Work Text:
“Você é um Kiramman, Caitlyn. Sempre lembre disso.”
As palavras de Cassandra dirigidas a Caitlyn naquela noite, eram um sussurro preso no passado, que ainda atormentavam Violet.
Os mortos não incomodavam, eram os vivos que sofriam com as lembranças.
Ela se perguntava às vezes, como Caitlyn aguentou crescer com esse peso invisível aos olhos dos outros, um sobrenome que remonta a grandeza e a perfeição mas que tinha um fardo tão pesado que mesmo Violet sentia seus ombros tremerem em dias difíceis – onde tudo parecia fugir do seu controle.
Mas ela era uma Kiramman agora. Ela não podia estragar isso.
Foi o que ela repetiu a si mesma enquanto atravessava o chão de ladrilhos em direção ao púlpito montado às pressas na frente da estação, para falar com os jornalistas sobre um acidente nas docas.
Como xerife de Piltover, isso também fazia parte do trabalho.
Uma explosão nas docas de um carregamento vindo de Noxus, alguns feridos e nenhuma vítima fatal. Mas se tratando de quem comandava a força… É claro que eles não davam a mínima para isso.
Suas mãos enluvadas se fecharam em punhos, seus tendões tensionados onde as mangas do uniforme não cobriam, ansiosos para esmagar alguma coisa, qualquer coisa.
Mas ela não podia fazer isso.
Ela era uma Kiramman agora.
Vi respirou fundo e obrigou seu corpo a sair do modo de combate.
Piltover não lutava de forma justa ou nobre, e ela precisava estar no controle para não deixar-se atrair para uma armadilha.
Afinal, as batalhas aqui em cima eram travadas com palavras e não com armas.
“Xerife, Xerife!”, os gritos e os flashes das câmeras nunca deixavam de ser um incômodo.
Piscando para acostumar seus olhos com a luz, Vi ajeitou seu uniforme e conferiu o microfone antes de apontar para a primeira pessoa que conseguiu distinguir. Um homem barbudo que tinha um chapéu de penas coloridas na cabeça se levantou. Seu caderno apoiado em uma mão e a caneta na outra.
“Sou Colin, da revista The Giant… Você não acha que esse atentado tem a ver com Jinx?”
Violet quis se estrangular com sua falta de sorte, ela conhecia essa revista. Um editorial cujas matérias só tinham o objetivo de lucrar com mentiras. A conspiração andava de mãos dadas com a ganância naquela empresa. O homem – Colin, pigarreou com a falta de decoro quando Vi não respondeu imediatamente, a xerife acenou com a cabeça.
Ela estava ouvindo mas ela precisava andar com cuidado na sua resposta.
O gelo fino poderia quebrar com o menor dos baques. Sua resposta diria se ela teria aliados entre eles ou colocaria todos eles contra si mesma.
“Olá Colin,” cumprimentou Vi, assumindo sua voz de apaziguadora, que foi treinada muitas e muitas vezes com seu professor de etiquetas, “Agradeço pela sua pergunta, assim podemos tirá-la logo do caminho. Primeiramente, não há indícios de que aquela explosão tenha sido um atentado. Apenas um acidente envolvendo uma carga perigosa, como você deve saber – visto que você aparenta ser um homem muito inteligente, o carvão é um combustível altamente inflamável que se não for manejado de forma correta pode ocasionar o que testemunhamos hoje. Uma explosão.” Alguns jornalistas colocaram a mão em frente a boca, rindo baixinho. Colin estava ficando com o rosto vermelho. Sua menção a sua inteligência – ou a falta dela, não passou despercebida.
Ela poderia ter compaixão por Colin se ele fosse um homem que estava desesperado por pagar suas contas e manter a comida na mesa, mas não era esse o caso. A revista dele sempre inventava as piores conspirações sobre sua irmã, apenas porque isso vendia. Ele era um homem montado no dinheiro às custas de mentiras sobre os outros.
Vi não precisava se conter. Ela só precisava apertar os botões certos de Colin e dar o empurrão final.
“Quanto a Jinx, “ Vi sentiu sua garganta arranhar de saudade culposa, mas suas palavras saíram tão perfeitas quanto antes, “Ela continua internada na ala psiquiátrica do hospital. Sob jurisdição do Conselho. Considerar o seu envolvimento com algo acontecendo do lado de fora – sem o conhecimento dos conselheiros, é tão absurdo quanto o fato de um jornalista não saber o paradeiro da pessoa que um dia, já foi a mais procurada de Piltover.”
E isso foi o suficiente.
Colin jogou seu caderno na direção de Vi, ultrajado com as contínuas ofensas veladas, – e Vi poderia ter desviado com facilidade do objeto mas porque estragar o show?
O caderno fez um barulho engraçado quando atingiu seu rosto, a parte dura da capa entrando em contato com o seu nariz sensível.
Ohh isso não poderia ficar melhor para ela.
A sensação quente do seu sangue escorrendo era familiar demais para Vi, que levou os dedos até o rastro de sangue, limpando-o calmamente.
O líquido carmesim desapareceu por completo na sua luva preta, mas contra seu rosto iluminado por flashes de câmeras?
Isso daria uma foto maravilhosa.
O silêncio que se formou poderia lapidar um diamante.
Olhares horrorizados foram jogados na direção de Colin, com a audácia suicida do seu ato imprudente. Ao que parece, alguns jornalistas ainda se lembram que ela não era apenas a xerife mas também, a esposa de Caitlyn Kiramman.
A porra da conselheira adjunta e herdeira da casa mais antiga de Piltover.
Ela sentiu uma vontade incontrolável de rir.
Vi sabia que não era dela que esses idiotas tinham medo – sim, ela poderia ser a xerife mas se ela não tivesse um nome por trás, Vi seria alvejada por críticas até que sua vida virasse um inferno e ela não tivesse credibilidade nenhuma fora da estação. Mas sendo uma Kiramman? Ela era intocável.
A única coisa da qual esses imbecis tinham medo era do poder da casa Kiramman, e Caitlyn… Bem, ela fez um nome para si.
Mordendo a língua para evitar perder esse momento glorioso que poderia acabar com a revista desse idiota, Vi fez um movimento para seus soldados que estavam apenas aguardando a ordem.
Os soldados correram na direção de Colin e o agarraram pelo ombro, arrastando seu corpo, nada gentilmente, para fora da área reservada para os jornalistas.
Ao longe, ela viu os pulsos do homem sendo algemados e ele sendo escoltado para dentro da estação.
Alguém dormiria na cela hoje.
Dando um pigarro e puxando um pano do bolso interno do seu casaco para limpar seu rosto o melhor que podia, Vi voltou sua atenção para os jornalistas que não pareciam saber como prosseguir a partir de agora. Alguns pareciam ansiosos; quase temerosos.
Ótimo, ela esperava que eles evitassem fazer um paralelo com sua irmã a partir de agora.
Puxando o microfone para mais perto de si, Vi sorriu amavelmente. Como se nada tivesse acontecido.
“Mais alguém?”
Depois de mais uma rodada de perguntas – onde todos mantiveram seu foco exclusivamente na explosão do navio, os jornalistas se deram por satisfeitos e foram embora.
Um incêndio foi aplacado por agora mas Vi sabia que não demoraria muito tempo para que as ações de Colin chegassem ao conselho. E um fogo muito maior seria criado.
Violet suspirou. Sua esposa ficaria assustadora quando descobrisse.
