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Definitivamente, ficar reestocando prateleiras de mercado não era o sonho de Sujin, dava para perceber a quilômetros só pela sua cara a infelicidade. Que existia por não poder ficar com fones de ouvido, tendo que escutar clientes falantes o expediente inteiro.
Os diálogos iam desde as coisas básicas, como o que comprar, os preços e se era mesmo necessário levar tal item, a, é claro, fofocas de bairro. Este era o mal de nascer em um bairro pequeno e permanecer nele: sempre sabia de quem eles estavam falando.
Se Sujin fosse o ápice da pessoa fofoqueira, estaria saltitante, porque parecia que escolhiam justamente falar sobre assuntos, supostamente privados, ao lado da trabalhadora. E não eram poucas as vezes que isso acontecia, e claro que, em mais um dia de trabalho, em uma plena quarta-feira, não seria diferente.
— Você sabe o que meu filho me disse hoje? — Só pelo início da conversa, Sujin conseguia sentir o cheiro de fofoca sendo contada, chegava a se questionar se as fofocas acabariam caso fosse despedida do mercado, ou a seguiriam para onde quer que fosse contratada.
— O quê? — Uma mulher mais velha utilizou o mesmo tom baixo enquanto aproximava seu rosto do da outra, para que pudesse ouvir melhor o que ela dizia, mas nem precisava fazer muito. Sujin, mesmo estando longe delas, também conseguia escutar bem.
A mulher fez questão de olhar ao redor antes de dizer alguma coisa, pelo visto ela gostava de fazer um bom suspense antes de contar algo que, por mais irrelevante que pudesse ser aos olhos de Park, para as outras senhoras, sempre era a maior bomba.
— Que uma cantora jovem e famosa deu entrada na nossa pousada. — Para alguns, podia soar tão irrelevante. O que poderia ter de mais em uma pessoa visitando uma cidade? Nada, porém, sendo uma cidade realmente pequena, pessoas mais velhas não deixariam passar tão batido.
Ou até mesmo, pessoas em geral. Já que todos sabiam que aquela não seria uma ótima escolha de lugar para se fazer um show.
— Sério? — A mulher emitiu um som de surpresa. — O que será que ela veio fazer aqui? — Mesmo que Sujin não visse os rostos delas, conseguia visualizá-los em sua imaginação muito bem, ainda mais tendo todo o tom de voz envolvido.
— Deve ter algum namorado, ninguém vem para cá. — Ela deu uma boa ênfase às palavras “namorado” e “ninguém”, como se o que disse pudesse ser o único motivo para que alguém fosse a uma cidade.
Sujin revirou os olhos enquanto ouvia. Elas não poderiam odiar um pouco menos o gênero feminino? Tudo bem que a cidade não tinha nada de mais para se ver, mas com certeza haveria um motivo muito melhor para vir até ali senão homem, ou namoro.
— Hum, verdade — ela resmungou, logo completando. — Sendo nova, não dá para se duvidar.
— É, os jovens estão muito assanhados hoje em dia. — Essa foi a última frase que Sujin ouviu antes de empurrar o carrinho para a outra seção. Mesmo que a fofoca estivesse muito interessante, Park tinha coisas mais importantes para fazer.
Não que gostasse do trabalho, mas ela realmente achava que essas coisas não agregavam em nada. Porém, não seria sua discordância do assunto que faria com que ele não ficasse armazenado em seus pensamentos. No restante do dia em que estaria trabalhando, Sujin levaria consigo o questionamento sobre quem, realmente, seria a cantora que veio para ali.
[ … ]
Na tarde anterior, infelizmente, Sujin se deu por vencida e questionou sua mãe se sabia de alguma coisa, recebeu uma negativa e, mesmo não lhe pedindo para que fosse atrás de uma resposta, isso pareceu um sinal para ela.
Ao estar sentada à mesa de manhã, não demorou para que sua mãe aparecesse por trás, ela mantinha um sorriso no rosto até mesmo quando já estava comendo e tinha algo na boca.
— Sabe quem é a cantora que está aí? — depois de já ter engolido a comida, a outra Park questionou, observando o rosto desinteressado da filha.
— Hum? — ela resmungou de volta, pois como demonstrado desde o início, não deu muita corda à pergunta, seu maior interesse no momento era comer para ir trabalhar.
— Ireh — a mais velha respondeu ao se levantar indo até a geladeira.
Mesmo que Sujin não olhasse para ela, franziu o cenho. Não conhecia nenhuma Ireh, e sua mãe nem fez questão de continuar falando, como poderia saber quem era?
— E quem que é Ireh? — tomando mais um gole do café com leite, a garota perguntou. Imaginou que, por sua mãe fazer um suspense, ela saberia explicar um pouco a trajetória da cantora mencionada.
— Eu fiz a mesma pergunta para a Sra. Cho. — Por alguns segundos, Sujin travou enquanto comia, o que isso teria a ver com ela? De tantas pessoas na cidade, por que sua mãe a escolheu? A Sra. Cho não era nem um pouco conhecida por ser alguém que sabia das coisas, então por que ela?
Enquanto sua mãe não lhe dizia mais nada, Sujin tentava se convencer de que o motivo era as duas serem amigas, ainda que o assunto não tivesse nada a ver com a outra mulher.
No entanto, sua preparação e convencimento mental não adiantaram de nada quando sua mãe a encarou antes de respirar fundo e responder:
— É a Seoyoung. — Após ter falado, ela logo ficou em silêncio. Sabia bem o quão sensível poderia ser esse tópico, principalmente para Sujin, que fugia de qualquer coisa que a envolvesse como se estivesse em dívida com a garota.
— Cho Seoyoung? — Havia um escândalo em sua voz, tentou corrigi-lo em seguida, mas em nada deu, seus olhos continuavam arregalados e sua surpresa chegava a parecer exagerada.
— É, e pelo visto… — tentou continuar falando, quem sabe sua filha estivesse pronta para seguir em frente? Só que a resposta era não.
Sujin, além de desviar seu olhar do da mãe, levantou-se, pegando rapidamente algumas coisas e colocando-as na pia, enquanto falava, por cima da Park mais velha, apressadamente:
— Não precisa dizer mais nada. — Foi muito mais ríspida do que sempre fora com a mãe, o que nem ela gostou, mas se fosse mais carinhosa, conseguiria evitar que falasse sobre Seoyoung?
— Está bem… — respondeu apenas a observando pegar as coisas para ir trabalhar. — Bom trabalho, filha!
— Tchau — despediu-se do melhor jeito possível antes de pisar fora de casa.
Os passos apressados e consequentemente raivosos fizeram suas pernas doerem no meio do caminho, ela resmungou frustrada assim que sentiu uma pontada de dor na panturrilha, parecia que lentamente sua vida definhava novamente.
Isso lá era hora de se lembrar de seus momentos com Seoyoung? Lembrar como ela era uma adolescente feliz vivendo o sonho de romance com quem amava e não uma adulta, agora empregada, frustrada com a vida? Sujin apenas não gritou no meio da rua porque sabia como seria estranho, já que tinha pessoas passando por ali, mas sua vontade era jogar tudo que carregava para fora.
Antes de tentar voltar a caminhar, deixou algumas lágrimas escorrerem até ficar mais calma. O que ela podia fazer se sentia falta de seus dezesseis anos?
Felizmente se permitir chorar funcionou um pouco, em seguida conseguiu caminhar sem estourar músculos ou nervos de suas pernas e não parecia mais estar com cara de quem explodiria a qualquer momento, mesmo que ainda quisesse.
Diferente do outro dia, desta vez, nenhuma senhora de idade se aproximou dela para fazer fofocas, quaisquer que fossem, porém isso não diminuiu a vontade de Sujin de querer enfiar fones nos ouvidos, já que o tempo parecia não passar. Nem o seu momento de lanche passou voando como todas as outras vezes.
Ter a cabeça cheia de pensamentos apenas atrapalhava sua vida.
Ela sentia como se estivesse vendo um filme, em que tantos momentos eram revividos, que conseguia se distrair até para colocar as caixas de leite na prateleira! Algo que fazia bem desde o primeiro momento que entrou naquele mercado para trabalhar. Chegava a ser patético.
Assim que foi liberada a ir para casa, pela primeira vez, ela desejou que fosse embora de ônibus. O que não significava coisas boas, pois seria preciso ter vindo de longe para usar um, e também muitas vezes Sujin já o presenciou cheio demais para conseguir agradecer por morar nesse fim de mundo. Tudo isso porque não aguentava mais ficar de pé e pensar.
Quando finalmente chegou em casa, foi tipo um sonho.
— Mãe, vou tomar banho, depois eu como. — Mesmo que chegasse por volta das quatro da tarde, ainda fazia questão de comer, mas esse dia não pedia um lanche, e sim um banho quente.
— ‘Tá bom! — ela respondeu.
Primeiro Sujin ficou alguns instantes deitada, seu cérebro ainda não tinha parado de importuná-la, pelo menos agora tinha a liberdade de poder abrir o celular e colocar alguma música para relaxar os nervos.
Assim que conseguiu ter forças para se levantar da cama, que não eram muitas, foi o que fez; escolheu alguma roupa para se trocar, pegou o celular para selecionar uma música e correu até o banheiro. Para ela, foi possível ter um banho satisfatório, e, por mais que vez ou outra seu cérebro a transportasse para anos atrás, era só questão de abrir os olhos mais uma vez e se focar na música que tudo retornava ao normal, ou quase.
Ainda antes de descer para comer, descoloriu o cabelo para pintá-lo. E como precisava de mais cuidado que o normal, com calma e a música, passou alguns produtos nele. Quando decidiu ir para a cozinha, ainda passando um óleo no cabelo e tendo desligado o que escutava, conseguiu ouvir vozes e começou a se perguntar com quem sua mãe conversava.
— Hum! Posso chamar se quiser. — Escutou-a dizer e chegou a pensar que ela havia atendido a uma ligação, mas só foi descobrir que era pessoalmente ao aparecer na porta e poder ver uma mulher ali. — E por falar nela…
A voz da outra Park deu uma diminuída assim que a viu, o que Sujin não entendeu de começo. Vendo apenas as costas da recém-chegada e o semblante estranho de sua mãe, não tardou em questionar.
— Eu o quê? — perguntou com uma grande confusão, porém, assim que se manifestou, a mulher sentada fez questão de se levantar em uma ótima rapidez, fazendo Sujin perceber que era Cho Seoyoung. — Ah, não…
Como se fosse em um filme de terror, ela deu passos para trás conforme seu cérebro recebia melhor a informação de que Seoyoung estava em sua frente, em carne e osso, com seus prováveis vinte e um anos e não mais seus lindos dezessete.
Apenas acelerou mais os passos de retorno ao seu quarto assim que a convidada indesejada também se movimentou em sua direção. Tudo isso realmente parecia um cenário de terror, Sujin conseguia se sentir em desespero igual.
— Sujin! — a mulher exclamou enquanto a seguia a passos apressados, e Park não tardou nem um pouco em bater a porta em sua cara.
Ela nem arriscou a responder a Seoyoung. E foi mais por medo. Na verdade, não queria olhar na cara dela. Estava agindo como se Cho fosse a mais nova vilã que a pegaria e a mataria. Por mais que Seoyoung não a fosse matar quando chegasse próximo dela, para Park, ela era, sim, sua vilã.
— Sujin, eu quero conversar — com um tom mais calmo, quase como uma súplica, Seoyoung disse ao outro lado da porta.
Ainda parada no meio do quarto, estática, quando a outra lhe disse algo, foi inevitável Sujin caminhar para trás, chegando até a sua cama, como se o quão longe ela estivesse da porta as palavras de Cho não a afetariam.
— Mas eu não! — Foi o máximo que conseguiu gritar. Gritou mesmo, embora nem precisasse disso tudo de voz para ser ouvida ali fora.
Ao lado de Seoyoung estava a mãe de Sujin, que colocou uma de suas mãos no ombro de Cho, que não lutou contra, apenas aceitou o carinho dela. Se a filha visse algo assim, chamaria a mãe de traidora. Afinal, quando ela queria, conseguia ser bastante infantil, ainda mais se o assunto envolvesse Seoyoung.
— Sujin, eu gostaria de resolver as coisas — mantendo um tom mais baixo, falou quase escorada na porta, que nem sabia se estava trancada ou não, mas definitivamente não arriscaria invadir o espaço pessoal dela. Não assim.
O tempo passou, alguns minutos provavelmente, e Sujin apenas pensou em uma resposta que poderia dar a ela. Algo como dizer que Seoyoung deveria voltar em alguns anos para poder se explicar; anos esses muito distantes. Porém, no fim, não disse nada. Não teve coragem, sabia que ia começar a chorar que nem uma criancinha, e não quis arriscar, não na “frente” dela.
— Vamos — a Park mais velha sussurrou para a convidada enquanto a puxava com seu braço. Conhecia a filha e sabia que ela não sairia de lá tão cedo, então concluiu que Cho não deveria desperdiçar seu tempo ali. — Não esquenta com a Sujin, ela só…
Parou no meio da frase, nem a mãe sabia o que dizer a respeito ou como descrever o que a filha sentia. E qualquer coisa podia soar desrespeitosa com a própria Sujin, então se manter em silêncio parecia uma boa opção.
— … ainda guarda rancor? — Seoyoung completou com o que achou melhor, e realmente, era o que Sujin guardava havia um bom tempo, não se vendo largando disso tão cedo.
— É, eu acho que dá para dizer assim. — Ela riu sem graça, era uma situação tão difícil e estar no meio parecia tão sensível, mas deveria ver sua filha como uma adulta… Porém, era muito mais complicado do que só falar e idealizar. — Não sei o que posso dizer, mas dê um tempo para ela, com calma ela vai conseguir encarar.
— ‘Tá bem — Seoyoung respondeu à mulher com um sorriso no rosto, sabia que não era obrigação de Sujin ouvi-la, contudo, não podia deixar de sentir a necessidade de se explicar.
O diálogo delas ficou por isso, de forma silenciosa as duas se despediram e, mesmo depois de Seoyoung já ter ido embora, a Park mais velha ainda se manteve perto do marco da porta, apenas observando o horizonte enquanto pensava no que deveria fazer.
A resposta parecia tão óbvia, tão em sua cara, mas não sabia se deveria olhar para a filha e falar que continuar remoendo aquilo, mesmo após quase quatro anos, estava longe do saudável. Porém, de uma coisa ela sabia: que deveria apoiar Sujin.
Voltou para o quarto da filha, bateu à porta e, depois de alguns segundos, chamou-a:
— Filha? — Mas não obteve nenhuma resposta. — Sou só eu.
Assim que falou isso, pareceu que Sujin havia saído finalmente do transe em que estava, enfim dizendo alguma coisa e se permitindo se mover.
— Pode entrar — ela respondeu, tendo a confirmação de que a porta em momento algum se encontrava trancada. A verdade era que ela não tinha fé que respeitariam seu espaço, no nervosismo apenas se esqueceu desse detalhe.
E como a Park mais velha tinha dito, estava sozinha. Ela viu sua filha sentada na cama, e Sujin estava como se tivesse visto um fantasma; estática e em choque.
Não demorou para que ficassem lado a lado, sua mãe logo passou o braço pelos seus ombros, puxando a garota para perto dela, que não hesitou nem um pouco em deitar a cabeça em seu ombro.
Os primeiros segundos que passaram juntas foram puro silêncio, os fios de cabelos de Sujin eram acariciados como se ela tivesse dezesseis novamente e estivesse em prantos por ter sido abandonada.
— Como você ‘tá? — sua mãe perguntou depois do tempo em que ficaram caladas, Sujin não soluçava nem nada, permanecia mais quieta do que já esteve em toda a sua vida, chegava a ser um pouco assustador.
— Não sei — respondeu se aconchegando mais ainda nela. — Bem é forte. E mal só não parece certo.
Sua resposta foi curta, porém o esforço que precisou fazer para conseguir verbalizar era inacreditável, parecia como carregar aqueles fardos do mercado, momentos em que chegava a se questionar se aquele trabalho era para ela. Não por ser mulher, mas porque seus braços eram iguais às pernas de um frango. Finos.
— Você deveria encarar ela — a mãe, assim que disse, ao ver a Park mais nova dar um pulo na cama, tirando forças do universo para fazer todo esse esforço, sentiu que deveria ter pensado mais antes de mencionar o assunto.
— O quê? — A filha a encarou e viu que tinha olhos genuínos, podia sentir isso, porém sua indignação conseguia ser mais forte. — E ignorar o que ela fez?
— Talvez — respondeu indo atrás da mão de Sujin, a garota estava agitada, mas não o suficiente para fugir do toque da mãe.
Por mais alguns segundos, elas ficaram em silêncio, boa parte da comunicação delas vinha da não existência de uma, o que poderia ser um grande perigo.
A Park mais velha soltou um suspiro olhando para o rosto cansado da filha, que estava assim por dois ou três dias, desde que soube do retorno de Seoyoung. E se ela se tornasse alguém mais famosa? Alguém que viesse anualmente para a cidade? Qual seria o estado futuro de Sujin?
— Mas não por ela — a mãe completou depois de pensar mais um pouco, genuinamente acreditava que Sujin deveria fazer por si mesma, pois ninguém melhor que ela entenderia a dor de ver a garota. — Ela deve carregar um fardo para vir te ver, é claro, mas encarar ela por você.
E continuou falando, do jeito mais claro que conseguia, mas isso não parecia fazer algum sentido a Sujin, que o máximo que conseguiu a esse ponto foi exclamar de confusão.
— Hã!?
— Filha, você não conseguiu encarar ela, você não superou. — Era complicado dizer isso, principalmente olhando no rosto dela. — Talvez, se você encarar essa situação e abrir seu coração, você consiga seguir em frente e, um dia, olhar na cara dela sem surtar.
O rosto de Sujin amoleceu conforme sua mãe falava, era como se percebesse que não era só ela que sabia desse desespero todo, era óbvio que sua mãe também sabia, afinal, tinha contado tudo quando aconteceu e as duas conviviam havia tempos. Como ela não perceberia?
A Park mais nova apenas engoliu seco e lentamente retornou para os braços da mãe em silêncio, não tinha muito que pudesse falar sobre seus sentimentos, não os que ela não soubesse. Então, chorar um pouco não faria nenhum mal, não é?
— Você sabe que eu te amo, né? — a Park mais velha perguntou, sentindo a filha respirar mais pesado nos seus braços. Eram poucos os momentos que sentimentos eram deixados à mostra; sentimentos de tristeza.
— Sei… — fungou dizendo. — E eu também te amo — completou assim que conseguiu formular uma frase mais longa do que uma palavra que dava para ser compreendida em forma de resmungo.
Era uma situação estranha e inovadora para a garota, estar nos braços de sua mãe chorando por uma mulher, que desta vez ela não tinha feito nada. Não ainda.
Quando Sujin tomou mais estabilidade de seus sentimentos, nenhuma das duas falou muito sobre, ela apenas comentou que ainda sentia fome e não sabia se conversaria com Seoyoung.
[ … ]
A vida de Sujin parecia novamente nos trilhos, não via Seoyoung havia dois dias e continuava trabalhando repondo prateleiras. E pelo visto as senhoras de meia-idade tinham retornado à ideia de usarem-na como caixinha de segredos.
Desta vez estavam falando sobre a traição de um cara, que curiosamente Sujin não conhecia, uma enorme novidade. Ela chutava ser um desses que se juntava com uma pessoa da cidade, que nem durava tanto assim para ser lembrado.
Não tinha tido nada de especial naquele dia, era só mais um entediante que novamente retornou a passar mais rápido. Não que as memórias de Seoyoung nem a estivessem incomodando mais, porém estava conseguindo lidar melhor do que antes.
Os frios na barriga, sentimentos estranhos e às vezes uma leve vontade de lacrimejar surgiam, mas nada que a música horrorosa que o seu chefe escolhia para tocar no mercado não a ajudasse a melhorar.
Quando estava na sala de funcionários pegando suas coisas para ir embora, algumas pessoas, que não trabalhavam ali, conversam e Sujin conseguia ouvir um pouco.
Ao passar ao lado delas, apenas escutou:
— Vocês sabem quem está aí? — Seu corpo gelou, não era quem estava pensando, era? Conhecendo essas senhoras, podia ser qualquer um, quem que elas não odiavam? Era uma boa dúvida.
Enquanto tentava se convencer de que podia ser o filho talvez-drogado da mulher que morava perto do mercado, seus olhos lhe pregaram peças. Eles não podiam estar vendo uma mulher de cabelos loiros… Não.
— Deus. — Sujin era religiosa? Nem um pouco, mas foi inevitável deixar de soltar isso assim que percebeu que não era peça nenhuma.
Suspirou e tomou coragem, era só passar ao lado dela como se não a conhecesse, tanto como ex-moradora como cantora. Era simples. “Não olhe, não faça contato visual, e vá na direção oposta.”
Deveria ser tão fácil quanto planejar, porque parecia que nada queria dar certo naquele momento e naquela última semana!
Assim que passou ao lado de Seoyoung, que estava olhando para dentro do lugar como se fosse uma criança pequena proibida pelos pais de entrar, porque se entrasse pediria o mercado todo, a outra fez questão de dizer seu nome.
— Sujin. — Park parou de caminhar. “Por que parei?”, foi o que se questionou enquanto se culpava imensamente por não ter continuado a andar.
Virou-se um pouco, encarando Seoyoung, para ver se a garota falava com ela, como se tivesse a chance de ser com outra pessoa, e não podia estar mais certa. Ela a encarava com tanta expectativa, que assim que seus olhos se encontraram, Sujin desviou o olhar e se pôs a andar ignorando o restante.
— Você vai para casa a pé? — depois de correr um pouco para chegar até o seu lado, ela perguntou. Sujin não caiu na mesma armadilha de antes, nem respondeu.
Pelo visto Seoyoung ainda tinha alguma expectativa de resposta, já que se manteve em silêncio enquanto caminhava ao lado dela, que a xingava tanto mentalmente que chegava a ser indescritível.
Sujin chegava a apertar a própria mão de raiva de si mesma por não conseguir abrir a boca para espantar Seoyoung e por estar fazendo algo tão baixo.
— ‘Tá, você não vai falar comigo. — Como se precisasse de uma confirmação, ficou em silêncio assim que disse, percebendo que Park não falaria nada mesmo. — Imagino que você possa me ouvir assim, e eu genuinamente gostaria de me explicar pelo passado.
Tudo parecia tão tentador para que ela virasse e gritasse; explicar o quê? Que só foi embora sem dizer nada? Que mesmo sendo seu sonho, custava tanto assim deixar uma mensagem pela sua mãe, por papel, por onde quer que fosse? Custava dizer tchau uma única vez antes de sumir do planeta por mais de dois anos? Ou custava dizer uma palavra depois de tempos?
Só que ela não fez, apenas se manteve quieta escutando o que a outra tinha a dizer.
— Eu sei que não é muito certo eu fazer isso, te obrigar a me ouvir porque estamos andando lado a lado, mas sei que você não me encararia nem morta, não por vontade própria. — Ela achava indignante tamanha consciência que Cho tinha, se sabia o que estava fazendo, por que não dar meia-volta e retornar ao que fazia antes?
Contudo, Seoyoung genuinamente se sentia mal por ter feito algo no passado, alguma coisa que mal estava sob seu controle. Ela não queria o perdão de Sujin, e sim tirar isso de seu coração.
— Eu primeiro queria te pedir desculpas por não ter conseguido falar antes ou depois. Foi tudo tão rápido, repentinamente eu estava recebendo a notícia que eu ia poder ir para Seul, e quando vi, já estava lá. — Seus olhos brilharam por instantes, lembrando-se de como foi a sensação de tomar conhecimento disso, porém deveria se recompor e focar. — Mas eu acho que você sabe como é, uma hora você tem vida, na outra não.
Ela limpou a garganta, preparando-se para falar muito mais, conhecia a estrada, sabia que era um caminho longo e tinha uma história igualmente longa a contar.
— Eu mal tive tempo para falar para parentes, minha mãe ficou encarregada disso. E logo eu ‘tava em Seul, e simplesmente minha vida era terminar o ensino médio em uma escola de lá e viver treinando. — Os momentos da sua época de trainee vieram com tudo, era tão pesado que se pegou mais vezes pensando em voltar para casa com o rabo entre as pernas do que sonhando em como seria depois daquilo tudo.
Ao ouvi-la, Sujin conseguiu compreendê-la minimamente. Não que tivesse alguma noção de como era a vida dessas pessoas, mas conseguia sentir um pingo de verdade na voz de Seoyoung e, enquanto pensava nisso, também se xingava por ter o coração tão mole.
— Eu mal conseguia falar com a minha mãe naquela época, e falar com você ou sua mãe, nem se fale… — Ela suspirou. — Eu pensei em dizer para minha mãe falar com você, tanto para passar recado ou pedir para marcar de um dia eu mesma falar contigo, mas imaginei você só ignorando meu pedido, ou já tendo uma vida tão diferente que nunca quis interferir.
Isso pareceu mais outra isca para que Park gritasse em sua cara. O tempo todo em que passou sonhando e remoendo a ida de Seoyoung, ela imaginava que Sujin já estivesse em outra fase da vida.
Sentia-se tentada a gritar que não a havia superado nem mesmo agora, ainda que estivesse com um pé quase na faculdade. O que seria dela no futuro?
— Eu tinha um pouco de medo de falar com você, porque só Deus sabe o quanto eu sonhei com você… — De repente a voz da Cho se tornou mais melancólica, mais calma, um pouco chorosa até. Suas lembranças de Sujin eram apaixonantes. — Mas, imagine só, você num relacionamento, trabalhando, e do nada eu te ligando chorando as pitangas de saudade? Ridículo…
Sujin revirou os olhos, isso para tentar ser mais calma com tudo que estava sentindo dentro de si, mas provavelmente não precisava dizer mais nada para revelar o que sentia.
Depois do show do outro dia, provavelmente Seoyoung já sabia o quanto de falta que ela fazia em sua vida, ou o quanto a tinha afetado.
— Mas não sei se foi isso que aconteceu. — Ela riu sem graça, lembrando-se de quão estranha e envergonhada se sentiu no outro dia. — Então eu realmente queria pedir desculpas, eu não tinha noção do que estava acontecendo, então só segui o que achei que fosse certo e provavelmente errei nisso.
Lentamente, Park passou a se questionar se ela não se sentia desconfortável enquanto falava sozinha, não exatamente sozinha, é claro, mas em momento algum sequer foi respondida, nem que fosse com um resmungo.
E também sentia um pouco de vontade de chorar. Sua mãe lhe disse para se abrir, mas quem estava fazendo isso era Seoyoung, e vê-la falar essas coisas a fazia ter um pouco de vontade de ser impulsiva e se jogar nos braços dela dizendo “eu te amo”.
No entanto, Sujin não tinha tanto espaço para pensar sobre essas coisas, já que Cho novamente voltava a falar, e isso poderia ser algo bom, pois ela não queria ser impulsiva. Não em um momento desses.
— Eu não quero seu perdão, e pode soar muito ríspido falar isso, mas o que quero dizer é que eu não preciso ser perdoada, eu realmente só queria dizer o que eu sinto. — Limpou a garganta, como se estivesse também a um fio de chorar. — Eu sempre quis isso desde que coloquei meu pé dentro do ônibus para mudar de cidade. Mas ir embora sem dizer nada foi algo muito repentino e imprudente.
Ela falava bastante e tinha muito mais a dizer, o que causou uma grande surpresa. Mas provavelmente era apenas porque haviam passado tempo demais distanciadas. Na adolescência, Seoyoung sempre foi a que mais falava entre elas, já que publicamente ambas eram muito quietas.
Sujin se xingava mais um pouco por pensar em algo assim.
— E eu também queria dizer que ainda gosto de você e seria muito compreensível se não gostar mais de mim. No seu lugar, nem sei se eu conseguiria lidar com isso. — Ela gostaria de rir, mas de desespero mesmo, Cho podia ver Sujin como alguém forte por ser capaz de encará-la sem realmente colapsar.
Fugir para dentro de um cômodo de conforto era a coisa mais ok que poderia se fazer, ou conseguir caminhar normalmente, mesmo em silêncio, ao lado dela.
— Mas eu realmente apenas queria colocar isso para fora do meu coração. — De imediato viu a casa da garota que acompanhava e soube que o assunto delas, ou na verdade só dela, estaria no fim logo, logo. — Eu vim aqui para fazer um show, mas também gostaria de me redimir.
Deu um sorriso, e Sujin nem o veria, mas isso era o de menos para ela. Conseguia sorrir de felicidade do mesmo jeito, a leveza que era capaz de sentir depois de colocar tudo para fora era imensurável.
— Pensei em você também quando decidi vir para cá. — Ela cessou os passos, e agora estavam exatamente na frente da casa de Park, que antes de entrar parou e olhou no rosto de Cho, que continuava sorrindo. — Eu vou fazer o show na pracinha, não sei se você vai querer ir, mas só queria que soubesse.
Enquanto ela falava isso, Sujin andava a passos apressados para dentro de casa, e antes mesmo que conseguisse entrar, sua mãe apareceu na porta pegando-a de surpresa.
— Seoyoung. — Sorriu para Cho enquanto sua filha corria residência adentro.
— Sra. Park! — cumprimentou-a de longe, apenas acenando a mão para ela, era um tanto quanto estranho depois disso tudo ainda a encarar.
— Você disse que vai ter um show? — Baixou o tom enquanto perguntava e, mesmo tendo uma boa distância, continuava dando para ouvi-la. A resposta dela foi apenas uma concordância. — Sua mãe comentou, não se preocupe, a gente marca presença lá!
Seoyoung tinha uma boa questão de quem “a gente” deveria significar, seriam ambas as mães, ou Park Sujin era uma dessas pessoas que estariam em meio à multidão ouvindo suas músicas?
— Está bem! Obrigada. — Meneou a cabeça e sorriu em agradecimento enquanto começava a caminhar novamente, abanando a mão para a mulher mais velha, que fazia o mesmo.
Assim que Cho deu mais alguns passos, a Sra. Park entrou dentro de casa, não se deparando com Sujin por ali, que já estava debaixo do chuveiro com a cabeça a mil.
A garota se questionava como Seoyoung conseguia ter uma ideia dessas para fazê-la ouvi-la. Era baixo? Sim, ela concordava. Mas sentia um misto tão estranho de sentimentos, eles não se baseavam em apenas ódio, iam muito além disso, o que a incomodava. Sujin não queria sentir nada mais.
Isso porque ainda não tinha noção de que sua mãe estava marcando presença em algo que não planejava ir nem se fosse o seu próprio funeral.
Ou ela mudaria um pouco de ideia depois de perder o medo mortal e pesquisar “Ireh” na internet.
[ … ]
Nada prepararia Sujin para o que estava por vir naquele dia, era um domingo, um sol gostoso e um clima agradável, porém calor o suficiente para fazê-la tomar um banho, já que suar não era a sua praia.
No entanto, parecia que sua mãe estava mais que pronta para usar isso contra ela, pois algumas horas depois apareceu na porta de seu quarto.
— Filha — chamou-a, que não deu tanta atenção assim, apenas resmungando para que ela continuasse a falar —, se arruma para sair com a mãe.
A mulher falou com tanta naturalidade, que de início Sujin não desconfiou de nada, apenas olhou para ela com uma má vontade, porém, nada muito além disso. No fim se viu rendida a se trocar.
Por ser uma cidade pequena, nenhuma delas viu relevância em pegar o carro para fazer a saída, caminhar podia ser uma boa opção, ainda mais sendo seis da noite, então estava mais fresco e não tinham do que reclamar.
— Aonde você quer ir hoje? — Sujin perguntou observando a mãe sorridente enquanto andava, não era estranho, porém era incomum.
— Não sei, na verdade. — Ela deu de ombros olhando para a filha. — Apenas queria sair um pouco, faz bem, não faz? Caminhar e pensar.
Deu outro sorriso antes de afastar o olhar, enquanto prosseguia pela rua com o cenho levemente franzido. O cérebro da Park mais nova parecia fazer um bom trabalho em raciocinar e se lembrar dos últimos acontecimentos.
— Mãe — ela falou assim que conseguiu ver uma boa multidão de pessoas, não eram muitas, mas a quantidade era notável —, você não…
A garota nem conseguiu terminar de falar, olhava incrédula para sua mãe que mantinha a pose de senhora do bem, fingindo que não tinha feito nada de mais além de levar a filha para uma boa caminhada, o que não era uma mentira, mas havia uma omissão aí no meio: o destino final do trajeto.
— Eu o quê? — perguntou, parecendo estar um pouco surpresa com o tom acusatório, porém esse teatro não durou nem segundos, já que ela encontrou alguém na multidão e chamou:
— Cho!
— Park! — a mulher gritou de volta, não tinha como Sujin não reconhecer, tanto pela aparência quanto pela mania de as duas se tratarem carinhosamente pelos sobrenomes.
Sua mãe havia se encontrado com a de Seoyoung e pareciam mais felizes do que nunca. Provavelmente não dariam um pingo de atenção ao seu chilique de estar num lugar tão indesejado.
Assim que ela revirou os olhos, prestes a se virar para sair ou arranjar o que fazer longe dali, logo uma voz ecoou. Alguém falava no microfone.
— Eu gostaria de agradecer a todos que vieram. — Mesmo sem olhar, Sujin sabia dizer que era Seoyoung. — Como alguém que nasceu e cresceu no bairro é muito importante para mim fazer um show aqui, ainda que ele não seja tão grande, e eu agradeço mesmo.
Sua voz chegava a ser a de alguém totalmente emocionado, o que fez Sujin se virar para encará-la. Cho, preparadíssima para cantar, logo iniciou assim que a parte instrumental de uma de suas músicas começou a tocar.
Park estava feliz que Seoyoung não tinha notado sua presença, pelo menos não haviam feito contato visual até agora, então isso significava que ela não sabia que estava ali, não é?
E mesmo que tentasse fugir, parecia impossível. Principalmente por sua mãe ter dado um puxão em seu braço.
— Você não vai sair na hora que o show vai começar, né? — ela comentou sorridente enquanto a colocava ao seu lado e perto da Sra. Cho. — É de graça, aproveita.
Ainda tinha isso, sendo uma artista menor, Ireh não ia comercializar o show, e não por boa índole de quem aprovou, mas porque era inviável.
Sujin revirou os olhos enquanto a mão de sua mãe nem sequer se desvencilhava de seu braço. Pelo visto, assim não havia como fugir dali, o que lhe restava era aproveitar a música que Seoyoung cantava.
Era inegável que a jovem tinha uma voz linda, não que Park não soubesse, pois conhecia o sonho dela de ser uma cantora, porém fazia tanto tempo que não a escutava cantar, que tinha até se esquecido de como era incrível ouvir.
Conforme as músicas tocavam, curiosamente ela sabia até a batida e o ritmo de algumas. Para a felicidade de Sujin, as duas mulheres mais velhas estavam focadas demais no show para a perceberem balançando a cabeça no ritmo.
O tempo voou e, diferente dos outros dias, agora era a primeira vez que Seoyoung fazia com que ele passasse mais rápido ao invés de torná-lo duas vezes mais lento.
Quando a música parou, foi quase como um baque para Park, que ficou tão imersa nos sons que tinha se esquecido de onde estava. Com o silêncio, quase se voltou à sua mãe pedindo para irem embora, porém a voz de Cho impediu isso.
— Eu gostaria de fechar esse show cantando uma música especial. — Ela sorriu enquanto seus olhos se encontravam com os de Sujin, que congelou no lugar. — Eu a compus com a ajuda de alguns profissionais e gostaria de cantá-la especificamente aqui.
Depois de dar mais um sorriso, com que Sujin não se importou muito nem soube se era para ela ou de satisfação por ter feito um bom trabalho e poder apresentá-lo ao público, roubou a atenção de Park a partir da falta de luz no palco e pelo toque que começou de fundo.
Assim que a voz de Cho soou, uma única luz se centrou nela, que olhava quase que reto, mas definitivamente em direção a Sujin.
Linda, linda, linda
Linda, linda, você
Eu te amo
Maravilhosa, maravilhosa, maravilhosa
Maravilhosa, maravilhosa, você
Me deixe saber
Meu coração foi feito para você
Neste mundo talvez
Só exista uma pessoa
Só você não conhece
Arrepios, era isso que descrevia a sensação que Sujin experimentava, e ela se sentia tímida por estar sob a supervisão dos olhos de Seoyoung. Mas ninguém sabia que a cantora a estava olhando, porém, isso não deixava as coisas melhores para ela.
Seu coração chegava até a bater mais forte.
Você sempre
persegue meu olhar
Com olhos cheios de
incerteza
O próximo verso fez Park se questionar se ela havia composto nesta semana que tinham se encontrado. Porém, era impossível, não era?
Era apenas uma linda coincidência, não era porque a olhava com desespero e não sabia o quão real podiam ser as intenções de Cho, que isso significava a música ser para ela.
Sujin balançou a cabeça tentando se focar na melodia, não na letra.
Baby,
você é meu único amor.
Meu amor não é dois.
Nada além de um.
Então
não precisa se preocupar, amor
Apenas confie em meu amor como você é
Por favor, olhe para mim
Parecia que Seoyoung lhe falava, novamente Park se arrepiava ao ouvir os versos cantados pela outra, principalmente tendo os olhos dela totalmente em sua pessoa. Era uma sensação estranha e indescritível, porém parecia incrível.
Ela chegava a engolir seco sem conseguir desviar o olhar de Cho, até porque, para onde mais poderia olhar? Ireh era o centro das atenções. E como chamava atenção…
Por que você me dá esse olhar?
A pessoa na minha frente
Em todo o mundo
É a existência mais linda
Até você sabe no fundo do seu coração
Eu não posso estar mentindo
Minha sinceridade é compreendida
Lentamente, algumas lágrimas se formaram nos olhos de Sujin. Ela passou a experimentar um misto de sentimentos, desde raiva à empolgação, e começou a sentir vontade de subir naquele palco para dar um soco e um beijo naquela mulher.
A cada segundo, apenas percebia a visão embaçar, chegando até a esfregar a mão no rosto, recusando-se a aceitar que estaria chorando para uma composição.
Às vezes você
persegue meu olhar
Com olhos cheios de
incerteza
Baby,
você é meu único amor.
Meu amor não é dois.
Nada além de um.
Então
não precisa se preocupar, amor
Apenas confie em meu amor como você é
Por favor, olhe para mim
E então ela cantou mais uma vez as mesmas frases, porém isso não as deixou menos impactantes para Sujin, apenas a fez se desestabilizar mais ainda, principalmente considerando que em momento algum Cho esquivou o olhar.
Cantava com os olhos focados nela, a todo momento, não desviando nem quando piscava. Isso deixava Park hipnotizada, o que a fazia se culpar.
Depois do que houve ela ia amolecer por uma música?
Não tenho pensamentos para
compartilhar isso com mais ninguém
Estou pronto
Só para você
Não se preocupe,
isso é seu.
Você é a única pessoa.
Vou continuar segurando suas duas mãos,
não importa o que aconteça.
Não deixe ir.
Soavam irônicas frases dessas após tudo que tinha acontecido, porém, isso significava que ela gostaria de recomeçar?
Era o que Sujin se questionava quando deixou uma das várias lágrimas descerem sobre seu rosto ao ainda olhar para Seoyoung, que também tinha os olhos cheios d’água enquanto cantava.
A música parecia realmente pessoal, mas Sujin ainda duvidava um pouco. Era mesmo sobre ela? Cho falava sério?
Baby,
você é meu único amor.
Meu amor não é dois.
Nada além de um.
Então
não precisa se preocupar, amor
Apenas confie em meu amor como você é
Por favor, olhe para mim
Sujin se permitiu chorar tanto, que provavelmente foi bem notório para os outros, já que até conseguir sentir a mão de sua mãe em volta de seus ombros, enquanto nem se importava mais com a quantidade de lágrimas que derramava, foi capaz.
Eu tenho apenas um amor
Não dois
Para você
Eu tenho apenas um amor
Um é tudo
Eu tenho apenas um amor
Não dois
Para você
Apenas confie em meu amor como você é
Por favor, olhe para mim
Assim que a parte mais calma da música acabou, um grande silêncio se instaurou. Não fazia parte da composição esse momento extenso de calmaria, ainda mais que o instrumental já tinha até acabado, era apenas Seoyoung enxugando algumas de suas lágrimas e recompondo a voz antes de se despedir.
— Com essa música que eu gostaria de fechar o meu show — falou sorrindo e suspirando de alívio por ter conseguido terminar de cantá-la. — Eu novamente agradeço imensamente a vocês por me ouvirem e espero ver todos em breve. Como uma antiga moradora e cantora.
Assim que disse mais algumas palavras, logo desceu do palco. Isso fez com que Sujin finalmente saísse do seu transe, parecia que apenas depois de tirar os olhos de Cho que havia voltado à realidade.
— Podemos ir? — sua mãe questionou; e para ter feito isso, foi devido à situação parecer tão debilitante, que era como se a Park mais nova as estivesse segurando ali, algo até cômico.
— É — concordou meio atordoada, mal tendo cabeça e tempo para se despedir da mãe de Seoyoung, porém, não que tivesse muito com o que se preocupar, já que sua mãe o faria em seu lugar.
As duas, da mesma forma que foram até lá, caminharam em silêncio para longe da enorme multidão. Mas mesmo andando para irem embora, o universo queria mantê-las bastante presas ali.
Repentinamente um homem as abordou e, enquanto encarava quase a alma da garota, questionou:
— Hum, Sujin?
— É, por quê? — Encarando-o de volta, percebeu que ele provavelmente não era um dos moradores dali.
— A Ireh gostaria de saber se você iria querer falar com ela — assim que ele mencionou o nome artístico de Cho, tudo pareceu fazer sentido, porém Park não conseguiu achar nenhuma resposta.
Ela olhou de relance para sua mãe e depois para o homem bem-vestido. E tudo o que saiu de sua boca foi:
— Por quê? — Tinha tantas formas mais sutis de questionar algo assim, mas parecia que depois do ápice que foi chorar em público, ela já não ligava para mais nada.
— A gente não pretende ficar muito — foi o máximo que ele disse, não parecia querer dar tanta explicação também.
Tendo isso como resposta, Sujin, não sabendo muito bem se deveria ir ou não, olhou para a mãe, que lhe dizia com o olhar que era melhor o acompanhar. Observá-lo teria sido o jeito mais fácil de descobrir o que fazer, já que o homem parecia querer arrebentá-la por demorar mais de dois minutos para responder, porém não foi o que a garota fez.
— Tudo bem. Eu vou, sim, falar com ela — tratando a situação como se fosse uma necessidade de Seoyoung e não dela, concordou e aguardou o homem caminhar.
Antes de ir, deu uma última olhada para sua mãe, que parecia dizer que a esperaria. Indo atrás dele, logo chegou a um quase camarim; na verdade, uma salinha humilde com algumas coisas.
E uma delas, pelo visto, era a própria Cho, que estava sentada. Assim que pôs os olhos em Park, ela saltou da cadeira quase no mesmo instante.
— Seoyoung. — Foi um dos únicos momentos em que olhou no rosto dela e não surtou, tanto por fora quanto por dentro.
— Sujin — ela respondeu com um sorriso.
Formou-se um silêncio entre as duas, e pela primeira vez ele não parecia estranho e ameaçador, principalmente para Park, por mais incomum que fosse essa situação toda.
A garota tinha tantas coisas para falar e expressar que não sabia por onde começar e terminar, sentia-se perdida olhando no rosto de Seoyoung, o que nunca tinha acontecido. Não antes de ela partir.
— Eu também queria dizer algumas coisas — engoliu seco assim que falou isso. Tentava seguir o que sua mãe disse, mas não fazia ideia de como iniciar.
— Por mim, tudo bem. — Um pequeno sorriso nascia no rosto de Cho, era como se ela comemorasse por Sujin querer falar, algo que não estava previsto.
Antes de começar a dizer sobre o quão miserável ficou quando a outra havia partido e não dado mais notícias, precisou respirar fundo, muito fundo, porque fazia tempos que não revisitava essa história.
— É estranho dizer isso depois de você se explicar, mas na época fiquei tão perdida. — Um semblante de tristeza caiu em seu rosto. — Você era meu mundo, meu tudo e, de repente, você sumiu e sua mãe apenas conseguia dizer que tinha ido atrás dos seus sonhos.
Ela fez questão de desviar o olhar de Seoyoung, estava revivendo seus sentimentos de ódio, tristeza e desamparo de alguns anos. Sentir quase a mesma sensação daquela época era desesperador, porém agradecia muito por aquele período já ter passado.
— Da mesma forma que eu estava te odiando por ter saído sem dar um mínimo tchau, eu também estava me odiando. Era seu sonho, e eu fiquei bravinha por você ter ido atrás dele, mas… também eram meus sentimentos. Eu não deveria desmerecê-los. — Park deu uma risada incrédula, era estranho pensar que sua cabeça ficou nisso por tempos.
A forma que ela ia para a escola, parecendo quase viver no automático, passando mais um dia com questões tão estranhas martelando em sua cabeça, veio aos seus pensamentos. Sujin não tinha noção nenhuma de como havia conseguido lidar com isso.
— Acho que não tem resposta certa para o que eu deveria sentir — Park resmungou, até hoje ela não sabia muito bem o que era o correto de se sentir, na época apenas percebeu que talvez devesse validar mais seus sentimentos devido às circunstâncias, que eram a falta de retorno de Seoyoung.
Enquanto os olhos de Sujin rodeavam o lugar ao falar de seus sentimentos, Cho estava ali parada apenas observando, não sabia como se sentir ou reagir, ficou um pouco perdida e deslocada. E se questionava se era mais ou menos dessa forma para Park quando confessou o que sentia.
— Eu só acabei me segurando no meu ódio a você em relação aos meus sentimentos. — Ela suspirou antes de olhar nos olhos de Seoyoung. — Porque eu te amava e ainda te amo. E quem diria, se passaram quatro anos, e eu ainda ‘tô nessa.
Park riu quase que com escárnio, estava desacreditada que ainda amava. Sim, amava aquela mulher. Enquanto divagava em pensamentos sobre sua incredulidade em relação aos seus sentimentos, Cho lentamente se aproximou dela.
— Como eu disse, eu também te amava. E ainda te amo — assim que ela falou, Sujin não teve nem coragem de desviar o olhar, a mão de Seoyoung foi ao encontro da sua e não houve nenhuma hesitação quanto a isso. Cho parecia determinada em demonstrar a ela que não tinha problema algum em ainda se sentir daquela forma, e que estavam juntas nessa. — E é por isso que eu ‘tô aqui.
O cenho de Sujin quis se franzir, porém sua cara mal se mexeu ao que lhe foi dito, provavelmente seus olhos transmitiam tanta confusão que a outra quis continuar a falar.
— Eu escrevi aquela música pensando só em você — declarou sorrindo. — Era uma das minhas formas de me desculpar, caso não me ouvisse.
Desta vez, a cara de Sujin cedeu à confusão, e suas sobrancelhas franziram ao escutar isso. Se ela não ouviria nem um pedido de desculpas pessoalmente, como ouviria uma música?
— E como eu ouviria?
— Eu me tornaria famosa a ponto de te obrigar a me ouvir. — Isso fez Sujin rir, ela não podia achar mais cômico uma frase dessas. Às vezes parecia que Cho esquecia que aquele era o mundo real e não a fantasia particular dela.
— Você só pode estar brincando — comentou desviando o olhar do dela, apenas não largou a mão alheia porque a sua era segurada de uma forma tão firme, que nem se a puxasse conseguiria se soltar.
— Não estou — falou mais decidida que o comum, e isso atraiu a atenção de Park. — Antes de tudo, quem me colocou nesse palco foi você.
— Eu? — perguntou confusa, voltando a encarar os olhos brilhantes de Cho.
— Sim. Quem me apoiou nisso antes de todos? — ela indagou, e mesmo que Sujin não respondesse, elas sabiam a resposta óbvia e inegável. — Você. Então eu faria de tudo para que você ao menos soubesse do meu arrependimento e amor.
O último não era tão necessário, porque antes de se separarem, o que mais fizeram juntas foram juras de amor. Que foram mais que quebradas nos anos seguintes, mas que sabiam que se amavam, sabiam.
Sujin não tinha o que responder a tudo isso, o silêncio novamente tomava conta do lugar e começava a ficar realmente confortável como nunca antes.
Talvez fosse a sensação de estarem finalmente com os corações leves e limpos pela primeira vez em anos. Sem remorsos ou ações de que se arrependiam. Porém, também pela primeira vez, encararam-se por mais de dois minutos, e estava ficando mais que óbvio o que deveriam fazer.
Cho, a esse ponto, não teria tanta coragem assim, achava que não deveria arriscar o que já não era seguro. Mas a Park? Ela já não ligava para mais nada.
Em segundos voou com a outra mão livre no pescoço de Seoyoung e a beijou com tudo.
Tudo que estava segurando e guardando soltou ali mesmo, até um pouco de raiva, já que acabou mordendo com mais força do que deveria o lábio de Cho.
Seoyoung, ao ser beijada, não se acanhou nem um pouco, muito menos tardou em retribuir. Para começo de conversa, não era que não quisesse, só tinha medo do resultado.
Após alguns segundos, elas se afastaram. Seoyoung soltou uma risada, calma e leve, já Sujin se manteve em silêncio esse tempo todo. No seu interior, apesar de se questionar sobre o que estava fazendo, uma parte dela comemorava, já que enfim isso aconteceu depois de tanta espera.
— Vamos trocar números — foi o que Cho disse assim que tomou coragem, o que atraiu o olhar curioso de Sujin.
— Como? — questionou com as sobrancelhas arqueadas.
— Eu tenho um celular pessoal agora — falou enquanto corria atrás dela, mostrando-o para Park, que inevitavelmente abriu um sorriso. — Eu não vou ficar aqui por muito tempo, mas podemos conversar online.
Com rapidez, Sujin foi atrás do próprio celular, não tardando em entregá-lo para que Cho colocasse seu número nele. Assim que estavam com os números trocados, Park, prestes a passar pela porta, o que significava para as duas que demorariam muito tempo até se verem novamente, perguntou antes de desviar o olhar dela:
— O que somos? — Seu rosto não transmitia nada, era um pouco complicado para que Seoyoung pudesse lê-lo. Mas, independentemente do que Sujin sentia, concluiu que deveria dar uma resposta verdadeira.
— Devemos ficar entre conhecidas e talvez namoradas algum dia — respondeu. Era o que lhe agradava? Nunca, porém tinha noção do que aconteceria no futuro, e definitivamente Sujin também, já que ela pareceu não se opor a isso.
— Não vejo problema nenhum. — Park deu um sorriso. — A gente vai reconstruir o que perdeu.
Ela sabia que para Seoyoung um relacionamento homoafetivo secreto definitivamente não era uma das melhores coisas para se começar em início de carreira. Então resolveriam essa parte mais tarde.
— Vamos — concordou. — E vamos poder viver felizes.
— Vamos. — Park sorriu largamente olhando para a rua, estava escuro e o céu estrelado, o cenário se parecia com o de uma das primeiras noites em que passaram juntas. Antes de caminhar para achar sua mãe, olhou para Cho e se despediu: — Até mais.
— Até. — Ela abanou a mão observando Sujin fechar a porta enquanto ia para fora.
Nenhuma das duas acreditava que em uma semana conseguiriam dar uma arrumada em um problema que cresceu por anos dentro delas. Parecia tão irreal, porém, tudo o que elas precisavam era de um bom diálogo nu e cru a sós.
