Work Text:
Linha 21… Atsushi espremeu os olhos à planilha. Os comandos pro resultado… feito. Depois dela, vinte e dois, três, quatro. Ao infinito, se o computador tolerasse.
Coçou uma pálpebra com o nó do dedo. Filmes não deviam ser interessantes na grade noturna. Por vezes, eram, induzindo ao erro. Com volume baixo e cortinas fechadas, não incomodavam ninguém, ou já teriam reclamado.
Uma vez, reclamaram. Era um de terror, em horário inapropriado. Intrigante demais para largar na metade, pagara o preço de gritar na madrugada. O dormitório ganharia janelas melhores e isolamento acústico se a planilha não terminasse no vermelho.
Barulho após as dez continuava contra as regras.
Um tempo antes, reuniram-se para falar da moradia. Debatiam outro lugar, com aluguel barato, recém-reformado, numa linha de trem mais vazia. As desvantagens: apartamentos menores, mais longe do trabalho e também da respectiva estação de trem. Entre continuar de graça a lidar com os mesmos problemas e lidar com problemas novos por um preço, escolheram ficar.
Linhas 35, 36, 37 da planilha. Um erro de digitação bobo na coluna três. Acertava bem mais no cálculo desde que começara a lidar com aquilo. Não era mérito dele, exatamente. Com boa instrução, qualquer pessoa ia longe.
Já faz tempo, não? Atsushi ergueu os olhos do monitor. Os que estavam ali, estavam ocupados. Algumas cadeiras não tinham ninguém. Ao mesmo tempo, parece que foi ontem.
“É a jornada, não o destino” era verdade para algumas coisas. Nos “destinos”, mais como paradas de estrada, respirava fundo. Olhava, grato, para frente e para trás.
“Conversar com seu eu mais jovem” era outro lugar-comum curioso. O monólogo era silencioso, exceto quando sozinho. No banho, lavando louça, matando tempo na sacada. Sempre quando a mente trabalhava pouco.
Se perguntasse ao Atsushi esfomeado, “onde se vê daqui a dois, três anos?”, ele diria: na cadeia ou em pó numa urna. Riria e coçaria a cabeça, quando não era caso de achar graça.
Todo mundo se imagina em outra vida. Em outra cidade, outro emprego. Tendo feito tal escolha, não tal outra. Entre aqueles vinte anos ou outros quaisquer, não tinha parâmetro da escolha certa. Tinha aqueles, gostava deles. Quase vinte e um, até. Credo. Cheguei longe.
Cobriu um bocejo com a mão. Ninguém pareceu notar. Droga de filme legal. Se virem que tô com sono, vão… Fariam o quê? Nada, provavelmente. Policiamento imaginário era inútil.
Na linha 61… Tá vazia? As linhas 60 e 62 estavam preenchidas direito. Não havia linhas vazias nas outras planilhas.
Na ilha de quatro mesas, só ele estava lá. Pouco antes, Kyouka atendia o telefone; devia ter ido ao banheiro. Quanto aos senpais, estavam sumidos desde o almoço. Sempre pra lá e pra cá. A energia de quando se encrencavam era distinta. Um mau pressentimento urgente, que farejava rápido. Hoje em dia, não é mais toda hora.
Atsushi rabiscou a dúvida numa nota adesiva, colada na borda do monitor. Espera. Quero mesmo dar trabalho ao Kunikida-san? Ele deve ter deixado instruções…
A porta principal abriu. Kyouka vinha de lá.
— Tem carta pra você — ela disse.
— Tem? — Atsushi franziu o cenho. — Cadê?
— É “entrega nominal”… O carteiro quem disse.
— Esquisito. — Levantou-se, empurrando a cadeira. — Não é falso?
— Não parecia… Bom, vai lá. É na entrada principal. — Kyouka se sentou. — Dá uma patada nele, se precisar.
— Não quero chamar tanta atenção. — Ele segurou o riso. — Já volto.
Mas nunca se sabe. O elevador estava livre. Entrou, apertando o botão do térreo. Carta do quê, afinal?
As portas se abriram. Atsushi saiu do saguão.
— Boa tarde, senhor — o carteiro disse.
— Boa tarde…
Deu uma boa olhada no homem. Era jovem, de pele bronzeada e cabelo curto, oculto no boné. A moto com compartimento de carga era a de costume. O uniforme azul-claro também, com um sobrenome local comum no broche de identificação.
Nunca o vira na vida, e ele parecia tranquilo. Nos gestos, no cheiro, no batimento cardíaco… “Entrega nominal” é suspeito, mesmo… mas tudo normal por aqui.
— Posso ajudar? — Atsushi perguntou.
— “Nakajima-san”, certo? Creio que a correspondência seja sua.
— Sou eu, sim.
— Esse tipo de entrega é só ao destinatário. — O carteiro mostrou um envelope de documentos e uma prancheta. — Pode assinar o recibo, por favor?
Atsushi pegou a prancheta, com uma caneta na presilha. Entendendo-se com o formulário, comentou:
— Só não sei por que alguém me mandaria cartas.
Droga, pensei alto.
— Entendo. — O carteiro riu, na cortesia de um funcionário. — Acontece pouco, né?
— Nunca nem me aconteceu.
— Só recebi cartões postais até hoje…
Atsushi devolveu a prancheta e pegou o envelope. Tinha alguns selos e estava mesmo endereçado a ele. Do outro lado…
— Não tem remetente — Atsushi disse. — Isso pode?
— Pode. Só vai para a reciclagem, caso o senhor recuse. Não tem devolução.
Jeito elegante de dizer que vai pro lixo. Perguntou:
— Pode tirar uma dúvida? Não quero comprometer o escritório, então…
— O que é?
— Como não sei de quem é, posso ver sua credencial?
— Ah, sem problema. — O carteiro mostrou um crachá, onde se lia “Tsukasa Shimura”. — Não é uma entrega comum, eu sei. Ajudo em mais algo?
— Não, era só isso.
O carteiro agradeceu em resposta e se curvou. Atsushi assistiu à moto sumir no trânsito. Em posse do envelope, examinou-o. Não havia muito mais a fazer.
Era papel claro, não o amarelo de sempre; só com formato igual. Os selos pareciam verídicos. Destinatário e endereço foram carimbados. Não tem caligrafia nenhuma.
A estaca zero da suspeita retornava. Melhor não levar lá pra dentro. Pra onde, então? Com sorte, uma segunda opinião estaria bem ali.
Poucos passos adiante, abriu a porta do café.
— Bem-vin… Ah. — Lucy murchou a expressão de atendente. — Tudo certo aí?
— Mais ou menos.
Atsushi se aproximou do balcão recém-polido para ocupar um banco. Ainda de pano na mão, ela o encarava de sobrancelha erguida.
— Que cara é essa? — ela disse. — Levou bronca?
— O primeiro-ministro das broncas não tá lá. — Deixou o envelope no balcão. — Você sabe o que é isso aqui?
— Um documento? Um presente?
— Não sei.
— Então, como eu saberia? — Lucy lavava as mãos. — Não tá escrito quem mandou?
— Não. — Se estivesse, eu não viria perguntar. — Mas achei que era sua. Ninguém mais me mandaria cartas.
— Eu poderia só subir a escada e te entregar.
É mais a sua cara.
Sem ele pedir, Lucy aprontava um latte de cereja. Contrabandeava a bebida de graça quando ninguém via. As mesas, exceto uma, estavam desocupadas. Uma moça loira com cara de estudante e computador aberto digitava sem parar.
— Acha que é uma pegadinha? — Ela entregou a xícara e pires. — Uns tipos lá em cima fariam isso.
— Verdade. — Atsushi riu por trás da xícara. — Tá meio vazio lá, no momento.
— Ninguém para quieto?
— Não é um trabalho só de escritório.
— Seria mais tranquilo se fosse. — Lucy pegou o envelope, girando-o em todos os ângulos. — Olha, não tem remetente mesmo.
— Eu falei. — Era só ter acreditado. Atsushi evitou olhar torto. — Não parece esquisito?
— Bastante. Pensa em jogar fora?
— Sem abrir? Não. Alguém lá dentro deve saber o que é.
— Se não souber, descobre rápido.
— Ah, é. O Ranpo-san também não voltou do almoço.
— Agência de detetives sem detetive? — Lucy abria uma das máquinas para limpar. — E o outro espertinho?
— Dazai-san? Bom… ele também não tá.
— Dia nacional de faltar no serviço?
Eu também tô aqui e tenho coisas pra fazer.
Lucy deu de ombros, lavando um compartimento da máquina. Disse:
— Conhece a história das cartas de antraz, né?
— Conheço. — Atsushi pôs um cotovelo na mesa e a mão no queixo. — É meio maluco. Parece coisa de filme de espião.
Por coincidência, vi um desses ontem.
— Aconteceu de verdade, até onde eu sei. — Lucy deixou a peça plástica no escorredor. Ela olhou aos lados e cochichou de perto. — Espera minha colega voltar. Daí, subo contigo.
— Pra quê? — Atsushi cochichou de volta. Inspirada pra faltar também?
— Ajudar, talvez? Quem sabe? Pode tomar isso aí com calma, a gente já vai.
Ficou curiosa, né? Bebeu para disfarçar o sorriso. Também tô.
— Quer comer alguma coisa? — ela perguntou. — Tem muffins.
— Aceito.
O doce chegou num prato. Lucy o aquecera para derreter o chocolate em gotas. Ele nunca falara da preferência; um dia, ela só começou a fazer. Comprá-los era tentação de esvaziar a carteira. Por sorte, não precisava.
Eram dela os muffins. O gerente dava a Lucy os assados não vendidos. Se não comesse, ela oferecia no dia seguinte. No começo, alegava ter enjoado do sabor. Isso até dar aquela desculpa vezes demais. Pretexto pra me ver… ou assim me explicaram. Atsushi bebeu mais do latte. Tomara.
Ao fundo, a cliente falava sozinha e digitava mais rápido. Pelo tom, se desesperava. Atsushi olhou por cima do ombro. Será que é universitária? Não se achava afiado em adivinhar idades. Faz tempo que não estudo mais.
O sino da porta ressoou.
Tal qual antes, Lucy começou a dizer “bem-vindo”. Era a outra funcionária, entrando a passos largos. Tinha uma sacola retornável cheia desengonçada no ombro. Comemoraram uma promoção repentina de chantilly.
Entre Lucy dar uma desculpa e a colega assumir o posto, o latte continuava quente. Coragem… Atsushi virou o copo. Ok, foi até fácil. Deixou as porcelanas ali e saíram.
— Vai abrir mesmo isso aí? — ela perguntou.
— Vou falar com o presidente. — Atsushi adentrou o saguão do térreo. — Só pra garantir.
— Ainda bem que ele não faltou…
— Isso não acontece todo dia, tá?
— Eu sei, eu sei.
O sorriso dela transparecia, talvez mais do que ela acreditasse. Entraram no elevador, onde Lucy apertou o botão certo. A subida, ao contrário da descida, demorava. O tempo passa diferente se a pessoa ao lado…
Digo. É quase a mesma coisa desde que a conheci. Isso é bom? Ruim…? O elevador parou no quarto andar. Não sei.
O corredor ao escritório do presidente não tinha testemunhas. Atsushi abriu caminho e bateu à porta três vezes. A resposta permitiu a entrada.
— Licença — Atsushi disse. — Está muito ocupado? Teria um momento?
— Alguém com você? — Fukuzawa perguntou. Lucy apareceu pela porta, acenando como quem vinha em paz. — Ah, claro. O que houve?
Como assim, “claro”? Entraram fechando a porta. Atsushi se aproximou da mesa, onde havia um jornal.
Devaneara à toa em vez de ensaiar a explicação. Saiu de improviso, mas bem o suficiente. Lucy completou na teoria do antraz. Fukuzawa ouvia com atenção severa e postura perfeita. Não se movia, não interrompia, nem parecia respirar.
— Enfim… — Atsushi suspirou. — Foi isso até agora.
— Entendo a preocupação — Fukuzawa disse. — Nunca se sabe. Houve a tal “infecção na pele” mês retrasado, a mídia disse… Devem lembrar.
— Lembro — Lucy respondeu.
— Eu também — Atsushi concordou. Uma habilidade de controle mental. Alterava o cérebro da vítima. Foi bem horrível. — Alguma recomendação?
— Yosano é a pessoa certa, eu creio. — Fukuzawa cruzou os dedos na mesa. — Ela sabe abrir uma encomenda suspeita.
— E se for uma ameaça de bomba? — Atsushi perguntou.
— Não me parece. Mas se for, e atingir vocês… Ela também é a pessoa certa. — Fukuzawa sorriu discretamente. Um calafrio tomou Atsushi. — Estarei aqui até cinco e meia, se precisarem.
Agradeceram a ele, que voltou a ler o jornal.
— Ameaça de bomba? — Lucy sussurrou ao fechar a porta. — Que amigável, hein…?
— Sempre digo, não é um trabalho de escritório. — Atsushi inclinou a cabeça ao corredor. — Não sei o que é pior. Esse negócio explodir na mão, ou Yosano-san me tratar.
— Pois é.
A porta da enfermaria abriu.
— Precisam de mim? — Yosano disse.
Ela ouviu. Idiota! Conte até três e explique…
— Sim, exato. — Lucy puxou dele o envelope. Ei! — É que chegou esse negócio…
— Chegou o quê? — Yosano saiu da sala. Ao ver a correspondência, piscava em dúvida. — Hm? Vocês andaram aprontando?
— Hein? — Atsushi franziu o cenho. — Como assim—
— Não é nada! — Lucy interrompeu. — Absolutamente nada. Não, de forma alguma. É uma carta que chegou pra ele. A gente não sabe de quem é. Nem o que tem dentro. Nada. Nadinha. Vai que tem um demônio, ou uma bomba, ou uma bactéria alienígena?!
— Entendi… — Yosano manteve a expressão de mente vazia. — É pra eu abrir?
— Sim, por favor, se não for incômodo. Aqui, toma. — Lucy estendeu o envelope. — Vamos pra outro canto, não?
— Ei, não empurra. Que foi? — Atsushi perguntou. Lucy o impelia para onde tinham vindo. — Mas não foi mesmo a gente—
— Esquece! Eu não disse nada. Só siga a doutora…
As bochechas dela estão da cor do cabelo. Por que será…?
A conclusão o atingiu como um raio. Não era um exame no envelope. Yosano não sabia se era. Sinceramente, nem Lucy, nem ele. Não tinha como ser, muito menos daquele tipo.
O rosto queimava. O destino seguinte era a sala de operação.
Sou muito burro e preciso calar a boca.
— Pois bem, se vocês dizem… — Yosano abriu e acendeu a luz. — Têm medo de contaminação, certo? Vou arrumar umas coisinhas.
Ela remexeu nos gaveteiros e entregou dois objetos a cada.
— São óculos de proteção e máscaras. Só sigam as instruções — Yosano disse. — Tratem de ficar atrás da cortina, tá?
Num rodopio, ela se fechou ali. O que quer que farfalhasse oculto, não era da conta dele. Trocou um olhar com Lucy, e abriram as embalagens.
A máscara era azul e tinha formato incomum; esperava vê-la em filmes de exploração espacial. O diagrama é intuitivo, até. Atsushi posicionou-a no rosto. Depois, os óculos. Yosano cantarolava, e dela, só se via a sombra.
— Pronto, eu creio. — Ela ligou um aparelho. — Hora do show.
A mesa de operação encheu-se de vapor.
Pelo barulho alto de spray, ela parecia borrifar intensamente o envelope. Lucy tentou dizer algo inaudível por cima do ruído. Atsushi ergueu os braços em desistência. Lucy revirou os olhos. O spray ficou mais alto.
O que ela tá fazendo…? Espremeu os olhos para a silhueta. Uma neblina engoliu a sala de operação. Esse lugar já me assusta o suficiente…
A máquina desligou. Yosano abriu a cortina e gesticulou que se aproximassem. Estava irreconhecível, com tanta vestimenta médica que parecia um traje anti-radiação.
O envelope se abria no centro da mesa. O conteúdo era uma única folha dobrada. A face exterior não tinha nada escrito.
— Tem uma cola segurando o papel. — Yosano ergueu o bisturi. Num corte preciso, livrou-se do problema. Ela desdobrou a suposta carta. — Aqui dentro…
Atsushi e Lucy se inclinaram mais.
— Não tem nada — ele disse.
— Que sem graça — Lucy comentou.
— Mas é curioso… — Yosano pressionou um canto com o dedo enluvado. — O papel tem uma textura estranha.
— Por que, será? — Atsushi perguntou.
— Não tenho certeza. Tem uma camada de… — Yosano franzia a sobrancelha e se voltou para a pia. — Não sei também. Vejamos.
No escorredor, ela arranjou um béquer vazio onde pôr água destilada. Derrubou a gota no papel. A água deslizou ao ralo, sem deixar manchas.
— É impermeável — Yosano disse. — Suspeitei quando o vapor não danificou.
— Passaram algo nisso aí? — Lucy perguntou.
— Acredito que sim. Um método bem comum pra tornar papel impermeável… — Yosano recuperou o bisturi, passando o lado cego num canto da folha. Uma substância com aspecto de cera saía. — É parafina.
Atsushi deixou escapar um som admirado. Perguntou:
— E se tiver algo embaixo?
— É difícil limpar, mas vale a tentativa. — Yosano cutucou o resto amarelado de parafina. — Se bem que não é tão colorida.
— Daria pra ver se tivesse algo escrito, né… — Lucy disse.
Yosano concordou, persistindo em limpar a folha. Os restos encerados se acumulavam como cascas de lápis. Ela trocou o bisturi por uma espátula, e o trabalho foi a jato.
Sobrou uma camada impermeável fina. A cor do papel era quase a mesma.
— Meu veredito… — Yosano suspirou. — É que não tem nada, de fato.
— A gente pode tirar isso aqui? — Lucy apontou para a máscara.
— Ahã. Duvido que tenha bactérias mortais agora. Levem a máscara pra casa, dura trinta usos. — Yosano pôs a folha numa bandeja metálica. — Isto aqui vai pra cozinha.
— Cozinha? — Atsushi removeu os óculos e máscara. Pra quê? Ferver a folha? — Achei que tivesse desistido.
— É mais fácil tirar parafina fria. — Yosano jogou a touca no lixo e entregou a bandeja. — Ponha no congelador, já vou.
Atsushi e Lucy se entreolharam, deram de ombros e acataram.
A bandeja foi direto à geladeira. Havia chá pronto na garrafa. Duas xícaras ajudariam a passar o tempo.
Lucy se recostava à parede, bebendo em paz. Ela deve estar cansada de café. O instante extra observando-a durou o quanto durou; Atsushi se fez olhar para lá. E se eu contasse que…?
E se não contasse? Provavelmente, nada mudaria. Ainda se veriam, convivendo, conversando, trocando farpas que aprendera a revidar. Dividiriam o espaço-tempo a uma distância segura. Tudo bem se assim fosse. Não precisava de nada além. Talvez eu queira… e daí? Importa se eu quiser? Em tese, importa, mas…
— Tá silencioso lá fora — Lucy disse. — Bem que você comentou.
— É, né. — Atsushi bebeu da xícara. — Aliás. Tem uma coisa…
— Hm?
— Só me ocorreu agora. Uma folha impermeável… Não é engraçado?
— Sim, tipo. Fiquei me perguntando pra quê.
— É como se o remetente soubesse que eu ia levar pra desinfetar.
— Tem razão, eu acho. — Lucy pôs a mão no queixo. — Desinfetantes são quase sempre líquidos, e sendo um papel…
— Bem isso. Seja quem for, sabe quem trabalha aqui. — E sabe que temos uma médica.
— A máfia caçando encrenca, será? — ela perguntou. — Ou mantendo você no escritório.
— Encrenca, eles caçam pessoalmente. — Atsushi riu de nervoso. — Se querem me prender aqui, ficar me enrolando ao telefone já resolve.
— Nem saberiam que horário chega, né…
— Se fosse a Divisão, seria uma carta mais… “oficial”. Mesmo pra mentir ser deles.
— Talvez um stalker de vocês. — Lucy terminou o chá. — Se foi um funcionário, a pessoa se fez de desentendida.
— Difícil saber, faltando gente.
— Quais as chances de ser a médica? — ela sussurrou, aproximando-se. — O presidente? Achou alguém suspeito?
— O presidente, não. Yosano-san… também não. Ela sabia desinfetar tudo, mas não achei “suspeita”. Eu escuto, lembra? O coração e tal.
— Só lembro se vir as orelhinhas.
— Credo, não.
A porta da cozinha trouxe Yosano, que suspirava de cansaço.
— Pronto. Limpei a sala toda — ela disse. Ufa, quase. Falamos dela agora. — Mereço um intervalo. Já viram a folha?
— Deixei lá — Atsushi respondeu. — Abrir toda hora atrapalha…
— Verdade. — Yosano também serviu chá. — Que cartinha misteriosa.
— A gente acha também. — Lucy lavava a própria xícara. Qual é, não fale por mim. — Alguma teoria?
— Mais ou menos. Já vi uns “mistérios” feitos em casa — Yosano comentou. — Nada incrível, sabe? Limão vira “tinta invisível”. Ou passar lápis no papel pra ver as marcas.
Parece legal, tá? Ele disse:
— Coisa do Ranpo-san?
— Isso. Ideia dele, a maioria. — Yosano tomou chá. — Foi quem me ensinou o truque da parafina. Mas ele não te mandaria uma carta em branco. Sei lá. Só pra te incomodar?
— Concordo. — Atsushi se serviu de outra xícara. — O que ele tá fazendo, será?
— Ele não disse. — Yosano deu de ombros. — Justo quem ia resolver rápido…
Clube dos curiosos: três membros. Ele perguntou a Lucy:
— Que horas são?
— Duas e meia. — Ela baixou o pulso com o relógio. — Dez minutos da folha lá.
— Deve ser suficiente. — Yosano abriu a geladeira. — A bandeja de metal colabora.
— Não tô muito crente de ter algo escrito — Lucy disse. — Já quase dava pra ver a cor original.
— Não custa tentar… — Atsushi recebeu a bandeja e espiou o conteúdo. — É. Não tem nada mesmo.
Uma pena. Com as pontas dos dedos, beliscou o papel para virar. Vai pro lixo, afinal.
A exclamação deles ocupou a estreita cozinha.
— Tem algo escrito! — Yosano disse.
— Mas não tinha nada — Atsushi completou.
— Dá isso aqui. — Lucy achou uma espátula de bolo no escorredor. — Resolvo pra já.
Ela raptou a bandeja e pôs na pia. Raspava furiosamente a parafina. Um de cada lado, os outros dois espiavam. A letra parece azul. Não é um brilho de habilidade… Como isso aconteceu?
— Chega pra lá, tá fazendo sombra — Lucy ralhou com ele.
— Daí, não enxergo nada. — Ele devolveu a encarada feia.
A porta abriu, trazendo o que soava como a Agência toda.
— Kyouka-chan! — ele disse. — Tem alguma coisa na carta.
— O que é? — Kyouka perguntou.
— A gente não faz ideia. Vem ver!
— Vai fazer mais sombra ainda… Ah, deixa. Só mais isso, e… — Lucy apontou a espátula ao alto, vitoriosa. — Feito!
Atsushi pegou a folha antes do pessoal. Todos se aproximaram tanto quanto possível, em silêncio tenso.
— Parece um poema… — Naomi disse.
— É meio esquisito. — Kyouka chegou mais perto. — Um haiku?
— Pode ser, sim. — Atsushi respirou fundo. — Vou ler.
“Doutora, olá!
Grato por me ajudar
A sair daqui.”
“Coberto de céu
Estrelado, como o breu
A dama pintou.”
“Tempo vai, e tempo vem
No salão que belas damas vão,
Vim me esconder.”
“A faca me abriu.
Para ouvir meu coração,
um gato o fará.”
— Não faz sentido — Lucy disse. — Parecem haikus tortos.
— Diz pra esfaquear alguém? — Tanizaki perguntou.
— Não, “a faca me abriu” — Kenji corrigiu. — Já aconteceu. O coração tá pra fora.
— Não dá pra fazer isso com o céu — Kyouka disse.
— Espera, espera, espera. — Atsushi endireitou as costas. Antes que falem de mais atrocidades. — Não parece literal.
— Mas “doutora” sou eu, certo? — Yosano disse.
A mente precisava reagir. Ao fundo, Kyouka e Lucy esclareciam o grupo do ocorrido. “Grato por me ajudar a sair daqui…” Atsushi recebeu o clarão da descoberta. Disse:
— Devem ser instruções! Levei a carta pra desinfecção e tudo mais…
— Os outros versos são passos seguintes, então… levam a alguma coisa. — Lucy apontou para ele. — Vou apostar que você é o gato.
— De novo isso? — Atsushi soltou um suspiro exausto.
— Não é repentino demais? — Naomi perguntou. — Pode ser uma armadilha.
— Pensei nisso, mas não acho. — Atsushi deixou a folha na bandeja. — Já teria machucado alguém se fosse.
— Querem avisar o presidente? — Tanizaki propôs. — Ele vai saber o que fazer. Ou ligo para o Ranpo-san…
Não, vai perder a graça. Precisava rápido de uma desculpa plausível.
— Ele já sabe — Lucy disse. — Falamos disso agorinha.
Obrigado, te pago em dobro.
— Tenho uma sugestão. — Kenji ergueu um braço. — Quem tiver medo de participar, volta pra mesa. Levantem o dedo…
Todos se entreolharam. Ninguém se manifestou.
— Então, a gente desvenda isso — Atsushi disse —, e volta ao trabalho depois.
— Que nome a gente dá pra coisa? — Yosano perguntou. — Acho que merece um.
— “Operação: Haiku” — Kyouka sugeriu.
Só porque o filme de ontem era “Operação” não lembro o quê. Atsushi respondeu:
— Esse nome é meio…
— Que tal “Caso do Haiku Anônimo”? — Lucy perguntou a ela. — Pra manter o padrão.
— É um pouco longo… — Naomi se intrometeu.
— Isso fica pra depois, não? — Atsushi disfarçou uma risada nervosa. — Vai que o poema some.
— Já tá sumindo. — Tanizaki apontou o papel. Os versos azuis se esvaíam. — Olha lá.
Droga. Olhando aos lados, Atsushi procurava… algo? Alguém? O que eu faço? Perguntou:
— Alguém sabe por que a carta tá apagando?
— Bruxaria — Kyouka disse. Não.
— A carta tá triste — Kenji disse. Também não.
— Tá esquentando, acho que é tinta térmica — Lucy concluiu.
É, deve ser. Atsushi voltou a bandeja ao congelador.
— Pronto — ele disse. — Dá pra pensar num nome agora. Alguma ideia? Sem ser “Caso” ou “Operação”.
— Ah — Lucy e Kyouka disseram em uníssono. Olhavam direto para ele.
— Só quero… ouvir as opções. — Atsushi se encolheu. — Nada pessoal.
— “Tem carta pra você” seria um verso de haiku — Yosano disse. — Mas não parece nome de caso.
— Um nome de livro famoso? — Tanizaki sugeriu. — Tipo… Hagakure. Kokinshuu. Jornada ao Oeste. Genji Monogatari…
— Pega algo dos versos — Naomi disse. — “Coberto de céu” é bonito.
A cozinha se ocupou de murmúrios. Discutiam a esmo, cada um com um palpite. Alguns serviam chá, outros assaltavam o pote de biscoitos. Títulos diversos eram o pingue-pongue do assunto. Não tô com pressa, mas vocês podiam se decidir.
— Não tem aquele… Iroha Uta? — Kenji pensava, de mão no queixo. O grupo atento se calou. — “As flores que brilham hoje caem um dia”…
O murmúrio voltou, indeciso. Opiniões rodopiavam como abelhas incomodadas. É, chega.
— Gosto desse do Kenji — Atsushi interrompeu a confusão. Houve silêncio, inteiro voltado a ele. — Mais ou menos. Se não for problema.
— Por que você aprova o nome? — Kyouka espremia os olhos.
— Título é o de menos — Yosano interveio. Muito obrigado, pago em triplo. — Fica “Iroha” por ora.
— Depois, a gente muda. — Atsushi sacou o celular. — Vou digitar o poema.
A escrita na carta reaparecia. São versos desconexos, mesmo. O que será que significam? Por ora, só precisavam caber no arquivo.
— Ué? — Haruno abria a porta, deparando-se com a cena. — Todo mundo aqui? O escritório tá vazio…
Naomi saltou até ela. Explicava rápido ao ponto do ininteligível. Haruno concordava com a cabeça, no mesmo entusiasmo que o resto. Clube dos curiosos, infinitos membros.
— Pronto — Atsushi disse. — Sugiro deixar a cozinha. Quase não cabe a gente.
O murmúrio foi positivo. Alguém puxou a fila para sair dali. Atsushi recuperou a carta da geladeira para um bolso e foi o último.
Seguindo a maioria, adentraram o escritório. A decisão unânime e silenciosa foi ocupar os sofás de visita. Eram cinco assentos para sete pessoas; Kenji e Lucy se acomodaram nos braços do sofá maior. Fico em pé na entrada, já que tô liderando a…
Calma aí… Todos se voltaram para ele. O líder sou eu? Um, dois, três segundos hesitando. Silêncio.
Tanto faz.
— Ok — ele disse. — Vamos pela hipótese de que são versos em código… certo?
— Eu apostaria que sim — Lucy concordou. — A “doutora” e o “gato” são os mais óbvios. Mas deve ter mais.
Haruno ergueu a mão. Disse:
— Pode reler?
— Ah, verdade. — Atsushi abriu o poema no celular. — As outras estrofes… “Coberto de céu, estrelado como o breu, a dama pintou. Tempo vai, e tempo vem, no salão que belas damas vão, vim me esconder. A faca me abriu. Para ouvir meu coração, um gato o fará.” Alguma ideia?
— Eu tenho — Naomi disse. — Primeiro, descobrir quem é quem. “A dama” deve ser alguma de nós cinco. E o tal do “salão”…
— A enfermaria? — Yosano pôs a mão no queixo. — Não… A sala é minha, não “das damas”.
— Viu algo estranho lá? Nos últimos dois, três dias… — Atsushi perguntou a ela. Yosano negou com a cabeça. — Não deve ser a sala de operação, também. Acabamos de voltar.
— E tudo normal no nosso banheiro. — Haruno suspirou, desanimando-se.
— Vamos… voltar pra “quem é quem” — Atsushi gaguejou. Parece errado mandar no pessoal. — Se “doutora” é a Yosano-san, “gato” sou eu e “dama” é uma das cinco… quem é a “faca”?
— Pode ser uma faca de verdade — Tanizaki disse —, não um de nós.
Kyouka pigarreou, reunindo todos os olhares.
— Hã… sim? — Atsushi disse.
Ela ergueu a faca do cinto. O grupo inteiro concordou no mesmo “ah”.
— Creio ser isso. — Atsushi gesticulou para ela baixar a faca. — Fora a Kyouka-chan e Yosano-san, três pessoas podem ser a “dama”.
— Aceita um palpite? — Haruno ergueu a mão. Atsushi assentiu. — Não acho que sou eu… Não tem motivo pra eu estar no enigma.
— Assim, sobram só duas. E a Lucy-chan não é da Agência. — Naomi ergueu um dedo. — Faz sentido se eu for a “dama”? É o que tudo indica.
— “No salão que belas damas vão”… “A dama pintou”… — Atsushi ergueu a sobrancelha, encarando o celular. — Não tem um ateliê no prédio.
— Não pintei nem desenhei nada. — Naomi ergueu as mãos em desistência. — Outro verso falava de noite, e tá de tarde. Sei lá…
Pense. Atsushi releu o poema. “Para ouvir meu coração, um gato o fará.” Essa parte é minha. Pelo menos aquela, decifraria sozinho.
Pouco teria a ver com batimentos cardíacos. Havia corações demais ali, e nenhum devia ser exposto com faca. A marca registrada do coração é o ritmo. Se eu fosse um barulho repetido, estaria oculto. Justamente de mim… que ouviria antes de a carta chegar.
Já sei!
— Acho que sei onde é o “salão” — ele disse. — Só não posso entrar. Kyouka-chan. Vá lá revistar o banheiro feminino—
— Eu? Por quê? — Kyouka inclinou a cabeça em dúvida. — Vai lá, não tem ninguém.
— Não tem problema nenhum. É só pra procurar pistas, né? — Lucy se virou para Kyouka, as duas concordando. Sua opinião não conta. Você nem trabalha aqui! — Por mim, tudo bem.
— Verdade… — Yosano concordou com elas.
— Hã?! — Atsushi olhava para as outras. Nenhuma reação contrária.
— Finge que você é o faxineiro — Haruno sugeriu. — Não tem nada demais.
— Cinco votos a zero. — Naomi ficou de pé. — Parece que a tarefa é sua.
Lucy levantou em seguida; empurrava-o de leve em direção ao tal banheiro. Ranpo-san, Dazai-san, apareçam… Kunikida-san, por favor… Qualquer um, só me salve daqui!
Diante da porta, Atsushi ergueu a cabeça. Mal respirava e engoliu em seco. Não tem problema, não tem problema… Rezava a frase ao baixar a maçaneta.
A configuração era diferente do outro banheiro. Havia duas cabines com vaso sanitário, não uma só. Tá tudo bem. É só um banheiro. Não tem ninguém. Precisava ignorar os murmúrios atrás dele. Fazer o que devia ser feito. Procurar o som repetido, mais nada. Pisou adentro.
Certo. Atenção… Atsushi fechou os olhos. Tomara que não esteja no vaso.
— Será que é uma câmera? — Naomi comentou ao fundo.
— Ouvi falar de uns casos — Kyouka respondeu.
— Cada tarado sem noção no mundo, né? — Lucy disse.
Atsushi cerrou os punhos. Não piorem! Alguém pedia que falassem baixo. As bochechas já queimavam a ponto de doer.
Houve silêncio por um momento necessário.
— Encontrei — ele disse. — Tá vindo de cima.
— Como é o barulho? — Kyouka perguntou.
— É um tique-taque. Bem longe, bem fraco… — Atsushi abriu os olhos. Então, arregalou-os. — Pra trás! É uma—
Kyouka o puxou pela camisa.
A espera amigável se tornou um lamurio preocupado. A porta do banheiro bateu, fechando-se. O Demônio da Neve o fez. De costas, era uma vista e tanto; a forma etérea, móvel, mas não viva, de espada em punho. Bloqueava a possível… explosão?
Nada aconteceu.
— Então… — Atsushi gaguejou. Enganado de novo. Não acredito. — Não é uma bomba?
— Melhor ter certeza. — Kyouka encarava a porta. O Demônio a abriu. — Vem do teto?
— Isso. — Ele concordou com a cabeça. — Não tinha nada estranho nele.
O Demônio se esgueirou pela porta entreaberta. Kyouka espiava, logo atrás, e disse:
— Realmente… mas olha a saída de ar.
Atsushi se espremeu ao lado. Lá dentro, o Demônio indicava o respiradouro metálico.
— Faltam dois parafusos na diagonal — Atsushi concluiu.
— Alguém deve ter mexido — Kyouka concordou. — Vou conferir.
Com a ponta da lâmina, o Demônio tirou os parafusos restantes. Eles caíram, tilintando no piso. Impressionante. Coordenar movimentos finos… Kyouka-chan teve um trabalhão pra aprender. Num puxão, o respiradouro saiu, e o Demônio se esgueirou para entrar.
Kyouka encarava a saída de ar em concentração implacável. Uma vez, numa noite sem sono, perguntara a ela. Depois de aposentado o celular, não a via conversar com o Demônio; por quê? Como funcionava?
A grosso modo, não era telepatia com palavras. Era pensamento puro, ela explicara, sem um idioma fazendo a ponte. “Você não pensa em mexer os dedos. Sua mão sabe o que fazer.” Tem lógica. É parte dela, só outro corpo.
— Achei — Kyouka disse. — Não parece uma bomba.
O grupo murmurava, tão curioso quanto. Agora me ocorre… Na outra vez da “bomba”, a Kyouka-chan não tinha chegado. Todo mundo me enganou. Por um bom motivo, mas… Atsushi evitou olhar para Kyouka. Será que é encenação de novo? Uma surpresa pra mim? Nem é meu aniversário.
O Demônio voltou com algo nas mãos. Flutuando, pôs-se diante de Kyouka, entregando o objeto a ela. Então, evaporou, aguardando ser chamado.
— É esse negócio. — Kyouka estendeu a placa metálica azul para o grupo ver. Todos se admiraram em uníssono. — Tem um despertador colado. Parece velcro…
— “Tempo vai e tempo vem…” “Para ouvir meu coração”… Isso explica! — Atsushi comemorou. — A placa tem velcro atrás?
— Não… — Kyouka virou do lado oposto. — Tem umas faixas magnéticas. Toma.
Atsushi pegou a bugiganga. O despertador era quadrado, de plástico verde, um modelo simples à pilha. Saiu do velcro com um puxão. Esses sempre têm o alarme mais chato do mundo.
Encostado no ouvido… só fazia o mesmo tique-taque.
— Será que o prêmio é esse? — Yosano perguntou.
— Que sem graça — Lucy lamentou. — Esse alarde pra ganhar um relógio.
Ou pra me fazer passar vexame. Atsushi entregou a Kyouka o despertador. Mas é elaborado demais pra ser.
— Alguma ideia? — Kenji disse. — Pensei em abrir o relógio.
— Boa pedida. — Atsushi coçou a nuca. — Mas é tão pequeno. Deve ser só um papel.
— E essa placa, hein? — Lucy bateu duas vezes no metal com a unha. — Pra que será?
— Pra esconder o relógio lá? — Atsushi entregou a placa a ela. No canto da visão, Kenji saía atrás de ferramentas. — Não grudaria sozinho nas paredes do túnel.
— É um azul bonito. — Lucy devolveu a placa. Cutucou a própria bochecha, pensando. — Que tinta chique.
Tem razão. Pontinhos de glitter fino refletiam no azul profundo. Não se vê uma cor legal assim todo dia. Kenji voltava com as ferramentas, e Kyouka cedeu o despertador.
— Se você tivesse organizado esse… — Atsushi se interrompeu para pensar. Sei lá no que a gente se meteu. — Isso tudo. Por que pintaria a placa?
— Não faço ideia. — Lucy suspirou. — Cada doido com a sua pancada.
— Se fosse só pra grudar o relógio, não teria velcro nas paredes? — Atsushi indagou a ela. — E não na placa. Daria menos trabalho.
Lucy deu de ombros. Atsushi girou a placa em todas as direções. Bateu nela com o nó dos dedos. O metal era inflexível. Seria boa para um muro exterior.
— Atsushi-san! — Kenji chamou. O grupo inteiro olhou para ele. — Abri o despertador. Não tem nada de especial.
— Ah. — Os ânimos de Atsushi se esvaíram um pouquinho. — Valeu a tentativa. Ainda funciona?
— Parece que sim. — Kenji fechou a tampa traseira do relógio e pôs no bolso frontal do macacão. — Mais alguma ideia?
O resto do grupo conversava trivialidades; foi o pano de fundo sobre o qual pensar. Atsushi reabriu a anotação digital.
Faltam alguns versos. O “gato” rastreou o som e a “faca” abriu a saída de ar. “Tempo vai e tempo vem.” Isso já foi. Estava no banheiro feminino, o “salão das damas”. Se a “dama” era Naomi, como ela mesma dissera…
Os Tanizakis falavam de ir às compras mais tarde. Naomi punha uma mecha de cabelo atrás da orelha. As unhas dela quase sempre levavam esmaltes da moda. E a cor de hoje é… Atsushi ergueu a placa. Uma “tinta chique”, né? Bingo. Ele a chamou.
— Hm? — Naomi olhou para ele em dúvida boba. — Que foi…? Ei, espera aí.
Ela saltou adiante e estendeu as mãos diante da placa. O rosto mudou de distração para epifania.
— Pessoal! — Naomi acenava. Todo mundo olhou. Ela exibiu as unhas. — Matamos a charada! Olha só.
— É verdade! — Yosano concordou. — É o mesmo esmalte. Como era o verso? “Coberto de céu estrelado”… coisa assim.
— “A dama pintou” de azul com glitter, afinal. — Naomi ergueu as mãos, rendendo-se. — Novamente, não fui eu.
— O prêmio é a placa… — Atsushi coçou o queixo. — Ainda não acho que faz sentido.
— Vai que é de ouro — Kyouka disse —, e pintaram pra disfarçar.
— Não… — Lucy tentou sem sucesso dobrar um canto da placa. — Pra um metal, ouro é muito mole. Só se for uma liga. E seria tosco pintar algo tão caro.
— A cor é linda… mas minha opinião não vale — Naomi disse. — E se a gente tentar limpar?
— Com espátula de novo? — Atsushi perguntou. — Pode arranhar, não?
— Nada disso. — Naomi sorriu astuta. — Tenho a coisa certa. Kenji-kun, empresta uns panos?
Saíram atrás da caixa de ferramentas, Kenji dizendo “pra já”. Naomi abriu espaço na mesa, estendeu um jornal velho e pôs a placa. O grupo rodeou a cena.
— Agora… — Naomi puxou um frasco rosa da gaveta. — Vai gastar um monte, mas faz parte.
— O que é? — Atsushi cochichou para Kyouka.
— Removedor de esmalte — ela cochichou de volta.
Naomi abriu o frasco. Atsushi cobriu o nariz com a mão. Produto fedido.
O pano bege que Kenji cedera se tingia de azul intenso. Naomi o aplicava, diligente, como se limpasse vidro. Ela pediu um segundo pano, que também saturou. O papel ao redor se manchava inteiro. Por baixo da tinta, aparecia o metal.
— Meu esmalte já era. Estava todo rachado, mesmo. — Ela suspirou de cansaço. — E… tem algo na placa. Ué?
O grupo inteiro se debruçou sobre a mesa.
— Tá em romaji… — Haruno disse. — Os outros estavam?
— Não… — Atsushi espremeu os olhos para a letra vermelha. — Mas dá pra entender.
“Hora de dormir.
Onde ninguém vai achar.
O quarto é só meu!”
— Ainda bem que não tem nomes de pessoas — Kenji comentou. — Não seria de bom-tom…
— Pode ser uma maldição — Kyouka disse.
Que papinho sinistro.
— Achamos outro haiku. — Atsushi sacou o celular para anotações. — Parece cada vez menos uma armadilha.
— Não sei, não. Já foi um bom tempo nisso. — Yosano ergueu a sobrancelha. — Não é pra distrair a gente?
— Teria jeitos mais eficientes, não? — Tanizaki disse. — E seja o que for… deixar haikus por aí é meio… bobo.
Pois é.
— Alguma ideia? — Atsushi perguntou.
— O primeiro verso faz pensar no dormitório. — Naomi limpava as mãos com removedor num terceiro pano. — Dar um pulinho lá agora é fora de mão.
Se nem aqui a gente tá trabalhando…
— Então, não deve ser. — Kyouka cruzou os braços. — O segundo fala de algo escondido.
— Ou alguém — Naomi completou. — Num quarto sozinho.
— E o vermelho? — Yosano disse. — Tinha um livro ruinzinho há uns anos com “o quarto vermelho”. Não era pra dormir… nem ir sozinho.
— Vamos supor que não seja nada assim. — Atsushi evitou encará-la com reprovação. O que você anda lendo? — Eu diria que é parte da pista.
— Ora. — Lucy sorria, erguendo um dedo. — Claro que é.
— Como assim? — Haruno perguntou.
— Um “quarto de dormir” onde “ninguém pode te achar”, nesse tom de vermelho? — Lucy apontou o próprio cabelo e pôs a outra mão na cintura. — O romaji só prova a hipótese. É a sala da Anne.
O grupo concordou em admiração pura.
— Não quer um emprego na Agência? — Kenji ofereceu. — Pode ser meio-período.
— Não tá falando mal do meu café, né? — ela brincou de volta. — Atenção, senhores passageiros: atravessaremos uma turbulência. Se necessário, agarrem o ombro da pessoa mais próxima. — Uma esfera dourada envolveu cada um. — Caso prefiram desembarcar, retirem-se alguns passos para trás em três… dois… um…
Atsushi fechou os olhos. Vamos lá!
Reabrindo-os… Cadê o chão? O corpo despencou de costas num sofá. Ela sempre faz isso.
Não havia exatamente teto a encarar. O céu rosa infinito era inalcançável. Atsushi se sentou, a cabeça girando um pouquinho.
Havia um perfume distinto. Cheiro de pelúcia velha, fruta, madeira e roupa guardada. Os sacos de café se arranjavam em colunas sobre pallets, entre móveis e brinquedos.
Antes, a Agência estava em… “silêncio”. O canto dos pássaros, um alto-falante de político, trânsito. Quando trabalhavam, as teclas, páginas virando, o zunir das lâmpadas. É muito calado nessa sala. Eu ficaria doido em uma noite.
O grupo olhava ao redor, impressionado. Nem todos tinham estado ali, menos ainda sob ameaça de não voltar. Lucy apresentava o local, agindo como guia de turismo. Os passos ecoavam, mas logo, o som morria. Como ela aguenta?
— Ali no canto, está a Anne. Diga “oi” pras visitas — Lucy falou com a boneca gigante. Anne acenou para o grupo. — Ela só ataca se eu mandar, fiquem tranquilos.
Mas definitivamente ataca. Atsushi se levantou.
— Quanto ao caso Iroha Uta… — Lucy girou nos calcanhares e apontou para ele com a mão aberta. — Passo a palavra ao anfitrião.
— Obrigado…? — Atsushi tateou o bolso atrás do celular. Não sei entrar na brincadeira. — Só tem um problema. A pista anterior era a mais recente.
— Sim, e? — Lucy perguntou.
— Não tem mais nada pra seguir. — Atsushi ergueu as mãos em desistência. — Perdidos de novo.
— Não se a gente vasculhar a sala — Haruno disse. — Deve ter alguma coisa. Que tal?
Não tenho que aprovar nada, mas…
— Tá — Atsushi concordou. — Cada um olha uma parte.
O grupo se dispersou. Ele e Lucy se entreolharam. Ela deu um passo para mais perto.
— O que acha que botaram aqui? — Lucy sussurrou.
— Algo bobo. — Atsushi guardou o celular. — Igual ao resto. A questão é “quem” e “como”.
— E “por quê”. — A expressão dela parecia aflita. — São três possibilidades. Eu mesma, o gerente… ou uma habilidade muito perigosa. Uma que viola regras de outras.
— “Descartar a hipótese” é muito forte, mas eu não teria medo. — Atsushi alongou o pescoço, jogando a cabeça para trás. Meu sexto sentido tá quieto, ao menos. — Não parece perigoso.
— O gerente não criaria um enigma por mal, mas ele não é muito de poesia. Vai ver fui eu, sem saber. Vou confiar em você, hein? — Lucy riu, descontraindo-se. Ei, valeu. — Bom, não vou ficar aqui parada.
— Nem eu.
Cada um se foi para um canto. Boa sorte.
O resto do grupo vasculhava locais de interesse. Abriam gavetas, arrastavam móveis, erguiam brinquedos. Alguns brincavam de vôlei com bolas infláveis, outros escalavam o mais alto possível. Ninguém avisava do progresso.
Só restava… nada promissor. Apenas os ignorados sacos de café.
Atsushi rodeou as três colunas. Cada uma tinha cinco sacas de trinta quilos. Nem um elevador carrega todas. Montgomery-chan é forte. O carrinho ajudava, mas não operava milagre.
A origem dos grãos constava, variando por coluna. De perto, o aroma coçava o nariz. Torra escura, média e clara, ela explicou. Cada um preparado de… O que é isso? Atsushi atentou os ouvidos. Vinha do chão; repetia e repetia. Tique-taque… Hmm.
Agachou-se para bisbilhotar sob um pallet.
— Pessoal! — O grito minguou no eco perturbador.
Atsushi apareceu por trás da pilha de café em torra clara. Acenava e chamava, o grupo virando a cabeça para lá. Vieram correndo, a maioria. Kenji abraçava um leão de pano, Naomi usava um chapéu de mago e Kyouka tinha um cachecol felpudo nos ombros.
Curvou-se de novo, estendendo o braço para baixo do pallet. Outra placa com outro relógio. A placa estava presa à madeira por uma cola fraca. Num puxão, a coisa toda veio.
— Aqui. — Atsushi se levantou, exibindo a bugiganga. A placa era verde, e o relógio, azul. — Oh, inverteram as cores?
— Ahã. — Kenji tirou o primeiro despertador do bolso; era verde. — Mas são do mesmo modelo.
— Não parece ter esmalte agora — Naomi disse.
— Verdade. É só verde, mesmo. — Atsushi despregou o relógio do velcro. — A mensagem tá gravada a laser.
— Romaji de novo? — Lucy perguntou.
— Não. — Atsushi pigarreou. — Vou ler.
“Cansaço bateu?
A alma pedindo café.
Quente, por favor.”
Um poema é mais esquisito que o outro.
— Café, então? — Haruno sugeriu.
— Pelo visto. — Atsushi deu de ombros. — Vamos sair—
— Deixa que eu resolvo. — Lucy suspirou. O intervalo acaba, afinal. — Comportem-se aí um minutinho.
Ela se envolveu numa esfera de luz e sumiu. Faz sentido. Vai andando, todo mundo vai junto.
Por desencargo, Atsushi pegou o celular. A boa surpresa foi captar sinal. Três pessoas saíram. Nenhuma notícia ainda.
Digitou uma mensagem na quarta conversa: “Tudo bem por aí? Só pra ter certeza.”
Visto por último há duas horas. Kunikida-san nunca trocou essa foto de perfil. Não que ele tenha mudado muito.
O celular nem apagou nos trinta segundos.
“Ainda demoramos um pouco”, Kunikida respondeu. “Tudo sob controle?”
O reflexo dos óculos na foto cortaria até vidro. Junto ao status de online, quase impediu a mentira.
“Tudo normal”, Atsushi digitou. “Até meio parado.”
“Ótimo. Tivemos um imprevisto, nada grave. Avise se precisar.”
Atsushi enviou uma figurinha de “OK” e travou a tela. Eles iam se divertir também, acho.
O mesmo brilho de pouco antes o rodeava. Fechou os olhos, curtindo a viagem; um elevador para a realidade.
O tal elevador o despencou na poltrona do café.
— Chegamos — Lucy avisou. — Escolham os pedidos, já vejo tudo.
De novo isso. Atsushi se sentou. Mais cedo, a cliente afobada ocupava aquela poltrona. Ela devia ter ido embora. Além de Lucy e a outra funcionária atrás do balcão, só membros da Agência estavam ali. A porta tinha a placa de “aberto” virada para dentro. E a de “fechado” tá pra fora. Boa, Montgomery-chan.
— Toma. — Kyouka estendeu uma comanda e uma caneta. Estava de pé ao lado da mesa. — Já escolheu?
— Não. — Atsushi pegou o papel. — Pediu o quê?
— Cappuccino. — Kyouka se sentou no sofá oposto. — Não tomo faz tempo.
Atsushi anotou o mesmo. Zero criatividade.
— Bom é que é barato — ele disse. — Vou ter que pagar.
— Não costuma ter? — Kyouka franziu o cenho.
Costuma. Eu e minha boca grande.
— Pago na sexta — ele mentiu. — Melhor que andar com dinheiro.
Duvido que ela acreditou. Kyouka fez pouco caso, olhando pela janela.
— Tá livre? — Naomi gracejou, apontando o sofá onde Kyouka estava. Agarrava-se ao braço de Tanizaki. — Deve caber todo mundo.
Se vocês dois ficarem perto, igual sempre, sim. Kyouka se arrastou ao canto, abrindo espaço. Do mesmo lado, Haruno ocupou a ponta do sofá; indecisa, ela trazia um cardápio. Kenji apareceu pedindo licença ao lado de Atsushi. Yosano veio por último, conferindo o celular.
Alguns pedidos eram lançamentos do café. Chá de frutas, Irish Coffee, espresso com laranja… Inovam todo ano. E a variedade sempre foi boa. Lucy recolheu os pedidos e pôs mãos à obra.
Atsushi continuava com o despertador. Vinte pras quatro… Não trabalhar naquele horário era uma folga desconexa. Fácil de aproveitar, mas parecia errada. Não é a única coisa.
Enviar enigmas supunha encontrar detetives. Os mais capacitados nem estavam lá. O stalker deve estar decepcionado, ou é parte do plano. A intuição sempre estivera em paz. Se duvidara, tinha sido racional. Enxergar além das aparências era o protocolo.
Lucy apareceu com cappuccinos. O “não se preocupe” a ela fora parcialmente sincero. Acreditara, provável que sim. Pânico só atrapalharia.
A xícara sempre chegava escaldante. Kyouka quis brindar. Um hábito bobo, iniciado em casa, celebrando as menores coisas. Meio sachê de açúcar para cada bastava.
— Não é uma boa hora pra conversar? — Kyouka perguntou.
— Vamos seguir o fluxo. — Naomi puxou a fatia de laranja cristalizada da xícara. — Se surgir o assunto, a gente fala dele.
Não adianta forçar. Então, vamos.
E não se falou de nada específico.
Lucy apareceu com mais pedidos. Colheres rodopiavam em xícaras, o trânsito aumentava na rua. Pouco havia a acrescentar ao papo. Mas tudo bem.
Dedução exauria a mente. Tal qual abrir potes difíceis, podia ser falta de jeito, não força. Em alguns casos, tempo. Os três eram preciosos. Usá-los bem era distinguir quando requeria o quê.
A quietude parecia inútil; não era. Como fermentar pão ou envelhecer vinho, guardava a ideia. Punha a cabeça no lugar, regado a cappuccino, chá barato, água ou raios de sol. Aí, as peças se encaixavam sozinhas. O problema naquilo? Nenhum, em si.
“Nada de corpo mole”, dizia uma voz insistente. Sempre parecia um intervalo preguiçoso. O resto da Agência o fazia toda hora. Como argumentar contra “estar só” no grupo, fermentando pensamentos, não conversando? Por que soava errado?
É coisa da minha cabeça. Atsushi provou o cappuccino. Fermentava aquela ideia, de ser coisa da própria cabeça, há uns anos. Não precisava se explicar para uma voz fantasiosa. Fico a postos pra uma bronca. Se vier, estava pronto. Se não vier… perdi tempo e pareci um idiota. Sorriu, repousando a xícara na mesa. Com medo de tigres de papel.
À esquerda, baixaram o celular na mesa. Kenji só brincava com o açucareiro. Yosano-san…
— Tudo bem? — Atsushi perguntou a ela. — Aconteceu alguma coisa?
— “Não aconteceu”, eu diria. — Ela suspirou. — Ranpo-san falou contigo hoje?
— Não sei dele desde o almoço.
— Nem eu. Mandei mensagem e nada. — Yosano se reclinou no sofá, abraçando-se pelos cotovelos. — Nem um “tô ocupado” ou “tive um problema”…
Kunikida-san, ao menos, respondeu. Ele disse:
— Ele não vê o celular desde quando?
— A hora do almoço, mesmo. — Ela encarava o teto com suspeita. — Acho que tá tudo bem.
— O Poe-san da Guilda não saberia?
— Não quero incomodar.
Se algo acontecesse, o presidente avisaria. Atsushi tomou um longo gole. E se algo acontecesse com o presidente, eu nem estaria com essa cara humana.
— Zero ideias? — Naomi perguntou com desânimo. — A gente veio tomar café, mas…
— Todo mundo escolheu algo quente, até — Kenji disse. — O haiku dizia isso.
Verdade. “Quente, por favor”, e não me ocorreu nada… Só perceberam. Lucy os observava por cima do balcão, mexendo no celular. Toda ajuda é bem-vinda, tá?
— Pedir bebidas não parece a solução. Mas aplicar a temperatura em algo…? — Tanizaki sugeriu. — Nas placas, nos relógios, sei lá.
— Tinta térmica pega em metal? — Kyouka inclinou a cabeça ao lado.
— Não sei. Resfriar a carta funcionou aquela hora. — Atsushi tirou o papel do bolso. Nada aqui no momento. — E se estiver na mesma folha?
— E pra esquentar papel? — Naomi franziu o cenho. — Fogo queima, água dissolve.
— Calor corporal? — Yosano bebeu chá. — Se causar uma febre em alguém, talvez…
— Estava no meu bolso até agora. — Atsushi negou com a cabeça. Minha temperatura já é uns trinta e nove graus. — Numa chapa metálica… acho que dá errado.
— E agora? — Haruno perguntou. — A gente não devia voltar lá pra cima?
O grupo desanimou em uníssono. Não. Longe demais pra desistir. Mais um gole no cappuccino teria a resposta. Ou o fundo da xícara. Ou… Tem que ter um jeito. Senão…
— Pessoal? — Lucy acenou de longe. Todos se calaram, virados para ela. — Dá a folha. Sei o que fazer.
Num momento, estavam aglomerados no balcão. Atsushi entregou a carta, perguntando:
— Qual o plano?
— Pesquisei aqui. É grande a chance de essa carta ser de plástico. Pra descobrir… — Lucy acendeu a base de chama da cafeteira e arrastou para o lado. — É só pôr fogo num canto.
Bizarro.
— Mas os dois queimam. — Atsushi ergueu a sobrancelha. — Que diferença faz?
— Plástico não vira cinza tão fácil. E é outro cheiro… Ah, é toda uma coisa. — Ela desdobrou a folha, aproximando uma ponta do fogo. — Aqui vai.
A folha se encolhia, derretida pela chama.
— Plástico! — Haruno disse. — É plástico!
O grupo repetiu a exclamação dela.
— E é isso. — Lucy apagou a chama na torneira e deixou a folha na pia. — Também sai água quente da pia. Vamos ver, vamos ver…
Debruçaram-se todos. Se não for isso, nem sei mais. Precisavam se acotovelar pelos melhores relances.
A folha resistiu à queda morna. Mais versos, mais comemorações. Isso!
— Cuidado agora… — Lucy recolheu o “papel” usando um pano de prato. Entregou a Atsushi. — Faça as honras.
Ele segurou por onde podia. Letras verdes agora. Azul, verde… Tem uma tendência.
“A chuva sumiu
Neve lá fora. Por quê?
Meu gato não quer.”
“Encontre-me lá
Bem no sopé da montanha
Terá que erguer…”
“Volte pra me ver
Onde mora aquela dama
De outro país.”
— “Gato” — Atsushi disse. Não gosto desse jogo. — “Dama de outro país” só tem uma.
— E eu já apareci… — Lucy se cutucou com o indicador. — Alguma pista obscura, será?
— A anterior era mais obscura — Kyouka disse. — “Montanha” seria alguém?
— Talvez. — Atsushi digitava nas notas do celular. Antes que suma… — Apareceu só agora.
— “Neve” e “chuva” também. — Tanizaki se recostou no balcão. — Todos a ver com natureza—
— É verdade! — Naomi interrompeu. — “Imbatível contra a chuva”, né?
— Ah, faz sentido — Kenji afirmou. — Pode ser minha vez. Não fiz muita coisa ainda.
— Se estiver sem fome, resolvo isso já — Lucy disse.
Recapitulando: “gato” é a piada sem graça, “dama de outro país” só tem uma estrangeira. A “chuva” seria o Kenji-kun. Lucy zanzava atrás do balcão, preparando um espresso.
— E se “montanha” for um lugar? — Yosano sugeriu. — Os outros são “pessoas”, tipo “dama” ou “doutora”… ou objetos e animais.
— Tem razão. — Atsushi franziu o cenho. Tem “quarto” e “salão” nos outros haikus. — Se falam de lugares, são lugares, mesmo. Onde seria? O topo do prédio?
— A “dama de outro país” não mora no topo do prédio. — Lucy serviu um espresso com gelo a Kenji. — E é o “sopé”. Não moro mais na sala da Anne. Mas aposto minhas fichas que é lá. A “montanha” deve ser uma pilha de coisas.
— E tem várias pilhas de várias coisas — Haruno disse. — Nem deu tempo de ver tudo.
— Senhores passageiros, et cetera e tal. — Lucy se espreguiçava quando a luz dourada os envolvia. — Tomara que ninguém veja.
Atsushi fechou os olhos. Reabriu-os, cercado de cor-de-rosa. Pronto pra queda número três…
O corpo afundou em pelúcia elástica.
Dá pra cochilar aqui. Rolou-se de lado. Era a barriga branca de um coelho azul. O pessoal, injustamente, descera seguro no chão. Atsushi escorregou na pelúcia sedosa para encontrar o grupo.
— Não é esse bicho a “montanha”? — Kenji perguntou.
— É um bom candidato — Atsushi disse. — Viramos pra ver?
— Não, deixa comigo. — Kyouka apontou de baixo para cima. O Demônio da Neve surgiu diante dela. — Só levanta a borda do coelho.
Atsushi e Kenji assentiram um ao outro. Segurando na lateral da pelúcia, ergueram o suficiente. O Demônio da Neve se esgueirou até sumir, espremido por peso que mataria alguém. Kyouka, abanando a cabeça, encarava o coelho.
— Podem ir ver o resto — ela disse. — Vai demorar um pouco.
Debaixo de onde estaria o eu-lírico? Ali mesmo, sob a pelúcia? A própria Anne? A cela onde guardar vítimas? Brinquedos aglomerados? A sala não tinha montanhas, só pilhas de coisas. Pilhas?
Sem pedir licença, Atsushi se afastou do grupo.
Pisando macio, voltou às colunas de café. Pra mim, parecem pilhas. Havia algo sob uma delas antes. Por que haveria uma segunda coisa? E por que não?
Olhando para trás, Kyouka dava de ombros lá longe. Se mandar a gente tomar café foi uma pista, tem que ser aqui. E se era “no sopé da montanha”…
Agachou-se diante da coluna central, a da torra média. Nada estranho, sob nenhum dos pallets. Os últimos sacos de cada pilha eram normais, de juta trançada. Atsushi tateou o correspondente da pilha de torra escura.
Não tem café aqui.
A superfície era dura ao bater com o nó do dedo. Uma mão forneceu-lhe a garra. Com ela, rasgou o tecido. Havia metal embaixo. É isso!
— Achei! — ele anunciou, com todo o fôlego. — Achei alguma coisa!
O grupo vinha correndo. Se tinha que “erguer”, dizia o poema, tiraria aquilo dali. Trinta quilos eram pouco; fosse para Kenji esfomeado ou as patas do tigre. Ajudaram-se mesmo assim.
O último pacote ficou sobre o pallet. Revelou-se um papel colado no rótulo. Com todos em volta, restava ler a mensagem.
“Ser? Talvez não ser?
Quem eu sou? Quem é você?
O que tem aqui?”
— Realmente. — Naomi pôs a mão no queixo. — O que tem aí?
— Uma bomba? — Kyouka perguntou.
Outra piada sem graça. Atsushi abraçou o pacote falso. Lucy trocou olhares com todos, estalou os dedos e estavam de volta.
— Volto pra explodir na sala da Anne, se for. Mas teria cheiro de pólvora. — Atsushi se ajoelhou, pousando a caixa aos próprios pés. Que milagre. Aterrissei no chão. — Será que rasgo o pacote?
— A postos, chefe. — Lucy abanou uma mão descrente. “Chefe”? — Vai, abre o negócio.
Os murmúrios do resto também eram “abre, abre”. Então, tá. O indicador afiado cortou de cima a baixo. Num puxão, apareceu mais do conteúdo.
Era um baú metálico prateado. Lembrava uma caixa de ferramentas, ou maleta onde carregar quantias astronômicas. Não tinha cadeado, trinco, nem buraco de chave. Correntinhas prendiam a tampa na base, uma para cada face. Eram justas, mas finas. Fáceis de arrebentar. Pinçando cada uma, Atsushi se livrou delas.
Não batia um coração. Ouviriam cair um fio de cabelo. A outra garçonete parara de polir um copo. Se ela os julgava, tudo bem. Estranho era o dia na Agência em que não acontecia nada. Hora da verdade.
Abriu a tampa.
— Envelopes? — Kenji disse.
— Parece. — Kyouka se ajoelhava também. Pegou um deles para examinar. — É igual ao do correio?
— O papel é da mesma cor — Atsushi respondeu. — Mas são mais compridos. Também não tem selos…
— Parecem de dinheiro. — Kyouka exibiu o lado com algo escrito. — Hein?
— “Junichirou e Naomi Tanizaki”… “Convite”? — Atsushi murmurou. — É pra vocês.
— Ei, conheço essa letra! — Naomi pegou o envelope. — É até a tinta que ele usa.
É verdade.
— Kunikida-san, não é? — Tanizaki fez que sim. — Não tem como ser de outra pessoa.
Espera, foi obra dele?
— Tenho um no meu nome também — Lucy disse —, mas é outra caligrafia.
Convite de quê?
— Deixa ver. — Haruno conferiu o envelope de Lucy. — Ah, a letra do Dazai-san. É até bem legível, né…
Foi obra dos dois?!
— Já que nada explodiu — Kenji disse —, posso abrir o meu?
Um sino e um “claro que pode” vieram da entrada. Todos olharam para lá.
— Eis o tesouro. — Dazai se apresentava de peito estufado e mãos nos bolsos. — Bem a tempo da entrada triunfal. Gostaria de parabenizar pela—
— Licença — Kunikida disse atrás dele.
— Que é? — Dazai encarou de volta, com um sorrisinho.
— Quero entrar.
— Pois entre.
— Só tem uma porta, e tá semiaberta — Kunikida disse. — E o senhor é sólido.
— Dois corpos não ocupam o mesmo lugar… et cetera. — Dazai se arrastou para o lado. Kunikida entrou no café. — Posso voltar pro discurso? Passei um tempão preparando.
— Você nem queria fazer um discurso. — Kunikida olhou torto. — A ideia foi minha.
— Acabou me convencendo, ué. — Dazai deu de ombros. — “Faça direito, ou não faça”, não era isso—
— Vocês vão se casar?! — Lucy interrompeu.
Ela abrira o envelope e tinha o convite na mão. Dazai e Kunikida se entreolharam. O grupo se entreolhou entre si, e se surpreendeu em uníssono.
— Bom… quase. — Kunikida riu, expulsando a tensão.
— Desde quando vocês estão juntos?! — Tanizaki perguntou, no mais puro choque. — Eu não fazia ideia.
— Quanto tempo faz? — Dazai lançou a Kunikida um olhar de dúvida. — Uns dois anos? Dois e meio, quase.
— Coisa assim — Kunikida confirmou. — Esse ano é o terceiro.
— Você sabia? — Kyouka perguntou a Kenji. Ele negou com a cabeça. — Também não…
— Nem eu. — Naomi se cutucava na bochecha, igualmente pensativa. — Todo dia, uma novidade.
— Sério? — Yosano segurava o riso. — Não dava pra perceber?
Hã… Dava? As tramas de novela. Pedidos de conselho em programas de rádio. Fofocas bisbilhotadas na rua ou esperando o trem. Sim, dava.
— Eles sempre brigaram igual um casal — Atsushi concluiu. — Não foi?!
— Exatamente! — Haruno concordou com ele.
— Olhando em retrospecto… Até antes desses dois anos e pouco — Atsushi disse a ela. — Já era assim quando cheguei.
— Antes disso, era igual. Pior! Você não faz ideia. — Haruno se empolgava a cada frase. — Pareciam duas crianças de primário. O escritório não tinha um minuto de paz.
Atsushi parou de ouvir a conversa. Avistara Lucy no grupo. Permanecia no lugar, compenetrada numa ideia profundíssima. Espremia os olhos, cruzava os braços e a cara era tão severa que assustava.
— Que foi? — Atsushi perguntou.
— …Você não entenderia. — Lucy riu de nervoso. — A gente não devia dar atenção pra eles?
— Vou deixar o discurso pra lá. — Dazai abanou uma mão. — Se alguém tiver perguntas…
— Como sabiam que a gente achou o baú? — Atsushi coçou a cabeça.
— Bem observado. — Dazai estalou os dedos. Ei, obrigado. — Tem escutas nos despertadores… Sorte nossa que não desmontaram.
— Precisa ir bem-vestido? — Kyouka disse.
— Não, pra quê? — Dazai disse. — É na prefeitura.
— Aqui, por favor. — Tanizaki erguia o dedo. — Vocês vão se casar, tipo. Mesmo?
— É um certificado de parceria — Kunikida respondeu. — Não é exatamente igual.
— Se precisarmos, eu te adoto. — Dazai sorriu para ele. — É a solução pra casos assim…
— Nem vem com essa cara. — Kunikida olhou para qualquer outro lado.
— Ah, se a gente pudesse… Imagine me adotar? — Naomi agarrou o braço de Tanizaki. Olhava para ele sem decência nenhuma. — Seríamos ainda mais parentes—
Tanizaki, em desespero, pedia silêncio. Mas vocês podem. Até casar, se quiserem. A gente só finge que não sabe.
— Eu queria perguntar uma coisa — Lucy disse. — Por que o café era a parada final? Foi por acaso?
— Foi de propósito. É quase parte da Agência, a esse ponto — Kunikida explicou. — Mais descontraído, no entanto.
— E o relógio? O baú na sala da Anne? — ela prosseguiu. — Coloquei lá sem saber?
— Provavelmente. — Dazai gesticulou para se sentarem às mesas. — Trocamos um dos sacos de café. Quem levou pra lá foi quem você deixou entrar.
A porta abriu de novo.
— Nem me convidam? — Ranpo reclamou, meio brincando. Depois, virou-se para trás. — Eu disse, tá todo mundo aqui.
— Imaginei que estivessem bem… — Fukuzawa entrou no café. — E a tal carta?
— As cartas. Como pode ver… — Atsushi riu constrangido. Indicou o baú aberto no chão. — Deve ter uma no seu nome também.
— E o meu? Ah, tá aqui. — Ranpo tirou um envelope da pilha. — O Poe-kun me prendeu num livro. Bem que achei esquisito.
— Foi difícil sair? — Yosano perguntou a ele.
— Não, só fui parar do outro lado da cidade. — Ranpo se sentou ao lado dela. — Mais de uma hora pra voltar.
— Você sabia das pistas? — Atsushi se sentou à mesma mesa.
— Não. Mas eu soube deles juntos faz tempo. — Ranpo, então, se dirigiu a Yosano. — Vi as mensagens quando saí…
Yosano dizia que “nada a ver” e “tudo bem”. Divagando, Atsushi observou o café. Fukuzawa encontrava o convite dele; delongava ao envelope um olhar que enxergava longe. No que será que ele tá pensando?
— Pois bem. — Kunikida levantou a voz, só um pouco, para todos olharem. Permanecia de pé. — O convite tem data e horário. Não precisam dar presentes, mas caso queiram…
— Posso levar bolo? — Kenji sugeriu.
— Deve. — Fukuzawa confirmou com a cabeça. — Se for um daqueles seus de mel.
— Deve mesmo. — Kyouka fez que sim duas vezes.
— Sem muito discurso, parabéns por acharem o tesouro — Dazai disse. — Foi divertido?
Entre “bastante”, “eu achei” e “quando vai ter outra dessas?”, Atsushi sorriu. Eles vão se casar… Parece tão óbvio. Uma daquelas verdades difíceis. Não de aceitar em si. Mas de fazer passar a atmosfera de sonho, por mais real que fosse o caso.
— Tem uma coisa que eu queria esclarecer. — Tanizaki hesitava. — Todo mundo teve um papel definido… Não sinto ter feito muita coisa.
Kunikida sacou uma página do colete. Disse:
— É porque sua vez é agora.
O papel brilhava. Mudou de forma, estabilizando-se num lança-confetes.
— Se puder complementar a chuva — Dazai pediu. — Não é a ideia sujar o lugar todo.
Tanizaki assentiu e ficou de pé. O Café Uzumaki se encheu de brilho. Papel-celofane, glitter, serpentinas. Cores tão vivas, livres das amarras da matéria. Existiam, se memórias fossem reais, e os sentidos também.
O lança-confetes estourou.
