazia e Jongdae também não perdia nenhuma chance. 

 

  Desde o momento em que se conheceram e Jongin compartilhou seu pânico em relação a coisas assustadoras, todos os anos em duas datas específicas, Sehun e companhia se empenhavam em fazer as piores pegadinhas possíveis. Já teve dia em que os dois se esconderam debaixo da cama de Jongin, com o único objetivo de ficar puxando a coberta, derrubando coisas e cutucando seu pé durante a noite inteira.

 

  Tudo sob as asas de sua irmã mais velha.

 

  Jongin claramente os obrigou a dormirem com ele por duas semanas inteiras.

 

  Também teve a vez em que o empurraram para dentro de uma casa dos horrores do parque de diversões da cidade ao lado. O resultado foi Jongin saindo carregado nos ombros por algum funcionário que fazia parte da atração, passando o resto da noite a uma boa distância de seus queridos amigos.

  No Halloween passado, Jongdae apareceu trepado em um dos galhos grossos da árvore ao lado da janela do seu quarto, vestido de Jason Voorhees , fazendo Jongin tropeçar no tapete, que ficava debaixo da cama, enquanto gritava e corria em direção ao corredor. Apenas para dar de cara com Sehun em frente a sua porta, vestido todo de preto, a cara toda branca, com sangue falso desenhando uma boca cortada de orelha a orelha e os olhos completamente pretos.

 

  Seus pais viajavam muito por causa do trabalho, então Jongin sabia muito bem que sua irmã sempre deixava a chave reserva à disposição de seus queridos amigos quando ele iria ficar sozinho em casa.

 

  E Jongin detestava com todas as suas forças ficar sozinho em casa, detestava o número 13, detestava as sextas-feiras cansativas pós ensaio do clube, com todo aquele estresse se acumulando durante a semana onde tudo o que ele precisava era fechar os olhos e descansar o resto do dia.

 

  Detestou ainda mais, quando uma sexta–feira 13 caiu exatamente no mês de outubro, junto com todas as festas de halloween. Detestou quando seus pais mandaram uma mensagem mais cedo, falando que tinham uma viagem de trabalho de última hora e que Jeongyeon estava, como sempre, na casa das amigas. 

 

  Ele estava tão ferrado.

 

  Não tinha visto Sehun pelo colégio, assim como nos dois dias anteriores, o que aumentou sua preocupação pelo o que estava por vir. Jongdae lhe prometeu que dessa vez eles não tinham planejado nada, porque Sehun estava muito ocupado com o time de basquete e com a competição que estava se aproximando e ele mesmo atolado com o trabalho de meio período. Jongin pensou em dar esse mísero voto de confiança, mas toda vez que parava para pensar na situação como um todo, duvidava ainda mais de todas as escolhas que já havia feito na vida.

 

 

‿෴🦇෴‿ 



  Jongin normalmente tinha seu próprio ritual quando ficava sozinho em casa, que se resumia em assistir seus três filmes preferidos, enrolado com uma mantinha verde que sua avó fez para ele quando era mais novo e com um grande copo de chocolate em mãos. Se certificava de manter as luzes da cozinha bem acesas e as do corredor do segundo andar também. Sempre ficava na poltrona ao invés do sofá, pois ele tinha uma certa paranoia de que precisava manter a maior parte dos cômodos dentro do seu campo de visão para se sentir mais confortável.  

 

  Naturalmente, seus filmes preferidos eram os de romance e animação. Começava sempre por “Abominável”, depois “O castelo animado” e finalizava com “Orgulho e Preconceito”. Em noites exatamente com essa, sozinho em casa e com a previsão do tempo anunciando uma forte tempestade, era exatamente tudo que ele precisava para se manter calmo. 

 

Ou pelo menos tentar se manter calmo.

 

  Dava para ouvir o vento forte do lado de fora, fazendo as árvores balançarem com força e baterem nas janelas do andar de cima. Pelos rugidos altos dos trovões e o constante clarão de relâmpagos, dava para saber que logo a tempestade iria começar.

 

  Jongin passou o final da tarde toda com a bizarra sensação de que estava sendo observado. Às vezes também sentia como se tivesse alguém atrás dele, como se fosse olhar por cima do ombro e dar de cara com alguma coisa. Não sabia explicar, mas era a exata sensação de quando você pensa que alguém está se aproximando. Resolveu adotar essa sensação como seu próprio sentido aranha, que estava ali para impedir que ele fosse brutalmente assassinado. Não que ele fosse o tipo de pessoa que conseguiria se defender – fisicamente falando – mas com certeza sabia correr muito rápido, quando necessário.

 

  Em algum momento, ele realmente cogitou que talvez o medo o estivesse deixando completamente maluco. 

 

  Já de noite, enquanto preparava seu chocolate quente e o balde de pipoca, virado de costas para a sala, teve aquela sensação de novo. Não parecia apenas que alguém estava por ali, a tensão em seus ombros e o ar pesado em volta, parecia mais como se alguém estivesse chegando cada vez mais perto.

 

  Sentiu um arrepio subir pela coluna e tomou coragem de olhar pelo reflexo da janela. No pequeno corredor que levava até a sala, bem embaixo da luz amarela, ele viu uma sombra. Em um surto repentino de adrenalina, se virou tão rápido que não conseguiu manter o próprio equilíbrio, batendo a cintura na beira da pia e soltando um silvo de dor. Com o coração tão disparado que chegava a doer no peito, quando conseguiu finalmente focar a visão,  não tinha mais nada no corredor. 

 

  Respirou fundo algumas vezes, jogando o cabelo para trás com a mão suada, tentando controlar os tremores que passavam por todo o seu corpo que contraiam cada mísero poro, a nuca formigando com o arrepio violento, como se fossem dedos gélidos brincando com a raiz do cabelo.

 

  Não sabia dizer se tinha sido alucinação da sua mente já insana tentando pregar alguma peça ou se realmente alguma coisa teria passado por ali. Sentiu o punho doendo e percebeu que apertava e torcia o pano de prato tão violentamente que os nós dos dedos estavam brancos. 

 

  E ali jongin ficou, pressionado contra a pia pelos dez minutos seguintes, sem mover um músculo sequer, esperando que alguma coisa acontecesse. Em algum canto mais lógico da sua mente, passou o pensamento de que se era para Jongin morrer, já teria acontecido.

 

  Provavelmente a quantidade de pegadinhas de Sehun começou a afetar de forma grave a sua sanidade. Porém, apenas por via das dúvidas, Jongin desmontou um cabo de vassoura de sua mãe, não era nem louco de ficar sem proteção, por mais miserável que ela fosse. Munido com o pedaço de madeira, lanches e sua cobertinha, ele se acomodou em sua enorme poltrona.



‿෴🦇෴‿ 

 

  Estava entrando na reta final de Castelo Animado quando a luz da cozinha simplesmente começou a piscar e, logo depois, apagou. A primeira reação de Jongin foi gritar, se agarrado o máximo possível na mantinha verde sem mexer um músculo sequer, com o coração tão disparado que chegava a doer no peito. Tinham um abajur do seu lado e Jongin pensava que precisava pelo menos ascender ele, mas ele realmente não conseguia se mexer.

 

  Começou a pensar em todas as imagens de monstros feios, espíritos e palhaços que ele já tinha visto nos filmes bizarros que sua irmã o obrigava a assistir. As histórias bobas de terror que já tinha escutado várias vezes saindo da boca de Sehun, que em momentos como aquele, para alguém como ele, não pareciam mais tão bobas assim.

 

  Não gostava do escuro porque era engraçado o quanto a sua mente piorava três vezes mais alguma situação quando estava com medo, e naquele exato momento ele pensou ter visto novamente a sombra ao lado do balcão da cozinha. Jongin sentiu seu corpo cada vez mais travado no lugar, tremendo cada vez mais, tentando processar o que poderia ter em sua cozinha para formar uma sombra daquela. Não tinha exatamente uma forma concreta, pois a fraca luz que vinha da janela alcançava apenas metade da sombra. Pela primeira vez, ele realmente desejou que fosse Sehun ali com uma de suas pegadinhas, onde Jongdae iria aparecer a qualquer segundo, talvez pulando por trás dele.

 

  Esse pensamento fez com que ele tivesse uma súbita vontade desesperada de olhar para trás, já imaginando alguma coisa respirando pesado perto de sua orelha ou então olhos arregalados apenas esperando o momento exato que Jongin se renderia e olharia para trás. Mas o seu medo de perder aquela sombra de vista era muito maior.

 

  Um pequeno pensamento passou pela sua cabeça. Três dias atrás, sua mãe reclamou que a luz da cozinha estava ficando fraca e que era para Jeongyeon passar no mercado e comprar uma nova. 

 

  Depois do alívio quase que imediato, Jongin jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força e xingando sua irmã mais velha irresponsável que nunca fazia nada que pediam. Com certeza não tinha vontade nenhuma, naquele rápido alívio, para fazer Jongin se levantar e ir verificar a maldita luz. 

 

  De repente ele sentiu a forte ventania fria de outubro invadir a sala, sabia que tinha trancado muito bem a janela da cozinha, então de onde estava vindo todo aquele vento? Quando olhou novamente, a sombra já não estava no lugar que deveria estar.

 

  Cada mísero fio de cabelo na nuca de Jongin se arrepiou, com a garganta dolorosamente apertada a um ponto que se caso precisasse gritar por ajuda, ele não conseguiria e iria morrer sozinho sem sequer tentar lutar, até porque seus músculos seguiam travados igual pedra. Jongin não conseguia tirar os olhos do lugar onde a sombra supostamente estava, sentia que se desviasse o olhar alguma coisa iria pular na frente dele. 

 

  O filme já havia acabado e os créditos começaram a rolar na tela, a sala tinha ficado mais escura e a sua respiração cada vez mais pesada.

 

  Um toque imitando o barulho de uma câmera fotográfica, seguido por uma vibração, fez Jongin quase cair com o susto. Era seu celular quase caindo entre o estofado e o braço da poltrona, ele olhou rapidamente de volta para a cozinha mas nada havia mudado e nada havia pulado em cima dele. Pegou o celular com a mão gelada de tanto suor, e viu uma mensagem de um número desconhecido.

 

  “Eu estou vendo você”

 

  Seu sangue gelou, se tornando milhares de agulhas em suas veias.

 

  Dentro de alguns segundos, diversos pensamentos passaram pela sua cabeça. O primeiro deles era que ele deveria chamar a polícia naquele mesmo instante, o segundo foi que Sehun já havia feito uma merda daquela antes, antes mesmo de terminar o terceiro pensamento Jongin já estava ligando para a pessoa que mais protegia ele de todas as maldades desse mundo, a mãe de Sehun.

 

  Se tinha alguém que poderia defendê-lo e ir buscar o próprio filho – se é que era mesmo ele – naquele mesmo segundo, essa pessoa era a senhora Oh.

 

  No quarto toque ela atendeu.

 

– Oi Jongin querido, como você está? – Foi preciso uns três segundos para Jongin limpar a garganta e lembrar que ele precisava falar.

 

– Oi tia, eu estou bem. A senhora sabe onde o Sehun tá? 

 

– Jongdae não te disse? Esse pivete conseguiu pegar todas as chuvas possíveis dessa semana, e agora eu to aqui tendo que dar comida na boca dele enquanto ele ta tremendo igual uma vara verde e suando no meu lençol.

 

Essa era a última resposta que Jongin esperava ouvir, dava pra perceber pelo forte tremor que passou por seu corpo.

 

– Ah tá, Jongdae não contou não, mas melhoras pra ele. Amanhã eu passo ai se não estiver chovendo.

 

– Obrigada querido,  avise se for vir que eu faço um bolo pra você.

 

– Obrigado tia, tchau – Jongin sequer esperou ela responder antes de desligar, e no primeiro surto de coragem ele se levantou rapidamente acendendo o abajur e iluminado quase toda a sala.

 

  O próximo passo foi ligar para Jongdae, que desligou na mesma hora, e respondeu com uma mensagem dizendo que estava na igreja com os avós e que ligaria mais tarde. 

 

  Jongin resolveu ligar para sua irmã, como falta de opção, porque se ele chamasse a polícia por causa da pegadinha de alguém, provavelmente iria tomar o maior esporro da sua vida. 

 

– Estou ocupada seu fedido, o que você quer? – Seu tom grosseiro como sempre e Jongin podia ouvir muitas vozes no fundo.

 

– Acho que tem alguém em casa – disse diminuindo o tom de voz, com medo de quem quer que fosse escutasse 

 

– Sim! Os seus amigos esquisitos, me conte alguma novidade – E assim, desligou na cara dele. 

 

  Jongin soltou diversos xingamentos, mas não desgrudou os olhos da cozinha ainda imersa no breu. Alguma coisa caiu com um baque seco, pelo barulho, parecia uma das tábuas de madeira da sua mãe, e os xingamentos que Jongin ainda soltava viraram gritos até que ele se forçou a tapar a própria boca. 

 

  Aquilo não podia estar acontecendo justo com ele, não podia. Jongin não tinha nada além de um cabo de vassoura, ninguém que pudesse ajudar. Uma grande piada para o universo.

 

  Isso foi antes que seu celular tocasse novamente, com mais uma mensagem sem graça escrito: 

 

“Você não está sozinho, Kim Jongin. E eu não sou um de seus amigos.”

 

  Jongin tinha as mãos suadas e tremendo tanto que se atrapalhou com o celular e quase o derrubou. 

 

 Resolveu fazer a única coisa bem pensada até então e ligou a lanterna do celular, apontando para a entrada da cozinha. Conseguia ver perfeitamente a maldita tábua de madeira no chão. Agora, como ela tinha caído de cima da pia sendo que estava deitada, era uma grande questão. 

 

  Passou os próximos cinco minutos analisando cada detalhe da cozinha, pelo menos até onde conseguia enxergar, conferindo o que poderia estar faltando, principalmente no porta facas ou alguma coisa que tivesse a mais. Mas com certeza Jongin era uma imensa piada pro universo.

 

  Seu celular começou a vibrar novamente, mas dessa vez era uma ligação, do tal número desconhecido. Com os dedos tremendo, deslizou pela opção de atender, aproximou lentamente o celular do rosto.

 

  Dava para ouvir uma respiração pesada, quase ofegante.

 

– Como vai Jongin? Você não me conhece, mas eu te conheço.

 

– Quem ‘tá falando?

 

– Você deveria perguntar onde eu estou.

 

  A voz era grossa, meio rouca, sentiu o medo como uma fisgada gélida subindo lentamente por sua coluna e Jongin confirmou suas suspeitas de que hoje realmente era o dia de sua morte. Segurando o cabo da vassoura com se a sua vida dependesse dela, tentou contar mentalmente quantos passos precisaria dar até a porta da saída principal. Mas é claro que ele era azarado o suficiente para não ter a chave por perto.

 

– Ei, garoto! vamos jogar? – O estranho soltou uma risada soprada – Um jogo de perguntas.

 

  Jongin pensou na única ameaça plausível. 

 

– Quem é você!? Eu vou chamar a polícia. – O desespero na sua própria voz provavelmente não colocaria medo em ninguém

 

– Hum, será que vão acreditar em você? Ou melhor, será que vão chegar a tempo?

 

  Jongin teve uma súbita sensação de reconhecimento. 

 

  O homem no telefone continuou falando ameaças, mas sua mente já tinha se desligado daquele momento e estava trabalhando fervorosamente para se lembrar de onde já tinha ouvido aquele tom grosseiro carregado do dialeto de Seoul.

 

– Eu conheço você.

 

  A linha ficou muda.

 

– Conheço, não conheço? – Jongin não sabia se ficava aliviado ou mais aterrorizado ainda, não sabia dizer exatamente quem era, e se fosse um stalker maluco?

 

  Escutou algo farfalhando na cozinha, a lanterna do celular não alcançava tudo mas dava pra ver a sombra novamente, se mexendo, parecia estar em cima da pia, tentando pular a janela.

 

  Jongin, em um surto desesperado de coragem que ninguém saberia dizer de onde saiu, se levantou armado com o cabo de vassoura e a lanterna e correu até a cozinha. Quando chegou o estranho já tinha pulado, mesmo correndo o risco do cara já ter fugido, Jongin forçou a porta que dava para a varanda. 

 

  Pequeno engano. 

 

  Quando Jongin destrancou a porta, o cara estava caído de barriga para baixo no meio do gramado tal qual um corpo desovado, debaixo de toda aquela tempestade 

 

– Ei, quem é você!? – Jongin acendeu a luz, conseguindo iluminar apenas três quartos da varanda, enquanto segurava o cabo de vassoura acima da cabeça

 

  Queria que Sehun estivesse ali, para que Jongin pudesse esfregar no fuço dele seu lado mais corajoso.

 

– Ei! Calma! Não me bate não, faz favor! – Era difícil ouvir por cima de toda aquela tempestade.

 

– Eu vou pensar no seu caso quando você começar a falar o porquê de ter invadido a minha casa – O cara começou a se virar, tentando abrir os olhos por entre as fortes gotas de chuva e a luz repentina.

 

  Mesmo todo encharcado e parcialmente no escuro, Jongin conseguiu reconhecer a blusa xadrez verde por cima do moletom que ele estava acostumado a ver quase todos os dias, os olhos grandes e o cabelo preto. 

 

  Era Do Kyungsoo. 

 

  Um menino estranho da sua sala. Se lembrava bem, eles deveriam ter trocado umas 3 ou 4 palavras durante aqueles quase três anos. Ele sempre sentava no fundo, acompanhado pela dupla de ouro, o terror dos professores, Park Chanyeol e Byun Baekhyun. 

 

  Eles ganharam alguma popularidade no último ano, porque Baekhyun havia entrado para o clube de teatro e tinha se mostrado um bom ator. O Park tinha tentado seguir o mesmo caminho, mas descobriu que não gostava da pressão de ter pessoas olhando para ele. Por fim, acabou ficando por trás dos equipamentos junto com Sehun e Jongdae, que de vez em quando apareciam para dar uma ajuda.

 

  Com toda a relativa atenção que ele começou a receber, Chanyeol e Baekhyun se mostraram mais barulhentos do que o normal.

 

  Kyungsoo era o oposto. Um baixinho, atarracado e quieto, interagia apenas com seus amigos e evitava olhar qualquer um nos olhos. Porém, vez ou outra escutava ele inventando algumas histórias, na tentativa de apavorar Chanyeol. Spoiler: Jongin era quem acabava saindo mais afetado.

 

– Meu Deus, você é um stalker – Jongin levantou ainda mais seu cabo de vassoura quando viu Kyungsoo cambalear em sua direção, colocando as mãos na frente como proteção.

 

– Ei! Ei! Ei! Não sou stalker nenhum não, isso foi só uma aposta, pelo amor de Deus – Kyungsoo parecia tão apavorado quanto ele, gritando por cima da tempestade e com os olhos dobrando de tamanho, completamente desesperado para explicar.

 

– E você espera que eu acredite? Sério mesmo? – Como Jongin iria acreditar em alguém assim? Sabe se lá desde quando ele estava infiltrado na sua casa assistindo cada passo seu!

 

– Cara eu juro, meus amigos apostaram para eu fazer isso! – Ele se aproximou mais um pouco, entrando totalmente na luz da varanda, parecia realmente arrependido, mas Jongin ainda tinha dificuldades de acreditar nele. – A gente pode sair debaixo dessa chuva por favor, ficar gripado não está nos meus planos do fim de semana.

 

– E invadir a casa de alguém? Estava nos seus planos? 

 

– Jongin, por favor, vamos sair dessa chuva, eu explico tudo e você decide se chama a policia ou não. 

 

– Isso se você não  me matar antes de eu ter a chance de chamar a polícia. – Claro que Jongin sabia que estava exagerando, mas a possibilidade não podia ser descartada. Viu Kyungsoo fazendo uma careta indignada com a sugestão de assassinato, repensou novamente todas as suas péssimas decisões na vida e que essa provavelmente seria uma dessas.

 

– Ta, você pode entrar. – Ele abaixou o cabo de vassoura, apontado direto pro peito do malandro. – Mas eu estou armado, um movimento errado e eu te acerto.

 

–  Justo. 

 

  Jongin abriu espaço para que Kyungsoo entrasse. Ele correu como uma criança fugindo da mãe com um chinelo na mão. Foi ainda mais engraçado ver ele parado no meio da cozinha, agarrando aos próprios braços, tremendo igual um pinto molhado.

 

  O vento entrava com força, trazendo alguns respingos de chuva. Jongin realmente queria fechar a porta porque estava frio e, para Kyungsoo, provavelmente mais ainda. Mas a cozinha ainda estava no escuro e ele praticamente não enxergaria muita coisa sem a luz de fora iluminando, sem contar que Kyungsoo ainda era o invasor ali. Queria garantir que estava próximo a uma porta, caso acontecesse qualquer coisa.

 

– Pode começar a falar.

 

– O-okay. Primeiro, você precisa saber que isso foi ideia do Chanyeol e do Baekhyun. – Ele mantinha umas das mãos estendida entre os dois como se aquilo fosse impedir Jongin de atacar – Deus e o mundo sabe que eles tem merda da cabeça, e dessa vez tinham umas garrafas de soju também.

 

– Quantos atos ilegais vocês conseguem praticar em um só dia? – Na verdade, Jongin tinha até medo de saber a resposta.

 

– V–você não vai querer saber a resposta – Kyungsoo já estava batendo os dentes e Jongin estava começando a sentir pena do pobre miserável – Enfim, Baek apostou dois meses de lanche de graça se eu entrasse escondido na sua casa e passasse a noite te atormentando.

 

– Dois meses de lanche? 

 

– De g–graça.

 

  Por mais que Jongin tivesse uma pulga atrás da orelha o atormentando, sobre essa aposta em específico, poderia dizer que ele também se venderia facilmente por dois meses de lanche de graça.

 

– Eu te convenci ou ainda está afim de me bater? – Jongin ainda ficou uns minutos em silêncio, matutando se deveria ceder tão fácil – Olha eu realmente sinto muit-

 

– Tá bom. Já deu. – Ele abaixou sua fiel arma, pensando que deveria colocar aquele carinha para tomar um banho quente antes que ele tivesse hipotermia. – Vem tomar um banho, vou te dar umas roupas secas.

 

 – Sério mesmo? Não deveriam acreditar fácil assim na palavra de alguém, Jongin. – Ele arqueou a sobrancelha julgando até a décima geração da família Kim. – Você não aprendeu nada com filmes de terror? Só porque eu não poderia te matar, não significa que eu não poderia te sequestrar, ou mexer nas suas coisas e descobrir seus segredos mais sórdidos.

 

– Eu detesto filmes de terror e não tenho nenhum segredo sórdido! E você deveria estar grato por eu não querer alguém morto por hipotermia no meio da minha cozinha, assombrando a minha casa pra sempre .

 

– Justo.

 

   Jongin voltou para a sala com Kyungsoo no seu encalço, molhando o chão por onde passava, com certeza sua mãe teria crises se visse aquilo. A televisão já estava com a tela preta esperando que colocasse outro filme, deixando o resto da casa ridiculamente silenciosa, exceto pela tempestade do lado de fora.

 

  Jongin guiou Kyungsoo escada a cima, resmungando para si mesmo que ele deveria parar de ser tão bonzinho com as pessoas. Se fosse sua irmã no seu lugar, Kyungsoo provavelmente teria sido humilhado e teria levado uma surra,  não necessariamente nessa ordem, mas provavelmente ao mesmo tempo. 

 

  Lembrou também, no meio do caminho, que seu quarto não estava muito arrumado e que a quantidade de pelúcias poderiam ser meio vergonhosas, mas pensou também que aquele carinha não tinha moral nenhuma para julgar Jongin sobre qualquer coisa.  

 

  Jongin parou e acendeu a luz, verificando todo o quarto antes de entrar, mania que adquiriu graças aos seus queridos amigos. Seu quarto tinha um tamanho razoável, mas era abarrotado de coisas. Principalmente pela estante no meio do cômodo servindo como divisória entre a cama  e o seu pequeno cantinho de estudos. 

 

  Jongin foi até seu guarda roupa, cavucando pelas gavetas suas cuecas menos usadas e roupas de tamanhos menores que pudessem ficar mais certas em Kyungsoo. 

 

 Quando se virou com tudo em mãos, o encontrou de costas observando os dois quadros acima da mesa de estudos, que Jongin tinha de suas apresentações favoritas; “Orgulho e Preconceito” e “O canto do mar”. Neles, tinham todo o clube de teatro e principalmente o elenco ainda vestidos de acordo com os seus personagens. 

 

– Algum problema? – Jongin se aproximou passando as roupas para os braços de Kyungsoo. 

 

– Os quadros, são o que? Suas apresentações favoritas? – Ele não olhava de volta e tinha um sorriso de lado como se estivesse achando graça.

 

– São. São mesmo, porque? – Viu o sorriso dele se desmanchar e a boca abrir lentamente, se reparasse bem, ele também tinha um leve rubor nas bochechas. Kyungsoo permaneceu ali mais uns minutos observando os quadros com tanto afinco que Jongin sentiu seu peito esquentando e formigando de leve. Não costumava ser nem um pouco tímido quando se tratava de suas peças, mas ter alguém o observando daquela forma o deixou desconcertado – Kyungsoo? Tudo bem? 

 

– Oi? Tudo sim – Kyungsoo desviou o olhar e se afastou, parecendo mais envergonhado do que antes  – Onde fica o banheiro mesmo? Acho que eu to sentindo meus ossos congelarem 

 

– No final do corredor, deixe suas roupas do lado de fora pra eu colocar na máquina. 



‿෴🦇෴‿ 



  Jongin passou um pano por todo o chão molhado e desceu com as roupas encharcadas de Kyungsoo. Já estava a alguns minutos dentro da pequena lavanderia lutando contra a máquina de lavar, sem saber qual ciclo ele deveria escolher, o delicado ou dia–a–dia e quanto de sabão ele deveria colocar. 

 

  Quando finalmente decidiu apostar na sorte e meter qualquer um, Jongin sentiu os pelos da sua nuca se arrepiarem e, exatamente como antes, teve aquela sensação de que alguém estava atrás dele. Com o coração disparado, ele se virou para dar de cara com Kyungsoo inclinado e com o rosto quase em cima do seu ombro. Jongin soltou um grito vergonhoso e caiu de bunda no chão.

 

– Cara, você é muito apavorado – Ele balançava cabelo molhado, usando uma camiseta preta e antiga que Jongin tinha com um desenho do calcifer na frente, e um short também preto.  

 

  Na verdade, parando para reparar, Jongin como um perfeito libriano apreciador de coisas belas que era, podia admitir que preto e verde ficam muito bem em Kyungsoo.

 

– E você é um cuzão sorrateiro demais pro meu gosto 

 

– Ah, você não percebeu? – Kyungsoo o olhava de cima, estreitando os olhos, a sua voz já grossa caiu três tons e ele jogou o cabelo para trás deixando a testa à mostra – Meu objetivo aqui é drenar todo o seu sangue e te deixar aí, largado pros seus pais te encontrarem igual uma casca seca.

 

  Como se fosse um efeito dramático, surgiu um clarão vindo da pequena janela, iluminando uma parte do rosto de Kyungsoo, seguido por um forte trovão.  Jongin poderia ter ficado mais assustado, se o seu cérebro não tivesse ainda processando o quão charmoso Kyungsoo ficava com a testa e a sobrancelha grossa à mostra. 

 

  Oh, malditos librianos.

 

  Talvez ele tenha confundido o bi panic e a cara de tacho de Jongin com pavor porque, logo desfez a pose e lhe deu um leve empurrão no ombro.

 

– Ei cara, relaxa, pelo amor eu tava só brincando.

 

– Muito engraçado – Jongin voltou à realidade e finalmente se levantou.

 

– Ai, sem querer abusar mais da sua boa vontade, mas você poderia ligar no meu celular? Acho que ele caiu em algum lugar e eu to torcendo muito pra não ter sido lá fora. 

 

  Jongin pegou o próprio celular e ligou para o último número que ele tinha recebido ligação. depois de uns segundos, eles ouviram um toque que parecia um rock gutural vindo do lado de fora. Kyungsoo suspirou aliviado e logo depois, murmurou um “ maldito Chanyeol ” enquanto saia em direção a varanda. Jongin observou ele parado um tempo encostado na porta verificando suas mensagens.

 

– Tá tudo bem? 

 

– Nada, só um pouco de merda que fedeu pro lado dos idiotas, espero que estejam bem – Jongin reparou que, mesmo tentando não demonstrar, ele parecia meio preocupado. 

 

  De repente, um ronco alto tomou a cozinha, viu o baixinho na sua frente se encolher com os braços envolta da barriga e nem conseguiu segurar a risada.

 

– Entaãoo, você quer comer alguma coisa? Sentar e assistir algo? – Kyungsoo desviou o olhar de onde fosse que ele estivesse olhando e ficou encarando Jongin por um minuto inteiro. 

 

– Bem, porquê não? Não parece que esse dilúvio vai acabar tão cedo e você gosta de levar ao pé da letra o ditado de manter seus inimigos por perto.

 

– Você não é meu inimigo, apenas um idiota que se vendeu por pouco.

 

  E Jongin simplesmente fez um lanche para os dois. Enquanto Kyungsoo apenas olhava, julgando o passo a passo de como Jongin montava seus lanches, reclamando que não gostava das cascas do pão, nem de maionese e nem de tomate quente – ele tinha que ser colocado só depois. Jongin olhou profundamente nos olhos dele e perguntou se ele preferia fazer seu lanche debaixo da chuva, então, Kyungsoo calou a boca.



  Sentaram para comer e Jongin deu play em Orgulho e preconceito. Comeram em um silêncio meio constrangedor, Jongin dividia sua atenção entre a tela e Kyungsoo devorando seu lanche mais rápido do que seria recomendável. Antes que Elizabeth pudesse terminar de dizer que a dança era uma forma de encorajar a afeição, mesmo que o parceiro em questão seja apenas tolerável,  antes que Jongin conseguisse enfiar o último pedaço do seu lanche na boca, eles foram mergulhados no puro breu. 

 

– Só pode ser sacanagem. – Jongin respirou fundo, abaixando a cabeça e esfregando o cabelo violentamente.

 

– Cara,  hoje não é seu dia. – Kyungsoo soltou uma gargalhada que pareceu ecoar por toda a casa.

 

– Calado. – Jongin tinha plena consciência da sua falta de sorte, mas passar a noite toda sem energia já era demais até pra ele. 

 

– Olha pelo lado bom, pelo menos você não tá mais sozinho – Kyungsoo de repente acendeu a lanterna do próprio celular, apontando para a parte debaixo do rosto e fazendo uma careta. Jongin sentiu o coração disparar pelo susto e se perguntou porque ele não conseguia conhecer pessoas normais.

 

– Você me faz pensar que eu estaria mais seguro sozinho.

 

– Tremendo igual um gato assustado debaixo da cama?

 

– Tremendo igual um gato assustado debaixo da cama.

 

– Ah, qual é Jongin, não é tão ruim assim, podemos nos conhecer melhor – A voz de Kyungsoo caiu alguns tons novamente.

 

  Poderia ignorar a insinuação barata, mas infelizmente, segurar a língua não era uma das qualidades de Jongin.

 

– Você está flertando comigo? – disse arqueando a sobrancelha

 

– Não sei, está funcionando?

 

– Não sei se funcionando seria a palavra certa depois de você invadir minha casa e ameaçar drenar meu sangue.

 

– Bem, depende do ponto de vista, tem gente que se amarra em um dark romance.

 

  Jongin espremeu os olhos tentando entender o que aquele baixinho queria dizer, mas nem conseguia ver a cara dele direito.

 

– Quer saber, vamos pro meu quarto.

 

– Uah Jongin, achei que você era mais cavalheiro do que isso, sem nem me convidar para um jantar antes?

 

  Jongin apenas ignorou, se levantou e seguiu rumo a escada com as mãos na frente para evitar bater no que fosse,  Kyungsoo não era muito diferente da dupla de ouro, como ele costumava pensar.

 

  Sentiu uma mão gelada agarrar seu tornozelo de repente e Jongin soltou um grito inconsciente, tendo que segurar o corrimão para evitar cair pelo resto de degraus. Atrás dele, Kyungsoo se dobrava de rir, ainda segurando a lanterna apontada para a própria cara.

 

– Eu juro que eu vou te chutar pra fora – Jongin já não tinha paciência nenhuma. Era isso que Kyungsoo tinha conseguido, o impossível.

 

– Desculpe, desculpe – A risada cessou e eles voltaram a subir.

 

– E eu pensando que você era um nerd tímido.

 

– Nerd sim, tímido não, eu não gosto de pessoas é diferente – Viu a lanterna ser apontada para as escadas e ouviu os passos de Kyungsoo o seguindo.

 

– Ah, então você gosta de mim?

 

– Depois de me fazer ter tanta diversão em uma noite, é o mínimo que você merece.

 

  Jongin estava incrédulo e grato por estar de costas de Kyungsoo não poder ver sua cara de tacho e as bochechas vermelhas.

 

  Ja havia escutado rumores e piadas sobre Kyungsoo e sua sexualidade, mas eles pararam no momento que algum idiota falou alto de mais no corredor a ponto de Chanyeol escutar enquanto passavam. Acontece que, o Park tinha uma força pela qual ninguém estava esperando, foi um ótimo gancho de direita e precisou de três pra tirar o grandão de cima do cara.

 

  Os rumores acabaram por aí.

 

  Jongin nunca teve problemas com a sua sexualidade. Sua família era meio fora da casinha e sua irmã completamente desprezível, mas não tinham nada que os impedissem de aceitá–lo.

 

  Ainda existia o fator chamado seus amigos. Com três anos de amizade, Jongin ainda levou tempo até ter coragem de contar. Sinceramente, tinha sido mais por falta de oportunidade. Do fundo do seu coração, depois que Sehun comentou que achava que Chanyeol deveria ter batido mais, Jongin não duvidou nem um pouco que estaria seguro ali também.

 

– Certo, eu tenho quase certeza que tenho um projetor de quando eu era criança aqui – Kyungsoo o ajudava a revirar as profundezas do seu guarda-roupa, segurando a lanterna do celular e puxando coisas para fora.

 

– Cara, que fim de mundo, achei que você era mais organizado do que isso.

 

– Calado, você espera coisas demais de mim – suspirou –  só gosto de guardar o que eu acho importante.

 

  Jongin acumulava as coisas com uma facilidade ridícula. Desde suas roupas de teatro, a uma pedra diferente que encontrou num dia de praia com Sehun e Jongdae ou então uma pequena caderneta quase caindo aos pedaços de receitas da sua avó, spoiler: ele não sabe cozinhar. 

 

  Encontrou o projetor no fundo de uma das gavetas maiores, torcia pra ela estar funcionando depois de tanto tempo. 

 

  Viu Kyungsoo se espalhando na sua cama como se fosse dono do lugar, estava fungando um pouco e ficou apenas encarando Jongin lutando para ligar o pequeno projetor em cima da sua mesa de estudos. Era uma pequena lanterninha infantil, com diversos desenhos de planetas, estrelas e foguetes, colocou duas pilhas que estavam perdidas na sua gaveta, vendo ela iluminar a maior parte do quarto, girando a cumbuquinha desenhada  e espalhando um pequeno universo azul pelo quarto de Jongin.

 

  Quando olhou de volta, Kyungsoo estava com o roteiro que tinham recebido da peça de especial de halloween em mãos. Folheava preguiçosamente com uma das mãos ainda segurando a lanterna do celular, lendo até as anotações dos post–its e fazendo uma cara de confusão como se nada daquilo tivesse sentido.

 

– Você não é o protagonista? – E ele olhou novamente, com aqueles grandes olhos mais arregalados  do que o normal.

 

– Bem, eu sugeri que Byun seria um protagonista melhor – Coçou a nuca com vergonha – mas acabei com o papel do psicopata perseguidor.

 

– Sugeriu? – Kyungsoo ainda olhava estagnado para ele.

 

– Hum, na verdade eu fiquei bem aliviado quando vi ele atuando – Jongin se acomodou ao lado de Kyungsoo, pegando o roteiro de suas mão e folheando ele mesmo, ainda não tinha terminado de revisar e fazer algumas anotações – Ele é muito bom, tem talento e é esforçado, a professora sempre joga tudo nas minhas costas e poder dividir isso com alguém tão bom, é um alívio.

 

– É, eu sei bem, sou eu quem ajuda ele a ensaiar – fungou – na primeira peça ele ensaiou dia e noite, mal conseguia dormir.

 

– Você? Por que não o Chanyeol? Quero dizer, ele também atua bem, só é meio tímido.

 

  Kyungsoo desviou os olhos, encarando cada canto do quarto menos Jongin, então fez uma careta e soltou um estalo com a língua.

 

– Acho que se o Park tiver que fingir ser par do Baek, ele tem uma síncope e os poucos neurônios que ele tem vão a óbito.

 

  Provavelmente a cara de confusão de jongin já dizia tudo. 

 

– Ele tem, como posso dizer? Uma paixonite pelo Baek?

 

  Sua mente parou de funcionar por uns minutos, com o choque. E tentou pensar se já tinha visto algum sinal ou ação diferente entre eles antes. Fora Chanyeol correndo atrás dele como um cachorrinho abanando o rabo – apesar de ter quase certeza que isso era mais da personalidade do coitado – e eles não se desgrudarem, realmente não tinha nada muito além.

 

– Oh, e ele nunca falou nada? 

 

– Ele morreria antes que isso acontecesse, mas Baekhyun não é tão tapado como parece, no fundo no fundo ele deve desconfiar.

 

– Oh…

 

– Não ouse contar isso a ninguém – Kyungsoo tinha uma expressão séria, com os olhos espremidos e olhando Jongin debaixo para cima – Se eu souber que contou, eu realmente vou invadir sua casa e você vai se arrepender de ter me conhecido.

 

  Jongin sentiu um leve arrepio subir pela linha da coluna e desconfiou que não era de medo. 

 

– Minha boca é um túmulo. 

 

  Ficaram uns minutos em silêncio vendo as luzes azuis bruxuleantes pelo quarto, Kyungsoo ainda folheava o roteiro, murmurando vez ou outra, baixo demais para entender. 

 

  Jongin parou pra pensar que Kyungsoo parecia muito interessado nas suas peças. Já tinha desistido da ideia de ele ser um stalker, provavelmente só um fã, mas era algo muito engraçado de se pensar, imagina só um baixinho anti social como ele? Será que valeria o risco perguntar sobre?

 

– Então, pelo visto você nos acompanha de perto né – Pois foi dito e feito, não levou um soco nem nada mas Kyungsoo engasgando com a própria saliva e tossindo até recuperar o fôlego, realmente foi mais espantoso.

 

– Merd- quer dizer meio que sim né, bem você faz um bom trabalho e eu sou meio que fã de teatro.

 

– Sério? Eu não esperava por isso? Quais foram seus preferidos?

 

–  A releitura de Orgulho e Preconceito e O Som do mar.

 

– Sério? São os meus preferidos também.

 

– É eu reconheci as fotos, fui assistir os dois e entendi o porquê de você ser a estrela dos clube de teatro.

 

– Hum, obrigado? – Jongin sentiu seu sangue correr para as bochechas, ele sabia que era bom no que fazia, mas ouvir aquilo vindo de Kyungsoo era… diferente – mas eu gostei muito de fazer eles, sinto que consegui dar cem por cento de mim, nos dois personagens.

 

– Parece que os dois foram feitos pra você – A voz de Kyungsoo diminuiu para quase um sussurro, ele não olhava para Jongin e sim para a lanterninha antiga, enquanto o formato de uma pequena lua passava pelo rosto dele.

 

– Seria engraçado se fosse, eu gostaria de conhecer o doador anônimo das nossas peças, ele realmente sabe o que está fazendo. – Jongin suspirou – Senti isso no momento que coloquei os olhos no roteiro de “O Som do Mar". Os personagens eram intensos e apaixonados, mas não tinham sentimentos seguindo o mesmo caminho, Yeonsang era a coisa mais fascinante que já tinha passado pelos olhos de Sannie, mesmo sendo um criatura tão simples, sem cauda, sem guelras, não respirava debaixo d'água-

 

– Sim, Yeonsang era profundamente apaixonado, mas pelo mar. E quando conheceu Sannie, que era feita de tudo que ele queria, uma filha das águas, foi fácil confundir o fascínio com amor. 

 

– Talvez ele achasse que era a única ligação que ele poderia ter com o mar.

 

– E depois, morreu nos braços do único amor que ele teve, o próprio mar.

 

– Enquanto Sannie ficou para trás, cantando o próprio sofrimento, abraçada nas pedras em que se escondia quando viu ele pela primeira vez.

 

– Até a cauda  secar o suficiente e se tornar pernas.

 

– Os moradores da ilha ainda dizem que quem sofre pela perda de um amor consegue escutar o canto de sofrimento dela durante a noite 

 

  Pararam um minutos antes de começarem a rir juntos. Kyungsoo sorria com o rosto todo, um formato engraçado de sorriso parecia um coração, mas era bonito e  olhos sumiam em pequenas meias luas.

 

– Você decorou a história mais do que eu.

 

– Você foi um ótimo protagonista, expressou a intensidade e confusão de sentimentos do Yeonsang muito bem – Jongin atuava desde pequeno e já estava acostumado com os elogios mas kyungsoo o fazia se sentir pequeno e tímido – Jihyo também foi uma ótima atriz, representou toda a dor da Sannie como ninguém poderia – acrescentou rápido como se tivesse esquecido que ela também estava como protagonista 

 

– Obrigado, não vai ser uma peça que eu vou esquecer tão fácil.

 

  Eles estavam sentados lado a lado, encostados na parede com os ombros se tocando e mesmo através das duas camadas de tecido Jongin sentia Kyungsoo muito quente. Esperava que ele não estivesse com febre.

 

  Do lado de fora, a chuva continuava imparável, os ventos pareciam ter acalmado, pois já não ouvia os galhos batendo nas janelas. Chegava a ser engraçado como a sua noite tinha começado com tanto caos e estava terminando tão calma, justo com o causador dos seus problemas.

 

  Jongin olhou para Kyungsoo de novo e ele olhava para o teto encarando os desenhos rodando lentamente.

 

  Em algum momento que Jongin não consegue se lembrar, Kyungsoo começou a cantarolar baixinho. Começou como um ronronar vibrando no fundo da sua garganta e evoluiu para um tom grave e baixo; a letra era em inglês e levou um tempo para jongin conseguir finalmente reconhecer. 

 

  Era a música quem tinham usado na peça.

 

  Uma ideia de Sehun jogada no ar em um dia aleatório, dizendo que poderiam deixar apenas o instrumental e colocar ela tocando de fundo. Jongin ficou fissurado na música por dias a fio, era como se tivesse sido feita para aquela peça.

 

– É The water is fine.

 

– Hum, eu fui procurar por ela logo que a peça acabou, foi o Baek que me contou. – Jongin não respondeu, apenas puxou um travesseiro e deitou para o lado; Kyungsoo tinha voltado a cantar. 

 

  Depois de alguns segundos, ele sentiu as pálpebras pesarem e pensou que estava tudo bem apenas dormir assim, no conforto do tom grave de Kyungsoo



‿෴🦇෴‿ 



  Jongin estava estava num sono perfeitamente agradável quando escutou o estrondo da sua porta batendo na parede e sentiu alguma coisa se remexer entre os seus pés. 

 

– Kim Jongin?! Um cara invade a nossa casa e você dorme com ele? – A voz alta e tenebrosa da sua irmã o fez sentir calafrios. Lembrou vagamente da noite anterior e levantou a cabeça apenas o suficiente para visualizar Kyungsoo do outro lado da cama, encolhido debaixo dos cobertores que Jongin nem lembrava de ter pego. 

 

– Como se você se importasse se iria chegar aqui e encontrar só o meu corpo ou não.

 

– Uau – Ela entrou no seu pequeno campo de visão ainda meio tonto de sono – Mamãe nunca deveria ter te dado tanta liberdade assim, tá ficando abusado agora! 

 

– Meu deus, some! – Jongin puxou o travesseiro debaixo da sua cabeça e arremessou em direção a Jeongyeon com uma força e mira suficiente para acertar o guarda-roupa.

 

– Patético Kim Jongin, patético – Ela espremeu os olhos para o montinho de cabelos pretos se mexendo do lado certo da cama – Ei, você-

 

– Calada! Não dirija uma palavra, ele não merece ouvir as merda que saem da sua boca a essas horas da manhã – Jongin viu Kyungsoo esfregando os olhos com força, mal conseguindo acordar. Realmente ninguém merecia um castigo daqueles antes mesmo de acordar.

 

– Meu Deus, você é tão gay que chega a me dar dor física – resmungou e simplesmente saiu, fazendo questão de bater a porta.

 

– Caramba, a sua casa é mesmo animada – Jongin sentiu um arrepio na base da coluna quando Kyungsoo começou a falar com a voz extremamente grossa e rouca de sono, apoiado em um dos braços com o cabelo espetado e o rosto inchado. 

 

– Foi mal, ela é um incômodo que eu ainda não consegui me livrar – Jongin respirou fundo, ele também deveria estar com a cara completamente amassada, torcia para não ter resto de baba no rosto – Quer tomar café? 

 

– Bem, na verdade eu acho que deveria ir, os idiotas devem estar tendo uma síncope.

 

– Ah – Jongin não queria admitir porque isso provavelmente era esquisito, mas queria que Kyungsoo ficasse, a compania dele era estranha e confortavel ao mesmo tempo.

 

  Jongin desceu para pegar as roupas dele já secas de dentro da máquina. 

 

– A grande pergunta que não quer calar – suspirou e olhou para Kyungsoo, já dentro de suas próprias roupas meio amassadas – Vamos voltar a sermos desconhecidos, cada um no seu canto ou agora somos futuros amigos.

 

– Vamos com calma, acho que te dei esperanças, vamos manter esse nosso lance apenas na casualidade – Kyungsoo falava com uma expressão séria e o susto inicial fez o cérebro de Jongin não trabalhar como deveria por pelo menos um minuto.

 

– Você é um merdinha, Kyungsoo.

 

– Você já viu quem são meus amigos, eu tenho que estar à altura o tempo todo.

 

  Eles riram sentados lado a lado até a risada dar lugar a um silêncio tímido mas confortável.

 

  Depois de uns minutos Kyungsoo se levantou e disse que precisava ir. Jongin o acompanhou até a saída eles se despediram com toda vergonha que poderia caber naquele pequeno espaço entre eles.

 

  Jongin com certeza queria manter o contato e com certeza iria mandar mensagem, ele esperava que não parecesse estranho – mais do que já tinha sido. 



‿෴🦇෴‿ 



  Jongin cumpriu com o prometido e foi visitar Sehun. Ele estava acordado mas ainda meio tonto dos remédios e a conversa durou uns 20 minutos antes que ele estivesse roncando. 

 

  Enquanto seu amigo andava pelo mundo dos sonhos, Jongin ganhava bolo e pãezinhos com um chá delicioso de maracujá que só a mãe de Sehun conseguia fazer. Comeu, bateu papo e assistiu um filme com a Sra. Oh a tarde toda antes de caçar seu rumo para casa encarando o celular, torcendo secretamente por uma mensagem de Kyungsoo, que não chegou durante todo o fim de semana. Jongin tentava dizer a si mesmo que ele não tinha direito nenhum de ficar desapontado, pois eles nem se conheciam direito, mas também não conseguia evitar.

 

  Na segunda de manhã, Sehun apareceu radiante pendurado no pescoço de Jongdae, como se nunca tivesse estado delirando de febre dois dias atrás.   

 

– Você já deve tá muito melhor pelo visto – Sehun o comprimentou com um tapa no ombro, forte o suficiente para fazer Jongin tropeçar.

 

– Forte como um touro, mesmo que eu quisesse ter faltado pelo menos mais um dia, minha mãe nunca iria deixar – Ele respirou fundo desgrudando do pescoço de Jongdae.

 

– Eu ainda fiquei um tempo na sua casa, sua mãe fez um monte de coisas gostosas.

 

– Eu fui no domingo, também comi horrores – Jongdae, concordou.

 

– Vocês são dois interesseiros, isso sim, nunca se preocuparam comigo, só vão em casa pra comer.

 

– Sim.

 

– Sim. 

 

  Sehun fez um som de desgosto e passou o braço pelos ombros de Jongin.

 

– Então, como foi a sua sexta–feira treze Jongin? Animada eu imagino. – Jongin conhecia muito bem aquela expressão de filho da puta que Sehun fazia sempre que aprontava alguma coisa, mas ainda sim levou alguns minutos minutos até as engrenagens do seu cérebro começarem a se encaixar e funcionar. 

 

  De repente tudo fazia sentido e ele deveria ter descoberto que Baekhyun nunca teria inventado toda aquela situação por vontade própria, eles se davam bem e Baek nem sabia onde Jongin morava para início de conversa.

 

– Filho da puta…

 

  Jongin teve que parar no meio do corredor tamanha era indignação, mas Sehun começou a rir como um louco, enquanto Jongdae olhava para eles sem entender nada.

 

– Não, mas é sério, como foi? O Baekhyun não me deu notícia nenhuma de vida – Ele respirou  fundo se recompondo.

 

  Acima de tudo, Jongin estava mais puto por não ter se tocado desde o começo que era obra de Sehun, do que realmente bravo pela pegadinha.

 

– Quer saber? Você passou dos limites, não ouse falar comigo de novo até eu pensar em te perdoar. – Ou até Jongin se sentir menos envergonhado pela burrice de ter caindo feito um patinho naquele plano estupido. 

 

– Jongin espera-

 

  Mas ele já tinha saído andando em direção a sala de aula, se xingando e xingando Sehun baixinho durante todo o caminho.

 

  E a primeira coisa que brilhou no seu campo de visão foi Kyungsoo. Ele estava entrando na sala, enterrado debaixo dos braços de Chanyeol e Baekhyun, xingando para que pelo menos o deixasse andar em paz, mas Baek rebatia dizendo que eles eram as suas rêmoras.

 

  Jongin seguiu silenciosamente atrás, sem saber se deveria ou não cumprimentar Kyungsoo, pensando que poderia soar meio estranho e talvez ficassem presos em um silêncio desconfortável. Lembrava muito bem de quando ele tinha dito que não era tímido, só não gostava de pessoas; Jongin tinha medo de tentar forçar uma conversa que talvez fizesse Kyungsoo o detestar..

 

   No fim, a vergonha venceu e apenas aproveitou que eles estavam de costas indo em direção às mesas do fundo e se jogou na sua própria mesa, no meio da fileira ao lado da parede. 

 

  Ainda ficou um tempo matutando o assunto, que nem percebeu quando Jongdae e Sehun se acomodaram atrás dele. E se mandasse uma mensagem aleatória? Comentando sobre alguma coisa que Kyungsoo goste? Mas Jongin não sabia do que ele gostava, mal se conheciam.

 

  Quer dizer, sabia que ele gostava de teatro, que seus gêneros favoritos provavelmente eram terror e suspense, sabia que ele não gostava de sanduíches com cascas e não gostava que sua salada ficasse quente.

 

  Jongin respirou fundo, tirou o celular do bolso e enviou uma mensagem para Kyungsoo, com o coração ridiculamente disparado de vergonha.

 

Em uma guerra entre sanduíches com casca e sanduíches sem casca, quem venceria?”

 

  A resposta veio quase que imediatamente.

 

“Pergunta nada inteligente Jongin, esperava mais criatividade da sua parte.”

 

  Jongin pensou profundamente em pular da janela, mas antes de pudesse completar seus pensamentos autodestrutivos, Kyungsoo respondeu novamente 

 

“Infelizmente, os de cascas ganhariam, além das cascas serem armaduras a mais, coisa ruim não morre fácil.”

 

“Um bom ponto.”

 

“ Obrigado.” 

 

  E aí estava o tão temido fim da conversa. Então, de repente veio a brilhante ideia de Jongin usar a sua desgraça ao seu favor e tentar fazer a conversa render. 

 

  “ Você sabia que o Sehun tinha pedido para o Baek zoar comigo sexta–feira?”

 

“O que? Não.”

 

“Então somos dois enganados. ” 

 

“Sehun armou tudo aquilo? De onde você tirou seus amigos? Da boca do inferno?”

 

“Você não tem moral, sabia?”

 

“Os meus não são nem loucos de meter uma dessas.”

 

  Kyungsoo acrescentou logo em seguida.

 

“Começando pelo fato de que não iria funcionar, eles ainda tem que comer muito arroz com  feijão pra zoar comigo.”

 

  Jongin viu o professor entrando na sala e batendo a porta mandando todo mundo sentar e guardar os celulares. Ele deu uma última espiada por cima do ombro, para onde Kyungsoo estava sentado e ele mandou uma piscada na direção de Jongin. 

 

– Ei, Jongin fala comigo por favor eu prometo nunca mais fazer pegadinhas – Sehun cutucava suas costelas com a bunda da caneta, mas jongin só bufou e arrastou a carteira para frente.

 

  Pois Jongin ficou a aula inteira sem realmente prestar atenção, pensando em Kyungsoo enquanto mastigava a tampa da caneta e balançava a perna direita incansavelmente. Já tinha parado algumas várias vezes e se perguntando se aquilo não era obsessão demais, mas no final, apenas dizia para si mesmo que era curiosidade, nunca tinha realmente prestado atenção em Kyungsoo. Jongin se dava bem com as pessoas mas nunca pensou em criar laços de amizade além das que já tinha, Kyungsoo era uma variável.

 

  Queria se aproximar dele, mas todas as formas que pensou pareciam muito ridículas e o fazia querer morder violentamente suas próprias entranhas de vergonha. E se parecesse muito estranho? Eles nunca tinham tido muito contato antes, será que os amigos de Kyungsoo iriam rir dele?

 

  Em algum momento, Jongdae percebeu as suas crises internas e jogou um bilhetinho que posou bem em cima do caderno de Jongin. Em uma frase ele perguntava:

 

“Por que você tá se tremendo inteiro e fazendo tanta cara feia? Tá tudo bem? É sobre o Sehun? Porque ele tá quase chorando atrás de você.”

 

  Jongin achou engraçado porque Sehun nunca realmente se arrependia do que fazia. Respirando fundo, ele tentou resumir tudo naquele mísero papel que cabia na palma da mão, mas Jongdae responder em uns segundos depois, em um novo papel, com um simples: 

 

“Ele não gosta de teatro também? Chama ele pra treinar com você nos dias livre do clube.”

 

  E Jongin mentiu na maior cara dura, mandando mensagem para Kyungsoo dizendo que estava com muita dificuldade no seu personagem e precisa da opinião de um especialista. 

 

  No final das contas, não era tão mentira assim.

 

‿෴🦇෴‿ 

 

  Dizer que estava quase se mijando não era o suficiente para descrever a sua ansiedade. Kyungsoo estava atrasado a quinze minutos e Jongin, em posição fetal no meio do pequeno palco do auditório, já a beira das lágrimas, se perguntava se aquela era a sensação de levar um bolo. As mãos tremiam, suadas segurando o celular e loucas para digitar uma mensagem para o baixinho perguntando se estava tudo bem e se ele iria conseguir vir. 

 

  Estava prestes a realmente enviar uma mensagem quando as portas se abriram com um Kyungsoo sendo seguido por Sehun todo encolhido. 

 

  Antes que Jongin pudesse dizer qualquer coisa, seu amigo se aproximou e se jogou nos seus pés.

 

– Jongin por favor me desculpa, eu não deveria ter pegado tão pesado e prometo que daqui pra frente eu vou te ajudar a superar seu medo do jeito certo, eu juro, eu juro – Sehun simplesmente despejou tudo de uma vez tão rápido que Jongin levou um tempo para processar e ele já estava se desculpando novamente.

 

– Sehun, Sehun já deu, eu te desculpo – Na verdade, nem estava mais tão chateado assim porque olhava pelo ponto de que se não fosse pela brincadeira besta, Jongin nunca teria a oportunidade de conhecer Kyungsoo.

 

– Sério mesmo?

 

– Sério, levanta daí – Deu um tapinha no ombro de Sehun que levantou se aprumando todo.

 

– Valeu mesmo Jong, você é o melhor – ele falava para Jongin, mas encarava Kyungsoo, que estalou os dedos e apontou em direção a porta. Sehun devolveu o tapinha no ombro de Jongin e correu para a saída deixando os dois sozinhos.

 

– O que você aprontou?

 

– Mostrei pra ele o que é um verdadeiro susto e expliquei que brincar tanto assim com a saúde de alguém não é legal, principalmente me envolvendo no meio.  

 

– Ah tá, obrigado eu acho. – Jongin apenas decidiu deixar pra lá, não tinha muito oque ser feito agora.

 

– Por nada. – Ele se acomodou, sentando no chão ao lado da bolsa de Jongin. – Então, por onde começamos?

 

  Jongin explicou brevemente. Viu que não precisaria ir muito a fundo, Kyungsoo já sabia o papel de Baekhyun e quando começaram a recitar suas falas, treinando a dinâmica dos personagens, Jongin ficou mais surpreso do que deveria com o quanto que ele estava levando a sério. Em diversos momentos ficou profundamente envergonhado, Kyungsoo dizia que Jongin tinha ser mais aberto a simplesmente ser louco, tinha que se soltar; loucos não pensavam, principalmente se o objetivo era assustar ou perseguir alguém.

 

  “O medo não vem do personagem, a maior parte das vezes vem do elemento surpresa, surpreenda o público.” 

 

  Ele disse.

 

  “Você pode surpreender até o próprio elenco, sei lá, se esconde no meio dos assentos, mas pontos específicos que você pode voltar facilmente para o palco ao invés de só sair de cena.”

 

  Jongin ficou apenas escutando seriamente porque Kyungsoo falava muito bem, na verdade, falava como sua professora. Agora entendia porque Baekhyun treinava com ele.

 

  Conforme o pouco de sol saia e voltava a se esconder entre as nuvens, com os raios dançando pelas enormes janelas do auditório, Jongin lembrou de Kyungsoo largado na sua cama com as luzes da lanterninha dançando no seu rosto.

 

  Apoiou os braços atrás do corpo, quando Kyungsoo pediu uma pausa para atender uma ligação da sua mãe.

 

  Percebeu que era a primeira vez que a sua respiração estava mais tranquila desde que chegaram.

 

  Talvez porque Kyungsoo o olhava com intensidade demais durantes os textos, corrigindo Jongin em alguns pontos que ele pecava. Não sabia dizer se ele era experiente assim de tanto assistir peças, mas nada, simplesmente nada, escapava do seu olhar crítico.

 

  Jongin respirou fundo, reparando no seu all star preto e sujo, meio por cima do all star vermelho de Kyungsoo e imediatamente sentiu vergonha como um besta. Nenhum dos dois estavam se importando em sair daquela posição. Próximos demais , Jongin pensou e parou de respirar de novo quando Kyungsoo olhou de volta para ele, enquanto respondia sua mãe dizendo que estava praticando com um amigo. Era aquele olhar intenso demais de novo e Jongin sentia que talvez não tivesse bolas o suficiente para encarar um Kyungsoo com aquele olhar. 

 

  Mas só talvez.

 

– Minha mãe precisa da minha ajuda, tenho que ir, desculpa.

 

– Não faz mal, acho que eu já ocupei muito do seu tempo também, obrigado mesmo por me ajudar. 

 

– Na verdade eu me diverti bastante, você realmente é muito talentoso e esforçado como dizem. 

 

  Jongin não estava esperando por essa e simplesmente se esqueceu de como dialogar.

 

– Você quer treinar amanhã também? 

 

– C–com certeza!

 

– Combinado então. – E Kyungsoo simplesmente piscou. ELE PISCOU, uma piscadela sutil, se virou e saiu! 

 

  E mais uma vez naquele dia, Jongin sentiu seu sistema nervoso entrando em curto e indo pra cucuia.



  Eles conversaram a semana toda. 

 

  Quando Jongin não mandava mensagem, era Kyungsoo quem mandava, e eles acabavam em um discussão extremamente boba sobre alguma coisa esquisita e sem chances de acontecer. Ou então, simplesmente passava meia hora tentando convencer Jongin a assistir Coraline, mesmo depois de ele ter dito que tinha puro horror só pelo pouco que já tinha visto por aí.

 

  Um dia no intervalo, Sehun estava com um bico gigantesco e, quando Jongin caiu na besteira de perguntar o que tinha acontecido, seu amigo disparou uma linha de xingamentos constante e muitos deles nunca nem sequer tinham ouvido. Logo em seguida, começou a choramingar enquanto ainda xingava, mas seus xingamentos agora tinham um alvo e era Kyungsoo.

 

– Ele ta roubando a porra do meu amigo! Jongdae, eu não acredito que você aceita isso. – Às vezes achava Sehun escandaloso demais.

 

– Não acho que ele queira roubar o Jongin da gente, ele parece bem legal.

 

– Ele quer! Vocês podem não ver, mas ele é uma cobra venenosa! Como você pode virar amigo dele? Ele invadiu a sua casa!

 

– Isso foi culpa sua. – Jongin nem ligava mais para o acontecido, mas achava muito divertido ainda jogar isso na cara de Sehun.

 

– Isso não vem ao caso. 

 

– Ah vem sim, eu provavelmente teria terminado o ano sem nunca perceber que ele é uma pessoa muito legal, mas você tem ideias muito geniais, muito obrigada Sehun – Jongin queria soar tão debochado como Sehun normalmente era, mas teve apenas um efeito rebote. 

 

– Você gosta dele? 

 

  O silêncio foi ensurdecedor.

 

  Não porque Jongin tenha sido pego no pulo, mas mais porque ele nem sequer tinha processado a pergunta de Sehun direito. Mas seu silêncio foi resposta o suficiente para ele. 

 

– Porra, Jongin! O cara invadiu a sua casa e em um pouco mais de uma semana de ele sendo legal, você já caiu na lábia dele? 

 

  Jongin ainda estava em curto, seus sistema nervoso funcionando  mais rápido do que ele realmente conseguia processar. Jongin sempre se considerou uma pessoa meio devagar nesses assuntos, quando as meninas vinham entregar cartinhas de amor para ele, era sempre um choque e um constrangimento não só para elas quanto pra ele também. 

 

  Agora, pensar em Kyungsoo daquela forma era realmente algo. Jongin já tinha aceitado que ele era muito bonito, que tinha uma intensidade em tudo que fazia que o deixava desconcertado, sem palavras e meio perdido na melhor das reações.

 

  Voltando para a bolha deles, Jongin percebeu que tinha ficado tempo demais divagando, olhando de Sehun para Jongdae que também tinha cara de besta.

 

– Caiu, não caiu? Foram os olhos enormes e brilhantes? Uau, eu esperava mais de você- 

 

  Jongdae puxou Sehun para baixo, mandando ele calar a porra da boca, e Jongin continuava estático.

 

– O primeiro amor dele e você reage assim? Você está sendo um amigo de merda Sehun.

 

– O silêncio na mesa era constrangedor e Jongin finalmente conseguiu abrir a boca, mas Sehun já estava com um bico gigantesco de novo 

 

– Desculpa, eu sou um merda mesmo. 

 

– Na verdade, eu não tinha parado para pensar…

 

– Esse é o nosso Jongin. – Jongdae respirou fundo, tentando segurar a risada.



‿෴🦇෴‿ 



  Faltavam dois dias para a peça e, consequentemente, dois dias para o halloween. Jongin era uma pilha de nervos e Kyungsoo ria descaradamente dele.

 

– E se eu fizer papel de idiota? Se todo mundo achar ridículo? – Ele andava de um lado para o outro no pequeno palco e seu mais novo amigo fingia fazer o papel da plateia. Jongin decidiu, depois de longas conversas com seus amigos, que se ele pensasse demais nesses sentimentos por Kyungsoo, ele não conseguiria nem pensar direito perto dele.

 

– Kim Jongin, você é um aspirante a ator muito experiente, eu duvido que qualquer coisa possa dar errado.

 

– É que… eu gosto de entregar cem por cento de mim sempre, eu quero que me vejam no meu melhor e a sensação de não conseguir alcançar isso me deixa sufocado.

 

– Você não pode se cobrar tanto, a gente só consegue aprender e melhorar, errando e não estou dizendo que você vai errar pelo amor de Deus, mas em algum momento vai acontecer e você vai ter que aceitar e seguir em frente.

 

  Jongin suspirou profundamente, ele sentia nervosismo e a ansiedade se acumulando na boca do estômago, todos os sentimentos se misturando e se transformando em milhares de borboletas batendo asas, loucas para sair daquele espaço apertado que era seu peito.

 

  Desceu do palco e sentou em uma das cadeiras também, jogando a cabeça para trás e suspirando da forma mais dramática que podia. Kyungsoo o encarava com aqueles olhos enormes e Jongin se recusava a olhar de volta, fitando o teto como se pudesse atravessá-lo.

 

– Sabe, a minha mãe costuma fazer um jantar temático de halloween no dia trinta e um – Quando sentiu que ele já não devorava sua alma com os olhos, Jongin achou seguro olhar de volta – Como a peça vai ser no mesmo dia, ela decidiu fazer amanhã e bem…

 

– Bem?

 

– Eu já invadi a sua casa uma vez, acho que seria justo você invadir a minha também. – Kyungsoo olhava para outro lado mas dava para ver seu pescoço ficando avermelhado e Jongin achou adorável, só não podia contar para ninguém.  

 

– Isso foi um convite?

 

– Se você acha… – Provavelmente a cara de surpreso de Jongin fez Kyungsoo sentir a necessidade de se explicar – Quero dizer, você tá muito nervoso e a minha mãe tem um dom natural de sempre dizer exatamente os que as pessoas precisam ouvir, então eu acho que você precisa um pouco dela e da comida gostosa que ela faz pro halloween.

 

  Ele terminou de falar com um breve sorriso.

 

  Jongin sentiu o peito esquentar nervosamente e por um segundo ficou com medo de ter uma combustão espontânea. 

 

– Eu vou.

 

‿෴🦇෴‿ 

 

  Kyungsoo morava em um prédio no centro da cidade, e quando desceu para buscá-lo, Jongin conseguia perceber o nervosismo do outro. Dentro do elevador, ele torcia as mãos com ansiedade. 

 

– Minha mãe é meio excêntrica, não liga não, o tema de halloween dela desse ano é bruxas – Ele soltou uma breve risada – Você vai perceber, ela já assistiu Abracadabra cinco vezes só essa semana.

 

  Jongin só conseguia pensar em uma mulher exatamente como Kyungsoo, com os olhos enormes que brilhavam quando falava de algo que gostavam muito. 

 

  Realmente adorável.

 

  A frente da porta do apartamento estava decorada com teias, algumas aranhas de plástico penduradas entre elas e cestinhos de abóboras, uma de cada lado da porta, com luzinhas laranjas dentro. 

 

  A senhora Do era exatamente o que Jongin tinha imaginado e até mais, com os cabelos pretos na altura dos ombros, pele pálida e os olhos grandes. Ela estava usando um vestido preto com espartilho, ele tinha diversos pedaços de tecidos pendurados para todos os lados e nos olhos sombra preta. 

 

  Ela comprimentou Jongin calorosamente. 

 

  O apartamento deles era realmente como entrar direto em um cenário antigo de filme. Eram tantos detalhes que Jongin mal conseguia processar, desde os ramos de folhas espalhados por todos os lados a mini caldeirões e velas. As cortinas estrategicamente rasgadas, também cheias de teias e morcegos de papel colados; no balcão da cozinha tinha alguns doces personalizados, como fantasminhas feitos com marshmallow, gomas imitandos olhos, bolinhos de múmias e refrigerantes coloridos com o gelo seco espalhando fumaça pelo copo.

 

  Jongin nem conseguia dizer o quão encantado estava, talvez desse para adivinhar só de olhar pra ele porque suas bochechas já começavam a doer pelo sorriso enorme que ele não conseguia conter e a pela risada baixinha que Kyungsoo soltava.   

 

  A senhora Do fazia milhares de perguntas enquanto colocava as coisa na mesa, vez ou outra reclamava com seu filho que deveria ter se fantasiado também para receberem seu novo convidado.

 

   Jongin simplesmente estava encantado com a mulher, era fácil e confortável conversar com ela. 

 

  Kyungsoo tinha explicado a ela que Jongin era aspirante a ator e que faria O Louco na peça de halloween; até que chegaram no ponto da conversa que Jongin tinha que explicar seu medo surreal de qualquer coisa levemente assustadora e qual foi a brilhante ideia para perder esse medo. A primeira reação dela foi rir e a segunda foi xingar (com carinho!) seus amigos .

 

– Não se tira o medo de alguém desse jeito, você precisa começar aos poucos, com coisas pequenas até começar a se acostumar, esse é o segredo, se acostumar com a ideia de coisas feias ou absurdas pulando na sua frente. 

 

  Quando Jongin explicou também que estava com medo de acabar falhando com o seu personagem, ela deu mais orientações.

 

– Existem diferentes tipos de terror Jongin, só porque você está coberto de sangue ou com uma maquiagem horrenda não significa que vai assustar alguém. Às vezes um bom terror só precisa pegar no ponto certo, onde a pessoa é mais vulnerável.

 

  E Jongin continuou pensando sobre isso, se ele conseguiria perceber e esse exato ponto e se conseguiria pelo menos dar alguns sustos.

 

  Ajudaram a senhora Do a limpar tudo, encheram as mãos de doces decorados e se enfiaram no quarto de Kyungsoo. 

 

  Mais uma vez, Jongin estava encantado.

 

  Uma das paredes era coberta do teto ao chão de posters de filmes, alguns até mesmo alguém como ele conseguia reconhecer; como “Sexta–feira 13”, “O exorcista”, “Abracadabra” e “Pânico”.

 

   Em alguns cantos tinham action figures, funkos pop e livros de todos os tipo; uma fita de led rodeava todo o quarto deixando ele iluminado apenas pela luz azul, tinha um único puff preto enorme no meio do quarto e Kyungsoo se jogou nele, dando tapinhas do seu lado convidado Jongin a sentar junto com ele.

 

  Não sabia dizer se era seu buchinho cheio, mas depois de dez minutos sentados com apenas o led ligado, rindo dos docinhos decorados, Jongin parecia até meio tonto, sentido o joelho de kyungsoo colado no seu, as bochechas quentes, vermelhas e doloridas de tanto rir. Toda vez que ele ria, o corpo todo tremia junto e Jongin sentia o coração disparar no mesmo ritmo. Em algum momento, Kyungsoo disse que estava sentindo falta da lanterninha de estrelas e eles voltaram a rir para o nada.

 

– Vai dar tudo certo, você ensaiou, se esforçou muito e eu confio no seu potencial, por mais que isso pareça a maior merda clichê, estou sendo sincero. - Ele disse. Soltando tudo de uma vez em uma respirada só, antes de se despedirem.

 

  Jongin foi embora mais leve e mais feliz também.



‿෴🦇෴‿ 

  

  Era incrível como todo o camarim passava de um caos completo para um silêncio mortal depois que a peça começava. Todos entravam e saiam, seguindo ordens silenciosas bem ensaiadas. 

 

  Jongin tremia inteiro e ainda não era sua hora de entrar. 

 

  As meninas que ajudaram na maquiagem tinham deixado seu cabelo seboso como se tivesse suando a horas, a pele completamente pálida, sombra ao redor dos olhos lhe dando uma aparência doentia e as roupas brancas, rasgadas e com manchas de sangue.

 

  Sehun e Jongdae tinham aparecido brevemente para lhe dar um soquinho no braço, rir do seu cabelo e dizer que ele iria se sair muito bem. Sehun tinha um walkie–talkie para se comunicar com a professora quando estivesse na sala de som e luzes, mas ela já estava berrando com ele antes mesmo que tudo começasse. 

 

– Jongin acorda, é a sua vez. – A senhora Kang dava tapinhas no seu ombro, com o walkie–talkie já ligado, e Jongin sentiu aquele frio na base da coluna. – Sehun, é a vez de Jongin, entrando pela esquerda. 

 

  Era agora. 

 

  A primeira aparição era mais tranquila e ensaiada. O show do seu personagem começava nas cenas seguintes, onde Jongin tinha que dar ações ao Louco.

 

  Ninguém do elenco sabia da ideia de se esconder entre os acentos, não tinha praticado aquilo nos ensaios gerais, apenas com Kyungsoo. Provavelmente Baekhyun sabia que aquilo iria acontecer, porque quando finalmente aconteceu, ele não parecia tão surpreso quanto os outros.

 

  Era engraçado. Ele poderia escolher se enfiar em qualquer canto e simplesmente aparecer; gritando, rindo e mexendo com as pessoas igual um louco de verdade. Nos ensaios, não parecia tão legal ter pessoas realmente surpresas e se assustando. Era uma sensação completamente nova, normalmente ele estava no lado que tomava o susto, não esperava que assustar alguém poderia ser tão divertido.

 

  Em um dos momentos, Jongin fez questão de aparecer perto do assento de Kyungsoo, que pareceu bem surpreso para quem não costumava ser pego de surpresa; tentando esconder com a mão, a boca aberta e o sorriso que ele abriu logo em seguida. Kyungsoo parecia estar vibrando e Jongin se sentiu vibrar junto com ele.

 

  Em algum momento, Jongin caiu durante a suas idas e vindas, mas apenas fingiu que fazia parte da ação e seguiu em frente.

 

  No final das contas tudo tinha dado mais certo do que o esperado. Recebeu uma enxurrada de elogios da professora, alguns tapinhas no ombro acompanhados de um “você foi foda” de Baekhyun, seus pais o abraçaram e sua irmã disse que poderia ter sido pior.

 

  Quando esvaziaram o auditório, a Senhora Kang juntou todo o elenco no palco para poderem tirar a foto, mas o Byun tinha evaporado. Jongin se sentou em um cantos do palco para descansar, enquanto ela mandava outros alunos atrás do fujão

 

– Jongin! Sehun quer falar com você, aproveita e manda ele descer logo – Ela o entregou o walkie-talkie e saiu. 

 

– ´tá fazendo hora extra ai? Você não vai ganhar mais pontos por isso. – Apertou o botão esperando a resposta, mas ela demorou a chegar.

 

– O-oi Jongin, sou eu Kyungsoo. – A voz dele parecia mais grossa pelo walkie–talkie e a mente de Jongin levou mais tempo do que o normal para processar – Você foi incrível, como eu esperava .

 

  De todos os elogios, o de Kyungsoo foi o único que fez borboletas baterem asas nervosas na boca do estômago de Jongin.

 

– Aprendi com o melhor. Mas o que você tá fazendo aí em cima? – Jongin olhou em direção a janela da salinha, mesmo sabendo que não conseguiria ver nada. Mas Kyungsoo conseguia vê–lo.

 

– Fiz Sehun me deixar entrar. – A imagem do seu amigo puto da cara, passou pela mente de Jongin e isso o fez soltar uma risada sincera. – Escuta, eu preciso falar agora, se não eu vou dar para trás e isso nunca mais vai sair de mim.

 

  Jongin não sabia se precisava responder, mas ele permaneceu em silêncio, já sentindo a palma da mão ficar levemente suada.

 

– Alguns minutos atrás eu vi Chanyeol se declarando e se ele consegue, eu posso fazer isso brincando. – Sentiu sua respiração ficando cada vez mais irregular e o coração disparou violentamente. 

 

Declaração.

 

– Eu não sei exatamente por onde começar, mas acho que pelo começo não tem erro – uma leve pausa e ele voltou a falar – Eu te assisti encenando Orgulho e Preconceito. E Jongin, você parecia brilhar, eu fiquei obcecado, nunca pensei que alguém poderia brilhar assim; e então eu comecei a escrever peças, pensando em você. Eu escrevi O Som do Mar para você, pensando que eu queria te ver de novo, brilhando naquela mesma intensidade, eu queria te dar papéis para que você pudesse sempre dar o seu melhor. 

 

  O mundo de Jongin virou em cento e oitenta graus e ele precisou apoiar a mão livre no chão, para se equilibrar.  Olhou em volta, percebendo que agora estava sozinho e deu graças a Deus porque ele tremia violentamente e as batidas do seu coração parecia ecoar por todo o auditório 

 

–  Eu não sei o quanto isso pode soar esquisito, mas eu não ligo. Você disse que queria se dar cem por cento, que queria que as pessoas te vissem no seu melhor. Eu te vejo, Jongin, o tempo todo, sempre te vi. 

 

  Eles ficaram um tempo em silêncio. Jongin esperando sua mente terminar de processar tudo que tinha acabado de ouvir. 

 

  Quer dizer… 

 

  Kyungsoo escrevia as peças que ele atuava. As escrevia para ele, por ele, porque gostava dele. Antes da noite em que ele invadiu sua casa, eles nunca tinham sequer trocado uma simples conversa. 

 

  E agora estavam ali, separados por alguns metros. Jongin não podia vê-lo, mas sentia que Kyungsoo estava vibrando de novo. Sabia por que ele mesmo estava vibrando de dentro para fora.

 

  Jongin queria dizer para Kyungsoo trazer a bunda dele até ali, mas vejam só, ele também era uma pessoa cagona quando se tratava de relacionamentos e emoções.

 

– Você tá com cara de tacho, por favor, diga alguma coisa. Eu preciso saber se já posso cometer um crime contra mim mesmo, aqui onde ninguém pode ver, ou se posso ir ai te beijar.

 

  Foi como um soco muito bem dado no meio do peito. Jongin perdeu o ar de uma só vez, porque esse era o exato pensamento do qual ele estava fugindo desde a descoberta que Jongdae tinha feito. Era o desejo silencioso que ele deixou escondido em algum cantinho da sua mente, sabia que se mexesse nele, Jongin jamais conseguiria se manter normal ao lado de Kyungsoo de novo. Nesse quesito, ele era um péssimo ator.

 

  Com as mãos tremendo e suadas ele agarrou o walkie-talkie com mais força e pressionou o botão.

 

– Meu Deus, por favor – Saiu mais parecido com um suspiro, mas na mesma hora, a porta da salinha abriu com força.

 

  Jongin levantou-se com um pulo, e deixou que Kyungsoo viesse até ele. A expressão dele era séria, parecia determinada, mas quando parou a cinco passos de Jongin, dava para ver o peito subindo e descendo rapidamente, a respiração errática e os dedos das mãos se contorcendo de nervoso ao lado do corpo.

 

  Jongin deu um passo.

  Kyungsoo deu outro passo.

  E cada um deu mais um.

 

  Jongin tinha a mínima ideia que precisava continuar respirando, mas já era muita coisa para o seu cérebro processar. No meio do turbilhão rodando dentro de sua cabeça, em um segundo que ele piscou mais demorado, Kyungsoo cobriu o último passo e o puxou pela gola da camisa rasgada e ensanguentada.

 

  Jongin não sabia dizer o que estava esperando, mas foi denso, com uma mistura de desespero e inexperiência.

 

  As borboletas presas no seu peito explodiram, batendo asas fervorosamente. 

 

    Passou as mãos, ainda nervosas e geladas, pelo pescoço de Kyungsoo e o contraste de temperatura fez os dois arrepiarem. Jongin prendeu os dedos na base do cabelo dele; e talvez tenha sido uma confirmação final, porque sentiu ele suspirar, relaxar e diminuir o ritmo. Os lábios de Kyungsoo eram macios, quentes e intensos, Jongin se sentiu tonto, quase bêbado, buscando a língua dele como se precisasse disso para viver.

 

  Podia sentir o seu próprio batimento acelerado contra o dele e parecia ecoar por todo auditório. 

 

  Quando o ar fez falta, se afastaram lentamente, com os dentes de Jongin raspando vagarosamente o lábio inferior de Kyungsoo, como se quisesse uma última sensação e ouviu ele soltar um suspiro pesado, ainda se agarrando à sua camisa. Ele apoiou a testa na sua, as respirações afobadas, se encontrando, com a boca formigando e as extremidades do corpo dormentes. Jongin sentiu que poderia, realmente, perder a sanidade a qualquer momento.

 

  Jongin passou os braços ao redor de Kyungsoo e ficaram assim por mais alguns minutos, em um silêncio confortável, processando tudo o que tinha acabado de acontecer.

 

– Sabe, você deveria avisar o Byun que a turma está toda atrás dele, se ele não quiser ser pego aos beijos com o Park.

 

  Kyungsoo soltou uma risada gostosa e Jongin sentiu mais uma vez as borboletas se agitarem nervosas. 

 

– Acho que já é tarde demais. 




FIM 👻





Notes:

Isso ai!!
No começo eu peguei o plot, com o objetivo de realmente entrar em uma área que eu nunca explorei, que foi o suspense/terror, mas acabou que eu não aguentei e coloquei um fluffy gostosinho. Mas ainda espero ter atingindo as expectativas de quem doou :´)
Me disseram no feedback crítico, que minha fic lembrava "aquele
gostinho de ligar a TV depois de voltar da aula e assistir uma programação feita só
para mim...". E esse realmente foi o objetivo final, eu amo histórias que me deixam com um quentinho no peito, uma sensação de conforto, como uma caneca de chocolate quente e um cobertor aconchegante. Eu espero profundamente ter conseguido passar essa sensação para vocês, obrigada a todos que chegaram até aqui. ❤️