Work Text:
Era um sentimento novo, muito novo. Que sinceramente? Eu estava amando sentir aquilo ! E amando mais ainda porque era Junho quem estava me fazendo sentir.
Uma das mãos dele passeava pelas minhas costas, me deixando apenas mais animado ainda. Minhas mãos nem sabiam onde ficavam, era tanta animação que eu estava completamente desnorteado. A única coisa em que eu tentava me focar era em beijar a boca de Junho, o que estava sendo maravilhoso!
Há meses, eu diria que era loucura um cenário desses: eu e Lee Junho, meu melhor amigo do ensino médio, na última cabine de chuveiro do vestiário, já que ninguém usava, bem, para tomar banho.
Eu estava tão focado em devorar Junho que não estava notando que, a cada segundo que passava, ele ficava mais estranho. Sua mão, que antes agarrava a minha perna, agora estava em meu ombro. Sua boca, que estava na mesma sintonia da minha, simplesmente estava muito mais calma do que deveria para o clima.
Eu conseguiria ignorar se ele voltasse para o mesmo ritmo, ou se eu diminuísse e ele não diminuísse mais ainda.
— O que foi…? — questionei baixinho assim que me separei de Junho. Ele não olhou para o meu rosto, o que foi mais estranho ainda.
Me afastando dele, tirei a cabeça do box e observei ao redor; não tinha sinal de nenhuma outra vida por perto, o que me fez retornar e olhar para Junho com mais dúvidas ainda.
— Não tem ninguém… — Eu usava o tom mais baixo possível. Só porque eu não tinha visto ninguém, não significava que realmente não havia. — Que que ‘tá acontecendo? Você não ‘tá legal?
Com uma certa preocupação, comecei a olhar de todos os cantos. Ele continuava com a mesma cor de pele e não aparentava estar machucado em lugar nenhum. Porém, sem uma resposta da parte dele, ficava difícil para que eu descobrisse o que se passava.
— Nada… — ele resmungou, afastando-se mais ainda dos meus braços. Definitivamente, tinha alguma coisa.
— Eu fiz algo que você não gostou? — questionei. Não que eu tivesse feito algo fora do comum, mas nunca se sabe. Vai que, repentinamente, ele descobriu que não gosta de tal coisa e não me avisou.
— Bem… — Pelo seu tom, era um sim. — É difícil.
Finalmente, depois de tanto tempo observando o chão, finalmente Junho teve coragem de olhar nos meus olhos.
— Pode falar, ‘tá tudo bem, eu vou entender. — Busquei pegar sua mão, para que eu conseguisse passar uma sensação de segurança. Não queria que Junho se sentisse mal perto de mim.
Porém, estranhamente, ele tentava evitar o contato comigo. Não chegou a arrancar a mão de perto da minha, mas a hesitação era nítida e escancarada.
— Hm… — e le resmungou. — É errado.
— O quê? — perguntei me aproximando dele. O que era errado? O que estava errado? A ansiedade estava me matando, ainda mais com todo esse rodeio dele.
— Isso. — Isso…? Talvez eu estivesse entendendo o que ele queria dizer, mas preferia não. — Amigos normais não fazem isso, não é?
— “Isso” o quê? — questionei. Parecia que ele tinha um medo de dizer, e isso, estranhamente, me deixava desconfortável.
Ele ficou mais alguns instantes em silêncio, sem me dizer nada; ficamos nós dois nos encarando. Seus olhos pareciam dizer que eu sabia o que era, e eu sabia, claro que sabia, mas não queria fazer uma presunção. Vai que eu estivesse errado?
— Hm… — Ele soltou minha mão da dele. — Beijar, sabe?
Assenti com calma. Não tive coragem de rebater ele, de contornar sua fala, de retrucar. Apenas fiquei em silêncio, aguardando sua próxima manifestação.
— Acho que a gente deveria repensar… Não sei. — Ele mordeu seus lábios. — Não vamos poder levar isso para a vida.
— E não precisamos. — Dei um sorriso, havia achado uma brecha para que pudéssemos apenas sermos felizes, pelo menos agora, no ensino médio. — Podemos fazer isso só por enquanto.
— Não… — Seus olhos me deixavam angustiado. — Desculpa , Woo, mas acho que quanto antes pararmos , melhor.
E depois dessas palavras , Junho, sem nem olhar para trás, saiu do box e foi embora. Confesso que fiquei parado fora do box, escorado na parede , esperando que a qualquer momento ele aparecesse dizendo que era uma pegadinha.
Mas não aconteceu, claro que não. E isso fazia tudo parecer muito mais estranho, até porque, em momento algum, de todas as outras vezes, Junho se demonstrou incomodado com o que estávamos fazendo.
Inclusive, ele quem tinha começado com tudo isso. Eu apenas cedi à sua ideia e descobri algo novo em mim. Isso que era o mais estranho: por que, repentinamente, ele mudaria de ideia?
Seria exagero dizer que quase chorei? Não sei, mas foi o que aconteceu. Uma sensação estranha estava me preenchendo, preenchendo muito mais do que deveria e precisava.
Andar para fora do vestiário, com alguns garotos entrando e depois tendo que ir para a mesma sala de aula que Junho , não era uma experiência agradável, ou algo que eu queria, não hoje. Mas que estava sendo vivida, infelizmente, por mim.
[ … ]
Pode-se dizer que o fato de ele ter voltado atrás tão facilmente me impressionava. Na aula de biologia, que Junho não estava presente, ele me mandou uma mensagem : “me encontra lá”.
“Lá” sempre significou o box do vestiário, então não tinha dúvidas. Eu pediria ao professor para poder sair da sala e ir ao banheiro, então eu caminharia até o vestiário e ficaria de amassos com Junho.
Era bastante sonhador toda essa rotina, mas metade dela já estava concluída.
— Junho? — Mesmo falando antes de entrar direito no vestiário, nem precisei procurar por ele. Ao invés de estar escondido, ele estava sentado no banco.
— Woo! — Sua empolgação era estranha, ainda mais por que tinha saltado do banco e caminhou em minha direção , me abraçando. — Eu tenho novas notícias!
Sua felicidade era algo positivo, creio eu, ainda mais considerando nossa última interação. Então eu não consegui evitar de sorrir junto dele.
— O quê? — Ele voltou a se sentar no banco. Não tive outra escolha, senão, segui-lo.
Eu deveria ficar em alerta. O fato dele ter me chamado justamente para cá, e não ser para beijar, mas sim para me contar outra coisa, deveria ser um alerta. Ele sabia que, se fosse para outra coisa, eu não iria? O que era uma mentira, eu iria. Porém, não conseguia deixar de pensar nisso.
— Então … — Seu sorriso de orelha a orelha era de se apaixonar, tão diferente do outro dia. — Nem sei como te digo!
— Começa do início — falei com um sorriso pequeno, tentando ajudá-lo, já que ele parecia muito nervoso.
— ‘ Tá… — Ele suspirou , parecendo buscar o início de tudo. — Eu conheci alguém.
Minhas sobrancelhas arquearam no mesmo instante em que ele falou “conheci”. Isso indicava que não era algo bom. A falta de gênero era mais alguma coisa para me assustar.
— Alguém…? — Fiz o erro de dar corda.
— Uma garota. — Tentar suspender um sorriso era a coisa mais difícil, e eu estava descobrindo isso agora. — Ela é tão linda, tão incrível! Ela estuda aqui com a gente. Outro dia, te apresento pessoalmente. Deixa eu te mostrar uma foto dela primeiro.
Ele estava tagarelando sozinho, enquanto eu tentava achar uma forma de parecer feliz. Eu não deveria estragar a felicidade de Junho, não é?
Para meu alívio, ele demorou tempo suficiente para achar uma foto da garota, o que eu já tinha decidido como sorrir e responder.
— Aqui. — Eu não a conhecia. — Ela não é bonita?
— É. — Dei um sorriso pequeno enquanto concordava, me tremendo completamente. Que momento horroroso para ele decidir que precisava de uma afirmação minha!
Será que ele estava tirando com a minha cara? Era uma grande dúvida. Lembrar que ele tinha inventado essa história me dava uma pequena revirada no estômago, mas estava tudo bem, era só respirar fundo e ouvir a história dele.
— Enfim! — Ele voltou a olhar nos meus olhos, o que me fez arrepiar. — Estamos quase namorando, e é sobre isso que eu queria te falar.
— Sobre seu namoro? — perguntei, com a dúvida estampada em meu rosto. Por que Junho não conseguia ser direto uma vez na vida?
— Mais ou menos. — Ele suspirou. — Eu queria dizer que você também consegue.
Consigo o quê ? Era minha vontade de questionar, mas com um tom tão arrogante que faria ele parar no meio da frase.
— Hum ? — Me fiz de desentendido, pois era isso que eu mais queria : não entender.
— Você também consegue achar uma namorada. Sabe esse sentimento que a gente sente entre a gente? Vamos sentir muito mais pelos os outros! — Seu sorriso era tão estranho. Como ele falava isso para mim tão feliz? — No caso, por mulheres.
— Ah… — Deixei escapar da minha boca. Não que eu não soubesse o que ele queria dizer, mas era muito mais forte ele de fato dizer, o que eu esperava firmemente que ele não dissesse. — Não…
Eu poderia dizer muito mais, mas era apenas isso que eu estava conseguindo dizer e provavelmente isso o deixou em alerta, mas pelos motivos errados.
— Não fale assim! — Junho buscou minha mão. — Um dia, você vai encontrar uma mulher e vai sentir tudo e muito, muito mais. Você vai compreender o que eu quero dizer. Não desista tão facilmente. A gente é muito novo.
Já era cedo para começar a chorar? Se a resposta fosse não, eu estava no horário certo; meus olhos estavam começando a ter algumas lágrimas, nada exagerado, mas com certeza Junho notou, ele estava olhando para minha alma. Mas , por algum motivo, não estava entendendo ela.
Que belo momento para ser filosófico…
— Não, Jun. Não. — Engoli seco. Isso seria muito mais que ficar pelado, mas talvez ele compreendesse, já que em momento algum nós decidimos falar sobre isso.
— Não o quê ? — c om mais calma, ele decidiu perguntar e ficar em silêncio , apenas no aguardo da resposta.
Antes que eu começasse a falar mais do que eu deveria, respirei fundo , tentando me acalmar , e apenas prever boas finalizações dessa conversa.
— Não vou, um dia, encontrar uma mulher que me faça sentir isso. — Assim que fiquei em silêncio, me arrependi. A chance de alguma resposta de Junho vir antes que eu estivesse preparado me deixou desesperado. — Porque eu sinto isso agora. Com você.
— Comigo? — e le questionou com mais agressividade do que eu gostaria de experienciar.
— Sabe, animação, vontade de ficar próximo, ansiedade para ver, sempre gostar de ouvir a pessoa, e isso ser mais apaixonante a cada segundo. — Dei um pequeno sorriso assim que me silenciei. Tinha muito mais, mas talvez eu não precisasse falar tanto assim.
— Se apaixonar à primeira vista? Querer morar com ela…? Querer viver com ela…? — ele prosseguiu falando, e eu assenti a cada frase que ele dizia. Gostava de pensar que o “ela” era para pessoa e não para mulher.
— Sim. Tudo isso e muito mais. — Desta vez, fui eu quem ia atrás de sua mão. — Eu sinto isso por homens, por você. E você também sentia, não?
Não que eu quisesse manipulá-lo para concordar, mas acho que essa seria a única forma de fazer Junho pensar sobre isso. Até duas semanas atrás, éramos apenas nós dois, não? Por que agora tinha uma terceira pessoa?
— Não, Wooyoung. — Ele dizer meu nome inteiro era estranho. — Não… eu não sou assim. Você não é assim.
Era perturbadora a cara que ele fazia.
— Eu sou — afirmei, tentando segurar sua mão. A confiança que nós dois transmitimos desse jeito parecia ser negada por ele agora.
— Mas eu não. — Lentamente , ele tirou a sua mão de perto da minha. — Perdão, mas eu não sou assim.
— Assim…? — Deixei que ele levasse sua mão para longe enquanto lentamente também se afastava. Meu cenho franzido era apenas resultado disso tudo.
— Hum … — e le resmungou , como se tivesse medo da palavra. — Gay…
— Talvez você não seja mesmo. Até porque diz ter se apaixonado por essa mulher. — Olhei para o chão enquanto falava mais sozinho do que com ele. — Talvez você seja bi. É uma possibilidade.
— Não. — Parecia que ele não estava cansado de negar tudo que eu tinha para falar. — Não. Você é o único.
— O quê ? — Soltei uma risada. Seu jeito de negar , pelo menos , era minimamente engraçado. Um pouco irônico. — Mas foi você que propôs isso.
— Ah, é. Também iria pedir para pararmos. — Ignorando completamente o que eu disse, ele comentou como se fosse um mínimo detalhe que ele esqueceu no meio da conversa.
— Junho — disse seu nome, mas parei para respirar um pouco. — Você quem propôs isso — repeti.
T alvez isso fizesse alguma diferença em seu cérebro, algo o lembrasse que talvez ele tivesse alguma resposta, ou que isso solucionasse algo em sua cabeça. Não sei! Qualquer coisa.
— Hormônios. Já ouviu falar? — t ornando sua voz muito mais agressiva, ele respondeu.
— Ah, claro — respondi sem muita convicção.
— Eu apenas estava curioso, sabe? Eu queria ver como era , e foi bom, não foi ruim, mas é só porque eu não tinha explorado o restante do mundo. — Ele parecia ter uma paixão na voz, mas isso não me deixava nenhum um pouco comparecido, me deixava tonto.
— Eu fui uma experiência? — Me levantei do banco, olhando nos olhos de Junho. Ele parecia estar confuso, como se não entendesse a indignação que eu sentia.
— É…? — Sua concordância apenas me fez pisar para trás. — Mas você é mais que isso.
— É? — questionei, nem sei por que, a resposta era óbvia, mas sonhar não custava, não é?
— Uhum, somos amigos , né ? Sempre fomos. — Não que ele precisasse de uma, mas não o respondi e apenas saí .
Não corri de início, apenas saí andando, mas talvez , conhecendo Junho, comecei a correr no processo, sabia que ele não iria tão longe , e nem foi. Não que eu soubesse, pois não olhei para trás.
Era vergonhoso sair assim, ainda mais que um dia eu teria que olhar na cara dele, mas eu apenas não queria chorar na cara dele. Isso, com certeza, seria mais vergonhoso. A ideia de olhar para ele e dizer: “Lembrei de uma prova que teria”, talvez servisse de desculpa.
Antes que eu parasse de correr, eu ainda consegui a proeza de esbarrar no corpo de alguém que estava parado no meio do corredor. Ele não caiu no chão, ainda bem, senão seria um filme demais , e isso já bastava n os meus últimos dias.
— Perdão — pedi e, por instantes, olhei no rosto dele. Era um rosto novo, nunca tinha visto naquela escola, o que era difícil.
— Tudo bem. — Assim que ele disse, me senti liberto para voltar a correr para onde quer que fosse que eu quisesse ir.
O único momento em que me preocupei foi quando consegui achar o banheiro e entrar numa cabine, então desabei em lágrimas. Talvez fosse exagerado demais chorar por um amigo…? Dizer que não éramos mais que amigos e aqueles beijos eram uma experiência. A escolha de palavras era terrível, tenebrosa. Era difícil dizer se ele fazia por mal ou não; provavelmente eu demoraria dias para descobrir.
Quando finalmente saí da cabine e me olhei no espelho meio quebrado, lembrei do garoto com quem esbarrei na rua. Esperava não ter que encontrá-lo uma segunda vez, em alguma situação que fizesse ele conseguir me olhar e me perguntar.
Mas eu não passaria por uma humilhação, uma segunda vez, não é?
[ … ]
Eu tinha tantas perguntas e nenhuma resposta. Na verdade, eu tinha uma: Junho, provavelmente, não me via só como um amigo. Até porque, nem isso eu era!
Depois daquela briga, ele me deu espaço…? Nem sei como posso interpretar isso. Ele apenas não chegava perto de mim, me encarava durante vários momentos, ainda mais quando estava com sua namorada, o que me deixava bastante desconfortável. Ele com a mão na cintura dela, no grupo de amigos dela, e então eu repentinamente levantava a cabeça e lá estava ele me olhando. Mas vir falar comigo? Isso poderia, provavelmente, matá-lo do coração, com certeza. Até para não ter feito isso no próximo dia.
Mas o que me mataria, e quase matou, foi na primeira aula daquele dia. Repentinamente, o garoto que eu trombei naquele dia apareceu em frente a todos.
— Olá, eu sou Horvejkul Nichkhun. Sou tailandês. Espero que vocês possam cuidar bem de mim. — Ele tinha um sorriso pequeno no rosto enquanto passava os olhos por todos.
Ele chegou a me olhar, mas não fixou em mim, o que me fez crer que ele não se lembrava de mim e que eu teria paz pelo restante do ano, eu acho.
— Pode se sentar lá no fundo. — A professora apontou para mim, até porque era o único lugar que estava vazio : o do meu lado.
Ele caminhou até mim sem me olhar; o único momento em que fizemos contato visual foi quando ele se sentou, olhou para minha cara, e eu o olhei apenas de relance.
— Olá! — ele disse fazendo uma cara estranha. Resmungando baixinho o cumprimentei:
— Oi. — Rapidamente desviei o olhar para a professora, que estava prestes a passar algo no quadro.
Tentando ignorar aquela presença ameaçadora, que nem era tanto, ainda mais que seu coreano tinha uma boa parte de sotaque estrangeiro, que chegava a ser fofo. E , com certeza , nada ameaçador. Mas o fato de ele ter me visto chorando o tornava algo em alerta.
Felizmente, nessa primeira aula, ele ficou em silêncio, no máximo me chamava para ter ajuda no que estava escrito no quadro, o que definitivamente me dava diversos sustos. Porém, foi só eu baixar minha guarda, assim que a professora saiu da sala e todos ficaram mais livres, ele virou sua cabeça e começou a me avaliar.
— Hum … — e le resmungou, me fazendo olhá-lo por conta do som repentino. — Você é aquele garoto que esbarrou em mim?
A falta do verbo “chorar” me deu um alívio. Momentâneo.
— Quando? — m e fingi de desentendido.
— Ontem? Que estava chorando . — Ele , provavelmente , viu minha surpresa no rosto, ainda mais estando com a boca aberta e as sobrancelhas arqueadas.
— Ah. É, era eu — respondi tentando me acalmar. Para que eu fui fingir que não sabia?
Enquanto eu pegava meu material para a segunda aula, me lembrava que tinha algumas coisas para repassar. Felizmente, Nichkhun decidiu aquietar e apenas ficar sentado ao meu lado. Mas, pelo visto, minha felicidade nunca seria estendida, nem por quinze minutos.
— Posso perguntar por quê? — Não. Eu deveria criar uma parede ao nosso lado para não permitir que ele falasse e eu respondesse.
— Acho que sim. — Dei de ombros com a confiança que eu nem tinha! Eu deveria calar a minha boca, para sempre.
— Hum… — Pelo visto, ele tinha notado minha incerteza após eu falar, claro. Mas, aparentemente, isso não faria com que ele desse para trás. — Então?
Larguei minha caneta ainda olhando para frente. Eu queria poder chorar novamente, mas aí eu teria que explicar por que eu chorei na hora que fui explicar o porquê eu estava chorando. Seria muito mais complicado.
Me recuperei, não tanto, mas o suficiente para conseguir olhar para o novato sem chorar , ou estando com uma cara de alguém que , com certeza , cairia em lágrimas.
— Se aproxima — como se fosse um segredo, era um segredo, mandei ele se aproximar, que fez sem problemas. — Que constrangedor. Calma.
Respirei mais um pouco.
— Eu levei um fora. — Podia traduzir assim, não? Até porque era mais difícil dizer que eu estava em um relacionamento não-determinado com um garoto que era meu amigo e que agora estava bem determinado; ele estava em um relacionamento com outra pessoa e nós éramos somente amigos.
— Ah… — e le resmungou se afastando. — De quem?
Era realmente necessário ele saber? Haviam algumas possibilidades; ele poderia se afastar de mim ao saber quem era, ou ficar mais interessado pelo jeito negativo. Eu tinha uma chance e ele, provavelmente, não sairia de perto de mim até saber quem era.
— Precisa mesmo? — r esmunguei sem vontade ; quem sabe ele desistia, não é ? Não custava tentar.
— Uhum.
Suspirei novamente.
— Olha, eu também perdi um amigo. — Fingindo que era isso que ele queria saber, deixei sair da minha boca. Porém, olhando nos olhos dele, parecia que isso também importava ; ele estava prestando bastante atenção.
— Quem? — Ele olhou para o restante da turma, como se conseguisse saber quem era apenas por suposição.
— Ele… — Apontei bem onde Junho estava sentado, junto de sua mais nova namorada. Era estranho saber que nós três ainda estávamos na mesma turma.
— Ah. — Rapidamente , seu olhar se voltou para mim. — Você perdeu ele para ela?
— Não, calma. — Nichkhun estava sabendo da minha vida inteira e eu não estava sabendo? — Por que diz isso?
Ao invés de deixar bem claro que, sim, eu perdi ele para ela, fingi que ele estava completamente errado, mesmo não estando.
— Sua cara. — Ele deu de ombros observando Junho sorrir e agarrar a garota, que dava algumas gargalhadas, para o meu ódio profundo
— Ah, sim. Bastante s emoções para segurar, né ! ? — Dei um sorriso tentando enfiar minha cara no caderno, não do jeito literal, por mais que eu também quisesse.
Finalmente , Nichkhun decidiu que o silêncio era a melhor coisa, ainda mais depois de conseguir uma confissão…? Minha. E , novamente , eu estava exagerando só um pouquinho.
Bem, pelo menos, falar sobre essas coisas fez com que eu tivesse paz pelo restante do dia, independente da aula, se estava um silêncio ou uma bagunça. Tanto Junho, quanto Nichkhun, nenhum dos dois falou comigo.
Que poderiam ser motivos de choro ou sorrisos. Depende do que eu escolhesse para mim.
Mas paz, provavelmente, nunca seria o que eu teria pelo restante da vida, ainda mais quando eu estava saindo da sala e uma mão segurou meu braço. Já não sabia mais o que aguardar ou desejar.
Virei meu rosto com uma expectativa de ser Junho pedindo desculpa por quase me chamar de anormal, mas quem diria, era um pouco melhor que isso.
— Nichkhun — falei com um bom tom de surpresa, deixando ele surpreso.
— Esperava que fosse quem? — E ele precisava perguntar para descobrir? Pelo o que me parecia , ele tinha um bom histórico de chutes.
— Ninguém. Mas, enfim? — q uestionei o mais rápido que pude ; saber que ele tinha algo a me contar me deixava ansioso.
— Hum . — Ele pareceu repensar um pouco, mas não chegar a lugar algum. — Se você quiser, eu posso ficar no lugar dele.
— Como?
Foi isso que saiu da minha boca ao ouvir suas palavras. Ele tinha noção do que estava querendo dizer? Ou eu era apenas o maluco pensando nesta segunda possibilidade?
— Ser seu amigo — ele completou com um sorriso, era tão inocente e fofo?
— Ah, sim. Por que não? — Dei de ombros. Eu precisava de um amigo novo e ele provavelmente também. — Eu preciso de um amigo e você…?
— Também preciso.
[ … ]
Nem me lembro do que nós dois fizemos após nos considerarmos amigos; a única coisa de que consigo me lembrar foi bem depois. Isso significa: revisitar o vestiário após o horário de aula, naquela cabine quase caindo aos pedaços de tão abandonada.
Sentir a mão de Nichkhun por mim era interessante, para não dizer maravilhoso. Seria uma provocação dizer que ele conseguiria superar Junho? Não que eu quisesse apenas parecer que estava passando por cima, até porque ele era muito bom no que se propunha a fazer.
Quando ele se afastou de mim, nossos olhos se encontraram, e eu não perdi tempo para tirar aquela dúvida de mim:
— Quase você pediu para ser meu amigo, você já sabia? — Assim que perguntei, ele sorriu.
— Wooyoung, você é muito fácil de ler. — Após isso, ele apenas retornou a me beijar, me fazendo esquecer completamente que eu o estava amaldiçoando há dias por ter forçado questões que eu definitivamente não queria nem reviver.
O tempo passou voando. Não fomos muito longe; ficamos na mesma área onde eu e Junho sempre ficávamos, com beijos e mãos bobas. Só nos tocamos do horário quando meu celular tocou um despertador.
— O que é isso? — e le perguntou , se afastando de mim.
— Dez minutos antes dos meninos aparecerem por aqui. — Me ajeitei, sem ter como me afastar , pois estava contra a parede. Enquanto eu tentava parecer que não tinha sido destroçado, Nichkhun me olhava confuso. — O que foi?
— Por que você tem esse despertador? Você já vinha aqui com ele? — Sem falar nada, parecia que ele já sabia de tudo. Eu já podia começar a me preocupar?
— É… — respondi sem muito rodeio. Talvez eu precisasse achar algum lugar novo, quem sabe algum dia eu desse de cara com ele e sua namorada. — Você sabe de algum lugar melhor? — questionei levemente grosso, mas era por conta de minha memória traiçoeira. Quando eu iria pedir desculpa, apenas pela minha consciência, até porque ele parecia nada afetado, Nichkhun agarrou meu braço.
— Não, mas vamos descobrir. — Seu “ vamos” " me passou tanta confiança que não pude evitar de sorrir , andando atrás dele.
Ele era uma graça, tanto em suas ações quanto no seu sotaque nada reduzido. Era seu charme. E como era um charme !
Pelo visto, eu ainda podia sonhar mais um pouco, apenas não sei por quanto tempo até que Nichkhun também aparecesse com a história de que ele tinha encontrado a garota certa. Ainda mais considerando que ele quem propôs isso também.
