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O chamado do telefone era como um sinal de basta que imperava pelos corredores vazios da delegacia. Interrompendo o olhar que sustentava o seu há alguns minutos eternos. Agora, com a vista livre, observava com atenção o restante do cenário. As mesas habitualmente bagunçadas, com pilhas e mais pilhas de papéis velhos e novos. O quadro de cortiça no fundo da sala, com o rastro de algum raciocínio não muito claro. Canecas sujas de borra, cedendo ao local o tradicional cheiro de café passado, combinado com o da tinta de impressora.
Já era tarde da noite e as persianas cobriam as janelas feitas de vidro temperado. Poderia gritar, espernear, mas não haveria ninguém para presenciar o seu showzinho. E mesmo que houvesse, na verdade, nem queria. Havia algo de familiar em estar atrás daquelas grades, dentro da pequena cela, a cela provisória para pequenos infratores de pequenos delitos. Não era ladrão. Muito menos um criminoso com o qual deveriam tomar o maior dos cuidados. Era um rebelde, e alguns poderiam até considerá-lo um rebelde sem causa. Mas ninguém mais conhecia os seus motivos além dele próprio.
Cuidava, com olhar discreto, o policial que há poucos instantes o encarava impassível e mudo. Conseguia ouvir, mesmo que pouco, uma parte da conversa ao telefone.
“Não conseguimos rastrear mais aquela senhora”. “O vendedor ladrão desapareceu, mas deixou todo o caixa, talvez como remissão”. “Parece que o mequetrefe se mudou, acho que para uma cidade vizinha”. O policial presente assentia, e, vez ou outra, acrescentava algum detalhe sobre os casos. Tinha o telefone apoiado entre a orelha esquerda e o ombro, com o fio enrolado perigosamente enroscado no braço do mesmo lado, segurava a folha sobre um armário médio, verde e metálico, enquanto anotava com a outra mão as informações que eram passadas. “Aliás, o que você ainda está fazendo aí?”. Aquela era uma boa pergunta, mas Baekhyun já conhecia a resposta.
— Prisão em flagrante. — O policial respondeu, e Baekhyun sussurrou a frase simultaneamente. O agente pesou o olhar de soslaio sobre sua figura outra vez, por cima do ombro. — É, tá sendo puxado, Senhor — comentou entre um riso frouxo, voltando-se para a folha de novo. O meliante ainda conseguiu ouvir a risada branda do outro lado da linha.
Prisão em flagrante, mesmo que seu crime não tenha sido nada tão epopeico. Aliás, nem um pouco. Aquele rótulo até o deixava quase orgulhoso, do mesmo modo como todos se sentem quando seus atos aumentam um pouco cada vez que são contados por aí. Com tantos sítios em Damarco Hill, sequer sabia que pegar emprestado alguns pedaços de madeira poderia ser considerado roubo. “Nas terras de ninguém sempre tem alguém”, ouvia por aí. Naquele caso, o alguém era um policial.
Deixou escapar sob a asa do braço uma das estacas de madeira, que eram comicamente pintadas de branco, e, quando se abaixou para juntá-la, deixou cair outra e mais outra. O barulho desordenado talvez tenha chamado a atenção do morador. Em poucos instantes o clarão da lanterna incidiu sobre o seu rosto, fazendo arder os olhos, que se fecharam em reflexo imediato. Tentou explicar que pretendia deixar as madeiras lá de volta, o que também foi ineficiente. E assim foi parar naquela cela, alguns minutos após ter de ficar aguardando algemado na varanda do agente, que numa urgência de vestir todo o uniforme voltou correndo para dentro de casa. Mesmo que, fora de turno, formalidades como aquela não fossem necessárias.
A camisa velha e cinza que o oficial vestia no instante em que o flagrou parecia-lhe cair tão bem que se alguém dissesse a Baekhyun que pessoas nascem vestindo roupas, ao se lembrar daquele sujeito, talvez fosse tolo de acreditar. Naquelas vestes desbotadas, junto de uma bermuda marinha de tactel igualmente surrada e com as maçãs do rosto rubras contrastando com os cabelos negros parecia, sim, muito verossímil. Mas o uniforme parecia igualmente intrínseco a ele. Desde a calça cheia de bolsos à jaqueta escondida sob o colete oficial, que continha um plaquete com seu nome, até os coturnos grosseiros evidentemente novos. Sehun, o policial, parecia tão próprio daquele ofício como era próprio de suas roupas casuais, que denunciavam a juventude escondida sob o posto que tinha.
Baekhyun dedicava alguns instantes daquela noite assim, analisando detalhes do sujeito. Então, percebeu de imediato quando ele cravou o telefone no gancho, gesto esse que fez um som reverberar pelo restante da delegacia. O agente se virou para ele mais uma vez. E encarou-o mais uma vez. Em silêncio, mais uma vez.
— Você gosta do meu rosto? — Fez graça.
O policial pareceu desconcertado, o olhar surpreso denunciando suas emoções. Correu os olhos pelo rosto do malandro, num movimento tão breve que poderia passar despercebido. Mas quando se tratava do olhar do policial, Baekhyun dificilmente deixava algum detalhe escapar. Seus olhos pareciam tão brilhantes, especialmente sob a luz fraca do recinto, que bruxuleava. Talvez pudesse tê-lo analisado como reflexo da pergunta, mas resolveu ignorá-la.
— Por quê você estava roubando as madeiras da minha cerca? — Cruzou os braços, aguardando pela resposta da questão imposta, com os ombros mais tensionados do que deveriam ser os de um policial. Baekhyun sorriu em uma linha fina e sutil, alguns fios do mullet escuro cobriam parte de seus olhos, e evitava tirá-los dali com frequência, porque se sentia um pouco ridículo por ter de levantar as duas mãos de uma vez, uma vez que estava algemado.
— É segredo — respondeu. — Guardado a sete chaves, sabe? — Sorriu, e, por uma fração de segundo, imaginou um sorriso se desenhando igualmente no rosto do agente. Uma lufada de ar fraca precedeu a resposta do outro.
— Então, Senhor Mistério… — Começou a falar. — Vai ter que passar a noite aí, trancado. A sete chaves, sabe? — Deu um passo à frente e balançou o molho de chaves na altura do próprio rosto.
— Até amanhã! — Baekhyun se despediu, mantendo a feição tranquila como o impossível, dado o contexto. Se Sehun achou qualquer coisa estranha, igualmente não demonstrou. Deixou somente uma luz acesa, uma garrafinha de água e um pacotinho de biscoitos à disposição do celado, e voltou para casa com suas estacas de madeira.

Uma cela cheia sem guarda não passa de uma cela vazia. Antes pudesse ter previsto qualquer brecha no sistema, pensava, e sentia o desejo rasgando o peito e o arrependimento arrebatando a mente. Sehun encarava a cela fechada e, pior, ainda trancada, sem entender como é que o patife poderia ter escapado. Era o primeiro a chegar porque, quase sempre, caía na cama junto com a lua e se erguia junto do sol. Quase sempre.
Fez o caminho até a delegacia pensando em como arrancar as palavras da boca alheia, como fazê-lo assumir seus planos. E, sobretudo, fazia o caminho pensando em como se blindar de possíveis comentários desordeiros. Conhecia o tipo. Era patife, muito patife. Daqueles que enchiam o saco com palavras, proferidas sem muito filtro ou razão, e estas eram sempre as piores, porque eram sinceras, até demais. Saíam com naturalidade estrangeira se quando comparadas com as palavras de polidez, ou aquelas comedidas pela moral.
Não havia qualquer sinal.
Nem de arrombamento, nem de clipes pelo chão, lixeira, nada. Não havia fio de barbante em lugar nenhum, palito, gancho ou lápis pelo metro quadrado antecedente à cela. Qualquer vestígio, pista ou rastro dos meios pelos quais o preso poderia ter escapado, havia sumido, assim como ele. Ou junto, quem sabe. E não saber estava corroendo a mente do pobre policial.
Já tinha tirado o colete pesado há algum tempo. Os cabelos, por mais curtos que fossem, eram uma pequena bagunça, resultado das mãos ansiosas que deslizavam pelo rosto e terminavam no topo da cabeça. Precisava de uma rabeira[1], só uma já lhe bastava, fosse o bastante para saber onde começar a desenhar o raciocínio. Do ponto em que estava, a única coisa que podia fazer era aquilo, surtar. E foi passando o tempo, numa manhã lenta, ainda era cedo quando o segundo oficial chegou.
— Cara, você tá péssimo — disse a Sehun, que estava com o rosto afundado na tela do computador mestre. O agente o encarou ligeiro, com um olhar um pouquinho alucinado, nada estoico como de costume.
— Um cara escapou — rosnou. O olhar cintilava para o outro, que o mirava de pé à sua frente. — Jongin, um cara escapou.
— Como assim? Tem um bem ali — Apontou.
E lá estava ele, inacreditável. Real, palpável, materializado, em carne e osso. Inacreditavelmente presente naquela cela minúscula. Com um sorriso ordinário e singelo. Como se fosse capaz de ler sua mente, de penetrar sua fúria, de engolir sua presença com a própria presença não anunciada. Estava lidando com uma espécie de Houdini, então?
— COMO?! — Foi em direção ao preso, a passos agressivos e pesados, esbarrando no colega pelo caminho, que assistia a cena em completa confusão. — Como você fez isso?
— Fiz o que? — Baekhyun perguntou, ainda sorrindo.
— Não se faça de idiota. Como que você sumiu e brotou, assim, do nada?
Deu de ombros. Sehun analisava, com a respiração ofegante, cada mísero detalhe do preso. As roupas eram as mesmas, tudo estava igual. Igualmente imaculado como a cela vazia de poucas horas atrás. Só podia estar ficando louco. Seus olhos colidiram com os dele numa de suas rápidas inspeções e, nesse momento, alguma coisa sentiu formigar. A mente? As mãos? A espinha? Era uma sensação, no mínimo, incomum.
— Deixa ele — Jongin interveio depois do que pareceu durar uma eternidade, mas o que provavelmente não passou de um instante. — Essa gente anda muito estranha, você sabe, todo mundo anda sumindo… — Começou a falar e, de repente, uma luz se acendeu na mente do policial. — Temos que falar sobre aquele assunto mais sério — sussurrou, levando Sehun para outra sala da delegacia. O assunto mais sério eram corpos mutilados, estripados, ou, porventura, encontrados já sem vida às margens de florestas que circundam as rodovias. Mas Sehun estava com dificuldade de pensar sobre aquilo naquele momento.
Mais tarde, voltou a ficar sozinho. Por pouco tempo, só até o delegado chegar. Doh Kyungsoo era o mais baixo dos oficiais, e o mais certeiro, e o mais temido. Com frequência o mais sério, mas só a cargo do ofício. Sehun já havia telefonado contando ao chefe a situação sem pé nem cabeça. Quando ele chegou, perto do meio-dia, a frase que soltou passou a ruminar profundamente em seus pensamentos.
— Mas esse aqui eu conheço — disse, encarando o encarcerado, confuso. — Byun Baekhyun. Já tem algumas horas de serviços voluntários nas costas. O que foi que você aprontou dessa vez, hein? — Se direcionou a Baekhyun, quase entoando a voz como se falasse com um cachorro. Quase. E ele, devolveu a implicância com um mero levantar de ombros. Não era mudo, longe disso. Mas julgava que algumas coisas não mereciam seu esforço de fala. Sehun olhava ainda mais confuso para o delegado.
— Como assim?
— Desobediência de natureza leve, dano insignificante de patrimônio, reincidência e habitualidade…
— Tecnicamente, esse último nem faz sentido. Nem foram tantas vezes assim, delegado — Baekhyun resmungou. Sehun o mirava outra vez sem emitir qualquer palavra. Ignorando a postura de oficial, no entanto, e transparecendo sua surpresa e sua curiosidade ao ouvir a ficha citada de cabeça.
— Bom, acho que sei como resolver essa situação — disse Kyungsoo. Pegou uma caneca para se servir de café e, com um sinal de mão, chamou Sehun para sua sala.
…
O zumbido suave e constante das hélices do ventilador de teto e o clic-clic dos movimentos ágeis do cubo mágico a ser resolvido eram os únicos sons que impediam o silêncio de predominar entre Sehun e Baekhyun naquele recinto. Sabe-se lá o que poderia explicar como conseguiam passar tantas horas assim, apenas se encarando. Ou fitando um ao outro em descompasso, como naquele momento em que Sehun se concentrava para resolver o brinquedo. Já haviam se encarado calados, por tempo que nenhum dos dois contou, e Baekhyun já havia deixado Sehun encará-lo, enquanto contava as grades da cela. Agora era ele quem o encarava.
Mais uma vez, o par de olhos da lei encontrou os seus, e, como em outras, sentiu uma espécie de espelhamento. Estranho, muito estranho. Mas curioso, tão curioso que o fazia querer estar naquela situação. Acompanhou, concentrado, o movimento alheio, enquanto o policial deixava o cubo mágico sobre a ponta da escrivaninha e puxava uma cadeira para se sentar mais perto dele.
— Segunda chance: por que você estava roubando as madeiras da minha cerca?
Baekhyun foi quem deixou escapar uma lufada de ar dessa vez. Se pudesse se enxergar, teria visto o brilho que cruzou o próprio olhar a partir daquela pergunta.
— Por que a razão te interessa tanto?
— Por que a resposta é tão secreta?
— Acho que não vamos a lugar algum assim, não concorda?
— Basta você responder. — Cedeu, como estratégia.
— Talvez eu só queira estar aqui.
Um riso desacreditado antecedeu a réplica. — Se tivesse dito isso ontem, eu provavelmente te acharia um idiota ruim de blefe. — Começou falando. — Mas depois da sua ficha, isso até que soa real. Infelizmente, vou ter que cortar o seu barato.
As sobrancelhas arqueadas quase de modo involuntário, e tão rápido como surgiram foram desfeitas, externalizavam a impressão que Sehun queria arrancar de Baekhyun: honestidade. Então, parte da resposta haveria de ser verdadeira. Se pareceu tão surpreso com a possibilidade de não mais ficar naquela cela, então alguma boa razão precisava ter para querer estar ali.
— Posso saber como? — Baekhyun perguntou, tentando soar indiferente. No entanto, uma sombra de curiosidade genuína escapou.
— Não fui muito a favor desse plano, mas ordens são ordens. Temos um caso maior rolando. Coisa que não é pra sua fuça, mas olha que engraçado: agora você tá metido — soou cínico no final. — Sábado é Halloween. O clube da cidade pediu reforços para a festa que vai acontecer à noite. Não sei se você ouviu falar sobre…
— Sobre os ataques? Sim — disse sério, pela primeira vez.
— É. Sobre eles — respondeu em tom soturno. — Enfim. Sua função basicamente vai ser a mesma que a minha, de guarda. Mas não sei se temos uniforme sobrando, ainda mais pra você... — Sehun não completou, mas Baekhyun compreendeu as razões para o incômodo: estaria num posto “oficial” como penalidade para o seu crime. Mesmo que momentaneamente. E, sendo sincero, não achava injusto o sentimento dele.
— Parece um inferno — deixou escapar.
O que Sehun só respondeu com uma risada espontânea. Sem amarras ou hesitações. Riu, porque aquele foi o exato pensamento que teve quando o delegado Kyungsoo lhe contou aquela ideia.

O diabo em um vestido novo estava bem ao seu lado.
Se antes eram razões pertinentes à mente ou coração para os olhares demorados, agora, no entanto, se prolongava olhando-o por razões de desconforto. Caminhavam sob o céu nublado, era fim de tarde e o horizonte parecia banhado em sangue com a luz do crepúsculo. Sehun observava, quieto e com a mão sobre a arma de choque, Baekhyun, que caminhava dois pés à frente. A cada três passos ele dava um pequeno pulinho. Não demorou até concluir que não gostava de como aquelas roupas oficiais ficavam bem no delinquente.
A cidade era pequena. Muito pequena. Poderiam pegar a viatura para ir até o clube, mas quem estariam enganando? Poucos minutos de caminhada eram suficientes para chegar ao local. Em Damarco Hill, tudo era um. Um hospital, uma delegacia, uma escola, um banco, um mercado, uma farmácia, um clube.
Quando foram chegando, não foi difícil reconhecer a batida marcada de Elephant que ecoava para fora do ginásio do clube, convidando os moradores da pequena cidade a sentirem a energia transformadora do Halloween naquele pequeno evento. Não sabia dizer se eram sintetizadores ou uma guitarra, o instrumental traçava uma linha tênue entre as duas opções, mas gostava de como aquela canção soava, de como chegava aos seus ouvidos com sensação de poder, de presença, de algum sentimento implorando para ser visto. Baekhyun gostava muito disso, na verdade.
Jongin e Kyungsoo já aguardavam na entrada, com os cães. Dois pastores-alemães, eram irmãos de ninhada que foram adotados pela delegacia quando ainda muito filhotinhos. Tinham heterocromia, uma anomalia para a raça, cada um deles com um olho azul em pares invertidos, como se completassem um ao outro. Rômulo e Remo. E adoravam Sehun. Toda vez que viam o oficial, pareciam perder os anos de adestramento, se comportavam como cães domésticos comuns, tentavam pular em seu colo e implorar por um pouquinho da atenção dele.
Sehun era dado a eles, retribuia toda aquela festa com carinhos em suas orelhas e pescoços. Agachou-se para tocá-los. Já tinham três anos, mas perto dele pareciam outra vez dois filhotes. Baekhyun ficou alguns passos para trás, olhando a cena com curiosidade.
— Só atacam sob ordem — Jongin comentou, indicando com a cabeça para que chegasse mais perto.
— Eu não levo jeito… Geralmente eles não gostam de mim — confessou, mas deu um passo à frente e esticou a mão. Remo percebeu o movimento, o encarou, e quando Baekhyun foi dar mais um passo, rosnou. O cão tinha agora os dentes à mostra, os olhos atentos e salivava agressivo.
— Ei, não, não — Sehun disse ao cachorro, fazendo carinho na cabeça dele. — Ele tá com a gente — falou, como se o cachorro pudesse entendê-lo.
— Eu disse — Baekhyun comentou, recuando.
— Me dá sua mão — Sehun pediu. Baekhyun o encarou por um milésimo de segundo em hesitação, mas voltou a esticar o braço para alcançá-lo. Sentiu como se o coração fosse pular para fora do peito quando Sehun segurou com força a sua mão. Levantou as duas, conectadas, e voltou a falar: — Viu, Remo? Tá com a gente!
Puxou Baekhyun pelo toque, que se aproximou quase em tropeço, desajeitado.
— Fica calmo, ele não vai morder você. Se ficar com muito medo ele vai farejar — Kyungsoo falou.
— T-tá.
Sehun desceu o toque para o pulso de Baekhyun, o dedo indicador ainda pousando sobre a palma dele, e guiou a mão alheia para o topo da cabeça do cão. Baekhyun riu daquilo, nunca na vida tinha conseguido fazer carinho em um cachorro ou gato, sempre fugiam dele. E, enquanto acariciava Remo, olhava discretamente para Sehun, que ainda agachado, estava quase abraçando o animal. Quando ele se levantou, se despediram dos oficiais para entrarem no ginásio.
A Sociedade Puglista de Damarco Hill tinha caprichado na decoração. Panos escuros cobriam as paredes, teias de aranha, abóboras e espantalhos decoravam os cantos. Mini-vassouras de bruxa estavam coladas nas cadeiras dispostas pelo salão. No teto, fantasminhas impressos davam a impressão de estarem entrando num cemitério. As pessoas chegavam em pequenos grupos, com fantasias criativas e cestos de balas. Os seguranças do clube estavam espalhados pelo evento, Sehun e Baekhyun só precisavam perambular por aí e colaborar com o número de guardas.
Se parecia com um baile de escola, mas era uma festa para toda a cidade.
— Se você tentar fugir, eu vou te dar um choque — Sehun resmungou para Baekhyun, encarando a multidão. Baekhyun, que tinha há poucos instantes um sorriso bobinho enquanto pensava nos minutos anteriores, desmanchou a feição num olhar confuso.
— Por que eu fugiria? — indagou. Sehun suspirou, e levou algum tempo até voltar a falar, sentindo o olhar do outro sobre ele.
— Você está cumprindo uma porra de pena, esqueceu?
— Falando assim, até parece que eu cometi um crime. — Voltou a sorrir.
— Você estava quase. Ia me roubar.
— Já disse que eu ia devolver.
–– Você não pediu emprestado.
— Bom, talvez eu quisesse ser pego. — Deixou escapar, e nessa hora, Sehun o encarou de súbito, mas com pouca alteração em seu semblante neutro. No entanto, o jeito que olhava para Baekhyun, fazia-o cogitar se ele o encarava daquele modo porque o entendia, um pouquinho que fosse.
— Por que?
Porque… queria ser encarado daquela forma. Queria tanto ser visto por ele, não sabia desde quando, ou por quais razões precisamente. Sehun tinha os olhos tão etéreos, tão esféricos, parecia arrancar cada um de seus segredos quando era encarado por eles por mais de três segundos, mesmo sem lhe dar nenhuma dica sobre as coisas que escondia.
— Meu sonho é ser policial — inventou.
— E, pra isso, você decide roubar? Não me parece um bom começo. Você tem sorte de não estar com uma coleira, não sei por que é que o delegado confia tanto na sua palavra — falou, voltando a olhar para as pessoas.
— Ele confia porque eu disse que seria um bom garoto.
— Você é estranho.
— Você também — Baekhyun devolveu, sorrindo.
E se calou, logo em seguida. Notava, pela forma que o policial se mexia, um certo desconforto da parte dele. Não era sua intenção que ele se sentisse daquele modo, mas acreditava no que tinha dito. E concordava com o comentário dele. Era estranho porque, mesmo sem conhecê-lo direito, tinha a impressão de que ele talvez pudesse ser o único a entendê-lo, se um dia viesse a lhe contar sobre a vida.
O fim da noite começou com um chiado que se parecia com o som de uma chaleira fervendo. Entretanto, alto o bastante para superar a banda, alto o bastante para superar o burburinho das pessoas. Junto dele, a porta dos fundos sendo aberta com força, batendo as aberturas na parede, fazendo ressoar o som do baque por todo o ginásio. O chiado foi se transformando numa rouquidão ainda aguda, mas que agravava conforme perdia força, dando a impressão de ser capaz de rasgar uma garganta.
A garota vestida de Chapeuzinho-Vermelho vinha do lado de fora do clube, bêbada, chorando e gritando de medo.
Alguns policiais começaram a correr naquela direção, depois que a garota berrou a todo pulmão que havia uma coisa horrorosa do lado de fora, enquanto outros tentavam conter a agitação que se formou. De repente, todas as pessoas gritavam, corriam para todos os lados, a banda havia parado e preenchia o salão somente o som da sinfonia do medo.
Durante as tentativas de se esgueirar entre a multidão, esbarrando em muitos corpos que se moviam desordenados, num instante, Sehun percebeu a ausência de Baekhyun. E durante aquele pequeno momento, ferveu de ódio ao perceber que o mequetrefe poderia muito bem ter se aproveitado do caos para sumir. Mas ignorou aquele problema, havia algo mais grave acontecendo.
Quando chegou do lado de fora, só encontrou Jongin e Kyungsoo com Rômulo e Remo, e um frio sinistro percorreu por toda a sua espinha, porque, no meio daquela escuridão toda, os olhos azuis e gêmeos dos cães eram as primeiras coisas que chamavam a atenção. O olho direito, de Rômulo, à direita, e o olho esquerdo, de Remo, à esquerda. Daquele modo, pareciam formar um imenso e único rosto. Tão grande quanto a face de um lobo. Ou maior que isso. Era uma imagem nefasta.
O par de oficiais tentava acalmar os cães que uivavam sem parar. A garota talvez tivesse saído para tomar um ar ou fumar, se deparou com aqueles olhos claríssimos em meio ao breu, a lua no céu, e morreu de medo. A lua, no céu. Cheia.
— Te achei! — Ouviu a voz de Baekhyun ao pé da porta. Sentiu um alívio ao pensar que o garoto poderia mesmo, no fim das contas, ter alguma palavra. Mas o alívio não durou muito. A cabeça começou a zunir, tomada por uma espécie de vertigem, e tudo começou a doer.
Merda. Merda. Merda.
— Entra agora! — gritou para ele. — Vocês também! — Correu até os policiais e os empurrou com força em direção ao ginásio — Evacuem todos! — Sehun já estava chorando, o delegado e o colega o encaravam em completa confusão, tentando puxar para dentro do ginásio os cães, que olhavam para Sehun e latiam freneticamente, sem parar. Mas não latiam agressivos, nem rosnavam. Pareciam emitir um choro de filhote, balançando os rabos e uivando.
Os gritos humanos preenchiam cada filete de sua audição, como se fossem emitidos dentro da própria mente. O corpo começava a doer, sentia os ossos quebrando e crescendo. O próprio urro foi a última coisa que escutou antes de perder a consciência.

Você tinha a boca cheia de sangue e parecia ter também sangue em seus olhos. Por mais que brilhassem em um tom forte de verde, apesar de eu não reconhecê-los desse modo. Seus olhos eram castanhos, escuros como a noite. E se o verde lupino não os escondesse, tão bem quanto a noite escondia a razão dos assassinatos sem precedentes, então talvez eu tivesse percebido mais rápido que era você. E talvez também tivesse me dado conta do quanto o cenário noturno combina com você. A noite lhe cai bem, sempre achei. Agora faz mais sentido. Bem como o brilho que sempre vi no seu olhar, bem como o formato estranhamente mais esférico que o comum. Você tem a lua no lugar das orbes, eu entendi.
A textura áspera das folhas de centeio cortava meus braços, já que eu havia esquecido o casaco no meio do salão, enquanto eu corria de você e desse sangue todo. Você vinha atrás de mim como se eu fosse uma presa, com a boca toda aberta e o bafo fétido da morte. Talvez eu fosse mesmo uma presa. Você matou algumas pessoas. Você é quem vinha fazendo isso, esse tempo todo. Todos os corpos mutilados e estripados, todos aqueles deixados ao pé das florestas nas rodovias. De homens, mulheres, crianças e velhos. Você matou todos eles.
Em algum momento você me viu entre a multidão. Eu quis sumir, eu poderia ter sumido, mas não entendia o que via e que me deixava paralisado, aquela mesma espécie de reconhecimento me impossibilitando de mover um músculo sequer, qualquer um, nada. Quando vi você, quando reconheci você, aliás, você já vinha em minha direção com mais velocidade e força do que eu gostaria de acreditar, derrubando mesas e cadeiras, atropelando pessoas, enquanto Rômulo e Remo latiam em harmonia fúnebre.
Ouvi Jongin me pedindo, num grito, para levar você até a armadilha que eles montaram quando ele também percebeu que você corria na minha direção feito um touro, como se eu fosse feito de tecido rubro. Mas eu preferi correr para fora, porque tive medo que eles machucassem você, eles não reconheciam o homem dentro do cão. E eu achava que a noite acolheria você como me acolheu, que você talvez fosse magicamente voltar a ser humano e que eu talvez fosse magicamente salvá-lo de você mesmo.
É claro que nada disso aconteceu, você ainda conseguiu arranhar o meu ombro, e, aí sim, com o sangue escorrendo pela minha pele e manchando minha camisa de vermelho, você correndo atrás de mim se parecia muito com uma tauromaquia.
Eu enxergava pouco, ou quase nada, do cenário à minha frente. Era de um escuro infinito, e as folhas de trigo eram sutilmente banhadas pela lua. Eu sentia as lágrimas escapando pelo canto dos meus olhos e congelando na beirada da minha face. O vento frio do começo da madrugada ardia mas eu não conseguia parar de correr, ouvindo atrás de mim o seu rastro, os seus uivos, grunhidos e rosnados. Você não sabe como fui capaz de correr tanto, mas talvez agora você entenda que eu sou um pouquinho de tudo.
Quando o campo de centeio acabou e eu entrei dentro da mata, correr passou a ser um pouco mais difícil. Assumi uma forma que me permitisse fazer isso melhor, e só nessa hora me lembrei de que poderia usar isso ao meu favor. Ouvi quando você entrou na mata logo atrás de mim, e ouvi quando você diminuiu o ritmo e começou a me procurar. Você não me veria mais, não naquela forma, não com você naquela forma.
Quando você me viu outra vez, você na verdade não me via. Via algo igual a você, e num primeiro momento você pareceu assustado. Olhava para os lados como se buscasse uma explicação para o lugar de onde eu vinha. Você uivou, mesmo que a copa das árvores cobrisse a lua, e me encarou. Uivei também, como se para você se certificar de que eu era um. Seus olhos eram do verde mais atro que já vi em toda a minha vida, pareciam feitos de cristal crisoprásio. Bem lá no fundo, ao redor da pupila, eu podia ver o castanho deles.
Esperando que você pudesse me reconhecer, como eu reconhecia você.
Nós nos encaramos durante aqueles minutos eternos habituais. Queria jurar que em algum pedacinho seu, ainda que transformado, me via como eu via você. Mas eu também posso jurar que daquela forma que você estava, não havia um resquício sequer de consciência. Só instinto animal, selvagem e faminto. Mas eu não era mais uma presa.
Fui na frente, guiando você para o mais longe que podia dali. Não me impressionei quando você passou a me seguir sem maiores problemas. Os canídeos sabem naturalmente como agir em bando. E você parecia tão perdido… Tão diferente de como era quando homem, esse, que parecia saber exatamente o que fazer. Agora estava tudo invertido, era eu no comando, nos levando para o fundo de uma caverna. Você matou algumas lebres e mamíferos menores no caminho, chegou no esconderijo já alimentado.
Eu sabia que não pregaria os olhos nem por um segundo naquela noite. Você se acomodou num espacinho qualquer, mas chegou mais perto de mim quando parei sentado no canto, escorado nas rochas frias que serviam como paredes para aquele lugar.
Assumi minha forma de homem para fazer um carinho no topo da sua cabeça, que descansava ao meu lado, quando percebi que você já tinha caído no sono.

Chapins-reais, andorinhas e abadejos aumentavam o canto conforme as horas passavam e anunciavam a volta do dia. O sol resplandecia no céu azul e pintava de luz tudo no mundo. A floresta, a beirada da caverna, o campo de centeio bem ao longe. Sehun acordou com o som desses pássaros e filetes de luz sobre o rosto, com um gosto amargo na boca e hematomas espalhados na pele.
Sentia dor de cabeça, dores pelo corpo inteiro. E também se sentia imundo. Fedia a sangue de gente, de bicho e sabe-se lá mais o quê. As últimas luas cheias vinham sendo assim.
Levou algum tempo até recobrar a consciência por completo, ainda em estado letárgico depois de acordar de um sono sem descanso. As cenas das noites de caça eram sempre um borrão em sua memória, simplificando-se somente em plasmas vermelhos e, é claro, a imagem da lua. Mas, dessa vez… Dessa vez conseguia se lembrar de um lobo escuro. Mais precisamente, de um par de olhos escuros. E sentiu um aperto no peito com a lembrança seguinte que lhe tomou a mente. Se pareciam tanto, esses olhos, com os olhos de alguém.
Ouviu um ruído vindo do fundo da caverna. Sentiu medo. Porque como homem, sem arma branca ou revólver, não era nada contra os seres da natureza. De repente, reparou estar vestido. A camiseta devia ser branca, mas estava toda manchada de um marrom avermelhado. As calças eram um pouco mais justas que as suas, mas cabiam. Alguma coisa não estava certa, porque sempre acordava despido depois das transformações.
O coração batia forte o suficiente para que qualquer animal pudesse farejar o seu medo.
Mas a criatura que saiu das sombras era inofensiva. Como se despertado por telepatia, Baekhyun emergiu na luz coçando os olhos e vestindo, ainda, o uniforme oficial. Que estava limpo, ao contrário do seu. Estranhamente limpo, considerando que estavam no meio de uma caverna. Quando viu Sehun de pé, o encarando estático, também parou.
Ficaram ambos daquele mesmo modo, e era terrível como poderiam juntar todos os momentos em que se encaravam em silêncio, e a soma de tudo seriam horas e mais horas.
— O que você é? — Sehun foi o primeiro a falar. A voz saiu quase em sussurro. Talvez por medo, receio, ou devido ao uso extremo da vocalização na noite anterior. Baekhyun não disse uma palavra nem moveu um único músculo. — O que você é?! — A pergunta soou mais alta, mais afobada, quase como se proferisse as palavras como um grito de guerra. — Baekhyun, você já sabe o que eu sou, não torne as coisas mais difíceis do que já são! O que. Caralhos. Você é? — repetiu, pausadamente.
Sentia como se a respiração ganhasse forma e peso conforme o silêncio se mantinha. Os olhos do outro pareciam hesitantes e confusos. E os de Sehun, ansiosos e frustrados.
— Se você fosse humano, estaria morto. Você sabe disso, então por favor, me deixe saber o que você é — implorou, fraco demais para sustentar qualquer pose de autoridade. Baekhyun era quem abusava de um poder obscuro, que era aquilo que também o manteve vivo diante da forma que Sehun tinha há algumas horas atrás.
Baekhyun deu um passo e Sehun regrediu dois. Abriu a boca para dizer algo, mas fossem o que fossem as palavras que pensou em dizer, se perderam em algum canto da sua mente e se transformaram em ação, subtraídas a som nenhum. Baekhyun se transformou, diante dos olhos de Sehun, em um lobo. Sehun arregalou os olhos e se esquivou, como se o detido fosse atacá-lo.
— Não é bem isso — disse, depois de voltar à forma humana. E então, se transformou em uma senhora. E em um homem que não era ele, e em um garoto. E em um arbusto. Tudo isso, em instantes. Ele podia assumir a aparência que quisesse, na hora que quisesse. Era tão, mas tão perigoso.
— Transmorfo — Sehun ciciou. Baekhyun assentiu.
— Será que podemos procurar alguma coisa pra comer? Sei que você não deve estar com fome, mas eu não como nada desde ontem — Baekhyun pediu, acanhado por citar algo importante sobre a noite anterior. É claro que Sehun não estaria com fome. Sehun o analisava, da cabeça aos pés, nitidamente desconfortável com os fatos subentendidos naquele pedido. Mesmo assim, concordou em silêncio.
Não tinham nada para levar dali. Então deixaram a caverna sem pretensão de voltar. Caminhavam no limite da floresta, onde árvores e moitas preenchiam vários espaços, mas ainda não cobriam a luz.
Baekhyun ia colhendo e comendo frutas e flores durante o caminho, enquanto Sehun caminhava em silêncio, próximo a ele, sentindo a textura da grama e da terra sob a sola dos pés. Depois de algum tempo, chegaram em um lago.
Baekhyun procurou mais alguns frutos comestíveis antes de se juntar a Sehun na encosta da baía. O policial tinha tirado a camisa e tentava esfregá-la na água. Percebeu as pequenas gotinhas que umedeciam o canto dos olhos dele. Estava sofrendo. Queria perguntar para ele tantas coisas sobre a licantropia[2], porque agora entendia. Entendia as razões que o faziam querer tê-lo por perto. Afinal de contas, não cabiam naquele mundo, convencional como era para qualquer outra pessoa.
— Eu odeio camisetas brancas — Sehun resmungou em meio ao choro silencioso, percebendo que estava sendo analisado por Baekhyun.
— Não são minhas favoritas também… — Sorriu, tentando soar legal.
— Foi você quem me vestiu, não é? — Sehun perguntou, num tom genuíno de curiosidade. Já sabia a resposta, só queria a confirmação. Nunca acordava vestido. Nunca.
— Eu imaginei que você fosse ficar mais confortável assim. — Baekhyun deu de ombros. — Essas roupas são minhas, se é isso que você tá tentando entender — explicou. Sehun assentiu.
— Mas e… — Começou a falar, e os olhos correram expressivamente ágeis pela figura do outro.
— Transmorfia, essas minhas roupas. — Fez aspas. — É, é bem útil.
— Isso é… impressionante — comentou, aturdido. Levou um susto quando a mão de Baekhyun tocou em seu rosto, num gesto que pretendia secar as lágrimas que deixavam um rastro molhado em suas bochechas. Não impediu o movimento, e ficou mirando a feição dele enquanto ele terminava de passar o polegar pelas maçãs de seu rosto. Baekhyun tinha um semblante preocupado. Empático, talvez. Agora poderia chamar assim.
Tirou a camiseta da água e deixou sobre a grama para secar. O sol era forte e quente, não devia ser muito mais do que duas da tarde. Talvez nem fosse, ainda. Era difícil precisar. Passaram algum tempo encarando o lago sem manter diálogo algum. Baekhyun estava quase caindo no sono quando ouviu o outro se mexer.
— Vou tomar um banho. Tô fedendo muito — Sehun anunciou. Tirou a calça do uniforme e entrou no lago. Por algum tempo, somente o som da água sendo agitada, dos pássaros assobiando e de grilos pelas proximidades eram escutados. Um suspiro epifânico precedeu o comentário de Sehun.
— Era você! — disse, penteando os cabelos molhados para trás e passando as mãos pelo rosto logo em seguida, tirando o excesso de água. — Esse tempo todo, os casos esquisitos e os culpados que depois desapareciam! Era você, não era? — Se aproximou, ainda na água.
— Talvez… — Baekhyun comentou, entrando também no lago. E Sehun, se tinha qualquer sinal de animação no rosto, o desfez, voltando a fechá-lo num semblante resignado.
— Para, era você sim — afirmou. Baekhyun sorriu, queria brincar com aquela constatação, mas o policial não estava sendo muito receptivo com suas gracinhas.
— Certo, culpado — assumiu.
— Por que? — Sehun perguntou, minutos depois. — Por que fez aquelas coisas? — E, durante o silêncio que precedeu a resposta, reparou que gostava de como os fios molhados de Baekhyun colavam sobre a testa dele, e de como a água tremeluzia sob o sol e refletia algumas formas em seu rosto. Lutou para evitar as próprias constatações, mas era belo, afinal.
— Pelo mesmo motivo das madeiras da sua cerca. Queria ser pego — respondeu, e Sehun franziu o cenho, esperando que lhe dissesse mais. Aquela resposta ainda tinha muitas lacunas. Baekhyun suspirou, entendendo a feição dele. — Eu só… Queria ficar mais perto de você. — Deu de ombros. Havia passado por uma quase-morte na noite anterior justamente pelas mãos — ou garras — daquele para quem revelava aqueles pensamentos. Não tinha muito mais a perder. Não tinha nada a perder, na verdade.
Sehun não disse nada. Pouco depois saíram da água, a pele já enrugada incomodava e precisavam seguir caminhando antes do sol se pôr. Poderiam voltar para a mesma caverna, mas seria uma perda de tempo, considerando que já haviam feito boa parte do caminho de volta. Baekhyun conhecia alguns outros esconderijos caso fosse necessário. Não à toa tinha corrido naquela direção noite passada.
— Desde quando você é… isso? — Sehun foi quem cortou o silêncio, depois de algum tempo de caminhada. Esquecia-se da capacidade de atingir longas distâncias quando tinha a forma de lobisomem, já andavam há horas e o cenário parecia sempre um pouco mais do mesmo.
— Não sei. Tudo que sei sobre mim envolve ser isso — enfatizou a palavra, implicando com Sehun por tê-la usado. — Sempre fui transmorfo, eu acho.
— E sua família, sabe? — perguntou. Baekhyun ficou em silêncio, pensando, e suspirou antes de responder.
— Sou só eu. — Encararam-se por poucos segundos antes de ambos desviarem o olhar para qualquer outra coisa. — E a sua? Sabe?
Mas Sehun não respondeu.
Entraram na mata antes que o breu cobrisse tudo outra vez, para que pudessem achar a trilha mais clara para seguir. Entre as árvores e suas sombras, as plantas mais densas e troncos caídos, os sons eram muito mais presentes e constantes. Fosse pelo ruído da corrente de vento, fosse pelos galhos se quebrando sob seus pés, ou os animais que ali viviam escondidos. Mesmo que não falassem coisa alguma havia som, porque todo o resto de vida que ali residia o fazia.
— Como você sabe que pode comer essa flor? — Sehun perguntou, quando reparou que Baekhyun não parava de colher pequenos ramos durante o caminho.
— Ah, eu moro aqui desde sempre — explicou, sorrindo. — Aprendi o que dá pra comer e o que não dá, já observei quase todos os bichos que você pode imaginar. Você tá com fome? — disse, mais cauteloso. Sehun olhou para ele, para os olhos dele, e depois para as mãos, cheias de flores.
— Não sinto fome por alguns dias depois da lua cheia. Obrigado — respondeu. Baekhyun deu de ombros.
Como a ordem de tudo que existe e de tudo que é real, o sol se pôs mais uma vez. Dessa vez, no entanto, não havia temor ou angústia sobre as coisas que poderiam ocorrer durante metamorfoses indesejadas. Sehun não se transformaria outra vez. Mas, sem a aparência terrível lupina, andar pelos bosques desarmado e sem nenhum meio de contato era, no mínimo, assustador. Além disso, seu sono na noite de transformação nunca era bom. Os sonhos eram invadidos por memórias de corpos, suas entranhas, por impressões de gostos e cheiros, e o próprio corpo sentia os ossos e articulações voltando ao estado normal. A dor era insuportável.
Vez ou outra passava a mão pelos ombros, trapézio e cox, num movimento quase involuntário, ansiando por qualquer tipo de alívio.
Baekhyun notou esses gestos e decidiu que era melhor parar por ali. Sehun não pareceu contente com a ideia de dormir no meio da floresta com sua aparência de homem, mas tampouco sentia qualquer vontade ou força para seguir caminhando. Com sorte, havia uma espécie de toca, grande o bastante para os dois, pequena o suficiente para não ser confundida com uma caverna, a poucos passos para oeste. Baekhyun juntou alguns galhos e pedras para acender uma fogueira. Sem a pele de lobo, a noite seria fria.
Sentaram-se um de frente para o outro, ao redor das pequenas chamas. As manchas de sangue na camisa branca agora formavam um pequeno borrão, escondido pelos joelhos que Sehun agarrava em frente ao corpo, e pela cabeça que se apoiava sobre eles. Os olhos do policial fitavam a brasa, eram castanhos e escuros, como a noite outra vez.
Eram tristes e cansados. Mas brilhantes. Ainda mais brilhantes perto do fogo que crepitava.
— Me transformei numa formiga aquele dia — Baekhyun comentou, deixando um riso escapar logo após a confissão. — Que você não me achava na delegacia. Não queria dormir lá à noite, me acostumei com o lado de fora. — Olhou para o céu, que naquele ponto em que estavam, era quase totalmente ocultado pelas árvores. Ainda assim, pareciam estar situados sob uma espécie de claraboia, e parte da abóbada celeste ainda era visível. As estrelas eram visíveis, enchendo toda aquela imensidão azul e escura com pontinhos brancos. Muitos deles.
Sehun sorriu entre uma lufada de ar.
— Pode ficar aqui do meu lado? — O oficial deu dois tapinhas no chão. Baekhyun assentiu. Tropeçou enquanto ia até ele, com alguma pressa, e os dois compartilharam um riso breve por conta disso. A fogueira não estava dando conta do ar gelado, por isso, lentamente, apoiou a cabeça sobre o ombro de Sehun, na intenção de compartilhar algum calor corpóreo, e ficaram mais algum tempo encarando o fogo.
— Os animais não gostam muito de mim porque não confiam no meu cheiro — Baekhyun comentou, de repente. — Oscila muito. Ontem foi a primeira vez que toquei num cachorro. — Sorriu.
— E agora tá aqui com a cabeça no meu ombro — Sehun implicou. Baekhyun mirou o rosto dele, encontrando o olhar debochado e o sorriso cabotino do oficial, e deixou um riso escapar. Voltou a fitar o fogo, pensativo. Minutos depois, sentiu uma movimentação repentina e uma sensação gelada na pele, agora sem nenhum toque. Sehun deitou de barriga para cima. — Não tenho família, Baekhyun. Você já deve imaginar o porquê — confessou, de olhos fechados e com as mãos sobre o tórax. Baekhyun encarava-o de cima, ele parecia tão inofensivo naquele ângulo. Em vários ângulos, aliás, quando tinha a forma de um homem.
Deitou-se ao lado dele, próximo, de modo que pudessem se proteger do frio, mas distante o bastante para não ultrapassar nenhum limite. Naquela noite conseguiria dormir, mesmo que ainda atento para caso precisasse se transformar em alguma coisa, por segurança.
Baekhyun se transformaria em qualquer coisa, por Sehun.

Você pousou o braço sobre o meu corpo em algum momento no meio da noite. Mais tarde, o barulho dos pássaros e a sua pele quente me despertaram. Já era dia, mas dentro da floresta os filetes de sol eram somente um rastro ínfimo. Você parecia tão sossegado em seus sonhos que não quis acordá-lo, então apenas dediquei alguns instantes daquela manhã olhando para você.
Não era como se, na verdade, eu já não conhecesse cada detalhe do seu rosto. E gosto de pensar que você também já conhecia muito do meu, porque sei que nos encaramos com mais frequência e curiosidade do que poderia ser considerado normal. Antes eu não entendia muito bem o que é que me atraia tanto, feito ímã, nesse seu rosto e nesses seus olhos, que pareciam tão capazes de me entender… porque no fim, eles eram mesmo capazes disso.
Passei algum tempo em claro pensando em como ajudar você antes de conseguir me deixar ser levado pelo sono. Apaguei, sem nenhuma solução. Mas, pouco depois que acordei, a resposta me ocorreu à mente como anunciação perfeita: eu me lembrava de um feiticeiro que há muito vivia naquela floresta, e o caminho até a cabana dele eu ainda sabia de cor, não era tão longe de onde estávamos.
Você demorou mais algum tempo até despertar. Quando acordou e me viu tão de perto, não porque eu havia me aproximado, mas porque você me prendia sob o braço esquerdo, se afastou bruscamente, também tomado pela timidez. Você era sempre tão polido e cauteloso, talvez tenha se surpreendido com a própria carência.
“Se pudesse se livrar da maldição, faria isso?”, perguntei. Você me encarou, confuso, talvez não fosse a melhor hora para começar um assunto daqueles.
“Sim”, você respondeu, automático e monossilábico.
Caminhar vinha sendo outra coisa que fazíamos com muita frequência. Entrava para a lista junto dos olhares prolongados e dos silêncios imperadores. Vez ou outra eu notava seu semblante confuso me analisando, enquanto eu ziguezagueava nosso caminho, cada vez mais para o fundo da floresta, que se tornava cada vez mais densa e mágica. É, mágica. Eu me perguntava sobre o tempo que fazia desde que você já havia entendido o que era, e a julgar pela forma como reagiu quando entendeu o que eu sou, conclui que não era pouco. Mas tampouco poderia ser muito, considerando o jeito sensível com o qual você acordou e as lágrimas que cobriram seu rosto mais tarde.
Então era alguma espécie de limbo entre se dar conta e aceitar os fatos. Seus suspiros me faziam acreditar nisso.
A casinha do feiticeiro ficava no pé de uma colina, num pequeno campo dentro de toda aquela mata. Eu nunca soube o nome dele ou desde quando ele vivia ali. Só sabia que vivia ali. Ele tinha uma barba que ia quase até os pés, que cobria parcialmente a pequena boca logo abaixo do pequeno nariz. Tinha o olhar afiado, quase felino, e caminhou em nossa direção logo que nos enxergou saindo das árvores. Você ficou desconfortável e eu percebi na mesma hora.
“Baekhyun!” O feiticeiro disse, tomando minhas mãos e me encarando com afeto. “Há quanto tempo!”. Sorri. Já fazia muito, mesmo. “Uns três anos”, comentei. “Como vai o senhor?”
“Vou bem, como sempre. Diga lá, para o que vem você e esse seu lupino? Não precisa de formalidades, diga lá!” Ele fitou você por um microssegundo, e não sei de onde vinha a capacidade para perceber esse tipo de coisa, talvez toda criatura como ele, você, eu e outras, tivesse alguma espécie de instinto sobre isso. O dele era mais preciso. Você me olhou quando ele fez a pergunta e eu percebi a dúvida nos seus olhos.
“Queríamos saber se existe algum jeito de acabar com a maldição”, falei, e olhei para você também. Me senti egoísta por um momento, quando quase hesitei em fazer aquele pedido. Você livre do que era significava que não haveria mais algo para se reconhecer em mim e em você, mutuamente. Mas isso era muito menor do que meu desejo por vê-lo curado. Você não compartilharia mais a sensação de não pertencer a lugar nenhum comigo, mas, ao mesmo tempo, querendo ou não você já me conhecia como criatura, não somente como homem. E isso bastava.
O feiticeiro encarou você, da cabeça aos pés. “Sim, sim… Conheço uma alternativa”, ele murmurou, fitando as manchas da sua camisa e perdendo o olhar em alguma coisa bem mais longe. Ele nos guiou para dentro do chalé, que era todo feito de barro e madeira, repleto de musgos pelos cantos e paredes. Estas, que eram também tapadas de prateleiras, com frascos de vidro, potes de cerâmica, ramos e guirlandas em cada uma delas. A casa dele tinha cheiro de folhagem e ervas. Quase entorpecente.
Você analisava tudo com o olhar digno do policial que era. Tinha os ombros tensionados e o olhar cauteloso. Eu via no seu semblante a dúvida, a suspeita não verbalizada, mas também via uma faísca de esperança.
“Na noite dos mortos, ou durante uma Lua Azul, de madrugada, o licantropo deve esfregar a mistura de flor de acônito com frésias na pele enquanto se banha em águas lodosas, onde existam flores de lótus. O lobo selvagem morre dentro dele, não irá ter ataques de raiva ou precisar matar para se alimentar, mas em toda lua cheia ele ainda se transformará” O feiticeiro leu em voz alta as palavras contidas em um velho livro, imenso e empoeirado, que havia retirado de uma estante com outros exemplares parecidos, enquanto eu e você nos distraímos observando o restante da cabana.
“Parece que vocês estão com sorte”, ele disse. E eu havia concluído a mesma coisa, afinal, já era dois de novembro. Desaparecemos no dia trinta e um e passamos duas noites na floresta. “E eu tenho sempre alguns ramos de acônito, por segurança. Só precisam ir buscar umas frésias”, explicou. Precisávamos de dois punhados, então você e eu passamos a tarde procurando por aquelas flores, e você sempre vinha até mim com algumas na mão me pedindo para conferir se eram as certas. Eu gostava de quando você fazia isso e eu via um sorriso crescendo no seu rosto cada vez que você as colhia.
Muito depois que a noite caiu, fomos até um pequeno lago. As flores de lótus já estavam fechadas, submersas nas águas e mais próximas da lama. Você se despiu e entrou no lago, até que a água atingisse a sua cintura. O feiticeiro carregava na mão uma vasilha, onde as flores haviam sido amassadas, moídas em uma mistura de aparência unguenta. Ele recomendou que você tomasse um banho primeiro, que preparasse a pele para o remédio. Você batia o queixo e eu morria de agonia observando você sentir frio. Entramos na beirada para alcançar a vasilha para você.
“Vai doer”, ele falou. Você passou três dedos na mistura e eu via o terror em seus olhos. Você começou a espalhar a mistura pela pele, eu não tinha a menor ideia da sensação que deveria ser, mas percebi que doía. Mesmo se o feiticeiro não tivesse avisado. Era nítido. Suas mãos, hora ou outra, afundavam as unhas na própria carne e escorregavam pela tez. Você deixava gritos morrerem na boca, que derretiam com aspereza pelos seus lábios. Eu aguardava com o feiticeiro na ribeira, sentindo o vento gelado contra as minhas canelas molhadas, olhando para você se contorcendo cada vez mais.
“O acônito é tóxico, pode matar até um homem. A frésia, por outro lado, serve de proteção. A flor de lótus é para a consciência.” O feiticeiro começou a sussurrar para mim. “Ainda não conheço um feitiço capaz de livrá-lo totalmente da maldição, isso é o mais perto que consigo chegar”, ele disse.
Você emitia o som agourento da besta que morria por debaixo da sua carne. E de repente, tudo cessou. Você apoiou as mãos sobre os joelhos, submergidos, suspirou prolongado com o rosto próximo da água e, num instante, caiu. Corremos até você antes que se afogasse. Me transformei em um urso e carreguei você nas costas até a cabana do feiticeiro, onde passamos mais aquela noite.

Levaram mais tempo que o esperado para chegarem à lanchonete local, o crepúsculo pintava o céu e os lembrava de que já faziam alguns dias desde a última refeição decente. Sehun e Baekhyun trilharam a volta calados, e assim permaneciam, sentados em uma mesa próxima de uma janela, permitindo que o restinho de sol incidisse em seus rostos de semblante abatido.
Mas a combalidez[3] haveria de ser um indício de que o ritual tinha dado certo.
E a quietude mútua não era sem precedentes. A volta pelo campo de centeio ressuscitou em Baekhyun lembranças que eram tão nítidas quanto cada um dos traços do rosto do oficial sentado à sua frente. E ele, por sua vez, não se lembrava com tanta precisão, mas sentia. A respiração de Sehun ainda vacilava, mesmo depois de terminarem o trajeto até ali. A pequena televisão do estabelecimento reprisava imagens, notícias do dia trinta e um. Rostos de inocentes, mortos e desaparecidos, a imagem do clube interditado por fitas amarelas com rastros de pegadas imensas e manchas de sangue que contavam uma história. História que os dois conheciam muito bem.
Nenhum deles encarava o visor. O ruído do restinho de refrigerante sendo puxado pelo canudinho interrompeu o som contínuo dos talheres sendo raspados nos pratos de vidro.
— Então é isso? — Sehun perguntou primeiro, observando Baekhyun, que bebia com avidez o final do refrigerante.
— Como assim? — indagou, confuso.
— O que acontece agora? — Sehun reformulou. Terminou de jantar e esfregava a palma das mãos na calça. Pareciam sobreviventes de guerra, o agente tinha um ferimento na boca e diversos roxos pelo corpo, além da roupa suja que ainda usava. Os arranhões nos braços e pequenos cortes nas mãos de Baekhyun não ficavam muito para trás.
— Acho que você vai pra casa, se cuida… Depois aparece na delegacia. Você pode inventar que tentou “parar a coisa” e se machucou, fugiu e só conseguiu voltar agora. Isso parece razoável?
— Nem um pouco — respondeu, com um riso escapando entre uma lufada de ar. — Mas e você? — perguntou, retomando o tom mais sério. Ficaram alguns instantes analisando a feição um do outro.
— Mal voltamos e você já quer me prender de novo? — disse, com um sorriso travesso desenhando a face.
Risos pequenos distraíram os dois daquele sentimento estranho. Ninguém queria dizer em voz alta que era bom estar de volta, mesmo que fosse, porque apesar da liberdade que Sehun viria a experimentar, ainda havia o outro lado da história. Corações de famílias que jamais poderiam ser acalentadas com uma solução. Sehun poderia viver livre da besta, mas carregaria a culpa consigo pelo resto da vida.
— Eu vou estar por aí. — Baekhyun respondeu, minutos depois.

Abanei, ainda meio distante da entrada da delegacia. Você acenava de volta e, por um momento, pareceu hesitar antes de entrar no seu local de trabalho. Do mesmo jeito que pareceu hesitar antes de me deixar entrar na sua casa, quando fomos até lá depois de sair da lanchonete. Você usava outra vez as suas roupas, mas não o uniforme. Entendi que precisava de um pouquinho de conforto. Você pareceu vivo outra vez quando saiu do banho. Me flagrou olhando para as fotos no rack da sala. Eu segurava uma delas, aquela que tinha você e seus pais. Você devia ter uns doze anos, e outra vez fiquei pensando sobre sua condição de licantropia.
Você viu nos meus olhos as coisas que eu pensava. Mas nenhum de nós disse algo sobre isso. Você tomou a fotografia das minhas mãos e devolveu para o lugar dela.
Sua casa tinha cheiro de grama e poeira. Você não parecia ser do tipo que passava muito tempo ali, tinha poucos móveis e quase nenhuma louça. Não olhei o restante dos cômodos. Ficamos de pé parados em frente ao móvel que tinha além de fotografias algumas correspondências e poucas pastas do serviço. Me senti envergonhado por ter sido pego bisbilhotando suas coisas.
E então, você me surpreendeu com um abraço. Foi repentino, incomum. Não esperava por um gesto como aquele num momento como aquele. Mas suponho que fosse sua forma de agradecer. Nem eu nem você éramos bons com as palavras. Você não fedia mais a sangue e morte. Tinha cheiro de sabonete e água de caixa d'água. Desejei viver uma eternidade com o rosto afundado no seu peito.
Não era razoável, mas era o que dava para ser feito. Você fez exatamente o que eu disse, passou em casa e se trocou, antes de ir para a delegacia. E eu fiquei fitando você entrar lá dentro, as luzes se acendendo conforme você passava pelo corredor. E pela persiana entreaberta da sala do delegado, vi quando você abriu a porta e ele se levantou assim que viu você, como um reflexo. Ele apagou o cigarro no cinzeiro e ficou paralisado por alguns segundos, antes de correr na sua direção e envolver você em um abraço. E você chorou.
Quase um mês depois eu era uma borboleta olhando você mais de perto. Postada no quadro de cortiça enquanto o oficial Jongin apontava um dedo em minha direção e comentava a coincidência do inseto pousado bem ao lado da manchete que dizia “Transformação de terror: Halloween de 2020”.
Você sabia que era eu. Você agora sempre saberia que era eu, porque habitava em sua essência um resquício de criatura. De algo que você foi, e se curou. Reconhecendo em qualquer forma que eu assumisse algo que eu fui e ainda sou. A última coisa que disse a você quando o deixei na entrada da delegacia é que você sempre saberia onde me achar. Você descobriu, no fim das contas, que não precisaria ir tão longe.
[1]Pista, dica.
[2]O lobisomem é uma das lendas mais conhecidas em todo o mundo e que fala de homens que têm a capacidade de transformar-se em lobos. Essa prática era considerada uma maldição, chamada de licantropia, e a primeira menção a ela foi registrada na mitologia grega.
[3]1. Adoentado; enfraquecido; abatido.

