Work Text:
Era engraçado, de certa forma, como as coisas aconteciam.
Uma das maiores preocupações de Yugi , após falar telepaticamente com Yami devido ao colar do milênio, era encontrar sua alma gêmea e a própria perceber que sua metade já falava com alguém. Claro que, essas preocupações sumiram conforme os problemas com as relíquias foram surgindo.
A nova preocupação de Yugi foi perceber o quanto era pegado a Yami, ou melhor, Atem. Após descobrirem as origens do Faraó, Yugi notou que o que sentia pelo outro era muito maior do que uma mera irmandade. E logo, logo, Atem iria embora. Quando percebeu isso, Yugi segurou o colar com tanta força que foi o suficiente para preocupar o outro.
“ Você está bem,Yugi? ”
“ Estou sim, Atem .”
Mas ele não estava. Retirou o colar e o deixou delicadamente sobre o colchão da cama; suas roupas abandonadas e espalhadas pelo chão conforme ia ao banheiro. Precisava pensar, longe de Atem o suficiente para que ele não percebesse que algo estava errado. Por mais que fosse impossível de acontecer, já que ele estava indo ao banho sem o colar. Isso o fez parar subitamente, ele dificilmente ia para algum lugar sem a relíquia. Tornou-se estranho sem o peso reconfortante e, por mais que quisesse um tempo sozinho, precisava manter o colar próximo. Com esse pensamento , Yugi retornou para pegá-lo e o deixou próximo de si. Com sorte, a pouca distância que estivessem separados , não seria possível de Atem ouvir seus pensamentos.
Quando a água quente tocou em sua cabeça foi como se toda a carga negativa de si fosse levada embora pelo ralo. Yugi fechou os olhos e deixou naquele breve momento sua mente ficar em branco. Quanto mais pensava sobre o que sentia pelo faraó, mais seu coração se enchia de dor e culpa.
Dor ao saber que chegará aquele momento que Atem partirá e o deixará. O fato de não conseguir dizer o que sentia pelo outro devido ao medo. A culpa por sentir isso pelo seu amigo mais fiel. O destino era realmente uma piada. Antes de montar a relíquia, Yugi ansiava que sua amiga Anzu fosse sua alma gêmea, sempre gostando dela a distância , e ela nunca o conhecendo, mas quando ela finalmente o viu e fez amizade, Yugi nunca ouviu seus pensamentos. Ele superou a breve paixão por sua amiga, sabendo que era comum desejar que alguém fosse sua metade, mas agora, sabendo que sua possível alma gêmea poderia aparecer a qualquer momento, ele não achava certo gostar, ansiar tanto por alguém que era até mesmo inalcançável.
A dor que sentia era devastadora e deixou-se cair de joelhos enquanto chorava, precisava deixar tudo que estava preso dentro de si sair. Nada importava naquele momento, seus ouvidos não conseguiam captar seus soluços, os pedidos clementes de Atem em plena preocupação. Sua mente era apenas um zumbido que o preenchia completamente.
“ Yugi! ”
“ Yugi, me responda! ”
Aos poucos, Yugi passou a tomar consciência de onde estava. Com a voz de Atem penetrando em sua mente em desespero flagrante, a água ainda escorrendo.
“ Yugi, por favor. Fala comigo. ”
Respirando fundo em meio a um soluço, Yugi deu um sorriso trêmulo, como se quisesse provar que estava bem, mesmo que Atem não lhe visse.
“ Desculpe, Atem. Eu tive uma recaída. ”
Atem ficou quieto por um longo tempo; tempo suficiente para que Yugi terminasse o seu banho e colocasse um pijama. Ao deitar-se na cama, como de costume, Yugi deixou o colar no travesseiro ao lado do seu, era como se ele estivesse bem próximo de si , porém a realidade era algo totalmente diferente. Ainda em completo silêncio de ambos os lados, Yugi passou a acariciar as bordas da relíquia. Faltava tão pouco para que Atem partisse.
Como seria as coisas depois disso?
Doía apenas ao pensar nisso.
Sua testa tocou o colar, enquanto novas lágrimas caiam em cascata pelo seu rosto. Por que ele não conseguia deixar de chorar? Por que ele tinha que se apaixonar por alguém tão inalcançável como Atem? Por que não sua alma gêmea? Por que ele não conheceu sua alma gêmea mais cedo e ter evitado tanta confusão e angústia com o que sentia pelo outro?
Um calor reconfortante passou pelos seus cabelos até chegar em sua nuca. Quando abriu os olhos , ficou diante da projeção astral de Atem, a qual ele raramente conseguia fazer por exigir muito de si. Os olhos do faraó eram quentes, mesmo banhados em preocupação, isso era demais para si ; seu peito doeu com isso. Egoistamente aproximou-se da projeção e se deixou ser envolvido naquele abraço. Mesmo que não sentisse o corpo físico, apenas aquele calor era suficiente para seu coração angustiado.
“Por favor, não me deixe”, suplicou Yugi, engasgando-se tanto devido ao choro quanto ao seu próprio pedido que saiu. Era como se sua alma gritasse, implorasse para estar perto do outro , e isso o confundiu tanto. Ele não queria pensar em suas emoções.
“Eu estou aqui, Yugi.”
Yugi balançou a cabeça e se encolheu ao virar de costas para o outro. Não importa o que Atem dissesse naquele momento, ele não estava ali. Não como Yugi tanto ansiava. Nada mais foi dito entre eles, e Yugi acabou dormindo com o calor sobre suas costas.
E então, nos próximos dias, conforme iam para o Egito, foi como se aquele dia não tivesse acontecido. Yugi simplesmente ignorou qualquer tentativa de Atem para sobre o ocorrido, desviando para assuntos mais confortáveis. Ele não queria pensar, não queria sentir. Quanto mais cedo sofresse a dor abrupta, mais rápido seria curado. Precisava manter este tipo de pensamento , ou iria se afogar em seus sentimentos.
Atem partiria naquele momento. Era apenas isso que se passava na sua cabeça e, pelo olhar que Atem o lançava, ele estava ouvindo seus pensamentos. Mas Yugi sabia que conforme o outro se aproximasse da porta para seguir em frente na vida após a morte, ele não iria mais ouvi-lo. Não importa o quanto a ligação deles fosse forte, Yugi sabia que a uma certa distância tudo morreria.
A enorme porta foi se abrindo para o faraó , e Yugi conseguia sentir seu coração palpitar violentamente. Atem se aproximava com uma expressão tão conflituosa, mas ao mesmo tempo determinada. No fundo Yugi sabia, que mesmo o outro querendo ficar, ele passou muitos anos ansiando por este momento. Mas uma parte egoísta de Yugi queria que Atem ficasse.
Quando Atem atravessou a porta que estava iniciando o processo de fechamento, Yugi sabia que estava em uma distância boa o suficiente para não ser ouvido, por isso deixou seu último pensamento fluir de forma livre e alta, porque sabia que não seria ouvido.
“ Eu te amo, Atem.”
Yugi apenas não esperava que Atem se virasse abruptamente para si de olhos arregalados. E qualquer conflito que Atem tivesse tido, algo mudou, pois ele estava voltando correndo de volta… de volta para Yugi.
Apenas que era tarde demais. A porta se fechou e tudo o que Yugi ouviu foi o último pensamento de Atem para si antes de desmoronar completamente.
“ Eu também te amo. ”
