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Tudo começou quando Jiwon estava junto de Hyunseo.
A tarde era calma, o dia estava fresco, sentar nos bancos externos da faculdade finalmente faziam sentido algum sentido, era completamente agradável ficar ali e muito mais que aproveitável do que ficar entre quatro paredes.
Bem, elas deveriam aproveitar para adiantar um trabalho de faculdade, porém Jiwon estava mais que entretida em mexer no celular e organizar algumas coisas pendentes nele — que estavam mais que longe de ser algo relacionado a faculdade.
Limpando a garganta, a Lee se manifestou.
— Jiwon. — Chamou. — Você quer me ajudar? — Sua pergunta tinha um tom bastante infeliz, estava longe de estar contente com a falta de atenção de Jiwon no trabalho, em, pasme, dupla.
Com um bico gigantesco nos lábios, ela se virou para ver o que é que Hyunseo estava a dizer.
— Hm? — Resmungou incontente por ter sua atenção chamada.
Repentinamente, Lee se apoiou nos cotovelos para ver o que tanto sua amiga bisbilhotava no celular e não prestava nem um pouco de atenção em si.
Não era muito eficiente, a claridade daquele dia escurecia quase toda a tela do celular, que já era escura, o que só piorava a tentativa.
Mesmo com esses problemas, Hyunseo conseguiu enxergar, bem mais ou menos, o que ela via; uma foto de Jiwon com uma de suas amigas. Mas não sabia dizer por onde é que estava vendo.
— Tá olhando o que? — Perguntou se escorando mais ainda nos ombros de Jiwon, que se encolhia gradualmente.
— Umas fotos… — Resmungou de volta observando o próprio celular, como se julgasse o que ela mesma olhava há segundos.
Antes de Hyunseo abrir a boca para julgar a amiga, primeiro ela voltou a tentar identificar quem eram as pessoas na foto, era uma dificuldade, ainda mais porque não podia arrancar o celular da mão Jiwon, sem que ela surtasse, pelo menos o esforço tinha valido a pena.
— Rei? — Perguntou abrindo um mínimo sorriso no rosto enquanto encarava a Kim.
Completamente sem graça, ela intercalou o olhar entre seu celular e os olhos curiosos da Lee.
— Ah… É… — Ela concordou com um volume baixo, ainda com os olhos perdidos, sem saber para onde olhar.
A forma que Kim tinha ficado completamente sem graça com a única menção ao nome da outra amiga, era apenas munição para que Hyunseo pudesse tirar mais ainda com a cara dela.
— Sua namorada? — Perguntou dando com o ombro na lateral do corpo dela, a junção da fala e da batida fez com que o desespero fosse maior do que deveria.
— O quê? — Os olhos dela esbugalharam de uma forma completamente exagerada, isso só fazia com que ela risse mais ainda. — Não, não…
Uma das sobrancelhas de Hyunseo se ergueram, mesmo que fosse negado até a morte, nunca que ela iria acreditar nas palavras de sua colega.
Como ela poderia negar tal coisa sendo que, desde que as duas tinham se conhecido no cursinho, Jiwon ficava mais boba e molenga que Maria Mole, apenas ao ouvir o nome de Rei, isso sem contar na hora de comentar o que elas tinham feito ou quando ela decidia mostrar uma foto.
Ela tinha reações que estavam longe de serem consideradas apenas de amigas. Ou pelo menos, que ela sentisse que eram apenas amigas.
— Tem certeza? — Perguntou se apoiando mais ainda nos cotovelos, tentando se aproximar cada vez mais da de Kim. — Não quer que ela seja algo a mais?
Suas sobrancelhas erguiam e abaixavam com agilidade. Tudo isso deixava Jiwon apenas mais e mais em alerta.
— Não, não… — Mesmo que em palavras ela negasse, seus olhos distantes diziam outras coisas.
Era curioso, não para Lee, ela mal tinha percebido qualquer ação corporal da colega que a denunciasse, ela estava ocupada demais se divertindo com as reações dela para notar que ela encarava a tela do celular, em silêncio, completamente pensativa.
— Por que não, hein…? — Antes de se cansar e voltar ao serviço, ainda deu mais uma cutucada em Jiwon, que ainda se mantinha completamente sem graça a qualquer pergunta que fosse mais a fundo sobre seus sentimentos.
Por mais que Kim precisasse apenas dizer qualquer coisa convincente sobre ver a garota apenas como mais uma de suas amigas, parecia tão difícil fazer isso efetivamente.
Será que tinha algo a ver com o fato de ela não conseguir ter essa visão por Naoi, e pior que isso, não conseguir aceitar, nem em seus próprios pensamentos, mais profundos, que somente ela, ou até mesmo não, conhecia.
— Ah, sei lá, acho que não combina, né? — Finalmente encarando os olhos profundos e provocadores de Hyunseo, respondeu. — Você namoraria uma de suas amigas mais próximas?
Jogou a pergunta para a outra, era o melhor que se fazia quando você não conseguia achar respostas que lhe agradassem; fazia de conta que não era consigo a questão.
— Não. — A Lee respondeu nem um pouco pensativa, a pergunta não a tinha abalado nem um pouco, na verdade, dava até mais munição que tirasse com a cara de Jiwon, porém se segurou ao máximo.
Há segundos a garota já tinha ficado quase da cor de um pimentão super maduro e perfeito para ser colhido, isso com apenas insinuações, dizer qualquer coisa a mais que isso era para pedir a morte dela.
Com um suspiro, Lee desistiu de provocar a colega, dando uma última vez de ombros nela, mas desta vez para lembrar de seus afazeres de faculdade.
— Tava te pedindo ajuda antes com isso. — Apontou para a tela do computador mostrando um tópico, que só tinha ele e mais nada.
Hyunseo não ouviu, mas o suspiro de alívio que ela tinha soltado era cômico, estava preparada para mais uma provocação e não para a mudança repentina.
Independente, ela agradecia bastante, de confusão já bastava em sua mente, não precisava disso enquanto conversava com mais alguém.
[ … ]
O fim da tarde, com aquele sol radiante que era quase cegante, porém nem uma das duas pareciam se importar com tal fato, o vento fresquinho se fazia presente e isso era o importante.
— Você quer? — Jiwon ofereceu a torrada com geleia, geleia essa que era a mãe de Rei quem fazia, algo magnífico, não tinha nem como negar.
Dito e feito, ela concordou com a cabeça logo abrindo a boca, sem nem ao menos pensar, Kim foi com a torrada direto na boca da outra, aguardando ela morder.
Com a leve demora, nem era algo de fato demorado, porém tempo suficiente para que a memória do diálogo com Hyunseo se fizessem presentes em sua mente e o pequeno desespero a consumissem.
De uma forma ligeira ela largou a torrada no pratinho mais próximo que elas tinham levado; Rei mal se tocou da forma estranha que ela tinha agido, estava ocupada demais cortando um dos bolos mais próximos.
Era quase como uma tradição, pelo menos, um sábado do mês, as duas se juntavam para fazer um piquenique apenas entre as duas.
Há tanto tempo elas faziam isso, tinham essa tradição há mais que elas conseguiam sequer lembrar-se de quando é que tinham decidido iniciar isso. Mas não deveria importar mesmo, o importante era o sentimento que ambas tinham no momento vivido.
As mãos de Naoi passeavam pelo pano colocado por cima da grama, ela buscava o suco que havia trago para tirar um pouco do gosto da torrada. Jiwon comeu mais um pouco antes de se deitar no tecido levado.
Sua cabeça tombava para o lado, lado esse que Rei estava sentada. Os olhos de Kim passeavam pelo tecido do vestido curto que sua amiga usava, era um bastante próximo ao seu, sequer haviam combinado de usarem roupas parecidas, porém pelo visto tinham acertado.
— Estamos combinando. — Com um riso seguido de sua fala, a Kim falou atraindo a atençao da Rei, que estava com as bochechas gordinhas.
Os olhos dela percorreram pelotas duas, fazendo ela se dar conta disso também.
— Nossa, verdade! — As duas estavam tão acostumadas uma com a outra que mal percebiam coisas básicas desse jeito. — E a gente nem combinou.
Sua boca ainda estava cheia, ela falava enquanto alternava com mastigar. Com os próprios braços, Jiwon escorava sua cabeça tentando manter de um jeito que conseguisse olhar para a amiga e falar, e quem sabe, comer ainda um pouco.
Mesmo com o pulso doendo pelo próprio peso por cima do braço, nada importava, a mente de Kim estava longe, mas não tanto.
Suas memórias de conversa com a Lee, a colega de faculdade, vinham com tudo na cabeça. Olhava Rei enquanto sua mente se lembrava da pergunta; “Sua namorada?” e em seguida “Não quer que ela seja?”, isso a matava enquanto pensava, tudo pois não sabia qual era a resposta certa, ou a que queria ouvir, na verdade.
De vez em quando sua visão retornava e a imagem de Rei se empanturrando de comida lhe invadia, enquanto Jiwon apenas pegava um vento, já que o sol de fim de tarde era bloqueado pela árvore mais próxima, e poder presenciar isso apenas a deixava mais besta de amores e com um certo sentimento, ou sensação, em seu peito.
Ela não sabia descrever, olhar para ela dava um quentinho em seu peito, fazia um sorriso bobo nascer, principalmente quando elas decidiam se cuidar, fazer coisa uma pela outra, isso deixava a Kim inexplicavelmente radiante.
— Quer mais algo? — A voz calminha de Rei acordou Jiwon de seus pensamentos.
— Hm… — Resmungou pensativa passando os olhos por tudo que tinham. — Pega a uva pra mim?
Com calma ela foi atrás do cacho de uvas pedido por ela, por costume Naoi levou uma das uvas na boca de Jiwon, que aceitou sem ao menos pensar. Seu cérebro somente se alertou quando os dedos de Rei e seus lábios se tocaram, inevitavelmente já tinha aceito a uva, porém o salto que deu foi inegável, até mesmo Rei havia se assustado com isso.
— Que foi? — Sua pergunta foi no mesmo sobressalto que o pulo de Jiwon.
A resposta dela demorou muito mais que o esperado, não era comum que fosse tão demorado, principalmente para Jiwon que estava de vez em sempre falando pelos cotovelos, ao menos, com Rei.
— Rei, posso te perguntar algo? — Mesmo com a hesitação correndo em suas veias, ela ainda sim seguiu em frente.
Por mais que tenha recebido uma concordância em resposta, não sabia muito bem como perguntar o que queria. Provavelmente ela tinha medo da resposta que conseguisse cedendo as grandes e falantes vozes de sua cabeça, que há uns bons dias não se calavam ou mudavam de assunto.
Certamente a culpada por tudo isso era a Lee, que tinha decidido não se calar quando deveria ter feito há tanto tempo.
— Pode falar Jiwon… Tá tudo bem? — Adotando um tom mais calmo, Naoi se aproximou da garota deitada.
Ela, lentamente, deixava de apoiar a cabeça em seu braço e observava o céu azul com poucas nuvens na busca de tentar clarear os próprios pensamentos sobre a dúvida que tinha.
A aproximação calma de Naoi, ao invés de assustá-la, deixava a Kim mais calma do que deveria deixar em um momento desses. Mas era apenas o efeito comum dela.
Não Rei era profissional em acalmá-la com tão pouco.
— Rei, como você vê a gente? — Sua voz falhava por conta da forma baixa que ela tentava perguntar, causando uma quebra nela. Porém, mesmo com isso, Naoi nem se importou como a voz dela soava, estava focada demais em pensar no que foi-lhe questionado.
— A gente? — Repetiu se aproximando mais ainda dela.
Toda e qualquer comida que estava entre elas foi empurrada para o lado, para que não atrapalhasse qualquer movimento, a mais, que Rei quisesse fazer.
— É… — Sua voz desaparecia mais e mais.
Os olhares das duas se encontraram, foi mais que mágico, elas poderiam dizer; um arrepio percorria Jiwon, um arrepio presenciado tantas vezes, mas nunca deixando de ser emocionante todas as vezes. E uma sensação de quentura, um conforto gostoso preenchia o peito de Naoi.
Os dois sentimentos eram parecidos, porém ainda sim opostos, era como se elas se conectassem de suas formas únicas.
Com os dedos indo ao encontro do cabelo escorrido de Kim, ela tentou responder a pergunta dela, por mais que Naoi nunca em sua vida tivesse se perguntado sobre isso. Não era esse o relacionamento comum entre duas amigas?
— Somos amigas, não? — Deslizando calmamente a mão pelo cabelo macio enquanto o jogava para trás da orelha dela, perguntou de volta.
— Somente isso? — Com o resquício de voz perguntou. — Tudo que fizemos, fazemos por sermos amigas?
A calmaria na pergunta, somente na voz, pois seu peito batia mais que tudo que existia, aguardando ansiosamente por uma resposta.
— Tudo…? — Perguntou se deitando da forma que podia para conseguir se aproximar do rosto dela, por nem um segundo elas tinham desviado aquele olhar trocado.
Antes de conseguir responder a pergunta, engoliu seco, olhar por tanto tempo para os olhos de Rei era uma perdição completa, seu foco se ia, seus pensamentos fugiam de si como se ela fosse o diabo.
Então, depois de respirar um pouco e recobrar a consciência, finalmente, conseguiu pensar logicamente o que era quase que impossível antes.
— A gente se cuida tão bem, somos tão próximas, eu sinto como se meu mundo valesse a pena com você, sinto meu coração bater como nunca antes, minha mão então… Formiga loucamente, quando eu toco em você.
Assim que a explicação de Jiwon foi proferida, sua mão andou até o rosto de Rei, que não se afastou. Alcançando seu rosto, conseguiu sentir, mais uma vez, sua mão formigar ao sentir a pele.
Os olhos estavam fixos um no outro, por instantes, as duas se esqueciam que deveriam se comunicar através de falas, ou talvez não, pois com aquele pequeno toque pareciam que elas conseguiam transmitir tudo que queriam.
— O que você acha que somos? — Rei rebateu a pergunta, isso por estar sem uma boa resposta para dar.
Como a própria Jiwon, Naoi sequer tinha refletido sobre isso, ela gostava da presença da amiga e isso era tudo. Precisava de mais algo?
Perdida no que falar, com calma e com a voz rouca, a Kim começou a falar sozinha.
— O que eu quero que sejamos? — Quando se calou, lentamente sua mão se afastou do rosto de Rei, permanecendo apenas seu olhar fixo nos olhos redondos dela.
Mesmo que Jiwon tenha se afastado, Naoi não se afastou, na verdade ela se aproximava a cada instante que se passava, a partir do momento que a dúvida foi criada, a ânsia pela resposta foi despertada no peito.
— Posso ser sincera? — O hálito de Rei chegava a bater no rosto de Jiwon, mas ela estava longe de se importar, sentia até a necessidade de experimentar um pouco mais.
— Claro. — Concordou com um sorriso meigo.
Antes de ela conseguir ser sincera de todo o coração dela, ainda se perdeu mais um pouco nas características fascinantes de Kim, seus dedos deslizaram mais um pouco pelos fios escuros.
— Quero ser especial para você. — Passando sua mão para o rosto rechonchudo de Kim, continuou. — Quero ter um título especial, quero ser mais que mais uma no meio das outras.
— Especial? — Perguntou levantando um pouco a cabeça. — Mas você já é.
Um suspiro saiu da boca de Naoi, o vento pegou no rosto de Jiwon, vento esse que batia no cabelo de Rei. Ela fechou os olhos sentindo a brisa que vinha em direção a suas bochechas.
Ela entendia, mais ou menos, o que é que Rei queria dizer, queria ser especial para ela também, queria ser única em sua vida.
— Dessa forma? — Quando Kim abriu os olhos, foi quando Rei se permitiu se mover.
Com toda a sua graciosidade, ela se aproximou lentamente de Jiwon, dando todo o espaço do mundo para que ela recuasse, porém acontecia o contrário; quando os lábios de Naoi estavam mais próximos de encostarem nos dela, ela se impulsionou para que o contato acontecesse mais rapidamente, não aguentando toda essa espera.
Inicialmente, as duas não se moviam, em nenhuma parte do corpo, era como um choque, por estarem fazendo aquilo.
Com calma, a Kim, que estava animada mais do que deveria, se levantou e derrubou Rei para o lado do gramado, ela tentava fazer tudo isso sem que se desgrudassem, pois era mágico.
Depois de tamanha emoção, finalmente se desgrudaram, porém não se afastaram tanto, ainda conseguiam sentir a respiração uma da outra em seus rostos.
— Você faz isso com as outras? — Rei perguntou arfando, ela sabia a resposta, mas desejava ouvir isso da boca dela.
— Nunca… — Sussurrava enquanto buscava um pouco de ar. — Eu quero fazer isso só contigo.
Com o silêncio, Jiwon se jogou com tudo para deitar no gramado junto de Naoi, certamente ambos os cabelos iriam ficar com um pouco de folha e grama, mas não importava.
Isso saia com um pouco de esforço e água, o que era importante, naquele momento, era o coração das duas que estava completamente aberto uma para outra e o show de sinceridade.
— Namorada… — Sussurrando, Rei comentou observando o céu claro, que a esse ponnto não tinha mais uma nuvem.
— Namorada. — Jiwon repetiu, chegando a sorrir de orgulho, ela não sabia dizer porque aquela palavra enchia seu peito a ponto de fazê-la abrir um sorriso gigantesco.
Com calma e dificuldade as mãos delas se encontraram, entrelaçando os dedos e abrindo um sorriso bobo, cheio de felicidade, no rosto de cada uma.
