Chapter Text
Joui Jouki estava com os olhos brilhando, mas seu sorriso trêmulo denunciava o turbilhão de sentimentos que o consumia. A medalha de ouro pendia pesadamente em seu pescoço, parecendo mais pesada do que realmente era. Ele sorria, acenava e respondia às entrevistas sempre que as câmeras o focavam, mas, depois de um longo período de interações, conseguiu escapar da multidão.
Procurando um lugar mais calmo, longe dos flashes e dos aplausos, ele tirou o celular do bolso e discou o número de seus pais, com o coração disparado.
— Alô? — a voz fria de sua mãe atendeu, sem entusiasmo.
— Mãe! Ganhei a medalha de ouro! Você viu? Eu... eu consegui! — Joui falou apressado, um sorriso nervoso se formando enquanto apertava o celular contra o ouvido. Sua mão livre tremia ligeiramente e o suor frio escorria pela palma.
Do outro lado, um silêncio constrangedor pairou antes de sua mãe responder.
— Isso é bom, Joui. Inclusive, sua irmã teve uma apresentação importante hoje, sabia? Ela está se destacando na empresa. Seu pai e eu estamos tão orgulhosos dela...
O aperto no peito de Joui se intensificou. Sua respiração acelerou e, por um momento, o mundo ao redor pareceu parar.
— Eu... fico feliz por ela. Vou parabenizá-la depois. — ele respondeu, tentando manter a voz firme. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, algo aconteceu do outro lado da linha e sua mãe se despediu rapidamente antes de desligar.
Joui ficou ali por um instante, olhando para o celular. O brilho da tela parecia zombar de sua tentativa de compartilhar sua felicidade. Com um suspiro trêmulo, ele guardou o aparelho no bolso e forçou um sorriso, apesar da sensação de vazio. Por que esperava uma reação diferente? Era tão tolo. Eles nunca ligariam para qualquer coisa que fizesse. Nunca ligaram, não seria diferente agora.
Enquanto caminhava de volta para os bastidores, na intenção de se trocar e ir embora antes que o choro o dominasse, foi interrompido por seus amigos Taka, Rodolfo e Mateo.
— Joui! Você foi incrível! Vamos comemorar essa noite! — exclamou Taka, passando um braço ao redor dele.
Joui hesitou.
— Obrigado, pessoal. Mas acho que vou passar hoje. Estou exausto e preciso organizar meu apartamento. Vocês sabem como é... Casa nova. — ele tentou soar casual, mas sabia que seus amigos o conheciam bem demais para não perceberem que ele mentia.
— Tudo bem, mas você nos deve uma comemoração! — disse Mateo, piscando com um sorriso encorajador.
Joui sorriu em agradecimento antes de se despedir e chamar um Uber. Disse o destino ao motorista e se jogou no banco, mordendo os lábios e apertando os punhos para conter as lágrimas. O motorista, felizmente, não tentou puxar conversa. Joui agradeceu mentalmente, notando o estado deplorável em que estava – os olhos marejados e o nariz vermelho.
Durante o trajeto, atendeu uma ligação de Liz.
— Joui! Parabéns pela medalha! Você foi incrível, estou tão orgulhosa de você, meu querido! — a voz dela foi como um raio de sol atravessando nuvens escuras.
Joui sentiu um calor acolhedor no peito – tão diferente da conversa com sua mãe.
— Obrigado, Liz. Significa muito para mim ouvir isso. — sua voz tremia ligeiramente, mas agora era por gratidão genuína.
Ela riu.
— Queria poder comemorar com você, mas estou presa no trabalho. De qualquer forma, espero que você descanse e aproveite sua noite. Você merece.
— Vou tentar, Liz. Obrigado. Tenha um bom plantão. — ele desligou.
Ao chegar no prédio, Joui subiu para seu andar. O elevador estava vazio, e ele se recostou contra a parede, fechando os olhos por um momento. Quando as portas se abriram, ele saiu e um homem entrou no elevador. Era moreno, com cabelos negros e uma cicatriz marcante de queimadura no lado esquerdo do rosto. Seus olhos se encontraram brevemente, e Joui sentiu algo estranho antes de seguir seu caminho.
Dentro do apartamento, ele deixou de se conter.
Deslizou até o chão e abraçou os joelhos contra o peito. Finalmente, as lágrimas que ele vinha segurando escorreram por seu rosto, quentes e salgadas, levando consigo um pouco da dor que ele sentia.
— Por que nunca é suficiente? — murmurou para si mesmo, a voz trêmula.
Nas caixas que ainda não tinha aberto, estavam inúmeras fotos de suas conquistas, medalhas de esportes, certificados de eventos escolares. Todos marcos que ele alcançara na esperança de arrancar um sorriso de aprovação dos pais. Mas não importava quantos troféus ganhasse ou quantas vezes se superasse, a indiferença nos olhos deles nunca diminuía.
Joui apertou o punho sobre o peito, como se isso pudesse impedi-lo de se despedaçar.
Ele se esforçava para ver os rostos de seus pais iluminados com orgulho ao ver o filho que conquistou o que muitos sonhavam, mas em vez disso, o que via era apenas uma parede de frieza. Eles têm orgulho dela. Eles têm orgulho de qualquer coisa que ela faça. Mas nada do que ele faz parece importar. Ele dava tudo de si, e nunca adiantava.
As palavras de sua mãe ainda estavam frescas em sua mente. "Sua irmã se destacou na empresa. Seu pai e eu estamos tão orgulhosos dela..." Ele sentiu o sabor amargo da comparação, como se ele fosse uma sombra, uma presença distante que nunca conseguiria iluminar o caminho como sua irmã. Eles nunca vão ver o que ele é. Eles nunca vão ver o que ele fez.
Joui afundou mais contra o chão, deixando o corpo se derreter em um choro silencioso. A dor agora era só dele, uma dor que ninguém poderia melhorar, e isso talvez fosse o mais cruel. Ele se sentia como uma peça quebrada que ninguém podia consertar. Quando foi que ele se perdeu assim? Quando foi que ele parou de ser suficiente até para si mesmo?
Com o rosto ainda entre os joelhos, ele perguntou em voz baixa, apenas para si mesmo: O que mais eu tenho que fazer, Liz? Mas a resposta – se é que haveria alguma – ficou perdida nas paredes geladas de seu apartamento vazio.
[...]
César acordou com a sensação de ter sido atropelado por um caminhão. Ou talvez fosse só mais uma das suas noites mal dormidas, o rosto pressionado contra o teclado do computador. Ele levantou a cabeça lentamente, o pescoço estalando em protesto. Quando seus olhos se abriram, a luz da tela o cegou por um instante antes que ele fechasse os olhos e se espreguiçasse. As lembranças da noite passada foram turvas, mais um episódio de jogatina até de madrugada, em um ciclo infinito de derrotas e vitórias.
Ele estava cansado.
Cansado de tudo.
O celular vibrou em sua mesa, e ele o pegou sem muito ânimo, quase com uma recuperação automática. Várias mensagens se acumularam. Aquelas que ele já esperava. Os mesmos de sempre.
"E aí Cesinha
Como cê tá meu querido?"
A mensagem de Thiago apareceu primeiro. Uma mensagem simples e sem enrolação. Ele tinha uma habilidade natural de ser objetivo sem perder o carisma. César se perguntava como ele conseguia equilibrar essas duas características de forma tão espontânea.
"Oii gracinha
Adivinha quem tomou banho hj?"
Arthur, seu outro irmão de consideração, mandou em seguida. A mensagem com a foto de Jeniffer, a gata de Arthur, trouxe um pequeno sorriso involuntário aos lábios de Kaiser. Arthur sempre fazia essas coisas, deixando a conversa mais leve com uma piada ou comentário simples.
“César, funcionou. Agradeço a ajuda.”
Dante mandou uma mensagem curta, como sempre. Seu primo era o tipo de pessoa que jamais transparecia emoções muito fortes, o que fazia com que Kaiser nunca soubesse o que realmente passava pela cabeça dele.
"Kai
Chegou uma nova remessa de flores
Olha"
A mensagem de Beatrice foi a próxima a aparecer. Junto com ela, havia fotos de diversas flores, todas em tons de roxo. Era algo apenas deles: sempre que podiam, trocavam fotos de flores – mas ocasionalmente, Bea o presenteava com flores de verdade.
"Meninu vc comeu? Foi no medicu?"
A última mensagem era de Chris, seu pai. Chris era o tipo de pai que sempre se preocupava, mesmo quando isso significava ser invasivo ou irritante. Apesar de ser difícil lidar com ele em alguns momentos, Kaiser sabia que a preocupação era genuína.
Kaiser soltou um suspiro, mais por hábito do que por qualquer outra coisa. Ele jogou o celular de volta na mesa e se levantou. Seus pés estavam pesados enquanto se dirigia ao banheiro. Olhou para seu reflexo por um momento, os olhos cansados refletidos no espelho. Seus cabelos negros estavam bagunçados, caindo até o peito, e sua barba estava começando a crescer, ficando mais uma vez torta – afinal, não crescia cabelo em uma parte de seu rosto.
Então a cicatriz... A queimadura.
Ele se sentiu desconfortável apenas olhando para ela, desviando o olhar. Não era um reflexo que ele gostava de ver, mas não podia evitar. Ela fazia parte dele, assim como suas inseguranças. A falta de uma sobrancelha do lado esquerdo, o estrago no lado esquerdo do corpo, tudo aquilo era um lembrete do que havia acontecido, e do que ele não havia conseguido superar.
Com um suspiro profundo, ele seguiu para o chuveiro, tomando um banho rápido antes de ir para a cozinha. Ele colocou a água para esquentar. Enquanto esperava, pegou um cigarro, acendeu-o e saiu para a varanda, sentindo a fumaça preencher seus pulmões. Era uma rotina. A única rotina que ele conhecia, a única que o mantinha funcional de algum modo – afinal, sequer tinha um trabalho ou objetivo na vida.
Ele puxou o celular novamente. Desbloqueou a tela e passou os dedos pelas mensagens enquanto a fumaça do cigarro se dissipava no ar.
"Tudo certo, Thiagão
E vc?" Respondeu para Thiago.
"É papaizinho" Enviou para Arthur, rindo baixo sozinho.
"De nada
Espero que o notebook esteja funcionando bem
Qualquer coisa me avisa" Afirmou para Dante.
"Guarde uma orquídea para mim" Pediu para Beatrice.
"Comi
Fui médico
Tá tudo certo” Tentou acalmar seu pai, mas no fundo, sabia que nunca seria suficiente. Nada nunca seria suficiente.
Kaiser apagou o cigarro no cinzeiro e entrou novamente para a cozinha, terminando de preparar o café. Enquanto bebia, ele se perguntava se a vida seria diferente se fosse mais como os outros. Como Thiago, bem-sucedido e com um trabalho fixo. Ou como Arthur, carismático e gentil. Talvez como Dante, formado em medicina, uma faculdade difícil e prestigiada. Ou quem sabe como Beatrice, calmo e capaz de se adaptar às situações que surgem.
Com um último suspiro, ele se levantou e foi até o computador. Ele se jogou na cadeira, tentando se concentrar no jogo, uma distração temporária das tensões que nunca pareciam desaparecer. Se perdeu nos controles, nos gráficos brilhantes, nos inimigos virtuais que apareciam e desapareciam. Ela sabia que aquilo não era realmente uma solução. Era apenas uma maneira de ocupar a mente, de evitar pensar em tudo o que estava errado. Mas não sabia como melhorar – não conseguia.
Então outra mensagem apareceu. Kaiser parou de jogar e pegou seu celular. Era Arthur mais uma vez.
"Ou fofinho
Hoje vai ter um show dos gaudérios abutres aqui no suvaco seco, vc vai vir né?”
César ficou encarando a mensagem por alguns segundos, se jogando para trás enquanto pensava um pouco.
Ele não estava com vontade nenhuma de ir a uma festa em um lugar lotado, mas também não queria deixar seu irmão de consideração na mão ou chateado. A banda de Arthur era algo muito importante para ele, e Kaiser sabia o quanto Arthur gostaria que ele estivesse lá para ver o show. Além disso, já fazia um tempo desde que ele fora ao Suvaco Seco passar um tempo com seus irmãos, com seus primos e com Ivete – que para ele era quase uma segunda mãe. Não poderia recusar novamente.
Com um suspiro, ele ignorou a vontade de recusar o convite por causa da fobia social e começou a digitar a resposta:
“Claro, faz um tempo que não nos vemos
No mesmo horário de sempre?”
Por sua família, ele aguentaria o frio na barriga e as mãos suadas. Ele os amava demais para não se esforçar em vê-los – se não conseguisse e precisasse voltar, eles entenderiam.
“Ss
Não se atrase, a Ivete quer muito tempo ver e vc sabe como o bar vai ficar lotado mais tarde”
Kaiser respirou fundo, ele precisava se preparar.
No espelho, ele tentou ajeitar a barba e o cabelo. Ele se forçou a não olhar demais – a seguir em frente. Tomou um banho rápido, tentando afastar a sensação de cansaço das noites mal dormidas. Vestiu uma camiseta manga longa preta simples e um jeans escuro, jogando um casaco por cima. Olhou-se mais uma vez no espelho. Estava minimamente apresentável.
Com um último olhar para o ambiente de seu apartamento, ele pegou a chave e saiu. O caminho até o elevador parecia mais longo do que o normal, mas ele tentou se manter focado. Nada de desviar, nada de hesitar.
Ao chegar no elevador, notou que já está subindo para seu andar. Ótimo. A espera fez seu peito doer, mas ele se forçou a respirar fundo. Ele passou os dedos pela tela do celular, tentando focar em alguma coisa. O silêncio o consumia, e ele pensou, por um instante, se estava fazendo a coisa certa. Mas logo se convenceu: não poderia recuar. Sua família sempre esteve lá por ele.
Quando o elevador finalmente subiu e as portas abriram, ele deu de cara com uma figura alta e atlética saindo do elevador. Ele tinha traços asiáticos e uma medalha de ouro pendurada no pescoço. Por um momento, seus olhos encontraram, e então ambos desviaram – Kaiser não o conhecia, então imaginou ser o vizinho novo que se mudará recentemente.
Kaiser entrou rapidamente no elevador, apertando o botão para o térreo, se preparando mentalmente para a noite enquanto observava as costas do homem se afastando.
