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O sono de Shota naquela noite teria sido extremamente satisfatório, ainda mais para uma criança de dez anos que não tinha muito com o que se incomodar, bem, se não fosse alguns novos dentinhos em sua boca.
Sua mãe acendeu a luz do quarto e rapidamente disse:
— Vamos acordar? Já está na hora. — Shota não viu por estar ocupado demais em tapar seus olhos, mas a mulher tinha um sorriso no rosto.
— Hum… — resmungou enquanto a ouvia sair do cômodo.
Estando sozinho no quarto, porém ainda com a luz insuportável invadindo seus olhos, ele acordou. Não foi algo tão rápido, contudo seria muito mais lento se não sentisse um incômodo em sua gengiva.
Não deveria ser nada, mesmo que ao passar a língua pelos dentes sentisse um volume a mais, algo estranho na boca, algo pontudo.
Ainda meio sonolento, Haku se levantou, seus olhos mal enxergavam o que estava na frente direito, então chegar até o espelho foi uma grande dificuldade para a criança. Porém, algo não foi difícil de enxergar ao enfim ficar à frente do próprio reflexo: dois de seus dentes pareciam muito pontudos, muito mesmo. E um choque percorreu pelo seu corpo.
Oficialmente ficou bem acordado.
— Mãe! — gritou assim que colocou os olhos naqueles dentes intrusos e, com seus gritos, saiu correndo em direção de onde quer que ela estivesse.
No meio do caminho, já trombou com a mulher, que o segurou pelos ombros em desespero também. Nunca tinha visto seu filho tão espantado como agora.
— O que foi, meu bem? — ela perguntava enquanto rodeava seu olhar por todo o Shota, que no momento estava em silêncio e soltando às vezes um resmungo para tentar recuperar o fôlego.
— Meus dentes… — foi o máximo que a pequena criança disse antes de abrir a boca para a mãe, que se deparou com aqueles dentes maiores que os outros em seu interior.
A mulher sabia que a hora dele ia chegar, mas não que viria tão cedo. Para alguns poucos, chegava tão rápido...
— Ah, filho… — Ela suspirou enquanto passava a mão pelas costas dele tentando acalmá-lo. — ‘Tá tudo bem, eu e seu pai também temos.
— Vocês…?! — em choque, Shota perguntou sem conseguir terminar. Como assim, seus pais também tinham aqueles dentes intrusos?
— Sim, vem aqui. — Pegou a mão dele e o levou até o seu quarto, onde seu marido estava sentado na cama mexendo em alguns papéis. — Amor, as presas dele nasceram.
Ela falou com uma calma que tranquilizou até o próprio Shota. Seu pai se virou com leveza, como se fosse a coisa mais normal o que estava acontecendo na vida deles.
— Mas já? — perguntou, deixando todas as suas coisas na mesa de cabeceira; depois caminhou até Haku e se ajoelhou em sua frente. — Mostra para o pai.
Assim que ele pediu, Shota fez uma careta que expôs os dois dentes afiados. Seu pai deu um sorriso ao colocar os olhos nos dentinhos, como se fosse o maior orgulho.
— Que lindinho, até parece homem… — Puxou um banquinho que ficava jogado pelo quarto para se sentar. Mesmo que fizesse piada com isso, sabia que já estava na hora de ele e sua esposa explicarem o que era aquilo.
— O que são eles? E por que vocês têm? — Trocou olhares com seus pais, a forma pela qual não sabia de nada e estava cego quanto a esse assunto o deixava um pouco assustado.
Os dois se entreolharam e suspiraram juntos.
— Você fala? — seu pai perguntou e, sem nenhuma hesitação, sua mãe assentiu.
— Filho, você sabe o que é um vampiro? — Shota negou, nunca sequer havia ouvido falar disso. — Então, vampiro é o nome que se dá a alguém que tem essas presas que cresceram em você e que chupa o sangue dos outros.
Os olhos do pequeno Haku se arregalaram pela forma não hesitante de sua mãe de explicar a situação.
— O sangue? — ele perguntou, em choque. — De humanos…?
Ela apertou os lábios um contra o outro, sabia que essa era a parte mais sensível, nunca teve que explicar algo assim para ninguém antes, então nem fazia ideia por qual parte deveria iniciar.
— É, mas isso já faz uns bons anos, sabe, filho? — A mulher deu um sorriso tentando acalmá-lo. Por mais que não o tivesse visto surtar, sabia o choque que tais informações poderiam provocar. — A gente consegue comer outras coisas hoje em dia, evoluímos, ‘tá tudo bem.
Ela deu mais um sorriso, Haku desviou o olhar de sua mãe e virou para seu pai. Ele também sorria e, com calma, levou sua mão até a de seu filho, tentando transmitir um ar de leveza para o menino.
— Então eu não vou… sugar ninguém? — O garoto estreitou os olhos enquanto olhava para os dois em dúvida.
— Não. — Shota suspirou de alívio, não queria nem imaginar o pavor de sugar o sangue de alguém. — E, filho… — seu pai começou a falar novamente, chamando sua atenção — por favor, não morda ninguém com esses dentes, ok?
— É — sua mãe voltou a falar e seus olhos retornaram para ela. — É por aí que tudo acontece.
Os dois deram um pouco de conforto a seu filho depois da conversa, poderia ser um tanto pesado para uma criança de dez anos, porém, o quanto antes, melhor. Não era? Ainda mais avisar que em hipótese nenhuma deveria usar aquelas presinhas.
— Agora, vai terminar de se arrumar para a escola — a mãe disse dando um beijo no topo de sua cabeça.
Sem hesitar, Shota se levantou e caminhou até a porta, porém, nesse processo, sua língua esbarrou em suas presas umas boas vezes. Logo uma dúvida foi levantada; ele algum dia se habituaria com aqueles dentes novos?
— Mãe — quase sussurrou parando na porta —, eu vou me acostumar…?
O olhar de seus pais poderia ser descrito como de pena, os dois sabiam bem como era a fase de adaptação, era um pouco atormentadora, ainda mais se acostumar com aqueles dentes e não morder a própria boca no processo.
— Vai, sim. — Ela sorriu. — Agora, vai lá.
[ … ]
O dia tinha sido estranho, para dizer o mínimo. Em momento algum, Shota tinha se acostumado com aqueles dois dentes novos em sua boca, estava mais estranho que nunca.
E segundo seus pais, ele não deveria contar a ninguém sobre isso. Ser um vampiro era um segredo, porém, Haku Shota conseguiria mesmo guardar isso consigo?
A resposta era um enorme não! O motivo? Ele tinha um amigo do qual era completamente inseparável e, simplesmente, segredos entre os dois não existiam.
— Jongseob — chamou atenção do amigo, estavam no recreio finalmente, ambos ainda comiam, porém, bem longe da cantina.
— Hum? — ele resmungou enquanto se focava em mastigar o pão.
— Você guardaria um segredo meu? — perguntou em sussurros, por mais óbvia que já fosse a resposta que receberia. Era outra promessa deles: além de não guardarem segredos entre si, deveriam não revelar os segredos um do outro às demais pessoas, independentemente do que acontecesse.
— Sim! — ele respondeu de boca cheia. — Eu prometo — afirmou antes de voltar a comer.
Com isso, Haku encheu a boca de água enquanto fazia um bochecho rápido para logo bater no ombro do amigo.
— Olhe. — Assim que Jongseob olhou em sua direção, ele abriu a boca e apontou para o dente pontudo que tinha em seu interior.
— Que maneiro… — o amigo comentou, os olhos chegando a brilhar de emoção por ver algo assim, e até terminou de enfiar o lanche na boca. — Como você fez isso?
Sua empolgação era extravasante, dava até para dizer que o garoto também queria ter um desses, o que fez um sorriso animado crescer no rosto de Shota. Foi a primeira vez que ficou feliz em ter duas coisas indesejáveis em sua boca.
— Nasceram hoje de manhã. — Ele deu um sorriso extremamente convencido, o que fez com que Jongseob não acreditasse nem um pouco no amigo.
— Conta outra. — Kim riu incrédulo, como poderia ter nascido um dente daqueles de um dia para o outro? Shota estava inventando histórias!
— É sério! Toca para você ver se não é de verdade. — E, em seguida, abriu a boca para que o amigo pudesse colocar o dedo em seus dentes.
À primeira vista, ficou completamente hesitante sobre isso, ainda mais que era enfiar o dedo na boca do outro, mas a cada segundo que passava, tomou mais coragem e logo teve a prova de que Shota não mentia.
— Meu Deus! São de verdade! — Os olhos de Kim se arregalaram ao perceber a dentição, além de brilharem mais ainda. — Como assim nasceram hoje? Não pode ser…
Shota olhou para um lado e depois para o outro, garantindo que no momento que falasse alguma coisa a seu amigo só ele ouvisse.
Assim que teve a certeza de que estavam apenas os dois por ali, aproximou-se de Jongseob, agora de boca cheia novamente, e sussurrou bem próximo ao ouvido dele:
— Eu sou um vampiro. — Enquanto se afastava e ainda fazia contato visual, sorriu completamente confiante de que seu amigo sabia o que isso significava.
— O que é isso? — É, por essa Shota não esperava. Ao ver que Kim parecia genuinamente confuso e não tinha entendido nada, soltou um suspiro cansado, já agindo como um idoso impaciente.
Ele largou todo o ar que tinha acumulado e voltou a se aproximar do amigo para explicar.
— Isso significa que eu posso morder as pessoas com essas presas. — Abriu a boca com calma, expondo-as enquanto falava, o que fez o amigo mexer a cabeça assentindo.
— E você já testou? — batendo as próprias calças que estavam sujas com farelo de pão, o garoto perguntou, fazendo com que Shota desanimasse no mesmo instante.
— Não. — De repente, ele se lembrou do que sua mãe lhe tinha dito naquela mesma manhã, como poderia ter esquecido tão facilmente? — Minha mãe não deixou…
Kim não falou depois disso, apenas assentiu com sua cabeça outra vez e ficou olhando para a frente. Enquanto Shota tentava achar uma solução para o seu meio-problema, seu amigo pensava em qual seria a próxima aula e se tinha feito a atividade.
Como um passe de mágica, repentinamente uma resposta chegou ao cérebro de Haku.
— Já sei! — quase gritou dando um bom susto em Jongseob, que apenas faltou pular e bater com a bunda contra o chão.
— O quê? — resmungou olhando para Shota, que já exibia todo um sorriso maléfico no rosto, como se tivesse um plano inteirinho elaborado e só faltasse a execução.
— Eu posso te morder… E aí… — Ele parou para pensar um pouco, talvez o restante do planejado não fosse tão genial quanto parecia em sua mente. — Não sei, você só não conta nada para minha mãe!
E a ideia não era boa mesmo, tanto que o rosto sem expressão de Jongseob se transformou em uma cara de julgamento, não que fosse incomum por parte de Kim, era comum até demais.
— Não — negou mais rápido do que Shota poderia esperar. — Eu não vou deixar você me morder!
Assim que negou o pedido do amigo, Jongseob já estava se levantando. Logo, logo, bateria o sinal e não tinha mais motivos para eles ficarem por ali, o que fez com que Haku se sentisse um pouco mais desorientado.
— Eu… — Mesmo que tentasse muito, de início Shota não imaginava o que oferecer para o amigo. — Eu faço sua lição!
Sabia que essa seria uma boa oferta, Kim era muito preguiçoso e com certeza aceitaria! Chegava até a sorrir convencido ao se levantar do chão e andar até o amigo.
— Hum. Não sei… — O garoto fingiu pensar enquanto caminhava a passos acelerados, provavelmente fazia de propósito para que Shota corresse atrás dele. — Você pode fazer, mas não me morde.
Ele soltou uma risada ao andar mais rapidamente ainda, fazendo Haku ficar cada vez mais desanimado.
— Poxa, Jongseob! — resmungou enquanto corria atrás do outro.
Não achava que seria tão difícil convencê-lo a deixá-lo mordê-lo! Como assim Jongseob não se submeteria a perder um ou dois mililitros de sangue para o amigo saber como aqueles dentinhos novos funcionavam?
[ … ]
Os dois garotos se encontravam sentados no chão da casa de Jongseob, Shota havia sido convidado para passar a tarde lá, o que o deixava imensamente animado, principalmente porque a mãe de Kim sempre levava comida para eles, mas esse dia era especial. Não tinha a mãe de ninguém por ali.
— Eu não aguento mais…! — enquanto se jogava para trás se espreguiçando, o garoto reclamou completamente infeliz devido a como sua vida estava andando.
— Só se passaram dez minutos de atividade — Kim mencionou ao revirar os olhos e responder à última pergunta de português que lhe faltava.
— O suficiente para eu me cansar — Haku se queixou em resposta enquanto se puxava para trás para poder se escorar em algum canto. Por mais que tivessem se passado só poucos minutos, ele já estava cansado, especialmente com as atividades sendo de português.
Jongseob não respondeu nada ao amigo, apenas suspirou e começou a ler a próxima pergunta. A leitura teria sido muito bem-sucedida se Shota não tivesse parado de pensar e passasse a falar repentinamente, trazendo aquele assunto à tona novamente.
— Você sabia que… — ele resmungou e parou mais um pouco, atrapalhando Kim ainda mais — eu faria a minha atividade e a sua, se você deixar eu ver como os meus dentes funcionam…
— Hum? — Olhou para Shota, que encarava a parede de seu quarto, ele parecia desfocado da realidade enquanto fazia isso. — Você não faz nem a sua, que dirá a minha.
Não perdeu a chance de retrucar o amigo que, quando ouviu a resposta levemente cortante, virou o rosto para ele com uma agilidade impressionante.
— Ei! — Bateu no ombro de Kim. — Eu só não sou bom em português. Mas todas as outras, eu faço, eu prometo!
Sem tirar os olhos de Shota, Jongseob o observava com uma de suas sobrancelhas erguidas e completamente desconfiado, pois conhecia a preguiça enorme de seu amigo.
— Até o fim do ano? — com um sorriso brincalhão no rosto, perguntou enquanto via a face de Haku desanimar, desacreditado.
— Aí você apela… — ele resmungou, fazendo um bico enorme nos lábios. — Mas por uma semana!
O menino tentou empolgar Kim com a sugestão, até se ajeitou enquanto estava sentado para poder se aproximar mais ainda do amigo e tentar dizer que, poxa, era só uma mordidinha…
— Poxa, Seob. — Aumentou o bico que tinha na boca, e isso só fazia Kim querer revirar os olhos mais e mais, o outro era tão chorão que nem ele acreditava. — É só uma mordida, depois eu te pago um sorvete! Um picolé!
Suas mãos foram ao encontro dos ombros do amigo, que agora chegava até a abrir o semblante, a proposta estava começando a agradá-lo, ele adorava doces!
— Com que dinheiro? — perguntou quase cedendo.
— Minha mãe me dá dinheiro todo mês, eu posso te pagar algo. — Sorriu enquanto olhava para Jongseob, que estava pronto para aceitar toda aquela proposta, passando a acreditar que valia a pena uma mordida no braço.
— Hum…
Ele começou a resmungar sozinho olhando para Shota e depois os cadernos na mesa. Abriu um sorriso maior até do que o do garoto com as presas.
— ‘Tá certo! Um sorvete e as atividades? — perguntou, sendo totalmente inflexível sobre as discussões dos termos para ter uns machucados. Haku não ficou muito satisfeito com isso não, porém, por estar mais empolgado com seus dentes, apenas ignorou.
— Ótimo, ótimo, ótimo! — Shota começou a falar completamente animado com a ideia, ele ficou tão feliz que havia conseguido a primeira parte que agora não sabia como prosseguir.
Isso lhe tinha chocado tanto que estava estático. Pediria o braço do amigo ali mesmo? Iria para o banheiro? Pegaria um pano ou um papel? Sairia sangue de menos ou de mais? Como é que iria sugar o sangue? Ele não tinha pensado em mais nada além de como convencer Kim.
— O que foi? — Jongseob perguntou enquanto olhava para o amigo completamente estático ali.
— É que eu não sei… — Ele pressionou os lábios uns contra os outros, incerto sobre o que fazer.
— Não sabe o quê? — Sua voz era repleta de impaciência, além de incomodá-lo a todo instante, quando conseguia o que queria, ia ficar ali, que nem criança perdida?
— A gente deveria ir ao banheiro? Tenho medo de sujar aqui com sangue e sua mãe saber. — Ele olhou para Jongseob com hesitação, agora foi Kim quem começou a cogitar o resultado.
— Olha, eu vou ficar com um buraco no braço, então algo vai ter que acontecer. — Deu de ombros.
Os dois ficaram em silêncio, tudo isso para que Shota pudesse pensar, que era quem estava mais preocupado com toda essa história. Jongseob não estava muito aí não, sabia que sua mãe era completamente calma sobre essas coisas, por isso nem tinha o que pudesse temer.
— Eu falo que machuquei na escola. Você não queria ver como funcionam os dentes? — Enquanto se levantava batendo os pés, sua movimentação repentina fez Shota se erguer num salto.
— Quero! — declarou totalmente determinado, indo atrás do amigo.
Por fim, os dois acabaram no banheiro da casa de Kim. De lá, o garoto tirou uma caixa com uns algodões, tecidos e líquidos. Provavelmente era para que enfaixassem o braço de Jongseob após o sangue ser sugado.
Ambos ficaram parados se olhando, novamente Haku estava nervoso demais, era como a piada de “não cheguei a essa parte nunca”, pois ele não sabia nem o que fazer, enquanto Jongseob tinha um olhar impaciente.
— Você não queria testar? — Estendeu o braço para o amigo, que segurou seu pulso com um leve tremor na mão.
— Desculpa, é que eu ‘tô nervoso. — Ele engoliu seco enquanto encarava o pulso estendido, logo suspirou e se convenceu de que quanto mais rápido fizesse, mais rápido testaria e isso acabaria.
Ainda um pouco confuso, Shota abriu a boca tentando expor as presas, de modo a posicioná-las no pulso do amigo, que tentou fazer uma pressão, mas que não lhe deu coragem alguma.
— Vai logo! — Kim vociferou enquanto sentia aquelas duas pontas em seu braço, porém sem nenhum aperto.
Com o quase grito repentino do amigo, no nervosismo, Shota foi com tudo. Seus dentes entraram no braço de Jongseob, que acabou soltando um berro cheio de dor.
Logo o gosto de sangue preencheu a boca de Haku, que mal teve tempo de não sentir esse sabor novamente. Pois ao correr para tirar as presas do braço alheio, engoliu mais sangue ainda no processo. Ele simplesmente não sabia como controlar essas coisas.
O resultado foi que cuspiu miseravelmente mais do líquido vermelho do amigo na pia, local que só foi preenchido por mais ainda dele, pois o Kim enfiou o braço, com os furos, debaixo da água.
Enquanto ele o enxaguava, Shota continuava sentindo o gosto do sangue alheio na boca e, consequentemente, fazia algumas caretas.
— Ugh… — resmungou infeliz. — Seu sangue não tem gosto bom…
Ele exibiu uma cara de desgosto assim que falou, o que fez com que Jongseob o olhasse completamente indignado. Além de furar seu braço, o outro teve a coragem de rejeitar seu sangue?
— Olha que eu conto tudo para a tia! Seu ingrato. — Só não deu um tapão no amigo porque uma de suas mãos estava completamente focada em secar o braço furado.
— Calma, calma, calma… — pediu Haku com olhos de cachorrinho. — Eu só não achei que fosse ter gosto ruim…
Ele fez um beiço enquanto ia até a caixa olhar o que quer fosse que seu amigo ia precisar para tapar os dois furos minúsculos no pulso. Provavelmente, em vinte e quatro horas, aquilo logo se fecharia. As presas de Haku nem eram tão grandes assim para fazer um bom estrago.
— Pega o algodão e cala a boca — infeliz, Kim resmungou para o amigo, que fez isso em silêncio. Shota sabia que sua mãe o repreenderia infinitamente se descobrisse que ignorou suas ordens.
Simplesmente, nenhum dos dois sabia onde estavam com a cabeça quando um tinha tido essa ideia e o outro a aceitado.
[ … ]
Depois de poucos dias, finalmente chegava a hora de Haku pagar o que devia ao amigo, que o estava incomodando com isso havia um tempo, desde quando ainda nem tinha se passado mais de uma semana.
— É, minha mãe comprou sorvete! — Só faltou ele agarrar Kim e chacoalhá-lo de animação, fazia um bom tempo que sua mãe não comprava nada assim e foi preciso muita mendigação por parte dele.
— Ainda bem. — O garoto deu um sorriso. — Senão eu teria algo a falar.
Haku deu uma risada do que o amigo dizia, ainda bem que sua mãe tinha sido bastante compreensiva e comprado o sorvete para o filho, do contrário, definitivamente, estaria completamente lascado.
Para a felicidade dos dois, os passos acelerados os ajudaram a chegar com mais agilidade a casa de Shota.
— Mãe, cheguei! — falou assim que adentrou.
Enquanto os meninos tiravam os sapatos, de imediato a mulher apareceu na cozinha e se deparou com ambos sentados no chão.
— Boa tarde. — Ela deu um sorriso para os dois enquanto os cumprimentava, sorriso esse que logo diminuiu ao ver o braço de Kim. Por mais fechado que estivessem aqueles dois buracos, ainda conseguia reconhecer com facilidade. — Jongseob, querido, o que aconteceu com seu braço?
Com rapidez, ele olhou o próprio braço revendo os pequenos machucados, e um som de surpresa saiu em seguida de sua boca.
— Ah, eu machuquei na escola. — Ele deu de ombros tentando ao máximo ficar calmo, porém uma pequena risada nervosa escapou dele.
— É, educação física — Shota se enfiou na conversa e mostrou seu joelho ralado para a mãe. — Olha, eu também.
Ela passou o olho pelo machucado de Jongseob e depois se voltou para o de Shota, por mais que nenhuma das duas crianças notasse, seu olhar era completamente desconfiado. Não poderia nunca acreditar naquilo.
— Ah, e já ‘tá melhor? — perguntou olhando para os dois, porém estreitando seu olhar mais ainda no filho, que agora sorria; observando a situação, a mulher sabia que por trás daquele sorriso havia pura sapequice.
— Sim, sim! — Ele alargou o sorriso enquanto se levantava. — A gente pode comer sorvete agora?
Seus olhos eram tão iguais aos de um cachorro sem dono para a própria mãe, que a mulher soltou um grande suspiro balançando a cabeça. Depois conversaria com ele.
— Podem, sim. — Ela sorriu sem mostrar os dentes. — E se cuida, hein, Jongseob.
— Tudo bem, tia! — levantando-se num salto, ele concordou de forma animada enquanto só olhava para Shota fuçando a geladeira para pegar o sorvete.
Com calma, ela saiu da cozinha e voltou ao lugar de onde veio, e isso fez com que as duas crianças respirassem mais confortavelmente. Segurar uma mentira era mais difícil do que qualquer um deles pudesse imaginar.
Assim que Shota pegou as colheres e as xícaras, Jongseob se aproximou do amigo com um sorriso no rosto.
— Ainda bem que ela não desconfiou! — Por maior que fosse sua entonação de empolgação, ele ainda tentava sussurrar para que não fossem descobertos.
— É! — O garoto deixou sair uma risada empolgada de sua boca. — Ela nem imagina.
No entanto, quem não imaginava era Haku, que depois ouviria um monte de sua mãe, por mais que talvez nem tivesse sido ele que havia feito aquele estrago. E ela ainda reforçaria o discurso. Agora dizendo que não era por Jongseob ser seu amigo que ele poderia mordê-lo.
