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Deixe-me Ir

Summary:

Nana vive uma relação estável com Ren, mas seu coração pertence a outra. Apaixonada por Hachi, sua melhor amiga, Nana esconde um desejo profundo e talvez impossível de se concretizar. Enquanto tenta manter as aparências e evitar que suas emoções destruam sua vida pessoal e profissional, ela se vê dividida. Agora, ela precisa decidir se segue sufocando seus sentimentos ou se finalmente escolhe sua própria felicidade, mesmo que precise abandonar o que construiu até aqui.

Notes:

Queria deixar alguns recados antes de começarmos, principalmente para você que ainda me acompanha, mesmo que já tenham se passado 3 anos.

Primeiro, se esta for a sua primeira história minha, seja bem-vindo! Mas, se não for, gostaria de esclarecer que minha escrita mudou bastante nos últimos anos, então pode ser que você estranhe um pouco.

Segundo, a história pode abordar temas sensíveis, especialmente questões relacionadas à lealdade, desejo e expectativas em relacionamentos. Na minha visão, esses temas surgem frequentemente em situações onde as pessoas vivem a heterossexualidade compulsória, mas a interpretação é livre para cada um.

Por fim, como de costume, essa história não tem um final fechado, e eu não tenho a intenção de fazer um. É apenas uma história sobre aceitação e sentimentos turbulentos.

Agora finalmente, boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Levo cuidadosamente aquela seda enrolada em meio às ervas para os meus lábios, sentindo a leveza da mesma antes de acendê-la. Meus olhos passeiam com cuidado pelo cômodo, analisando o ambiente. Sinceramente, tudo me traz a lembrança de Hachi — as sombras nas paredes, o silêncio pesado, tudo me remete a ela. Em minha frente, se encontra uma garrafa com o líquido avermelhado e um odor forte de álcool. Diria que é vinho, ou talvez algum tipo de chopp? Não faço ideia. O costume de beber é dela também. 

Deixo que minha boca solte o ar que estava preso em meu pulmão, com uma sensação ardente de pressão em meu peito. Até o cheiro dela está pairando no ar. Seu perfume adocicado, com um fundo de rosas. Eu nunca gostei de perfumes doces, mas não consigo reclamar quando ela usa. 

A tela do meu telefone acende, mostrando a notificação de mensagem. Era Ren, me avisando que o show tinha acabado. Eu não me importo, mas preciso parecer que sim neste momento. Me sinto uma péssima namorada quando deixo transparecer o que realmente sinto para ele. Agora, nosso relacionamento se encontra em uma fase tranquila — o que, sendo franca, é uma grande raridade nos últimos meses; brigas fúteis, ciúmes excessivos e uma crítica falta de comunicação. 

Ren, em boa parte do tempo, é um namorado resiliente e formidável, mas eu não posso negar que temos desentendimentos. Entretanto, tudo tem sido incrivelmente tranquilo, ao menos para ele.  

Nesta casa, vive todo o meu desejo mais profundo e completamente egoísta. Assim como é uma benção dividir a vida ao lado de Hachi, também é uma maldição estar perto dela. Será que Ren entenderia se eu dissesse que me apaixonei por outra mulher? Eu duvido muito. Eu realmente duvido muito. Ninguém entenderia. E minha carreira? Estaria em ruínas

Com a mão livre da seda, estendo-a para pegar a garrafa e encho uma taça de vidro que estava ao lado. Encaro o líquido, já sentindo o amargo na boca, mas infelizmente não posso dizer que é o álcool que estou tentando engolir neste momento. Deixo que minhas unhas batam no vidro da taça, ecoando o som pelo cômodo. Quero fugir dos meus pensamentos. Não vale a pena pensar sobre isso, mas, no fim das contas, o que realmente vale a pena pensar? Ficar horas presa nessa angústia não fará bem para mim, embora eu saiba que preciso pensar sobre isso para preservar o bem do Ren. O que algum dia senti por ele nunca chegou perto do que sinto por Hachi, nem por um momento. Droga. Isso é uma merda.

O silêncio é interrompido pelo clique da fechadura, e o estalo metálico me força a sair da minha própria mente. A fechadura é destrancada e, em seguida, ecoa pelo ambiente o rangido da porta da frente. Viro em direção ao som e, ao encontrar seus olhos, vejo a pessoa que me faz querer desistir da vida que tenho: Hachi .

— O que está fazendo nesse ambiente sombrio sozinha, Nana? — ela diz, com sua voz suave e adocicada, enquanto tira seus sapatos grandes e extravagantes. 

Um sorriso involuntário surge nos meus lábios. Com um gesto despreocupado, jogo meus braços no sofá atrás de mim e deito minha cabeça sobre eles. Hachi olha em minha direção com aqueles olhos grandes como os de um cachorro. 

— Não sei, talvez esperando você voltar?

Hachi solta uma risada curta e melódica, aproximando-se lentamente de mim. Não consigo tirar os olhos dela nem por um segundo. Seus cabelos castanhos estão levemente bagunçados. Seu suéter largo, com um padrão de bolinhas marrons e bege, cai de forma casual, revelando a gola alta preta que cobre seu pescoço. Por alguns segundos, tudo o que eu quero é tocá-la

— Ren não te chamou para sair? — pergunta, sentando-se ao meu lado no chão. Balanço a cabeça em sinal de negação.

— Me mandou mensagem, mas não respondi. Como foi seu encontro com o Ichinose?

Ela suspira profundamente, afundando o rosto nas mãos, e depois abrindo seus dedos para olhar para mim entre eles. Acho fofa sua reação, mas não demonstro. Ela se senta à minha frente, e não consigo evitar olhar a saia curta e assimétrica de tecido grosso, que combina perfeitamente com as meias longas que cobrem suas pernas até acima dos joelhos.

— Foi bom, mas, sinceramente, me peguei pensando que seria melhor ter ficado em casa com você. Takumi é um tanto quanto… Bem, você sabe como ele é. — Ela fez um leve biquinho com seus lábios cheios de gloss brilhante. — Você é a melhor companhia que eu poderia ter. 

Movo ligeiramente minha mão até o rosto de Hachi, pousando-a na bochecha. Meu polegar desliza suavemente sobre sua pele em um sinal de carícia. É possível ver um pouco do seu blush sendo retirado, mas ela não parece se importar muito, já que fecha os olhos e aproveita o carinho. 

— Vocês brigaram de novo? Estão parecendo eu e o Ren, mas nem são um casal ainda. — Uma pontada de desconforto percorre meu peito ao dizer isso.

— E talvez nunca sejamos. Honestamente, eu nem sei se gosto dele ou do Nobuo. Talvez eu não goste de ninguém. 

— Você só precisa de tempo para processar seus próprios sentimentos, Hachi. Não precisa ter pressa, apenas ser honesta consigo mesma e com os outros.

É irônico essas palavras saírem da minha boca quando, neste exato momento, a única coisa que quero é tirar o gloss da boca dela e levá-la para minha cama. A última coisa que eu tenho feito ultimamente é ser honesta. 

— Se você não namorasse o Ren e não fosse uma mulher, acho que teria me apaixonado por ti, Nana.  — diz, em tom de brincadeira, mas suas palavras se cravam como uma facada no peito.

Aquela frase me atinge mais do que eu imagino. Minha única reação é sorrir mais uma vez, agora carregado de tristeza. Fecho meus olhos para processar aquilo, mas, para minha surpresa, Hachi me abraça e deita sua cabeça no meu peito. Com cuidado, envolvo meus braços em torno dela, desejando que ela fosse minha, ao menos desta vez — só neste instante.

— Eu te amo, Nana. 

Ao ouvir a doce voz de Hachi me dizer aquelas simples e profundas palavras, eu me toco, então finalmente aceito a verdade: ela nunca vai me amar como eu a amo. Ela é confusa demais para isso, envolvida demais em seus próprios dilemas amorosos. Me ama como ama uma amiga, me deseja apenas como deseja uma irmã por perto. Está tudo bem se eu escolher amá-la em silêncio. 

No fundo, as palavras que vou dizer agora jamais serão ouvidas como eu gostaria que fossem.

Eu amo muito você, Hachi.

Notes:

Talvez eu escreva algum outro capítulo sobre a história; honestamente, não sei. Espero que tenham gostado, e obrigada por ler até aqui. Espero que essa história tenha tocado vocês de alguma forma, assim como me tocou.