Chapter Text
Existem inúmeras coisas que Sirius sabe que fez de errado; desde pequenas coisas, como roubar doces do dedosdemel, até verdadeiros tropeços que o enchem de vergonha e muito arrependimento. Sua adolescência... Sirius não diria que foi seu melhor momento.
Ele estava com raiva, frustrado e até um pouco assustado. Ele disse e fez coisas, continuou dizendo e fazendo coisas, apenas para se arrepender mais tarde. Ele é tolo, Sirius é muito tolo. Tem dias que ele se olha no espelho e não sabe o que vê: Um monstro? Um garoto? A mãe dele?
Há raiva dentro dele, uma fera furiosa que ele não aprendeu a domar. Ele está tão acostumado que não se surpreende mais com o fogo que calcina seus ossos; a raiva parece tão natural. E é com isso que ele se vê ardendo de ódio somente em pensar no que um dia já foi sua família, raiva pela mãe dele por ser uma vadia; raiva por seu pai ser tão covarde; raiva por seu irmão por ser exatamente igual aos dois. Essa raiva leva a melhor sobre ele, às vezes até o controla, o obscurece, o cega e o faz fazer coisas estúpidas, mas quando era sua família de sangue quem recebia aquele fim agudo e doloroso, Sirius nunca se importava.
Ele não se importava com o que, num momento ruim, saísse de sua boca. Eles mereceram, ele sempre pensou, por tudo que fizeram a ele, por tudo que fizeram as outras pessoas. Mas a vida é engraçada assim, quando pensamos que estamos certos, um dia surge algo que nos dá razão e bom senso, e nos faz perceber que talvez, o tempo todo, por muito tempo, aquela raiva que sentíamos tão justificada não tinha razão alguma. Que não valeu a pena.
Por quantos anos Sirius pensou que odiava seu irmão e, no final, foram apenas algumas palavras, um ato incrivelmente importante, mas tão insignificante, que o fez repensar: valeu a pena?
Odiar o irmão por tanto tempo, valeu a pena?
★
Este não é um de seus melhores dias, Sirius provavelmente o colocará entre os dez piores. Não está entre os três primeiros, não é tão ruim assim, mas merece uma posição honrosa na escala.
Sirius tende a acordar cedo, uma de suas piores ou melhores qualidades dependendo de para quem você pergunta. Dormir nunca foi sua praia, não que ele não goste, só que anos acordando ao primeiro sinal de luz o levaram a um péssimo hábito. Porém, às vezes Sirius simplesmente não se levanta. Como na manhã seguinte a uma festa ou, mais frequentemente, na manhã seguinte a uma missão da Ordem.
Os Comensais da Morte parecem ter aversão à luz solar, cada um de seus assaltos e ataques são praticados nas horas mais profanas da noite. Seres sem alma e sem coração, eles não pensam nos pobres coitados que devem caçá-los? E, claro, quando Sirius diz pobres coitados, ele se refere a si mesmo. Capturar Comensais da Morte tem o mesmo grau de dificuldade que roubar o ouro de um duende.
Mas sim, Sirius tende a acordar muito mais tarde do que o normal depois de uma missão, o que não seria um problema se ele, você sabe, não tivesse um emprego. Ou o mais próximo possível de um emprego. Ele ainda está em treinamento para se tornar um Auror e não há pagamento oficial para isso, não até que ele consiga um distintivo e um belo diploma para comprovar suas qualificações. Alguém poderia pensar que nestes tempos de conflito — é uma guerra, Sirius está ciente disso, mas o Ministério não parece muito interessado em chamá-la por esse nome, não importa se o resto da população a chama assim — eles reduziriam o tempo de treinamento para ter mais pessoas em campo. Mas o Auror Moody arrancaria a língua se tivesse que chamar alguns estudantes precoces de "Aurores".
Ele não parece ter o mesmo problema em aceitar não-aurores em missões. Sirius acha que é hipocrisia, James diz que é razoável. Remus os chama de idiotas por trabalharem para o Ministério sem salário ou seguro de saúde.
As missões da ordem sempre tendem a deixá-lo mastigado, moído e cuspido; por mais que ele odeie admitir, Voldemort recrutou seguidores excepcionalmente qualificados. Mas Sirius inventou maneiras de evitar que as missões da Ordem interfiram no seu dia-a-dia: ele tem um alarme mágico com a capacidade de acordar um gigante e muito café em seus armários.
Exceto quando o alarme falha e o café acaba. Então Sirius tem um problema — ou dois.
Hoje Sirius acordou com esse problema.
E talvez, apenas talvez, isso não teria sido tão ruim. Qualquer um pode acordar tarde, ele tem certeza de que Scrimgeour apenas lhe dará um sermão severo e não o fará correr por alguma floresta abandonada por Merlin. Mas então ele chega à área de treinamento do Ministério e se depara com a calorosa surpresa de que hoje há uma simulação de duelo, e o único parceiro que resta é Kingsley.
Ninguém quer lutar contra Kingsley.
Sirius não quer lutar contra Kingsley, James não quer lutar contra Kingsley, ele tem certeza que nem Scrimgeour quer lutar contra Kingsley.
Ele não tem escolha.
No final da sessão de treinamento, há um novo conjunto de hematomas em suas costas que se somam aos hematomas orgulhosamente conquistados na noite anterior. Sua varinha quase quebra também, igualar o poder dos feitiços defensivos de Kingsley consome muita energia e em qualquer outro dia, Sirius não teria tido problemas com isso se não tivesse usado todas as suas reservas na noite anterior.
Basicamente uma péssima manhã.
Sem café.
Repreendido.
Humilhado.
Sirius pensou que nada poderia deixar aquele dia pior. Talvez ele não devesse ter pensado isso.
Forças cósmicas, Deus, Merlin, Deuses Gregos, Minnie. Sirius não acredita em nada disso — em Minnie ele acredita, ele é um devoto fiel de Minnie McGonagall —, mas está começando a pensar que um daqueles sujeitos poderosos deve estar jogando uma partida muito intensa de Banco Imobiliário com sua vida. Eles estão jogando os dados e rindo dos números, movendo-se de quadrado em quadrado tão animadamente quanto uma estudante apaixonada.
Tudo o que Sirius queria era chegar ao seu apartamento, tirar uma soneca de bruços no sofá e esperar Remus chegar com mantimentos para abastecer a despensa. Claro, isso é pedir muito. Oh, como Sirius Black ousa ter sonhos tão egocêntricos!
Nos últimos meses nada aconteceu como Sirius queria.
Voldemort não engasgou com seu ego.
James não ganhou algum bom senso.
Marlene não está pedindo Dorcas em casamento.
Todo mundo parece gostar de frustrar Sirius sem motivo.
E agora seu irmão — Sirius pode chamá-lo assim? Ele não fala com o mais novo há anos — aparece em seu apartamento parecendo um gato molhado.
Um gato desnutrido, doente, sarnento e molhado. Por um momento, Sirius considera jogar uma toalha nele, mas o instinto dura tanto quanto um vampiro à luz do sol.
— Vá embora. — Sirius diz do outro lado da porta. Ele ouve Regulus tentar dizer mais alguma coisa, mas Sirius não quer ouvir. — Vá embora, vá embora! — ele insiste novamente, com o coração martelando contra o peito.
Eles mantiveram uma conversa civilizada pelo tempo recorde de dois minutos. Depois disso, Regulus começou a falar bobagens que Sirius é inteligente demais para ouvir, quanto mais acreditar. Ele tem sorte que Sirius lhe deu tanto tempo antes de expulsá-lo do apartamento.
Regulus tem muita sorte, se fosse qualquer outro Sirius teria segurado sua varinha contra a garganta do sujeito ao ver aquela marca horrível em seu antebraço. Por quanto tempo Sirius ouviu os rumores, mas nunca esperou que Regulus aparecesse com uma confirmação.
Lá estava seu suposto irmão, marcado como gado. Lá estava seu suposto irmão, o orgulho de sua linhagem.
Regulus fala bobagens, fala desenfreadamente sobre seu senhor, água e sobre como derrotá-lo. Ele fala desenfreadamente sobre o Lorde das Trevas, sobre águas turbulentas e outras bobagens. Ele murmura, quase histericamente, sobre um plano fantasioso para derrotar seu senhor. É um discurso longo e sem nenhuma estrutura; muitas palavras são ditas aqui e ali, muitas delas apenas ideias inacabadas que pegam Sirius desprevenido. Seu irmão sempre teve uma fala mais que invejável, o uso das palavras vinha naturalmente para Regulus, mas agora, nessa estranha situação, Sirius não pode deixar de pensar no fato de que, como qualquer bom filho de sua mãe, Regulus é também é muito bom em mentir. Sempre houve segundas intenções, e Sirius não consegue acreditar que Regulus tenha alguma sinceridade nesse show que faz do lado de fora de seu apartamento. Ele parou de confiar em seu irmão anos atrás e não voltará a confiar agora, mesmo que Regulus pragueje e implore.
Regulus implora a ele, Regulus Black implora a Sirius para ouvi-lo.
Sirius não vai fazê-lo.
Ele não pode.
Regulus insiste em uma palavra: horcrux. Sirius não a reconhece, assim como não reconhece a pessoa à sua frente.
Talvez se ele não tivesse visto a marca, talvez se Regulus a tivesse coberto melhor... De qualquer forma, Sirius empurra Regulus para fora do apartamento, bate a porta na cara dele e se recusa a abri-la. Como se os segundos se tornassem mais lentos, ele vê uma expressão de desolação passar pelo rosto do irmão momentos antes de a porta separá-los para sempre. Isso também é mentira, pensa Sirius com o coração endurecido, o maior manipulador de todos é seu irmão. Sirius conhece todos os truques do mais novo, ele mesmo ajudou a aperfeiçoar alguns.
Ele pôde ouvir um pequeno gemido. Sirius bufa com a ideia de que Regulus pensa que isso vai comovê-lo. Quaisquer que sejam os sentimentos aos quais Regulus tentou apelar hoje, eles estão mortos há muito tempo. Enterrado em camadas de decepção e ressentimento.
Sirius ouviu os rumores, o burburinho da escola na época; sobre o mais jovem dos irmãos Black sendo recrutado para as fileiras do ascendente Lorde das Trevas como um jogador-chave, marcado e orgulhoso. Todo mundo sabia disso, Regulus Arcturus Black, fiel seguidor de Você-Sabe-Quem.
Talvez no fundo Sirius tivesse a ilusão de que seu irmão não poderia estar tão perdido. Ele queria acreditar que, embora fosse covarde e bajulador, Regulus não se rebaixaria tanto. Mas é claro que Regulus seguiria aquele maníaco, seu irmão, que era o filho tão frio, astuto e orgulhoso de seus pais. O herdeiro que ele nunca foi. Um orgulho, um seguidor.
Apenas mais uma decepção.
Do outro lado da porta, fora do apartamento, ele reconhece o som de passos e, em seguida, uma pequena explosão. Seu aperto em sua varinha aumenta em antecipação, mas ele logo associa o som a uma aparatação.
Regulus se foi.
Desta vez ele gostaria que fosse para sempre.
Que hoje seja a última vez que ele verá seu suposto irmão por muito tempo.
Parado no meio da sala, sua respiração escapou em exalações irregulares. Ele parecia ter acabado de terminar uma maratona e, de repente, seus ossos se encheram de uma fadiga quase dolorosa. As paredes se fecharam ao seu redor, ele se sentiu encurralado.
As paredes do seu pequeno apartamento pareciam contrair-se. Sirius sabia que era bobagem, era impossível o lugar estar encolhendo, eram apenas pensamentos irracionais, nascidos de uma emoção avassaladora. Mas também era verdade que Regulus não tinha como saber onde Sirius morava e, ainda assim, de alguma forma, ele apareceu do lado de fora da casa de Sirius. Este pequeno apartamento esquecido por Deus, perdido no mar cinzento e escuro de Londres, não deveria ser facilmente rastreado por um Comensal da Morte. Mas Regulus não era um Comensal da Morte qualquer, as coisas sempre funcionavam a seu favor, sua inteligência e astúcia eram uma arma que sempre o tirava de problemas.
Com movimentos rígidos, Sirius abriu a porta novamente. A porta do apartamento oposto era tudo o que havia, um corredor deserto sem sinal de Regulus. Essa confirmação foi suficiente para fazê-lo suspirar de alívio, mas Sirius reconheceu que aquele local não era mais seguro.
Seu irmão é um Comensal da Morte, Sirius lembrou a si mesmo, Regulus não hesitará em vender a informação de seu paradeiro para qualquer pessoa que possa estar interessada.
Por enquanto, ele se contentou em lançar feitiços de proteção discretos, mas eficientes. Aquelas cobras sujas que um dia foram sua família não eram confiáveis.
Chocado, ele percebeu que seu corpo tremia. Mãos tremendo levemente, músculos flexionados de fadiga. Apenas um olhar, algumas palavras, o reduziram a isso. Uma lembrança gentil de seu antigo e amado lar. Uma casa onde ele não punha os pés há muito tempo.
Quando Sirius fugiu, ele o fez sabendo que não havia como voltar atrás: era uma rua de mão única. Um preço justo, barato até, pela liberdade. Sirius nunca pensou em voltar para sua antiga casa, ele não tem motivos para isso. Sua mãe é uma vadia raivosa que o fez fugir e seu pai nunca tentou se por entre os dois.
Quanto a Regulus, Sirius já havia desistido de seu irmão há muito tempo. A última vez que ele o viu cara a cara foi antes mesmo de Sirius se formar em Hogwarts, qualquer ligação vaga que restasse entre os dois foi cortada naquele momento. Mesmo antes de fugir de casa, as interações entre os dois haviam se tornado distantes e frias, Sirius fez o possível para se distanciar de sua família horrível e se seu relacionamento com Regulus sofresse as consequências disso, seria apenas uma saída natural.
Ele nunca caberia na aclamada casa ancestral de Grimmauld Place. Com toda frieza e desapego, as paredes que envolviam os orgulhosos Black deixaram de caber em Sirius, talvez nunca o tenham feito. Mas Regulus, ele se encaixava. Como a linda estatueta que sua mãe cobiçava, Regulus combinava com a escuridão de sua família, algo que Walburga gostava de esfregar na cara de Sirius.
Enquanto Regulus adotava o modelo de herdeiro, Sirius só queria quebrar o seu.
A ansiedade familiar se instala em sua pele. A sensação que o impelia a manter a guarda elevada, a ficar de costas em antecipação ao próximo ataque, percorrendo todos os pontos do seu corpo, como se fosse uma memória muscular agindo na presença de Regulus. Ele se sentia de volta àquela casa, de volta à sua família, esperando em cada corredor pelo perigo. Não é uma sensação agradável, mas Sirius não consegue evitar, é uma resposta natural.
O tipo de reações obtidas através da dor e do sangue.
Com um tipo diferente de expectativa, Sirius mal pode esperar para que Remus volte para casa. Ele precisa dele, precisa ser capaz de sentir isso, ser capaz de lembrar disso. Que ele fugiu, que conseguiu e que tomou a decisão certa ao fazê-lo.
Todos têm que conviver com as consequências de seus atos. Se há alguma verdade no que Regulus disse, então não é justo que Regulus vá procurá-lo, não agora que Sirius não tem mais espaço para ele, não agora que quaisquer escolhas que ele fez finalmente o alcançaram. Ele não é mais uma criança que pode buscar refúgio no irmão; Sirius não é mais seu irmão e Regulus agora é adulto. É hora de ele entender isso e enfrentar a responsabilidade deixando Sirius fora disso.
Seus caminhos se separaram há muito tempo; se Regulus está realmente com tantos problemas, que ele corra para se esconder debaixo das saias da mãe ou procure aqueles amiguinhos dele e implore por ajuda.
Aqui, onde Sirius construiu a sua vida, onde encontrou uma família de retalhos, não é onde Regulus deveria procurar ajuda. Não quando não há lugar para ele.
Mas então, por que dói tanto?
Por que o coração de Sirius se enche de arrependimento depois que ele mandou seu irmão embora?
É a coisa certa a fazer.
É justo.
Regulus é apenas uma memória distante, um eco de uma época de solidão e amargura. Ele faz parte do passado de Sirius e é assim que deve permanecer.
Mas seu coração se contorce desconfortavelmente, a lembrança dos olhos desesperados de seu irmão queimando em sua memória.
Nada mudou, ele percebe com amargura, seu irmão ainda tem os mesmos olhos cinzentos, tão parecidos com os seus e, no entanto, tão diferentes. Sirius percebe com surpresa o quão jovens eles são, o quão pouco viveram. Mas isso não o faz recuar ou ceder, ele permanece firme em sua decisão.
Ele não pode ajudar Regulus.
Ele não quer ajudá-lo.
Regulus não merece ser ajudado.
Depois de ser um péssimo irmão, esperar que Sirius o ajude com a bondade de seu coração é um insulto. Ambos sabem que Sirius não é esse tipo de pessoa, Regulus deveria ter economizado tempo e nunca ter procurado Sirius em primeiro lugar. E dói, pequenos punhos moribundos batendo em seu peito. Existem muitos tipos de maldições, parece que ser o irmão mais velho é uma das mais cruéis.
Não querendo mais pensar nisso, Sirius respirou fundo. Ele forçou seus músculos a relaxarem e caminhou até a cozinha.
Há pessoas melhores em quem pensar, Sirius reflete enquanto procura no balcão e encontra o delicioso chá de lavanda que Andrômeda lhe deu em sua última visita. Ela é a única ligação genuína que ele ainda tem com sua família, uma pessoa amada e querida. Tal como ele, Andrômeda abandonou a família para nunca mais voltar, aceitando com dignidade o desdém das irmãs e dos pais. De certa forma, Sirius achava que Andrômeda era muito mais corajosa do que ele em fugir. Ela partiu sem qualquer garantia real de proteção e segurança, sem nenhuma família atenciosa para protegê-la.
Suas mãos ainda tremiam um pouco para a frustração de Sirius, e a xícara quase escorregou e quebrou-se no chão. Ele tem que colocar toda a sua concentração para evitar uma bagunça que terá que limpar mais tarde, mas para Sirius isso é o melhor. Ele prefere se concentrar em realizar essa tarefa mundana do que continuar pensando em seu irmão. É melhor se esforçar para evitar queimar a pele, o que eventualmente levaria a um Remus infeliz, o maior não ficará feliz em ver Sirius receber mais ferimentos no conforto de sua casa do que no campo de batalha.
Embora Sirius pudesse usar sua varinha para tornar tudo mais fácil para si mesmo, ele descobre que recorrer às próprias mãos e esforço — por menor que seja — para realizar esse tipo de tarefa sacia sua necessidade de lazer e o relaxa. Neste momento, isso lhe dá uma sensação de controle que por um momento ele sentiu que havia perdido. E, além disso — ele admite a contragosto — sua magia é bastante volátil, reativa às suas emoções que no momento não estão no melhor estado, então é mais seguro para todos se Sirius evitar lançar o menor feitiço por enquanto.
Sirius dá um pulo ao ouvir um apito, procurando freneticamente a origem do som antes de ver a chaleira. Sentindo-se ridículo por pensar que a água quente pode ser uma inimiga mortal, ele coloca a água na xícara e faz uma careta ao perceber que colocou mais água do que o necessário.
A cerâmica quente, elegante demais para combinar com a estética desgastada e dilapidada de suas paredes, faz seus pensamentos desaparecerem. Eles se juntam ao vapor da água fervente e sobem para se dispersar no ar.
Ele inala o cheiro rico da infusão de lavanda e fecha os olhos.
Ele deveria enviar alguma coisa para Andrômeda como agradecimento, e algo para a filha dela também. Nymphadora é uma garota tão doce, mas uma ameaça total, usando seu dom de metamorfomaga para cumprir o propósito de qualquer criança de seis anos: ser o maior incômodo possível. Sirius mal pode esperar para ela entrar em Hogwarts e se tornar o novo terror de Minnie; esperançosamente, Dora ainda manterá sua veia brincalhona e Sirius poderá ensinar-lhe todos os truques para escapar impune. Esperamos que até lá todos os problemas do mundo adulto tenham sido resolvidos.
Um leve farfalhar é ouvido na sala, as orelhas de Sirius quase se levantam como as de um cachorro ao som, e se ele estivesse em sua forma animal, ele poderia muito bem estar abanando o rabo de excitação.
— Estou de volta. — Remus diz, o som da porta e das chaves o acompanhando.
Quando ele chega na cozinha, fica rapidamente óbvio que ele sente que algo está errado, e Sirius sente vontade de beijá-lo por isso, por ser capaz de lê-lo melhor do que qualquer outra pessoa. Mas seu corpo está pesado e ele sente que, se sair da cadeira, vai acabar no chão. Ele se sente como um cervo, um mini Prongs, cujas pernas estão tremendo.
Remus o conhece melhor do que ninguém, ele pode dizer claramente que o namorado não se sente bem, que sua mente está disparada com vinte pensamentos ao mesmo tempo, mas ele não tem força ou vontade suficiente para deixá-los se transformar em algo mais do que palavras fugazes.
— Ainda sobrou um pouco de água para uma xícara. — Sirius aponta vagamente na direção da chaleira. Ele nem se dá ao trabalho de fingir um sorriso, não adianta, isso só deixaria Remus mais preocupado e parte dos objetivos de Sirius na vida é tornar a vida de Remus mais fácil. Às vezes é difícil, e ele não consegue entender como alguém tão maravilhoso como Remus Lupin consegue reunir paciência para lidar com sua personalidade, mas Sirius tenta fazer um esforço para não ser um fardo.
— Obrigado, amor. — Remus estende a mão e dá um beijo suave no topo de sua cabeça. O afeto fácil não é mais algo de que nenhum deles se esquiva.
Sem dizer mais nada, Remus pega uma das xícaras e a lata de chá. Sua colher gira e gira no líquido quente, apenas o tilintar do metal raspando nas bordas da cerâmica pode ser ouvido. Pouco tempo depois, ele ocupa o lugar oposto da mesa. A cadeira range um pouco com o peso e a mesa balança onde uma de suas pernas está bamba.
O apartamento está em péssimo estado de conservação, embora ele e Remus não se importem particularmente. Eles só o usam para dormir, a maior parte do dia é gasto em missões da Ordem ou na casa dos Potter. Portanto, se o sofá tem molas desconfortáveis que se prendem toda vez que o usam, ou se o aquecimento funciona quando dá vontade, não é algo que os incomode.
Com dedos gentis, Remus separa uma das mãos de onde segura sua xícara. Ele entrelaça os dedos e deixa Sirius apertar sua mão com uma força que machuca. Mas Remus não se importa, seus olhos mostram preocupação com Sirius e com sua clara imprudência em segurar sua xícara fervendo descuidadamente. Está escaldante, nem mesmo Remus tenta levantar sua xícara, dando tempo para o chá esfriar.
Sirius, no entanto, parece muito confortável deixando seus dedos queimarem com o contato.
— Está tudo bem com Effie e Monty?
A pergunta de Remus só serve para deixar Sirius mais ansioso. Qualquer tolice que seu irmão possa ter tentado fazer hoje é diminuída quando ele se lembra da saúde de seus benfeitores, seus pais.
Nem Euphemia nem Fleamont estavam bem de saúde ultimamente, um surto inesperado de varíola do dragão os atingiu com mais força do que o esperado e seus corpos não mostraram sinais de melhora significativa. Até a magia deles foi afetada, apodrecendo e roubando-lhes a energia que seus antigos membros precisavam.
— Merlin, espero que sim. — Sirius suspira. — Não falo com Prongs desde ontem e os dois pareciam bem então.
— Podemos visitá-los amanhã. — Remus sugeriu gentilmente.
— É uma boa ideia... — as palavras morrem no ar, sua boca fica seca e o chá fica com um gosto amargo.
— O que há de errado?
— Nada. — Sirius responde prontamente. — Não se preocupe, eu já resolvi isso.
Não há muito mais que Remus possa fazer, não quando Sirius usa aquele tom de voz em específico. Aquela que diz que é melhor mudar de assunto, que o assunto deve ser deixado de lado. Dessa forma não deixa margem para muitas possibilidades, e Sirius tem certeza que Remus já deve ter uma ideia do que aconteceu na sua ausência, Sirius sempre usou esse tom quando se trata de seu irmão.
— Como foi o seu dia? — Sirius pergunta.
— Você sabe que não posso falar sobre as missões, então nem desperdice sua energia perguntando. — ele diz com seu rosto se contorcendo de desconforto.
— Foi perigoso? — Sirius continua a questionar.
— Sirius-...
— Por favor, Remus... você realmente não pode pensar que não me mata saber se você vai voltar ou não.
Remus solta um suspiro, talvez tocado pela emoção genuína e crua na voz de Sirius.
— Foi perigoso, mas nada que eu não possa superar. — a mão de Sirius aperta a sua com força novamente e Remus sorri com isso. Não é nenhum segredo que Remus adora o fato de Sirius se importar tanto com ele, embora ele odeie ter que lhe causar tanto estresse. No sentido de que ambos são muito semelhantes e às vezes isso pode se tornar um problema.
Sirius se esforça muito para decidir o que dizer agora, sentindo as palavras se formarem em sua mente em um conjunto incompleto de letras que se desintegram ao chegarem à sua garganta. Ele não sente falta de como o rosto de Remus parece horrível com círculos tão profundos sob os olhos, o leve mancar com que ele entrou no apartamento... Isso lhe dá uma raiva que parece justificada, mas ele não sabe bem de quem...
Isso o lembra de como o estado de Regulus parecia doentio...
— Quanto tempo ainda temos que lutar? — ele pergunta abruptamente. O peso do tempo e do sofrimento parece pairar sobre sua cabeça. Sirius nunca se sentiu tão cansado como agora. — Essa nem é a nossa guerra, Moony, não fomos nós que a começamos.
— Quer tenhamos começado ou não, devemos ser nós a terminá-lo. — Remus responde sabiamente. — Ninguém mais fará isso se não fizermos.
— Dumbledore poderia fazer isso. — Sirius aponta, sentindo-se momentaneamente ressentido com seu ex-diretor. — Se ao menos ele tivesse coragem de ir e enfrentar aquele idiota.
— Não é que Dumbledore não queira fazer isso, ele não pode.
— E o que o impede? Quantos mais vão morrer até que ele decida fazer mais do que orquestrar planos inúteis? — não é a primeira vez que Sirius se ressente com o velho diretor, Sirius nunca foi capaz de confiar nele. Na realidade, ele nunca sentiu que deveria, pois lhe foram dadas razões para confiar, mas seus instintos gritam para ele não se deixar ficar muito confortável quando se trata de Albus Dumbledore.
— Ele tem seus motivos, temos que confiar nele. — Remus tenta apaziguar, mas como acontece com velhas discussões, isso vem com uma nota de cansaço. — Essa guerra não pode durar para sempre, em algum momento alguém vai cair e espero que não sejamos nós.
— Estou cansado, Remus. Acho que não posso mais fazer isso. — Sirius respira fundo, mas o ar não parece puro o suficiente.
A vulnerabilidade paira no ar. Ao ler os jornais, ao ouvir as conversas no ministério, Sirius descobre que o fim está cada vez mais distante.
— Eu sei, amor. Eu sei. — Remus deixa sua testa descansar onde suas mãos se unem. Eles ficam assim por muito tempo, o silêncio é uma companhia à qual eles se acostumam cada vez mais. Não é desconfortável, é triste: um breve momento de luto pelos jovens adultos que nunca se tornaram. Algo foi roubado deles e Sirius não é ingênuo o suficiente para não perceber. Os jovens da idade dele não deveriam fazer nada daquilo.
Algum tempo depois, conforme o ar esfria e a luz da janela é insuficiente, Remus pega as xícaras e as coloca na pia. Sirius se levanta da mesa, olhando fascinado para as manchas de poeira na madeira.
Ele suspira, se levanta e abraça o namorado por trás. Remus não perde o ritmo e continua lavando a pouca louça.
Algum dia a guerra terminará e Sirius usará o dinheiro da herança de seu tio para comprar uma casa no País de Gales e morar com Remus. Ambos viverão uma vida sem preocupações maiores do que garantir que James encontre a pessoa certa para se casar, e Peter obtenha seu mestrado em herbologia.
Algum dia Nymphadora poderá crescer sem ter que ser responsável por uma guerra que ela não começou, porque mesmo que ele morra, Sirius concorda com Remus que eles têm que acabar com ela.
Por mais animado que Sirius estivesse aos dezesseis anos para se juntar à Ordem para lutar, ele agora entende que nunca foi sua responsabilidade fazer isso, e não é algo que ele deseja para mais ninguém.
Sirius deixa a respiração de Remus acalmá-lo e acalmar sua mente. Ele fará vinte anos em alguns meses e sente que seus ossos estão velhos demais para essa idade.
Tudo pesa sobre ele e tudo dói. Ele sabe que é jovem, mas às vezes, quando pensa em todas as coisas pelas quais passou para chegar até aqui, sente que a juventude lhe foi roubada.
E se ele se sente assim, ele não consegue imaginar como deve ser para Remus ter que passar por toda essa guerra como um lobisomem. As luas não ficam mais fáceis com o tempo; na verdade, elas ficam mais desgastantes. O corpo e a mente de Remus ficam extremamente esgotados, e Sirius teme que um dia ele simplesmente desista. Que a dor e a rigidez sejam insuportáveis.
Ele ouviu falar de uma nova poção, uma espécie de facilitador para luas. Se Sirius tiver sorte, ele poderá estar aqui para comprar o primeiro lote. Qualquer coisa para ajudar Remus.
Qualquer coisa pelas pessoas que ele ama.
★
As reuniões da Ordem às vezes parecem um esforço fútil, como crianças num clube bancando heróis.
Quando Sirius decidiu se juntar, ele o fez não inteiramente porque acreditava nesse esforço de guerra, mas porque sentiu que era sua responsabilidade lutar ao lado de seus amigos pelo que eles acreditavam ser certo. Afinal, James poderia ser muito convincente, e qualquer sentimento de lealdade que Remus sentisse por Dumbledore acabaria por levá-lo até aqui.
Mas não adianta, ele pensa no fundo. Não é como se ele fosse dizer isso em voz alta, pois a única vez que ele fez isso terminou em uma briga entre seus amigos. Mas só porque ele não diz isso não significa que ele não acredita. Na verdade, todo esse esquema da Ordem da Fênix parece uma farsa.
Na teoria parece bom, a ideia parece nobre, mas a realização nada mais é do que jovens formados colocando a vida na linha de frente. Eles são inexperientes, minúsculos em comparação com os números estimados após Voldemort, e embora o departamento de aurores os apoie, no final é quase como se eles estivessem deixando o trabalho sujo e perigoso para crianças que não conseguem amarrar os próprios cadarços.
Parece que eles são bucha de canhão, ovelhas criadas para o abate.
E Sirius nunca quis ser uma ovelha, ele desistiu de seu próprio sangue — contaminado, doente — por isso e parece hipócrita que ele agora siga essas pessoas como um só.
— Diretor. — Mundungus chamou perto do final da reunião. É melhor que ele tenha algo bom para contar, pois Sirius só queria ir para casa. — Antes de terminarmos, tenho algumas... novidades. — Mundungus Fletcher, um homem baixo e de cabelos sujos com quem Sirius nunca sabe o que fazer. Ele é claramente um criminoso, indigno de confiança, mas ainda assim um ótimo companheiro de bebida. Ele não é um homem mau, mas Sirius também não o chamaria de bom. No mínimo, isso fez o homem ir a muitos lugares onde não deveria e ouvir coisas que não deveria ouvir.
— Vá em frente, Mundungus. — afirmou o diretor Dumbledore. — Houve notícias recentes sobre os Comensais da Morte? — o tom imperturbável de Dumbledore quase fez Sirius estremecer.
Desde a última vez que viu Regulus, parecia que os Comensais da Morte haviam feito uma pausa. Semanas sem muitas notícias deles. Não ter notícias deles é algo que Sirius vê com muita cautela, embora, para alguns membros da Ordem, seja visto como um sinal de que coisas boas estão por vir. E quanto a Dumbledore, é difícil dizer exatamente o que ele pensa.
— De fato, eu ouvi algumas coisas, diretor. — Mundungus respondeu lambendo os lábios em um gesto ansioso e grotesco. — Há um boato muito grande que vem ganhando força entre meu povo, se é que você me entende.
Sirius realmente não sabia o que Mundungus queria dizer, exceto Albus Dumbledore, ninguém parecia saber como Mundungus conseguia obter suas informações e estar, na maioria das vezes, certo.
— E o que poderia ser um boato tão escandaloso? — McGonagall pergunta, um pouco cética em relação às novas fofocas que alguém como Mundungus tem para contar. Sirius pode compartilhar o mesmo ceticismo, ou Mundungus está prestes a contar-lhes a verdadeira identidade de Lord Voldemort ou oferecer-lhes um desconto em jóias baratas roubadas. O homenzinho tem um lado dramático e, embora às vezes seja útil, muitas vezes não é.
— Por favor, Minerva, não faça essa cara. — Mundungus pede mostrando-se ofendido. — Acredite, o que tenho a dizer interessará a mais de um nesta sala. — com isso, os outros membros da Ordem que não tinham sido tão atentos à fala de Mundungus, ficaram com todos os olhares voltados para ele. O que poderia ser desta vez? Sirius se perguntou zombeteiramente. — Eu ouvi isso não faz muito tempo, ontem à tarde para ser mais preciso. Foi de um homem que vende ingredientes de poções para alguns Comensais da Morte, muito confiável, sim senhor. Ele disse que houve uma grande perda entre os seguidores de Você-Sabe-Quem.
— Uma grande perda? — James diz, franzindo a testa com curiosidade. — Uma deserção, você quer dizer?
— Ah, não, não. Não esse tipo de perda, Potter. Não... — Mundungus negou, seu tom baixo e conspiratório. Inclinando-se na beirada de sua cadeira, era como se Mundungus estivesse compartilhando uma grande revelação. — É dito que o próprio Lorde das Trevas acabou matando um dos seus. Ah, sim, e não foi só lá onde ouvi essa informação, também havia uns homens no bar que falaram sobre isso. É um boato forte, estou lhe dizendo, pode até estar nos jornais em breve. Tudo parece indicar que alguém tentou trair Você-Sabe-Quem, e ele pessoalmente teve que matá-lo. E você nunca vai adivinhar quem é.
Mundungus então faz uma pausa, seus olhos amarelados examinando todos dentro do cômodo, nutrindo a atenção e deixando os segundos passarem. Ele para para olhar cada um deles, Sirius até pensa que Mundungus o observa por mais tempo do que qualquer outra pessoa.
— Por favor, pare com esse suspense e nos diga o nome. — Moody explodiu, o velho auror está a um fio de cabelo de enfeitiçar Mundungus e finalmente mandá-lo para Azkaban.
A grosseria de Moody faz Mundungus pular no lugar, o homem agora perde qualquer fachada de misticismo.
— Regulus Black. — Mundungus deixa escapar, o silêncio cai sobre todos.
É como ouvir rádio de uma sala distante. Sirius reconhece o nome, ouve e entende, mas é confuso, não muito claro. É mais um som do que uma palavra, uma música antiga tocada na rua que você pode ouvir no conforto da sua casa. O nome é aquele que Sirius ouviu mais vezes do que gostaria, em diferentes contextos e em momentos indesejados. Dito nesta sala, Sirius quase acredita que será a última vez que ouvirá esse nome.
— Ele tentou traí-lo?
Sirius pulou ao ouvir a voz de Lily ao lado dele. Ela parecia confusa, incrédula e até um pouco divertida, como se a ideia de que alguém como Regulus ter a capacidade de trair seu mestre fosse boba. E é uma ideia boba, tão boba que Sirius nem acredita. Embora nunca tenha sido confirmado que Regulus Black era um dos seguidores de Você-Sabe-Quem, isso foi dado como uma certeza.
— Isso é o que dizem, Srta. Evans, estou apenas transmitindo o boato.
— Como sabemos que isso é verdade? Mesmo que seja, por que Você-Sabe-Quem seria o único a matá-lo? — Mary pergunta, seu olhar pesando na lateral do rosto de Sirius.
— O jovem Regulus Black era um bruxo talentoso. Sua aptidão para magia defensiva não é algo a ser ignorado, mas não vou negar que para alguém como Você-Sabe-Quem decidir acabar com sua vida pessoalmente deve ter sido uma situação verdadeiramente extraordinária... Ele provavelmente não confiava que seus próprios homens seriam capazes de realizar tal missão com sucesso garantido. — Dumbledore interrompe, seus olhos brilhando de confusão.
— Bem... Seja como for, Mundungus estava certo quando disse que Black é uma perda significativa. — Marlene diz com raiva enquanto mexe em sua varinha. — Eu nunca duelei com ele, mas ouvi dizer que ele era cruel, certo, Sirius?
Sirius não responde, entretanto, sua atenção se perde em um ponto na parede. Seu rosto está inexpressivo e ele parece, para todos os efeitos, desinteressado. Ele deixa seus olhos vagarem pelas pessoas na sala: lá está James do outro lado da mesa com uma expressão de choque. Ao lado dele está Peter, que torce as mãos ansiosamente.
A Professora McGonagall tem uma tristeza nos olhos que ela não tenta esconder, e Sirius quase pode jurar que há lágrimas ali.
Marlene franze a testa para ele, em parte preocupada, em parte aborrecida.
Mary e Lily estão de mãos dadas e discutindo algo em voz baixa.
Remus se aproxima dele discretamente com um copo d'água.
Dorcas... ele acha que nunca viu aquela expressão no rosto dela. Ela parece chocada, com a pele pálida, os olhos arregalados e imóveis da mesa. Ela se assemelha a uma estátua, Sirius nem consegue dizer se ela está respirando e, de alguma forma, ele sabe que deve estar parecido com ela.
As outras pessoas não parecem totalmente interessadas nisso enquanto discutem entre si e então Sirius finalmente chega à cabeceira da mesa. Lá o diretor Dumbledore está em silêncio, com o queixo apoiado nas duas mãos em um gesto pensativo.
Por um segundo os dois fazem contato visual, Sirius não sabe o que seu ex-diretor está procurando, mas em um momento ele acena com a cabeça e no próximo sua atenção está em outro lugar.
As pessoas estão sussurrando, principalmente coisas pouco lisonjeiras sobre Regulus. Sirius sente vontade de defendê-lo, de azarar todas essas pessoas para que fiquem em silêncio. E ele faria isso, se não fosse pelo fato de que de repente fica mais difícil identificar o que está ao seu redor. Eles poderiam estar discutindo por horas ou segundos, e para Sirius seria exatamente a mesma coisa; eles poderiam ter tentado falar com ele e Sirius não saberia.
Por que ele sente tanta raiva? Por que ele se sente tão perdido? Regulus era, na melhor das hipóteses, como um gatinho zangado, nunca tão cruel quanto seus pais ou primas.
— Eu acho que, se ninguém mais tem mais nada para compartilhar, é hora de encerrar esta reunião. — Albus Dumbledore se levanta, e com ele outros membros fazem o mesmo. — Discutiremos isso em outro momento, quando tivermos uma confirmação mais certa.
Anticlimático, pensa Sirius, é a palavra para descrever a situação. O diretor Dumbledore pede a todos que saiam da sala, com um brilho nos olhos que não é exatamente o brilho jovial de sempre. Algumas pessoas tentam se aproximar — Marlene, Lily, Minnie... — mas todas saem lentamente do escritório da Mansão Potter, deixando apenas seus amigos mais próximos como companhia.
— Sirius? — James coloca a mão no ombro do amigo. Ele o sacode um pouco e só então os olhos de Sirius enxergam claramente novamente.
— Eu, hum... desculpe? — ele pergunta confuso. Sua mente estava entorpecida, seu corpo parecia estar sob anestesia.
Ele não sentiu nada, não pensou em nada. O que eles disseram, quais foram as grandes novidades de Mundungus?
— Amor, como você está se sentindo? — Remus pergunta cuidadosamente.
— Bem. — Sirius diz, principalmente porque pensou que isso iria tirar as marcas de preocupação do rosto de Remus. Sua voz não soava como sua voz, o ar não parecia suave contra sua pele, nada parecia certo.
Num movimento calculado, Sirius se levanta. Seu estômago se revira e ele sente vontade de vomitar.
O que Mundungo disse?
Regulus...
Regulus... ele...
Sirius empurra seus amigos para fora do caminho e corre para a porta. Ele conhece de cor a casa dos Potter, sua casa, então mesmo com a visão turva ele consegue andar com a mão na parede até chegar ao banheiro do corredor.
Com a mão na maçaneta, Sirius empurra a porta. Ele tropeça e cai de joelhos na frente do vaso sanitário. A bile sobe em sua garganta, uma sensação ácida queimando a mesma. O vômito sai dele antes que ele possa pensar muito sobre isso, sons de vômito inundam o banheiro e ao fundo Sirius percebe a presença de seus amigos na porta.
A certa altura, não havia mais nada em seu estômago, mas Sirius não conseguia parar de vomitar. Seu corpo tremia incontrolavelmente, com calafrios, e o suor escorrendo por sua pele. Ele poderia jurar que sua temperatura havia subido, mas não tinha certeza.
Finalmente, depois de alguns minutos que pareciam eternos, Sirius para de vomitar. Ele respira, grandes lufadas de ar entrando pela boca e saindo pelo mesmo lugar.
O que Mundungus disse?
Regulus...
Regulus havia...
Seu irmão havia...
Sua respiração acelera, aquela dormência em seu corpo desaparece e de repente Sirius sente tudo. Sente o frio da cerâmica do banheiro, sente as pontas dos cabelos molhadas com o vômito.
Ele sente seu coração partido.
Ele não pode... Regulus não pode...
Não é verdade.
Mas Sirius sabe que é.
Há uma parte dentro dele, aquele fio invisível que o ligava ao irmão mais novo. O sangue talvez, o sangue que ambos compartilham, queimando.
Regulus está morto, seu irmão mais novo está morto. Ele não existe mais... Não foi há apenas alguns dias que Sirius o viu? Não foi há apenas alguns dias que ele estava vivo?
Não foi há pouco tempo que Regulus quase se ajoelhou para Sirius ouvi-lo por mais um segundo?
Não foi há poucos dias que Sirius disse para ele ir embora?
Não é possível, Sirius não acredita. O irmão dele não pode estar morto, não Regulus.
Ele não está morto.
Não, não, ele não está morto. Regulus não está morto, porque ele é jovem, teimoso e muito inteligente. Ele não está morto, porque não pode estar. Ele é uma criança, crianças não deveriam morrer tão cedo. Ele tem dezoito anos, isso é menos da metade do tempo que ainda lhe resta de vida.
Ele não pode morrer, porque é o mais novo, é o mais novo e os irmãos mais novos não devem morrer antes dos mais velhos.
Mas seu irmão morreu e Sirius não precisa esperar nenhuma confirmação para saber disso. Há um vazio em seu coração, um espaço que ele pensou por muito tempo ter fechado, mas agora ele pode sentir o eco retumbante, a compreensão avassaladora de que falta uma parte dentro dele. De que algo foi perdido.
Regulus não está mais aqui, ele se foi. Eles o levaram embora.
Seu irmão, seu irmão que era muito jovem, seu irmão que Sirius passou muito tempo vendo quando tinha oito anos, não importa se ele tinha dezesseis ou dezoito anos. Seu irmão, seu irmão mais novo... há algo inegavelmente quebrado agora. Sirius não tem certeza se é seu coração, sua consciência ou sua alma.
Há algo quebrado e Sirius sabe que nunca poderá ser consertado.
E Sirius pode se sentir sufocado, ele não consegue respirar de forma alguma.
Há um som horrível que percorre o banheiro e arranha seus ouvidos. Com surpresa, Sirius percebe que é ele, é ele quem está fazendo aquele som.
É o seu grito.
Foi culpa dele? Ele pensa. Por não ajudar Regulus quando pôde.
Ele o matou, disse Mundungus. O próprio Voldemort tirou a vida de seu irmão. Regulus está morto, um Lorde das Trevas o matou.
O conceito não lhe é estranho, Sirius já matou antes. Nesta guerra não se pode esperar sair de mãos limpas e Sirius fez a sua parte, matou e não se orgulha disso, mas também não se envergonha de ter feito o que era necessário.
Mas agora há um novo tipo de sujeira em suas mãos, o tipo de sujeira invisível para todos, menos para ele.
Sirius matou, mas ele nunca esperou que fosse matar seu próprio irmão.
Ele matou Regulus. Ele olhou nos olhos do irmão e o matou, pegou a arma e atirou nele. Se seu irmão está morto, não é porque Voldemort decidiu acabar com sua vida, é porque Sirius decidiu fechar a porta para ele, decidiu deixá-lo naquela casa, decidiu esquecer que um dia amou Regulus mais do que a própria vida.
Ele não pode... ele não pode negar a verdade.
Se Regulus está morto é porque Sirius fez isso. E a dor que ele sente agora no coração é apenas um lembrete de que, no final das contas, é ele quem fica de pé e seu irmão quem apodrece no chão.
O som de seus gritos era demais, machucava seus ouvidos e dificultava a passagem do ar. Ele se perguntou se Regulus havia chorado no final, se em seus últimos momentos ele desejou desesperadamente que seu irmão mais velho o salvasse... Se ele gritou seu nome enquanto um maníaco o torturava.
Haveria um corpo ou o corpo de seu irmão teria ficado irreconhecível? Foi rápido? Seria possível que esse monstro tivesse pena dele?
Regulus nunca foi bom em suportar a dor, era sempre seu irmão mais velho que estava lá para suportar o pior por ele. Mas se Sirius não estava lá, quem suportou a dor por Regulus? Ele estava com medo? Ele estava sozinho?
Seu coração dispara com o pensamento. O pior de tudo é se Regulus tivesse morrido sozinho. Mas... ele estava sempre sozinho. A partir do momento em que Sirius decidiu deixá-lo, Regulus ficou sozinho. Sirius havia abandonado seu irmão duas vezes, e agora Regulus o estava abandonando para ir para um lugar onde não ele pudesse alcançá-lo.
Ele quer abraçá-lo, dizer-lhe que não era verdade. Que qualquer bobagem que Sirius gritou na última vez que eles se viram não era verdade. Ele quer ter seu irmão nos braços e abraçá-lo, como quando ele era um menino muito pequeno, com medo dos gritos dos pais, como na noite anterior à partida de Sirius para Hogwarts. Ele quer tê-lo de volta e jura que vai melhorar, ele será o melhor irmão mais velho e seu melhor amigo e seu confidente e sua família e... Sirius será tudo e qualquer coisa, só por favor, por favor volte.
Se Regulus quiser colocar fogo no mundo, ele lhe dará o fósforo. Se Regulus quiser matar todo mundo, ele fará o trabalho sujo. Se Regulus quiser voar em sua vassoura, Sirius será o primeiro a se oferecer para ir com ele. Se Regulus quer o mundo, tudo o que ele precisa fazer é pedir. Mas por favor, por favor, por favor, traga-o de volta, traga-o de volta.
Ele o odeia, ele o ama. Odeia o filho dos pais e ama o irmão. Ele despreza o complacente Regulus Black, mas ama o sarcástico Reggie. Há uma dualidade gritante, mas no final tudo o que ele sente é dor, dor pelo adolescente que não conseguiu salvar, dor por um amor que talvez nunca tenha sido extinto.
E enquanto ele continua a rasgar a garganta com seus gritos, ele se vê incapaz de gritar o nome que tanto deseja. Ele não é digno de dizê-lo, não mais. Como poderia o assassino ousar gritar o nome de sua vítima?
Ele geme enquanto Remus tenta levantá-lo. Ele solta um som moribundo enquanto o namorado afasta o cabelo do rosto com mãos gentis.
Regulus, o Comensal da Morte, Regulus, o Sonserino, Regulus, o herdeiro da Nobre e Antiga Casa Black... Regulus que colecionava anéis, Regulus que chorava quando falava rudemente com os elfos, Regulus que não conseguia pronunciar o R até os dez anos ... no final das contas eles eram a mesma pessoa, não eram? Eles eram seu Regulus, seu irmão, ele sempre será seu irmão, sempre o mesmo garotinho que olhava para ele com olhos brilhantes.
Sirius sempre soube que seria o mais velho, era assim que as coisas funcionam. Ele nasceu dois anos antes de Regulus e sempre será dois anos mais velho. Mas agora o tempo vai passar e não serão somente dois anos, serão três, quatro, cinco, dez... Regulus sempre terá dezoito anos e Sirius terá... ele viverá.
— Sirius, vamos, amor. Tente respirar, ok? — as mãos de Remus massageiam suas costas, círculos que deveriam ser relaxantes, mas em vez disso apenas fazem o tecido da camisa subir e queimar sua pele.
— Aqui, pegue isso, Pads. Beba devagar. — James diz em um tom gentil que ainda machuca os ouvidos de Sirius. Ele não olha para cima para ver o que está sendo oferecido, água com certeza, uma poção no máximo. Mas ele não queria beber nada, não queria se livrar da queimação na garganta. Ele tinha que sentir isso, ele tinha que viver isso. Ele não podia se permitir esquecer os erros que cometeu.
— Sirius, cara, por favor, tente beber. — a voz suave de Peter o guia para estender a mão e envolver o copo com os dedos. Mas ele não bebe, contenta-se em sentir o suor da água fria escorrendo pelos dedos.
Quando ficou claro que Sirius não iria parar de hiperventilar tão facilmente, Remus decidiu levá-lo para a sala. Ele ainda estava murmurando pequenas instruções para o namorado, ainda tentando encorajá-lo a deixar sua respiração se acalmar, a parar os soluços.
Remus o ajudou a se sentar no sofá, abraçou-o pelos ombros e permitiu que ele deitasse a cabeça em seu pescoço.
Sirius não tenta explicar seus sentimentos, não quer ouvir palavras vazias para animá-lo. Ele não quer ouvir nada de pessoas que nunca entenderão esse buraco que se formou em seu coração. Eles nunca conseguiram entender, aquele pequeno remorso quando ele fugiu, o lampejo de nostalgia quando viu um trio de sonserinos rindo nos corredores. Sirius nem sabe se isso é algo que outros irmãos conseguem entender.
O que ele sente agora, o que terá que sentir nos próximos anos de sua vida... não é algo que ele possa esperar que James ou Remus entendam como crianças que cresceram sem uma pequena sombra os seguindo. Ele não pode esperar que Peter entenda isso, como alguém que nunca teve que proteger outra pessoa pequena da violência de sua família.
Sirius não é perfeito, cometeu erros de enormes proporções. Mas este: não deixar o irmão entrar, levá-lo à morte... este talvez seja o pior de tudo.
— Me perdoe.
Os meninos ficam em silêncio. Eles parecem frenéticos, como se temessem que Sirius tivesse enlouquecido.
— Me perdoe.
— Está tudo bem Pads, não há nada a perdoar.
E Sirius chora mais por causa disso. Não por causa do que James disse, é mais porque James não é a pessoa de quem ele gostaria de ouvir isso.
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Há um lugar para onde você foi e onde não posso segui-lo.
Há um lugar para onde você foi, onde você e eu nos encontraremos novamente.
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abril, 1967
A família Black tem muitas residências, mas a favorita de Sirius é a Mansão na França, nos arredores de Giverny. A mansão é extremamente bonita, com grandes janelas que deixam entrar luz em todos os cantos. Não é nada parecido com Grimmauld Place, e Sirius mal pode esperar para ser oficialmente nomeado herdeiro e fazer da mansão sua residência permanente.
Neste momento, eles estão lá para visitar os avós: Vovô Arcturus e Vovó Melania. Ambos são muito amorosos, sempre mimando os netos, embora raramente os vejam. Mas não é por causa deles que Sirius adora vir para a mansão.
Sirius adora vir para a mansão porque aqui sua mãe não ousa levantar a voz, aqui seu pai não tem escolha a não ser parar de beber.
Na mansão, mesmo que apenas por alguns dias, eles fingem que não são monstros em roupas caras.
Aqui os prados verdes eclipsam o cinza sujo da cidade.
— Siwi. — Sirius olha para seu irmão mais novo. Regulus tinha bochechas rosadas e uma coroa de flores mal feita no cabelo. Em suas mãos esta outra coroa e, ao fundo, Sirius pode ver sua prima Narcissa rindo junto com Andromeda, ambas com uma montanha de flores ao seu redor.
— Isso deveria ser para mim? — Sirius pergunta, observando algumas pétalas caírem da coroa que Regulus estendeu para ele.
— Uh-huh, Cissy que fez. — Regulus se aproxima, mostra a língua em um gesto de concentração e arruma o enfeite entre os cabelos de Sirius. — Aqui, agora somos iguais.
— Não somos sempre? Somos uma família, somos parecidos.
— Siwi bobo, não é isso que eu quero dizer. — Regulus faz beicinho e faz uma careta para ele. Sirius ri, gostando de provocar seu irmão mais novo. Regulus pode ser tão fácil de irritar, mas é preciso sempre ter cuidado, uma palavra a mais e as lágrimas vêm facilmente.
— Devo ter entendido mal então, talvez você devesse praticar esses 'ers'. — Sirius responde, esticando o som R até que sua voz infantil permita.
Isso não agrada Regulus, que baixa os olhos e franze os lábios. Quando Regulus parece prestes a chorar, Sirius o puxa pelo braço para deitar na grama ao lado dele. Ele enfia o dedo nas bochechas do irmão mais novo e arruma a coroa nos cachos macios de Regulus com a outra mão.
— Se você chorar, seus olhos ficarão inchados.
— Então não seja mau comigo. — Regulus diz fungando, pequenas lágrimas escapam do canto de seus olhos e seu nariz começa a ficar vermelho. Algo na mente infantil de Sirius sussurra para ele que Regulus está apenas sendo dramático, mas, aquilo sendo real ou não, fazer seu irmão chorar sempre dói em seu coração.
— Eu sou seu irmão mais velho, é meu trabalho ser mau com você. — Sirius raciocina com o tipo de conhecimento que chega tão facilmente às mentes jovens, àqueles com corações nobres.
— Então, qual é o meu trabalho?
— Ser um aborrecimento.
— Mas eu não quero ser um aborrecimento, você vai ficar bravo comigo.
— Isso não importa, você pode ser o maior aborrecimento do mundo inteiro e eu não poderia ficar bravo com você para sempre.
— Por que?
— Porque eu sou seu irmão, para sempre. Faz parte do meu trabalho. — as respostas de Sirius vêm facilmente, com nada mais do que a verdade mais óbvia. A água molha, o sol queima, e Sirius Black nunca poderia deixar de amar seu irmão mais novo, não sem quebrar todas as regras naturais do universo.
Regulus então sorri, é um sorriso largo que não tem nada a ver com seus raros sorrisos em casa.
Sirius adora a mansão, porque é o lugar onde os dois são mais felizes.
