Actions

Work Header

Os Contos do Novo Olimpo: Volume I

Summary:

A guerra forja guerreiros. O silêncio revela quem eles realmente são.

Entre missões suicidas e profecias apocalípticas, os Heróis do Novo Olimpo tentam encontrar algo raro: normalidade.

Em Os Contos do Novo Olimpo, mergulhe na intimidade caótica da nova geração. Acompanhe Alice e Alessandra navegando a linha tênue entre rivalidade e algo mais em "Uma Longa Queda". Descubra como Briar abraçou seu título de "Filha da Guerra". E como Alexandre lidou com os acontecimentos no Labirinto em "Azul da Cor do Mar".

São histórias de luto, de primeiros amores, de traumas superados e de piadas ruins contadas em momentos de perigo. Porque para salvar o mundo, eles primeiro precisam salvar uns aos outros.

Uma coletânea essencial de spin-offs e backstories que transforma aliados em família.

Chapter 1: Filha da Guerra

Chapter Text

Briar, como toda criança, adorava sonhar. Seus sonhos frequentemente repetiam os mesmos dois temas: comida e amigos, e ela só precisava disso. Alguns detalhes mudavam de sonho em sonho, em um momento ela poderia estar em um grande salão cheio de mesas e pessoas comendo, em outro ela estava em um show. Esses ambientes pareciam familiares, como se fossem memórias guardadas a sete chaves na sua mente. As pessoas ao seu lado — que ela sabia que eram seus amigos — eram como vultos, rostos borrados e indecifráveis, vozes que embora não tenham som, ela entendia o significado das palavras. Era como assistir a um filme censurado e mesmo assim sentir todas as emoções passadas por ele.

Bem, eles costumavam ser assim até Dante ir embora. Ela jamais conseguiria esquecer daquele dia, pois eventualmente seus sonhos a levavam até lá. Briar se lembra de acordar como em um dia qualquer, imediatamente se surpreendendo com a presença de seu irmão ao seu lado assim como seu pai na porta. Ambos estavam olhando-a com tristeza, exatamente como ficavam antes de dar uma notícia ruim, e dessa vez não foi diferente. Dante precisava ir embora, “viajar” sendo o termo que ele usou. Briar nunca duvidaria de sua família, então quando ele disse que estava mudando de escola, ela acreditou com todo seu coração.

Ele prometeu que não iria demorar, ela prometeu que iria esperar o tempo necessário e assim foi. Os dias se tornaram semanas, as semanas se tornaram meses e os meses se tornaram um ano. Um ano inteiro sem sequer ouvir a voz de seu irmão, um ano de seu pai esquivando aquela pergunta como se estivesse desviando de uma bala. Briar não estava impaciente, ela estava com medo. Medo de nunca mais ver Dante novamente, e uma parte sua secretamente temia que ele não quisesse mais ver ela.

Em sua mente haviam vários motivos para isso, como por exemplo sua vida escolar. Dante sempre foi o mais carismático entre os dois, sendo extrovertido o suficiente para conhecer pelo menos uma pessoa em cada grupo da escola deles. Mesmo assim, ele sempre acabava se metendo em confusões, e algumas dessas confusões eram culpa de Briar. Algumas crianças provocavam a garota, chamando-a de apelidos maldosos e criticando a sua aparência, frequentemente impondo a ela o apelido de “morcega”. Como Dante já era naturalmente esquentadinho, o rapaz partiu para brigar com qualquer um que ousasse fazer isso com sua irmã, então naturalmente ele se prejudicou por isso.

“Não é sua culpa, Bri” ele costumava dizer, e ela entendia que não poderia ser responsável pelas atitudes dos outros. Mesmo assim, a garota sentia que Dante poderia estar cansado de ter que defendê-la pelo menos uma vez por semana. Talvez ele gostaria de poder não se envolver em confusão, e não era surpresa para nenhum dos dois que seu pai gostaria que eles se aplicassem um pouco mais nos estudos, visto que os irmãos não eram necessariamente os melhores da turma. Inclusive, um dia antes de Dante ir embora, eles foram chamados na diretoria mais uma vez. Ela acreditava que seu irmão iria embora por isso? Não, mas se fosse, ela entenderia.

— Campeã, deu a hora de acordar.

A voz de seu pai a tira de seus pesadelos, fazendo-a acordar com um salto. Briar demorou quase um minuto inteiro para entender onde estava, o que estava acontecendo e que dia era. Aos poucos a sua mente foi processando, e ela concluiu que, em ordem: estava em casa, são e salva. Ela estava acordando depois de dormir por quase dez horas seguidas, e hoje era um domingo, ou o segundo pior dia da semana. Em defesa do domingo, esse era o último dia que ela tinha de paz antes de ter que voltar para a sua rotina, onde as crianças seriam maldosas e ela sentiria falta da proteção de seu irmão mais uma vez.

Felizmente, enquanto estava tudo bem, ela gostaria de aproveitar um dos raros dias que poderia passar com seu pai. Pulando da cama, Briar fez a sua rotina matinal o mais rápido que pôde, às vezes até fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo. Quando sentiu estar pronta, ela desceu correndo até a sala, onde viu seu pai sentado e assistindo televisão. Assim que ele ouviu o pequeno raio fazendo barulho na escada, ele olha para sua filha e dá uma risadinha, sempre impressionado com quanta energia ela tinha.

— Achei que ia dormir o dia todo.

— Foi mal, eu não percebi o tempo passando. — Briar se desculpa e lambe os beiços ao ver o banquete em cima da mesa. Todo tipo de comida estava disponível para ela aproveitar, e a garota ficou confusa com o fato de não ter sentido o cheiro daquilo antes. — O senhor que fez isso?

— Ah, Briar, você sabe que teu velho não é muito bom de cozinha, então eu pedi umas coisinhas pra gente.

— Tem alguma ocasião importante que eu esqueci pra hoje?

Ela pergunta confusa, tentando lembrar-se de todo tipo de data importante. Aniversários? Algum prêmio que seu pai ganhou? Ela não conseguia se lembrar, e a comida ao seu lado estava impedindo sua mente de funcionar em capacidade máxima. Já escolhendo a sua cadeira na mesa, Briar fica ainda mais confusa quando ouve seu pai rindo.

— Hahaha, não, eu só… — ele começa a responder e olha para o teto, suspirando antes de continuar. — Só queria fazer uma surpresa mesmo, pode comer à vontade.

Sorrindo, Briar não perdeu tempo em fazer exatamente aquilo: comer à vontade. Ela encheu seu prato de diversos tipos de alimentos, e foi comendo até não aguentar mais. Claro, ela não era um monstro, então deixou uma boa parte para seu pai, que ainda estava distraído. Ele não era um pai ausente, muito menos parecia desinteressado nela, mas desde que Dante saiu, ele parecia mais distante. Era como se estivesse sempre pensando em alguma coisa, ou lembrando de algo. Muitas vezes ela pensou em perguntar o porquê, porém sempre atribuiu aquilo a um pai que sente saudades de seu filho, o que ela compartilhava com ele.

Assim que terminou, Briar lavou seu prato e organizou a mesa, jogando fora os recipientes vazios. Não demorou muito para ela se juntar ao seu pai em frente a tela, e começar a fazer perguntas sobre diversas coisas. Essa era a maior fonte de informação musical que ela tinha, visto que até quando não estava em shows, Johnny estava fazendo alguma coisa relacionada a música. A paixão dele por rock chegava a ser contagiante, e Briar se imaginava algum dia fazendo algo parecido com o que ele fazia. Turnês pelo mundo, tocar música com seus amigos e se divertir um bocado, quem não gostaria disso? 

Em um piscar de olhos, o sol se pôs e Briar se encontrou sem mais conversas para iniciar, pois seu pai havia dormido enquanto assistia um filme. Ela continuou a assistir, porém ainda tinha muitas coisas em mente para pensar. Como de costume, ela não conseguia pensar parada, então ficou dando voltas pela casa enquanto alternava entre criar um roteiro de perguntas para seu pai e assistir o filme, que era genuinamente interessante. Quando os créditos começaram a subir e a garota começou a se perguntar o que exatamente ela tinha perdido, só então ela se tocou que estava a tempo demais de pé.

Indo até a cozinha para pegar um copo d’água, Briar sentiu sua mão tremendo. Ela sabia que tinha medo da resposta, que não saberia o que fazer caso Dante simplesmente não quisesse ver ela, e não teria o que fazer — a não ser esperar, o que ela já estava fazendo por um ano inteiro — caso a resposta se mantivesse a mesma: “uma hora ou outra vocês dois vão se reunir”. Indo até a sala novamente, a garota sente sua respiração saindo de seus pulmões com o sobressalto dado após a cena repentina em sua frente.

A porta de entrada da casa estava aberta, e do outro lado dela estava um ser. Não, um monstro. Parecia ser uma mulher, porém suas unhas eram tão longas quanto garras, e seu rosto era distorcido e cruel. Presas longas e sujas escapavam de sua boca, e seus olhos vermelhos iluminavam a sala como duas lâmpadas. Seu cabelo parecia estar em chamas, e grandes asas se dobravam para que ela conseguisse passar pela porta. Nesse momento Briar pôde ver que uma das pernas da criatura era metálica, aparentemente sendo feita de bronze ou cobre, e sua outra perna era como a de um burro.

A criatura estava encarando Johnny fixamente, perdendo o interesse quando percebe que ele estava dormindo. Assim que olha para o lado, ela percebe a garotinha assustada no meio do corredor, e nesse momento ela sorri.

— Uma semideusa sozinha e assustada. — sua voz se espalha pela casa, e mesmo assim não acorda Johnny. —  Eu quase sinto pena de você, garotinha.

— Q-quem é você?

Briar consegue perguntar enquanto se afasta da criatura, que por sua vez está se aproximando lentamente, saboreando o momento. 

— Eu sou só uma mulher com muita, muita fome. E quando eu senti o cheiro de meio-sangue, eu não pude resistir.

— Você vai… me devorar?

— Pobrezinha, você não faz ideia do que vai acontecer com você.

Finalmente alcançando o outro lado da casa, Briar se esbarra na parede e percebe que não tinha escapatória. A escada estava atrás da criatura, ela teria que correr em direção a ela para passar para a cozinha, e não importa quanto barulho estivesse fazendo, Johnny não acordava. Sentindo seu coração palpitando cada vez mais forte, Briar começa a sussurrar o nome de seu irmão, esperando ele aparecer para salvá-la como ele sempre fazia. A garota nunca esteve tão assustada, e seus olhos já estavam encharcados de lágrima.

Vendo a criatura chegando mais perto, Briar fecha os olhos e tapa os ouvidos, sem deixar de pedir ajuda de seu irmão e seu pai. Pelo que parecia uma eternidade, ela espera alguma coisa acontecer, tremendo em pavor e sentindo sua ansiedade aumentar a cada segundo. Felizmente, nada acontece, e quando ela abre os olhos vê o seu milagre tão desejado acontecendo. Com uma guitarra em mãos, seu pai havia golpeado a criatura e agora estava olhando para os lados, confuso.

— Briar, você tá bem?

— T-tô.

Ela responde e vê o monstro se levantando novamente, porém Johnny parecia não conseguir vê-la, como se fosse invisível. Como resultado, a criatura balança as suas garras e golpeia o homem para longe, arremessando-o de volta para a sala e sibilando como uma fera selvagem faria para intimidar a sua presa. Olhando para Briar novamente, a garota sente algo diferente. Seu coração não havia desacelerado nem um pouco, e ela estava sentindo cada veia do seu corpo se agitando, e todo músculo parecia estar se contorcendo. Estranhamente, ela não sentia dor nenhuma, muito pelo contrário: ela se sentia imparável. Seu medo aos poucos foi se tornando uma fúria incontrolável, e a garota range os dentes enquanto se levanta e pula em direção a criatura, socando-a diversas vezes sem parar.

Assim que seu punho fez contato com o monstro pela primeira vez, suas memórias a partir desse ponto pareciam ter sumido, e quando Briar volta a ter noção de seus arredores novamente, ela vê a criatura sumindo em um pilar de chamas enquanto ela mesma grita com raiva. Sua respiração estava ofegante, seu corpo inteiro parecia estar pegando fogo, e toda aquela fúria que estava sustentando-a havia sumido, fazendo ela perceber o quão cansada estava. Sentindo seu corpo fraquejando, Briar cai de joelhos e olha confusa para os arredores. Sem monstros, uma casa quase toda destruída e dor latejante em todos os seus membros.

Ainda sem entender nada, ela vê seu pai se levantando com dificuldade e indo até ela. Esperando um olhar de medo, ela se surpreende quando vê ele apenas preocupado, abraçando-a com força. 

— Tá tudo bem, você tá bem. — ele sussurra em seu ouvido enquanto tenta acalmar a sua filha. — Ninguém vai te machucar.

— O que aconteceu? O que era aquela criatura?

Assim que ela faz essa pergunta, Johnny afasta o abraço e a encara com certa seriedade, novamente mostrando aquele peso no olhar que tinha quando contou que Dante iria embora. Dessa vez, no entanto, o homem parecia aceitar mais a situação, e logo abre um sorriso para confortar ela. Instintivamente, a garota mesmo em seu cansaço sentiu que as palavras que sairiam da boca dele iriam mudar o rumo de toda a sua vida, e que ela havia alcançado o ponto sem retorno.

— Briar, eu acho que chegou a hora de eu te contar pra onde o Dante foi.