Chapter Text
I had to phone someone, so I picked on you
— Eu posso ser seu?
…
Não saberia dizer o momento em que seus olhos traíram a mente pela primeira vez. Mas lá estava Sehun, novamente, demorando a vista no baixinho de cabelos castanhos, que sempre chegava na escola com o nó da gravata frouxo.
Não que pudesse evitar, de todo modo, já que sentava no fundo da sala de aula, e ele, na segunda fileira. Mas, certamente passava mais tempo do que gostaria admirando aquele corte mal feito, os fios sempre bagunçados, dotados de leveza, como se o menor vento pudesse tirá-los do lugar. Se demorava analisando como Byun Baekhyun tinha o hábito ridículo de ficar levando os cabelos da testa para trás, mesmo que fossem cair no rosto mais uma vez, no segundo seguinte. Também perdia muito tempo fitando as mãos que se esforçavam tanto nesse gesto, tão delicadas e compridas, quase tão belas quanto o rosto dele.
E odiava se dar conta disso.
Quando percebia, afundava o rosto nos braços debruçados sobre a classe. Desejando sumir, obliterar-se ou, quem sabe, que um raio se partisse sobre a sua cabeça de uma vez. Qualquer coisa parecia melhor do que se dar conta de que sorria pensando nele. De que ainda pensava nele.
Byun Baekhyun era alguém do seu passado, e que Sehun devia ter enterrado junto com todas as memórias. Que deveria ter apagado dos pensamentos, esquecido sua imagem, sua voz e seu calor. Mas era impossível esquecer de qualquer uma dessas coisas tendo que conviver diariamente com aquele que fez do seu coração pedacinhos descartáveis. Era impossível quando o espelho de classe organizava a turma por altura, e Sehun, consequentemente, precisava sentar no fundo da sala, enquanto Baekhyun sentava bem na frente, e portanto, encará-lo era um impulso quase que natural. Era impossível quando Baekhyun era representante de turma, então sua voz ecoava não só na própria mente como também pelos corredores compridos da escola. Era impossível quando Baekhyun era o melhor dos alunos no futebol e o vestiário parecia infestado com o cheiro dele. O suor e o calor dele. Ele estava em todos os cantos e Sehun não tinha como evitar guardá-lo em sua lembrança.
Então passava uma boa parte das aulas usando fones de ouvido e cobrindo o rosto com os braços. Toda vez que a culpa era de Baekhyun, os pés o traíam, bem como os olhos antes de tudo, e balançavam frenéticos numa cadência ansiosa, externando aquilo que mais queria esconder. Era um tolo, um estúpido.
— Você vai ganhar um roxão no joelho batendo com eles na classe desse jeito — Chanyeol resmungou, também de fones, mas incomodado com a mesa se mexendo e batendo na sua, fazendo com que borrasse um dos desenhos que fazia naquela hora, porque é claro, Chanyeol nunca estava de fato presente nas aulas.
— Foda-se? — Sehun resmungou também em resposta, e Chanyeol bateu o joelho no dele. — Porra! Vai machucar assim!
— Foda-se você, tá estragando meu desenho. — Chanyeol abaixou o rosto até o de Sehun para retrucar.
— Querem dividir com a sala? — A voz do professor interrompeu a discussão dos dois. Olharam para o Sr. Choi em negativa e arrumaram a postura.
— Não, senhor — Sehun respondeu, e Baekhyun virou-se para trás. Sehun puxou o ar sem perceber, segurando por mais tempo que o normal. Seus olhos cruzaram com os de dele por microssegundos até o mais baixo lançar um sorriso amigável. Queria ignorar, mas reagia a Baekhyun tão involuntariamente quanto reflexos do corpo. Era tão natural respondê-lo quando piscar, respirar ou bocejar. Então, embora tenha querido ignorá-lo, seus lábios se fecharam em uma linha fina que tornavam suas bochechas um pouquinho mais cheias que o habitual, e acenou. Queria não ter visto o sorriso mais discreto que Baekhyun lançou ao chão quando se virou. Fechou os olhos com força e virou o rosto para cima antes de se levantar bruscamente e sair com a mochila pela porta dos fundos.
Afrouxava a gravata porque sentia o nó se formando na garganta. Mais tarde precisaria arrumar um bom motivo para dar ao professor pela saída abrupta, mas no momento, os pensamentos suplicavam por um pouco de espaço. Correu para o mercadinho dos pais, mesmo que não fosse permitido deixar a escola antes do fim das aulas, mas, há anos, já conhecia maneiras de fazer isso sem ser pego. O estabelecimento da família ficava muito próximo da instituição, e embora soubesse que teria que arrumar uma boa desculpa para seus responsáveis também, era mais prático ir direto para lá, já que no turno inverso faria o caixa, como de costume.
Talvez aquele fosse o seu dia de sorte. O Oh Bom Mercado estava com a plaquinha de “volto logo” anunciada na entrada, mas Sehun tinha as chaves do estabelecimento no molho de chaves que carregava consigo, afinal, era lá que trabalhava. Correu direto para a dispensa e, embora não fosse sequer onze e meia, almoçou.
Contar era o que fazia sem pausas. Gostava de calcular as despesas do empreendimento, os pais eram comerciantes desde sempre, mas desde os seus doze anos adquiriram uma loja própria. Foi nessa idade que passou a acompanhar a mãe no caixa e, gradativamente, aprendeu a gostar dos números que eram para si tão familiares quanto o amaciante que ela usava nas roupas. Em geral isso era o que fazia no final do turno, mas como estava lá mais cedo, decidiu adiantar as coisas. Além disso, era uma ótima maneira de se distrair. Gostava de como era tudo mais preciso, não haviam brechas para interpretações, para emoções, para desapontamentos. No máximo, uma euforia um pouquinho incomum quando tentava chutar os resultados antes dos cálculos. No final, pegou o bloco de cruzadinhas. Ainda tinha quinze minutos antes do expediente.
🍭🍭🍭
Sehun tinha o cuidado de manter as cruzadinhas organizadas por temática e data de publicação na prateleira, fielmente, há quase dois anos, desde a abertura do mini mercado. Quando fazia a conferência naquela tarde, viu pelo reflexo no espelho convexo um cabeção castanho e bagunçado, correndo aqueles dedos compridos e ágeis pela prateleira de pirulitos à suas costas. Sabia desde o dia que seu pai tinha dado a ideia de deixar amostras grátis para decidirem o sabor, que isso provavelmente não seria bom para os negócios. O meliante provou um a um, olhou mais um pouco os corredores e foi embora, sem levar nada. Voltou na loja no dia seguinte, e no outro, e assim até o final da semana, todo dia provava os pirulitos e não comprava nenhum. Sehun já estava de saco cheio. Mas o garoto não apareceu no fim de semana, para o alívio do mini vendedor.
No entanto, no primeiro dia de aula da semana que sucedeu aos ocorridos, não pode evitar maior surpresa quando o garoto foi apresentado na sala de aula como novo aluno da escola. Byun Baekhyun tinha um metro e cinquenta e os olhos mais brilhantes que Oh Sehun já vira. Em parte, sentia-se confuso com a própria reação, porque não trabalhava em seus sentidos apenas o sobressalto de reconhecer o aproveitador de amostras grátis, como também, sentia-se estranhamente enfeitiçado pela presença dele. Estava hipnotizado pela forma que ele caminhava, pela dimensão de seus cabelos, pelo timbre da voz, pelo sorriso quadrado. Era apenas um garoto. Um garoto perfeito para destruir sua mente.
Finalmente entendia porque nenhuma garota antes parecia tão legal quanto os amigos faziam parecer.
Naquela época, Sehun ainda sentava nas primeiras fileiras. Jamais assumiria em voz alta, mas adorava deixar o lápis cair — embora soubesse que era um crime contra o grafite — ou a borracha, ou o estojo inteiro, contanto que isso significasse ter a menor chance de olhar de relance para Baekhyun. Um dia foi pego. Quando levantou o rosto para espiá-lo, poucas mesas na sua diagonal, Baekhyun o encarou no mesmo segundo. Talvez Sehun não tenha sabido disfarçar o acanhamento, sentiu as bochechas enrubescerem e Baekhyun abafou um riso. Foi a primeira troca que tiveram.
Baekhyun voltou a assaltar a loja de sua família como vinha fazendo — era assim que Sehun encarava a situação. Mas diferentemente da primeira semana, nas vezes seguintes, mantinha-se encarando-o sentado atrás do caixa, com um bloco de cruzadinhas na mão, disfarçando minimamente o interesse. Pensava com frequência que o garoto devia ser muito cara de pau para pegar pirulitos de graça todo santo dia e não levar mais nenhuma bobagem. Vez ou outra se permitia ser notado ao encarar, talvez até mesmo, como forma de conferir se geraria alguma intimação. Mas sequer os olhinhos semicerrados e os lábios ligeiramente pequenos e fofinhos juntando-se num bico foram capazes de tirar Baekhyun da rota porta de entrada-estante de pirulitos-saída. Então, decidiu que precisava intervir, como um bom funcionário faria.
Não como o habitual, naquela tarde, esperava por Baekhyun entre as estantes que terminavam numa reta onde ficavam os pirulitos. Dali era possível conferir a porta de entrada e, como apesar do péssimo costume de abusar de amostras grátis, Baekhyun ainda era alguém surpreendentemente pontual, Sehun estimava que o garoto apareceria dentro de cinco minutos. Fingia estar arrumando alguns produtos aqui e ali. Sem falha, Baekhyun chegou no local no mesmo horário de sempre. Sehun observou como ele olhou para o caixa de relance e por brevíssimos segundos sentiu uma coisa estranha no peito. Baekhyun se dirigiu até a prateleira de sempre. E quando ia se virar para deixar a loja, Sehun, silencioso como um gato, apareceu atrás dele.
— Posso ajudar? — perguntou, encarando-o levemente de cima. Apesar de ser um pouco mais novo — como descobriu com Jongin numa conversa durante o intervalo, porque ele e Baekhyun jogavam futebol juntos na escola — era um pouco mais alto.
— Você trabalha aqui, né? — Baekhyun perguntou, ignorando a pergunta do outro.
— O que me entregou? — Tentou ser irônico, mas Sehun não sabia nenhum pouco soar assim.
— Bom, você tá todo dia no caixa, né? — Mostrou aquele sorriso quadrado, cheio de dentes perfeitos e branquinhos demais para quem se entupia de pirulitos gratuitos.
— E você nunca passa por ali. — Sehun alfinetou e indicou com a cabeça a prateleira que Baekhyun recém havia assaltado.
— Você gostaria que eu passasse?
A pergunta pegou Sehun desprevenido. Por um momento, a expressão de superioridade sumiu e mais uma vez o rosto corou — não era difícil. Baekhyun tinha os olhos afiados e mantinha o sorriso no rosto, Sehun ficou sem jeito, coçou a nuca e não encarava mais o rapaz. Tentou responder qualquer coisa, mas só conseguiu gaguejar meias palavras.
— Toma. Vejo você amanhã! — Baekhyun deixou no bolso do moletom de Sehun uma nota que pagava por dez dos dois pirulitos que levava naquele dia. O que não era de todo mal, considerando os tantos dias que já passava por ali. Então, afastou o corpo do mais alto com leveza e deixou uma risadinha escapar antes de sair.
Sehun ainda tentava se recuperar da última pergunta que Byun fizera.
Mas o amanhã não tardou a chegar, especialmente porque, naquela tarde, Baekhyun havia burlado o próprio costume e aparecido quase meia hora antes do comum. O badalar de pequenos sinos indicaram sua chegada, com os cabelos bagunçados de sempre e o ar despretensioso de quem não havia feito promessa alguma, mas estava lá, cumprindo aquilo que havia jogado no ar.
— Boa tarde, ahn… — Fingiu ler o crachá de Sehun, porque embora não tivessem sido devidamente apresentados, ainda eram colegas, portanto, conhecia o nome do outro pela chamada. — Sehun? Poderia me indicar onde ficam os pirulitos? — Debruçou-se no balcão do caixa.
Sehun, que já havia perdido a postura e se recomposto no pequeno instante marcado pela chegada do garoto até seus passos direcionados ao balcão, descruzou os braços e soltou a cruzadinha na superfície marrom.
— Claro, no primeiro corredor, à direita, nas prateleiras da parede. — Apontou o caminho.
Baekhyun sorriu e se virou. Caminhou daquele mesmo modo que havia fisgado a atenção de Sehun no primeiro dia de aula, até a prateleira que muito bem conhecia.
— Puxa, são tantos sabores — Fingiu falar sozinho. É claro que fingia, porque o tom era muito mais alto do que o necessário para quem falaria à toa. — Vem cá, você sabe me dizer qual desses é o melhor?
Sehun revirou os olhos e não pode evitar um sorriso cabotino desenhando o rosto. Deixou o balcão e foi até ele.
— Já sei que seu favorito é o de morango, Baekhyun.
— Tá me observando, é? — Fitou o outro nos olhos, que desviou rapidamente.
— Hum, na verdade sim. Eu trabalho aqui, lembra? — Sehun sorriu.
— Tá, e qual o seu favorito então? Alguma recomendação do chefe?
— Do caixa. Laranja. O meu favorito é o de laranja. — Fingiu se concentrar em arrumar os pirulitos, mas na verdade, controlava a pequena euforia que tomava conta de si.
— Ok, isso é um desvio de caráter, cara. Como assim o seu favorito é o de laranja, quando existem sabores como morango e abacaxi? — Baekhyun parecia verdadeiramente consternado.
— Você quem quis saber. — Deu de ombros, quase ofendido, mas há tempos havia deixado de se importar quando discordavam de si.
— Uma recomendação tudo bem, mas o favorito? — Baekhyun tirou o pirulito de laranja da prateleira e falava apontando a parte redonda para o peito de Sehun, as sobrancelhas franzidas entregavam seu sentimento.
— Era uma boa você variar mais, sabe, meu pai precisou repor o estoque dos pirulitos de morango três vezes mais do que os outros, sabia? — Sehun apontou um pirulito de morango na cara de Baekhyun, em resposta.
— E ele sabe que a culpa é minha?
— Com certeza. Já dei seu nome completo, número de matrícula da escola, informações físicas e só não passei seu CPF pra ele porque você não pagou em cartão nenhuma vez.
— Agora é crime pegar pirulitos gratuitos?
— Você leva todas as amostras grátis.
— É para isso que elas estão aí, não é?
— É pra convencer os consumidores a levar mais isso, não só isso.
— É uma estratégia bem ruim.
— Eu concordo. Eu disse isso pro meu pai. — Sehun assentiu, e desataram a rir na sequência, porque inevitavelmente, era mesmo um plano bem ruim desde o princípio. A graça de tudo residia naquele que estragava a ideia do dono do comércio estar apontando a falha, sendo ele mesmo a falha prevista.
— Posso te fazer uma pergunta? — Sehun voltou a falar depois de poucos segundos.
— Mais uma? Sim. Manda aí.
— Por que você vem todo dia?
— Eu não deveria? — indagou, fingindo estar ofendido.
— Não é isso. Só acho… curioso.
— Ah. São pirulitos de graça, Sehun.
Respondeu, e deixou mais uma vez uma nota no bolso dele, para então se despedir. Não disse naquela hora, mas Sehun descobriu outro dia que os treinos de futebol aconteciam pela tarde, e coincidiam com o horário que Baekhyun passava por ali. Sehun tinha quase quatorze anos quando, pela primeira vez, quis assistir a um jogo.
⚡️
O que chamava de trabalho, naquela idade, não passava de nada mais nada menos do que uma boa dose de súplicas aos pais para o deixarem passar as tardes no estabelecimento ajudando nos afazeres. É verdade que, de todo modo, havia dado um jeito de receber alguma bonificação pelos seus serviços que seu pai, certamente, seria incapaz de dar conta sem sua presença por ali — era o que pensava. Então, quando pediu aos dois para ter uma tarde de folga porque queria assistir o treino do time da escola, num primeiro momento, a senhora Oh cogitou que o filho estivesse doente. E então, constatando que parecia bem como sempre, começou a indagar a respeito dos clientes. “Alguém foi grosseiro?”, “Aconteceu algo que te constrangeu?”, “Você ficou desconfortável?”, e outras várias perguntas maternas que só as boas mães são capazes de metralhar na cara de seus filhos.
O senhor Oh, por outro lado, não sabia se ficava contente ou preocupado. Seu filho queria assistir futebol, de repente, mesmo quando havia crescido com diversas influências cotidianas e nunca havia despertado interesse algum, a não ser pelos videogames. E então, de uma hora para outra, estava lá, não somente pedindo para ir assistir a um jogo, mas mais que isso, pedindo uma folga! Uma folga daquilo que mais gostava de fazer, que era tomar conta de tudo no mini mercado. Mas é claro que a folga foi bem aceita quando os pais perceberam que não havia nada de errado com ele. Era um pré-adolescente comum com gostos voláteis comuns, como qualquer outro.
Então lá estava Sehun, sentado nas arquibancadas do campo da escola, longe o suficiente para parecer um aluno qualquer aos olhos dos atletas, mas perto o bastante para poder reparar em tudo — ou em alguém. O que ele não sabia, entretanto, é que Chanyeol também frequentava os treinos, já que ele e Jongin moravam na mesma rua, e por isso, aguardava pelo mais novo para voltarem juntos, e, nesse tempo, passava preenchendo as páginas do próprio caderno com rabiscos e mais rabiscos — sua arte, ao seu modo. Não havia se dado conta de nada disso, talvez já soubesse por conversas com os colegas, mas falhou a memória naquele dia, já que havia uma única coisa na sua mente. Enquanto os olhos perseguiam um atleta de baixa estatura, com a concentração que deixaria até mesmo o mais ávido torcedor com inveja, sentiu uma borracha acertar-lhe a nuca.
— Sehun? — a voz de Chanyeol ecoou pela arquibancada. O garoto virou para trás reclamando da boa mira do amigo e devolvendo, sem muito talento, a jogada que recebera.
— Não, sua mãe.
— Vai a merda! O que você tá fazendo aqui, cara?
— Ã — ponderou. Não tinha um bom motivo, tinha? Chanyeol já deixava seu lugar mais ao fundo e se aproximava para conversar. Tinha de pensar rápido, mas não conseguia razão nenhuma que explicasse sua presença ali.
Demorou o suficiente para não perceber que o time entrava no intervalo. Não somente Chanyeol vinha falar consigo, como Jongin chegava do outro lado, e poucos segundos depois, a voz de um certo alguém apagou dos pensamentos de Sehun a perguntava que antes tentava responder.
— Olha só, o meu fornecedor de pirulitos gratuitos por aqui! — Baekhyun implicou, tirando as chuteiras e se atirando no degrau de pedra, que era a arquibancada.
E é claro que seu rosto entregava suas emoções muito mais do que gostaria. Estava acostumado a ser traído pelo físico, fossem suas bochechas coradas, a voz falhando, os pés inquietos. Mesmo quando tentava camuflar o que sentia, seu corpo falava por ele próprio.
Como tinha amigos muito espertos e de longa data, Jongin e Chanyeol entenderam tudo no mesmo segundo. Trocaram um olhar cúmplice e abafaram um riso conspiratório.
— Mas que chulé Baek, você vai desmaiar o Sehun assim! — Jongin brincou, e Chanyeol deu uma gargalhada tão alta que outros atletas olharam para onde estavam os quatro, curiosos — Não acha, Se?
Sehun lançou o melhor olhar furioso para Jongin, mas, no fundo, quase suplicava para que não fizessem isso com ele. Não disse nada, e Baekhyun levantou-se da pedra para conferir o que falavam.
— Vai nada, ele já deve tá blindado com o seu, mané. — Devolveu.
— Tá, sei! Bora lá, Yeol — Jongin respondeu depois de algumas risadas, havia trocado de camisa ali mesmo e já colocava a mochila nas costas.
— O treino de vocês já terminou? — Sehun pareceu confuso.
— Hoje acabou mais cedo — Chanyeol respondeu, enquanto guardava o estojo e o caderno para ir na mesma direção que Jongin — Até amanhã!
Acenaram para Baekhyun e foram embora. Baekhyun colocou os chinelos e trocou de camisa também. Não falavam nada. Na verdade, Sehun sequer esperava que fosse ser visto por lá. Tudo começava a parecer uma péssima ideia, e começava a querer voltar no tempo.
— Você vai pra que lado? — Baekhyun perguntou, colocava o moletom do time e somente seus olhos apareciam pela gola, além de alguns fios bagunçados, e a voz saía abafada pelo tecido. Uma gracinha.
— Pra lá — apontou para a esquerda, pela saída oposta pela qual os outros dois seguiram. Havia sido quase monossilábico e, mesmo assim, quase gaguejou.
— Legal, podemos ir juntos — Baekhyun respondeu pegando as coisas. — Ah, verdade, a loja é pra lá né — riu.
— Sim, mas vou pra casa agora. — Deu de ombros.
Seguiram alguns metros em silêncio. Era estranho, na verdade. Não se conheciam muito, sabiam poucas coisas a respeito um do outro, a principal característica de Baekhyun para Sehun é que ele era muito cara de pau. Fora todas as coisas estranhas que sentia, mas isso era muito mais sobre si mesmo do que sobre o outro. Não sabia que tipo de assunto puxar. Talvez Baekhyun estivesse lidando com o mesmo tipo de pensamento. Mas, apesar do silêncio, o fim de tarde colorido tornava o caminho agradável.
— Tá de folga hoje? — perguntou depois de algum tempo.
— Bom, meio que sim. Como sabe?
— Fora o fato de você estar aqui agora? — riu da pergunta, e Sehun se sentiu o maior tolo da história por fazer uma pergunta tão idiota, é claro. — Não vi você no balcão hoje. Eu bati meu ponto, sabe. — Abriu aquele sorriso quadrado e perfeitinho, e Sehun não conseguiu não sorrir, mesmo que as razões não tivessem relação alguma com o que o garoto dissera.
— Tem razão. — Soltou um riso nervoso. — Queria assistir o treino — disse simplesmente.
— Você quer jogar? — Baekhyun pareceu genuinamente curioso, mas a expressão tão logo desapareceu logo que Sehun riu com vontade, e seus olhos ficaram levemente mais brilhantes, tinha achado o riso de Sehun bem engraçado.
— Eu não, sou péssimo com esportes. Só sirvo pro FIFA, e nem isso direito. Prefiro Overwatch. Mas enfim, só fiquei afim de assistir mesmo. — Chutou uma pedrinha do chão.
— Overwatch? Eu também jogo! — Baekhyun pareceu muito mais empolgado do que antes. Ainda analisava as confissões repentinas. — Quer ir jogar lá em casa?
E lá estava seu corpo traindo suas vontades mais uma vez. Queria poder abafar o som de seus batimentos, porque tinha certeza que deviam estar cem por cento audíveis. Pigarreou, conspirando contra si mesmo. — Hoje?
— É! A não ser que você tenha compromisso. Mas pode ir outro dia se quiser. — Chutou a mesma pedra que Sehun havia chutado antes.
— Acho que posso ir. Só tenho que avisar meus pais.
— Eles estão no mercado?
— Sim.
— É no caminho. Podemos passar e perguntar — sorriu. Sehun concordou.
E é claro que Baekhyun não deixou de pegar uma amostra grátis antes de irem animados jogar algumas partidas de Overwatch.
⚡️
Não é comum lembrar precisamente de como uma amizade começa. Mas Sehun não poderia esquecer nem por um dia de como um ladrãozinho passou a ser seu colega, e então, a pessoa com quem dividia boa parte das tardes do ano que sucedeu tais acontecimentos. Alternava os dias da semana entre o expediente no mercado, contas e cruzadinhas, com arquibancadas geladas, seguidas de partidas de Overwatch na casa de Baekhyun ou na sua. Eram partidas equilibradas, aliás, que rendiam boas apostas.
Baekhyun havia se aproximado de Jongin e Chanyeol de tabela, já que um era seu colega de treino e o outro também costumava estar lá assistindo aos jogos. Os atletas até mesmo haviam tentado ensinar alguma coisa como um passe simples ou um chute decente para Chanyeol e Sehun, mas era muito bem evidente para qualquer um: Eles eram apenas dois magrelos espichados sem dom algum para aquilo. Então, isso ficava de lado, mas com certa frequência, se reuniam nos fins de semana para maratonar alguns filmes ou entrar a madrugada jogando videogame.
Eram nesses momentos que Sehun esquecia-se um pouquinho só dos sentimentos que desenvolviam-se no seu peito, muito mais lúcidos do que no princípio de tudo, e permitia-se pensar menos. Porque era alguém bem indeciso e inseguro quanto a opiniões e decisões, como deveria agir, o que devia falar ou não falar, o quanto poderia mostrar de si mesmo. Mas, entre os quatro, era ele, e apenas ele.
Baekhyun também seria um tolo se negasse como se sentia sobre Sehun nessas horas.
Chanyeol e Jongin eram além de tudo dois agentes do diabo. Quando sentavam no sofá, faziam questão de deixá-los lado a lado. Ou mesmo na mesa de jantar. Tiraram com a cara de Sehun até o fim dos tempos depois que uma vez, enquanto assistiam O Império Contra-Ataca, Baekhyun pegou no sono com o rosto apoiado no ombro dele.
Sehun também era o favorito do cachorro de Baekhyun, coisa que o deixava com um biquinho emburrado e que Sehun descobriu muito cedo que morria de vontade de beijar… Mas isso não era coisa de garoto. Esse era o tipo de coisa que ele ponderava e reprimia.
⚡️
Foi só um ano mais tarde que Sehun sentiu, pela primeira vez, que talvez as coisas que se passavam consigo não fossem tão unilaterais quanto ele imaginava serem. Tinha quinze anos recém completos, Baekhyun tinha quase dezesseis. O pai dele havia começado a ensiná-lo a dirigir há alguns meses. Era metade de abril a noite em que Baekhyun decidiu sair com o carro escondido. Passou na casa de Sehun antes de seguir pela rodovia que levava até uma praça alta, onde os adolescentes costumavam ir para beber e entrar a madrugada. Eram os dois e um VW Gol prata, ornado em preto fosco.
Sehun não conseguia relaxar no carona, apesar de Baekhyun ser um bom piloto. Odiava fazer coisas erradas e, bem, sair por aí de carro, sem carteira, era com certeza algo bem errado — mesmo que as luzes fossem baixas, as ruas pouco movimentadas e o trajeto seguro. Além de tudo, o pai de Byun era policial. Ficava criando na própria cabecinha quinhentos cenários onde tudo daria errado, onde eles provavelmente precisariam parar de se falar. Porque Sehun tinha dessas, ele sempre achava que a culpa seria toda dele.
Então, ele falava sem parar, dizendo que era melhor voltarem, que faltava tão pouco para Baekhyun fazer dezesseis e tirar a carteira, eles poderiam muito bem esperar mais uns meses tranquilos ou até mesmo o próximo fim de semana que o Sr. Byun levaria o filho para o estacionamento da polícia para treiná-lo — ocasiões em que, comumente, Sehun estava presente no banco de trás. Baekhyun tentava tranquilizá-lo, colocando a fita do Bowie para tocar, mesmo que preferisse ouvir Queen quando dirigia. Sehun abaixou o volume e voltou a falar.
Tinham chegado na tal da praça, onde Baekhyun havia estacionado o carro estrategicamente virado para a cidade que se iluminava diante deles.
— Tá tudo bem? O que foi que deu em ti, cara? Sério, se der merda, eu não vou te defender. Inclusive, eu devia ter gravado minhas insistências pra voltar — Sehun começou a devanear. — Agora perdi as provas de que tentei te impedir, porra. Bom, em todo caso, você não mentiria, né? — A pergunta era retórica, mas Baekhyun abriu a boca pra falar. Sehun, contudo, mexia no porta-luvas procurando alguma coisa e resmungando outras quinhentas, sequer deu tempo de notar.
— Sehun — Baekhyun chamou. E chamou outra vez, e mais outra. Mas Sehun tinha a cara enfiada no porta-luvas procurando sabe-se lá o que. O moletom cinza caía sobre os fios escuros, que naquele tempo eram relativamente compridos. Foi por um curto período em que teve os cabelos castanhos claros mais curtos que os de Sehun. — Sehun! O que você tá fuçando aí, cara?
— Eu tinha a impressão de ter deixado uma bombinha no seu carro uma vez. Não deixei? Mas e aí, qual foi a de sair assim? — Subiu, com os cabelos ligeiramente bagunçados e o rosto consideravelmente vermelho, já que o sangue havia subido à cabeça. Baekhyun desatou a rir e deu uma arrumadinha nos cabelos de Sehun. Que acompanhou o movimento como se fosse em câmera lenta.
— Precisava desopilar. Você fala né, se eu te beijasse você calava a porra da boca? — perguntou, e Sehun, na mesma hora, voltou a ficar vermelho.
Encararam-se por uma fração de segundos que pareceu durar uma vida inteira. Ambos hesitavam, Sehun sequer havia respondido a provocação porque havia ficado cem por cento abstraído. Então desataram a rir no mesmo momento, mas Sehun ainda sentia as mãos formigando e esfregava as palmas na calça jeans. A risada era descompassada e mais nervosa que qualquer coisa — não que a de Baekhyun fosse muito diferente. Baekhyun abriu o vidro do carro e Sehun deu graças a Deus por sentir ar fresco, o clima parecia ter ganhado novecentos graus a mais, se ficasse naquele bafo por mais um minuto, sentiria o baixo ventre formigar também. Riram mais um pouco e Sehun deu um encontrão de ombros em Baekhyun.
— Vai se foder — riu. — Anda, desembucha.
— Hmm… — Baekhyun pensou. — O de sempre. Tava pensando em fazer algo diferente, não ser só “o cara do futebol”, tá ligado?
— Você não é só “o cara do futebol”. Você é O Cara do Futebol, Baek.
— Sim mas…
— Mas o que?
— Pensei em ser líder de turma. É idiota, eu sei, mas talvez pudessem perceber que eu não sei só jogar bola. — respondeu, com um sorriso melancólico no rosto.
— É que você liga pra essas coisas né. — Sehun deu de ombros, falando sozinho por um momento, mas em voz alta. — Não é idiota. Acho que você consegue. O que te impede? — Encarou Baekhyun, que sorria com a última constatação.
— Nada, eu acho. Acho que tenho um pouco de vergonha, só.
— Você? Sai pra lá, esse aí é o meu papel. Você assaltava o meu mercado com treze anos e agora diz isso? Na na na! — Gesticulou no rosto do mais velho. — Já tem as fãs, já tem amigos, só tenta, sabe?
— Que fãs, Oh?
— Não se faz, Byun — Sehun respondeu, e o outro revirou os olhos. Agradecia pelo ar quente ligado, porque servia como pretexto para o rubor que sabia estar. Não é que tivesse ciúmes de Baekhyun, mas também não era alheio ao fato de que não era o único a se sentir assim com a presença dele.
— Vai ser psicólogo, né?
— Pra sua sorte, não. Vou ser contador, então não te cobrarei essa consulta no futuro. Agradeça minha mãe mais tarde.
— Você não presta.
— Você que saiu de carro sem carteira. E eu te dei um apoio e tanto! Quem não presta é você, Baekhyun! — gesticulou uma falsa ofensa.
Riram, e tão logo o silêncio se apossou do espaço. Encararam as luzinhas miúdas da cidade lá embaixo por alguns minutos. Só se podia escutar pequenos grilos do lado de fora e Starman tocando baixinho. Sehun deixou um suspiro audível escapar quando pensou na voz de Byun Baekhyun proferindo se eu te beijasse você calava a porra da boca?, e fechou os olhos, sem sequer reparar.
— Acho que você tem razão — Baekhyun encarava Sehun de cantinho.
— Sobre o que? — disse calmo, mas se dando conta dos últimos gestos.
— Sobre tudo. Mas quis dizer sobre sair de carro. Dá pra segurar. — Ele riu e ligou o motor. — Melhor voltarmos.
Talvez fosse seu modo de retrair os pensamentos. Na volta, Sehun foi quieto, e puderam apreciar o Space Oddity pelo trajeto. Embora, talvez, ambos só pensassem em uma única coisa.
⚡️
O Baile de Primavera. O tipo de festividade que provavelmente nenhum garoto como Sehun gostava, ou sequer sabia como aproveitar. Naquele ano, porém, era tudo diferente. Em primeiro lugar, porque o evento iria ocorrer quase um mês e meio mais tarde do que o habitual. Isso porque, a instituição havia passado por reformas no último período de férias, e uma parte estava sendo finalizada ainda quando o semestre retornou. Portanto, precisaram esperar o fim das obras para poderem ocupar o ginásio para tais fins.
Além disso, aquele era o primeiro ano da segunda etapa do ensino secundário. Em tese, eram tempos mais maduros. Na verdade, não era bem o que acontecia. Haviam planejado por alguns meses a chegada no Baile de carro, mas Baekhyun não havia tirado a carteira de motorista a tempo. Então, Jongin teve a brilhante ideia de ir de bicicleta, quatro caras de terno pedalando pela cidade. Se houvesse alguma lucidez naquele grupo, talvez alguém tivesse avisado: Não! Mas é claro que os outros três toparam de imediato.
Pouco tempo depois do início do baile, Sehun já se arrependia de ter aceitado aparecer por lá. Isso porque, Jongin e Chanyeol tinham um ritual ridículo de jamais convidar antecipadamente garota alguma, apenas para terem o prazer de caçar donzelas na pista. O que, por alguns anos, significava que Sehun passaria o evento inteiro sentado na arquibancada jogando palavras cruzadas. Teve um tempo em que Baekhyun tentou participar com Jongin e Chanyeol, mas não era do feitio dele. No último baile, Baekhyun havia chamado Park Sooyoung para ser sua acompanhante, mesmo que ela fosse quase da altura dele. Não rolava nada entre os dois, a verdade é que Baekhyun já tinha a pretensão de ser líder de turma, e ela era a líder naquele ano. Também sabia que ela tinha uma quedinha por Chanyeol, então a convidou, e trocaram uma ideia sobre as metas que tinham.
Naquele baile, contudo, Sehun tinha a companhia de Baekhyun, que não havia se integrado no jogo dos outros dois nem chamado nenhuma garota para ir com ele. E embora isso pudesse ser, de algum modo, um alívio — porque significava que poderia passar algum tempo com ele, ao invés de admirá-lo de longe, com o peito sufocado de inveja de alguma pessoa qualquer —, não conseguia parar de se sentir culpado por tê-lo ali consigo. Porque Baekhyun era definitivamente do tipo festeiro, do tipo que gosta de dançar e beber ponche (às vezes batizado), enquanto ele sequer sabia como se mover nessas ocasiões. Usava um terno cinza claro, que contrastava muito bem com o cabelo escuro, tinha os braços atados em timidez, e segurava em uma mão o fatídico bloco de cruzadinhas, e na outra, uma caneta.
— Cara, eu não acredito. — Baekhyun voltou com dois copos, um para ele e um para Sehun, resmungando quando percebeu o que Sehun segurava. Ele usava um terno azul marinho, que também caía bem em contraste com o cabelo caramelo.
Sehun revirou os olhos e sorriu. Ainda se sentia um pouco mal com tudo aquilo e resolveu abrir o jogo.
— Eu fiquei pensando, pode ir perambular por aí se quiser. Eu fico fazendo minha cruzadinha. Sei lá, eu não curto tanto esses rolês, sabe?
Baekhyun riu e negou com a cabeça.
— Preciso do seu aval agora, é?
— Não foi isso que eu quis dizer… — Sehun corou no mesmo segundo, e ia seguir falando, mas Baekhyun interrompeu.
— Tô só tirando. Solta isso aí e prova o que eu trouxe!
— Isso tá batizado, Baekhyun?
— Não tá, relaxa.
Sehun colocou o kit-antitédio-de-bailes no bolso e pegou o copo, ainda encarava Baekhyun ressabiado, mas provou. Era de fato, apenas ponche. E precisava admitir, o novo serviço terceirizado era dos bons, porque a qualidade andava muito melhor.
— Então… Qual a sua super ideia pra essa noite? — Balançava o copo em movimentos levemente circulares, como muito vira em filmes mais antigos.
— Vamos dançar!
Nem nos melhores sonhos Sehun poderia ter impedido o engasgo que teve.
— Como é?
— Ninguém tá olhando pra nós. Tá cheio, e a gente tá aqui, quase na saída.
— Eu não sei dançar, Baekhyun.
— Te ensino! Vai, me copia — ele disse, e começou a botar um pezinho para o lado, um pezinho para o outro, balançar a cabeça, mexer os ombros, até arriscou a cintura, mas Sehun não fez mais do que rir da cara dele.
— Nem fodendo, otário.
— Tá, você tem ideia melhor? — Baekhyun respondeu entre risos, e adiantou: — Não ouse falar palavras cruzadas, cara.
Sehun revirou os olhos, porque já levava a mão até o bolso — A gente podia começar mudando essa playlist. — Deu uma olhada para onde ficava o DJ, que no momento era nada mais, nada menos, do que uma rádio no Spotify. Era arriscado, podiam ser pegos e só Deus sabe que castigo tomariam, mas… isso era definitivamente um modo de tornar tudo aquilo mais interessante.
— Só se colocarmos Queen.
— Botamos o álbum que você quiser, Byun.
Trocaram um sorriso cúmplice e foram se esgueirando entre convidados, alunos e docentes até onde estava o notebook. Naquela época, Sehun já era alto o bastante para chamar alguma atenção, então ficou apenas de tocaia cuidando para ninguém se aproximar muito, enquanto a tarefa de mudar a playlist ficou para Baekhyun. O computador ficava sobre o palco improvisado, instalado durante os bailes, onde também eram dispostas cortinas para esconder a aparelhagem.
A Kind Of Magic não era exatamente o tipo de música de festa que o pessoal naquela época desejava escutar, mas era exatamente o tipo de música que definia Baekhyun. Se antes ele havia parecido um grande pateta dançando, naquela hora ele era a vida da festa, no campo de visão de Sehun, secreto a todo resto, compartilhando somente os dois, aquele momento de crime. Era errado mudar a playlist, mas também não era nada demais. Não feria ninguém. Só o peito de Sehun. Esta chama que queima dentro de mim; Estou ouvindo harmonias secretas; É um tipo de magia.
Mas o efeito hipnótico durou pouco porque, rapidamente, percebeu os olhares confusos de todos no ginásio. Fingiu a melhor expressão de confusão e se enfiou para dentro das cortinas, onde Baekhyun também estava. O semblante dele ainda brilhava, e antes que a canção terminasse, puxou Baekhyun pelo pulso para a saída mais próxima. A música ecoava baixinha do lado de fora, o vento gélido concedia ao momento a mágica que a música cantava.
— Vamos continuar correndo — Baekhyun falou de repente, com aquele sorriso quadrado bem aberto, dono de toda insanidade de Sehun.
— Pra onde?
— Sei lá — ele disse, tomando Sehun pela mão. Correram para fora da escola. Correram por algumas ruas. Riam sem saber exatamente do que. Correram tanto que chegaram na rua do Oh Bom Mercado, ainda que fosse próximo da escola, a distância era considerável.
— Pera, vem aqui. — Sehun puxou Baekhyun para os fundos da loja. — Preciso descansar. — Apoiava as mãos sobre os joelhos, e ofegava bastante. Afrouxou a gravata e tirou o casaco do terno. — Eu não tenho o seu físico, Baekhyun.
— Por que a gente se escondeu? — Baekhyun perguntou ainda rindo. Um pouco da situação, afinal, ninguém os perseguia, um pouco do comentário de Sehun, porque de fato, não se sentia tão cansado quanto o outro parecia estar.
— Nem sei. — Deu de ombros.
Baekhyun tirou o casaco também. Se encostou na parede do mercado, ao lado de Sehun. Ficaram assim por alguns segundos, até tocar a ponta dos dedos na ponta dos dedos dele. Não conversavam, apenas ressonava naquele cantinho mal iluminado, a respiração cansada dos dois. Sehun torcia para que fosse só isso, na realidade, e para que seus batimentos não escapassem do peito. Passavam pela sua mente quinhentas coisas, queria dizer como se sentia, mas não sabia que palavras usar, ou como usá-las.
— Baekhyun eu…
— Não fala nada. — Cortou, e selou os lábios dele. Tinha levado uma mão até a nuca de Sehun e a outra segurava o nó da gravata. Num primeiro instante, Sehun sequer havia fechado os olhos, tamanho choque que havia sentido. Os lábios de Baekhyun eram tão bons quanto havia pensado. Eram macios, quentes, queria senti-los com toda contradição do mundo: Apressado pelo desejo prolongado, com calma para gravar cada canto daquela boca. Levou um pequeno susto quando Baekhyun tocou a língua na sua boca, mas repetiu o ato. Era estranho no começo, não sabia bem como fazer, queria conseguir aproveitar, mas só sabia pensar em como devia estar babando o outro. Quando Baekhyun se afastou milimetricamente, disse:
— Eu vou melhorar e…
— Relaxa. — Baekhyun cortou ele mais uma vez, com um sorriso diferente de todos aqueles que já havia mostrado. Quase embriagado, e Sehun sequer sabia quais eram os efeitos do álcool, mas se sentia assim: bêbado de amor, de paixão e tesão, de qualquer coisa possível na terra. Puxou ele para perto, pela nuca, com uma delicadeza que só o afeto tinha. Baekhyun desceu a mão do nó da gravata de Sehun para o peito dele. As línguas voltavam a se encontrar, já haviam gastado anos apenas em diálogo e agora Sehun ansiava mais que tudo por conhecer o gosto de Baekhyun.
Baekhyun não era tão inexperiente quanto Sehun. Sabia algumas coisinhas a mais, e provavelmente queria aquilo com intensidade igual, porque não sabiam se contentar apenas com a boca um do outro. Sehun, apesar de estar encostado na parede, havia colado o corpo de Baekhyun ao seu com tanta vontade, que foi fácil para os dois começarem a sentir a região da cintura esquentando. Baekhyun começou a descer delicadamente alguns beijos pelo pescoço de Sehun. Tinha desejo, mas eram dois tolos de pensar que era apenas isso.
— Acho que vou me apaixonar por você… — Sehun deixou escapar.
O que foi um erro e uma mentira.
Um erro, porque Baekhyun parou abruptamente o que fazia. Pela primeira vez, Sehun percebeu Baekhyun ponderar tanto quanto ele mesmo costumava ponderar e, também, pela primeira vez, escutou a voz de Baekhyun num ruído falho.
— C-como assim?
— N-nada — respondeu, tentando desfazer a merda.
— Você não pode — disse, simplesmente. E Sehun não entendia bem o que estava acontecendo. Sentiu um nó se formando na garganta. E segurou cada mísera lágrima enquanto via Baekhyun se afastando, dando as costas, até sair correndo, do mesmo modo que haviam corrido até ali. Deixando para trás o casaco, e Sehun, com o gosto da mentira na boca.
Porque Sehun estava mentindo quando disse que iria se apaixonar por ele. Isso era uma mentira quando na verdade já estava apaixonado por Byun Baekhyun.
