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Escrito nas estrelas

Summary:

Durante as gravações de seu novo filme natalino, a problemática atriz Agatha Harkness conhece Nicki, um misterioso estagiário que diz ter vindo no futuro.

Isso não seria um grande problema, se o garoto não tivesse provas de que é filho dela com sua co-star - que ela não suporta -, Rio Vidal.

 

(Publicado também em Inglês.)

Notes:

oiiii, escrever na língua nativa é tão bom 🫶🏻 quero agradecer a maravilhosa da autora a quem eu presenteio essa fic por ter tido a ideia do plot e ter me autorizado me divertir com ele e deixar minhas imaginação fluir.

espero que gostem!!!!!

Chapter 1: Agatha

Chapter Text

 

“Senhorita Harkness, dez minutos.” Uma mulher com um headset e prancheta a avisou na porta do camarim, batendo-a logo em seguida.

“Dá pra ir mais rápido?” Agatha perguntou, se virando pra maquiadora que na opinião dela estava demorando demais para alguém que recebia duzentos dólares por hora para brincar com pincéis e batom.

“Desculpe, senhorita Harkness.” Ela pediu, terminando o retoque de pó translúcido no rosto da atriz com um pincel de cerdas fofas e cheias, puxando o “babador” de plástico que protegia o figurino. “Tudo pronto.” 

“Finalmente.” A atriz levantou da cadeira com um pulo, pisando tão forte até o set designado para o dia que o barulho dos salto alto ecoava, sem se preocupar em agradecer.

Agatha Harkness odiava tudo sobre o projeto, e mais do que tudo odiava a sua agente, Alice, que havia conseguido o papel para ela.

A atriz não era uma pessoa fácil de trabalhar e sua reputação rapidamente ficou conhecida por toda a Hollywood, o jeito que tratava os funcionários, como batia boca com os diretores e roteiristas quando algo não a agradava, as respostas atravessadas aos colegas de cena. O fato era que ninguém queria contratar Agatha Harkness.

Então Alice, se recusando a soltar a mão de Agatha em razão aos anos de amizade, teve a ideia estupidamente brilhante de a colocar em um tipo de filme muito aguardado e comentado na esperança de limpar a sua imagem; Um romance lésbico de Natal, com um final feliz e satisfatório para o público mainstream. 

O problema era que Agatha achava tudo extremamente irritante. Ela não gostava da história, da ideia irrealista de um romance natalino com felizes para sempre, do fato de estar passando o último mês do ano enfurnada em um set de filmagens, da diretora que mais parecia uma parada gay ambulante, do estagiário que vivia a seguindo para baixo e pra cima, e acima de tudo, odiava com todas as forças sua co-star, Rio Vidal. 

Grande parte desse ódio, por mais que ela nunca fosse admitir, se dava ao fato de que Rio tinha o papel protagonista do filme e Agatha era seu mero interesse romântico.

“Escrito nas estrelas”, na verdade, era uma sequência. Alguns anos atrás, Rio havia feito uma personagem secundária em um filme pastelão sobre uma mulher que acompanha a namorada para a casa dos pais no Natal sem saber que a amada não era assumida para a família. Ou algo do tipo, Agatha não se deu o trabalho de prestar muita atenção. O que aconteceu foi que o público teve muitas reclamações após o filme, implorando para que a protagonista tivesse terminado a história com a personagem de Rio ao invés da namorada mentirosa, e isso acendeu na mente da diretora, Jennifer Kale, a fagulha para escrever uma sequência onde a personagem de Rio Vidal achasse um amor. 

Esse amor era interpretado pela primeira e única Agatha Harkness, e a realidade não podia ser mais diferente. Ela não suportava Rio, e o pior de tudo é que a outra mulher sabia disso, sempre dando um jeito de provocá-la com alguma piada ou ato irritante, ela sabia como dar nos nervos de Agatha como mais ninguém conseguia. 

Além disso, ela era uma atriz talentosa, o que desagradava Agatha ainda mais, reduzindo seu arsenal de coisas ruins a dizer sobre Rio. Por enquanto, ela podia se contentar em dizer que sua colega de profissão era irritante, metida, soberba e inconveniente. 

Na trama, a personagem de Rio é uma médica e a de Agatha uma empresária que não suporta o Natal e não acredita em sua magia , que acaba se envolvendo num acidente na neve, passando a época de festas na companhia da protagonista, se apaixonando no processo. Na visão de Agatha, um roteiro burro e pretensioso, e com certeza não tinha nada a ver com o fato de que ela na vida real detestava o Natal e Ano Novo. 

Mas, Alice havia mexido muitos pauzinhos para que Agatha fosse aceita na produção e ela, apesar dos comportamentos, amava a própria carreira. Então ela iria aguentar calada, até mesmo quando a fizeram tingir o cabelo de loiro para o papel. 

As cenas de hoje seriam gravadas em uma festa de Natal dos funcionários do hospital que a personagem de Agatha insiste em participar por não aguentar mais estar confinada em seu próprio leito e obriga a personagem de Rio a levá-la. Seria um momento crucial para a história, já que na festa uma personagem secundária flerta com a protagonista, e a vivida por Agatha surta de ciúmes, percebendo que seus sentimentos são mais profundos do que imaginava. 

“Todos prontos?” Jennifer perguntou, andando até a cadeira da diretora e sentando-se.

“Eu estou.” Rio disse e a Agatha a viu pela primeira vez no dia, já irritada com a forma que ela falou essa simples frase, como se ela fosse melhor que todos os outros. “E você, Agatha?” Perguntou com um sorriso debochado, não perdendo a chance de provocar.

“Sempre.” Ela se contentou em dizer , exausta de toda a situação e só desejando que tudo acabasse logo. 

Agatha já havia visto alguns trabalhos de Rio e passado por ela em corredores de eventos e premiações, mas só a conheceu de verdade na primeira mesa de leitura do roteiro. Não a detestou no primeiro momento, mas durante a pausa para o lanche ouviu muito bem a atriz conversando com Jennifer dentro da cafeteria, se mantendo escondida na porta para ouvir o desenrolar.

“Você tem certeza que isso é uma boa ideia, Jen?” Rio havia perguntado,preparando seu café. “Agatha Harkness não é nada além de problema.”

“Eu sei.” A diretora admitiu. “Mas ela é boa como atriz e Alice já me ajudou um bocado no passado, sinto que devo isso a ela. Fica tranquila, vai ocorrer tudo bem, Agatha está desesperada pra não cair no esquecimento.”

Ela nunca iria admitir como aquilo a atingiu, as lágrimas acumuladas que ela não permitia cair, sabendo que era tudo verdade. Se era assim que Rio a via sem sequer conversar ou conhecê-la direito, então que fosse desse jeito, Agatha agiria a altura. 

Haviam sido seis semanas torturantes desde então.

“Ação!” A voz de Jennifer ecoou pelo ambiente e a câmera começou a rodar. 

Agatha entrou na sala reclusa hiperventilando, andando de um lado pro outro em desespero, sentando no sofá mais próximo e escondendo o rosto nas mãos, respirando fundo na intenção de se acalmar.

Rio entrou logo após com um semblante preocupado, ajoelhando em frente a ela. “Ei, o que houve, está tudo bem?” Ela pergunta, tateando os braços de Agatha, como se estivesse procurando por sinais que indicassem o que estava errado. “Está se sentindo tonta?”

Agatha levanta o rosto, as lágrimas forçadas já rolando pelas suas bochechas e a expressão de Rio se torna mais séria, juntando as sobrancelhas e chegando às pálpebras de Agatha. “Consegue falar?”

Ela prontamente afastou as mãos de Rio, virando o rosto para longe do dela. “Consigo.” Disse com a voz embargada e rancorosa. “Você também, pelo visto, e bastante.”

“Você não está fazendo o menor sentido.” Rio disse, se levantando e tentando rodear o corpo de Agatha com seus braços. “Acho que está com confusão mental. Vem, vou te levar de volta para a cama.”

“Eu não quero!” Exclamou, se prostrando em pé e se afastando de Rio, que fez uma expressão surpresa. “Me deixe em paz! Por que você não volta pra sua namoradinha?”

“O que?” Perguntou confusa, se sentando no sofá. 

“Eu vi vocês duas conversando.” Agatha disse, colocando uma mão sobre o próprio peito e se virando para a janela falsa. “A noite toda. Ela não tirava os olhos de você.”

“A enfermeira? Somos amigas!” Rio exclamou, ainda aparentando confusão, seu semblante mudando aos poucos.

Agatha não podia deixar de admitir que ela fazia isso muito bem. 

“Não era isso que parecia.” Agatha disse com desdém, destilando o tom de ciúmes evidente em cada palavra.

Rio levantou, andando lentamente até Agatha, que estava parcialmente de costas para ela, colocando uma mão quente em seu ombro. “Por que você se importa tanto com isso?” Ela sussurrou audivelmente próximo a orelha de Agatha. 

Agatha se virou completamente para Rio e elas trocaram um olhar carregado de emoção, ambas tentando traduzir a tensão necessária apenas com os olhos. Agatha bufou em frustração, saindo pisando firme e batendo levemente seu ombro contra o de Rio, fechando a porta e deixando a mulher sozinha no cômodo.

“Corta!” Jennifer exclamou e as luzes exteriores se acenderam, ela sorria de orelha a orelha. “Ótimo,meninas.” 

Agatha aceitou o elogio de bom grado, mesmo que a incomodasse que não foi dirigido apenas a ela. 

“Como sabem, temos até Janeiro para entregar o filme a pós produção e eu gostaria muito se pudéssemos terminar as gravações até o Ano Novo.” Jennifer começou a explicar para a equipe. “Infelizmente, isso significaria que iríamos precisar passar a semana do Natal trabalhando.”

Um burburinho revoltado começou imediatamente e Jennifer levantou uma mão, tentando continuar. “Como forma de amenizar, elaborei junto com os produtores uma escala para que tenhamos apenas os trabalhadores essenciais na época, aqueles com cargos secundários ou terceirizados terão folga, e nenhum de nós trabalhará na véspera e no dia de Natal.”

Para falar a verdade, não fazia a menor diferença na vida de Agatha. 

Desde criança, sempre havia sido apenas ela e sua mãe, Evanora, e uma data especial não mudava nada na relação das duas além do fato que uma vez no ano sua mãe fingia ser religiosa e a obrigava a participar das missas de Natal. Agatha não tinha certeza se havia ganhado algum presente na data durante a sua infância e adolescência, e Ano Novo significava o dia em que Evanora se sentia mais livre de avaliar todos os acontecimentos do último ano e sempre verbalizar o quanto sua filha havia sido um fracasso durante o ano, o quão ruim suas notas e comportamentos haviam sido, o quanto ela era uma decepção.

Quando ingressou no teatro, muito a contragosto de sua mãe que enxergava o ambiente como um local de perdição, as festas de fim de ano se tornaram sinônimos de brincadeiras de amigo oculto e confraternização com colegas que ela não se sentia confortável o suficiente para chamar de amigos, a não ser por Alice. 

Depois de conseguir seu primeiro papel em um filme e entrar de vez no mundo glamouroso de Hollywood, as datas passaram a serem comemoradas em festas de famosos que Agatha não lembrava o nome ou o rosto, ignorando as ligações de Evanora nas quais ela sabia que iria ouvir novamente que havia nascido má e era um fruto podre após sua mãe ver nos noticiários que Agatha Harkness se considerava uma atriz lésbica e orgulhosa disso, entornando taça após taça de champagne e beijando atrizes, modelos e cantoras que ela não se importava

Agora, com 37 anos, para Agatha Harkness o Natal e Ano Novo eram datas quaisquer, a diferença era que nessa época as pessoas se davam ao trabalho de fingir que eram boas e caridosas, que seriam diferentes após a virada do relógio para meia noite. 

Besteira. 

Por isso, quando o dia 23 de Dezembro chegou, Agatha não se incomodou nem um pouco em andar através do ar congelante para chegar ao set, apertando o casaco pesado contra si e forçando simpatia para cumprimentar os poucos funcionários que ainda ali estavam, revirando os olhos sutilmente para os piscas piscas e músicas natalinas que decoravam o lugar.

O que a incomodava, na verdade, era o estagiário novo que ela sempre flagrava com o canto do olho a seguindo. Um rapaz de cabelos castanhos claros e olhos verdes-acastanhados, nunca a mais de cinco metros de distância e sempre calado.

Agatha não era nenhuma estranha ao comportamento inconveniente de grande parte dos homens de Hollywood, mas algo nessa situação a incomodava de forma diferente. O garoto sempre parecia estar fazendo seu trabalho, como se o fato de estar próximo fosse apenas uma mera coincidência, nunca falava absolutamente nada ou se aproximava o suficiente para conversar e isso fazia Agatha estranhar de uma maneira que levantava arrepios na sua nuca. Ele tinha uma aura diferente, como se não pertencesse ali. 

Mas ela apenas se convenceu de que era apenas um estagiário deslumbrado com a oportunidade de trabalhar em um filme de investimento milionário, ela se lembrava muito bem de quando foi a sua vez na mesma posição. 

Quando Agatha entrou no set do dia, a área exterior do hospital, lá estava ele novamente. Estava ao lado de Jennifer segurando uma prancheta e disfarçando seu olhar para Agatha. Por que diabos um estagiário de produção seria essencial? 

Agatha grunhiu ao lembrar de qual era a cena planejada para hoje. Sua personagem teria alta do hospital após ter discutido com a de Rio e iria embora, porém a protagonista iria atrás. Então,a grande culminação da tensão romântica entre as protagonistas. O beijo. 

Rio, como sempre, já estava ali em seu figurino de médica com Scrubs vermelho escuro e um casaco de segunda pele por baixo, em pé no meio da neve falsa, conversando com a coordenadora de intimidade.

“Agatha!” Jen exclamou. “Finalmente, podemos começar.” 

A coordenadora rapidamente veio na direção da loira, perguntando sobre o que seria confortável para que ela fizesse e insistindo para que as duas ensaiassem pelo menos uma vez antes da gravação, mesmo que Agatha dissesse que era uma atriz boa demais para precisar disso.

Por insistência, ela aceitou e Rio se colocou na frente dela com um sorriso de lado. “Não precisa fingir que não estava doida pra fazer isso, Agatha.” 

Agatha se segurou para não revirar os olhos, franzindo os lábios em um bico incomodado. “Vamos logo.”

“Nossa…que apressada.” Ela provocou novamente, se aproximando mais quando a coordenadora orientou que Rio a segurasse pela cintura. 

Testaram algumas formas de coreografia e Agatha a todo custo ignorou os choques passando pela sua pele a cada vez que a mão morna de Rio a tocava na cintura, no braço, nas costas, atribuindo ao desconforto de estar tão perto fisicamente de alguém que ela não suportava. Por fim, decidiram que a melhor forma seria se Agatha a segurasse pelo rosto e Rio a tocasse primeiro nas costas e subisse as mãos para seus pulsos.

“Todos a postos.” Jennifer pediu, se acomodando na cadeira. “E…. ação!”

Agatha andou pela neve falsa apertando o casaco contra si, com o rosto abaixado e o nariz vermelho com as lágrimas que enchiam seus olhos, segurando a bolsa com todos os seus pertences, pronta para voltar a sua solitária casa bem no dia do Natal. 

Rio saiu pela porta do hospital com pressa, olhando desesperada pros lados até achar Agatha, correndo até ela. “Espera!”

Agatha fez uma feição triste, levantando a cabeça e se virando para Rio, que parou na sua frente. “O que? Me deixa ir, por favor.”

“Não.” Rio negou veementemente com a cabeça, lágrimas em seus olhos. “Eu não consigo fazer isso. Eu já perdi tempo demais da minha vida fingindo não querer as coisas que eu mais desejava. Eu estou apaixonada por você.”

Agatha suspirou alto, levantando as sobrancelhas em surpresa.

“E se você me disser que há pelo menos uma chance de ficarmos juntas, mesmo que menor que seja, eu vou lutar por você, por nós.”

Agatha passou na própria mente o quão brega aquela frase era, mas se manteve no personagem.

Rio segurou a mão esquerda de Agatha entre as suas. “Eu sei que você já foi muito machucada, mas tudo o que eu mais quero é te provar que o amor pode ser bom e que você pode ser feliz de novo.” 

Agatha engoliu em seco, transpassando uma mistura de emoções ao olhar para Rio.

“O que você me diz?”

Agatha pôs as mãos lentamente no rosto de Rio como haviam ensaiado e colou suas bocas, sentindo as mãos da outra mulher prontamente acariciando suas costas. Era um beijo técnico como qualquer outro que já havia feito tantas vezes, mas tentou colocar a emoção que a cena pedia, movimento seus lábios contra os de Rio e sentindo a outra retribuir a altura quando segurou em seus pulsos, movendo a cabeça para mais perto como se estivesse intensificando o contato. Os lábios de Rio eram quentes e macios, e mesmo que não houvesse língua Agatha conseguia sentir o contato molhado entre as suas bocas.

O beijo foi acabando e Agatha colou sua testa na de Rio por um longo tempo, a respiração das duas se misturando no ar frio.

“Corta!” Jennifer exclamou feliz e bateu palminhas. “Nossa, ficou incrível.” 

Agatha olhou nos olhos de Rio e se afastou rapidamente, assustada com a intensidade que encontrou ali. Ela olhou na direção de Jennifer, porém o famigerado estagiário chamou a sua atenção. Ele olhava pras duas com os olhos brilhando e um sorriso pequeno no rosto. Agatha não sabia o que pensar sobre isso, algo a dizia que não era malicioso.

A produtora riu ao lado de Jennifer. “Muito realista também, vocês suspiraram tanto que tive que desligar meu fone.” 

Agatha automaticamente sentiu suas bochechas esquentando. Ouviu uma curta risada engasgada e se virou para Rio, que escondia a boca com a mão. Ela não pode evitar sorrir com a situação, voltando aos seus sentidos quando a mulher a mandou uma piscadela.

Jennifer liberou a equipe pelo dia, informando que dia 26 sem falta deveriam estar de volta para regravar algumas cenas e finalizar as finais, uma montagem de cenas onde as duas viviam o “felizes para sempre”. 

No caminho de volta para o seu trailer, Rio a interceptou. 

“Ei, Agatha!” A loira virou, contrariada, sem energia para qualquer interação com a outra atriz. “Fiquei bem impressionada com você hoje.” 

Ela levantou uma sobrancelha, cruzando os braços e continuando a andar .“É? Por que?”

“Bom, achei que você iria errar de propósito para me beijar mais algumas vezes.” Rio disse com um sorriso e Agatha bufou, se voltando revoltada para ela.

“Escuta aqui, Rio.” Ela começou com desdém, apontando um dedo para a mulher que olhava surpreendida para ela. “Se isso já funcionou alguma vez no passado, saiba que comigo não vai ser bem assim. Eu sou uma profissional e levo o meu trabalho a sério.” 

Seu rosto estava vermelho e os olhos arregalados castanhos esverdeados de Rio a observavam com humor, o que quase a fez soltar fumaça pelo nariz. Ela levantou as mãos em rendição a Agatha. “Desculpa. Eu só queria brincar.”

“Achei que já estava claro que comigo as suas brincadeiras não são bem vindas.” 

Agatha se pôs a andar, revirando os olhos quando Rio a chamou novamente assim que alcançou a porta do camarim. 

“O que você vai fazer amanhã e depois?” Rio perguntou. “Alguns de nós da equipe não vamos conseguir passar com a família e estávamos pensando em ceiar juntos.” 

“Passarei a véspera e o Natal na minha própria companhia, agradecendo por não precisar olhar na cara de vocês por pelo menos dois dias.” Agatha respondeu, ríspida, batendo a porta na cara de Rio logo em seguida.

________

Quando Agatha saiu do camarim após retirar a maquiagem do dia e se trocar, ela trancou a porta do trailer suspirando com a promessa de entornar uma garrafa inteira de vinho e desmaiar no sofá, de preferência acordando apenas no dia 26. 

Até que ela avistou o estagiário novamente, a olhando fixamente e disfarçando quando a atriz percebeu, dando meia volta e entrando no set novamente. Agatha estava sinceramente cansada da situação e resolveu ir atrás dele com passos rápidos.

"Ei, você!” Ela chamou e o garoto apertou o passo, quase correndo. “Não acredito.” Agatha sussurrou, indignada com o absurdo da situação e andando mais apressadamente, ajeitando a alça de sua bolsa que escorregava de seu ombro. 

Ele virou em um dos corredores dos produtores, tentando despistá-la, mas Agatha foi mais rápida, flagrando o estagiário entrando em uma das salas e travou a porta com o pé, entrando atrás dele.

Agatha só percebeu que era uma armadilha quando escutou a porta batendo atrás de si.

“Olha só, garoto.” Ela virou na defensiva, segurando-o pelo colarinho da camisa. “Eu não sei o que você acha que está fazendo,mas pode ter certeza que amanhã de manhã você vai estar demitido. Sua peste!”

Agatha o largou, mais revoltada ainda com o fato de que ele não parecia abalado, um traço de humor nos seus olhos verdes acastanhados. “Você sabe com quem está lidando? Eu sou uma atriz A-list, independente do que os outros digam. E quem você pensa que é? Um estagiáriozinho.” Agatha virou o crachá que ele usava pendurado para ler seu nome. “Agenor? Que diabo de nome é esse? Quero o nome de quem te colocou aqui dentro, sua carreira acabou antes de começar.”

Ela o encarou em silêncio até que o garoto levantou as mãos como se estivesse pedindo calma. “Eu entendo o porquê de você estar se sentindo assim. Será que eu posso me explicar?”

Agatha sorriu zombeteiramente e se jogou sentada no sofá, cruzando os braços. “Vá em frente, eu vou adorar ver você tentar.” 

“Você realmente não tava mentindo, né?” Agenor se sentou na frente dela em um puff. “Quando me disse que costumava ter um coração de pedra.”

Agatha arregalou os olhos, sentindo uma raiva descomunal. “É o que? Nossa, você está tão demitido.”

“Calma.” Ele pediu, respirando fundo. “Eu esperava poder falar sobre isso em outro momento, mas eu sento que o tempo está acabando e precisava falar com você.

Ela se reclinou no sofá, franzindo as sobrancelhas. “O que você quer? Autógrafo? Figuração?”

Agenor negou com a cabeça. “Não é nada disso.” Ele respirou fundo novamente, sua perna balançando ansiosamente. “Ok, lá vai.” O estagiário olhou bem nos fundos dos olhos de Agatha. “Eu sou um viajante do tempo.”

Agatha o encarou por dois segundos antes de explodir em uma gargalhada tão longa e alta que fez sua barriga doer. Ela limpou os olhos das lágrimas que se acumularam enquanto o estagiário permanecia impassível. “Figuração, então. Foi mal, garoto, você não tem vocação pra ser ator.” Ela pegou sua bolsa, se dirigindo para a porta.

“Você nunca conheceu seu pai e sua mãe, Evanora, nem mesmo sabe quem ele é.” Agatha parou surpresa ao ouvir a frase, sua mão tremendo na maçaneta. “Seu primeiro trabalho foi num programa de esquilos fantoches e você chorava no banheiro entre todos os intervalos achando não ser boa o suficiente.”

Agatha se virou pra ele, o rosto vermelho e um misto de sentimentos dentro de si. Raiva, revolta, tristeza, curiosidade.

O estagiário continuou ao perceber que sua tática havia funcionado. “Você tem uma marca de nascença na costela esquerda e uma tatuagem minúscula de lua crescente nas costas que você fez quando tinha dezoito anos e cinquenta dólares no bolso. Você só consegue dormir deitada de lado e nunca vai admitir pra ninguém, mas ronc-”

“Para!” Agatha exclamou, tomada de emoções e sentindo que estava no meio da maior pegadinha de mau gosto já feita. “Isso não prova absolutamente nada dessa loucura, você pode ter achado isso em qualquer conta maluca desses sites que vocês jovens usam hoje em dia, esse tal de Tico Teco.”

“E você diria isso pra qualquer entrevistador, Agatha?” Ele rebateu, levantando. “Eu sei disso porque você me contou, no futuro.” 

Agatha riu sem humor, desacreditada com a situação. “E por que eu contaria tudo isso pra você?”

Ele chegou mais perto, ficando cara a cara com Agatha, que percebeu que suas alturas não eram tão diferentes. “Agatha, olha bem pra mim, olha de verdade.” 

A loira passeou os olhos pelo rosto do garoto, ele parecia tão familiar e mesmo assim ela não conseguia dizer exatamente de onde vinha a semelhança. 

Ele resolveu a poupar do mistério. “Agatha, eu sou seu filho.”

Agatha negou com a cabeça, se recusando a mergulhar mais nesta insanidade. “Olha, parabéns, você quase me convenceu.” 

Ela voltou-se para a porta e a abriu.

“Uma vez você me disse que esse Natal teria sido o pior da sua vida.” O estagiário disse e Agatha parou no lugar. “Amanhã de manhã sua mãe vai te enviar uma mensagem que vai te magoar e quase acabar com o seu dia. Quem sabe quando isso acontecer você vai acreditar, mãe.”

Agatha se virou pra ele. “Eu não sou sua mãe.” Disse, ríspida. “Eu nem sei quem você é.” 

A atriz saiu andando sem olhar para trás.

________

Agatha não conseguiu dormir a noite toda, virando de um lado para o outro na cama, encarando o teto e repassando a interação do dia anterior como se fosse um filme na sua cabeça.

Eram onze e cinquenta da manhã quando Agatha checou o celular novamente, sem nenhum sinal de mensagem de Evanora. Ela sorriu, vitoriosa, falando sozinha; “Viajante do tempo é o cacete.”

No mesmo momento que ela colocou o telefone com a tela pra baixo na mesa, ele apitou.

Agatha o pegou com as mãos trêmulas, o coração acelerando e o estômago esfriando quando o visor mostrava uma notificação de sua mãe. Ela abriu, quase suando frio.

Mãe: Bom dia, Agatha.

Você é a pessoa mais ingrata que já conheci em toda a minha vida. Te criei, te dei comida, um teto para morar embaixo, você adora reclamar de mim mas eu poderia ter sido uma mãe muito pior, agradeça por tudo o que eu te fiz.

Tudo isso pra você crescer uma infeliz que não tem coragem nem de pegar o celular e digitar uma mensagem pra própria mãe para combinar de vir para casa no Natal, uma hora beleza e talento acabam, mesmo que você não tenha muito de nenhum dos dois, e quando essa sua vidinha de faz de conta em Hollywood acabar é pra mim que você vai ter que correr de volta.

Você é uma pessoa horrível, Agatha, não tem salvação. Eu deveria ter te matado no momento em que saiu do meu corpo, me pouparia de tanto desgosto, não vou nem entrar no mérito de que você tem quase 40 anos na cara e continua nessa sem vergonhice de se deitar com outras mulheres ao invés de procurar um marido.

Que Jesus te abençoe nessas festas.

 

Agatha se sentou no sofá, as lágrimas correndo pelo seu rosto e o coração comprimido no peito. Todos os insultos da sua mãe em looping na cabeça, assim como o que o estagiário havia dito pra ela ontem.

Não podia ser verdade. Só podia ser uma armação dos dois.

Mas, Evanora realmente faria esse esforço inteiro para machucá- la? Planejaria tudo isso com um cúmplice quando suas simples palavras digitadas já eram o suficiente para fazer Agatha se sentir no fundo do poço?

Ela se encolheu no sofá, se sentindo mais solitária e pequena do que nunca, e ali ficou, imóvel e chorando silenciosamente até que a campainha tocou.

Agatha levantou rapidamente, desesperada para ver outro ser humano nem que fosse o carteiro. Quando abriu, Agenor, o estagiário, estava do outro lado. 

Ele se compadeceu com o estado da mulher em sua frente, uma feição tristonha em seu rosto. “Imaginei que a essas horas ela já teria te enviado a mensagem.”

“Quem é você?” Agatha perguntou, de repente sem ar, sua cabeça girando, ela se jogou no sofá novamente, hiperventilando. 

“Eu já te contei.” Ele disse e ela percebeu que ele a oferecia um copo de água da sua própria cozinha. Agatha bebeu tudo em um gole só, se perguntando como ele já sabia andar facilmente em sua casa. O estagiário sentou ao seu lado no sofá. “Mãe, olha pra mim.”

Agatha olhou no fundo de seus olhos e se sentiu completamente zonza. Havia um peso em seu peito que ela não conseguia negar ao olhar o garoto em sua frente. Uma certeza indiscutível de que ele era seu, o sentimento que levava uma mãe a pensar que em meio a um milhão, ainda saberia dizer qual deles seria o seu filho. Sabia, sentia em seus ossos que aquele garoto havia saído dela, que o sangue correndo rapidamente em suas veias era o mesmo que corria nas dele. 

Ela se jogou nos braços dele e prontamente foi abraçada, soluçando de chorar. “Meu Deus! Me desculpa!” A atriz o apertou nos braços. “Me desculpa, me desculpa.”

“Tá tudo bem.” Ele respondeu com a voz trêmula de emoção. “Eu entendo como deve ter sido difícil pra você entender. Nem eu entendo direito.”

Agatha segurou o rosto dele em suas mãos, finalmente reconhecendo o formato de seus olhos, bochechas e boca que ela via todos os dias no espelho. “Como? Como isso aconteceu?”

“Eu não sei.” Seu filho negou com a cabeça..”Eu só desejei muito e quando acordei, ali eu estava. Um milagre de Natal.”

Agatha estava de queixo caído. “Espera. Quem é o seu pai? Por que a não ser que eu tenha sofrido uma lavagem cerebral e decidido renunciar à minha sexualidade, eu não vejo como isso possa ter acontecido. A não ser que tenhamos um novo caso de concepção imaculada a nascer em 25 de Dezembro.”

Ele riu alto. “O milagre da fertilização in vitro.”

Agatha suspirou aliviada. “Eu sou uma solteirona? Ou alguém realmente me aguentou o suficiente para ser sua outra mãe?” Ele abriu a boca pra falar. “Espera, não me conta. Você pode me contar? Ou vamos desbalancear o equilíbrio do universo? E o que eu estava na cabeça pra colocar o seu nome de Agenor?”

“Primeiro, eu não faço a menor ideia das regras disso tudo. E esse nome é falso, eu não queria que você estranhasse algo até eu saber o que fazer.” 

“Qual o seu nome?” Ela perguntou, mesmo que a resposta para ela já estivesse clara.

“O que você sempre disse que colocaria em um filho se um dia o tivesse.”

Nicholas.” Eles disseram em uníssono e Agatha o puxou para outro abraço, o balançando em seus braços.

“Calma.” Agatha se desvencilhou. “Você disse que seria o pior Natal da minha vida, que quase acabou com o meu dia. O que mudou? O que aconteceu nesse dia que o tornou melhor?”

Nicholas abriu a boca, visivelmente pensando no que falar agora. “Então…essa vai ser a parte complicada de explicar.”

Agatha franziu as sobrancelhas, confusa. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ouviram duas batidas altas na porta.