Chapter Text
“Quem decide quem merece segundas chances?”
Um suspiro resignado escapou dos lábios de Caitlyn, sua mão segurando firme a peça em formato de navio que ela tinha jogado momentos antes de Vi entrar na biblioteca como um furacão exigindo respostas das quais Caitlyn teria sanado todas, se a outra mulher não fosse tão, tão…
Vi.
Nunca alguém a levou a tal estado de ebulição emocional, anos e anos sendo preparada para transitar entre a sutileza e a polidez para quê? Bastava uma pessoa – uma mulher , e toda a fortaleza que ela achou que tinha construído ao seu redor para resguardar suas emoções caia com um sopro, um mero e insignificante castelo de cartas.
“Quem decide quem merece segundas chances?”
Sua testa franziu, sua mente continuava revivendo as palavras de Vi, deixando um gosto amargo na sua boca. Um remédio difícil de engolir e do qual ela detestava.
“Ela mudou.”
Caitlyn balançou a cabeça fortemente e andou até o quadro de investigação, ela não tinha tempo para isso, ela precisava se concentrar em elaborar um plano para conter os avanços de Ambessa. Caitlyn não podia se deixar desviar do objetivo.
Assim como seu objetivo de matar Jinx? Que agora mesmo estava presa no bunker esperando por… Uma decisão que só viria dela como comandante?
Bastava uma palavra, uma assinatura com o símbolo da sua casa carimbada em um papel de ofício e Jinx não existiria mais. Uma execução tratada como uma mera formalidade, um acordo de um objeto cujo destino ainda não havia sido traçado; e não uma decisão consciente de indiciar um ser humano a sua aniquilação.
E por que? Porque ela tinha poder para decidir isso.
“O que aconteceu com seus pais?”
“Foram mortos por executores.”
Essa conversa entre elas, quando estavam se escondendo dos capangas de Silco na cidade baixa, parece ter sido em outra vida e ainda sim… Arranhava algo profundamente dentro de si.
Sua mãe estava a frente no conselho daquela época, assim como todos os outros. Não seriam eles os responsáveis por permitir que chegasse a tal ponto de ruptura? Culminando na repressão violenta contra os manifestantes? E no entanto, nenhum deles foi punido por suas ações que culminaram no massacre da ponte.
Naquele dia os zaunitas perderam quase tudo e Piltover… Não perdeu nada.
Vi e Jinx.
Dois lados opostos de uma mesma moeda.
Porra…
Cruzar os braços não era mais suficiente, esse mapa não tinha nada do que Caitlyn já não tenha calculado e reconsiderado tantas outras vezes.
Ambessa viria pelo canal que ligava as duas cidades, com sua frota de navios. Não existia uma grande distância entre essa rota e o Hexgate se eles conseguissem desembarcar.
Tempo.
Jayce lhe pediu tempo e Caitlyn daria um jeito. Essa bagunça começou por sua causa, nada mais justo do que ela mesma consertar.
O suave bater de dedos na porta da sala a alertou para a volta da sua oficial.
“Seu pai quer falar com você, comandante.”
Maddie Nolen.
De todas as pessoas na cidade para colocar na sua cama, ela teve que colocar a pessoa que trabalhava com ela? Caitlyn voltaria no tempo apenas para dar um tiro em si mesma.
Era óbvio que era uma ideia estúpida, tão estúpida quanto aceitar a intervenção noxiana em Piltover e Zaun. E como uma idiota, ela se deixou levar.
Maddie era fácil, prestativa e ansiosa para provar o seu valor. Seu entusiasmo atravessou a barreira do estupor de Caitlyn e ela aceitou sem questionar demais, então assim surgiu esse acordo entre elas, mais uma atividade para entorpecer seus sentidos e desviar o olhar das suas próprias ações.
A questão era que a garota não parecia entender – ou se recusava a ver, que Caitlyn não correspondia ao seu afeto. Mesmo quando ela disse que isso entre elas seria apenas sexo casual. Sem sentimento e sem pretensão.
Outro problema que Caitlyn trouxe para si por contra própria.
Assentindo para Maddie, ela caminhou para fora da biblioteca. Ela iria de encontro ao seu pai.
Um pigarro a fez parar na soleira, Caitlyn manteve a respiração calma e aguardou.
Ela tinha um palpite.
“Vi estava no seu quarto.” Aí está.
Uma afirmação não precisava de uma resposta, então Caitlyn não falou nada. Ela não precisava. E mais do que isso, ela não lhe devia explicações.
O barulho do relógio de pêndulo marcava preguiçosamente os segundos de silêncio entre elas. A tensão invisível no ar.
“Você nunca me levaria para o seu quarto… Levaria?” A voz de Maddie foi um sussurro frágil que partiria o coração de qualquer um que a amasse.
Mas Caitlyn nunca a amou.
“Não Maddie, eu nunca a levaria para o meu quarto. O quê é isso agora?”, argumentou ela sua testa franzindo em frustração,”Nosso arranjo era sem sentimentos, você mesma concordou com isso.”
“Mas você a colocou no seu quarto.” Reafirmou Maddie entredentes, seus punhos se fechando ao redor do corpo.
Caitlyn riu do quão ridículo isso parecia.
“Sim, é a minha casa.” destacou ela para o óbvio, a insígnia Kiramman estava em todos os lugares da mansão, ”Se eu quiser oferecer o meu quarto para alguém se recuperar então eu o farei.”
O rosto de Maddie se fechou imediatamente, seus olhos encontrando mais utilidade em desvendar o padrão dos azulejos no chão do que encarar Caitlyn, que a observava atentamente.
“Sim comandante, você está certa. Esta é a sua casa e eu nunca fui convidada para entrar.”
“Maddie…”
“Seu pai está esperando comandante, permissão para me retirar.”
Reconhecendo que foi a gota da água, Caitlyn acenou.
“Permissão concedida.”
Com um giro de calcanhar, Maddie continuou seu caminho pelo corredor, quando ela se aproximou da esquina seus passos vacilaram e ela parou.
“Eu entendo agora…” murmurou ela a contragosto, a resignação grudada nas suas palavras, “Vi nunca precisou de um convite. Você nunca deixou os portões trancados para ela.”
Com isso, ela voltou a caminhar, desaparecendo da vista de Caitlyn com a mesma rapidez que ela entrou na sua vida.
Se fosse outra pessoa, talvez Caitlyn sentisse seu coração ser apertado por um torno, e a cada passo que ela desse para longe seria mais uma respiração perdida e tirada a força dos seus pulmões.
Seus olhos ficariam úmidos sem a sua vontade e deixariam as comportas da sua alma se abrirem, solidificando e jorrando em forma líquida todos os sentimentos que ela nunca conseguiu expressar. Não com palavras e às vezes nem com ações, mas ela se importava profundamente e Caitlyn faria de tudo para que ela soubesse.
Para que ela quisesse ficar desesperadamente com Caitlyn da mesma forma que ela a desejava e ansiava.
Que ela não podia deixar que as coisas terminassem assim. Que elas não podiam desistir do que tinham juntas porque era algo tão raro – tão único e bonito, que ela choraria de dor se a perdesse. Que o buraco em seu peito nunca seria preenchido por mais ninguém porque caramba, ela tentou!
E não deu certo.
No entanto…
Maddie nunca foi essa pessoa, e nunca seria, então Caitlyn Kiramman não sentiu nada.
