Chapter Text
Ysaline havia perdido a conta de quantas festas de Halloween ela tinha sido convidada só naquela semana. Aparentemente, ter se tornado uma grande mulher de negócios também significava receber inúmeros convites para a festas mais badaladas da cidade. A maioria feitas em locais que a Devenementiel já fez colaborações e algumas de lugares que ela lutava para fazer. Ou seja, os negócios iam mais do que bem. Parecia até mesmo mágica.
Apesar de ter se animado com todos os convites, só teve tempo mesmo de arrumar duas fantasias. Era uma noite de 28 de outubro e ela estava se maquiando para uma das festas ao som de Tainted Love. Sua escolha para aquela noite em especial havia sido Patrick Bateman. Porém, em uma versão feminina e bem sexy.
Achou que poderia abusar já que não estaria na presença de seus colegas de trabalho, mas, sim de alguns amigos próximos. A outra fantasia apenas seria usada na grande festa de Halloween que a Devenementiel estava organizando para um cliente importante, no dia 31 de outubro.
E era por isso que ela precisava de uma noite para simplesmente relaxar porque absolutamente nada poderia dar errado naquele evento.
Com esse pensamento em mente, Ysaline passou seu perfume, pegou as chaves e saiu de casa pensando no quanto iria se divertir naquela noite.
***
Assim que entrou na festa, Ysaline soube na mesma hora que a Devenementiel fazia um trabalho excepcional, porque o lugar tinha tanto potencial para colocar decorações legais e ainda assim foi tudo desperdiçado com luzes neons. Na verdade, talvez as luzes até funcionassem se as decorações compradas fossem minimante condizentes com o resto.
Você deveria parar de pensar em trabalho, pensou Ysaline e logo procurou o bar que serviam as doses de nomes engraçados. Esperava apenas que não fossem duvidosas quanto a decoração. Acho que estou saindo demais com a Amanda. Ela acharia esse lugar de extremo mal gosto... e com esse pensamento virou uma dose, buscando seu celular no bolso.
Seus amigos estavam atrasados e ela queria saber se iriam demorar muito. Porém quando viu o grupo cheio de notificações soube na hora que tinha dado alguma merda. E, bingo, nenhum – e ela disse nenhum deles – poderia ir. Cada um com uma desculpa mais esfarrapada do que a outra. Que absurdo!
Não conseguia nem ao menos acreditar que todos eles haviam a deixado ir sozinha na festa. Ysaline nem ao menos era tão sociável para sair fazendo novas amizades. Sem falar que ela tinha sido a única que havia comprado o ingresso, visto que os outros ganharam através de colegas.
Puta que pariu, ela estava furiosa.
Pensou seriamente em ir embora, mas olhando para o local em si quis dar uma chance. Afinal, já tinha pagado, estava lá dentro, era open bar e a playlist era todinha dos anos 80. Talvez ela pudesse ficar um pouco e curtir a pista de dança. Além disso, enquanto olhava a decoração quando chegou viu uma tenda – a única coisa de fato iluminada por alguma luz que não fosse neon – localizada na área.
Dentro dela, havia uma garota loira vestida com uma fantasia de Sabrina Spellman. Até mesmo tinha um gato de pelúcia preto colocado em cima da mesa. Ela estava atendendo uma mulher vestida de pirata, que acabou por sair do local com um sorriso enorme do rosto.
Ysaline não ia a uma cartomante desde o ensino médio. No entanto, nunca havia de fato se consultado, apenas acompanhou sua amiga da época. Disse que tudo o que a cartomante tinha falado de bom para ela não aconteceu, mas as coisas ruins aconteceram com uma precisão impecável, o que fazia Ysaline pensar se confiava no tarot.
Mesmo não tendo tanta vontade de saber a fundo sobre sua vida através de cartas, era Halloween, não? Acima de tudo, Ysaline queria sentir alguma mágica de fato. Algo que não fosse relacionado a trabalho. É, ela estava bem cansada.
Foi até o bar e pediu uma dose de nome estranho para combinar com a temática da festa (era vassoura da bruxa? sangue de vampiro?). Assim que virou, começou a caminhar até a pista de dança onde havia quase que um baile de monstros e pessoas fantasiadas dos mais diversos personagens.
Ajeitou a capa transparente da sua fantasia e colocou seu mini machado de brinquedo em um dos bolsos, deixando-o a mostra, para que pudesse dançar também. E estava prestes a fazer isso, se não fosse por uma voz:
- Ora, ora, ora, quem está por aqui.
Ysaline suspirou, derrotada. Nem ao menos precisava virar para saber de quem se tratava. Jason. A ruína de sua existência.
Estava muito surpresa ao vê-lo ali, porém não tão surpresa quanto no momento em que viu sua fantasia.
Patrick Bateman. Com terno e capa.
- Não acredito nisso – Ysaline revirou os olhos.
- Oi para você também, gatinha! – Disse ele, todo charmoso. Ysaline culpava mais ainda seus amigos por terem deixa-la plantada lá e ainda ter que encontrar aquele paspalho! – Não pode me dizer que não gostou da minha fantasia.
- Na verdade, combina bem demais com você – provocou ela. – Mas é óbvio que alguém ficou melhor.
- Sou obrigado a concordar – Jason disse, olhando-a de cima a baixo, cafajeste feito o Diabo. Aliás, era esse o tipo de fantasia que ela esperava vê-lo numa festa de Halloween. Ou Fantasma da Ópera. Definitivamente não de terno e gravata, como sempre estava. Pelo menos ele tinha colocado uma capa transparente como no filme.
- O que você faz aqui? – Perguntou ela e Jason a olhou como se ela fosse lerda.
- O mesmo que você, presumo – respondeu. – Se você está aqui, significa que os seus colegas estão aqui também, não?
- Para a sua infelicidade, não – debochou ela e Jason revirou os olhos. – Bom, tchau!
Ysaline ia voltar com seus planos, porém Jason disse:
- Pensei que fosse falar mais um pouco comigo.
Ela virou-se e o encarou como se ele tivesse três cabeças.
- Pensou, é?
- Claro – Jason deu de ombros. – Afinal, pensei que fosse essa a intenção quando copiou a minha fantasia...
- Como eu poderia copiar a sua fantasia? Eu nem mesmo sabia que você estaria aqui!
- Sei.
- Jason, querido – Ysaline aproximou-se dele. – Caso você não saiba, o mundo não gira ao seu redor.
Jason riu sutilmente com escárnio.
- Só confesse logo que você estava doidinha para ficar de casalzinho comigo.
Ysaline não respondeu. Jason iria repetir, mas ela disse logo em seguida:
- Você é uma fonte infinita de irritação, sabia?
- Que crueldade! Não sabia que era poeta, gatinha – ironizou ele e aquilo apenas ia crescendo nos nervos de Ysaline. - Aliás, achei que você viria mais... felina.
- Só nos seus- Espera, como você sabia que eu vinha?
Aquilo pareceu o pegar de surpresa.
- Eu não sabia que você vinha – disse ele, mas Ysaline já estava rindo.
- Não me diga que estava tão desesperado para me ver que até mesmo buscou meu nome na lista de convidados? Que gracinha, Jason!
Jason revirou os olhos e terminou por um sorriso charmoso nos lábios. Bizarre Love Triangle do New Order tocava ao fundo num volume razoavelmente alto, suficiente para que Jason sentisse a necessidade de chegar perto dela para ser ouvido, ou foi assim que Ysaline pensou.
- Específico, falando de você mesma na terceira pessoa? – Riu ele. – Todos sabem que essa é uma das únicas festas de Halloween que eu frequento.
- Agora que você disse, realmente eu deveria ter adivinhado que você viria nessa festa – Ysaline disse com falsa preocupação, colocando a mão no ombro de Jason. - As outras festas não aceitam animais, não é?
Jason passou a língua nas pontas dos dentes e Ysaline se sentiu satisfeita. Na verdade, por algum motivo que não entendia bem, ela até mesmo gostava quando ele a provocava. A sensação de provocar de volta. Era estimulante.
- Bom, não quero acabar com os seus sonhos, mas eu preciso ir! E se puder não correr atrás de mim seria ótimo, ok? Vão achar que a gente é um casal!
- Como se você fosse achar ruim... – Jason debochou.
- O seu egocentrismo está te impedindo de ver que eu estou aqui para paquerar outras pessoas – Ysaline sorriu provocativa. - De preferência, qualquer um que não seja você.
- Sei, sei... O que é ótimo porque eu já tenho alguém me esperando.
Ysaline não pode deixar de olhar para ele.
- Quem é a pobre coitada? – Perguntou ela com uma falsa preocupação.
- Interessante uso de palavras.
- Deus, você é um porco...
- Porco? Eu sou um cavalheiro de ainda estar falando com você depois de tantos insultos!
- Ah, meu amor, eu posso ser tão pior que isso...
E, assim, os dois continuaram com a trocas de farpas. Nem fazendo ideia de que eram observados. Não apenas pelas pessoas da festa que olhavam para os dois com olhos curiosos – com nenhuma intenção de intervir, apenas rezando para que o circo pegasse fogo – mas, sim, por uma em especial, que olhava para o par com certa malícia no olhar.
- Você ama estar no mesmo lugar que eu...
- Está brincando? Quando nós simplesmente dividimos o mesmo ar, eu me sinto poluída!
- Ah é? Bom, eu menti quando disse que foi um prazer te conhecer.
- Eu encontro alívio na sua ausência!
- Cada pausa que eu tenho de você é uma benção! – E antes que Ysaline pudesse fazer sua próxima facada, Jason continuou: - Você, gatinha, é a prova de que as coisas podem sim ficar piores.
Ysaline, então, sorriu. Um sorriso que ele conseguia ver que ele não havia dado a palavra final.
- Jason, querido... – Jason apenas acompanhou enquanto ela colocou suas mãos sobre as lapelas de seu terno caro, não puxando, mas se aproximando. Eram nesses momentos em que era difícil dizer o que os dois sentiam um pelo outro. Jason mesmo estava sentindo coisas diferentes do que supostamente deveria. Ainda que não fossem sentimentos conflitantes naquele caso... Ambos faziam do seu dialogo uma linha tênue. Tinha tanta raiva no olhar dela, mas vez ou outra ela se perdia na imensidão do olhar dele. E tinha tanto escárnio no sorriso dele, porém todos daquela festa poderiam assegurar que ele só havia começado a sorrir quando ela chegou na festa. - Cruzar o meu caminho com você me faz desejar saber sobre diferentes rotas, porque qualquer uma e eu digo QUALQUER UMA DELAS poderia ser melhor que essa.
Os dois se entreolharam por um tempo, daquela mesma forma que frequentemente flagravam-se fazendo.
- Com licença – os dois ouviram alguém dizer e viraram-se para a pessoa. Ao mesmo tempo em que se afastaram feito crianças quando eram flagradas fazendo algo errado. Ysaline reconheceu a moça sendo a cartomante da tenda. – Vocês dois poderiam me acompanhar?
Novamente, os dois se entreolharam com interrogações nos olhos. Então, Ysaline lembrou-se das fantasias que estavam usando.
- Nós não estamos juntos – disse ela rapidamente. – Quer dizer, as fantasias só são uma infeliz coincidência.
- É, infeliz coincidência – Jason disse, novamente a olhando de cima abaixo, fato que não passou desapercebido por Ysaline e novamente aquelas sensações conflitantes aparecerem em seu corpo. – Sabe como é... ela tem um péssimo gosto.
Ysaline estalou a língua, prontíssima para responder, porém, antes que eles voltassem com todo aquele grande ato teatral, a mocca levantou as mãos pedindo que eles parassem.
- Vocês são Jason Mendal e Ysaline Dolga, não?
Diferente de Ysaline, que arqueou uma das sobrancelhas bem desconfiada, Jason tomou a frente com aquele sorriso cafajeste – o mesmo que ele havia feito para ela quando se conheceram (“Eu menti quando disse que foi um prazer te conhecer” Sei!).
- Deve ter me reconhecido das capas das revistas, não? – Perguntou ele enquanto Ysaline revirava os olhos.
- Oh, não! Na verdade, eu sou vidente – respondeu ela com um sorriso.
Jason acabou igualando seu semblante ao de Ysaline. Esperava qualquer resposta menos aquela.
- Vidente? – Repetiu ele, um misto de tédio e curiosidade por que estava por vir.
- Sim! Quer dizer, não totalmente vidente! Eu tenho alguns dons premonitórios, mas sabe como é! Eu sou tipo uma bruxa-bebê ainda! Estou desenvolvendo minhas habilidades e-
- Me desculpa, mas... – Ysaline riu nervosa em meio fala. – O que você queria fazer com a gente mesmo?
- Ah! Desculpa, eu falei demais! Meu nome é Nina – ela se apresentou. – E eu tenho uma previsão para vocês dois.
Novamente, os dois rivais se entreolharam – pela primeira vez unidos em um mero pensamento: que porra é essa?
- Uma previsão? – Ysaline repetiu e Nina fez que sim com a cabeça. – Tipo, algo que vai acontecer?
- Eu acho que esse é o significado de previsão – Jason debochou e Ysaline deu uma leve cotovelada nas costelas dele.
- Isso! Normalmente, eu não sou de fazer essas coisas, mas assim que vocês chegaram na festa... algo falou comigo.
Jason riu.
- Entendi – disse ele, novamente com um tantinho de veneno escorrendo pelos lábios. – Já tive uns amigos na faculdade que usaram esse algo.
Nina franziu a testa, mas voltou sua atenção a Ysaline.
- Vocês podem vir até a minha tenda?
- Na verdade, eu fiquei de me encontrar com uns ami-
- Claro que podemos – Jason disse de prontidão e novamente o sorriso bizarro de Nina abriu-se em seu rosto. Enquanto ela ia na frente, Ysaline olhou para Jason como se ele tivesse duas cabeças. – O que foi? Vai ser divertido ver o que essa maluca vai falar.
- Então, vai você! – Ysaline rebateu. – Ela claramente vai querer tirar dinheiro da gente por umas coisas genéricas.
- Mas ela foi bem incisiva em nós irmos.
- Não existe nós!
Jason a olhou de forma maliciosa e Ysaline não entendeu o porquê.
- Você acredita nessas coisas, não?
- No quê?
- Tarot.
Ysaline deu de ombros.
- Não.
- Acredita sim, mentirosa – Jason riu. – Já entendi o que está acontecendo. Você tá com medo de que as cartas mostrem o quão caidinha você está por mim. Entre outros, é claro!
Ysaline riu em deboche. Como era convencido!
- Claro, eu morro de amores por você, Jason – revirou os olhos. – Se tem alguma coisa que as cartas vão mostrar é como eu tenho vontade de te arregaçar!
- Arregaçar, não é? Bem atrevida da sua parte... – Jason disse, chegando mais perto do que precisaria fazer. Ysaline conseguia sentir o seu hálito fresco e o cheiro de seu perfume. As duas essências combinavam e a inebriavam de uma tal forma que ela precisou se afastar dele que não fosse um pouco. – Poderia me convidar para um jantar primeiro...
- Por Deus, apenas cala a boca!
Quando Jason estava prestes a responder, os dois viram Nina acenando da tenda.
- Vem! Vai ser divertido! – Jason pegou a mão dela e Ysaline logo se viu andando com ele até a tenda. Tentou ignorar quando o dedo dele passou incisivamente pelo centro da palma de sua mão. De qualquer forma, antes que ela pudesse pensar muito a fundo sobre isso, logo estavam na tenda e Nina havia fechado as cortinas entre eles.
O local era bem o clichê de salas de tarólogas. As cortinas eram vermelhas, havia uma bola de cristal ao fundo, um deck de tarot ao centro da mesa em cima de uma toalha roxa com um pentagrama. Assim que viu aquilo, Ysaline procurou o olhar de Jason, que levantou as duas sobrancelhas em provocação.
Sentando-se a frente dos rivais, Nina acendeu um incenso – o que não agradou muito Jason, que não queria ficar com cheiro daquilo quando voltasse a festa. Ysaline acompanhou enquanto Nina rodava a fumacinha que saia da ponta do incenso, formando um círculo acima deles três. Quando ela viu que Ysaline a olhava de uma forma estranha, disse:
- É patchouli. Ideal para a limpeza emocional e para abrir os caminhos para os sentimentos genuínos.
Jason tentou disfarçar o riso com uma tosse. Ysaline engoliu em seco, querendo matar o homem – e estava começando a perder a paciência com Nina também.
- Você disse que tinha uma previsão, não? – Perguntou ela a Nina. – Os caminhos dos sentimentos genuínos teoricamente já não deveriam estar abertos?
- É uma boa pergunta, na verdade – Jason disse.
Nina sorriu.
- Como eu disse, sou uma bruxa-bebê. Uma muito humilde – ela deu de ombros. – Mas eu tenho algumas sensações fortes, algo fala muito alto comigo e... bom, assim que eu vi a aura de vocês dois, eu soube que estava pedindo para falar com vocês.
- Sei – Jason e Ysaline disseram em uníssono e depois se entreolharam irritados um com o outro. Como sempre.
- Bom, podemos começar?
- Claro – Jason disse debochado. – Primeiro as damas. Não digo isso só porque sou um cavalheiro, mas também porque ela estava morrendo para saber qual a sua previsão.
- Você é cético, não é? – Nina perguntou. – Não tem problema. Hoje você vai ver para crer, Jason.
Jason em si não levou muito a sério, mas Ysaline riu da cara que ele havia feito.
- Ah, e é uma leitura conjunta, então vocês começam juntos.
- O que demorar menos – Jason disse, apoiando o braço na cadeira de Ysaline e cruzando as pernas.
Nina ignorou o comentário dele e começou a embaralhar as cartas. Ysaline já tinha visto algumas leituras de cartas que apareciam vez ou outra em seu Tiktok. Nenhuma delas acertava. Exceto uma, em que uma garota havia lido que uma perturbação iria chegar na vida de Ysaline. Não levou a sério, mas no dia seguinte ela conheceu Jason, então com certeza aquela tiktoker não estava para brincadeiras.
Terminando de embaralhar as cartas, Nina pediu que os dois colocassem suas mãos no centro do Tarot. Novamente, Ysaline sentiu o calor das mãos de Jason sobre a sua, e, enquanto Nina fechava seus olhos – se conectando com a energia dos dois, talvez? – eles se entreolharam rapidamente, virando os rostos logo depois.
Nina então voltou a embaralhar e tirou cinco cartas. Colocando três delas uma do lado da outra e outras duas na diagonal desta.
- Agora que o show começa – Jason sussurrou para Ysaline.
- Não sei como deixei você me arrastar pra isso – ela murmurou de volta e Jason riu, chegando mais perto dela e sussurrando em seu ouvido:
- Talvez as cartas contem o porquê.
Um arrepio percorreu o corpo de Ysaline e ela logo fez questão de afastar sua cadeira da dele, arrumando seus cabelos logo em seguida.
Primeiro, Nina virou as duas cartas da diagonal: a da esquerda era Nove de Espadas; da direita, o Cavaleiro de Copas. Assim que Nina as viu, seu semblante assumiu uma forma interessante, como se as suas ideias se clareassem um pouco na mesma medida que parecia meio... melancólica. Das duas formas, Ysaline não gostou nada.
Depois disso, ela abriu as do centro.
A primeira que ela abriu foi a do Diabo.
- Olha só, Jason! Achamos a sua carta – Ysaline zombou e Jason revirou os olhos.
A segunda foi a da Torre e, por fim – e foi nesse exato momento que Nina abriu um sorriso bem malicioso para os dois – os Amantes.
Ysaline olhou Jason pelo canto do olho e teve a impressão que ele fazia o mesmo. Ele pigarreou, voltando a sua posição despreocupada novamente.
- O que diz? – Jason perguntou, não ligando muito.
- É... já podemos falar que ele é totalmente o Diabo? – Ysaline brincou, mas dessa vez saiu um riso meio nervoso.
- Não, na verdade ele é o Cavaleiro de Copas.
- Quê? – Jason riu. – Preferia ser o Diabo.
- Não se preocupe, você já é – Ysaline disse, dando batidinhas na mão dele. – Mas se ele é o Cavaleiro de Copas, então eu sou...
- O Nove de Espadas... – Nina comprimiu os lábios. – Bom, mas vamos abordar isso mais afundo.
Tanto Ysaline quanto Jason se afrouxaram em suas cadeiras.
- Bom, o que eu vejo nas cartas, é que a história de vocês é envolta em uma névoa bem densa. Como se algo poderoso pairasse desde o momento em que se conheceram, mas ainda é muito oculto. Sinceramente, quando vejo a aura de vocês dois, ela me fascina um pouco...
- Aura? – Jason perguntou.
- Sim, é uma emanação colorida do corpo humano – explicou Nina. – A de vocês tem algo escondido.
- Entendi – Jason disse com um pouco de desprezo. – Mas, por favor, continue.
- Existe um fio que liga vocês em um conflito, quase como se fossem um espelho apenas refletindo as sombras um do outro.
Jason e Ysaline riram.
- É que você não viu no dia-a-dia... – murmurou Jason. – Nem na disputa de clientes.
Nina propositalmente ignorou aquilo, mas Ysaline viu que ela não estava muito feliz com os comentários de Jason. Não a culpava.
- A carta do Diabo é uma carta que fala de muitas coisas. Aqui eu ouso dizer que fala de uma atração e-
- Oi?! – Foi a vez de Ysaline interromper e Jason começou a rir.
- Ora, ora, ora... – Ysaline obviamente estava chocada demais para perceber o quanto Jason havia ficado feliz com aquela informação. Feliz demais. – Que grande surpresa, não?
- Isso não tem nada a ver. Como que a carta do Diabo pode falar disso?
- Se vocês me deixarem continuar! – Nina pediu e os dois voltaram as suas posições.
Ysaline olhou para Jason e ele piscou para ela, o que só deu mais vontade de sair daquele lugar. Por que ela ainda estava lá?!
- Vocês podem até mesmo negar, mas as cartas dizem que existe uma energia meio bruta aqui. Algo irresistível, porém ao mesmo tempo perigoso – Nina parou de falar e olhou para Ysaline por alguns segundos, comprimindo os lábios. – É uma forca que prende um ao outro, mas que também desafia. Testa por algumas vezes. Atormenta.
- Atormenta até faz um pouco de sentido – Ysaline murmurou e apenas Jason ouviu.
-... cada olhar, cada palavra trocada... nada disso é mero acaso – Nina sorriu sutilmente para as cartas. Jason viu quando ela parou de repente e inclinou a cabeça para direita, quase como se ouvisse alguém sussurrando em seu ouvido. Jason arqueou as sobrancelhas, mas logo ela voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. – Bom, depois disso, nós temos a carta da Torre.
- É uma carta ruim, não é? – Ysaline disse quase que com esperança. Algo que Nina não deixou passar.
- Já vamos falar da sua relutância, senhorita Nove de Espadas – Nina disse e Ysaline ficou chocada. – A carta da Torre indica ruptura. É interessante como ela vem logo após a carta do Diabo, que tem um pouco de ilusão na sua essência. Parece que ela quer puxar vocês dois para realidade, literalmente cair na real.
- Cair na real seria bom – Jason debochou e Nina o encarou de uma forma que o homem se ajeitou na cadeira.
- Esse cair na real – Nina continuou – traz em conjunto uma energia de explosão. Como se tudo o que vocês mantem reprimido – e ela parecia falar aquilo tudo com muito gosto – todas essas faíscas e resistências fossem em algum momento finalmente explodir. É a energia de que algo inevitável se aproxima.. Pode ser uma discussão, uma revelação ou até mesmo um momento inesperado de conexão, mas essas barreiras que vocês ergueram não vão resistir por muito tempo.
- Ah, por favor – Ysaline revirou os olhos e Nina voltou sua atenção para ela. – O que é que você tá dizendo? Que eu e ele? EU e ELE?!
- É difícil de acreditar mesmo – Jason concordou e Nina logo virou-se para ele, como se acompanhasse um jogo de tênis.
- É mesmo, Sr. Cavaleiro de Copas? – Nina perguntou especificamente para Jason e ele sentiu vergonha alheia. Mas Nina continuou e olhou para Ysaline. – Esse homem está completamente apaixonado por você!
Ysaline sentiu suas bochechas corarem como se ardessem no fogo. Jason, por outro lado, riu de nervoso.
- Aham, claro... Apaixonado...
- Apaixonado é um termo até fraco para o que ele está sentindo por você nesse momento – Nina riu. – É de uma devoção até meio assustadora. Ele beijaria o chão onde você pisa, feito um cachorrinho.
- Que besteira! – Jason murmurou.
- Isso, é claro, se você deixasse.
Jason se remexia em sua cadeira. Mas Ysaline não ligou muito, porque ela estava sentindo que Nina estava focando toda a sua atenção nela.
- Você precisa deixar – disse ela.
- O quê?! Deixar ele entrar na minha vida? Óbvio que não! Olha para ele!
Antes que Jason pudesse se defender, Nina continuou:
- Não estou falando do Jason.
Ysaline engoliu em seco. Não estava gostando do rumo daquela conversa.
- Você tem sentimentos tão bonitos, uma capacidade de amar gigantesca... mas tudo isso é ofuscado por toda essa mágoa que você sente. Toda essa inquietação, todas essas dúvidas, todo esse medo de se machucar novamente. Isso não é você, Ysaline.
Ysaline, então, levantou-se bruscamente.
- Você não sabe do que está falando!
Jason a olhou de maneira preocupada. Ok, que porra estava acontecendo ali?
Ysaline fez menção de ir embora e Jason estava indo logo atrás, porém Nina segurou o seu pulso. Ele a olhou como se ela fosse uma maluca completa – o que de fato ele achava que ela era.
- Cinco de Copas – Nina disse, novamente ele achou que alguém estivesse falando no ouvido dela.
- O quê?
- Você também precisa deixar essa dor partir – ela continuou e Jason sentiu os pelos da sua nuca se arrepiarem. – Não podemos deixar de amar as pessoas por medo da dor de quando elas nos deixam.
Ysaline ouviu essa última parte e viu como Jason ficou afetado.
- Seu pai-
- Eu vou te interromper – Jason disse, puto. – Nós não acreditamos em nada do que você disse. Na verdade, só entramos nessa tenda porque eu achei que seria divertido ouvir as baboseiras que uma bruxa bebê teria para nos dizer. Esse incenso todo deve estar mexendo com os seus neurônios, fazendo você ver aura onde na verdade tem fumaça!
Ysaline, milagrosamente, concordava com tudo o que ele estava dizendo. Porém, enquanto ele via seu rival argumentar com Nina, ela prestou atenção em outra coisa mais chamativa. Por um momento, pensou que fosse a fumaça do incenso misturado ao neon da festa, mas depois foi ficando tão forte que ela não sabia se se aproximava ou saia correndo.
- Não acreditam em mim, então? – Perguntou Nina, com uma voz suave. Uma meiguice digna de uma criancinha de filme de terror. – Tem certeza disso?
Ysaline então teve certeza que ela mesmo estava vendo aura, porque algo roxo começou a aparecer em volta do corpo de Nina. Um roxo bem escuro.
Jason também começou a ver quando Ysaline estava puxando seu corpo para que os dois fossem embora dali, mas ele ficou parado meio perplexo. Vendo que tinham sua atenção, Nina então voltou a sorrir e deu de ombros. Num piscar de olhos, aquele roxo todo havia ido embora.
- Tudo bem – Nina disse. – Quer dizer, tudo bem pra mim. Agora... para vocês...
- O quê, garota? – Jason disse, já perdendo a compostura.
- Vocês estão dispostos a aceitar o sacrifício? – Ao ver que não tinham respostas, Nina encarou logo com um sim. E seus olhos ficaram brancos, o que chocou ambos os rivais por alguns segundos. – Eu amaldiçoo vocês.
Os olhos dela voltaram a ficar das cores normais, fazendo com que Ysaline e Jason duvidassem da sanidade mental novamente. De qualquer forma, Jason entendeu que aquilo era algum efeito da luz ou alguma baboseira que Nina utilizava para impressionar os clientes. O que estava funcionando com Ysaline, que tinha ficado atrás dele para se proteger.
- Amaldiçoa, é? Garota, você sabe que não está falando coisa com coisa, não?
- Bom, você acabou de insultar o meu trabalho e a minha pessoa. Me parece bem justo que eu faça o mesmo com vocês dois.
- Como assim? – Ysaline perguntou, saindo de trás de Jason.
- Ysaline, é sério que você ainda tá ouvindo isso?
- Ela está porque sabe que é verdade – Nina disse. – Vocês, meus dois Patrick Bateman`s, estão amaldiçoados a nunca mais fechar um negócio pelo resto de suas vidas.
- Claro – Jason riu e Ysaline engoliu em seco novamente. – A concorrência vai amar isso, mas infelizmente eu sou CEO da Goldreamz. Mas qualquer coisa eu te ligo. Vamos, Ysaline!
- Vocês vão ligar mesmo – Nina disse e entregou um cartão na mão de Ysaline. – Vejo vocês no Dia das Bruxas.
E com um tchauzinho vindo de Nina, Jason puxou Ysaline daquela tenda.
- Olha... me desculpa, ok? – Jason disse e Ysaline acabou por não responder nada. Também estava surpresa demais com tudo o que tinha visto para processar que Jason, justamente o Jason Mendal, estava pedindo desculpas a ela. – Foi uma péssima ideia.
- Foi mesmo – disse em meio ao vento, ainda olhando para a tenda. – Jason, como ela sabia os nossos nomes?
- O quê?
- Os nossos nomes! Como ela sabia?
- Não, eu sei. Eu ouvi da primeira vez, mas a pergunta é como ela não saberia o meu nome? – Disse e passou as mãos demonstrando o seu corpo. Ysaline, pela quinquagésima vez naquela noite, precisou se segurar para não voar em cima dele.
- Será que dá para agir feito gente por um mísero segundo?! – Perguntou Ysaline e Jason bufou. – Ela sabia os nossos nomes e a gente estava tão compenetrado em se divertir com a ideia toda da bebê bruxa que nem ao menos perguntamos!
- Provavelmente, alguém deve ter dito para ela. Isso é o mais óbvio. Mas afinal por que isso importa?
- Jason, você não estava na mesma sala que eu?! Ela é assustadora!
- Gatinha, eu não acredito que você acreditou mesmo no que aquela maluca disse.
- Ah, por favor! Se tem alguma época do ano em que eu posso ser supersticiosa, é justamente agora! – Ysaline disse e Jason deu de ombros. – Jason, é sério que você não sentiu nada lá dentro?
- Não. Na verdade, sim. Senti foi muita vergonha alheia e um pouco de pena daquela garota – disse ele, enquanto pegava seu celular. – E pensar que é provavelmente essa geração que vai cuidar da nossa...
- E se for verdade o que ela falou ali dentro? – Perguntou Ysaline, abraçando a si mesma. Olhou para Jason e ele estava com um semblante engraçado no rosto.
- Sobre... – Jason pigarreou. – Sobre o que nós sentimos-
- Sobre a maldição! – Ysaline o interrompeu e Jason assentiu com a cabeça várias vezes.
- Claro, claro – disse ele. – Aliás, claro que não é verdade! As duas coisas.
- Espero muito que não...
- Não se preocupe, gatinha – Jason colocou uma mão no ombro de Ysaline. – Não tem maldição que deixe a Devenementiel pior do que está.
E foi esse o comentário que Ysaline tomou como sinal para encerrar a noite.
***
Ysaline queria muito que tudo aquilo não passasse de mera encenação de Nina, porém nos dias seguintes tudo foi muito estranho. A Devenementiel, por exemplo, estava um completo caos. Tudo o que ela fazia ou pretendia fazer, dava errado. Quando ela dizia dar errado, era literalmente um telefone explodir quando estava ligando para um cliente. E, para ser bem sincera, ela até mesmo agradeceu quando o telefone explodiu, porque com certeza seria melhor do que ouvir a resposta do cliente com quem estava conversando...
De repente, toda negociação dela realmente ia por água abaixo. Devon não queria preocupar os outros, mas ela viu quando ele se trancou em sua sala, completamente preocupado e aquilo a preocupou também. Ainda mais porque a festa de Halloween já seria naquele sábado!
Mas mesmo quando o telefone explodiu na sua mão, Ysaline não se preocupou tanto.
Pelo menos não tanto quando recebeu uma ligação de Jason, em que ele disse:
- Precisamos conversar.
